"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Idade Antiga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Idade Antiga. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de março de 2017

A herança dos micênios

Afresco micênico representando uma deusa ou sacerdotisa. 
C. 1250-1180 a.C. Artista desconhecido

Embora guerreira e forte, a civilização micênica defrontou-se com uma que era mais guerreira e mais forte: outros gregos, os Dórios, como se pensou por muito tempo, ou outros invasores, ou revoltas internas, ou, o que não é contraditório com as explicações anteriores, uma catástrofe natural provocam, por volta de 1 200, a destruição de todos os palácios, o abandono da maioria dos sítios habitados, o desaparecimento definitivo de uma sociedade e de sua escrita. Mas pode uma civilização desaparecer, legando aos seus sucessores apenas vestígios de ordem material?

Essa recolhera e mantivera grande parte da herança cretense. Nem tudo se desvaneceu na tormenta das novas invasões. A língua grega adotou certas palavras que não são indo-europeias nem semíticas; provém de um idioma talvez mais antigo do que o cretense; em todo caso, foram utilizadas por cretenses e micênicos. A religião grega não perdeu a divinização do princípio da fecundidade, a prática dos jogos esportivos. E os Aqueus asseguraram a transmissão de tudo isso.

Eles próprios não se limitavam ao papel de intermediários. Não lhes podemos atribuir tudo o que mais tarde se tornou helênico: pois devemos levar em conta os demais elementos constitutivos do futuro povo grego. Mas a lembrança de sua guerra contra Troia, de suas incursões pelo Mediterrâneo de suas riquezas, de suas armas e de seus enfeites, alimentou os poemas homéricos. Alguns chegaram mesmo a pensar que tais poemas, no tocante à métrica e estilística, sofrem a influência direta de precedentes micênicos; isso já é um avanço por demais ousado. Limitemo-nos, numa escala mais ampla, a uma observação. Os cretenses haviam aberto a rota transversal do Mediterrâneo oriental; mas isso redundava em proveito do Egeu e suas ilhas. Os micênios conservaram essa rota, mas em proveito da Grécia continental. Os gregos serão assaz numerosos, hábeis e ativos para permanecer etnicamente e, depois, se tornar economicamente, os senhores dessa rota: durante muito tempo ela apenas existirá em virtude deles e em seu favor, como nas eras dos reis de Micenas e Tirinto.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 52-3. (História geral das civilizações, v. 2)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O palácio real nas cidades mesopotâmicas

Jardins suspensos da Babilônia, Ferdinand Knab

O palácio real constitui naturalmente, na vida da cidade mesopotãmica, um mundo à parte. Todo um grupo social o habita e dele depende, ligado ao soberano por laços que não são somente os de parente a chefe de família, ou de servidor a senhor. De fato, os arqueólogos encontram em Ur [...] tumbas, que não devem ser posteriores ao início do III milênio, tão ricas em objetos preciosos que, pelo menos algumas, são com certeza reais. Ora, nenhuma delas contém menos de dois esqueletos, e por vezes várias dezenas, todos arranjados com grande cuidado. Não houve, certamente, nem tumultos nem violências, mas sacrifício voluntário - ou, o que dá no mesmo, imposto pela tradição - de suas vidas por parte de membros do círculo real, a fim de acompanhar o monarca a um mundo extraterreno. Nenhuma tumba real mais tardia foi encontrada intata, quer na Babilônia, quer na Assíria. Mas algumas tabuinhas assírias evocam o ritual funerário aplicado à morte do soberano: revelam-nos que incluía pelo menos o sepultamento concomitante da "dama do palácio", isto é, da que tinha o título de esposa. Simples simulacro, provavelmente, uma vez que conhecemos, no fim do século IX, uma rainha-mãe como regente no início do reinado de seu filho: Samon-Ramat, que se tornou lendária sob o nome de Semíramis. Mas é suficiente mostrar que, sob uma forma amenizada, o antigo hábito deixou traços que perduraram por muito tempo.

Este grupo social é numeroso, de composição muito variada, abrangendo trabalhadores de todas as profissões, domésticos, escribas, artesãos, homens de negócio, agricultores, pastores, guardiões dos armazéns etc., colocados sob a direção de um intendente. É que a existência de um domínio real, dotado de bens múltiplos e dispersos, faz do palácio uma espécie de vasta empresa econômica, cujos benefícios contribuem para fundamentar solidamente a força material do soberano.

Este destaca de seu domínio os apanágios que são constituídos em favor da rainha e dos infantes. No período de Hamurábi, pelo menos, são daí retirados também lotes que se distribuem, à guisa de remuneração, a soldados profissionais ou a funcionários. O restante é explorado diretamente segundo as ordens do rei, que age, nestas condições, como um grande proprietário que cuida de seus interesses. Não existe, seguramente, distinção alguma entre um domínio privado e um domínio real e o Estado, ao menos no que concerne às tarefas materiais de interesse geral. Isto porque, se a distinção pode ser clara para as taxas e impostos, tudo é completamente diferente com as corvéias impostas ao povo para a escavação e manutenção dos canais e canalículos de irrigação, construção de estradas, transportes, requisição de animais de tiro ou de carga, barcos ou carros etc. De qualquer maneira, são comuns os armazéns, onde se acumulam as rendas, tanto do domínio real como do Estado. De tal modo que o rei pode agir também como banqueiro, emprestando dinheiro a juros e participando de negócios de ordem particular. Grande proprietário de bens territoriais e de gado, possuidor de oficinas de transformação, é também um grande capitalista: de todos os pontos de vista, desempenha papel de importância na vida econômica do país.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia: as civilizações imperiais. São Paulo: Difel, 1972. p. 131-2. (História geral das civilizações, 1)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

As moradas dos vivos no Egito Antigo

Modelo de uma casa

A impressão de poder é produzida principalmente pelas realizações arquitetônicas ou, ao menos, por aquelas das quais ainda subsistem traços suficientes. Isto porque os nossos conhecimentos têm limites. Inicialmente, de ordem cronológica: o Médio Império está mal representado; a maior parte dos túmulos desta época, construídos de tijolos, não constituem hoje em dia senão montículos informes; os templos, certamente edificados em grande número e de maneira mais sólida, sofreram, em seguida, múltiplas transformações. Mas, além disto, encontramo-nos tolhidos por limites de ordem lógica.

Com efeito, para tudo o que se destinava aos homens durante sua vida terrena, uma preocupação de rapidez levava à utilização preferencial de materiais mais facilmente encontráveis: sobretudo os tijolos crus, hoje desmoronados e desagregados. Nestas condições, os próprios palácios reais escapam, ou quase, às tentativas de reconstituição: só nos deixaram alguns revestimentos das paredes ou do solo, algumas escavações, onde podemos adivinhar a localização dos lagos para diversões, assinalados nos textos; tais restos empalidecem diante de tantas ruínas monumentais. Se isto se verifica com os palácios, que dizer, então, das casas particulares e, mais ainda, das cidades?

Não obstante, as escavações arqueológicas forneceram algumas indicações. Por exemplo, o sítio de uma cidade temporária, organizada sob o Médio Império, junto a uma oficina de construções, pôde ser pesquisado tanto mais comodamente quanto o fim dos trabalhos provocara o seu abandono. Aí foi possível levantar o plano das casas estandartizadas, tanto para o pessoal de direção, como para os trabalhadores: tudo isto muito indistinto, é verdade, tanto assim que não nos é permitido determinar, nas grandes casas, a finalidade da maioria dos cômodos. Limitemo-nos a assinalar o estrito fechamento das casas para o exterior, o longo corredor com um cotovelo e que levava ao pátio principal, onde havia um pórtico num dos lados maiores; os pátios ou pátiozinhos internos com colunas e tanques, os terraços que, acima dos cômodos, permitiam acesso fácil à frescura da noite: em suma, organizações que correspondiam ao duplo desejo de intimidade doméstica e conforto. Quanto às moradas populares, edificadas num bairro especial, separado do bairro rico por uma muralha, limitavam-se a três ou quatro aposentos exíguos, formando um elemento, por sua vez, articulado num conjunto monótono, de plano geométrico: um tabuleiro de casinholas.

Pondo-se de lado os jardins e a contiguidade, foram encontrados em outras partes, conforme a classe social interessada, ora a procura da vida agradável, ora a humildade. Mas nada temos, lá, que nos surpreenda e seja verdadeiramente original. O mesmo não acontece com os templos e túmulos, monumentos feitos de materiais sólidos - não faltava pedra para isto - e, por definição, construídos para uma eternidade que não lhes faltou.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia: as civilizações imperiais. São Paulo: Difel, 1972. p. 91-3. (História geral das civilizações, 1).

terça-feira, 14 de julho de 2015

O trabalhador na Antiguidade

Artesãos egípcios. Tumba de Nebamum e Ipuki, Tebas, XVIIIª dinastia. Artista desconhecido.

"Sê escriba. Não terás canseiras e ficarás preservado de outros tipos de trabalho. Não terás de transportar a enxada, a picareta e o cesto. Não terás de guiar o arado e serás poupado de todos os tipos de canseira.
Deixe que te recorde o estado miserável do camponês: quando chegam os funcionários para fixar a taxa da colheita, as serpentes já levaram metade do cereal e o hipopótamo comeu o resto. O pássaro voraz é uma calamidade para os camponeses. O trigo que restava na eira desapareceu, os ladrões levaram-no. Não pode pagar o que deve pelos bois que pediu emprestados; além disso, os bois morreram de tanto lavrarem e debulharem. E já o escriba atraca à margem do rio para calcular o imposto sobre a colheita, com um séquito de servos armados de bastões e de núbios com ramos de palmeira".
(Sátira dos ofícios. Citado por CAMINOS, Ricardo A. "O Camponês". In: DONADONI, Sérgio (dir.). O homem egípcio. Lisboa: Presença, 1994)

[...]

Os artesãos da Antiguidade (escultores, tecelões, pintores, ourives, ferreiros, carpinteiros, barqueiros e outros) dependiam dos reis e dos nobres para as encomendas, a obtenção de matéria-prima (muitas vinham de terras distantes) e de ferramentas para sua atividade. Caprichavam no seu trabalho para garantir os pedidos e assegurar seus ganhos. Alguns, por sua habilidade e criatividade, passavam a morar no palácio e se tornavam profissionais exclusivos do rei e de sua corte. Para esses clientes tão especiais, os artesãos e artesãs usavam as melhores matérias-primas. As madeiras nobres ou raras, o mais puro metal, o couro mais macio, a argila mais fina e os melhores corantes eram, em geral, de uso exclusivo de camadas privilegiadas da população, que se interessavam mais pela raridade e luxo da peça do que por sua praticidade. Era uma forma de ostentar riqueza e poder. Daí a História ter conservado o nome dos usuários das peças – espada do rei tal, anel da princesa fulana de tal etc. -, enquanto aqueles que as manufaturaram ficaram no anonimato.

[...]

Muitas pessoas apreciam só as peças caras expostas em um museu ou nas vitrines das lojas, reproduzindo a mesma atitude de reis e nobres do passado, que desvalorizavam o trabalhador artesanal e braçal. Também ignoram que muitos objetos ainda em uso atualmente são iguais aos primeiros feitos há séculos ou milênios. O arado, por exemplo, usado hoje por lavradores pobres em muitos países, é do mesmo tipo do utilizado pelos primeiros agricultores neolíticos.

[...]

No passado, as dificuldades de obtenção de matérias-primas de qualidade e o trabalho escravo foram causas do retardamento tecnológico. Governantes e senhores de escravos não se interessavam por inventos ou melhorias técnicas destinadas a poupar seus escravos do trabalho duro e estafante. O arado, a cerâmica, o tear, as ferramentas, a metalurgia e o tingimento pouco evoluíram durante milhares de anos, desde a sua criação no final da Pré-história.

Por outro lado, as exigências do consumidor de poucas posses contribuíram muito para o desenvolvimento técnico e tecnológico. Homens e mulheres do povo desejavam artigos tão bonitos e vistosos como as jóias e as túnicas de cor púrpura dos nobres, obviamente sem pagar os preços exorbitantes que custavam. Isso estimulou comerciantes e artesãos a procurarem alternativas mais baratas para atendê-los. O vidro, por exemplo, quando bem confeccionado, substituía a pedra preciosa em colares, brincos e pulseiras. Uma mulher do povo podia comprar uma jóia falsa por um preço modesto e ficar muito satisfeita com o resultado. Para tingir tecidos, os artesãos encontraram um substituto para a púrpura: a urzela, um vegetal que nasce sobre rochas e árvores que, ao ser molhada com urina, torna-se um excelente corante vermelho. Seu custo era baixo e atendia à clientela de poucas posses.

[...]


RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 142-143.

sábado, 4 de julho de 2015

A guerra na Antiguidade: ocupações, saques e preservação do conhecimento

A queda de Troia, Johann Georg Trautmann

"Como o desencadear de um terrível furacão, avassalei por inteiro o Elam, cortei a cabeça de Teuman, o seu Rei fanfarrão, que planejara o mal. Não tem conta os seus guerreiros que eu matei, e os que apanhei vivos com as minhas mãos [...] Hamanu, a cidade real do Elam, eu cerquei, eu capturei [...] eu a destruí, eu a devastei, eu a incendiei. Eu sou Assurbanípal, o grande rei, o poderoso rei, rei do universo, rei da Assíria, rei das quatro regiões do mundo, rei dos reis, príncipe inigualado, que ao comando de Assur [...] exerce o governo do mar superior ao inferior, e pôs submissos a seus pés todos os príncipes".
(Citado in: KRAMER, Samuel Noah. Mesopotâmia, o berço da civilização. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983)


[...]


Tudo o que resta são prédios em ruína e um monte de destroços. A imagem é de destruição e sofrimento. A guerra é a mais primitiva forma de o ser humano resolver seus problemas com os outros. Talvez já existisse na Pré-História, mas foi com a formação das primeiras civilizações que a guerra se generalizou. Lutava-se pela posse de terras, cidades, riquezas, escravos...

O rei ou imperador era respeitado e temido pelas suas conquistas. Para eternizá-las, mandava escrever nos papiros, esculpir em pedra e pintar em seus palácios e túmulo suas vitórias militares e as punições que infligiu aos inimigos. Os reis assírios, por exemplo, que conquistaram a Mesopotâmia (século XII-VIII a.C.), orgulhavam-se do massacre que realizaram e de como destruíram campos de cultivo e canais. O Império Persa, mesmo tendo exercido uma dominação mais tolerante [...], também foi formado à custa da perda de milhares de vidas e da destruição de bens materiais. A ação guerreira desses governantes era muito admirada. O imperador Ciro passou à História como "o Grande", em lembrança de suas conquistas.

[...]

Na Antiguidade, os poderes político e militar estavam reunidos na mesma pessoa: o rei. Era ele quem ia à frente do exército, estimulando seus guerreiros e desafiando a morte. Foi em combate aberto que o imperador persa Ciro morreu, juntamente com a maior parte de seus homens. Havia ocasiões em que os generais inimigos se enfrentavam sozinhos, e o resultado dessa luta definia a guerra.

O vitorioso dessas guerras tinha direito de se apoderar dos bens, da família e dos súditos do perdedor. A sua ideia de riqueza era a quantidade de produtos saqueados do inimigo. Seus soldados eram recompensados com os bens roubados da população conquistada. Ao retornarem ao seu país, faziam questão de desfilar pelas ruas exibindo os objetos e os prisioneiros de guerra. A cidade de Persépolis, por exemplo, foi saqueada pelo exército de Alexandre Magno (século IV a.C.) durante vários dias e depois incendiada. Um escritor grego afirmou que foram usadas 10 mil mulas e 5 mil camelos para transportar os seus tesouros.

[...]

Apesar das guerras, ocupações e saques, os conhecimentos desenvolvidos pelos homens e mulheres não foram totalmente perdidos. Muitas vezes, por iniciativa do novo governante (mesmo estrangeiro) e pela persistência da população, as criações humanas foram preservadas. Desse modo, os textos mesopotâmicos, incluindo o código de Hamurábi, foram copiados e reunidos nas bibliotecas dos reis conquistadores; os estudos astronômicos continuaram a ser realizados, mesmo sob o domínio estrangeiro; a técnica dos artesãos, a habilidade comercial dos mercadores e o saber tradicional dos escribas não se dispersaram totalmente quando as cidades mudaram de senhores; a experiência agrícola dos camponeses, as técnicas de fiação e tecelagem foram transmitidas pelos pais ao seus filhos e filhas.

Assim, parte do conhecimento sobreviveu à destruição material e humana provocada pelas guerras. E isso graças à ação de homens e mulheres que, mesmo arruinados pelos saques, continuaram a transmitir o que sabiam aos seus descendentes. Se assim não fosse, ao fim de cada guerra, os perdedores teriam de descobrir, por sua própria experiência. o que seus antepassados levaram séculos ou milênios para aprender e desenvolver. Nos dias atuais, a população de países envolvidos em guerras também não se esquece de seus conhecimentos e práticas cotidianas. É comum, por exemplo, que professores ensinem crianças a ler e escrever dentro de campos de refugiados.

Hoje, quando visitamos as ruínas de capitais dos impérios antigos, ficamos maravilhados com a grandiosidade de seus palácios, a imponência de suas colunas e a riqueza de suas decorações. Imaginamos os imperadores vaidosos e orgulhosos de suas conquistas desfilando com seus exércitos e ordenando a decapitação dos inimigos. O que restou de suas vitórias e domínios são, agora, vestígios arqueológicos. No entanto, o conhecimento cultural, técnico e artístico dos povos conquistados preservou-se e propagou-se, e faz parte do nosso dia-a-dia. A roda, a metalurgia, o alfabeto, os cálculos matemáticos e geométricos, o pensamento religioso, os contos e mitos sobreviveram ao tempo e às guerras.

[...]

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 153-55.

sábado, 20 de junho de 2015

As epopeias homéricas como fonte histórica

O amor de Helena e Páris, Jacques-Louis David

A Ilíada e a Odisseia eram uma evocação de acontecimentos ocorridos na Idade do Bronze, no mundo micênico. A questão de saber a que época histórica se poderá ligar o testemunho de Homero e em que medida serve como fonte histórica continua sendo um debate. [...] De acordo com Vidal-Naquer e Michel Austin, para além das coincidências entre as fontes, há leis que regulam oposições e classificações que serão encontradas ao longo de toda a civilização grega, sobretudo as que definem o lugar dos homens com relação aos não humanos e aos deuses. Se há tais distinções, não podemos presumir, a partir de Homero, a existência de um rei divinizado como o ánax micênico. Agamenon, nas epopeias, estaria, assim, mais próximo de um basileus.

Assim, a Ítaca de Homero - com seus basileus, sua assembleia, seus nobres turbulentos e seu demos silencioso em segundo plano - prolonga e esclarece certos aspectos da realeza micênica. Neste confronto entre a narrativa histórica e as descobertas arqueológicas, os estudiosos puderam perceber um novo sentido para o conceito de basileus ou temenos. Certamente os reinos e os reis da Ilíada e da Odisseia não se referem a uma sociedade palaciana centralizada. Os heróis, que na Ilíada - um canto de guerra - vivem com autonomia, aparecem na Odisseia - um canto de paz - referidos ao oikós, e não a um palácio dirigido por um poder supremo centralizado. O oikós seria a unidade econômica e humana sobre a qual reinariam o basileus homérico, ou seja, chefes guerreiros e nobres.

Estabelecidas as diferenças entre o rei micênico e o homérico, podemos seguir com a questão da época das trevas ou "Idade do Ferro", que se inicia com a queda do poder micênico e a expansão dos dórios no Peloponeso, Creta e Rodes. Aqui, diferentemente do período micênico, que confundia o mundo humano com o divino na pessoa do rei, encontramos uma delimitação mais rigorosa dos diferentes planos do real, ou seja, os homens identificam um passado separado, diferente e distante do tempo presente; começam a incinerar os mortos ao invés de embalsamá-los, o que significa uma separação entre o mundo dos vivos e dos mortos. Sem a presença do rei divino micênico novas distâncias são colocadas entre o mundo dos homens e o dos deuses.

A percepção da diferença entre passado e presente, a separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos e as distâncias entre homens e deuses são novidades que se inscrevem em realidades sociais também novas. Tais novidades só terão sentido se pudermos referi-las ao tipo de organização do mundo micênico redefinido após as descobertas arqueológicas.

EYLER, Flávia Maria Schlee. História antiga: Grécia e Roma. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014. p. 35-36. (Série História Geral).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O vestuário no antigo Egito

Como para muitos outros aspectos do cotidiano, a decoração dos túmulos, as cenas dos templos, as estátuas, os textos e algumas descobertas arqueológicas dão uma ideia precisa da forma como os egípcios se vestiam. Mas vale lembrar que as roupas de festa com as quais eles são representados eram geralmente ligadas às classes mais altas. Na rotina do trabalho no campo, a grande maioria da população ficava nua, ou quase, com apenas um pedaço de tecido enrolado na cintura. As crianças eram representadas nuas, independentemente de sua classe social ou riqueza da família.


Cena de banquete: vestuário feminino. 
Detalhe de pintura mural em tumba.

Confeccionados em linho branco (os tecidos coloridos eram exceção), a tanga para os homens e o vestido reto para as mulheres eram as “bases” da vestimenta egípcia. O hábito praticamente não mudou do Antigo Império até meados da 18ª dinastia. Era assim que os deuses se vestiam.

Na época amarniana e no período ramessida, a moda evoluiu com o uso de vestimentas amplas, plissadas e transparentes sobrepostas à tanga e vestidos mais elaborados. Essa tendência se manteve até que fosse adotada uma moda relativamente helenizada, depois da conquista do Egito por Alexandre, o Grande.


Cena de colheita: vestuário masculino. 
Detalhe de pintura mural em tumba.

A peruca, por ter a função de proteger do sol, era um elemento constitutivo da vestimenta egípcia, tanto masculina como feminina. Talvez para evitar vermes, eles tinham o hábito de cortar os cabelos curtos, também para as mulheres, e até de raspar completamente a cabeça e usar peruca. Esta era geralmente feita de cabelos naturais, e as formas e estilos variavam conforme a moda.

Várias funções religiosas ou administrativas envolviam o uso de um traje específico. É o caso do sacerdote funerário, que jogava uma pele de pantera nas costas, e também do vizir, primeira pessoa do Estado depois do rei, que usava um grande manto.

O traje real sempre foi objeto de uma codificação específica em função dos diferentes papéis do rei ou dos ritos que ele tinha de cumprir.

Vincent Rondot. Vestuário. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 1: antiguidade.. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 25.

NOTA: O texto "O vestuário no antigo Egito" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O legado do Egito

Nefertiti

"O Egito oferece ao sábio e ao historiador os vestígios da mais antiga das nossas civilizações. Os mais famosos sábios da Grécia - Tales, Pitágoras e Heródoto - foram instruir-se com os sacerdotes de Mênfis e de Tebas. Após a conquista grega, em Alexandria, combinaram-se as civilizações do velho Oriente e da Grécia, para dar bem logo aos romanos, donos do mundo, uma civilização universal". (Malet)

I - A história do antigo Egito - 4000 anos de duração - é, na certeira expressão de Vercoutter, o mais longo experimento humano de civilização. Embora de sentido essencialmente prático, a cultura egípcia alcançou níveis admiráveis.

Os antigos egípcios ergueram monumentos que desafiam os séculos. Utilizaram a escrita; e criaram - ou deram origem ao alfabeto. Aperfeiçoaram a agricultura, a pecuária, a técnica de construção, a medicina. Estabeleceram o ano de 365 dias, muitos séculos antes que qualquer outro povo. Seus arquitetos e matemáticos planejaram construções gigantescas com margem de erro incrivelmente pequenas. Seus técnicos souberam regular e aproveitar as crescentes do Nilo. Cultivaram a terra, extraíram minérios, distinguiram-se no artesanato. Na filosofia e na moral atingiram conceitos da maior elevação.

Há os que consideram o antigo Egito como o verdadeiro criador, ou iniciador, de todas as manifestações da civilização ocidental: religião, arte, ciência, filosofia, política, organização social, economia, moral. O Egito teria sido a fonte autêntica e única de toda invenção e de todo descobrimento, isto é, de todo o nosso progresso. Os gregos, e os seus sucessores, teriam aprendido com os egípcios. Teriam copiado e imitado e, naturalmente, teriam dado alguns passos à frente. Mas muitos profundos segredos e mistérios da fabulosa civilização egípcia ainda permaneceriam ocultos, insondáveis.

Trata-se dum evidente exagero. Não se deve, porém, cair no extremo oposto e subestimar o apreciável valor cultural, sobretudo prático, do antigo Egito. (BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 46-47.)

II – Em 2600 a.C., os egípcios foram os primeiros padeiros conhecidos a fazer um tipo moderno de pão com fermento. Em sua forma, o pão que faziam parecia mais com um omelete fino do que com o pão mais fofo, feito nos tempos da Grécia. Uma outra invenção dos egípcios foi o fogão de assar, com uma fornalha para a lenha no fundo e um forno no alto. (BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 41.)

III - O gigantismo do Egito foi a base de sua força. Foi também o que provocou o esmagamento do seu povo. Muitos esforços foram envidados para manter a unidade da terra do faraó; uma administração complexa foi mantida à custa de muito trabalho e a submissão do felá foi massacrante. Mas os hieróglifos e as pirâmides, os templos e os sarcófagos, o primeiro modelo de administração centralizada no mundo e uma religião fascinante são patrimônio da humanidade. (PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2010. p. 104.)

sábado, 3 de setembro de 2011

Orientação religiosa do Oriente Próximo antigo

Templo de Karnak, Egito

A religião dominou, impregnou e inspirou todas as características da sociedade do Oriente Próximo: direito, realeza, arte e ciência. Ela foi a fonte de vitalidade e criatividade das civilizações mesopotâmicas e egípcia. Os reis-sacerdotes, ou rei-deuses, cujo poder era sancionado pelas forças divinas, proporcionavam a autoridade necessária à organização de grandes massas de pessoas em empreendimentos cooperativos. A religião também encorajou e justificou as guerras - inclusive escravizações e massacres -, que eram vistas como conflitos entre os deuses.

* Uma visão mítica do mundo. Uma visão de mundo religiosa ou mitogênica (criadora de mitos) dá à civilização do Oriente Próximo sua forma característica e nos permite vê-la como um todo orgânico. A criação de mitos foi a primeira maneira de pensar da humanidade, a mais antiga tentativa de tornar compreensíveis a natureza e a vida. Falando principalmente à imaginação e às emoções, e não à razão, o pensamento mítico tem sido um elemento fundamental da cultura humana, que se expressa com frequência de maneira criativa, na linguagem, na arte, na poesia e na organização social.


Tendo origem nos ritos sagrados, nas danças rituais, nas festas e cerimônias, os mitos narravam os feitos dos deuses que, num passado remoto, haviam criado o mundo e os seres humanos. Sustentando que o destino humano era determinado pelos deuses, o homem do Oriente Próximo interpretou suas experiências através dos mitos. Estes também permitiram aos mesopotâmios e egípcios compreender a natureza, explicar o mundo dos fenômenos. Através dos mitos, a mente do Oriente Próximo buscou dar coerência ao Universo e torná-lo inteligível. Os mitos propiciaram aos povos do Oriente Próximo uma estrutura que lhes permitiu adequar suas experiências a uma ordem significativa, justificar suas regras de comportamento e tentar superar a incerteza da existência.


As civilizações do Oriente Próximo antigo baseavam-se num modo de penar fundamentalmente diferente da perspectiva científica moderna. Há uma profunda diferença entre os pensamentos mítico e científico. A mente científica vê a natureza física como uma coisa - inanimada, impessoal e governada por leis universais. A mente criadora de mitos do Oriente Próximo via cada objeto da natureza como um tu - personificado, vivo, com uma vontade individual. Deuses ou demônios manipulavam tudo. O Sol e as estrelas, os rios e as montanhas, o vento e o relâmpago eram deuses ou residência dos deuses. Para o homem do Egito ou da Mesopotâmia, os fenômenos naturais - a queda de uma rocha, um trovão, uma enchente - representavam a vida enfrentando a vida. Se um rio inundava uma região, destruindo as plantações, era por vontade própria; o rio ou os deuses desejavam punir as pessoas.


[...]


Os egípcios acreditavam que o Sol surgia de manhã, viajava pelo céu e punha-se no reino dos mortos, além do horizonte ocidental. Às vezes, dizia-se que todos os dias a grande Vaca do Céu partejava o Sol e que este era engolido, todas as noites, pela deusa do céu Nur. Depois de repelir as forças do caos e da destruição, o Sol ressurgia na manhã seguinte. Para os egípcios, o nascer e o pôr-do-sol não eram ocorrências naturais - um corpo celeste obedecendo a uma lei impessoal -, mas um drama religioso.


A mente científica sustenta que os objetos naturais obedecem a regras universais; assim, a localização dos planetas, a velocidade dos objetos e o início de um furacão podem ser previstos. A mente criadora de mitos do Oriente Próximo antigo não era atormentada por contradições. Não buscava coerência lógica, nem tinha consciência das leis repetitivas inerentes à natureza. Em vez disso, atribuía todas as ocorrências às ações dos deuses, cujo comportamento era com frequência caprichoso e imprevisível. Médicos feiticeiros utilizavam de magia para proteger as pessoas das maléficas forças sobrenaturais que as rodeavam. A mente criadora de mitos apela à imaginação e aos sentimentos e proclama uma verdade emocionalmente satisfatória, não aquela a que se chegou mediante análise e síntese intelectuais. As explicações míticas da natureza e da experiência humana enriquecem a percepção e o sentimento. Desse modo, faziam a vida parecer menos opressiva e a morte menos aterrorizante.


É claro que o homem do Oriente Próximo praticou formas racionais de reflexão e comportamento. Empregou, sem dúvida, a razão na construção de obras de irrigação, na elaboração de um calendário e nas operações matemáticas. Mas como o pensamento lógico ou racional continuou subordinado a uma visão mítica e religiosa do mundo, ele não chegou a um método racional coerente e consciente de investigação da natureza física e da cultura humana.


A civilização do Oriente Próximo atingiu o primeiro nível no desenvolvimento da ciência - observação da natureza, registro de dados e melhoria da tecnologia de mineração, metalurgia e arquitetura. Não avançou, porém, até o nível do pensamento filosófico e científico autoconsciente - ou seja, as abstrações, hipóteses e generalizações logicamente deduzidas. Os mesopotâmios e egípcios não criaram um corpo de ideias científicas e filosóficas logicamente estruturado, discutido e debatido. Não tinham noção das leis gerais que governam eventos particulares. Essas realizações posteriores couberam à filosofia grega, que deu uma "interpretação racional às ocorrências naturais que até então haviam sido explicadas pelas mitologias antigas (...) Com o estudo da natureza libertado do controle da imaginação mitológica, abriu-se o caminho para o desenvolvimento da ciência como um sistema intelectual". (SAMBURSKY, Samuel. The Physical World of the Greeks. New York: Collier Books, 1962. p. 18-19.)


* Realizações do Oriente Próximo. Sumérios e egípcios demonstraram enorme criatividade e inteligência. Construíram obras de irrigação e cidades, organizaram governos, mapearam o curso dos corpos celestes, realizaram operações matemáticas, erigiram monumentos gigantescos, empenharam-se no comércio internacional, estruturaram sistemas burocráticos, criaram escolas e fizeram consideráveis progressos tecnológicos. Sem a invenção suméria da escrita - um dos grandes atos de criação da história -, o que entendemos por civilização não poderia ter surgido.


Muitos elementos da antiga civilização do Oriente Próximo foram transferidos ao Ocidente. O veículo de rodas, o arado e o alfabeto fonético - todos importantes para o desenvolvimento da civilização - vêm do Oriente Próximo. No âmbito da medicina, os egípcios sabiam do valor de certos medicamentos como o óleo de rícino; sabiam também como usar talas e ataduras. As inovadoras divisões que deram 360 graus a um círculo e 60 minutos a uma hora tiveram origem na Mesopotâmia. A geometria egípcia e a astronomia babilônica foram utilizadas pelos gregos e tornaram-se parte do conhecimento ocidental. A crença de que o poder de um rei descende de uma fonte celestial também provém do Oriente Próximo. Também na arte cristã encontram-se ligações com as formas de arte mesopotâmica - por exemplo, os assírios retrataram seres alados semelhantes a anjos.


Os temas literários da Mesopotâmia foram também copiados, tanto pelos hebreus como pelos gregos. Por exemplo, algumas histórias bíblicas - o Dilúvio, a luta entre Caim e Abel, a torre de Babel - têm antecedentes mesopotâmicos. Há uma ligação semelhante entre os gregos e as mitologias mesopotâmicas antigas.


Assim, muitas das realizações dos egípcios e mesopotâmios foram herdadas e assimiladas tanto pelos gregos como pelos hebreus. Ainda mais importantes para o entendimento do significado essencial da civilização do Ocidente são as maneiras pelas quais gregos e hebreus rejeitaram ou transformaram elementos das velhas tradições do Oriente Próximo para criar novos pontos de partida para a mente humana.


PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 23-26.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Construtores de impérios no Oriente Próximo antigo

Relevo assírio 

"O cenário da história é o cenário da atividade humana: o meio físico em que se desenvolve a vida dos homens e das mulheres."
(Josep Fontana)

A ascensão de um império egípcio durante o Novo Império foi parte de uma evolução mais ampla na história do Oriente Próximo depois de 1500 a.C. - o aparecimento de impérios internacionais. A construção de impérios levou à fusão de povos e de tradições culturais, bem como à extensão da civilização muito além dos vales dos rios.

Uma das razões do crescimento dos impérios foi a migração dos povos conhecidos como indo-europeus. Originários de uma vasta área que se estendia desde o sudeste da Europa até a região além do mar Cáspio, eles iniciaram uma série de migrações por volta do ano 2000 a.C., que acabou por levá-los à Itália, Grécia, Ásia Menor, Mesopotâmia, Pérsia e Índia. De uma língua básica indo-europeia surgiram as línguas grega, latina, germânica, eslava, persa e sanscríticas.

* Hititas. Vários povos estabeleceram Estados fortes no Oriente Próximo por volta de 1500 a.C. - os hurritas no norte da Mesopotâmia, os cassitas no sul do Mesopotâmia e os hititas na Ásia Menor. Os hititas queriam controlar as rotas de comércio que corriam ao longo do rio Eufrates em direção à Síria. Na década de 1300, o império hitita alcançou seu apogeu. Seus líderes dominaram a Ásia Menor e o norte da Síria, atacaram a Babilônia e disputaram com o Egito o controle da Síria e da Palestina.

Os hititas adotaram várias características da civilização mesopotâmica, entre elas a escrita cuneiforme, os princípios legais e as formas de arte e literatura. A religião hitita combinava as crenças e práticas dos indo-europeus nativos da Ásia Menor com as dos mesopotâmios. Os hititas foram provavelmente o primeiro povo a desenvolver uma indústria do ferro significativa. De início, ao que parece, utilizavam o ferro somente para a fabricação de objetos rituais ou cerimoniais, não para ferramentas e armas. No entanto, como o minério de ferro era mais fácil de obter que o cobre ou o estanho (necessários para a produção de bronze), a partir de 1200 a.C. as armas e ferramentas de ferro difundiram-se pelo Oriente Próximo, embora o bronze ainda fosse utilizado em muitos instrumentos. Por volta dessa época, o império hitita entrou em colapso, muito provavelmente devido às invasões dos indo-europeus vindos do norte.

* Pequenas nações. No século XII a.C., houve uma pausa temporária na formação de impérios, que permitiu a várias pequenas nações na Síria e Palestina afirmarem sua soberania. Três delas - os fenícios, os arameus e os hebreus - eram originalmente nômades semitas do deserto. Os fenícios descendiam dos cananeus, um povo semita que se estabelecera na Palestina por volta de 3000 a.C. Os cananeus que migraram para noroeste, para a região onde hoje se situa o Líbano, eram chamados de fenícios.

Instalando-se nas cidades de Tiro, Biblos, Berito (Beirute) e Sídon, no litoral do Mediterrâneo, os fenícios foram naturalmente atraídos para o mar. Esses ousados exploradores fundaram cidades ao longo da costa do norte da África, nas ilhas do Mediterrâneo ocidental e na Espanha, tornando-se os maiores comerciantes marítimos do mundo antigo. Os fenícios (ou seus antepassados cananeus) criaram um alfabeto que constituiu uma formidável contribuição para a escrita. Como todas as palavras podiam ser representadas pelas combinações de letras, esse alfabeto evitava a necessidade de memorizar milhares de diagramas e permitiu aos fenícios transmitirem as civilizações do Oriente Próximo ao Mediterrâneo ocidental. Adotado pelos gregos, que lhe acrescentaram vogais, o alfabeto fonético tornou-se um componente fundamental das línguas europeias.

Os arameus, que se instalaram na Síria, Palestina e norte da Mesopotâmia, tiveram um papel semelhante ao dos fenícios. Como grandes mercadores, que operavam em caravanas, levaram tanto mercadorias como padrões culturais a várias partes do Oriente Próximo. Os hebreus e os persas, por exemplo, tomaram conhecimento do alfabeto fenício por intermédio dos arameus.

* Assíria. No século IX a.C., a formação de impérios foi reiniciada, dessa vez pelos assírios, povo semita da região em torno do Alto Tigre. Embora tivessem realizado movimentos expansionistas em 1200 e 1100 a.C., os assírios só começaram sua marcha para a formação de um império "mundial" três séculos depois. Nos séculos VIII e IX transformaram-se numa impiedosa máquina de guerra, conquistando a Mesopotâmia, inclusive Armênia e Babilônia, bem como Síria, Palestina e Egito.

O rei assírio, que era representante e o sumo sacerdote do deus Assur, governava de maneira absoluta. Os nobres, nomeados por ele, mantinham a ordem nas províncias e coletavam os tributos. Os assírios melhoraram as estradas, estabeleceram serviços de mensageiros e realizaram projetos de irrigação em grande escala para facilitar a administração eficiente das terras conquistadas e promover a prosperidade. Para manter dóceis os súditos, recorriam ao terror e deportavam aqueles que causavam problemas.

Apesar de sua dureza, os assírios preservaram e difundiram a cultura do passado. Copiaram e publicaram as obras literárias da Babilônia, adotaram os antigos deuses sumérios e usaram as formas de arte mesopotâmicas. O rei assírio Assurbanipal (669-626 a.C.) tinha uma grande biblioteca, que abrigava milhares de tabletes de argila. Depois de um período de guerras e de revoltas debilitadoras por parte dos súditos oprimidos, uma coalisão formada por medos do Irã e caldeus (ou neobabilônios) saqueou a capital assíria Nínive no ano 612 a.C. O poderio assírio estava encerrado.

* Pérsia: unificadora do Oriente Próximo. A destruição do império assírio possibilitou a ascensão de um império caldeu, que incluía Babilônia, Assíria, Síria e Palestina. Sob o governo de Nabucodonosor, que reinou de 604 a 562 a.C., o império caldeu atingiu seu apogeu. Após a morte de Nabucodonosor, o império foi arrasado pela guerra civil e ameaçado por um novo poder: os persas, um povo indo-europeu que se instalara no sul do Irã. Sob o comando de Ciro, o Grande, e de seu filho e sucessor Cambises, os persas conquistaram as terras entre os rios Nilo, no Egito, e Indo, na Índia, num período de 25 anos, que foi de 550 a 525 a.C.

A concepção de monarquia absoluta do Oriente Próximo, justificada pela religião, atingiu sua expressão culminante na pessoa do rei persa que, com a proteção divina, governava um vasto império - "três quartos da terra". Os reis persas desenvolveram um sistema eficiente de administração - baseada em parte no modelo assírio -, que deu estabilidade e uma certa unidade aos seus extensos territórios. [...] Os reis persas permitiram às províncias uma certa margem de autonomia e respeitavam as tradições locais, particularmente em questões de religião, desde que os súditos pagassem os tributos, servissem no exército real e se abstivessem de rebelar-se.

O império era unificado por uma língua única, o aramaico (a língua dos cananeus da Síria), usada pelos funcionários governamentais e pelos comerciantes. O aramaico era escrito com letras baseadas no primeiro alfabeto, desenvolvido pelos fenícios. Fazendo dele uma língua universal, os persas facilitaram as comunicações escritas e orais dentro do império. Este teve ainda outro elemento unificador na bem desenvolvida rede de estradas, num sistema postal eficiente e num sistema comum de pesos e medidas, bem como na cunhagem de moedas válidas em todo o império e baseada numa invenção dos lídios, da Ásia Menor ocidental.

Além de constituírem uma unidade política e administrativa impressionante, os persas fundiram e perpetuaram as várias tradições culturais do Oriente Próximo. Nos palácios persas, por exemplo, foram encontrados os terraços da Babilônia, as colunas do Egito, os touros alados que decoravam os portões dos palácios assírios e a habilidade artesanal dos ourives medos.

PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 20-22.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Civilização cretense ou egeia

A Parisiense.  Artistas desconhecidos. Ao descobrir no palácio de Cnossos este fragmento de afresco, Arthur Evans é seduzido pelo nariz empinado da jovem mulher, seu cabelo cacheado sobre a testa, seus lábios pintados e seus adereços amarrados a uma fita. Ele o batiza "A Parisiense". Mas essa Parisiense, que se tornou célebre no mundo inteiro, não é uma elegante dama da corte de Minos. É uma divindade reconhecível pelo laço que traz nas costas. Cnossos, por volta de 1500 a.C.

No início do III milênio a.C., surgiu na ilha de Creta, no Mediterrâneo oriental, e nas ilhas do Mar Egeu, uma notável civilização, a civilização cretense ou egeia, desenvolvida por povos que aí se estabeleceram, oriundos provavelmente da Ásia Menor.

Desde os primeiros tempos a civilização cretense caracterizou-se pelas atividades comerciais que se estenderam ao Mar Egeu, à península grega, ao litoral do Mar Negro e ao Egito, fundando também algumas colônias como Micenas e Tirinto, no Peloponeso, e Tróia, na Ásia Menor. Em função da expansão marítima, os cretenses tiveram contato com várias civilizações deles contemporâneas, principalmente dos egípcios, dos mesopotâmios e, mais tarde, dos fenícios. Além disso, a posição geográfica de Creta era quases um traço de união entre a Ásia, a Europa e a África.

[Creta] parece ter sido feita pela natureza para comandar a Grécia. Sua posição é muito bela. Domina o mar em torno do qual localizam-se todos os gregos. De um lado achava-se a curta distância do Peloponeso; de outro diante daquela região da Ásia Menor situada atrás da ilha de Rodes [...] Este o motivo pelo qual Creta possui o domínio do mar e conquistou e colonizou as ilhas. (Aristófanes)

Conhecemos mal a história de Creta, pois sua escrita (escritas minóicas) ainda não foram totalmente decifradas. Apenas os relatos dos antigos gregos e, sobretudo, as escavações arqueológicas nos permitem reconstituir em parte sua história e descrever sua cultura em traços bastante gerais.

* Evolução histórica dos cretenses. O primeiro período, conhecido como Minóico antigo (2700 a 2000 a.C.), caracterizou-se pelo predomínio das cidades de Cnossos e de Faístos.

Creta é uma terra que se acha no meio do mar cor de vinho, bela e fecunda, cercada por ondas. Inúmeros homens, quase infinitos, lá moram, formando noventa cidades [...] Entre as cidades se nota a de Cnossos, a opulenta, onde Minos, o confidente de Zeus, o comando exerceu por nove anos. (Homero, Odisseia, canto XIX, v. 172-179).

O segundo período, ou Minóico médio (2000 a 1500 a.C.) foi o apogeu da civilização cretense. Terminou com o ataque dos aqueus (povo helênico indo-europeu) às colônias de Creta - Micenas e Tirinto - onde assimilaram a cultura do povo conquistado.

No terceiro período, ou Minóico recente (1580 a 1200 a.C.), os aqueus atacaram novamente Creta (1400 a.C.) e Tróia (séc. XII a.C.). Creta foi invadida também por outro povo helênico indo-europeu, os dórios (1200 a.C.)

* Economia. Inicialmente baseou-se na agricultura, com o cultivo de cereais, oliveiras e vinhas, e na criação de animais. Os cretenses dedicaram-se também, em seguida, ao comércio marítimo com outras ilhas do Mar Egeu, com cidades da Ásia Menor e do Egito. Para abastecer esse comércio desenvolveram uma indústria de cerâmicas, tecidos e artigos de metal que produziam em larga escala para o mercado interno e externo.

A ilha exportava azeite, vinho, jóias e maravilhosas cerâmicas, e importava metais preciosos (ouro, prata), cobre, estanho, marfim, vidros e tecidos. Os cretenses tinham um sistema de pesos e medidas semelhante ao dos egípcios e dos mesopotâmios; como dinheiro usavam lingotes de cobre, discos de metal precioso, às vezes marcados com sinetes, para facilitar as transações comerciais, identificar e proteger propriedades.

Surgia assim, pela primeira vez, uma civilização cujo poder se assentava no domínio do mar (talassocracia), através das rotas comerciais do Mediterrâneo, alcançando, além do Peloponeso, a Ásia Menor, o Egito e até o sul da Itália.

* Religião. A religião cretense baseava-se sobretudo no culto de uma Deusa-Mãe, que governava todo o universo e representava a fecundidade. Além disso, eram adorados certas árvores e alguns animais, como a serpente, o touro, o veado e o minotauro (animal metade touro e metade homem). As cerimônias religiosas eram oficiadas pelo rei (autoridade religiosa suprema) e por sacerdotes que faziam aos deuses oferendas de cereais e sacrifícios de animais.

Os cretenses encaravam a morte com naturalidade, como um prolongamento da existência na terra. Acreditavam, portanto, em uma vida de além-túmulo; por isso os mortos eram enterrados com cuidados especiais e, como no Egito, com todos os pertences que, achavam, poderiam necessitar.


Príncipe dos lírios. Artistas desconhecidos. Afresco do Palácio de Cnossos

* Arte. Em arquitetura, os palácios reais, devido aos constantes acréscimos exigidos pelo conforto, não apresentavam um estilo único e formavam estruturas complexas a que os gregos denominaram labirintos.

A escultura revela a preocupação com o detalhe; limitou-se quase sempre a estatuetas de faiança, marfim, bronze ou argila. O mais alto grau de expressão artística dos cretenses foi a pintura, que se revela nos delicados vasos ou nos afrescos coloridos que cobrem as paredes dos palácios, mostrando flores, aves, animais de toda espécie e cenas da vida cotidiana.

Afresco do pescador. Artistas desconhecidos. O pescador volta para casa carregando seus peixes atados em réstias. Este tema bem banal é realçado pela elegância do homem e pelo contraste entre sua pele morena e o azul prateado dos peixes. Sobre sua cabeça, dois polvos ficaram presos em sua cabeleira, quando subiu à superfície da água com seus peixes. Akrotiri (Théra), século XVI a.C.

* A vida em Creta. Temos noções da vida dos cretenses pelas obras de arte que nos legaram. Mesmo nas camadas humildes parece ter sido mais livre, feliz e confortável do que a vida de outros povos da Antiguidade.

"Os cretenses - diz o historiador André Ribard - gostavam de flores nos jardins e nas casas. [...] As mulheres usavam saias e corpetes de mangas, tão decotados que seu peito estava nu, togas debruadas, às vezes rodadas, e botins de saltos. As modas cretenses lhes davam uma graça taful que contrastava com o tom empolado do luxo oriental. Os homens, barbeados, apertando o talhe até o excesso, calçavam botas de couro, cobriam-se com mantos de lã e apreciavam tanto quanto as mulheres os braceletes e colares."

O rei de Creta - denominado Minos - apesar de seu poderio político e econômico, não oprimia seus súditos, nem possuía um exército forte ou uma classe militar, governava com justiça e sabedoria. Mesmo a escravidão, se em Creta tiver existido, parece não ter sido significativa.

Minos foi, com efeito, dentre os homens que conhecemos pela tradição, o que mais cedo adquiriu uma frota e dominou a maior extensão do mar que hoje se chama helênico; exerceu a hegemonia sobre as ilhas Cícladas e foi quem primeiro instalou a maioria das colônias [...]. (Tucídides, I, 4)

A mulher ocupou posição de destaque na sociedade cretense, tendo podido dedicar-se, como os homens, a quaisquer atividades e ocupações.

Mosaicos representando três mulheres. Artistas desconhecidos. Estas três belas mulheres de Cnossos foram "restauradas" quando de sua descoberta, o que explica seu perfeito estado. Com seus longos cachos de cabelos descendo sobre seus ombros, seus boleros vermelhos bordados e suas jóias, respondem aos critérios de beleza feminina em Creta. Cnossos (Creta, século XVI a.C.)

O cretense foi um povo interessado em esportes, corridas, jogos, danças, festas. A principal festa era em honra à deusa-mãe, na qual se destacava uma espécie de tourada onde o touro, animal sagrado, não era morto e sim parceiro de um tipo de perigosa exibição acrobática executada por homens e mulheres jovens.

Acrobatas e touros. Artistas desconhecidos. Afresco do vestíbulo do palácio de Cnossos, por volta de 1550 a.C.
Foto: Nikater

A Grécia sofreu considerável influência da civilização cretense. Alguns povos gregos aprenderam a escrever nas escritas minóicas, que mais tarde substituíram pelo alfabeto fenício. É provável que também a religião grega tenha sido influenciada pela cretense, no culto da deusa da fecundidade e em outros cultos menores. Dos cretenses os gregos receberam a cultura da vinha e da oliveira, os costumes das festas religiosas e a prática de jogos esportivos. (HOLLANDA, Sérgio Buarque de (et all). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 39-42.)

Afresco de Campstool.  (Parcialmente restaurado). Artistas desconhecidos. Palácio de Minos, Cnossos, século XVI a.C.

* A influência da civilização egeia. Não é fácil avaliar a influência da civilização egeia. Os filisteus, que provinham de algum recanto do mundo egeu, introduziram certos aspectos dessa cultura na Palestina e na Síria. Há razões para acreditar que muitos elementos da arte fenícia, assim como as lendas de Sansão, do Velho Testamento, foram, na realidade, tomadas aos filisteus. É provável também que as tradições religiosas e estéticas dos cretenses, e talvez alguma coisa de seu espírito de liberdade, tenham influenciado os gregos. Mas uma considerável parte da civilização egeia perdeu-se ou foi destruída. Em seguida à queda de Cnossos iniciou-se uma era de obscurantismo que durou quase quatrocentos anos. Os conquistadores eram bárbaros, incapazes de apreciar grande parte da cultura do povo que dominaram e, consequentemente, deixaram que ela perecesse.


Afresco da procissão. Palácio de Cnossos. Artistas desconhecidos. Foto: Nikater

* Importância da civilização egeia para o mundo moderno. A despeito de sua influência limitada, a civilização egeia tem importância para os estudiosos de história, pois foi Creta uma das poucas nações dos antigos tempos que asseguraram, mesmo aos seus cidadãos mais humildes, uma razoável parcela de felicidade e de prosperidade, vivendo livres da tirania de um estado despótico e de um clero insidioso e astuto. A ausência aparente de escravidão, de punições brutais, de trabalho forçado e de conscrição militar, juntamente com uma grande igualdade virtual entre as classes e a nobilização da mulher - tudo compõe um regime em flagrante contraste com o dos impérios asiáticos. Se forem ainda necessários testemunhos adicionais para salientar esse contraste, eles serão encontrados na arte das várias nações. O escultor ou o pintor egeu não se gloriava em representar a destruição dos exércitos ou o saque das cidades, mas em retratar paisagens floridas, festas alegres, emocionantes exibições de proezas atléticas e cenas semelhantes, próprias de uma existência livre e pacífica. Por fim, a civilização egeia é significativa pelo parentesco com o que muitas vezes pensamos ser o espírito moderno. Isso é claramente exemplificado pela inclinação do povo ao conforto e à opulência, pelo seu amor aos divertimentos, seu individualismo, seu gosto pela vida e a coragem de tudo submeter à experiência. (BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: do homem das cavernas até a bomba atômica. Porto Alegre: Globo, 1964. V. 1, p. 142.)

Referências:

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: do homem das cavernas até a bomba atômica. Porto Alegre: Globo, 1964.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (et all). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980.
RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.
SALLES, Catherine (dir.). Larousse das Civilizações Antigas 1: dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O legado da Mesopotâmia

Estandarte de Ur, um grande painel de cerca de 2500 a.C., feito em materiais variados, como marfim, mármore e conchas. Podemos ver um desfile militar, com soldados e carros de combate.

[...] De uma ou de outra das quatro nações mesopotâmicas (sumérios, amoritas, assírios, caldeus), deriva um apreciável número de elementos culturais modernos:

O ano de 12 meses e a semana de 7 dias, os 12 números dos nossos relógios, correspondentes à divisão caldéia do dia em 12 horas duplas; a crença em horóscopos; a superstição de fazer o plantio de acordo com as fases da lua; os 12 signos do zodíaco; o círculo de 360 graus; o processo da multiplicação.

Os povos da Mesopotâmia exerceram influência mais significativa em várias nações da antiguidade. Os hititas, que ajudaram os cassitas na destruição dos babilônios, adotaram as tabuinhas de argila, a escrita cuneiforme, a narrativa épica Gilgamesh (história dos notáveis feitos de um aventureiro sobrenatural, semelhante ao Hércules grego) e muito da religião do povo que conquistaram.

A religião mesopotâmica influenciou os fenícios, como se verifica pela adoração de Astartéia (Ishtar) e de Tamuz. Os persas foram profundamente influenciados pela cultura babilônica e assíria. Com exceção da religião, os persas foram continuadores da civilização mesopotâmica, da qual tomaram a escrita cuneiforme, as artes e a organização militar. Assim, por exemplo, os palácios persas estavam construídos, como os da Mesopotâmia, sobre enormes plataformas de 10 a 15 metros de altura. A ornamentação inspirou-se nos assírios: frisos de pedra com relevos, ou frisos de tijolos esmaltados e coloridos, em cuja execução os persas superaram seus mestres de Nínive.

Os cananeus herdaram, dos sumérios ou dos amoritas, grande parte do seu direito e também muitas das suas crenças religiosas.

Também os hebreus são, em certos aspectos, herdeiros da cultura mesopotâmica. Provavelmente, um dos seus patriarcas, Abraão (por volta de 1900 a.C.), viveu algum tempo em Ur, cidade do Eufrates, na Baixa Mesopotâmia. Muitos traços mesopotâmicos foram também adquiridos, indiretamente, através do contato com cananeus e fenícios. Foi assim, possivelmente, que os hebreus adotaram as lendas da Criação e do Dilúvio, e um sistema de Direito - derivados da civilização mesopotâmica.

Maior influência foi exercida durante o período do Cativeiro, de 587 a 539 a.C. Durante esses anos, os judeus foram introduzidos, pela primeira vez, direta e intimamente, na vida de uma nação rica e poderosa. A despeito do ódio aos seus opressores, os hebreus adotaram, talvez inconscientemente, muitos dos seus costumes. O calendário judaico, por exemplo, é de origem babilônica. Além disso [...] muita coisa do simbolismo, pessimismo e demonologia dos caldeus passou para a religião de Judá, corrompendo-a grandemente.

As crenças e instituições mesopotâmicas também exerceram sua influência, embora indiretamente, sobre os gregos e romanos. A filosofia estóica, com suas doutrinas do determinismo e do pessimismo, deve ser, em parte, reflexo dessa influência, pois que seu criador, Zenão, era semita, provavelmente um fenício.

Melhor exemplo de uma origem mesopotâmica será encontrado, talvez, em práticas romanas como a adivinhação, a adoração dos planetas como deuses, e o uso do arco e da abóboda. Muitos desses elementos foram introduzidos, entre os romanos, pelos etruscos, povo de origem asiática ocidental. Outros foram trazidos pelos próprios romanos, em consequência das suas campanhas militares na Ásia Menor.

Finalmente, há a considerar a influência mesopotâmica (como integrante do fator oriental), exercida indiretamente, através da Grécia - sobretudo no período helenístico.

BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 60-62.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Escribas: intelectuais ou fiscais?

Fragmento do relevo de uma tumba: escriba sentado, do final do Terceiro Período Intermediário (XXV-XXVI dinastia)

A centralização administrativa supõe uma máquina eficiente que faça com que as ordens emanadas do faraó cheguem a todo o reino. A própria palavra faraó significa "casa grande", sede da administração, de onde tudo emana e para onde tudo converge. Acredita-se que o rei pessoalmente dirigia tudo, não sendo seus ministros senão sua extensão, seus olhos, bocas e ouvidos, sem autonomia para criar ou conceber. Havia a figura do primeiro-ministro, que ocupava espaços que o rei, eventualmente, deixasse vazios, por falta de vontade ou talento para governar.

A autoridade regional era o nomarca [...], espécie de governadores que administravam os nomos, em número de quarenta, espalhados pelo Egito. Cada aldeia podia eleger o seu líder local e um conselho, composto por representantes de diferentes categorias. A autonomia desses "prefeitos" e "vereadores" variou muito ao longo da história egípcia, mas deve ter sido sempre limitada pela presença de funcionários do governo central que vinham constantemente fiscalizar campos, conferir rebanhos, orientar construções ou transmitir normas, de modo a permitir a manutenção de ligação estreita entre o poder central e o mais obscuro dos habitantes.

O executor material das ordens reais era o escriba.

Era ele o funcionário do poder central, responsável físico pela articulação entre as ordens dadas e sua execução.

É necessário agora fazer uma observação sobre a figura do escriba, da maneira como aparece em vários manuais e mesmo em obras mais ambiciosas. Sua importância na sociedade egípcia derivaria, segundo esses livros, do fato de se tratar de alguém que dominava a arte da escrita e da leitura em um local em que o analfabetismo era quase geral. Ora, esse argumento é pouco inteligente, uma vez que saber ler e escrever, em si, não remunera ninguém: depende do papel que desempenham esses "detentores do saber" numa sociedade concreta. Se dominar a escrita fosse sinônimo de bons salários e prestígio social, os professores em nosso país viveriam uma realidade muito diferente, quando, como é sabido, ganham abaixo dos limites da dignidade e, às vezes, até da simples sobrevivência.

O escriba não era, pois, prestigiado por saber escrever e contar, mas porque essas atividades eram úteis e estavam a serviço do faraó, do governo central, fonte da autoridade e do poder.

Burocrata e frio, o escriba deve ser antes identificado com um funcionário de cartório ou um fiscal arrecadador de impostos do que com um intelectual inquieto e criativo. Raramente colocava sua técnica a favor da produção original. Antes, passava o tempo conferindo rebanhos e áreas cultivadas, taxas pagas e a pagar, quantidade de cereais nos silos, volume da colheita realizada, e assim por diante.

Claro que há exceções e vez por outra aparece alguma obra mais criativa redigida por um escriba. Contudo, como regra, não se deve esperar espiritualidade nele. A imagem que nos fica é a de um carreirista, ar parado, olhar bovino. Disposto a sacrificar a maior parte de sua vida em troca de um emprego seguro embora aborrecido, o escriba manipulava seu poder oprimindo os subalternos e bajulando os chefes. As maiores aventuras permitidas eram enganar ou roubar seus superiores e praticar o mais deslavado tráfico de influências.

Será que deu para reconhecer o tipo?

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2010. p. 99-101.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

As grandes civilizações do Extremo Oriente: Índia e China

Escultura em terracota, artista desconhecido. Período Gupta

* Introdução. Durante os mesmos séculos em que, na bacia do Mediterrâneo, deu-se o apogeu e a decadência da Grécia e de Roma, a organização de reinos germânicos e a formação do império árabe, no Extremo Oriente a Índia e a China desenvolveram alto grau de civilização.

Na Antiguidade, raros, porém, haviam sido os contatos entre os povos do Ocidente e do Extremo Oriente. Alexandre Magno não havia ultrapassado o rio Indo; os romanos haviam conseguido manter apenas um comércio muito irregular com a China, para a obtenção da valiosíssima seda (séculos II-III d.C.).

Foi somente a partir dos árabes que se estabeleceram contatos mais significativos com as longínquas regiões orientais, quando suas caravanas e navios mercantes conseguiram manter um comércio de certa forma estável e regular. Aproximando assim dois mundos até então distanciados um do outro, os árabes desempenharam importante papel histórico.

1. Índia भारत

Sabemos que a mais antiga civilização da Índia - testemunhada pelas ruínas de Mohenjo-Daro e Harapa - transformou-se, por volta de 1600 a.C., com a invasão de povos provenientes do sudoeste da Ásia.

[...] as populações do Indo construíam canais de irrigação; plantavam trigo, cevada e outros cereais, tendo sido talvez os primeiros a cultivar o algodão; criavam bois e camelos; estocavam suas colheitas em enormes celeiros, controlados pelo governo. Sabiam moldar o ouro, a prata, o cobre e o bronze; faziam colares, braceletes e brincos com pedras preciosas; gravavam delicados sinetes com figuras e símbolos; chegaram a estabelecer certos pesos e medidas, valiosos em suas trocas de produtos.

É certo que mantiveram contatos comerciais com os povos vizinhos do Afeganistão, do sul da Índia e da Mesopotâmia - onde foram encontrados objetos por eles trabalhados - trocando seus produtos por prata, cobre, lápis-lazúli e turquesas.

Estes povos, os árias, indo-europeus, vindos talvez das regiões do Cáucaso, estabeleceram-se às margens do rio Ganges, ampliando, nos séculos sucessivos, sua área de influência até a região da atual Nova Délhi, e impondo-se às primitivas populações com a introdução de técnicas agrícolas, artesanais e militares muito desenvolvidas. Já no século III a.C., sob o rei Asoka, a Índia formava um grande reino unificado.

* Sociedade. A sociedade da Índia, que se fora aos poucos estruturando, dividia-se em rígidas camadas sociais, as castas, consideradas de instituição divina. As pessoas pertenciam a uma determinada casta por nascimento; não podiam mudar de casta, nem casar ou ter o menor contato com elementos de outra casta.

As castas eram quatro: dos sacerdotes (brâmanes), dos guerreiros (xátrias), dos camponeses, comerciantes e artesãos (vaicias), da população conquistada (sudras). Abaixo destes havia os párias, que não pertenciam a casta alguma (daí o termo pária significar, para nós, ainda hoje, o indivíduo fora da sociedade).


Concerto da noite, artista desconhecido. Período Mughal

* Religião. As crenças religiosas mais antigas da Índia encontram-se documentadas em vários textos sagrados, redigidos em língua sânscrita, dentre os quais sobressaem os Vedas.

Os textos sagrados revelam a crença em uma série de divindades personificadoras das forças da natureza, afirmam a sobrevivência da alma e a íntima comunhão de cada indivíduo com o universo.

Por volta de 500 a.C. surgiram, na Índia, os ensinamentos morais e filosóficos de um membro da casta guerreira, Sidarta Gautama, conhecido como Buda (Iluminado). Esses ensinamentos, ganhando muitos adeptos, transformaram-se em religião, a religião budista. O budismo prega a gradativa purificação do homem, a fim de permitir-lhe vencer o sofrimento e a miséria, conduzindo-o à perfeita paz e liberdade do espírito (o Nirvana).

Quando o homem culto, em sendo sincero, repele a vaidade, ele, o sábio, acendendo aos elevados patamares da sabedoria, contempla das alturas os tolos; livre da tristeza, ele contempla do alto as multidões que se lamentam, como aquele que do topo da montanha baixa seu olhar sobre os que estão na planície.
[do Damapada, coletâneas de aforismas budistas]

A religião budista tornou-se religião oficial em parte da Índia (século III a.C.) e penetrou, a seguir, em outras regiões do Extremo Oriente, como China, Japão, Ceilão, Tibete.

Com a expansão dos árabes até a Índia, aí se difundiu também a crença muçulmana; e o domínio dos turcos acabou intensificando a islamização de boa parte dos territórios indianos.


Pintura em tumba, artista desconhecido. Período Han



2. China 中國

O berço da civilização chinesa [...] foi a extensa planície central cortada pelo rio Amarelo. Este rio deságua na costa leste da China, no Oceano Pacífico, depois de percorrer uma planície extremamente fértil. Deve-se essa fertilidade ao limo depositado pelas águas do rio ao transbordar; ao regime das chuvas que caem sobre a região; ao clima ameno que jamais alcança extremos de frio ou de calor; a uma espécie de poeira amarela, trazida pelos ventos, rica em sais minerais que, ao misturar-se com a terra, faz com que seja desnecessário adubá-la artificialmente.

Por volta de 4000 a.C. a China já possuía uma população considerável, espalhada em aldeias [...]. A primeira civilização importante foi a que se desenvolveu na planície do rio Amarelo, a cultura Yang-Shao (cerca de 3000 a.C.). Era constituída de agricultores que plantavam uma espécie de milho e, mais tarde, arroz; criavam, para sua alimentação, porcos, ovelhas e gado; domesticavam animais, especialmente o cachorro. Inicialmente não conheciam os metais, mas deixaram maravilhosas cerâmicas, com desenhos coloridos de vermelho, branco, preto; não representavam figuras humanas, nem mesmo animais ou plantas. As aldeias perto do delta alcançaram esse desenvolvimento só mais tarde (entre 3000 e 2000 a.C.). Sua cultura foi conhecida como a cultura Lung-Shan. Também os moradores dessas aldeias não tinham metais, que só vieram a conhecer depois de 1600 a.C.; e sua cerâmica, sobre fundo preto, tinha como única decoração desenhos geométricos.

Os agricultores constituíam nove décimos da população. Produziam gêneros em grande quantidade, servindo para alimentar sacerdotes, governantes, soldados, artesãos, mercadores e estudantes, grupos esses bem menores, mas muito importantes na vida chinesa.

Estruturada em base agrícola, a sociedade chinesa, tradicional e conservadora, evoluiu lentamente, com o correr dos séculos, sobrevivendo a crises políticas e econômicas, aperfeiçoando técnicas, atingindo alto grau de civilização e cultura, vindo assim a constituir, na época medieval, um dos mais importantes e mais poderosos impérios do Extremo Oriente.

* Filosofia e religião da China. A civilização chinesa, desde os mais remotos tempos, apoiou-se nos princípios filosóficos expressos no Tao (= caminho), que oferecia aos homens uma solução prática para a vida.

No século VI a.C., o pensador Lao-Tsé, baseando-se no Tao, desenvolveu uma doutrina filosófica, o taoísmo, que aconselhava sobretudo a meditação, a fim de permitir ao homem, penetrando em seu mundo interior, sentir melhor as forças básicas do universo. Essa doutrina filosófica transformou-se em religião cuja essência consiste em ser o homem bom, humilde, tolerante, devendo respeitar ao máximo as leis da natureza.

Os sábios de antigamente tinham sutil sabedoria e profunda compreensão. Tão profunda que não podiam ser compreendidos. Essa a razão por virem assim descritos:
Cautelosos, como cruzar um rio no inverno,
Irresolutos, como temer o perigo por toda parte,
Graves, como aquele que se sente hóspede,
Anulando-se, como o gelo que principia a derreter,
Genuínos, como um tosco pedaço de lenha,
De mente aberta, à semelhança de um vale [...].
[O livro de Tão, XV]


No século V a.C., outro grande pensador,Confúcio, sublinhou a ideia de que o homem pode vir a ser feliz na Terra, bastando para tanto desenvolver todas as boas qualidades que a natureza humana encerra; e, como Lao-Tsé, pregou a bondade, a tolerância e o respeito. Além disso, relevou especialmente as vantagens da educação, das boas maneiras, da tradição, para a conquista de um harmonioso relacionamento humano entre todas as classes sociais.

Os ensinamentos de Confúcio transformaram-se para o povo da China em um admirável sistema de princípios morais e, através da obra de seus seguidores, tornou-se doutrina conhecida por confucionismo.

O taoísmo, o confucionismo e depois o budismo (vindo da Índia) desempenharam papel importante na história da civilização e da cultura chinesa.

* Evolução histórica da China. O regime de governo predominante na China era a monarquia teocrática: o imperador intitulava-se filho de Deus, encarnando a suprema autoridade política e religiosa. Dentre as várias dinastias imperiais que governaram a China destacaram-se:

- A dinastia Ch'in (século III a.C.): unificou a China, antes dividida em numerosos principados; fortificou o poder central, destruindo o poder dos nobres; instituiu rígido controle burocrático e militar nas províncias, impondo a todas elas as mesmas leis e o mesmo sistema de pesos e medidas. Construiu larga rede de estradas; para defender as fronteiras do norte e do leste contra a invasão dos hunos, fez construir a Grande Muralha, aproveitando algumas fortificações já existentes.


A Grande Muralha da China

- A dinastia Han (séculos III a.C. - III d.C.): foi uma das mais célebres e ilustres na história da China. Estendeu as fronteiras territoriais, estabeleceu contato com outros povos, desenvolvendo o comércio sobretudo por intermédio de caravanas na rota da seda, em cujo percurso comerciavam-se artigos de luxo (tecidos de seda, especiarias e peles) que alcançavam elevadíssimo preço. O contato entre mercadores de várias procedências favoreceu a troca de informações e conhecimentos importantes. De um desses contatos estabelecido com regiões da Índia resultou a penetração na China da religião budista (século I a.C.).

Na mesma época, entretanto, em que as tribos germânicas começaram a transpor as fronteiras do Império Romano, apressando o seu declínio, povos bárbaros da Ásia central, iniciaram ataques à China, rompendo a Grande Muralha e ameaçando o império.

Sobreveio, assim, um longo período de quatro séculos conturbado por invasões e guerras, com insegurança política, falta de governo central, declínio econômico, que só veio a terminar com a ascensão de uma nova dinastia.

- A dinastia Tang (séculos VII-X): teve longa duração, conseguiu repelir invasores, expandir o território chinês em várias regiões asiáticas, fortalecer a administração, incentivar a educação e as artes, levando a cultura a um elevado nível de florescimento, dar prosperidade ao país, restabelecendo o equilíbrio econômico e o comércio exterior. Mas o avanço dos árabes na Ásia acabou provocando novo declínio econômico e a queda da dinastia Tang.

Sucedeu-se uma fase assinalada por contínuas ameaças externas e, por fim, no século XIII, a China foi tomada de assalto pelos mongóis sob a chefia de Gêngis-Cã. Seus sucessores estenderam rapidamente o poderio mongólico para além da China, até a Pérsia, a Rússia, a Ásia central. Nesse processo, porém, assimilaram hábitos e costumes chineses; demonstrando grande habilidade política, durante o governo de Cublai-Cã, o célebre veneziano Marco Polo teve ocasião de visitar a China e outras remotas regiões asiáticas.

No século XIV os chineses conseguiram libertar-se do domínio mongólico e instituiu-se o governo da dinastia Ming (séc. XIV-XVII), que marcou o início do isolamento da China com relação à Europa, isolamento esse que, durante 300 anos, iria intensificar-se cada vez mais.


Manhã de Primavera no Palácio Han, Qiu Ying 

3. Arte do Extremo Oriente

A arte hindu evoluiu lenta e continuamente, sempre por um processo de justaposição de formas antigas e novas. 

A arquitetura é essencialmente religiosa e marcada, a partir do século VI a.C., pela filosofia budista.

Os santuários eram concebidos como modelo, em escala reduzida, do universo. No centro havia o templo onde se encontrava a imagem divina. O santuário era fechado por uma muralha, simbolizando as montanhas que circundam a Terra, e pontilhado por pequenos lagos que lembram os oceanos terrestres. Na direção dos quatro pontos cardeais abriam-se portas representando aberturas na abóboda celeste, isto é, as estrelas, através das quais estabelecia-se o contato entre Deus e os homens.

Os santuários hindus, dos mais simples aos mais complexos, seguiam este esquema simbólico. Caracterizavam também os santuários uma variedade rebuscada de detalhes, ornamentação profusa com baixos-relevos e esculturas. À ornamentação rebuscada na arquitetura contrapunha-se a simplicidade da pintura, uma das mais belas manifestações da arte hindu.

A arte da China, como a vida chinesa, era de caráter acentuadamente conservador. Sobressaía o gosto pelos pequenos objetos de adorno e ornamentação, executados em materiais difíceis de serem trabalhados, bronze, jade, laca, marfim, exigindo paciência, minúcia e grande habilidade técnica.

Também na arquitetura transparece a índole conservadora dos chineses. Palácios, edifícios administrativos, templos obedecem a um mesmo esquema arquitetônico: várias construções, unidas umas às outras por pátios e pavilhões formavam um todo harmonioso, integrado na paisagem, evidenciando a preponderância do conjunto sobre a construção isolada.

Com a difusão do budismo na China, ganhou importância a escultura e multiplicaram-se os edifícios religiosos, aparecendo templos cercados de muros. Um elemento chinês típico é o telhado de pontas curvas, característico dos pagodes.

Nos séculos VII e VIII desenvolveu-se a arte da porcelana com a qual os chineses se tornaram famosos; e, paralelamente, foi evoluindo a pintura, sobretudo a pintura da paisagem, realizada com rara beleza e delicadeza de traços e de colorido, sobre papel ou seda.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 11-12 e 148-154.