"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 10 de dezembro de 2011

África, berço da humanidade

Pintura nas rochas de Jabarén, no deserto do Saara, África. São reminiscências do período em que aquela região era fértil.

A mais marcante das singularidades africanas é o fato de seus povos autóctones terem sido os progenitores de todas as populações humanas do planeta, o que faz do continente africano o berço único da espécie humana. Os dados científicos que corroboram tanto as análises do DNA mitocondrial quanto os achados paleoantropológicos apontam constantemente nesse sentido.

Mulher e criança Khoisan

O continente africano, palco exclusivo dos processos interligados de hominização e de sapientização, é o único lugar do mundo onde se encontram, em perfeita sequência geológica, e acompanhados pelas indústrias líticas ou metalúrgicas correspondentes, todos os indícios da evolução da nossa espécie a partir dos primeiros ancestrais hominídeos. A humanidade, antiga e moderna, desenvolveu-se primeiro na África e logo, progressivamente e por levas sucessivas, foi povoando o planeta inteiro. Portanto, as atuais diferenças morfo-fenotípicas entre populações humanas - as chamadas "raças" - são um fenômeno recente na história da humanidade (presumivelmente do final do Paleolítico superior, 25000 a.C. - 10000 a.C.). E a ciência já descartou como anticientífica a ideia de que o morfo-fenótipo possa incidir de algum modo nos processos intelectuais de socialização ou de aquisição/aprimoramento de conhecimentos. [...]

Caçadores Khoisans

A história da espécie humana se confunde com a própria história da África, onde se originaram, também, as primeiras civilizações do mundo. Cada novo descobrimento da paleantropologia ou da antropobiologia no continente africano provoca novas ondas de choques e embates entre os cientistas, pois tais descobrimentos invalidam complexos esquemas teóricos até então tidos como definitivos, complicando ainda mais o quadro das interpretações sobre a evolução humana.

Mulher Khoisan de Botswana

As novas interpretações dos dados científicos remetem à grande complexidade do acontecer humano como um dado essencial e permanente da história. Ao mesmo tempo, geram a necessidade de realizar constantes atualizações da história do continente africano. Essa situação deve ser celebrada, pois enfraquece cada vez mais os velhos mitos e esquemas preconceituosos que chegaram até a colocar em dúvida a própria essência humana dos seres africanos. Ora, a história da humanidade começa precisamente com os primeiros seres humanos africanos, seres dotados de consciência, de sensibilidade, e não somente de inteligência.

Jovem Khoisan

Certa tradição eurocêntrica e hegemônica costuma alinhar o fato histórico com a aparição, recente, da expressão escrita, criando os infelizes conceitos de povos "com história" e de povos "sem história", que, eventualmente, o etnólogo Lucien Levy-Bruhl iria transformar em "povos lógicos" e "povos pré-lógicos". Mas a história propriamente dita é a interação consciente entre a humanidade e a natureza, por uma parte, e dos seres humanos entre si, por outra. Por conseguinte, a aparição da humanidade como espécie diferenciada no reino animal abre o período histórico. O termo "pré-história", tão abusivamente utilizado pelos especialistas das disciplinas humanas, é uma dessas criações que doravante deverão ser utilizadas com maior circunspeção.

WEDDERBURN, Carlos Moore. In: Brasil. Educação antirracista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03 - Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade: MEC/BID/UNESCO, 2005. p. 135-137.


sábado, 17 de setembro de 2011

A Pré-história: das origens até 3000 a.C.

"Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pelos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas." (GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.)

Pintura rupestre do povo Sam, África do Sul
"A linguagem da arte é poderosa para as pessoas que a compreendem, e intrigante para quem não a compreende. O que sabemos é que aqui estava a mente moderna em funcionamento, gerando simbolismos e abstrações de um modo que somente o Homo sapiens é capaz de fazê-lo."
(Richard Leakey, paleontólogo)

1. Pré-história: crítica ao termo. Tradicionalmente, costuma-se dividir o processo histórico em Pré-história e História, sendo a utilização da escrita o fato que distingue uma sociedade pré-histórica ou "primitiva" de outra sociedade histórica ou "civilizada".

O estudo da Pré-história trata de aspectos da vida de povos que não tiveram escrita. Alcança um período cerca de cem vezes maior do que o abrangido pela História escrita. Os mais antigos documentos escritos do Egito ou da Mesopotâmia datam aproximadamente de 5000 anos e sabe-se hoje que os primeiros grupos humanos surgiram há mais de 600 ou 500 mil anos! Portanto, tal divisão da História limita o seu próprio campo.

As escritas constituíram-se quando apareceram os primeiros instrumentos de metal e já se encontravam bem desenvolvidas quando surgiram os instrumentos de bronze e se iniciou a vida urbana. Assim, o aparecimento da escrita pressupõe um determinado desenvolvimento das forças produtivas e da capacidade mental dos homens. Mas qual terá sido o benefício social para a massa de um povo, para a classe trabalhadora dessas sociedades onde se elaboraram sistemas gráficos? Essa grande transformação cultural foi aproveitada pela sociedade como um todo? De modo algum. Durante vários milênios, a escrita e também o metal foram privilégios apenas de uma parcela da população. A massa das sociedades permaneceu iletrada até pelo menos a Revolução Industrial dos séculos XVIII/XIX. Assim, na verdade, a cultura "Pré-histórica" coexiste com as chamadas "civilizações". Mas nem por isso se poderá dizer que as sociedades da Idade Média, por exemplo, viviam na Pré-história!

Himbas, Namíbia.
Foto: Rosier

Uma outra descoberta, por certo, foi muito mais revolucionária e muito mais significativa do que a invenção da escrita: o controle do fogo. (AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.)

2. Estudo da Pré-história. A base para os estudos pré-históricos são as escavações em sítios arqueológicos, que trazem à luz um número cada vez maior de fósseis (literalmente, tirados da terra): resíduos de seres vivos - plantas, animais, ossos etc. - petrificados ou endurecidos, depois de permanecerem por longo tempo soterrados entre as camadas de rochas. Nos sítios, é recolhido também todo e qualquer objeto produzido ou utilizado pelos seres humanos, além da investigação de registros por eles deixados, como pinturas em rochas.

Para esse estudo concorrem diversas ciências voltadas para o conhecimento histórico propriamente dito: arqueologia, antropologia, paleontologia. Além dessas, o estudo de vestígios e registros pré-históricos vale-se de pesquisas de outras áreas e  de técnicas ligadas à investigação da constituição física da Terra e ao conhecimento dos seres vivos, como geologia, geografia e biologia.

Uma das principais contribuições para os estudos da Pré-história vem da química e da radiologia, que possibilitam, por meio de medições dos isótopos radioativos de certos elementos químicos (como o carbono 14), datações cada vez mais precisas dos objetos e vestígios humanos antigos.

Outro recurso empregado pelos estudiosos do passado remoto da humanidade é o da etnologia comparada, que permite estabelecer hipóteses, e mesmo algumas interpretações, a partir do conhecimento sobre os atuais povos iletrados. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.)

3. Passado presente. Numerosos povos de caçadores atingiram o século XIX e início do século XX, tempo suficiente para serem estudados por etnólogos e antropólogos físicos e sociais. Hoje, as atividades de caça e coleta são representadas pelos bosquímanos, esquimós e aborígenes australianos. Eles abrangem apenas algumas centenas de milhares do total da população mundial, mas fornecem uma possibilidade valiosa e única de compreensão das atividades primitivas humanas.

Senhoras Himba, Opuwo, Namíbia.
Foto: Hans Hillewaert

Estudos recentes revelam estreito relacionamento entre povos caçadores e seu ambiente natural, relativa simplicidade da cultura material (apenas 94 artefatos existem entre os bosquímanos kung), ausência de acúmulo de riqueza individual [...].

As unidades sociais, bandos ou hordas, são pequenas: grupos de familiares e poucos amigos que podem viver e trabalhar em conjunto. Estudos recentes contradizem a visão tradicional da vida de caça como grosseira, embrutecedora e curta, e como uma luta constante contra o ambiente hostil. Com efeito, as exigências de subsistência dos bosquímanos são satisfeitas por um pequeno esforço - talvez até de dois ou três dias de trabalho por semana, para cada adulto; não precisam se empenhar por recursos de alimentação; suas atitudes em relação à propriedade são flexíveis e seus grupos admitem recém-chegados de outros grupos. [...]

Há evidências de que a expectativa de vida nas comunidades de caça e coleta não é necessariamente curta. Doenças infecciosas são raras, já que as pessoas se estendem por diversas terras, tornando mais difícil o contágio entre grupos [...]. (BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35)

4.  O início da vida na Terra. De acordo com os geólogos, a Terra teria tido origem, há cerca de 4 a 5 bilhões de anos, de uma bola incandescente de vapores e gases. De seu resfriamento progressivo formaram-se a atmosfera e a crosta terrestre.

A crosta terrestre chegou a seu aspecto atual no decurso de numerosas transformações que se processaram através de bilhões de anos. Essas transformações foram classificadas pelos cientistas em várias eras, acompanhando a formação física da Terra e o aparecimento da vida vegetal e animal.

* Azóica (sem vida). Formação das rochas ígneas (formadas pelo fogo) e de uma atmosfera carregada de gases.

* Arqueozóica (vida arcaica). Primeiras chuvas. Formação de oceanos, numerosos vulcões, altíssimas montanhas. Surgiram as primeiras formas de vida, seres unicelulares, algas marinhas.

* Proterozóica (vida elementar). Formação de rochas sedimentares. Aparecimento de esponjas, corais, primeiras plantas com raízes.

* Paleozóica (vida antiga). Surgiram enormes extensões cobertas por samambaias gigantescas; sua decomposição determinou a formação de grandes jazidas de hulha (carvão mineral). Essa era é também chamada primária, pois nela se iniciou a evolução da espécie animal, - moluscos, peixes, anfíbios, insetos, - favorecida por um clima quente e úmido.

* Mesozóica (vida média) ou secundária. Era de grandes erupções vulcânicas modificando o aspecto da crosta terrestre, levantando algumas das mais altas cadeias de montanhas da atualidade: Himalaia (Ásia), Andes (América do Sul), Rochosas (América do Norte). Evoluíram formas mais complexas de vida: répteis, aves, primeiros mamíferos.

* Cenozóica (vida recente) ou terciária. Nessa era ocorreu grande queda de temperatura, determinando a formação de colossais massas de gelo nos pólos. No hemisfério norte essas glaciações avançaram sobre grande parte da Europa, América e Ásia. Multiplicaram-se os mamíferos, surgindo os chamados primatas, dos quais, na era seguinte, evoluiria o homem.

* Neozóica (vida nova) ou quaternária. Nesta era alternaram-se períodos de glaciações com períodos de intenso calor. Desapareceram certos animais (o mamute, por exemplo), que conhecemos apenas pelos fósseis (restos petrificados de bichos e plantas) encontrados nas diferentes camadas de rochas do nosso planeta; outros animais (rena, alce, bisão) fixaram-se em regiões junto às zonas árticas. Quando cessaram as glaciações o homem já havia surgido e continentes e oceanos já haviam adquirido sua forma atual.

5. A evolução do homem na Terra. Os mais antigos ossos humanos até agora encontrados em várias partes do globo atestam que o homem apareceu há mais de 1.000.000 de anos. Os ossos encontrados apresentam grandes diferenças entre si, mostrando a evolução da espécie humana através dos tempos.


"O aparecimento do Homem sobre a terra é indicado pelos instrumentos que ele faz". 
(Gordon Childe, arqueólogo)

* Zinantropo e Australopiteco, descobertos, pela primeira vez, no século XX, na África. Existiram há cerca de 1,5 milhões de anos e foram considerados muito próximos dos macacos.

* Homem de Java, aí descobertos, pela primeira vez, no fim do século XIX. Existiu de 500000 a 2000000 a.C. e foi considerado o primeiro tipo de homem; conhecido por Pithecanthropus erectus (homem-macaco de pé).

* Homem de Pequim, aí descoberto, pela primeira vez, no princípio do século XX. Foi contemporâneo dos últimos pitecantropos.

* Homem de Neandertal, descoberto, pela primeira vez, na Alemanha, em meados do século XIX. Existiu de 200000 a 50000 a.C.


Representação moderna de família de Neandertais. 
Os Neandertais viveram em áreas do norte e oeste da Eurásia na última Idade do Gelo. Os Neandertais eram caçadores-coletores. Criaram armas e ferramentas de pedra. O mamute-lanoso, o veado com chifres de Bush e o gato de dentes de Sabre são os animais extintos da época do Pleistoceno. O cavalo da Eurásia, o Orix, o Lemming em faixas e o boi-almiscarado são animais que ainda existem. Ilustração: Randii Oliver


* Homem de Cro-Magnon, ou homo sapiens, isto é, homem que raciocina. Descoberto na França, em meados do século XIX, é o antepassado do homem atual.

Além dos restos humanos ainda foram encontrados, nas várias camadas da Terra, utensílios e armas usados pelos homens primitivos, permitindo-nos reconstituir pelo menos em parte o tipo de vida que levaram e acompanhar sua evolução. Conforme as técnicas que o homem foi inventando para viver e sobreviver em seu ambiente, e dele tirar proveito, dividiram-se os longos tempos de sua Pré-história em três períodos: Paleolítico, Neolítico e Idade dos metais.

Neandertais MoustierCharles R. Knight

6. Os grandes períodos da Pré-história. É provável que os primeiros homens se tenham servido de galhos de árvores e pedaços de pau a fim de desenterrar raízes, derrubar frutos, fisgar peixes, matar animais e para se defender. Nada, porém, restou desses instrumentos que o tempo se encarregou de destruir. Os instrumentos mais antigos encontrados em escavações são de pedra, de chifre ou de marfim. Como os objetos de pedra são mais numerosos, chamou-se ao primeiro período da Pré-história de Idade da pedra. E como os diferentes tipos de armas e utensílios eram alguns mais toscos, outros mais aperfeiçoados, dividiu-se a Idade da pedra em pedra lascada, ou Paleolítico, e pedra polida, ou Neolítico. Quando os homens descobriram como fazer uso dos metais teve início a Idade dos metais; e quando, por volta de 3000 a.C., o homem inventou a escrita, podendo assim registrar fatos significativos de sua existência, usos e costumes, teve início a História.

* Paleolítico. Durou desde o aparecimento do Pitecantropo - cerca de 600000 a.C. - até aproximadamente 10000 a.C., quando já aparecera o homem de Cro-Magnon, o homo sapiens.

No começo os homens eram nômades, vivendo em busca do alimento pela coleta de frutos, ervas e raízes, comendo insetos, peixes e pequenos animais, às vezes capturados em armadilhas rudimentares. Aos poucos aprenderam a fabricar instrumentos de pedra, sobretudo de sílex, lascando-os com outra pedra. Com os primeiros instrumentos, espécie de machados, puderam caçar animais maiores, atirando sua arma à distância, e foram fazendo novos instrumentos, de acordo com a necessidade: lanças, arpões, anzóis e, mais tarde, agulhas de osso, arcos e flechas. Com o aperfeiçoamento das armas os homens dedicaram-se à caça, e a coleta ficou a cargo das mulheres, das crianças e dos velhos. As peles dos animais mortos serviam de roupa e eram costurados com fios obtidos dos tendões da caça abatida.


Bisão, Loius Agassiz Fuertes

Conforme as regiões habitadas abrigavam-se em cavernas ou em choupanas feitas de galhos, cobertas de folhas. Aos poucos perderam o medo do fogo provocado na natureza por combustão espontânea ou por raios, descobriram sua utilidade e aprenderam a acendê-lo. Passaram a assar a carne e a cozinhar vegetais em sacos de pele. Junto ao fogo se reuniam, descansavam e se protegiam do frio e dos ataques de animais ferozes.


Diálogo de gerações - o elo constante da civilização.
As experiências vividas sempre são úteis aos novos projetos. Os mais velhos abrem frentes de meditação e explicação, sejam no campo dos bens materiais, sejam nas questões do espírito.

* Neolítico. Estende-se de cerca de 10000 até aproximadamente 4000 a.C.; denomina-se também Idade da pedra polida, pois nessa fase os homens aprimoraram os instrumentos de pedra, polindo-os e tornando-os também mais afiados. Fizeram muitos novos utensílios, tais como facas, foices, enxadas e vasilhas para guardar ou cozinhar alimentos. O homem descobriu como utilizar a argila (fim do sexto milênio a.C.), modelando recipientes que eram depois cozidos ao fogo para adquirir resistência; descobriu como tecer fibras vegetais e pelos de animais para fazer roupas mais práticas e adequadas a vários climas, a trançar cestos e balaios, a construir barcos e jangadas escavando ou unindo troncos de árvores.

Instrumentos de trabalho do período Neolítico

Entretanto, a realização mais importante, mais significativa, do homem do Neolítico foi ter dado início à agricultura (ca. 8000 a.C.). As primeiras formas de agricultura desenvolveram-se na Ásia Menor (Mesopotâmia), onde tamareiras, oliveiras, figueiras, macieiras e outras plantas cresciam espontaneamente em grande quantidade.

Observando o ciclo de crescimento das plantas aprendeu a cultivar para produzir e colher cereais, frutos e legumes. Deixou, pois, de ser apenas coletor e caçador e, como agricultor, fixou-se ao solo, tornando-se sedentário. Passou a viver em moradias de pedra, barro, tijolos ou madeira, muitas vezes sobre palafitas, à beira de lagos, agrupadas em núcleos cada vez maiores que formaram as primeiras aldeias, reunidos em tribos - grupos de famílias unidas pelos mesmos interesses e mesmos laços de sangue.

Capturando animais selvagens, para tê-los como reserva alimentícia, aprendeu a domesticá-los e a aproveitar-se do que eles ofereciam, como leite e lã. No fim do Neolítico o homem já havia domesticado o cachorro, o carneiro, a cabra, o boi, o porco, o cavalo e outros animais, segundo as regiões do globo que habitavam. Assim, além de agricultor, tornou-se também criador e desenvolveu o pastoreio.

O Neolítico assinalou grandes modificações na vida dos homens: agricultura e criação permitiram-lhes divisão de trabalho, cooperação entre grupos, uma existência mais organizada, contar com reservas de alimentos e iniciar um tipo primitivo de comércio, baseado em trocas, desenvolver o sentido de propriedade (terras, produtos, animais).

Das regiões da Ásia, onde, nesse período, houve grande aumento de população, a agricultura se irradiou gradativamente em direção à Europa, com migrações de numerosos grupos em busca de novas terras.

* Idade dos metais.  Assim como o homem descobriu, pela observação e o raciocínio, como aproveitar e trabalhar as pedras, pedaços de ossos, chifres de animais e madeira, da mesma forma aprendeu a trabalhar os metais que encontrou no solo. O primeiro metal utilizado foi o cobre (no VI milênio a.C.), de início martelado a frio, depois fundido ao fogo e moldado em forma de barro ou de pedra, para feitura de ornamentos e lâminas de facas. Sendo um metal mole, o cobre não substituiu totalmente a pedra, que continuou sendo usada para instrumentos ou armas que exigiam grande resistência. Mais tarde o homem descobriu a liga do cobre com o estanho, obtendo assim o bronze, metal mais duro, que foi largamente empregado na fabricação de lanças, espadas, capacetes e objetos de adorno. Descobrindo como utilizar o metal, o homem, além de agricultor, pastor e criador, tornou-se também artesão. Esse novo tipo de atividade exigiu nova divisão de trabalho entre os membros das tribos, uma organização social mais complexa. Nasceram, assim, os primeiros pequenos núcleos urbanos que puderam atender às necessidades de uma população em aumento, desenvolver o comércio de matérias-primas e objetos de artesanato, oferecer serviços coletivos - tais como distribuição de água e de cereais - providenciar a construção de fortificações, templos, edifícios públicos.

Com a Idade dos metais deu-se a passagem da Pré-história à História. Através de cerca de 1 milhão de anos o homem evoluiu física e mentalmente, graças à inteligência que lhe permitiu dominar a natureza, passo a passo. Essa evolução, entretanto, não ocorreu ao mesmo tempo no mundo todo. Houve um grande desnível entre os períodos pré-históricos no Oriente e no Ocidente. Também a entrada dos homens na História deu-se em épocas diversas: enquanto a Europa ainda se encontrava na Pré-história, no Oriente já haviam surgido civilizações, precursoras da civilização ocidental.

* Os paleoíndios no continente americano. "Escavações feitas numa caverna com as paredes pintadas, próximo a Monte Alegre, na margem norte do Amazonas, trouxeram à tona descobertas tão importantes (...) que valeram a seus autores a capa da respeitada revista norte-americana Science. Foram encontrados lascas de pontas de lança e de outras ferramentas, carvão de acampamentos humanos e restos de alimentos, como frutas e animais, além de pedras pintadas que atestam a presença de culturas indígenas no local durante 1 200 anos, a partir de 11 mil anos atrás, mesma época dos primeiros vestígios humanos na América do Norte". (Trecho do artigo de Martha San Juan França publicado em O Estado de S. Paulo, 18 abr. 1996.)

"No final do período Paleolítico, o continente americano já era habitado por diversos povos, chamados paleoíndios. Esses povos, de modo geral, eram caçadores e coletores que sobreviviam praticando a caça, a pesca e a coleta de frutos e raízes.

Na região Norte do continente, os grupos de paleoíndios eram experientes na fabricação de ferramentas de pedra, e suas pontas de lança eram talhadas com grande habilidade. Eles eram especializados na caça de grandes animais, como os mamutes.


Artistas Cro-magnon pintando mamutes em Font-de-GaumeCharles R. Knight

A América do Sul também era povoada nessa época. A região de Lagoa Santa, no atual estado de Minas Gerais, por exemplo, era habitada por paleoíndios.

[...] Viviam em bandos reunidos em torno de um líder. Dominavam o fogo e tinham técnicas rudimentares de construção de utensílios de pedra lascada, como pontas de lanças e lâminas de quartzo capazes de cortar couro e carne.

Ao contrário do que normalmente se imagina, os paleoíndios não moravam em cavernas, e sim em locais abertos onde havia água corrente disponível [...]. Nesses locais, a vegetação farta e a presença de animais silvestres garantia uma alimentação balanceada entre vegetais e carne de caça. As cavernas eram usadas como abrigos pelos caçadores e, provavelmente, para a realização de rituais religiosos e fúnebres. Embora fossem nômades, cada grupo movia-se dentro de um território próprio, que conheciam detalhadamente – o que facilitava a busca de alimentos. [...]

A arqueologia também nos mostrou, mais recentemente, que os [habitantes] do Brasil paleoíndio tinham respeito por seus mortos, depositando-os em abrigos de pedra – o que garantiu sua conservação ao longo dos milênios". [...] ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.

7. A cultura na pré-história. O homem pré-histórico legou-nos interessantes testemunhos da sua cultura, através de gigantescos monumentos de pedra e pinturas em cavernas.

"Quase por toda parte do Mundo o homem primitivo escavou, gravou ou pintou nas paredes rochosas dos seus abrigos ou grutas: na África Meridional, Central ou Setentrional; nas regiões ocidentais dos Estados Unidos; na Oceania, na Austrália e em muitas outras regiões. Todas essas manifestações de arte rupestre não datam da mesma época; de fato, muitas vezes os arqueólogos podem emitir hipóteses sobre a sua data; todavia, em numerosos pontos do globo, essa arte primitiva apresenta caracteres comuns." (E. M. Upjohn et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.)

Os monumentos de pedra parecem ter significado religioso, ligando-se ao culto dos mortos. São de dois tipos, conhecidos pelos nomes de menirs (pedra comprida, em língua bretã) e dólmens (mesa de pedra, também em língua bretã).


Os megálitos são os mais antigos monumentos da humanidade. Os círculos de Stonehenge [Grã-Bretanha] estão talvez ligados a um culto solar ou lunar.

O homem da Pré-história criou ritos mágicos para auxiliá-lo a vencer a natureza e o medo do desconhecido. Esses ritos buscavam favorecer a caça, trazer chuvas, estações propícias, fartura de alimentos. Foram os ritos mágicos favorecedores da caça que provavelmente deram início às primeiras manifestações artísticas, desenhadas e pintadas nas paredes e no teto de cavernas, com carvão, tintas minerais e vegetais, representando animais como o mamute, o touro, o javali, a rena, o cavalo.

Caça de búfalos, Tassili n' Ajjer, Saara - Argélia

Apareceram também estatuetas, sobretudo imagens femininas, representativas da fecundidade, da natureza fértil; gravuras em pedra, osso, marfim; cerâmicas pintadas ou decoradas com motivos geométricos.


Vênus de Laussel. Relevo em pedra calcária, datado de 20000 - 18000 a.C. e encontrado na região de Dordonha, França. Havia uma forte presença feminina na religião, uma vez que a fertilidade da terra/natureza era identificada com a fertilidade da mulher. A chamada Vênus de Laussel faz parte de uma série de representações do mito da fecundidade. Essas figuras femininas têm como características o ventre inchado, seios e nádegas grandes e quadris largos.

Na Idade dos metais multiplicaram-se os desenhos geométricos no artesanato, aperfeiçoou-se a representação das figuras humana e animal. Em certas regiões do Oriente Médio construíram-se templos em homenagem a várias divindades; e, também no Oriente, nasceu, sobre placas de argila, a escrita pictográfica.


AQUINO, Rubim Santos Leão de et alii. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.
BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35.
GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 2-8.
NEVES, Joana. História Geral - a construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.
ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.
UPJOHN, E. M. et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Os conceitos de História e Pré-história na Europa e na América

Pintura rupestre. Caverna da província de Santa Cruz, Argentina

[...] Durante muitos séculos, acreditou-se, no Ocidente, que o mundo havia sido criado por Deus há poucos milhares de anos e que os primeiros seres humanos teriam sido Adão e Eva. Por incrível que pareça, essa explicação da origem do homem só foi contraposta em meados do século XIX! No início do século, houve já uma primeira tentativa de interpretação dos períodos mais recuados da vida humana. A partir de 1816, Christian J. Thomsen, o primeiro conservador do Museu Nacional Dinamarquês, deu ordem às sempre crescentes coleções de antiguidades. Assim o fez, classificando-as em três idades, da Pedra, do Bronze e do Ferro. A ideia era, realmente, muito simples: antes de o homem aprender a usar esses metais, vivera numa idade da pedra e, após ter aprendido, utilizou-se de início, apenas o cobre e o bronze, só mais tarde passando ao ferro. Apenas com a teoria do Evolucionismo haveria, no entanto, uma verdadeira revolução no entendimento da questão das origens do homem.

Em 1809, nascia Charles Darwin, que se formaria em Teologia, em Cambridge, em 1831, e mais tarde se interessaria por Entomologia e Botânica, tornando-se um naturalista, viajante dos rincões mais afastados, como o Atlântico Sul e o Pacífico, sempre pesquisando a natureza. Publicou diversas obras com suas considerações sobre o que conheceu, como Viagem de um naturalista ao redor do mundo (1839). Em 1859, Darwin publicou seu livro mais famoso, A origem das espécies, obra que teve um impacto enorme, tendo sido vendida toda a primeira edição, de 1.250 exemplares, em um único dia! A segunda edição, com 3 mil exemplares, esgotou-se em uma semana.

Na introdução do livro, Darwin afirmava que "as espécies não são constantes, mas as que pertencem a um mesmo gênero provêm, em linha direta, de outras, em geral já extintas, assim como as variedades reconhecidas de uma determinada espécie provêm desta espécie". A espécie humana passou a ser vista como parte do reino animal e o homem como resultado de uma evolução e não de uma criação pronta e acabada. Em 1871, Darwin publicou A origem do homem e a seleção sexual, completando a proposta de uma interpretação alternativa àquela teológica da origem humana.

De início, a reação ao Evolucionismo de Darwin foi violenta por parte dos clérigos e também de todos os que não aceitavam que o ser humano não havia sido criado por Deus já da forma que nós somos. Com o passar do tempo, entretanto, começou-se a difundir a visão de que o ser humano é um animal e, mesmo para os que crêem no relato bíblico - excetuando-se os fundamentalistas - a criação de Adão e Eva passou a ser aceita como uma metáfora, não como um fato histórico. Apenas com essa revolução no conhecimento pôde surgir o interesse e o estudo dos antigos vestígios humanos.

Na Europa, o estudo dos antepassados dos povos europeus já existia por meio da leitura dos autores gregos e romanos que a eles se referiam. Os germanos haviam sido citados pelos gregos e, mais extensamente, pelos romanos - como na obra clássica Germânia, do historiador romano Tácito. Os gauleses foram bem descritos pelo general romano Júlio César em sua obra Guerra das Gálias. No século XIX, além de textos como estes, começaram-se a estudar os vestígios materiais, encontrados na França e na Alemanha, do que passaram a ser chamadas de culturas proto-históricas, "da primeira história".

Foi no século XIX que surgiu o conceito de História como uma ciência voltada para o estudo do passado a partir dos documentos escritos. Definindo que a História se faz com documentos escritos, convencinou-se que a escrita seria o início da História. Em diferentes regiões do planeta, a escrita começou a ser usada em diferentes momentos, pelo que a História começaria há 5 mil anos no Egito e na Mesopotâmia e há 3 mil na Grécia. Proto-História referia-se, portanto, ao primeiro momento em que se usava a escrita e, em particular, o termo foi usado com relação às sociedades que ainda não usavam a escrita (como no caso dos gauleses e dos germanos antigos), mas que foram descritas por povos letrados.

E o passado mais distante? Como defini-lo? Com o Evolucionismo, começou-se a aceitar a ideia de que haveria restos muito mais antigos associados ao homem. Em 1856, no vale do rio Neander, perto de Düsseldorf, na Alemanha, encontrou-se a calota craniana de um homem primitivo, que ficou conhecido como "Homem de Neandertal". Em 1865, surgiam os termos Paleolítico (Idade da Pedra Antiga) e Neolítico (Idade da Pedra Recente). Abriam-se, assim, as portas para o estudo da Pré-história, definida como todo o imenso período anterior à invenção da escrita.

A Pré-história trata dos últimos 100 a 200 mil anos, período em que existe a espécie humana, o Homo sapiens sapiens, e também dos milhões de anos anteriores, em que existiram os hominídeos, espécies que antecederam à nossa: 99,9% do passado, portanto. Apenas 0,1% do tempo da existência do homem e dos seus ancestrais na cadeia evolucionária corresponde ao período em que existe a escrita.


No continente americano, entretanto, a definição de pré-história tem como referência tradicional o período anterior à chegada dos europeus ao continente, em fins do século XV. Os europeus chamaram a sua presença na América de "história" e reservaram para todo o período que veio antes o termo "pré-história", ainda que hoje se saiba que se usava a escrita na América já antes da vinda dos colonizadores. Os maias, civilização que se desenvolveu no México e na América Central, possuíam uma escrita muito elaborada, embora usada quase sempre em contexto religioso, ainda por ser totalmente decifrada. Os incas usavam cordas para registrar eventos, chamados quipos. Na verdade, muitos povos ameríndios tinham sistemas de registros comparáveis à escrita, como os povos nambiquaras e tupis., - na forma de pinturas corporais, adereços e decorações de objetos - como propôs recentemente o americanista britânico Gordon Brotherston.

Apesar disso, generalizou-se o uso do termo Pré-história da América para todo o período anterior a 1492, data da chegada de Colombo ao continente. Como se explicaria a continuidade desse uso do termo ainda hoje, sabendo-se que havia escrita entre os nativos antes dessa data?

Os conceitos de Pré-história na Europa e na América diferem muito, apesar de os pesquisadores dos dois lados do Atlântico usarem o mesmo termo. Isso se explica facilmente se buscarmos as origens desses estudos lá e cá.

Na Europa, a Pré-história foi sempre definida com referência à História, como o período anterior à escrita, estudado pelos "pré-historiadores", pesquisadores preocupados com os próprios antepassados europeus. Daí a busca dos antigos germanos, mas também dos antigos homens do Paleolítico, considerados seus antecessores.

No continente americano, o estudo da Pré-história surgiu em outro contexto. Nas Américas, a vinda dos europeus quase sempre significou o massacre e a escravização dos ameríndios após duras batalhas e surtos epidêmicos e, mesmo quando e onde houve grande miscigenação, como no caso do Brasil, a referência dos estudiosos sempre foi a Europa e os europeus. A História era e, em certo sentido, continua sendo, a História da civilização europeia (ou ocidental), não da indígena. O interesse pelo conhecimento da vida dos indígenas levou, no século XIX, ao surgimento de uma outra ciência, a Antropologia, voltada para o estudo das línguas, sociedades, costumes e tradições ameríndias. O estudo do passado dessas sociedades ficou por muito tempo a cargo dos antropólogos especializados na análise dos vestígios materiais, os arqueólogos. Nesse contexto, no continente americano adotou-se o termo Pré-história para se referir ao período anterior à chegada de Colombo.

[...] O que entendemos por Pré-história do Brasil? Do nosso ponto de vista, não se pode fugir das definições correntes, mas, ao mesmo tempo, não se deve aceitá-las de forma acrítica. Separar a História da Pré-história pelo critério do "uso da escrita" é inconsistente, no caso da América; assim como é artificial caracterizar a Pré-história como o estudo das origens de "outros povos", pois, no caso do Brasil, ao menos um terço da população possui antepassados indígenas e, além disso, boa parte das nossas heranças culturais é ameríndia. Ademais, grande parte do que hoje constitui o Brasil ficou alheia ao mundo do colonizador, concentrado na costa: a maior parte da Amazônia (uma área imensa), mas mesmo o que chamamos Centro-Oeste, até a recente Marcha para o Oeste, na década de 1930.

Por tudo isso [...] adotamos uma definição mais ampla e menos restrita e comprometida de Pré-história do Brasil, partindo das origens mais remotas (o que nos levará ao Velho Mundo), os percursos pelo continente americano até o povoamento do território barsileiro, passando pelas culturas que aqui floresceram até chegarmos aos ameríndios contemporâneos. E essa Pré-história do Brasil compreende a existência de uma crescente variedade linguística, cultural e étnica, que acompanhou o crescimento demográfico das primeiras levas constituídas por umas poucas pessoas (centenas ou poucos milhares) que chegaram à região até alcançar muitos milhões de habitantes na época da chegada da frota de Cabral. Também precisamos compreender que, para que isso ocorresse, não houve apenas um processo histórico, mas numerosos, distintos entre si, com múltiplas continuidades e descontinuidades, tantas quanto as etnias que se foram constituindo ao longo dos últimos 30, 40, 50, 60 ou 70 mil longos anos de ocupação humana das Américas.

FUNARI, Pedro Paulo e NOELLI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2002. p. 11-15. (Repensando a História).