"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Os libertinos. A libertinagem dos costumes (Parte 5)

O acordo perfeito, Jean-Antoine Watteau

Mas o fato de seguir a natureza, de buscar a voluptuosidade, era facilmente interpretado, em muitos, pela sensibilidade barroca como desencadeamento dos instintos, como paixão de uma liberdade infrene, como rejeição de quaisquer limites. As menoridades, as regências, o tempo de Maria de Médicis, o de Ana d'Áustria, são épocas de galanterias escabrosas, de loucas aventuras, em que gentis-homens como o Conde Bellegarde junto de Henrique IV, os Duques de Guise, o Marechal de Roquelaure, dados às emboscadas, aos saques, às violações, aos incêndios, movidos por ásperas paixões, vivem em orgias furiosas, rixas, duelos, bebedeiras e blasfêmias. Jogam, renegam a Deus [...]. É da moda, entre certa juventude, considerar a religião uma trapaça. No sítio de La Rochelle, alguns oficiais zombaram tanto de um de seus companheiros que falara de Deus, que o obrigaram a solicitar licenciamento. O mesmo acontecia durante a Fronda. A irreligião tornava-se notória entre a nobreza que cercava Gastão de Orléans e Condé. Qual o seu número? Mersenne arquejava: "Só em Paris campeiam 50.000 ateus, no mínimo." Boucher, por volta de 1630, deplorava: "um milhão de espíritos perdidos". Gritos de dor, sem valor estatístico. De 1623 a 1625, houve uma verdadeira crise. Em dois anos apareceram o Romance de Francion, a Musa Amalucada, o Gabinete Satírico, o Parnaso dos Poetas Satíricos, a Quintessência Satírica. Os seus temas giravam em torno da equivalência da devoção e da hipocrisia, do direito do prazer triunfar sobre a regra. Estabeleceu-se o pânico. Os devotos acreditaram numa conjuração. "O ateísmo" tornava-se um fato reconhecido, catalogado, uma força a combater.

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 342. (História geral das civilizações, 9).

domingo, 11 de setembro de 2016

American way of life

A nova posição feminina expressava-se por meio de comportamentos considerados ousados e vistos pelos conservadores como mais uma "prova" de decadência nos padrões de convivência humana: encurtamento das saias até os joelhos, cabelo curto, hábito de frequentar bares e prática de danças como o foxtrote e o charleston. 
Foto: Inspeção de trajes de banho em 1919, Estados Unidos. Se o modelo fosse muito curto, a moça tinha que pagar multa

O milagre americano criou condições para que aflorasse, nas classes médias e na burguesia, um estilo de vida considerado modelo da moderna civilização ocidental: o american way of life (modo de vida americano). Tal como as mercadorias, ele foi exportado para o mundo todo¹.

* Prosperidade e liberdade. O modo de vida americano, tendo como base a riqueza, caracterizava-se pela construção de edifícios grandes e modernos, pela multiplicação de bairros residenciais cujas casas se ligavam por jardins e gramados, pelo aumento do número de carros e de aparelhos domésticos. Cada vez mais gerava-se a necessidade de consumir, alimentada pela propaganda e pelo crediário.

Na década da prosperidade presenciou-se também uma mudança na vida social e nos costumes, principalmente no que se refere à emancipação feminina. A mulher conquistou o direito de coto (1920), condição para a igualdade política. Nas décadas subsequentes, além de votar, as mulheres ocuparam cargos públicos e privados em vários escalões hierárquicos.

Contudo, a discriminação nos salários continuaria por muito tempo. Apesar disso, em 1940 as mulheres constituíam 25% da mão de obra do país, quando, em 1900, não passavam de 17,7%. A saída da mulher do lar e o trabalho ao lado do homem trouxeram mudanças significativas nos costumes e hábitos sociais. Cresceram sobretudo as reivindicações por igualdade de direitos.

A maior utilização do automóvel também provocou mudanças sensíveis no comportamento cotidiano, principalmente dos jovens, que puderam manter relações mais abertas e livres, longe do controle dos pais.

* Intolerância e fanatismo. A década de 1920 também foi marcada por manifestações de crescente intolerância, fanatismo e chauvinismo entre todas as classes e em todos os setores da sociedade norte-americana.

A política do cordão sanitário imposta à Rússia fez aflorar o medo do comunismo. O exacerbado chauvinismo intensificou o anti-semitismo, e a legislação praticamente pôs fim à imigração da Europa Meridional e Oriental. Organizaram-se ainda campanhas contra católicos.

Tomava corpo uma ideologia que reconhecia como 100% norte-americanos apenas os brancos e protestantes abastados, justificando perseguições aos negros, às outras minorias raciais e aos pobres em nome da preservação de um hipotético ideal de vida norte-americano.

Passou-se a investigar o conteúdo de livros didáticos e manuais escolares, para abolir as obras que não contivessem a apropriada glorificação do passado norte-americano. Grupos paramilitares, contando com o apoio de uns e o medo de outros, dominaram virtualmente o panorama de alguns estados, sobretudo os sulinos.

Nesse contexto, surgiu, em vários estados, a temida Ku Klux Klan², organização que fazia violenta pressão em prol do norte-americano 100%. Em 1925, a organização contava com aproximadamente 5 milhões de membros, levando fanatismo, violência e corrupção onde quer que penetrasse.

Outro componente do norte-americano 100% foi a ênfase na moralização dos costumes. Surgiram, então, várias ligas que se arrogavam o direito de defender qualquer aspecto da "civilização norte-americana" considerado em perigo. De 1919 a 1933, por exemplo, proibiu-se a fabricação, venda ou transporte de bebidas alcoólicas. A chamada Lei Seca contribuiu para o aparecimento de contrabandistas de álcool, os gângsteres e suas quadrinhas, cujo representante mais famoso foi Al Capone. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.)

 Agentes de proibição destruindo barris de álcool, Chicago, 1921

¹ Na década de 1920, os Estados Unidos estavam embriagados pelo elixir da prosperidade. O mundo não tinha visto nada parecido até então. [...] A família média americana vivia melhor, comia melhor, vestia-se melhor e usufruía mais da sociedade de consumo do que qualquer família média de outra parte do mundo. Eufóricos, os norte-americanos consumiam freneticamente relógios de pulso, geladeiras, latas de ervilhas, aparelhos de barbear, enceradeiras e tudo mais que o dinheiro e o crediário pudessem comprar. Enquanto na Europa a média era de um carro para 84 pessoas, nos Estados Unidos era de um para cada seis pessoas. (CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.)

² A Klan foi organizada em 1915 pelo professor de história e pregador laico William J. Simmons. Adotou como modelo a organização de encapuzados que aterrorizava o sul do país depois da Guerra Civil. Os adeptos da Klan eram recrutados, principalmente, entre pessoas da classe média. Como só os protestantes brancos e nativos eram considerados capazes de compreender "racialmente" o norte-americanismo, a Klan deliberou a eliminação de católicos, judeus, negros e da maioria dos estrangeiros.

Referências:

CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.

domingo, 19 de junho de 2016

As classes sociais e os costumes no Egito Antigo

Poder: ostentando coroa e cetro, símbolos do poder, o faraó ouvia o relatório transmitido por seus ministros sobre os acontecimentos do Império. Faraó Horemheb. Relevo. Artista desconhecido

* O faraó. O faraó ocupava a posição mais elevada na hierarquia social egípcia. Era considerado um deus, filho de Amon-Rá e encarnação de Hórus. O povo adorava-o em vida, submetendo-se a sua autoridade sem resistência, e cultuava-o após sua morte.

"No Antigo Império apareceu a ideia de que o rei, ou faraó, era o senhor absoluto, logo venerado como um deus. A justiça é "aquilo que o faraó ama", o mal "aquilo que o faraó odeia"; ele possui onisciência divina e portanto não necessita de um código de leis para guiá-lo. Mais tarde, no Novo Império, os faraós seriam representados com a estatura heroica dos grandes guerreiros: aparecem em seus carros como poderosos guerreiros, esmagando os inimigos e corajosamente matando animais em sacrifício. Porém, a realeza egípcia permanecia sagrada e temível. "Ele é um deus a quem devemos a vida, pai e mãe de todos os homens, único e sem igual", escreveu um egípcio, funcionário civil do faraó, por volta de 1500 a.C." ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100.


Diversão: cena de caça. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

Além de organizar as atividades econômicas, o faraó comandava o exército e resolvia os casos de justiça de acordo com sua vontade.

Depois da unificação do Alto e do Baixo Egito, o faraó passou a usar uma coroa dupla, que mantinha as cores (branca e vermelha) de cada uma das coroas usadas pelos soberanos dos dois reinos. Além da coroa dupla, que simbolizava a unificação dos dois Egitos sob um só comando, o faraó usava também um cetro, símbolo de seu poder.

O faraó possuía várias esposas, geralmente parentes, mas apenas a primeira mulher com quem havia se casado podia usar o título de rainha.


Cotidiano no palácio: músicos e dançarinas. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

"Os faraós e sua família viviam em meio a um tal luxo e conforto, que mesmo hoje, causam admiração. Os palácios eram equipados com móveis de cedro, de ébano, vestidos às vezes de ouro e de marfim; os utensílios de uso diário eram também de qualidade superior, demonstrando a riqueza daqueles que os possuíam, bem como a habilidade e perícia dos artesãos que os fabricavam. A presença de uma legião de servidores - criados, músicos, cantores, dançarinas e copeiros - colaborava ainda mais para tornar confortável a vida diária dos governantes do país. As caçadas e pescarias frequentes, a prática de jogos diversos, contribuíam também para que fosse agradável o dia-a-dia dos "deuses vivos" que governavam o Egito e daqueles que com eles conviviam". FERREIRA, Olavo Leonel. Egito, Terra dos Faraós. São Paulo: Moderna, 1993.


Nobreza: Príncipe Ankhhaf. Busto. Artista desconhecido

* A nobreza. Formada pelos mais importantes funcionários que administravam o Império, a nobreza constituía a alta camada da sociedade egípcia, logo abaixo do faraó. Esses importantes funcionários tanto podiam ser parentes do faraó como pertencer aos comandos do exército. Os nomarcas, que eram os chefes locais da administração, também pertenciam à nobreza.

Os nobres tinham muitos privilégios, como a posse de grandes extensões de terra cedidas pelo faraó. Apesar disso, nos momentos em que o poder real enfraquecia, os nobres transformavam-se em adversários políticos dos faraós.


Mediadores da relação dos homens com os deuses: sacerdotes vestidos com pele de leopardo realizam rituais de purificação. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

* Os sacerdotes. Devido à importância da religião na vida do Egito Antigo, os sacerdotes representavam o grupo social de maior prestígio junto à população. Por causa dos conhecimentos que possuíam e da intimidade que diziam ter com os deuses, os sacerdotes exerciam grande poder sobre o povo.

Os sacerdotes possuíam grandes propriedades, que recebiam do faraó. Os que serviam às principais divindades dispunham de riquezas enormes, pois os egípcios costumavam dar presentes valiosos aos deuses que adoravam. [...]

"[...] Eram responsáveis pela administração dos templos e de escolas nas quais os médicos, escribas e outros profissionais obtinham seus conhecimentos". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.

A carreira sacerdotal era hereditária, isto é, passava de pai para filho.


Saber: escriba. Escultura. Artista desconhecido

"Ponha a sua alma nas escritas [...]
Observe como ela se salva através do trabalho!
Veja, não há nada que supere as escritas
São um barco perfeito!...
Farei com que goste de escrever mais do que de sua própria mãe.
Farei com que sua beleza lhe seja mostrada.
É a profissão mais importante do que qualquer outra.
Não existe igual na Terra".
(Relato escrito por um antigo egípcio chamado Khety. In: MAN, John. A história do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 54.)

* Os escribas. Os escribas eram pessoas letradas. Os jovens que iam se tornar escribas recebiam instrução nas escolas do palácio. Depois de um longo aprendizado, eles conseguiam ler e escrever os complicados caracteres da escrita egípcia - os hieróglifos.

Graças à cultura que adquiriram durante os anos de estudo, os escribas ocupavam cargos importantes no governo. Era entre eles que o faraó escolhia, por exemplo, os magistrados e os inspetores dos trabalhos e das rendas públicas.

"[...] A eles cabia estipular os impostos cobrados, em espécie, dos camponeses e artesãos. Assim, estes funcionários estavam praticamente em pé de igualdade com os sacerdotes, que também cursavam escolas anexas aos palácios e templos e exerciam funções básicas para o Estado, ao mesmo tempo de natureza religiosa e temporal". HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975, p, 44-45.

Como eram as únicas pessoas que conheciam aritmética e, portanto, sabiam fazer cálculos, os escribas ficavam responsáveis pela coleta dos impostos e pela supervisão de toda a administração do soberano egípcio. Por isso, eram considerados essenciais ao governo do faraó.

"O escriba recebia salários. [...] Os salários e impostos eram pagos em produtos - como trigo, pão, carne, frutas, gordura, sal - ou trocados por prestação de serviços. Nas guerras, os escribas acompanhavam os exércitos, encarregando-se de manter os registros em dia". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.


Força: soldados. Modelo funerário. Artesão desconhecido

* Os soldados. Ao contrário dos sacerdotes e dos escribas, os soldados não eram muito prestigiados pela população egípcia. Eles viviam dos produtos recebidos como pagamento e dos saques que podiam realizar durante as guerras de conquista.

No exército egípcio havia também soldados estrangeiros. Estes soldados, em recompensa pelos serviços prestados, recebiam um pedaço de terra.

Os soldados desempenhavam um papel muito importante no Egito Antigo, principalmente durante a fase militarista do Novo Império.

"O exército, profissionalizado, era empregado na defesa das fronteiras do país contra os inimigos externos, além de manter os camponeses e escravos sob dominação e realizar incursões ao Sinai e à Núbia, a fim de conseguir metais (cobre, ouro) e escravos". AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p.. 149


Trabalho 1: camponeses. Os camponeses colhiam o trigo com suas foices e amontoavam em feixes nos barcos, transportando-os pelo rio Nilo para todo o Egito. Cultivavam também cevada, frutas e legumes. Pintura em tumba. Artistas desconhecidos

Trabalho 2: artesão. Pintura. Artista desconhecido

Trabalho 3: transporte de ânforas. Pintura mural. Artistas desconhecidos

* Os camponeses e artesãos. Os trabalhadores braçais - camponeses e artesãos - constituíam a camada inferior da sociedade egípcia e também a mais numerosa. Os camponeses (mais numerosos que os artesãos) trabalhavam nas terras do faraó e da nobreza. Os artesãos eram marceneiros, pintores, escultores, tecelões e ourives, alguns, verdadeiros artistas. Os artesãos trabalhavam nas oficinas pertencentes ao faraó.

"Os artesãos produziam lanças, arcos e escudos para as tropas que combatiam as guerras. Também fabricavam objetos como vasos de cerâmica, cestos, sandálias, perucas, tecidos, barcos fluviais e estátuas gigantescas. Para as camadas privilegiadas, esses profissionais produziam joias, esculturas, quadros e objetos destinados a enfeitar as tumbas. Existiam também artesãs que fabricavam perfumes, óleos para o corpo, roupas e produtos de maquiagem". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.

As condições de vida desses trabalhadores eram muito duras. Como pagamento pelo seu trabalho, eles recebiam uma pequena parte do que produziam. Moravam em cabanas muito simples e se vestiam pobremente. Conformavam-se, porém, com a expectativa de uma vida melhor depois da morte. Por isso, o que conseguiam poupar era guardado para o funeral [...]. 

"Os camponeses alimentavam-se de pão, cerveja e legumes. Às vezes, peixe e fruta podem entrar no seu cardápio". KOENNING, Viviane. Às margens do Nilo, os egípcios. São Paulo: Augustus, 1990. 

"[...] Os trabalhadores, no entanto, muitas vezes se revoltaram contra seus exploradores. A desagregação do Antigo Império deveu-se, exatamente, a uma série de lutas sociais. [...] Há, até, registros de greves". NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 59.


Mercado de escravos: núbios aguardam para serem vendidos. Relevo. Artista desconhecido
* Os escravos. Os escravos eram prisioneiros de guerra e não constituíam um grupo muito numeroso. Realizavam os trabalhos pesados, como a extração de enormes pedras das pedreiras e a construção de templos, palácios e pirâmides.

Comparados a outros povos do período, os egípcios eram mais tolerantes com seus escravos e, em geral, tratavam-nos bem.

"[...] O egípcio considerava obrigação dispensar bom tratamento a seus escravos. O Livro dos mortos inclui, entre os pecados a serem negados, o excesso de trabalho imposto aos escravos e os maus-tratos infligidos aos mesmos. Segundo uma lei antiga, quem matasse voluntariamente um escravo, merecia a pena de morte. Heródoto afirma que no Delta do Nilo existia outrora um templo em que os escravos fugitivos encontravam refúgio.

A condição dos escravos utilizados nas grandes obras públicas era extremamente cruel. Nas minas, nas pedreiras, nas construções monumentais, milhares de escravos deixavam a marca de seu ingente esforço e de seu sofrimento". GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 102-3.


Mulheres: carpideiras. Afresco na tumba de Ramose. Artistas desconhecidos

* A mulher egípcia. "A família egípcia parece apresentar a marca de antigos usos que davam à mulher um lugar muito amplo, talvez mesmo de preponderância. Invocava-se frequentemente, por exemplo, a filiação materna pelo menos em pé de igualdade com a ascendência paterna. Em caso de morte de marido, se não havia um filho adulto, a mulher assumia a chefia da família, inclusive no que dizia respeito às relações com o Estado. De maneira oficial, talvez após um certo tempo, principalmente depois de se tornar mãe, era chamada 'dona de casa', e tal expressão parece ter revestido seu pleno sentido jurídico, embora a casa proviesse do marido." AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: Difel, 1977. p. 49. (História geral das civilizações, v. 1)

Jovens: filhas do faraó Amenófis IV. Afresco. Artistas desconhecidos

"Seja como for, [...] a mulher egípcia era sui juris, podendo dispor livremente de seus bens, intentar processos na justiça, tomar a iniciativa do divórcio tanto quanto o homem, desempenhar um papel ativo em diversas atividades produtivas, de serviços e eventualmente de gestão, enfim ir e vir com ampla liberdade. Havia, sem dúvida, certas limitações. [...] a direção da vida pública sempre esteve maciçamente em mãos masculinas; e tal tendência se fortaleceu com o tempo.

Na vida privada, porém, em termos gerais se mantiveram os amplos direitos da mulher, igual participação na herança paterna e materna, controle sobre os seus bens pessoais (mesmo quando geridos pelo marido, situação bastante corrente) etc. É certo, entretanto, que a mulher era encarada como tendo uma vocação essencialmente doméstica [...] ligada seja à administração da casa [...], seja à realização de tarefas no seu âmbito: fabricação de pão e cerveja, manufaturas de fios e tecidos. [...] Com maior frequência, era o homem que intervinha em transações e, em geral, na gestão do patrimônio familiar [...].


Família: um casal egípcio sentado. Escultura. Artista desconhecido

O casamento no antigo Egito não era sancionado por qualquer ritual religioso ou ato administrativo. Tratava-se de um ato social, selado por festividades que envolviam a comunidade num nível estritamente local. Em suma, a natureza do matrimônio era secular e, em si mesmo, não tinha caráter jurídico. [...] O Estado só intervinha, eventualmente, em questões de adultério no sentido de manter a ordem pública - limitando, por exemplo, a vingança privada." CARDOSO, Ciro Flamarion. "Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.)". In: História. São Paulo: Unesp, 1999. v. 12. p. 103-5.

Costumes: senhora em sua toalete ajudada por duas servas. Pintura mural. Artistas desconhecidos


* Costumes. "A maior parte da população vivia em pequenas casas de tijolos de barro, quase sempre recobertas por um teto de palha. Seu principal alimento era pão de cevada, às vezes acompanhado de cebolas, tâmaras e figos. Do pão de cevada obtinha-se uma pasta que, fermentada e espremida, resultava numa cerveja leve, muito apreciada pelos egípcios. A carne, as aves e os peixes eram reservados às pessoas abastadas, e também o vinho produzido no país ou importado da Síria. Consumido por todas as classes, o leite constituía um alimento básico; e o único adoçante utilizado era o mel.


Costumes: moda feminina. Pintura. Artista desconhecido

Homens e mulheres usavam vestimentas de linho. A sendit masculina não passava de uma simples tanga que envolvia os quadris. Mas a roupa feminina cobria o corpo do colo aos tornozelos, sustentada por alças e, às vezes, enfeitada com bordados. Durante o Novo Império, as mulheres introduziram certos refinamentos em suas vestes, principalmente tecidos transparentes com pregas delicadas. Amuletos, flores esmaltadas, pesados peitorais metálicos, pérolas multicoloridas, anéis, brincos, braceletes e pulseiras nos tornozelos eram usados tanto pelos homens como pelas mulheres.

No Egito Antigo, praticava-se comumente a poligamia, apesar de uma das esposas ter uma posição privilegiada no lar. Na família dos faraós, supõe-se que esta honra cabia à mãe do primeiro filho do sexo masculino, o qual, geralmente, herdava o trono. Embora o homem pudesse ter quantas concubinas quisesse em sua casa, só os elementos das classes abastadas possuíam um grande harém. E, ao que tudo indica, a mulher gozava de uma posição importante na família egípcia". HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 16-7.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008.
AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: Difel, 1977. (História geral das civilizações, v. 1)
ARRUDA, José Jobson. História Total 3: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Ática, 1998. 
BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010.
CARDOSO, Ciro Flamarion. "Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.)". In: História. São Paulo: Unesp, 1999. v. 12.
FERREIRA, Olavo Leonel. Egito, Terra dos Faraós. São Paulo: Moderna, 1993.
GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. 
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
KOENNING, Viviane. Às margens do Nilo, os egípcios. São Paulo: Augustus, 1990.
MAN, John. A história do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

sábado, 10 de outubro de 2015

Aspectos da vida feudal

Ilustração do manuscrito das Cantigas de Santa Maria, escritos em galego-português durante o reinado de Alfonso X, o sábio (1221-1284). Artista desconhecido.

Texto 1. Em suas propriedades os nobres dedicavam grande parte de seu tempo a divertimentos ao ar livre; organizavam torneios, combates violentos entre numerosos cavaleiros armados, destinados a mantê-los em forma para as frequentes expedições guerreiras; justas, concursos de habilidade e destreza entre poucos concorrentes e caçadas, uma das suas distrações preferidas. Modalidade de caça muito em voga na Idade Média foi a caça auxiliada por cães ou por falcões adestrados para a captura de aves. Nos jardins ou no interior do castelo realizavam-se leituras, danças, banquetes, jogos, espetáculos proporcionados por artistas ambulantes, saltimbancos e menestréis, que divertiam a corte com proezas e agilidades, músicas e cantos celebrando façanhas heróicas ou aventuras cavalheirescas em busca de amor e de glórias. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. [Org.]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 135-6.

Texto 2. Os grandes senhores feudais eram [...] os homens mais ricos e poderosos de sua região e, com isso, cresceu o desejo de manifestar essa posição mediante o esplendor de suas cortes. [...] Na concorrência entre os governantes de territórios, elas se tornaram os locais para exibir o poder e a riqueza de seus senhores. Estes, por isso mesmo, reuniam escribas não só para finalidades administrativas mas também para redigir a crônica de suas façanhas e destino. [...] No contexto da sociedade secular, no caso daqueles que se haviam especializado na escrita [...] e tinham de viver disso, fossem ou não amanuenses, o patrocínio da corte constituía o único meio de sustento.

Artistas viajavam de um castelo para outro. Se alguns eram cantores, a maioria trabalhava simplesmente como palhaços ou bufões [...]. Nessa qualidade, eram encontrados também nos castelos dos cavaleiros mais simples e menos importantes. Mas só os visitavam de passagem, pois não havia alojamento, nem interesse, e, não raro, tampouco meios de alimentá-los e remunerá-los por um longo período. Tais condições só as poucas cortes maiores podiam fornecer. [...] Os senhores mais importantes, mais ricos - o que vale dizer, os de graduação mais alta -, podiam atrair os melhores artistas para suas cortes. ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formação do Estado e civilização. v. 2. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 72-73.

Texto 3.  [...] uns rezavam, outros combatiam e a maioria trabalhava.

Era uma sociedade bem agradável para a minoria [...], onde cavaleiros e damas viviam em castelos, distraindo-se em festas e refeições, em que os criados serviam comidas saborosas e constantemente enchiam os grandes copos de vinho de seus poderosos senhores. Por vezes, músicos e artistas tornavam o ambiente mais alegre e agradável.

Estes senhores possuíam extensas propriedades, frequentemente reunindo-se em torneios. Então, em meio à fanfarra dos tambores e aos toques dos clarins, os turbulentos cavaleiros enfrentavam-se em combates singulares, exibindo suas qualidades guerreiras para uma platéia, onde todos trajavam ricas vestimentas. Ainda que alguns caíssem feridos, com frequência mortalmente, era visível a alegria geral.

Por vezes, muitos saíam em loucas cavalgadas, acompanhados por suas matilhas de cães e dezenas de servidores, para caçar raposas e outros animais. Em meio à algazarra geral, não hesitavam em atropelar, com seus cavalos, quem cruzasse seu caminho, ou, por simples distração, conduzir seus corcéis pelos campos cultivados...

E o duro e estafante trabalho diário dos camponeses, que sustentavam a ociosidade divertida e alegre da minoria, acabava sendo parcialmente perdido.

E os campos cultivados, por aqueles que trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol, viviam em pobres cabanas e se vestiam de roupas grosseiras, ainda estavam sujeitos a ser pilhados e incendiados quando ocorriam guerras entre os senhores feudais. AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]; Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 150.

sábado, 23 de agosto de 2014

As mudanças no cotidiano na época da Revolução Francesa

Os amotinados de Fouesnant presos pela Guarda Nacional de Quimper em 1792, Jules Girardet

A revolução que provocou mudanças políticas, econômicas e sociais na França também modificou bastante o dia a dia dos franceses. Grande parte do tempo passou a ser dedicado aos debates políticos. Muitas vezes as discussões sobre assuntos políticos se estendiam até a noite. Para garantir a continuidade da discussão, os revolucionários não voltavam para casa. Eles se dirigiam aos cafés, onde continuavam a debater sobre os problemas do governo revolucionário.

Somente ao chegar em casa faziam a principal refeição do dia. Assim, o jantar - antes servido à tarde - passou a ocorrer cada vez mais tarde, quase sempre à noite.

Outra modificação nos costumes propiciada pela revolução foi a participação das mulheres nas discussões políticas. Na fase inicial, muitas mulheres participaram ativamente da revolução. Em pé de igualdade com os homens, estavam presentes nas jornadas militares, manifestações, debates políticos e festas, especialmente no período de maior radicalização da revolução.


Batalha de Torfou: as mulheres de Tiffauges barram o caminho Vendéens aos amedrontados Mayençais conduzidos por Kleber, Alfred de Chasteignier

Os camponeses em geral mantiveram seus antigos hábitos e costumes, apesar das mudanças revolucionárias que lhes garantiram a posse da terra e a abolição das obrigações feudais. No entanto, o calendário foi alterado pela Convenção e as antigas festas camponeses, como o agradecimento pela colheita e o plantio de árvores em maio, tiveram suas características modificadas. Rituais e símbolos introduzidos pela revolução substituíram os anteriores, de influência católica. A árvore passou a representar a liberdade e a tradicional fogueira era vista como uma queima dos vestígios do Antigo Regime.

Também foram introduzidas mudanças no vestuário de muitos dos franceses. Os participantes mais ativos das jornadas revolucionárias se distinguiam pelo uso frequente de uma espécie de gorro vermelho. Também chamado de barrete frígio, ele era considerado um símbolo da República e do apego à liberdade. O hábito de usar perucas semelhantes às da nobreza foi abandonado por muitos dos revolucionários.

As roupas das mulheres também passaram por mudanças, com o abandono dos vestidos armados e a adoção de longas túnicas que imitavam as vestimentas da Antiguidade grega e romana.

Os novos costumes introduzidos pela revolução afetaram ainda a organização familiar. Houve certa diminuição do poder dos pais sobre seus filhos, pois o governo revolucionário procurava educar desde cedo as crianças nos valores revolucionários. Essa educação era realizada nas escolas, criadas em grande número nesse período.

No entanto, a principal intervenção do governo revolucionário na vida familiar dos franceses daquele período foi a instituição do casamento civil. A cerimônia de casamento passou a ser realizada por um funcionário do Estado, e não mais pelos membros do clero. Além disso, foi bastante ampliado o direito ao divórcio, permitido em casos de insanidade, crimes, agressões físicas, abandono por mais de dois anos ou emigração de um dos cônjuges.

DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 46.


NOTA: O texto "As mudanças no cotidiano na época da Revolução Francesa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Características da civilização mongólica

Nenhuma civilização, talvez, submeteu-se, tanto como a dos mongóis aos imperativos da geografia e do clima. Seu habitat estépico sofre variações extremas de temperatura: uma breve primavera, um vento tórrido e dessecante, um inverno rigoroso e glacial; ventos furiosos varrem estas extensões onde não encontram qualquer obstáculo. Este clima brutal forja uma saúde inquebrantável e veda a sobrevivência dos fracos. Assim, a raça mongólica, quer a da estepe, quer a dos contrafortes florestais, é extremamente robusta. A rude existência dos caçadores, à horda da taiga, ou a dos pastores, em pleno coração das estepes, exige uma adaptação do físico: torso maciço e tórax desenvolvido sobre as pernas arqueadas pelo constante uso do cavalo; visão penetrante e grande agilidade. Todos são grandes devoradores de carne e consumidores de laticínios, e embebedam-se de bom grado. Joviais e bravos, mas capazes de inusitada crueldade, são amiúde inteligentes, astuciosos, suscetíveis mesmo de policiarem-se.


Arqueiro mongol, artista desconhecido. Miniatura chinesa da dinastia Ming, séculos XV-XVI.

A maioria das tribos são formadas de pastores. Ainda menos civilizados, e menosprezando também os pastores, os caçadores das florestas não possuem gado ou cavalos: vivem exclusivamente da caça e de alguns ofícios artesanais - carpinteiros, ferreiros. No inverno, calçam raquetas (tchana) de tábuas, apoiando-se em altos bastões a fim de caminhar os deslizar sobre a neve; outros, dotados de patins de osso polido, lançam-se sobre a neve endurecida ou sobre o gelo e capturam os animais na corrida. Suas cabanas de ramagem, recobertas de casca de bétula, são transportáveis, inteiramente montadas, em carros.

As tribos pastoris, conforme as variações do clima estépico e o estado das pastagens, são obrigados a periódicas transumâncias e à vida nômade. No inverno, os rebanhos descem para as estepes, onde faz menos frio, e aí permanecem durante a primavera, estação em que o pasto é melhor; no verão, tornam a subir os flancos das montanhas, onde os homens encontram um pouco de frescor e entram em contato com os habitantes das florestas. Em vista destes longos percursos, tudo, no acampamento, é concebido a fim de permitir fácil transporte. Os carros dispostos em círculo formam uma espécie de cercado. Permanecendo o mais das vezes totalmente armadas sobre os carros, as casas são de dois tipos: umas (ger) - impropriamente denominadas iurtas - feitas de feltro negro, em forma redonda, acham-se montadas sobre uma estrutura móvel de perchas e ripas, em torno de uma percha central, considerada sagrada; um pequeno tubo, fixo ao feltro, serve ao escapamento da fumaça e à ventilação. As outras (maican), largas e baixas, apresentam-se cobertas de lã, enquanto a tenda do chefe se distingue por sua cor branca ou "toda dourada".


Cavalaria mongol, artista desconhecido. Ilustração de manuscrito, século XV.

Os carros, de madeira, munidos de dois varais, transportam, além das provisões, um instrumental rudimentar de celhas de madeira, panelas, baldes de couro, odres e foles para o fogo. Cobrem-nos um berço estanque em feltro negro e, puxados por bois, rangem e solavancam ao longo das trilhas. Neles amontoam-se as famílias e os animais novos, demasiado débeis para que possam caminhar muito tempo. Atrás vêm os rebanhos, enquadrados por homens montados nos pequenos cavalos desgrenhados, munidos de uma sela de couro e tão vivos quanto os seus cavaleiros. Nos rebanhos, importunados pelas varejeiras, misturam-se cavalos de remonta e éguas, touros, bois e vacas, bodes domésticos, carneiros e ovelhas, e às vezes até camelos.

Como todos os nômades, os mongóis passam sem transição da fome à comezaina. Cada festa, cada acontecimento jubiloso é ocasião para um banquete. Nutrem-se de carne de cavalo e de carneiro, cozida ou assada, de leite coalhado (tarac), de alho e cebola, e de uma espécie de manteiga batida nas celhas com um pau parcialmente guarnecido de couro; em caso de escassez, cingem-se às sorvas, às bagas silvestres, às raízes comestíveis. Embriagam-se com leite de égua fermentado (cumiz), do qual sempre levam uma provisão, caso se distanciem por alguns dias. Para alimentar as fogueiras de acampamento, acesas com fuzil e mantidas com foles, usam esterco seco, espinheiras e raízes. À aproximação do inverno, abatem carneiros e constituem reservas de carne congelada; do mesmo modo, conservam o leite seco e reduzido a pó. Só as tribos que, como os markites, erram nas rotas das caravanas, conseguem farinha.


Um príncipe mongol estudando o Corão, ilustração de Rashid-ad-Din's Gami' at-tawarih. Tabriz. Século XIV.

Guerreiros, caçadores e pescadores, bem como pastores, manejam com destreza o arco e as flechas contidos num só envoltório de couro, análogo aos goritus dos citas, o sabre curvo, a lança de ferro. Desde a infância, fabricam arcos e flechas com madeira de pessegueiro ou zimbro e armam-se de pontas de osso ou madeira de cipreste. As mais temíveis são guarnecidas de uma ponta de ferro, que arranjam com os ferreiros das tribos das florestas e que untam às vezes de veneno. A caça é feita por meio de batidas em que se encurrala a presa antes de matá-la, ou de açores, gerifaltes e falcões, para caça de aves, ou de laço, para os cavalos selvagens, os hemionos (culan), os carneiros e os argalis, ou ainda mediante a perseguição a cavalo e com o arco, para os cervos, alces, antílopes e gamos. Sabem também desenterrar as marmotas (gerbos) com um instrumento de ferro, prender em armadilha os animais de pêlo, desencovar os ursos, pescar com rede os peixes dos lagos e dos rios; são auxiliados na caça como na guerra por cães famosos pela sua ferocidade. Acima do acampamento voam nuvens de pequenas gralhas; e em volta, durante a noite, rondam os lobos, os chacais e até os tigres.

Instalado o acampamento para o pouso noturno, a vigia organiza-se em torno de fogos de bivaque; os que velam jogam ganizes ou escutam os relatos que se transmitem oralmente ao longo das estepes. Quando da estação do estabelecimento, o acampamento transforma-se em "cidade"; constituem-no uma multidão de círculos de carros; as tendas são erguidas ao sol e orientadas para o sul; as do chefe e de suas mulheres, à parte das outras, compõem um palácio rudimentar ao qual são vinculados, além de numerosos servidores e escravos, um rebanho e pastagens próprias. Durante o repouso, os mongóis calandram o feltro, fabricam correias e cordas, selas e arreios, carcases e armas, vigamentos de madeira para as tendas e os carros, preparam enfim as peles e peliças.


Gengis Cã recebe embaixadores chineses, Jami' al-tawarikh, Rashid al-Din. Século XV

"O povo mongol cheira mal com suas roupas enegrecidas", confessa a História Secreta dos luan: é porque se cobre de peles e peliças, forrando os mais ricos, os seus casacos de inverno com zibelina, arminho, petit-gris ou raposa: e só depois da conquista da China vestem, na estação quente, a seda e o brocado. Os jovens de ambos os sexos conservam os cabelos longos, tapando os ouvidos. Tonsurados entre as duas orelhas, a parte frontal da cabeça rapada numa largura de três dedos, com uma franja de ambos os lados, os homens trançam seus cabelos e os prendem atrás da orelha, conservando sempre um topete que desce até os sobrolhos. As mulheres casadas embiocam-se com uma coifa de casca de árvore, da altura de dois pés chineses, que recobrem às vezes de um pano de lã ou, como sinal de opulência, de seda. O conjunto termina por uma longa cauda, que K'ieu ang-tch'uen (1221), compara a um ganso ou pato.

Sempre em estado de alerta para se defenderem dos animais selvagens ou das tribos vizinhas, estes audaciosos e ardilosos guerreiros espreitam a aproximação do vizinho que descobrem por uma nuvem de poeira no horizonte ou colando o ouvido ao solo. Agrupados em redor de seu estandarte de guerra (tuc), ao qual rendem culto e que os acompanha em todos os combates, são admiráveis cavaleiros, formando um todo com suas montarias, tão robustas como eles - contentam-se com a erva da estepe - , montarias que sabem poupar, mas às quais, no chicote, podem exigir o máximo esforço: o cavalo é o companheiro do homem, e os relatos mongólicos conferem-lhe uma verdadeira personalidade. Cobertos, em pé de guerra, de uma armadura de couro cozido, caindo como raio sobre os seus inimigos, não poupando a vida humana, os mongóis são também temíveis arqueiros, "os melhores que se conhece no mundo", nas palavras de Marco Polo. Suas tropas, perdidas na imensidão do deserto, são capazes de resistência invulgar, satisfazendo-se com leite de égua que bebem dos odres suspensos na sela, com bagos silvestres e caça abatida ao acaso no caminho, dormindo e velando a cavalo, cobrindo as rédeas soltas enormes distâncias. Se faltam os víveres, podem subsistir durante 10 dias, sugando o sangue de seus cavalos, nos quais abrem uma veia, tapada em seguida com estopa, ou diluindo e remexendo o pó de leite seco em um pouco de água.

Em caso de ataque de surpresa, entrincheiram-se atrás de seus carros dissimulados por moitas, ou fogem disparando sempre suas flechas, pois sabem voltar-se para a garupa de seus cavalos lançados a galope: tática terrificante que os citas e os partos já empregavam. Utilizam de bom grado os serviços de trânsfugas e espiões e vêem na guerra apenas uma oportunidade de matanças, raptos e rapinas. Os cativos sofrem bárbaros suplícios: só os que eles apreciam têm direito à morte por asfixia, sem efusão de sangue, pois acreditam que a alma reside no sangue. Salteadores, rapinantes e bandidos, como todos os nômades, travam entre si inexplicáveis vendetas, exterminando sem dó toda uma família, apoderando-se do gado, saqueando o material e queimando mesmo para sempre as pastagens dos clãs vizinhos. Como a presa da caça, o espólio de guerra é repartido entre os chefes, os oficiais e os guerreiros.

PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. (História geral das civilizações, 7)

NOTA: O texto "Características da civilização mongólica" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Pão na era colonial

Desde que aportaram em terras brasileiras, os europeus, especialmente os portugueses, buscaram recriar os costumes e valores a que estavam acostumados em sua terra natal. Por isso, logo após a chegada das primeiras naus, houve um empenho para trazer seu repertório culinário, que incluía, além de uma série de utensílios e práticas culinárias, os alimentos (as carnes, o trigo, o sal e o vinho).

Várias espécies europeias foram aclimatadas em solo brasileiro, como a vinha, o marmelo, as figueiras, entre tantas outras frutas e legumes. No entanto, uma, em especial, mereceu os esforços dos colonos, por causa do papel central que ocupava na alimentação dos europeus: o trigo.


Produção de pão no Egito antigo. Pintura mural em tumba

Na Antiguidade, esse cereal já estava presente na alimentação do Velho Mundo e seu consumo era encarado como uma condição intrínseca à humanidade, principalmente após a ascensão do catolicismo - o pão, feito de trigo, representa o corpo de Cristo, símbolo importante na comemoração da Páscoa. Porém, o cereal foi um luxo reservado a poucos e não participou das mesas de grande parte dos homens comuns, que usavam grãos considerados secundários, como aveia e centeio, muitas vezes de má qualidade ou podres, para preparar seus pães, como mostra o historiador e antropólogo Piero Camporesi [...].

O que é uma ironia, pois nos dias de hoje, sob a égide da cultura da saúde e do bem-estar, essa hierarquia de valores se inverteu. O pão branco, feito de farinha refinada, embora ainda seja o mais preferido entre os brasileiros, é tido como pouco nutritivo, se comparado ao confeccionado com outros cereais ou grãos, como a aveia, o centeio e a linhaça.

Nos primeiros anos da colonização brasileira, a falta de pão de trigo era uma constante. O fato não se devia propriamente à ausência da produção do cereal, mas estaria relacionado às precariedades de seu abastecimento. Tal situação fazia com que os moradores sofressem constantemente com a escassez, a má qualidade e, sobretudo, com os altos preços de venda do produto. Dessa forma, eles não tiveram outra saída senão criar alternativas para substituir a farinha de trigo na confecção de pães e outros quitutes.

A mandioca foi o alimento que mais mereceu destaque nesse contexto. Os cronistas da época destacam os vários usos culinários que se podiam fazer da raiz nativa, em especial a produção de alimentos que se aproximavam dos já conhecidos na ementa portuguesa. Nesse sentido, temos a farinha d'água, ou puba, que, por ter uma aparência fina e ser mais alva, foi bem aceita pelos portugueses, sendo com frequência substituta da farinha de trigo na confecção de muitas receitas.

O caráter cromático e o gosto da mandioca se aproximavam mais do trigo, motivo pelo qual a raiz era considerada a mais panificável aos olhos europeus. Por essa razão, o milho, ingrediente também abundante no país e que se transforma em farinha de cor bem amarelada, não teve a mesma predileção dos portugueses.

Além disso, a mandioca seria o alimento nativo que reproduzia com mais familiaridade os valores produtivos e culturais associados ao trigo. É preciso lembrar que, naqueles tempos, a "cultura agrícola" existente em torno dela requeria uma série de conhecimentos, como a tecnologia utilizada na transformação da raiz tóxica em alimento pronto para o consumo humano. A confecção, tanto da farinha de pão quanto da farinha fresca, estava envolta por uma cultura culinária que demandava tempo, utensílios e processos indispensáveis não só à sua fabricação, mas também à sua conservação e ao seu armazenamento.

No entanto, sabe-se que a farinha de trigo nunca poderia ser totalmente substituída, uma vez que era revestida de um intenso significado religioso, principalmente porque dela se confeccionavam as hóstias para celebrações religiosas. Mas, mesmo diante da impossibilidade de achar um substituto à altura, a necessidade falava mais alto e os colonos tinham de ajustar seu paladar ao que a terra oferecia, selecionando entre as opções disponíveis as espécies que mais lhe fossem convenientes. Assim, uma coisa era o desejo e outra, o consumo de fato. E nesse âmbito acreditamos que o uso dos gêneros nativos tenha sido uma constante ao longo de todo o período colonial.

Rafaela Basso. "Pão na era colonial". In: Menu. Abril, 2014. p. 29 e 31.

NOTA: O texto "Pão na era colonial" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente II: Os gêneros de vida; Os Bárbaros e a cidade

Armim diz adeus a Thusnelda, Johannes Gehrts

Tornou-se um lugar comum relacionar a civilização germânica a uma vida mais ou menos nômade ou errante, estranha todavia às tradições da vida urbana. As invasões bárbaras teriam então provocado uma desintegração das cidades, das relações do comércio e do artesanato urbano, da própria economia monetária. [...]

Certamente, o habitat natural dos germanos, nas regiões do Norte ao menos, não era a cidade cercada por muralhas, nem a villa romana de pedra, mas a aldeia, onde as cabanas de madeira alinhavam-se em filas. Não se sabe se estas aldeias correspondem a novos estabelecimentos ou se foram instalados sobre ruínas de villae destruídos. Muitas também, sem dúvida, são uma continuidade das antigas aldeias celtas, do mesmo tipo, que a ocupação romana não havia feito desaparecer completamente. Desse modo, a extinção ou o enfraquecimento dos gêneros de vida propriamente romanos explicam-se tanto pela revivescência de “barbáries indígenas” como pelo êxito de “barbáries importadas” (L. Musset). A evolução certamente foi muito lenta e pouco perceptível aos olhos dos contemporâneos, que continuaram a empregar o mesmo nome: villa depois village.

Em todo o Ocidente, todavia, o estabelecimento dos bárbaros marca um certo declínio das cidades, bem desigual, é verdade. Essa regressão foi, efetivamente, bem mais forte na Gália: os habitantes abandonam uma parte importante da cidade e se refugiam num núcleo fortificado, perto das arenas ou frequentemente próximo a uma porta. [...] Ao passo que na Espanha e na Itália, quase todas as cidades conservam, senão suas atividades, ao menos sua importância como outrora [...].

[...]

Godos atravessam um rio, Évariste Vital Luminais

Na Gália, na Espanha e na Itália, os reis francos ou godos não eram reis nômades, mas mantinham seus palácios em várias cidades administrativas. Uma feliz abordagem do assunto realizado por E. Ewig salienta a importância das cidades capitais, residências reais, enriquecidas por uma corte, estabelecimentos administrativos, escolas, santuários, uma basílica funerária para a dinastia. [...] As grandes residências principescas, condais ou episcopais, fortificadas, cercadas de casas da família, os santuários dispersos pela cidade ou fora de seus muros, os burgos abaciais, frequentemente cercados por muralhas, movimentados pelo mercado e pelo trabalho dos artesãos, caracterizam de maneira decisiva a paisagem urbana da Gália, entre o Sena e o Reno. Às antigas cidades romanas já se substituem cidades mais anárquicas, principalmente cidades duplas ou múltiplas, aglomerações, “conglomerados de cidades”.

Na Espanha, os visigodos, criadores de gado, estabelecem-se nos altos planaltos do centro. Sua instalação provoca sem dúvida um enfraquecimento da vida urbana: episódio dramático dessa fase foi a destruição de Cartagena, retomada aos bizantinos em 618. Os godos mantêm, entretanto, algumas guarnições nas cidades do Norte; alguns casam-se com mulheres da aristocracia hispano-romana; [...]

[...]

HEERS, Jacques. História medieval. São Paulo: Difel, 1974. p. 28-29.


NOTA: O texto "Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente II: Os gêneros de vida; Os Bárbaros e a cidade" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

"Teúdas e manteúdas" no Brasil imperial

[...] até o período em que se deu a Independência, vivia-se na América portuguesa num cenário com algumas características invariáveis: a família patriarcal era o padrão dominante entre as elites agrárias, enquanto, nas camadas populares rurais e urbanas, os concubinatos, uniões informais e não legalizadas e os filhos ilegítimos eram a marca registrada. A importância das cidades variava de acordo com sua função econômica, política, administrativa e cultural. Alguns números ilustram os contingentes demográficos: São Paulo contava com cerca de 20 mil habitantes, Recife, com 30 mil, Salvador, com 100 mil, e o Rio de Janeiro, graças à vinda de portugueses seguindo d. João VI em seu exílio tropical, era a única a contar com mais de 100 mil residentes. A população urbana, contudo, crescia, alimentando uma forte migração interna (campo-cidade) e externa (tráfico negreiro). Apesar dos problemas de abastecimento, higiene e habitação, as cidades atraíam pela enorme oportunidade que ofereciam de mobilidade social e econômica.


Quando a América ainda era portuguesa, cochichos, piscadelas e sinais com os dedos: sedução pela janela. Huma história, 1822. Henry Chamberlain

Com todas essas transformações, é bom não perder de vista que, de acordo com vários viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX (Saint-Hilaire, Tollenare, Debret, Rugendas, Koster, Luccock, Maria Graham), a paisagem urbana brasileira ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro, e de alguns centros onde a agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas – caso de Salvador, São Luís e Ouro Preto -, a maior parte das vilas e cidades não passava de pequenos burgos isolados com casario baixo e discreto, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Mesmo na chamada corte, o Rio de Janeiro, as mudanças eram mais de forma do que de fundo. A requintada presença da Missão Francesa pode ter deixado marcas na pintura, ornamentação e arquitetura. Mas as notícias dos jornais Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822) e Idade de ouro do Brasil (1811-1823), órgãos da imprensa oficial, ou mesmo a inauguração do Real Teatro de São João, onde se exibiam companhias estrangeiras e onde soltavam seus trinados artistas como a graciosa Baratinha ou as madames Sabini e Toussaint, não eram suficientes para quebrar a monotonia intelectual. Além do popular entrudo e dos saraus familiares, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical.


O importuno, Almeida Junior

Os viajantes que por aqui passaram na primeira metade do século XIX concordavam num ponto: "a moralidade reinante no Rio de Janeiro se apresenta bem precária", como dizia o mineralogista inglês Alexander Caldcleugh. Já o francês Freycinet queixava-se dos vícios de libertinagem. Afinal, tratava-se de um país onde "não e difícil encontrar-se todo tipo de excessos". E seu conterrâneo Arago cravava: "o Rio era uma cidade onde os vícios da Europa abundavam". Eles tomavam como vícios os concubinatos e adultérios, correntes sobretudo nas camadas mais pobres da população, em que se multiplicavam as "teúdas e manteúdas". Para a chamada "poligamia tropical" não faltaram explicações associadas ao clima quente, como a dada por J. K. Tuckey:

"Entre as mulheres do Brasil, bem como as de outros países de zona tórrida, não há intervalo entre os períodos de perfeição e decadência; como os delicados frutos do solo, o poderoso calor do sol amadurece-as prematuramente e, após um florescimento rápido, deixam-nas apodrecer; aos quatorze anos tornam-se mães, aos dezesseis desabrochou toda a sua beleza, e, aos vinte, estão murchas como as rosas desfolhadas no outono. Assim a vida das três destas filhas do sol difere muito da de uma europeia; naquela, o período de perfeição precede muito o de perfeição mental, e nesta, uma perfeição acompanha a outra. Sem dúvida, esses princípios influenciam os legisladores do Oriente em sua permissão da poligamia; pois na zona tórrida, se o homem ficar circunscrito a uma mulher precisará passar quase dois terços de seus dias unido a uma múmia repugnante e inútil para a sociedade, a não ser que a depravação da natureza humana, ligada à irritação das paixões insatisfeitas os conduzisse a livrar-se do empecilho por meios clandestinos. Essa limitação a uma única mulher, nas povoações europeias da Ásia e das Américas, é uma das principais causas de licenciosidade ilimitada dos homens e do espírito intrigante das mulheres. No Brasil, as relações sexuais licenciosas talvez igualem o que sabemos que predominou no período mais degenerado do Império Romano."

Outra explicação, dessa vez dada pelo conde de Suzanet, em 1825, afirmava que as mulheres brasileiras gozavam de menos privilégio do que as do Oriente. Casavam-se cedo, logo se transformando pelos primeiros partos, perdendo assim os poucos atrativos que podiam ter tido. Os maridos apressavam-se em substituí-las por escravas negras ou mulatas. "O casamento é apenas um jogo de interesses. Causa espanto ver uma moça, ainda jovem, rodeada de oito ou dez crianças; uma ou duas, apenas, são dela, outras são do marido; os filhos naturais são em grande número e recebem a mesma educação dos legítimos. A imoralidade dos brasileiros é favorecida pela escravidão e o casamento é repelido pela maioria, como um laço incômodo e um encargo inútil. Disseram-me que há distritos inteiros em que só se encontram dois ou três lares constituídos. O resto dos habitantes vive em concubinato com mulheres brancas ou mulatas."

"Nascer do outro lado dos lençóis" era o eufemismo empregado para designar bastardia. E não foram poucas as famílias assim constituídas. João Simões Lopes, o visconde da Graça, estancieiro, comerciante e chefe do partido conservador em Rio Grande, tinha uma vida nada convencional na segunda metade do século XIX. Casado, mantinha na mesma rua em que morava, três casas abaixo, sua amante. Quando sua esposa deu à luz um filho, quase na mesma semana nascia-lhe outra da "teúda e manteúda" Vicência Ferreira Lira. Teve, com cada uma delas, dez filhos, sendo pai de doze de um primeiro casamento do qual ficou viúvo. O arranjo não causava discórdia. Nas missas de domingo, a legítima esposa ficava de um lado da igreja e a concubina, do outro. Todos muito devotos!

DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011. p. 62-65.

NOTA: O texto "Teúdas e manteúdas no Brasil imperial" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.