"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 25 de março de 2017

Contrato geral para a Grande Pirâmide

Memória de Gizé, Eugen Bracht

Uma das oitenta pirâmides remanescentes, a Grande Pirâmide de Quéops, em Gizé, é a maior estrutura em pedra de todo o mundo. Os antigos egípcios nivelaram sua base de cerca de 52 quilômetros quadrados - um quadrado perfeito - com tanta maestria que o ângulo sudeste é apenas um centímetro mais alto que o ângulo noroeste. O interior é massa praticamente sólida de lajes de calcário, o que exigiu excelentes técnicas de engenharia para proteger as pequenas câmaras mortuárias do peso maciço das pedras acima. O teto da Grande Galeria foi construído em camadas e escorado, enquanto a câmara do faraó recebeu um teto de seis camadas de granito sobre compartimentos separados, para aliviar a tensão e deslocar o peso dos blocos diretamente acima. Construída em 2600 a.C. para durar para sempre, permanece até nossos dias. Se você fosse construir a Grande Pirâmide, precisaria de:

Material
* 2.300.000 blocos de calcário, cada um pesando em média 2 1/2 toneladas
* Ferramentas rudimentares para cortar cobre e pedra
* Barcaças para trazer os blocos das pedreiras da margem leste para a margem oeste do Nilo
* Rolos de madeira, rampas temporárias de tijolos, pranchas de madeira para levantar as pedras no local da construção
* Calcário branco-perolado para revestir a superfície de uma pirãmide de 160 metros de altura

Pessoal
* 4.000 operários para mover blocos de até 15 toneladas, sem a ajuda de animais de tração, roda ou talhadeira

Tempo estimado
* 23 anos (na época, o tempo médio de vida era 35 anos)

STRICKLAND, Carol. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

domingo, 6 de março de 2016

Origem dos antigos egípcios

Três jovens instrumentistas. Pintura mural, XVIIIª dinastia, c. 1400 a.C.

[...] a despeito das discrepâncias que apresentam, o seu grau de convergência prova que a base da população egípcia no período dinástico era negra. Assim, todas elas são incompatíveis com a teoria de que o elemento negro se infiltrou no Egito em período tardio. Pelo contrário, os fatos provam que o elemento negro era preponderante do princípio ao fim da história egípcia, particularmente se observarmos, uma vez mais, que 'mediterrânico' não é sinônimo de 'branco'. [...] as representações dos homens do período proto-histórico, o mesmo do período dinástico, são absolutamente incompatíveis com a ideia de raça egípcia difundida entre os antropólogos ocidentais. Onde quer que o tipo racial autóctone esteja representado com alguma clareza, ele é nitidamente negroide. Em parte alguma elementos indo-europeus ou semitas são representados como homens livres, nem mesmo como cidadãos comuns a serviço de um chefe local. Eles aparecem como estrangeiros submetidos [...]. A melanina, substância química responsável pela pigmentação da pele, é, geralmente, insolúvel e preserva-se por milhões de anos na pele dos animais fósseis. Portanto há razões de sobra para que seja facilmente encontrada na pele das múmias egípcias, apesar da lenda persistente segundo a qual a pele das múmias, tingida pelo material de embalsamamento, já não é suscetível de qualquer análise [...]. De qualquer forma, queremos simplesmente afirmar que a avaliação do nível de melanina através dos exames de microscópio é um método de laboratório que nos permite classificar os antigos egípcios inquestionavelmente entre as raças negras. [...]

Para os escritores gregos e latinos contemporâneos dos antigos egípcios, a classificação física desses últimos não colocava problemas: os egípcios eram negros, de lábios grossos, cabelo crespo e pernas finas. [...]

Não é perda de tempo conhecer o ponto de vista dos principais envolvidos. Como os antigos egípcios viam a si mesmos? Em que categoria étnica se colocavam? Como se denominavam a si mesmos? A língua e a literatura que os egípcios da época faraônica nos deixaram fornecem respostas explícitas a essas questões, que os acadêmicos insistem em subestimar, distorcer e 'interpretar'.

Os egípcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos: kmt = 'os negros' (literalmente). Esse é o termo mais forte existente na língua faraônica para indicar a cor preta; assim, é escrito com um hieróglifo representando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada [...]. Finalmente, preto ou negro é o epíteto divino invariavelmente utilizado para designar os principais deuses benfeitores do Egito, enquanto os espíritos malévolos, são qualificados como desrêt = vermelho. Sabemos que, entre os africanos, esse termo se aplica às nações brancas [...].

De maneira geral, toda a tradição semítica (judaica e árabe) classifica o antigo Egito entre os países dos negros. A importância desses depoimentos não pode ser ignorada, porque os judeus eram povos que viviam lado a lado com os antigos egípcios e, algumas vezes, em simbiose com estes, e nada tinham a ganhar apresentando uma falsa imagem étnica dos mesmos. [...]

DIOP, Cheikh Anta. "Origem dos antigos egípcios". In: MOKHTAR, G. (Coord.). História Geral da África. A África Antiga. São Paulo: Ática/UNESCO, 1983. p. 39-70.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O legado do Egito faraônico

Lago sagrado de Karnak, Carl Wuttke

As valiosas contribuições que o Egito faraônico legou à humanidade podem ser verificadas em diversos campos, como a história, a economia, a ciência, a arte e a filosofia. [...]

De fato, essa herança - ou pelo menos os seus testemunhos, tão importantes para a história da humanidade - transmitiu-se, em grande parte, através da Antiguidade Clássica [...] antes de chegar aos árabes.

Um dos mais antigos e notáveis avanços da civilização egípcia verificou-se no campo da economia. Ao final do Neolítico [...] os antigos egípcios transformaram gradualmente o Vale do Nilo, permitindo que seus habitantes passassem de uma economia de coleta a uma economia de produção de alimentos; [...] O desenvolvimento da agricultura possibilitou aos antigos egípcios adotarem uma forma de vida aldeã, estável e integrada, o que, por sua vez, afetou seu desenvolvimento social e moral, não apenas no período pré-histórico, mas também durante o período dinástico.

Decorre daí um outro desenvolvimento fundamental: a introdução de um novo sistema social no interior da comunidade, ou seja, a especialização do trabalho. Trabalhadores especializados surgem na agricultura, na irrigação, nas indústrias agrícolas, na cerâmica e em diversas outras atividades afins. [...]

A civilização faraônica distinguiu-se pela continuidade do seu desenvolvimento. Toda aquisição é transmitida - e aperfeiçoada - do começo ao fim da história do antigo Egito. Assim, as técnicas do Neolítico foram enriquecidas no período pré-dinástico (-3500 a -3000), mantendo-se ainda em pleno período histórico. É o que testemunha, por si só, a arte de trabalhar a pedra.

Já por volta de -3500, os egípcios, herdeiros do Neolítico do vale, utilizaram-se dos depósitos de sílex ali localizados para esculpir instrumentos de qualidade incomparável, dos quais a faca de Djebel el-Arak é um exemplo entre centenas de outros. A mesma perícia está presente na confecção de vasos de pedra. As técnicas de talhar a pedra foram transmitidas posteriormente ao mundo mediterrânico. Tudo leva a crer que as técnicas de confecção dos vasos de pedra cretenses tenham sido aprendidas se não no próprio Egito, pelo menos num meio inteiramente impregnado da cultura egípcia, como o corredor sírio-palestino. [...]

A habilidade dos canteiros que trabalhavam com pedra dura transmitiu-se aos escultores, o que se pode constatar pelas grandes esculturas egípcias nesse material. A técnica passou, então, para os escultores do período ptolomaico e posteriormente encontrou expressão na estatuária do Império romano.

[...] O legado material compreende o artesanato e as ciências (geometria, astronomia, química), a matemática aplicada, a medicina, a cirurgia e as produções artísticas; o cultural abrange a religião, a literatura e as teorias filosóficas.

A contribuição do antigo Egito à produção artesanal aparece nos trabalhos em pedra, mas também no artesanato em metal, madeira, vidro, marfim, osso e muitos outros materiais.

Já nos primórdios do período dinástico (cerca de -3000), os egípcios conheciam e empregavam todas as técnicas básicas da metalurgia. Além dos utensílios, foram encontradas grandes estátuas egípcias de cobre, datadas de -2300, e cenas de mastabas de um período ainda mais remoto mostram as oficinas onde o ouro e o electro são transformados em joias. [...]

A cultura precoce do linho fez com que muito cedo os egípcios adquirissem grande habilidade na fiação manual e na tecelagem. [...] Para os faraós, os tecidos constituíam um produto de troca particularmente apreciado no exterior. O mais fino, o bisso, era tecido nos templos e gozava de fama especial. A administração central dos Ptolomeus organizava as vendas ao estrangeiro que trouxeram ao rei grandes lucros. Temos aqui um exemplo de uma das maneiras pelas quais se transmitiu o legado egípcio.

As indústrias da madeira, do couro e do metal aperfeiçoaram-se, e os seus produtos conservaram-se em boas condições até nossos dias. Os antigos egípcios tinham um talento especial para tecer junco selvagem, confeccionando esteiras, e a fibra da palmeira possibilitou a produção de redes e cordas resistentes.

A manufatura da cerâmica teve início na Pré-História, com formas bastante rudimentares, evoluindo em seguida para uma cerâmica mais fina, vermelha e de bordas negras, mais tarde polida e gravada. A crença em determinados valores e, em particular, na vida eterna, por exigir a manufatura de uma grande quantidade de objetos para os mortos, levou a uma grande produção, de alto grau de perfeição.

Deve-se ao Egito, se não a invenção, pelo menos a difusão das técnicas de fabricação do vidro a toda a civilização mundial. [...] A partir de -700 aproximadamente, os vasos egípcios de vidro conhecidos como "alabastro" difundiram-se por toda a região do Mediterrâneo. Os fenícios os copiaram, e sua manufatura transformou-se em indústria.

Uma das indústrias mais importantes do antigo Egito foi a do papiro, de invenção autóctone. Nenhuma outra planta teve, no Egito, papel tão significativo. As fibras do papiro eram usadas na fabricação ou calafetagem de embarcações e na confecção de pavios de candeeiros a óleo, esteiras, cestos, cordas e cabos. Vinte folhas de papiro, unidas enquanto ainda úmidas, formavam um rolo de 3 a 6 m de comprimento. Vários rolos podiam ser unidos de modo a formar uma unidade de 30 ou 40 m de comprimento; tais rolos constituíam os "livros" egípcios. Eram segurados com a mão esquerda e desenrolados à medida que se fazia a leitura. O herdeiro direto desse rolo é o "volume" da Antiguidade Clássica.

De todos os materiais empregados como suporte para a escrita na Antiguidade, o papiro certamente foi o mais prático, por ser flexível e leve. A fragilidade, porém, era o seu único inconveniente. Utilizado no Egito desde a I dinastia (cerca de -3000) até o fim do período faraônico, o papiro foi, mais tarde, adotado pelos gregos, romanos, coptas, bizantinos, arameus e árabes. Os rolos desse material constituíam um dos principais produtos de exportação do Egito. O papiro foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores legados do Egito faraônico à civilização.

[...]

A tradição e a perícia na construção em pedra não foram uma contribuição técnica menor dos egípcios ao mundo. Não era nada fácil transformar os imensos blocos brutos de granito, calcário, basalto e diorito em blocos bem talhados e polidos, destinados a diferentes projetos arquitetônicos. Além disso, a busca de pedras para a construção dos monumentos, assim como a prospecção de minérios metálicos e a procura de fibras, de pedras semipreciosas e de pigmentos coloridos contribuiu para a difusão das técnicas egípcias na África e na Ásia.

A perícia dos egípcios no trabalho da madeira manifesta-se brilhantemente na construção naval. [...]

O Egito faraônico nos deixou valiosa herança nos campos da física, química, zoologia, geologia, medicina, farmacologia, geometria e matemática aplicada. De fato, legou à humanidade uma grande reserva de experiências em cada um desses domínios, alguns dos quais foram combinados de modo a possibilitar a realização de objetivos específicos.

Um dos melhores exemplos da engenhosidade dos antigos egípcios é a mumificação, que ilustra o conhecimento profundo que tinham de inúmeras ciências [...]. Foram sem dúvida os conhecimentos adquiridos com a prática da mumificação que permitiram aos egípcios o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas desde os primeiros tempos de sua história. A cirurgia egípcia é bastante conhecida graças ao Papiro Smith, cópia de um original escrito durante o Antigo Império, entre -2600 e -2400, um verdadeiro tratado sobre cirurgia dos ossos e patologia externa. Ainda hoje são aplicados vários tratamentos indicados nele.

Por sua abordagem metódica, o Papiro Smith serve como testemunho da habilidade dos cirurgiões do antigo Egito, habilidade que, supõe-se, foi transmitida pouco a pouco à África, à Ásia e à Antiguidade Clássica pelos médicos que acompanhavam as expedições egípcias aos países estrangeiros. Além disso, sabe-se que [...] Hipócrates tinha acesso à biblioteca do templo de Imhotep em Mênfis. Posteriormente, outros médicos gregos seguiram-lhe o exemplo.

Pode-se considerar o conhecimento da medicina como uma das mais importantes contribuições científicas do antigo Egito à história da humanidade. Documentos mostram detalhadamente os títulos dos médicos egípcios e seus diferentes campos de especialização. [...] A influência egípcia sobre o mundo grego, tanto na medicina como na farmacologia, é facilmente reconhecível nos remédios e nas prescrições.

A farmacopeia egípcia abrangia grande variedade de ervas medicinais, cujos nomes, lamentavelmente, são intraduzidas. As técnicas medicinais e os medicamentos egípcios gozavam de grande prestígio na Antiguidade, conforme revela Heródoto. Para a execução de seu trabalho, os médicos dispunham de uma grande variedade de instrumentos.

Outro importante domínio da ciência a que os antigos egípcios se dedicaram foi a matemática. As medições acuradas dos seus enormes monumentos arquitetônicos e escultóricos constituem uma excelente prova e sua preocupação com a precisão. [...]

Do Médio Império (-2000 a -1750) chegaram-nos dois importantes papiros matemáticos: o de Moscou e o Rhind. O método egípcio de numeração, baseado no sistema decimal, consistia em repetir os símbolos dos números (unidades, dezenas, centenas, milhares) tantas vezes quanto fosse necessário para obter o número desejado. Não existia o zero. Na matemática egípcia podem-se distinguir três partes: a aritmética, a álgebra e a geometria.

O conhecimento da geometria encontrou considerável aplicação prática na agrimensura, que desempenhou um papel significativo no Egito.

[...]

O calendário civil egípcio constava de um ano de 365 dias, o mais exato conhecido na Antiguidade. Ao lado desse calendário civil, os egípcios também utilizavam um calendário religioso, lunar, estando aptos a prever com razoável precisão as fases da Lua.

[...]

Para determinar as horas do dia, que também variavam conforme as estações, os egípcios utilizavam um gnomon, isto é, uma simples vara plantada verticalmente numa prancha graduada, munida de um fio de prumo. O instrumento servia para a medição do tempo gasto na irrigação dos campos, uma vez que a água tinha de ser distribuída imparcialmente. Assim como o gnomon, os egípcios tinham relógios de água colocados no interior dos templos. Esses relógios foram tomados de empréstimo e aperfeiçoados pelos gregos: são as clepsidras da Antiguidade. Eram feitos no Egito já em -1580.

Os antigos egípcios aplicaram seus conhecimentos de matemática à extração, transporte e assentamento dos enormes blocos de pedra utilizados em seus projetos arquitetônicos. O Egito desenvolveu uma grande variedade de formas arquitetônicas, das quais a pirâmide, sem dúvida, é a mais característica. [...]

Até a conquista romana, a arquitetura civil continuou a empregar o tijolo cru, mesmo nas construções de palácios reais. Outra contribuição no campo da arquitetura é a criação da coluna, que, a princípio, era embutida na parede e mais tarde tornou-se isolada.

A paisagística e o urbanismo são outros aspectos da arquitetura egípcia. Esse gosto egípcio por jardins-parque transmitiu-se aos romanos.

[...]

Um fato, ao menos, parece confirmado: as tradições arquitetônicas dos faraós penetraram na África através de Méroe e, depois, de Napata, que transmitiram formas - pirâmides e pilonos, entre outras - e técnicas - construção com pedras talhadas pequenas e bem modeladas.

A contribuição cultural, esse aspecto abstrato do legado egípcio faraônico, abrange as contribuições nos domínios da escrita, da literatura, da arte e da religião.

Os egípcios desenvolveram um sistema de escrita hieroglífica em que muitos dos símbolos derivaram do seu meio ambiente africano. Pode-se afirmar, portanto, que não se trata de um empréstimo, mas de uma criação original.

Os contatos culturais com a escrita semítica ocorridos no Sinai devem ter contribuído para a invenção de um verdadeiro alfabeto. Este foi tomado de empréstimo pelos gregos, e sua influência estendeu-se à Europa. Os antigos egípcios inventaram igualmente os instrumentos de escrita. A descoberta do papiro, transmitido à Antiguidade Clássica, certamente contribuiu para a difusão de ideias e conhecimentos. A extensa literatura da época faraônica cobre todos os aspectos da vida dos egípcios, desde as teorias religiosas até os textos literários, como narrativas, peças de teatro, poesia, diálogos e crítica. [...]

Bom exemplo dos sentimentos expressos na literatura egípcia é o texto inscrito em quatro urnas funerárias de madeira encontradas em el-Bersheh, no médio Egito. Pode-se admitir, finalmente, que determinados elementos da literatura egípcia tenham sobrevivido até nossos dias graças às maravilhosas narrativas da literatura árabe. Esta, com efeito, parece ter suas fontes na tradição oral egípcia.

[...] Os antigos egípcios aliavam às suas atividades terrenas a esperança de uma vida após a morte; assim, a arte egípcia é particularmente expressiva por representar crenças profundamente arraigadas.

[...]

Pode-se considerar a religião como uma das contribuições filosóficas do Egito. Os antigos egípcios desenvolveram inúmeras teorias sobre a criação da vida, o papel das forças naturais e a reação da comunidade humana frente a elas, assim como sobre o mundo dos deuses e sua influência no pensamento humano, os aspectos divinos da realeza, o papel dos sacerdotes no interior da comunidade e a crença na eternidade e na vida além-túmulo.

Essa profunda experiência do pensamento abstrato influenciou a comunidade egípcia de tal modo que terminou por produzir um efeito duradouro sobre o mundo exterior. Para o historiador, é visível a influência religiosa egípcia sobre certos aspectos da religião greco-romana, como se pode constatar pela popularidade da deusa Ísis e do seu culto na Antiguidade Clássica.

A Fenícia desempenhou um papel especialmente importante na transmissão do legado faraônico ao resto do mundo. A influência do Egito sobre a Fenícia pode ser atribuída aos contatos econômicos e culturais entre as duas regiões. [...] Os contatos com a Fenícia eram indispensáveis para a importação de matérias-primas vitais, como a madeira. Os comerciantes egípcios estabeleceram um santuário em Biblos, cidade com que mantinham estreitos contatos comerciais. A cultura e as ideias egípcias difundiram-se por toda a Bacia do Mediterrâneo por intermédio dos fenícios.

A influência da cultura egípcia sobre a sabedoria bíblica, entre outras, é notável. As relações comerciais e culturais com o Levante estabeleceram-se ao longo do II e do I milênio antes da Era Cristã, período que compreende o Médio e o Novo Império, bem como as últimas dinastias. Os contatos desenvolveram-se naturalmente, acompanhando a expansão política e militar egípcia; traços da arte egípcia aparecem em vários sítios sírios e palestinos.

[...]

Vestígios da escrita hieroglífica egípcia foram encontrados nos textos semíticos do Levante. [...]

Esse vasto legado faraônico, disseminado pelas civilizações antigas do Oriente Próximo, foi por sua vez transmitido à Europa moderna por intermédio do mundo clássico. Os contatos econômicos e políticos entre o Egito e o mundo mediterrânico oriental, no período histórico, resultaram na disseminação de objetos da civilização faraônica por regiões como a Anatólia e o mundo egeu pré-helênico.


Os fragmentos retratam cenas da famosa expedição promovida pela rainha Hatshepsut para o reino de Punt. Relevo em pedra calcária, XVIIIª dinastia (c. 1473-1458 a.C.). A cena mostra o governante de Punt e sua esposa. O príncipe, com cabelos curtos e barba longa, usa um saiote com uma adaga na cintura e um bastão na mão esquerda. A esposa  é retratada como uma figura obesa. Os nativos de Punt carregam produtos para a delegação egípcia.

Ao lado das relações entre o Egito faraônico e o mundo mediterrânico, é importante sublinhar a presença de laços culturais a unir o Egito ao interior africano. Tais vínculos existiram tanto na pré-história quanto na época histórica. A civilização egípcia impregnou as culturas africanas vizinhas. Estudos comparativos comprovaram a existência de elementos culturais comuns à África negra e ao Egito, como, por exemplo, a relação entre a realeza e as forças naturais. [...]

SILVÉRIO, Valter Roberto (coord.). Síntese da coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013. p. 172-5, 177-181.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O legado cartaginês

O declínio do Império Cartaginês, William Turner

Os múltiplos contatos de ordem econômica que os cartagineses estabeleceram entre diversos povos da bacia mediterrânea resultaram em intercâmbio cultural intenso que contribuiu para a difusão da civilização. [...] Antes de mais nada, os cartagineses podem ser considerados como propagadores do alfabeto fenício ou, pelo menos, da ideia de um alfabeto consonântico. Assim, é que, provavelmente, podemos atribuir a origem das antigas escritas líbicas ao alfabeto púnico. [...]

É interessante notar a influência multissecular, mesmo depois da data fatídica de 146, da civilização cartaginesa nos berberes. G. H. Bousquet, analisando essa influência acentua que Cartago foi, para os berberes, durante séculos "o único farol de uma civilização superior" e indica alguns pontos em que provavelmente se fez sentir tal influência: língua, artes e religião." [...]

Denise Paulme, estudando as civilizações africanas, assinala as relações dos cartagineses com os garamantes, os predecessores imediatos e, numa medida difícil de determinar, antepassados dos tuaregues. Na época de Cartago, caravanas de garamantes transportavam através do deserto do Saara, para as cidades do litoral mediterrâneo, penas e ovos de avestruz. marfim e escravos recolhidos na África Central, ouro em pó do Sudão. Assim, durante séculos, o interior africano esteve em contato permanente com o litoral e sofreu, sem dúvida, o benfazejo influxo dos centros civilizados.

Concluamos com a curiosa observação de que o nome dado ao continente, África, é de origem púnica e era reservado, no Império Romano, para a província de Cartago. "Ainda hoje, os árabes chamam Ifrikia o país que chamamos Tunísia. Como explicar, sem uma influência profunda e durável sobre as regiões situadas ao sul do Saara, a sorte prodigiosa de um nome que se estendeu dos púnicos ao continente inteiro à medida que se avançava na descoberta do mesmo?"

GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 242-244.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Presença estrangeira no Antigo Egito

Joseph, Lawrence-Alma Tadema

Os faraós sempre apresentaram o Egito como uma terra inexpugnável, numa espécie de mistificação que tinha a ver com o poderio militar e com a autoridade religiosa de que eles gozavam. À integridade do território, eles procuravam garantir castigando exemplarmente aqueles que tentavam violá-la. Mas, a realidade era bem diferente. O Egito foi sempre um país poroso, cuja prosperidade atraía seus vizinhos famélicos. No Alto Egito, os planaltos desérticos eram cortados em todas as direções por pequenos cursos d’água que conduziam ao vale do Nilo.

No Baixo Egito, os líbios haviam se acostumado a se espalhar pelo delta. A leste, as zonas pantanosas eram assombradas por populações marginais, e o “caminho de Hórus” ligava o Egito à Palestina. Paradoxalmente, foi o lado do Mediterrâneo que permaneceu o menos atraente para os visitantes.

Em tais condições, houve permanentemente uma presença no seio da civilização do Vale do Nilo, sob diferentes formas e em constante interinfluência.

Se as invasões provocaram traumas, o Egito se acomodou mais ou menos às infiltrações, às imigrações involuntárias ou provocadas, simplesmente porque o país sofria de uma falta crônica de mão-de-obra.

Ao contrário do Egito contemporâneo, de demografia explosiva, sua população era pouco numerosa – e os faraós insistiam em ser construtores infatigáveis. Eles com freqüência eram obrigados a recrutar estrangeiros já instalados no Egito, ou trazidos à força para o país. O episódio bíblico das doze tribos de hebreus encaminhadas para a construção de uma cidade repousa portanto sobre a realidade.

Os estrangeiros não estavam destinados apenas para a fabricação de tijolos, ou para serem chicoteados na construção dos grandes monumentos faraônicos. Eles podiam, por sua competência, atingir as mais altas funções. Assim, um semita foi vizir sob Amenófis III. Um outro supervisionou a construção do templo funerário de Ramsés II. A história de José tem portanto um pano de fundo autêntico. Os egípcios toleravam os particularismos das comunidades estrangeiras. Pelo menos até um certo limite. Se os judeus de Elefantina viram-se às voltas com a hostilidade dos habitantes, não foi por causa de uma pulsão racista, mas sim porque eles pretendiam sacrificar um cordeiro em uma cidade cuja divindade mais importante era um... carneiro!


Pascal Vernus. Estrangeiros construíram o Egito. In: Revista História Viva. Grandes temas, nº 46. p. 67.

NOTA: O texto "Presença estrangeira no Antigo Egito" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A vida nos haréns do faraó

Passatempo no Egito Antigo, Lawrence Alma-Tadema

Nascido no Antigo Império (de 2700 a 2200 antes da nossa era), o harém egípcio se desenvolveu sob a XVIIIª dinastia e tomou uma nova forma: ao lado dos haréns palacianos tradicionais, assistimos ao surgimento de haréns itinerantes – chamados “de acompanhamento” – e à criação de grandes instituições situadas fora do domínio real, agrupando bens mobiliários, diferentes categorias de criados e o círculo feminino do rei, além dos filhos da família real, da corte e da elite, que recebiam ali uma educação esmerada.

Em Mi-our (atual Medinet el-Gourob, na entrada do Fayum), no harém criado sob o reinado de Tutmés III (de 1504 a 1450 antes da nossa era) – o mais importante até o fim da época raméssida -, conviviam mulheres de origem e status diferentes: a rainha e as esposas, com uma hierarquização possível entre a grande esposa do rei e as outras; as princesas, conhecidas como “filhas do rei”; as “irmãs do rei”, termo utilizado também para designar as meias-irmãs, primas, sobrinhas e tias; as concubinas e as favoritas – as mais velhas sendo chamadas de “conhecidas do rei”, “nobres do rei” ou “ornamentos do rei” e, as mais jovens, de “belas do palácio” -, cuja glória durava o tempo de um capricho. Estas últimas usavam uma coroa muito particular adornada com flores de caules retos com um diadema incrustrado, e, enfim, as amas, encarregadas das crianças, meninos e meninas, que moravam no harém.

O harém acolhia não apenas egípcias, mas também belas princesas estrangeiras, esposas oferecidas por um potentado asiático ao final de um tratado diplomático, como prova de amizade ou para selar uma aliança. No ano 10 do seu reino, Amenófis III (em torno de 1382 a 1344 a.C.) casou-se com Gilukipa, filha do rei de Naharina (no nordeste da Síra): ela chegou ao Egito à frente de uma escolta de 317 mulheres de seu séqüito, que foram instaladas nos apartamentos do harém. Ninguém nunca ficou sabendo o que aconteceu com elas. Kadash-man-Enlil, rei da Babilônia, queixou-se a Amenófis III: “Você me pede agora minha filha em casamento, mas minha irmã que meu pai lhe deu estava aí, com você, ninguém a viu e nos perguntamos se ela, hoje, está viva ou morta”. Ao que o rei respondeu de maneira lacônica: “Por acaso você mandou aqui um oficial dos seus, que conheça sua irmã, que poderia falar com ela e a identificar?”

Todas essas mulheres ficavam sob a vigilância de um diretor, que era ao mesmo tempo chefe do harém e primeiro-preceptor das crianças, assistido por um adjunto e por supervisores, encarregados da disciplina interna; sem contar os muitos escribas, guardas, inspetores e empregados subalternos, acompanhados por artesãos e domésticos, e os numerosos camponeses destinados à exploração dos domínios.


Servas do faraó, John Collier

O harém de Mi-our, um pouco afastado de Mênfis, próximo ao Baixo Egito, gozava de uma situação ideal às margens do lago Qaroun: um local propício para a pesca e para a caça, lazeres particularmente apreciados pelo faraó e seu círculo. Além das construções de habitação e serviço, da necrópole, do porto e do templo, a instituição possuía muitas cabeças de gado e vastas terras, cujos frutos permitiam alimentar a população de Mi-our. Segundo informações fornecidas por documentos contábeis, os rendimentos das peixarias do Fayum revertiam para o harém, assim como os rendimentos dos ateliês de tecelagem do linho, diretamente geridos pelas mulheres. Dessa maneira, longe de se acomodarem, as esposas reais administravam e faziam com seus domínios se desenvolvessem cuidando dos produtos da agricultura, da criação, da pesca e da tecelagem, controle da cobrança de impostos, e ainda a supervisão das fábricas de objetos pessoais como, perfumes, faiança, jóias.

Os vestígios das habitações de Mi-our foram examinados pela equipe britânica do egiptólogo Ian Shaw, porém são menos expressivos que os de Malgatta, o palácio de Amenófis III em Tebas Oeste, e o de Tell-el-Amarna, a capital de Akhenaton, dois centros refinados do Novo Império. Situados em amplos edifícios com salas cujo teto era sustentado por colunas, os núcleos de habitação eram instalados em meio a suntuosos jardins, de forma quadrada ou retangular, eles se organizavam em torno de um lago central onde patos e peixes se divertiam; o cultivo de flores, com os quais as mulheres confeccionavam guirlandas e buquês, era feito nas margens do lago ou em canteiros organizados nas proximidades, enquanto as árvores, dispostas de maneira geométrica, conferiam à composição uma sensação de harmonia e plenitude. Em volta do lago, quiosques permitiam aos ocupantes respirar o ar puro ao cair da noite. As meninas conversavam, misturando suas risadas aos sons das aves selvagens, enquanto suas irmãs mais velhas disputavam uma partida de senet – um dos passatempos  favoritos dos egípcios -, jogo que se joga a dois e se assemelha muito ao nosso jogo de damas.

Nos apartamentos, protegidos do calor graças a empregados encarregados de aspergi-los regularmente, piso e paredes exibiam pinturas de papiros e lótus emergindo da água, de onde patos e aves selvagens alçavam vôo assustados por veadinhos. Esses cenários bucólicos eram propícios à prática das artes: em um ou outro cômodo, meninas aprendiam canto, dança ou algum instrumento musical, em particular a harpa, o alaúde e a lira.

As mulheres viviam para sua beleza – uma das preocupações diárias mais comuns nos haréns -, escolhendo com cuidado perfumes, cosméticos, maquiagem, jóias e perucas. Em 1889, sempre em Mi-our, Flinders Petrie relata em seu caderno de registros que “grandes quantidades de pérolas que eram usadas em colares podiam ser recolhidas nas escavações da cidade”. As jóias representavam de fato 40% das coletas realizadas no sítio. Quanto ao palácio de Malgatta, este revelou uma coleção excepcional de objetos pessoais utilizados pelas esposas e princesas de Amenófis III, que se caracterizava por uma variedade e um refinamento extremo: espátulas para maquiagem em madeira ou marfim, algumas com a forma de uma nadadora segurando um pato, de uma jovem carregando uma jarra, uma menina colhendo flores de lótus ou ainda tocando lira ou tambor; ânforas de perfume ou de ungüentos, estojos de maquiagem e frascos em faiança ou de vidro colorido, às vezes com a efígie das divindades da casa (Bes ou Thoueris); pentes enfeitados com animais selvagens ou peixes; espelhos de bronze com a silhueta de Hator, deusa da beleza, moldada no cabo; caixinha de jóias envernizada, incrustrada de pedras semipreciosas, de cornalina ou lápis-lazúli... Cuidados particulares eram tomados com a maquiagem: no rosto e nos lábios, as mulheres aplicavam uma pasta colorida, num tom entre o ocre e o vermelho, e uma maquiagem preta ou verde tornava o contorno dos olhos amendoados mais expressivos.

Não longe dali, em um lugar silencioso, as crianças escutavam com atenção as aulas e os conselhos dados por suas amas e preceptores – muitas vezes militares em fim de carreira. Esse local chamava-se kep: uma instituição supervisionada pela primeira-dama do harém, a grande esposa do rei – assistida pelas esposas secundárias -, que acolhia ao mesmo tempo príncipes e princesas, jovens nobres e, em raras circunstâncias, crianças desfavorecidas.

O ensinamento de Khety dá a palavra a um camponês cujo filho, Pepy, fora enviado para estudar com as crianças reais, oportunidade raríssima na sociedade egípcia: “Quero que gostes dos escritos mais do que de tua própria mãe, quero que suas belezas penetrem em teu espírito”. Ensinavam-se ali a leitura e a escrita – hieroglífica e hierática -, a gramática e a conjugação, o cálculo e a geometria, as línguas estrangeiras, como também as leis e as regras de boa conduta que regem a sociedade.

Enfim, nas cozinhas, agitavam-se serviçais encarregados de preparar as refeições dessa enorme família. Era ainda a grande esposa do rei que geria a operação, principalmente quando o faraó anunciava a sua intenção de passar alguns dias nos harém. No dia a dia, café da manhã e almoço eram feitos individualmente, dependendo das ocupações de cada um. Apenas o jantar reunia as várias famílias à volta de pratos que devoravam com prazer: carnes grelhadas – ganso ou carne de boi em particular -, peixes secos, legumes e frutas diversas (favas, cebolas, lentilhas, alho, uvas, tâmaras, figos etc.) e laticínios. Tudo isso acompanhado por todo tipo de pão, salgados ou não, e bebidas (cerveja e vinho essencialmente).

Nesses haréns transformados em verdadeiras unidades econômicas totalmente independentes, uma vida autônoma se organizava, longe do tumulto do Vale do Nilo. Ignora-se que contatos efetivos essas estruturas mantinham com o resto da sociedade egípcia: muito provavelmente uma mulher que cruzasse a porta de um harém por decisão real, fosse ela de origem estrangeira, plebéia ou principesca, não sairia jamais, exceto para ser enterrada na necrópole vizinha, como ocorria em Mi-our. 

Aude Gros. A dura vida das joias do faraó. In: História Viva Grandes Temas. Nº 46, p. 68-73.

NOTA: O texto "A vida nos haréns do faraó" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 24 de novembro de 2013

Imhotep e a pirâmide de degraus em Sakkarah (2630 a.C.)

Ainda hoje multidões de turistas fazem peregrinações à terra dos faraós para experimentar a proximidade direta dessa antiga maravilha mundial construída com pedras.

Em todos os tempos, a grandeza monumental dos túmulos exerceu um fascínio incomum sobre as pessoas.

Aquilo que exércitos imensos de trabalhadores erigiram sobre a terra por volta de 2630 a.C. é e permanece um mistério para nós, um enigma que nos atrai magicamente com seu encanto.

O faraó Snofru (1575 a.C. – 1551 a.C.) figura como o efetivo inventor da construção de pirâmides “lisas”. Mas sem dúvida deve-se agradecer ao rei Zoser e a seu arquiteto Imhotep que, em 2630 a.C., com a mastaba em degraus em Sakkarah, tenha sido introduzida a época das pirâmides. O mestre de obras Imhotep, a propósito, é o que chamamos um gênio universal. Ele se ocupa de uma série de funções, é erudito, escriba e arquiteto.


Pirâmide em degraus em Sakkarah. 
Foto: Olaf Tausch

Até então, os reis egípcios eram sepultados em mastabas (túmulos cobertos de lajes) simples, câmaras mortuárias subterrâneas, acima das quais se erguiam salas de culto e câmaras para as oferendas do túmulo. O sepulcro de Zoser – primeira construção monumental de pedra – consiste de seis mastabas construídas umas sobre as outras e alcança a altura de 60 metros. O complexo de construções completo abrange uma área de 275 x 545 metros com instalações de templo, rodeada por um muro de dez metros de altura. A pirâmide Zoser ainda não é uma pirâmide “verdadeira”, pois ainda não dispõe as nobres superfícies planas e arestas retas como as suas famosas descendentes de Gizé. Consiste de seis degraus rústicos e por isso é denominada pirâmide de degraus.

Às pirâmides grandiosas pertencem os monumentos mortuários sobre o platô rochoso de Gizé, 13 quilômetros a oeste do Cairo, mandadas construir por volta de 2500 a.C. por Quéops, Quéfren e Miquerinos, todos eles reis egípcios da quarta dinastia. As três pirâmides, que se contam entre as mais significativas realizações arquitetônicas da humanidade, não são apenas monumentos gigantescos dos faraós, mas figuram também como trono do sol. Em seu ápice devem se reunir o deus-sol Rá e o deus-rei egípcio. Todas possuem a instalação monumental do templo dos mortos no alto, vestíbulo e templo embaixo. A pirâmide de Quéops, cobrindo uma área de 53.000 m² e uma altura original de 147 metros, é a maior do mundo.


Pirâmide de Gizé. 
Foto: Jerzy Strzelecki

Mas por que as pessoas se empenham em construir monumentos semelhantes? As imensas pirâmides de pedra sobre os túmulos dos reis devem manter seu corpo terreno inalterado por todos os tempos e garantir a inviolabilidade das múmias silenciosas nas câmaras mortuárias adjacentes. Ninguém deve perturbar a serenidade dos túmulos dos mortos, motivo pelo qual se procura ocultar aos invasores os acessos às câmaras mortuárias secretas do rei e da rainha por meio de corredores angulosos e labirintos. Entretanto, mesmo as passagens bloqueadas de vários modos com blocos de granito não conseguem impedir os violadores de túmulos de avançar até as câmaras dos sarcófagos. Os túmulos de reis e rainhas, com tesouros preciosos como oferendas do túmulo, já eram saqueados mesmo na Antiguidade.


UMA BREVE HISTÓRIA DAS DESCOBERTAS: DA ANTIGUIDADE AO SÉCULO XX. São Paulo: Escala, 2012. p. 17-19.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Os retratos do Fayum

A Europeia. Esta jovem egípcia, com a garganta coberta por uma surpreendente rede de ouro fechada por um grande broche verde, e com seus imensos olhos negros que se desviam, exprime a melancolia de ter tão cedo deixado o mundo dos vivos. Antinoupolis, reinado de Adriano.

No oásis de Fayum, não muito longe da cidade do Cairo, são descobertos, no século XIX, túmulos datados da época da dominação romana (a partir do século I), contendo sarcófagos muito bem conservados, graças à secura do ar. A originalidade desses sarcófagos é que eles trazem o retrato do defunto, pintado com encáustica ou têmpera, sobre uma tabuleta de madeira ou uma tela de linho. Foram encontrados mais de 600, notáveis por sua qualidade artística e sua variedade. Alguns retratos foram executados por artistas populares, sem habilidade para respeitar as proporções do rosto, outros são assinados por pintores famosos. A partir de quatro cores básicas, branco, amarelo, vermelho e preto, o artista se empenha em transmitir a textura da carne, o brilho dos grandes olhos sombrios, a delicadeza dos traços, a expressão original de cada homem, mulher ou criança. A Europeia, da cor de pêssego; a Jovem com joias, penteada com tranças e anéis brilhantes; Aline, de rosto cheio; a bela Zenóbia de rosto harmonioso e olhar pensativo; os dois irmãos representados lado a lado num tondo (formato circular de pintura), conservam todo o seu frescor. A técnica de certas pinturas anuncia os ícones bizantinos ou as obras de pintores tão diferentes como Vermeer, Velásquez, Greco, Modigliani, Matisse ou Picasso.

Retrato dos dois irmãos

Retrato de um menino

Efebos sensuais, militares barbudos, encantadoras jovens, mulheres orgulhosas por exibir suas joias, matronas cansadas, crianças desaparecidas demasiado cedo, toda a sociedade do Egito romano é ressuscitada graças a essa surpreendente galeria de retratos, única em seu gênero, associando a prática egípcia do sarcófago à arte romana do retrato.

SALLES, Catherine [dir.]. Larousse das civilizações antigas 3: das bacanais à Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 282-283.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A Núbia e os soberanos de Meroé

No Novo Império, o poder faraônico completou a submissão e a organização da Núbia em duas províncias, Uauat e Kush. As guarnições do faraó estão presentes até a fortaleza de Semnah na região da 4ª catarata. Composta de duas províncias, essa vasta colônia possui sua administração própria sob a direção de um governador, chamado “filho real de Kush”, verdadeiro vice-rei de amplos poderes. Os egípcios, após terem extraído riquezas múltiplas da Núbia também tomaram o hábito de recrutar pessoal. Certas tribos núbias fornecem os Medjai (do nome de uma etnia), recrutados como forças de policiamento. Os indígenas da Núbia, gradualmente aculturados e egipcianizados, tomam certos cuidados com relação a seus “colonizadores”.

Por volta de 950 a.C., Sheshonq I funda em Tanis, no delta oriental, a 22ª dinastia. Entretanto, no sul, sua autoridade não tem nenhum apoio. O reino é dividido em dois principados, dirigidos por governadores de província.

Não se sabe praticamente nada de Kashta, rei de Napata no século VIII a.C. Seu filho Pianky sucede-lhe por volta de 751 a.C. Enquanto a 22ª dinastia se envolve em conflitos internos, Pianky lidera uma sublevação e tenta uma campanha militar (por volta de 728), a fim de tomar o poder em Tebas. Consegue subir o vale do Nilo até Neferusy, perto de Hermópolis. Usurpa o título de faraó e funda a 25ª dinastia núbia. Após ter proclamado sua piedade para com o deus Amon em Tebas, prossegue sua campanha vitoriosa em direção a Mênfis e Heliópolis. Retornando à Núbia, em Napata, Pianky morre e é enterrado numa pirâmide. Durante esse tempo, os assírios invadiram o norte do Egito.

Pirâmides de Meroé.
Foto: B N Chagny

Os sucessores de Pianky no trono do faraó, Shabaka (por volta de 716), depois Taharqa (por volta de 690), não chegam a impor sua autoridade aos potentados locais. Montuemhat, prefeito de Tebas e membro do clero de Amon, exerce então uma autoridade uma autoridade sem divisão sobre toda a província de Tebas. Ao mesmo tempo, Taharqa deve enfrentar a potência militar de Assurbanipal, rei da Assíria; consegue manter seu poder até Mênfis, mas em 664 é vencido pelos assírios. Tebas é, então, pilhada. Taharqa e suas tropas recuam até Napata, enquanto, no delta, o príncipe egípcio Necao é mantido como simples governador de Mênfis sob tutela assíria.

Os príncipes de Napata desenvolvem na Núbia e até Meroé (na altura da quinta catarata) uma cultura herdada da tradição faraônica, mas que se alimenta doravante de raízes africanas.


SALLES, Catherine [dir.]. Larousse das civilizações antigas 1: dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 106-107.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Egito: a arte da imortalidade

Em vista da obsessão da sociedade egípcia com a imortalidade, não é de surpreender que a arte tenha se mantido sem mudanças por três mil anos. Sua mais alta preocupação era garantir uma vida após a morte confortável para seus soberanos, que eram considerados deuses. A colossal arquitetura e as obras-de-arte existiam para cercar o espírito do faraó de glória eterna.


"Grande Pirâmide de Queóps", Gizé.

Nessa busca de permanência, os egípcios definiram o essencial para uma grande civilização: literatura, ciências médicas e alta matemática. Não apenas desenvolveram uma cultura impressionante - apesar de estática - mas, enquanto outras civilizações nasciam e morriam com a regularidade das cheias do Nilo, o Egito sustentou o primeiro estado unificado de grande porte durante três milênios.

Muito do que se conhece sobre o Egito provém das tumbas que restaram. Como os egípcios acreditavam que o ka, o espírito, do faraó era imortal, depositavam em sua tumba todos os seus bens terrenos para que ele os usasse na eternidade. As pinturas e os hieróglifos nas paredes eram uma forma de inventariar a vida e as atividades diárias do falecido nos mínimos detalhes. Estátuas do faraó ofereciam uma morada alternativa para o ka, caso o corpo mumificado se deteriorasse e não pudesse mais hospedá-lo.

A pintura e a escultura obedeciam a padrões rígidos de representação da figura humana. Em muitos quilômetros de desenhos e entalhes em pedra, a forma humana é representada em visão frontal do olho e dos ombros, e em perfil de cabeça, braços e pernas. Nas pinturas em paredes, a superfície é dividida em painéis horizontais separados por linhas. A figura despojada, de ombros largos e quadris estreitos, usando adorno na cabeça e tanga, posa rigidamente com os braços para os lados e uma perna adiante da outra. O tamanho da figura indica sua posição: os faraós são representados como gigantes sobressaindo entre criados do tamanho de pigmeus.


"Cena de caça de aves selvagens". Tumba de Nebamun, Tebas. c. 1450 a.C.

Feitas para durar eternamente, as estátuas eram esculpidas em substâncias duras, como granito ou diorito. Sentadas ou em pé, tinham poucas partes protuberantes que pudessem se quebrar. A pose era sempre frontal e bissimétrica, com os braços próximos ao torso. A anatomia humana era, no máximo, uma aproximação.


"Nefertiti". c. 1360 a.C.

Uma das oitenta pirâmides remanescentes, a Grande Pirâmide de Queóps, em Gizé, é a maior estrutura em pedra de todo o mundo. Os antigos egípcios nivelaram sua base de cerca de 52 quilômetros quadrados - um quadrado perfeito - com tanta maestria que o ângulo sudeste é apenas um centímetro mais alto que o ângulo noroeste. O interior é massa praticamente sólida de lajes de calcário, o que exigiu excelentes técnicas de engenharia para proteger as pequenas câmaras mortuárias do peso maciço das pedras acima. O teto da Grande Galeria foi construído em camadas e escorado, enquanto a câmara do faraó recebeu um teto de seis camadas de granito sobre compartimentos separados, para aliviar a tensão e deslocar o peso dos blocos diretamente acima. Construída em 2600 a.C. para durar para sempre, permanece até nossos dias.


"Grande Pirâmide de Quéops", Gizé.

STRICKLAND, Carol. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 8-10.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O poder: sinopse da história faraônica

Relevo do portal da mastaba de Saqarah

5000-3000 a.C. - Período Pré-histórico (ou Pré-dinástico).  Nos tempos primitivos, o vale do Nilo era habitado por povos nômades, que se agrupavam em clãs, isto é, em grupos cujos membros se consideravam descendentes de um antepassado comum, o qual era venerado como um totem (deus protetor): o lobo, o falcão, o chacal, a seta, etc. A fertilidade do vale fez com que estes clãs nômades se tornassem sedentários. Os clãs uniram-se em grupos maiores, aldeias-estado, que por sua vez deram origem aos nomos¹ (províncias). Os nomos foram fundindo-se e acabaram formando, em meados do 4º milênio, dois grandes reinos: ao sul, o Alto Egito (o longo e estreito vale do Nilo), cujos habitantes veneravam o deus Hórus, representado por um falcão; ao norte, o Baixo Egito (o largo Delta), onde os nomos se agruparam sob o culto do deus Set, representado por um cão.

¹ "Os nomos eram autônomos e dirigidos por um nomarca, que era, simultaneamente, chefe militar, rei e juiz. Quando havia necessidade de superar algum obstáculo como - drenar pântanos, abrir canais de irrigação -, os nomos estabeleciam relações de cooperação. [...]" [NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 51]

Eram duas regiões de forte contraste: o país "das Duas Terras", como diziam os egípcios antigos. "Em todo o curso da história - escreve o erudito egiptólogo Wilson - essas duas regiões se diferenciaram e tiveram consciência da sua diferenciação". E acrescenta: "Quer nos tempos antigos, como nos modernos, as duas regiões falam dialetos diferentes e veem a vida com perspectivas também diferentes".

Os egípcios não eram uma etnia pura. Correspondiam, provavelmente, a um ramo mediterrânico da etnia caucásica; mas apresentaram cruzamentos com negróides, líbios, semitas e diversos povos ocidentais asiáticos.

Neste período pré-dinástico, o desenvolvimento da cultura egípcia foi, quase totalmente, autóctone e interno. Houve, apenas, alguns elementos de evidente influência mesopotâmica: o selo cilíndrico, a arquitetura monumental, certos motivos artísticos e, talvez, a própria ideia da escrita.

Há, nessa época, progressos básicos nas artes, ofícios e ciências. Trabalha-se a pedra, o cobre e o couro (instrumentos, armas, ornamentos, jóias). Há olarias, vidragem; sistemas de irrigação. Vai-se formando o Direito, baseado nos usos e costumes tradicionais - leis consuetudinárias.


Fragmento de relevo do muro do túmulo de Amenemhat e sua esposa Hemet. 12ª dinastia.


3000-2780 - Primeiras duas dinastias (Reino Tinita). A unificação do Egito: Os dois reinos, Alto e Baixo Egito, estiveram em luta durante longo tempo. Finalmente, um famoso (e lendário?) Menés, rei do Alto Egito, conquistou o Baixo Egito, unificou o país e estabeleceu a primeira dinastia. Este período chama-se tinita, por ter sido Tínis a capital do império.

Nesta época, provavelmente, é que surgem a escrita e o calendário de 365 dias.

2780-2400 - Antigo Império (Reino Menfítico). A partir da 3ª Dinastia, os faraós transferiram a capital para Mênfis, no começo do Delta, o que permitiu dominar melhor ambas as regiões do país.

O Antigo Império foi uma época de brilhante civilização. O regime político, porém, era absoluto e teocrático. O chefe era o rei-sacerdote, ou faraó², venerado pelos egípcios como um deus: "o deus vivo". Dedicava-se-lhe tão supersticioso respeito que não podia ser chamado pelo próprio nome; denominavam-no "par-ó" (casa grande, palácio real), de onde deriva o termo "faraó". No começo, o faraó considerava-se um deus Hórus. Mais tarde (desde a 5ª Dinastia), proclamou-se filho divino do deus-sol Rá.

² "'Ele é um deus a quem devemos a vida, pai e mãe de todos os homens, único e sem igual', escreveu um egípcio, funcionário civil do faraó, por volta de 1500 a.C." [Citado em: ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo: da Pré-história à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100]

Não havia separação entre o Estado e a Igreja. O faraó era o rei e, ao mesmo tempo, o sumo sacerdote. O governo não tinha índole militarista: não existia um exército permanente. A política exterior era de paz e de não-agressão.

A coroação do faraó realizava-se em Mênfis, num templo chamado o "muro branco", em cujas duas faces era proclamado sucessivamente rei do Alto e do Baixo Egito, com a dupla coroa branca e vermelha.

A centralização do regime permitiu a realização de vastas obras de arquitetura e de canalização. Durante a 4ª Dinastia construíram-se as famosas pirâmides de Gizé.


Vista panorâmica das pirâmides de Gizé


2400- 2100 - Primeiro Período Intermediário (anarquia e feudalismo).  No fim do Antigo Império houve revoltas e desordens, provocadas pelos nomarcas (governadores dos nomos ou províncias), que aspiravam à independência. Aumenta o poder dos nobres e decai o prestígio dos faraós. O período caracteriza-se pela anarquia, feudalismo e a invasão das tribos negróides e asiáticas. Mas, do ponto de vista das massas, foi "a época democrática do Egito antigo", um período de igualdade e justiça sociais. O texto que mais claramente expressa a nova tendência à justiça social é o "Relato do camponês eloqüente".

2100-1785 - Médio Império (ou Primeiro Império Tebano).  A autoridade real é restabelecida pelos príncipes de Tebas (11ª Dinastia), que restauram a unidade do país. Este governo central parece mais democrático que o menfítico, pois que as massas vão sendo emancipadas mercê de profundas concessões sociais e religiosas.

A igualdade religiosa propicia a igualdade social e política. Os camponeses e os trabalhadores da cidade tornam-se livres, o que produz excelentes resultados. A 12ª Dinastia assinala o apogeu dessa época: consolida energicamente o reino e mantém bem alto o prestígio internacional do Egito. Senusert III dilata as fronteiras meridionais e contém os núbios. Amenemat III constrói canais e açudes e a vasta represa constituída pelo lago artificial Méris [...]. Época áurea de justiça social e de progresso material e intelectual, o governo da 12ª Dinastia é apontado, por alguns autores, como "o primeiro império democrático da história".

1785-1580 - Segundo Período Intermediário (a invasão dos hicsos). Esta é a época mais confusa, e discutida, da história do antigo Egito: um período de invasões e de caos interno. Bandos aguerridos de pastores asiáticos - os hicsos - conglomerados de povos semitas e arianos, invadiram o Egito (através do istmo que o ligava à península do Sinai), venceram os exércitos do faraó e dominaram grande parte do país. Possuíam cavalos e carros de guerra (com rodas); e armas de bronze (ou talvez, mesmo, de ferro), mas bem acabadas e mais fáceis de manejar. Tudo isso explica a sua superioridade bélica e os seus triunfos militares.

Os hicsos talvez estivessem a fugir da pressão dos invasores indo-europeus (hititas, cassitas e mitanianos), sobre o Crescente Fértil.

Com os hicsos, devem ter entrado no Egito, os hebreus. O José bíblico (filho de Jacó e de Raquel, vendido pelos seus irmãos e levado ao Egito) foi, provavelmente, ministro de algum rei hicso. Os hebreus entraram no Egito por volta de 1700 e aí permaneceram uns 4 séculos.

1580-1200 - Novo Império (ou Segundo Império Tebano). Amés I [também chamado Amósis I] iniciou a guerra pela independência e expulsou os hicsos. Começou, então, uma época de poderio e de expansão - o Império propriamente dito. Tendo aprendido com os invasores, os egípcios aperfeiçoaram a sua máquina de guerra: o exército possuía, agora, carros de combate puxados por cavalos.

O Novo Império era belicoso e imperialista. Tutmés III [também chamado Tutmósis III] conquistou a Síria. Fenícios, cananitas e assírios passaram a pagar tributos. O avanço egípcio provocou o choque com os poderosos hititas, da Ásia Menor. O célebre Ramsés II lutou contra eles na batalha de Kadesh (aprox. 1295 a.C.). Não tendo podido vencê-los, assinou com os hititas um acordo (tratado de paz e aliança defensiva), que durou muitos anos. Durante o longo reinado de Ramsés II (1298-1235) construíram monumentos, palácios, canais. Concluíram-se dois templos imponentes: os de Karnak e Lúxor.

Uns 5 anos após a batalha de Kadesh (aprox. 1290 a.C.), iniciou-se o êxodo dos hebreus.

O Novo Império foi considerado pelos egípcios "como uma das épocas mais luminosas da sua história". Seus faraós mais famosos foram Tutmés III e Ramsés II. Todavia, para a sensibilidade moderna, o faraó mais importante é Amenófis IV (reinado: 1372-1354), autor de uma profunda revolução religiosa: a instauração de um culto monoteísta [...].


Cortejo fúnebre. Livro dos Mortos de Ani. 19ª dinastia


1200-652 - Diversas dominações. Decadência. O reinado de Ramsés II foi uma época brilhante da história egípcia. Após Ramsés II começou a decadência: o Egito sofreu invasões, guerras civis e anarquia social. Os "povos do mar" (guerreiros loiros, de etnia indo-europeia) conquistaram o Delta e as costas da Palestina. Depois houve período de domínio líbio e etíope (núbio). Mais tardem sobrevieram os assírios, que dominaram de 671 a 652.

652-341 - Renascimento Saíta. Psamético I consegue expulsar os assírios, readquire a independência egípcia e funda nova dinastia (26ª), que assinala grande renascimento cultural. Estabelece-se nova capital, Saís, no Delta. A restauração continua com Necao (609-594), que intensifica as relações com a Ásia. Ao que parece, ele reabriu o canal que ligava um afluente oriental do Nilo ao Mar Vermelho - fazendo com que este, portanto, se comunicasse com o Mar Mediterrâneo [...]. Hanon, capitão fenício a serviço de Necao, realiza o périplo da África: parte do Mar Vermelho e volta pelo Mediterrâneo, após 3 anos de viagem.

No Delta interior estabelecem-se colônias de mercadores gregos; a mais importante é Naucrátis. Começa a helenização do Egito, embora a influência grega só se exerça nas classes elevadas.

Em 525, o rei persa Cambises (filho de Ciro) vence a batalha de Pelúsio e conquista o Egito. Em 404, os egípcios conseguem reconquistar a liberdade, mas são dominados novamente pelos persas, em 341. Encerra-se aqui a história do antigo Egito independente.

Epílogo: 341 a.C. - Da dominação persa aos romanos. Após a segunda dominação persa, sobrevieram a hegemonia grega (Alexandre: 333 a.C.) e a romana (após a morte de Cleopatra: 30 a.C.).³

³ "Durante sua longa história, os egípcios tentaram preservar as formas antigas de sua civilização, reveladas por seus ancestrais e representando, em todas as épocas, aqueles valores imutáveis que eles acreditavam ser o caminho para a felicidade". [PERRY, Marvin. Civilização Ocidental - Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 19]

Quando Alexandre entrou no Egito, foi saudado como um libertador. Fundou Alexandria, que sucedeu Atenas, como centro intelectual do mundo; já no primeiro século de existência lecionavam lá os maiores matemáticos da antiguidade: Euclides, Apolônio, Eratóstenes, Diofanto. Arquimedes passou algum tempo em Alexandria; voltou a Siracusa, mas manteve sempre contato epistolar com a cidade egípcia de sábios.

O Egito pertenceu durante 4 séculos ao Império Romano do Ocidente [...].

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 24-29.
MARVIN, Perry. Civilização Ocidental - Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 19.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 51.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo: da Pré-história à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100.

domingo, 2 de junho de 2013

África Negra 2: As civilizações africanas e os Estados antigos. Egito. Axum. Gana. Mali. Songhai

Representação de asiáticos (detalhe). Tumba de Khnoumhotep II

[...] o Egito abrigou a primeira grande civilização surgida na África, embora fosse muito diferente das outras regiões africanas. Além das terras férteis, a região possuía uma importância estratégica fundamental ao situar-se como eixo de ligação entre o continente africano, a Ásia e o mundo mediterrâneo. Desde muito cedo, a fertilidade das terras egípcias fazia com que os agricultores pudessem produzir muito além de suas necessidades. No entanto, é importante considerar as origens do progresso alcançado pelos egípcios.


Campo de Hotep

Esses grupos, que até então viviam de forma dispersa e desorganizada, sentiram a necessidade de organizar-se. As colheitas, cada vez mais abundantes, aumentaram ainda mais o crescimento demográfico. A demarcação das terras foi resultado desse desenvolvimento, atividade na qual se ocupavam chefes, sacerdotes e seus servidores. A medição dessa rica e fértil terra fez surgir a agrimensura e a profissão de escriba. Da mesma forma, foram dados os primeiros passos em direção ao cálculo e à escrita.


Ordenhando uma vaca (modelo funerário). XIIª dinastia. Museu de Belas-Artes de Lyon. Foto: Rama

As lutas internas e as consequentes trocas culturais e biológicas que mesclaram os povos em volta do Nilo deram origem ao desenvolvimento de uma grande civilização. A utilização dos metais certamente ampliou o poder dos chefes e a capacidade, do ponto de vista militar e diplomático, de superar os inimigos. Por fim, o Rei Narmer, do sul, conseguiu unificar todo o território por volta de 3100 a.C. A posição geográfica do Egito, situado entre a Ásia, o Mediterrâneo e a massa africana do sul, bem como sua capacidade de desenvolvimento, destinou a região a uma série de invasões que marcaram os reinados das diversas dinastias.


Estatueta de Osíris. Artista desconhecido. Ca. 664-332 a.C.

Outra importante civilização é a de Axum, localizada no nordeste da África, atual Etiópia, Somália, parte do Sudão e Eritréia, entre os séculos I e V. O surgimento de Axum esteve ligado à sua localização privilegiada, próxima aos antigos núcleos urbanos cuchitas, egípcios e árabes. Devido às intensas trocas culturais que a proximidade entre as regiões proporcionava, a formação étnica e cultural dessa sociedade tinha um caráter profundamente miscigenado. Todavia, sua população era majoritariamente negroide. Culturalmente, entretanto, a sociedade tinha características semitas, embora reelaborada. Na interação entre o chifre da África e o sudoeste da Península Arábica formou-se o "reino do insenso", produto intensamente exportado para os antigos centros civilizacionais.

Entre os séculos III e IV, a civilização de Axum adquiriu caráter imperial, impondo-se à força sobre os vizinhos da região nordeste da África, em particular sobre Meroé, capital do reino Kush entre os séculos VII e IV a.C., e sobre a Arábia Meridional. A expansão de Axum permitiu-lhes assumir o controle de uma vasta extensão de terras cultiváveis até o Mar Vermelho, e a ocupar também uma posição intermediária no comércio marítimo do Índico, entre os impérios do Oriente (chineses, mongóis e hindus) e o Império Romano, então em decadência.

Assim, além das conexões que ligavam o litoral norte da África à Europa e ao Levante (litoral do Oriente Médio) através do Mar Mediterrâneo, havia os fluxos norte-sul através do Vale do Nilo e os do Mar Vermelho e os do leste-oeste, por meio do Oceano Índico. Navegadores árabes, persas, indianos e malaios (até chineses, em uma ocasião) frequentaram as costas da África Oriental por muitos séculos. Esses comerciantes traziam e levavam mercadorias, influências culturais e conhecimentos que, de várias maneiras, conectavam a África ao Extremo Oriente.

Na África Ocidental surgiu uma série de reinos de população negra, cuja base econômica estava no controle das rotas comerciais transaarianas. A antiga Costa do Ouro, atual Gana, deve seu nome moderno ligado ao de um antigo império que dominou a África Ocidental durante o período que corresponde à Idade Média europeia. O Reino de Gana ficava a muitos quilômetros ao norte do atual, entre o Deserto do Saara e os rios Níger e Senegal.

O antigo Reino de Gana foi provavelmente fundado durante os anos 300. Desde essa data até 770, seus governantes constituíram a Dinastia dos Magas, uma família berbere, apesar de o povo ser constituído por negros das tribos Soninque. Em 770, os Magas foram derrubados pelos Soninques, e o império expandiu-se amplamente sob o domínio de Kaya Maghan Sisse, que governou por volta de 790. A capital de Gana, Kumbi Saleh, tinha uma população com cerca de 15 mil pessoas, parte das quais muçulmanas, que participavam ativamente do comércio transaariano.

A maior parte da população de Gana era agricultora. Entretanto, o reino enriqueceu graças à sua localização, no extremo sul da rota comercial do Saara. Os berberes Sanhaja aprenderam a utilizar o camelo, que foi introduzido da Ásia a partir do Egito, e estabeleceram uma rota transaariana que ligava o Marrocos a Gana. No início, eles traziam sal e trocavam por ouro na base de um peso equivalente. A essa altura, o Reino de Gana passou a ser reconhecido como uma região extensamente rica em ouro. Gana atingiu o máximo de sua glória durante os anos 900 e atraiu a atenção dos árabes. Depois de muitos anos de luta, a Dinastia dos Almorávidas berberes subiu ao poder, embora não o tenha conservado durante muito tempo. O reino entrou em declínio e, em 1240, foi destruído pelo povo de Mali.

O Império de Mali deu início ao seu desenvolvimento como um pequeno Estado chamado Kangaba. Em 1235, um guerreiro chamado Sundiata tornou-se soberano e fundou o império. Sundiata construiu uma nova capital em Niani e conquistou territórios ao sul, onde havia minas de ouro, e ao norte, em Tanghaza, onde existia muito sal, controlando, assim, todo o comércio transaariano. O império anexou as cidades de Timbuktu e Gao. Entre os anos de 1324 e 1326, Mansa Kankan Musa fez sua peregrinação a Meca, levando consigo aproximadamente 60 mil servos, 100 camelos e enorme quantidade de ouro, no valor aproximado de três milhões de libras. Como resultado de sua peregrinação, o Império de Mali tornou-se conhecido por todo o mundo mediterrâneo, além de ter convertido a cidade de Tumbuktu, em 1337, em um famoso centro de estudos islâmicos.

Por volta do século XV, a Dinastia Songhai ganhou gradualmente a independência do Império de Mali. A expansão do Songhai avançou mais agressivamente com Sunni Ali, que conquistou o Mali em 1471. A organização de Songhai era mais elaborada que a de Mali. Askia Mohammed criou um exército profissional, o que melhorou a qualidade dos guerreiros e libertou o povo para a produção agrícola, artesanal e comercial ao reduzir os tributos cobrados da população.

Os reinos africanos da região se baseavam no controle das minas de ouro, em sua exportação para o norte e no comércio do sal, marfim, óleos vegetais e escravos. Os songhais estavam vinculados a uma segunda rota estabelecida a partir do Saara e que atingia o Mediterrâneo através da Argélia. Uma terceira ligava o Reino de Kanem, no Lago Tchad, à Tripolitânia e, já no século XIX, mais uma foi estabelecida pela irmandade dos senussi, ligando o Reino de Wadai a Benghazi que, como Trípoli, ficavam na atual Líbia. Assim, várias rotas de caravanas ligavam a África subsaariana ao Mediterrâneo.

VISENTINI, Paulo Fagundes et alli. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 34-36.