"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Billie Holiday, diva do jazz

Billie Holiday, 1949.
Foto Carl van Vechten

Na tarde de 1º de dezembro de 1955, os 50 mil habitantes negros do bairro de Montgmery, no Alabama, Estados Unidos, estavam em polvorosa. A secretária da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), que lutava pelo fim da segregação racial, Rosa Parks, tinha sido presa por ter utilizado um assento no ônibus, reservado por lei para brancos. Em 1954 o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tinha declarado ilegal a discriminação racial nos colégios. Isso impulsionou a numerosa comunidade negra a empreender diversas lutas contra o racismo. O ápice desse processo se deu no dia do julgamento de Parks. Um boicote geral aos transportes foi marcado, contando com cerca de 90% de participação da comunidade negra local. Rosa Parks foi considerada culpada. O boicote foi ampliado. Nesse cenário, um jovem de 26 anos desponta como uma liderança capaz de aglutinar desejos, anseios por mudanças numa sociedade profundamente desigual. Seu nome era Martin Luther King, ou para alguns posteriormente, como o presidente Barack Obama, apenas o rei. Devido à forte atuação de Luther King, o boicote atingira seu objetivo, e em 13 de novembro de 1956 o Supremo Tribunal confirmava a decisão de um Tribunal Distrital transformando em inconstitucional a separação dos lugares dos ônibus de acordo com as raças. Essas vitórias judiciais vieram com duras e constantes lutas do movimento negro para se tornar reais, chegando ao ponto de o presidente D. Eisenhower ter de enviar tropas de paraquedistas para fazer cumprir o direito dos estudantes negros e brancos a uma educação comum. Foi nesse tumultuado contexto que a mais comovente cantora de jazz, Billie Holiday, narrou sua autobiografia.

Lançada nos Estados Unidos em 1956, a autobiografia, escrita com a colaboração do jornalista William Duft, da musa do jazz Billie Holiday, Lady Sings the Blues, foi fortemente influenciada pelo contexto das lutas raciais, da qual ela foi importante ativista. [...]

Com um estilo único e muito mais ligado ao jazz do que ao blues, a cantora americana Billie Holiday dava às músicas uma interpretação única que envolvia ao mesmo tempo uma técnica muito pessoal e uma dramatização vocal, transformando em belos sons músicas muitas vezes simples. Poucos foram os cantores ou cantoras que conseguiram influenciar músicos instrumentistas tão variados como os clarinetistas Artie Shaw e Tony Scott, o saxofonista Lester Young e os trompetistas Buck Clayton e Miles Davis, este último reconhecido como um dos principais músicos do século XX, além, é claro, de sua forte influência em cantores como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald. Por não ter estudado música nem tampouco fazer leitura de partituras, talvez a única grande influência externa à obra de Holiday tenha sido o cinema, de onde tirou seu nome artístico em homenagem a atriz Billie Dove. Essa influência que o cinema exerceu no início desse modelo de canção não é perceptível apenas nas escolhas de Billie Holiday, podemos lembrar que Eunice Waymon adotou o nome Nina Simone em homenagem à atriz Simone Signoret.

Nascida no estado da Filadélfia em 1915, Eleanor Fagan, filha do músico Clarence Holiday e de Sarah Fagan, sua vida foi marcada por traumas e abandonos que a conduziram a um temperamento forte e, muitas vezes, impaciente e rude. Desde quando ainda era muito criança, seu pai saiu em excursão com sua banda e, a partir de então, ficou apenas com sua mãe, que ora a deixava com parentes, ora com vizinhos. Muito cedo começou a trabalhar como empregada e com 10 anos sofreu abusos sexuais de um vizinho, marcando para sempre sua vida. Aos 14 anos passou a morar definitivamente com sua mãe em Nova Iorque, onde começou a prostituir-se. Aos 15, então, começa seu contato mais próximo com a música. Desde cedo, quando trabalhava como empregada, Holiday pagava para escutar discos na casa de uma família. Seu dinheiro era gasto no aluguel de uma vitrola em que pudesse escutar seus discos prediletos, ou, em larga medida, os discos possíveis. Suas principais influências foram a popular cantora da década de 1920 Bessie Smith, conhecida como "A imperatriz do blues", e o trompetista Louis Armstrong, que, mesmo com estilos diferentes daqueles apresentados por Holiday ao longo da carreira, tiveram importância basilar em sua vida. Sua carreira teve início no Harlem, região com várias casas de música onde diariamente se apresentavam os mais variados músicos de jazz dos anos 1930. Depois de alguns anos cantando em casas noturnas, gravou seu primeiro LP com a banda do famoso clarinetista judeu Benny Goodman.

A partir de então sua carreira deslancha, chegando a gravar com as renomadas big bands de Artie Shaw e Count Basie. Seu sucesso passou a representar não só sua vitória pessoal, mas também a vitória do movimento negro contra o apartheid nos Estados Unidos, visto que ela foi a primeira negra a cantar com uma big band.

A música If my heart could talk fala de sonho, amor, e representa parte do que Billie Holiday sempre desejou. Ela teve relacionamentos com vários músicos, cineastas, artistas, e seu casamento foi um desastre, a conduzindo a um rude rompimento e uma profunda depressão. Na década de 1940, já estava presa ao mundo das drogas, sendo detida, processada, tendo shows cancelados e seu cabaret card cassado pela polícia, o que a proibia de cantar em bares que vendessem bebidas alcoólicas. O mundo das drogas, com uma constante pressão da mídia por conta de seus internamentos para tratamento, levou Holiday a um beco sem saída. O alcoolismo e a cocaína enfraqueceram sua já fragilizada saúde, levando Holiday a diversos problemas no fígado e coração. Com 44 anos, em 1959, o mundo perdia a voz mais singular do jazz, que morreu da forma como começou: simples, presa ao medo de não ser lembrada e amada. Holiday morreu com setenta centavos no banco e 750 dólares em notas grandes presos em sua meia. Junto com a cantora francesa Édith Piaf e com o pianista e cantor Ray Charles, foi uma das figuras mais polêmicas e discutidas de sua geração. Desde sua aparição no cinema em New Orleans, onde interpretava a empregada Endie, até suas canções de maior sucesso, como Strange fruit, que conta a história dos linchamentos sumários e das execuções públicas de negros nos Estados Unidos do século XX utilizando-se de metáforas extremamente singulares e chocantes, todos foram rodeados por muitas histórias de uma cantora que falou em forma de vida, uma vida contada e cantada. O compositor e ativista Josh White relembra o quanto Strange fruit era mais do que uma canção para Billie Holiday:

Ouvi o disco de Billie, e era algo tão forte que percebi que a canção [Strange Fruit] deveria ser usada para abrir os olhos das pessoas a certas coisas que não deveriam existir. Não queria lhe roubar nada. Amava sua interpretação da canção, mas queria apresentar Strange Fruit do meu jeito. Expliquei isso a Billie e acho que ela entendeu, depois veio frequentemente ao Café - em geral para o último espetáculo [...]. Por vezes arrastava-se e nem sequer entrava. Vinha de carro ao Village e sentava-se do lado de fora, ouvindo o rádio do carro, em companhia do seu grande boxer, Mister. Então começávamos a rodar de automóvel por todos os locais que ainda estavam abertos [...].

Falar de Billie Holiday, ou melhor, de Lady Day, como a chamava Lester Young, é ao mesmo tempo lembrar-se do quão popular foi o jazz e do quanto alguém conseguiu mergulhar em seu próprio tempo.

Mais do que uma singularidade complexa, Billie Holiday é, sem quaisquer dúvidas, uma das principais representantes da difusão do jazz e do blues nos Estados Unidos do início do século XX. Ultrapassando os núcleos de preconceitos raciais, Billie conseguiu atingir uma gama enorme de ouvintes ainda em vida e, a partir daí, demonstrar as fragilidades da sociedade americana. O famoso historiador inglês Eric Hobsbawn, em seu livro História Social do Jazz, estava correto quando afirmou que o jazz representou, em grande medida, uma forma de inserção social dos negros na preconceituosa sociedade norte-americana. O jazz em sua raiz é uma música popular tanto do mundo rural do sul quanto do urbano do norte. E, segundo o próprio Hobsbawn, algumas de suas caracterísitcas, mais no que concerne ao popular, foram mantidas por toda sua história: a importância da tradição oral na transmissão, a improvisação e velocidade de trocas e execução, dentre outros. Muitos desses aspectos podem até ser pouco reconhecidos no jazz contemporâneo, mas isso só comprova a tese de que é uma arte que não está morta, ao contrário, se mostra em constante desenvolvimento e dinamismo, ainda vinculada diretamente às percepções da sociedade nas quais está inserida.

SOUZA NETO, José Maria Gomes de [et alli]. Pequeno dicionário de grandes personagens históricos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2016. p. 383-87.

segunda-feira, 28 de março de 2016

1916, Nova Orleães: o Jazz

Louis Armstrong, Adi Holzer

Vem dos escravos a mais livre das músicas. O jazz que voa sem pedir licença, tem como avôs os negros que trabalhavam cantando nas plantações de seus amos, no sul dos Estados Unidos, e como pais os músicos dos bordéis negros de Nova Orleães. As bandas dos bordéis tocam a noite inteira sem parar, em palcos que as põem a salvo dos golpes e punhaladas quando o caldo entorna. De suas improvisações nasce a louca música nova.

Com o que economizou distribuindo jornais, leite e carvão, um garoto baixinho e tímido acaba de comprar corneta própria por dez dólares. Ele sopra e a música se espreguiça longamente, longamente, saudando o dia. Louis Armstrong é neto de escravos, como o jazz, e foi criado, como o jazz, nos puteiros. 

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: O século do vento. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 592.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik

O consumo musical, nas décadas anteriores ao surgimento do rock' n' roll, dividia-se de maneira compartimentalizada no mercado: música para brancos [...] e música para negros [...]. Grande parte da população urbana branca consumia música erudita e/ou música popular romântica [...], ou, então, músicas mais rápidas no balanço diluído das grandes orquestras brancas de swing [...]. Até então, os filhos dessa classe média branca não diferiam grandemente dos pais quanto ao gosto musical e ao estilo de vida. Só a partir do surgimento do rock' n' roll é que, efetivamente, se nota a caracterização de uma cultura jovem.

Por volta de 1950, as pequenas gravadoras exploravam dois importantes mercados específicos: o rhythm and blues negro e a música dos brancos rurais - country-and-western -, também tão marginalizada quanto a música negra, pois era a música dos brancos pobres. Da união desses dois tipos de música surgiria o estilo chamado rock' n' roll, transformando todos os esquemas das grandes gravadoras [...] e, num sentido mais amplo, a própria cultura norte-americana e mundial.

Por ser um estilo composto de elementos de origem diversa - "música negra" e "música branca" -, o rock' n' roll também seria encarado, na racista sociedade norte-americana de então, como race music (música de negro). E, exatamente por essa qualidade, ele foi incorporado por outro grupo que começava a se manifestar no cenário dessa sociedade: a juventude.

[...] o rock' n' roll funcionou como uma inversão psicológica na relação entre dominador (branco) e dominado (negro) que prevalecia na sociedade norte-americana. A cultura promovida pela juventude, a partir do rock' n' roll, seria uma forma de os jovens de classe média branca se colocarem em relação à sociedade estabelecida por seus pais, assumindo, mesmo que inconscientemente, certos valores da cultura negra como bandeira.

Apesar do estilo contestatório do rock' n' roll, essa criação de base negra (blues e rhythm and blues) foi uma mercadoria estilizada pelas grandes gravadoras e vendida ao público branco a partir de meados da década de 1950. Na grande maioria dos casos, trata-se de cópias (covers) que cantores brancos fazem, "cobrindo" material originalmente de músicos negros [...]. São óbvias, portanto, as razões por que o primeiro rock de sucesso, "Rock around the clock" (1954), era de um simpático branco de cabelos louros chamado Bill Halley, o mesmo acontecendo com a superestrela do rock' n' roll, Elvis Presley. [...] Cantando com a voz rouca e sensual de um negro, abriu caminho para a aparição, em âmbito nacional, de rock' n' rollers negros como Chuck Berry, Little Richard e Fats Domino. O rock' n' roll branco, além de Elvis, apresentou também algumas figuras brilhantes como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly, entre outros.


Elvis Presley

A partir de então, a indústria cultural norte-americana desenvolveu-se a mil por hora. Gravadoras, rádios, cinema e televisão, percebendo o mercado que se abria com o rock' n roll e seu estilo de vida, voltaram-se para essa emergente cultura jovem, estimulando cada vez mais o seu consumo.

[...]

Apesar de chocar os padrões morais da época, o rock' n' roll dos anos 50 não era uma música politicamente engajada. Muito pelo contrário, entre seus temas principais figurava a exaltação à dança e ao ritmo da música, às histórias de colégio, além da descrição de carros e relacionamentos amorosos com as garotas. [...]

Diante de tais incompreensões, alguns grupos de jovens optavam pela delinquência juvenil, fazendo disparar as estatísticas de crime e violência. Nascidos antes do ataque, pelos japoneses, à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, [...] que provocou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, eles cresceram em meio ao conflito e, de certa forma, no seu prolongamento, evidenciado no fantasma da Guerra Fria. Mesmo gozando de todos os privilégios da classe média branca norte-americana, esses jovens não podiam escapar a um sentimento de vazio existencial, produto de uma sociedade consumista e materialista; ou a um sentimento de culpa, mesmo que inconsciente, pelas desigualdades sociais e raciais dessa sociedade. Outros, oriundos de lares desajustados, reflexo da própria guerra e da vida moderna norte-americana, eram incapazes de se enquadrar no estilo de vida americano. [...]


A situação de revolta da juventude forneceu farta matéria para o cinema da época, que criou uma galeria de tipos, desde o delinquente juvenil homicida (ou suicida) até o rapaz bem-intencionado, de boa família, que por forças alheias à sua vontade, era desviado do "bom caminho". Três filmes-chave refletiram com extrema atualidade esse problema. O selvagem, de 1953, com Marlon Brando, descreve os momentos vividos por uma pequena cidade subitamente invadida por um bando de motoqueiros. É, de certa forma, uma parábola do choque entre a sociedade organizada e o potencial "selvagem" de uma juventude sem rumo. Juventude transviada, de 1955, com James Dean, revela os problemas individuais dos "rebeldes sem causa" dos anos 50. Mas é Sementes da violência, também de 1955, que expõe de modo mais didático (o tema do filme é a educação) toda a carga de hostilidade no relacionamento entre a juventude marginalizada e a sociedade. A música que anuncia o filme é "Rock around the clock", o primeiro grande hit do rock' n' roll e um verdadeiro hino de guerra dos adolescentes de então. Essa música também é utilizada como uma referência ao conflito entre professores (que representam as regras estabelecidas pela sociedade) e alunos, numa cena altamente simbólica em que os jovens rebeldes quebram toda a coleção de discos com que o bem-intencionado mestre tenta iniciá-los no jazz tradicional.

[...]

A partir dos personagens desses filmes, o cinema conseguiu retratar os dilemas de uma geração, ao mesmo tempo que ofereceu um modelo visual e ideológico para a juventude dos anos 50.

O ídolo da época foi James Dean, que fez os jovens do mundo todo imitarem suas caretas, trejeitos, roupas e corte de cabelo. [...]

O mito cinematográfico James Dean simbolizava tudo o que era jovem, moderno, norte-americano e diferente. Ele inspirava o traje (uniforme) dos jovens, que, com seu jeans apertado e sua jaqueta de couro preta, adotavam uma atitude de rebeldia contra a sociedade consumista, de resistência contra as rígidas convenções sociais do universo adulto, e se entregavam à violência, às bolinhas, ao rock' n' roll e às experiências sexuais.

Não é coincidência o fato de James Dean e o rock' n' roll terem invadido a imaginação do jovem dos anos 50. Esses dois elementos expressavam uma mudança no universo de valores da juventude, algo que esse público não entendia completamente, mas a que intuitivamente aderia, e que a indústria cultural da época começava a explorar na forma de mercadoria. [...]

Mas nem só de jovens transviados e rock' n' roll viveram os anos 50. A Guerra Fria e a cultura de consumo não contribuíram apenas para um sentimento de inquietação em relação aos adolescentes; elas também favoreceram o surgimento de um pequeno grupo de jovens universitários que, através de um movimento literário, tentavam oferecer um estilo de vida alternativo ao mundo materialista da sociedade norte-americana.

Em 1957, com a publicação de On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac, eclodiu no mundo burguês da América de Eisenhower um perturbador fenômeno que Kerouac chamou de beat. Esse termo podia sugerir a busca de uma "purificação do espírito" (beatitude), com influência das religiões orientais (budismo, zen-budismo etc.). Também se referia a um estilo de vida aventureiro adotado pelos que, sem eira nem beira, andavam à deriva pelas estradas da América, em busca de aventura, aproveitando-se da opulência material do estilo de vida americano. Por último, tinha ainda conotações musicais referentes ao be-bop e ao cool jazz.

Ser beat, por extensão, significava fluência, improviso, ausência de normas preestabelecidas na vida e na arte. Significava também a busca de um envolvimento profundo que traz música, balanço, liberdade e prazer, na procura da realidade marginal das minorias raciais e culturais no interior da sociedade norte-americana.

Dessa forma, o termo "geração beat" (beat generation), assim como a cultura produzida por ela, não designa um movimento estético-literário organizado em torno de um programa de objetivos preestabelecidos, mas refere-se a poetas e escritores (Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyder etc.) que, em constante deslocamento, viviam a América dos anos 50.

[...]

Aparentemente afastados do rock (os beats nunca esconderam sua aversão pelo rock' n' roll adolescente dos anos 50), os autores beats seriam de grande importância para o rock dos anos 60, influenciando músicos como Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison, dados aos temas críticos do estilo de vida americano: drogas, bebedeiras, sexo livre, visões cósmicas, utopias e o cotidiano. Pode-se dizer que os poetas e escritores beats tentaram fazer a ligação direta entre a arte e a vida no mundo moderno, antecipando um dos princípios básicos dos movimentos jovens dos anos 60, que era obedecer aos instintos de uma cultura alternativa ligada ao cotidiano, independentemente do reconhecimento da cultura oficializada pela sociedade.


BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 26-34.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.


domingo, 13 de outubro de 2013

Mulheres de Atenas

Cerâmica: Participante num banquete e uma tocadora de flauta

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas
Cadenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas
Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas

E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas
Mirem-se no exemplo 
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios...
Lindas serenas
morenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Mulheres de Atenas. Meus caros amigos (1976). (CD), de Chico Buarque, Philips.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sonhos sonhos são

O sonho, Pablo Picasso

Negras nuvens
Mordes meu ombro em plena turbulência
Aeromoça nervosa pede calma
Aliso teus seios e toco
Exaltado coração
Então despes a luva para eu ler-te a mão
E não tens linha tua palma

Sei que é sonho
Incomodado estou, num corpo estranho
Com governantes da América Latina
Notando meu olhar ardente
Em longínqua direção
Julgam todos que avisto alguma salvação
Mas não, é a ti que vejo na colina

Qual esquina dobrei às cegas
E caí no Cairo, ou Lima, ou Calcutá
Que língua é essa em que despejo pragas
E a muralha ecoa

Em Lisboa
Faz algazarra a malta em meu castelo
Pálidos economistas pedem calma

Conduzo tua lisa mão
Por uma escada espiral
E no alto da torre exibo-te o varal 
Onde balança ao léu minh'alma

Em Macau, Maputo, Meca, Bogotá
Que sonho é esse de que não se sai
E em que se vai trocando as pernas
E se cai e se levanta noutro sonho

Sei que é sonho
Não porque da varanda atiro pérolas
E a legião de famintos se engafinha
Não porque voa nosso jato
Roçando catedrais
Mas porque na verdade não me queres mais
Aliás, nunca na vida foste minha

SONHOS SONHOS SÃO de Chico Buarque

domingo, 11 de novembro de 2012

Pássaro vermelho

Mata virgem perto de Mangaratiba, Rugendas

Pássaro vermelho
sonhou um canto e cantou
e seu canto era belo e bom:
ê sol
ê lua
ê mata
ê rio.

Brasil nem era Brasil
Muito antes de Colombo
muito antes de Cabral
aqui vivia uma gente
falando língua de vida
vivendo uma vida tal
que até parece um sonho
o que era natural.

Brasil nem era Brasil.
O povo que aqui vivia
amava as coisas que tinha:
a mata que dava a caça
o rio que dava o peixe
a terra que dava o fruto
o fruto que repartia
na aldeia e na casa
na tribo e na família.

Brasil nem era Brasil.
Um dia chegou de longe
o homem civilizado
trazendo em sua bagagem
veneno mais que mortal
e tudo que aqui vivia
em suave harmonia
tocado por tal veneno
foi virando pelo avesso.

Brasil já era Brasil.
E todos que aqui sonhavam
viram que o sonho virava
um enorme pesadelo
Por isso é que todo mundo
que mora nesse Brasil
precisa sonhar canto novo
precisa crescer como povo.

Pássaro vermelho
sonhou um canto e cantou
e seu canto era belo e bom:
ê sol
ê lua
ê mata
ê rio.

(Milton Nascimento e Fernando Brant)