"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Império Romano sob os Ilírios (193-305)

As rosas de Heliogábalo, Sir Lawrence Alma-Tadema

Querendo afirmar-se como representante legítimo do império, o Senado elevou ao trono, para suceder a Cômodo, o filho de um escravo liberto, Pertinax (193). Esperava fazer dele o seu instrumento. Mas os pretorianos o assassinaram e puseram o império em leilão. Os exércitos da ilha da Bretanha, da Síria e da Ilíria nomearam imperadores os seus generais. Disso resultou nova guerra civil, da qual se sagrou vencedor o general da Ilíria, Septímio Severo.

Imperadores ilírios

Septímio Severo
193 a 211
Caracala
211 a 217
Macrino
218
Heliogábalo
218 a 222
Alexandre Severo
222 a 235
Maximino
235 a 238
Diocleciano
284 a 305

(De 238 a 284 seguiu-se um período de grande anarquia militar, com uma série de imperadores inexpressivos.)
NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 143.

Imperador, Septímio Severo (193-211) empreendeu uma política de absolutismo autoritário, que provocou a oposição do Senado. O imperador e, depois dele, seu filho, Caracala (211-217), porfiaram em destruir a aristocracia por meio de banimentos e nacionalizações em massa.

Caracala, Sir Lawrence Alma-Tadema

A influência oriental, já preponderante no domínio econômico, tornou-se preponderante também no domínio político. Septímio Severp confiou a prefeitura do palácio ao grande jurista sírio Papiniano. Com ele triunfaram as concepções do direito natural (jus gentium), elaborado no curso do período helenístico. Papiniano estabeleceu a doutrina clássica do direito romano sobre a base do individualismo greco-oriental. Ao individualismo triunfante no direito privado correspondia a tendência igualitária da qual procedeu a destruição das classes privilegiadas e a reforma do funcionalismo, que franqueou o acesso de todas as funções públicas aos oficiais saídos do exército.

As cúrias das cidades perderam a independência que lhes restava. Septímio Severo superpôs a elas comissões de dez membros, responsáveis pela arrecadação dos impostos. Essas instituições se estenderam a todo o império, assim como a cidadania, que, aliás, já não conferia direito algum aos cidadãos, mas apenas uma sujeição igual às obrigações fiscais. O império abandonava a fórmula da democracia censitária, que associava o contribuinte ao exercício do poder. Os cidadãos tornavam-se “súditos” do imperador.

As doutrinas humanitárias que presidiram às reformas de Septímio Severo inspiravam-se, ao mesmo tempo, no respeito à personalidade humana e na noção de solidariedade social. Redundaram, como no Egito, no 2º século a.C., no estatismo, cuja teoria foi formulada, ao tempo dos Severos, pelo grego Calístrato. Para ele, todas as atividades suscetíveis de exercer alguma influência sobre o interesse público, e notadamente a propriedade, são funções sociais e, como tais, devem ser diretamente submetidas à autoridade do imperador, representante do Estado. A liberdade individual só é legítima dentro dos limites fixados pelo Estado, cuja primazia substitui a dos direitos naturais do homem. Em menos de um século, essa evolução redundaria na escravização dos cidadãos ao Estado. Os mais esmagados seriam os que não possuíam bens, os mesmos que essa política tendia a emancipar.

Foi em nome desse princípio que Septímio Severo substituiu a democracia política pelo corporativismo estatal. Como os cidadãos só tinham valor pelas suas funções, as corporações de ofícios tornaram-se os quadros da sociedade. Submetidos à tutela imperial, a elas se deram regras uniformes em todo o império.

Aparecendo a propriedade como função pública, o imperador impôs aos ricos a obrigação de assegurar as percepções fiscais do Estado. Os haveres deles garantiam o pagamento do imposto e, por isso, receberam os privilégios necessários à execução de suas funções, tornando-se, assim, uma classe superior à dos contribuintes que não dispunham de bens.

A crise fiscal, mantida pelo déficit do balanço do comércio externo e pelas despesas da guerra contra os partos, obrigou Septímio Severo a realizar nova desvalorização de 25%. Essa medida não poderia ser senão um paliativo, uma vez que o império não conseguia assegurar o controle da via do comércio com o Extremo Oriente, nem equilibrar o seu comércio exterior.

Caracala e Geta, Sir Lawrence Alma-Tadema

Prosseguindo na política absolutista do pai, Caracala quis obrigar todos os seus súditos a praticar o mesmo culto do grande deus solar de Alexandria, Sarapis. Mas Roma só poderia impor um culto imperial extirpando pela força o monoteísmo cristão. Empreenderam-se, portanto, perseguições religiosas de caráter essencialmente político. Elas cessariam ao findar-se o reinado de Caracala, assassinado em 217.

As termas de Caracala, Sir Lawrence Alma-Tadema 

A morte de Caracala acarretou nova crise dinástica. O seu sucessor, nomeado pelo exército, também foi assassinado. O mesmo aconteceu ao sobrinho neto de Caracala, elevado ao trono aos 14 anos. Sucedeu-lhe seu primo, Alexandre Severo (222-235), que era ainda quase um menino.

O prefeito Ulpiano tentou, então, instaurar o império constitucional. A concepção do imperador-deus foi abolida. O imperador tornava-se um soberano que governava com uma oligarquia, que se cooptava. Mas o estatismo continuou a implantar-se. O corporativismo generalizou-se sistematicamente. Apareceram os primeiros monopólios estatais. O Estado subvencionou as cidades; o ensino científico foi mais e mais incentivado. Os poderes públicos fomentaram o desenvolvimento do maquinismo. A vida social atingiu um nível de conforto até então desconhecido.

Frigidarium, Sir Lawrence Alma-Tadema

O ensino generalizado e subvencionado pelo Estado vulgarizava o pensamento, mas a cultura se estereotipava. Como o pensamento, uniformizava-se a moda. Diz-se-ia que a uniformidade fosse o preço da livre circulação das pessoas e dos bens de uma ponta a outra do império, no qual as pessoas, em toda a parte, poderiam fazer-se compreender numa das duas línguas universais: o latim e o grego.

Rivais inconscientes, Sir Lawrence Alma-Tadema

A moral deixou o plano racional pelo plano místico, assim como o individualismo deu lugar ao social. A sociedade democratizou-se, agrupando-se em pequenas células sociais. As associações assumiram imensa extensão. A facilidade da existência e o bem-estar que se generalizou fizeram com que diminuísse a natalidade. Acentuou-se o êxodo dos campos para as cidades. A terra carecia de braços. A prosperidade imóvel concentrou-se nas mesmas mãos. Constituíram-se vastos domínios, nos quais, a partir de Marco Aurélio, os bárbaros se instalaram como rendeiros. Concentrou-se a indústria, fazendo recuar o artesanato. O recrutamento militar se tornava sempre mais difícil. As despesas militares pesavam cada vez mais.

Alexandre Severo instalou nas fronteiras soldados lavradores, o que tirou do exército a mobilidade e a eficácia. A guerra contra a dinastia persa dos sassânidas, que haviam substituído em 226 o Império dos partos, obrigou o império a desguarnecer as fronteiras do norte. Resultado: os francos atravessaram o Reno e os alamanos o Danúbio. O imperador procurou agradá-los por meio de subsídios e tratados. Foi morto às margens do Reno pelas suas legiões (235).

Malograra-se a experiência da monarquia constitucional, apoiada numa oligarquia de cooptados. Aparecendo para o povo como uma tentativa de restauração aristocrática, só conseguiu arruinar a ideia da monarquia hereditária, que se implantava.

A morte de Alexandre Severo abriu uma era de anarquia, que duraria cinquenta anos.

[...]

O mundo conhecia então um grande movimento de povos. Os hunos orientais, contidos pela China, ao norte da qual viviam, empurraram os hunos ocidentais de leste para oeste, na região do mar Cáspio e, depois, do mar Negro. Simultaneamente, os germanos do norte da Europa desciam para o sul. Impelidos pelos citas, que estavam sendo apertados pelos hunos, os godos cruzaram o Danúbio, invadiram a Trácia, a Grécia e a Ásia Menor. Os vândalos seguiram-nos à Trácia. Os alamanos atravessaram o Reno e chegaram à Itália. Os francos, submergindo a Gália, fizeram incursões até na Espanha. Na África, os berberes atacaram os colonos romanos. No Oriente, os persas tomaram Antioquia, ao passo que Alexandria era saqueada no decorrer das guerras civis. Em toda parte, nas províncias, as guerras intestinas arruinavam o país.

Revelando-se sem valor o exército de soldados agricultores, os imperadores impuseram aos grandes proprietários a obrigação de fornecer-lhes homens recrutados entre os rendeiros, preparando assim a sua transformação em senhores.

As cidades ameaçadas cercaram-se de muralhas. E como se generalizasse o banditismo, os proprietários de imóveis organizaram em seus domínios polícias senhoriais.

Tamanha era a anarquia fiscal que, desde 256, as moedas de prata não continham mais do que 5% de metal precioso. Entre 256 e 280, o custo de vida subiu 1000%.

Aureliano (270-275), proclamado imperador pelo exército da Ilíria (a maior força do império), restabeleceu a ordem implantando o estado de sítio. Mas a restauração do império foi mais aparente do que real. Suprimindo a segurança e provocando a pilhagem das grandes cidades mercantis do Oriente, as guerras civis tinham destruído a corrente comercial para a Ásia.

Praticando uma política de absolutismo por direito divino, Aureliano fez-se chamar Deus e pretendeu governar até os assuntos religiosos dos seus súditos. Mas o paganismo sobre o qual repousava o culto do imperador fora ferido de morte pela expansão do cristianismo, que se tornava a ideia-força do tempo.

Entre Vênus e Baco, Sir Lawrence Alma-Tadema

O assassínio de Aureliano mergulhou o império em nova crise de anarquia, que durou oito anos, antes que o estado-maior do exército designasse Diocleciano (284-305), que empreendeu uma obra radical de reconstrução legislativa.

Dividiu o império em dois grandes governos: o Ocidente, que compreendia também a África, e o Oriente com o Egito; de um lado, todas as províncias de língua latina (com exceção dos países danubianos), de outro, o mundo helenizado. Repartiu-se a soberania entre os dois imperadores. Diocleciano ficou com o Oriente; e entregou o Ocidente a Maximiano. Cada um deles, durante a sua vida, adotou um sucessor e associou-o efetivamente ao poder. O princípio hereditário foi abandonado pela adoção do mais digno.

Reforçou-se a armadura provincial. [...] Dotaram-se as prefeituras de verdadeiros governos, que gozavam de larga autonomia. Estabeleceu-se uma separação absoluta entre as funções civis e militares. Do governo central de cada um dos dois impérios dependia o comando militar, a chancelaria, os negócios exteriores, a gestão de bens da coroa, a das manufaturas do Estado, a moeda e a nomeação dos funcionários superiores. Somente a legislação, reservada ao imperador mais idoso, mantinha a unidade do império.

Entre os imperadores e a população, já não existia colaboração alguma. O poder vinha exclusivamente de cima. Substituíram as assembleias provinciais, mas elas não foram mais do que reuniões de funcionários.

[...]

Como a desvalorização da moeda tornara insignificante as contribuições impostas às cidades por ocasião da sua incorporação ao império, Diocleciano suprimiu os tributos locais e unificou, em todo o império, a base da imposição. Dali por diante, os impostos seriam calculados de modo a cobrir as despesas. A fim de facilitar a repartição do imposto, os bens foram recenseados e divididos, em cada cidade, em pequenas unidades fiscais, cada uma das quais representava a mesma renda imobiliária.

[...]

Abandonada como capital, Roma foi trocada por Milão e Nicomédia, que seria abandonada, trinta anos depois, em favor de Bizâncio. Deixando Roma, os imperadores escapavam ao triplo perigo que aí representavam o Senado, a plebe e os pretorianos.

Como a coesão do império repousasse exclusivamente sobre o prestígio imperial, Diocleciano afirmou, mais uma vez, o caráter divino do poder imperial. O culto solar foi proclamado culto do Estado para servir-lhe de base e ordenou-se, em 303, o fechamento de todas as igrejas cristãs. Começava a mais dura de todas as perseguições que o império já conhecera.

Estimando concluída a sua obra, Diocleciano abdicou em 305 e fez Maximiano abdicar. Imediatamente o filho deste último reivindicou o trono de que seu pai o afastara em proveito de Constâncio Cloro.

O sistema da adoção do mais digno, mais uma vez, se mostrava incapaz de constituir a base do sistema sucessório do império.

NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 143.
PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. São Paulo: DIFEL/EDUSP, 1973. p. 119-124.

NOTA: O texto "O Império Romano sob os Ilírios (193-305)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Império Romano sob os Antoninos (96-192)

Após o assassinato de Domiciano, o Senado, com o concurso dos pretorianos, levou ao império um dos seus, o aristocrata romano Nerva (96-98), que empreendeu uma política democrática. Desejoso de acalmar a apreensão das legiões, cada vez mais recrutadas no escalão das províncias, Nerva não escolheu sucessor na sua família. Introduziu o princípio da adoção do mais digno, e a sua escolha recaiu sobre o general Trajano (98-117).

Dinastia antonina


Nerva
96 a 98
Trajano
98 a 117
Adriano
117 a 138
Antonino, o Pio
138 a 161
Marco Aurélio
161 a 180
Cômodo
180 a 192

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 141.

Com Trajano, o poder imperial foi definitivamente arrancado de Roma. O império deixou de ser romano para tornar-se realmente mediterrâneo. Os imperadores, a partir de então, foram provinciais.


Um amante da arte romana, Sir Lawrence Alma-Tadema

"Com um comando cosmopolita [...] o império estava sempre derrubando barreiras entre os povos dominados. Continuou firme a romanização das famílias importantes nas províncias. Jovens gauleses, sírios, africanos e ilírios, todos aprendiam latim e grego, usavam roupas como as dos romanos e aprendiam a considerar a Romanitas - a herança romana - algo de que deviam se orgulhar. Enquanto isso, os funcionários civis e o exército mantinham a paz respeitando os sentimentos locais, desde que os impostos entrassem regularmente." (ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 231.)

Trajano ampliou o Senado, introduzindo nele gregos e africanos. Mas o papel do Senado passou a ser exclusivamente consultivo. Ratificando a adoção do herdeiro presuntivo do imperador, dava, todavia, ao poder imperial a legitimidade indispensável à sua estabilidade.

É verdade que essa legitimidade só tinha valor para Roma, e não para o império. Eis por que Trajano e, depois dele, os Antoninos, procuraram assentar o seu poder sobre a legitimidade por direito divino, de que gozavam no Egito.

Trajano fez-se representar com os atributos de Hércules, o deus de Gades; Adriano (117-138) assumiu o título de “Olímpico”, reservado a Júpiter, e adotou Sarapis, o deus egípcio, como deus oficial do império. Ao mesmo tempo, seguiu uma política de absolutismo esclarecido, que reavivou a oposição do Senado.

Adriano visitando uma oficina de cerâmica romano-britânica, Sir. Lawrence Alma-Tadema

Antonino (138-161) e Marco Aurélio (161-180), para evitar o conflito, voltaram aos princípios constitucionais. Marco Aurélio quis adaptá-los à monarquia hereditária. Nomeou herdeiro seu filho Cômodo (180-192).

Cômodo reafirmou o caráter de direito divino da monarquia. O imperador apresentou-se como mediador entre a divindade e os homens. Estes, sendo iguais perante o grande deus criador, deviam ser iguais diante do absolutismo divino do imperador. Ameaçado, ao mesmo tempo, em suas prerrogativas políticas e sociais, o Senado reagiu violentamente. O imperador respondeu com o terror. A política de apaziguamento desapareceu na guerra civil, que redundou no assassínio de Cômodo.

O absolutismo divino dos Antoninos foi acompanhado, como ocorreu com o absolutismo egípcio, de uma política de justiça e igualdade. O funcionalismo organizou-se de acordo com as regras do direito egípcio. A hierarquia das funções substituiu a hierarquia das classes, e o valor individual substituiu os direitos adquiridos pelo nascimento.

A organização do poder central foi acompanhado da unificação das instituições. O imperador organizou a jurisdição criminal em princípios uniformes para todos os habitantes do império. Instaurou-se a apelação. Criou-se uma jurisdição contenciosa, calcada no modelo egípcio, para garantir os direitos dos administrados em relação ao Estado. Unificou-se e humanizou-se o processo. O direito romano foi codificado pela primeira vez (Edito perpétuo de Adriano). A política social desenvolveu-se, demagógica em Roma, porém mais orientada para a atenuação real da miséria nas províncias.

Reapareceram as concepções do direito natural que o Egito conhecera no 14º século a.C. Os princípios de autonomia dos governos das cidades foram uniformizados e generalizados. Em toda a parte se introduziu a nomeação dos magistrados pela burguesia rica. Acima das cidades, as assembleias provinciais faziam solicitações e controlavam a gestão dos governadores de províncias.

O equilíbrio entre o imperador e as diversas classes da população assegurava, ao mesmo tempo, a unidade do império, a liberdade dos cidadãos e a proteção dos deserdados.

Escultores na antiga Roma, Sir Lawrence Alma-Tadema

O mundo mediterrâneo jamais viveu sob instituições tão liberais. A vida espiritual voltou a conhecer em Roma uma dignidade magnífica. A preocupação do bem público, a livre discussão da política imperial inspiraram a literatura. “Ordenas que sejamos livres”, diz Plínio, o Moço, a Trajano, “e assim fazes de nós homens e cidadãos”. A elite grega retomou, com Plutarco, o caminho de Roma, onde Dion de Prusa publicou a recusa dos países helenizados de aceitarem ainda, no futuro, um governo que concebesse o império como terra de exploração em benefício de Roma. Essa renovação intelectual, entretanto, procurava antes vulgarizar do que criar. O grande centro científico continuava a ser Alexandria, onde Ptolomeu formulava, na sua geografia, as teorias que só seriam ultrapassadas por Copérnico, e onde Galeno fazia a súmula da ciência médica da Antiguidade. Inspirando-se nas fontes helenísticas, Roma levou às províncias ocidentais latinizadas a aquisição de 35 séculos de civilização greco-oriental.

Ao passo que a política dos imperadores visava a proteger a classe média, na qual repousavam as instituições do império, o domínio cada vez mais tirânico do fisco exercia profunda influência em sentido contrário. O capitalismo de Estado, instaurado pela exploração direta dos domínios estatais pelo fisco, engendrou os mesmos males que o capitalismo particular. Introduziu, na África, desde o 2º século, e generalizou em todo o império, desde o fim do 3º século, o sistema dos arrendamentos a longo prazo, e até hereditários – como no Egito – e a solidariedade de aldeia imposta aos agricultores para o pagamento das rendas devidas ao fisco. Entravadas pelo capitalismo de Estado, as medidas tomadas para favorecer a classe rural foram todas inoperantes. A pequena propriedade desapareceu diante da industrialização da agricultura. O capitalismo de Estado redundaria na escravização da classe rural, provocando uma revolta de camponeses no Egito (2º século) e preparando uma crise rural em todo o império.

O empobrecimento da classe rural acentuou, no 2º século, a crise de superprodução que se seguiu ao impulso industrial, provocado, no 1º século, pelo aparelhamento das províncias ocidentais e pelo retorno da paz. Submergida pelo trabalho servil, a Itália adormeceu numa decadência econômica. Roma, que se tornara a cidade mais populosa do mundo, mas que não exercia atividade econômica alguma, perdeu a direção da economia imperial. Deixou de governar para gozar.

A ausência, nas províncias ocidentais, de produções capazes de suprir à decadência industrial do Egito, a fim de alimentar o comércio do império com o Extremo Oriente tornava deficitário esse comércio. Os seus verdadeiros beneficiários se achavam fora do império; eram as cidades das caravanas da Ásia e o reino dos partas.

Trajano parece ter querido dar ao império um equilíbrio econômico estável. Roma carecia de ouro. Trajano empreendeu a conquista da Dácia (Romênia), rica em ouro. Renunciando à política do monopólio estatal, aí inaugurou o sistema da pequena exploração mineira, que seu sucessor Adriano introduziria em Portugal.

Para controlar as vias do comércio com o Extremo Oriente, Trajano incorporou ao império o reino dos árabes nabateus; para assegurar o controle do mar Vermelho e dominar as vias terrestres empurrou as fronteiras do império até o golfo Pérsico e até o sul do mar Cáspio.

Mas, para garantir as conquistas de Trajano contra a cobiça do Império dos partos, Roma teria precisado despender um grande esforço militar. Ora, ela se orientava para uma civilização essencialmente pacífica. O exército se recrutava cada vez com maior dificuldade. Para completar os efetivos, alistavam-se bárbaros. As legiões se acantonavam onde eram recrutadas. Já não podiam ser enviadas para longe. Adriano renunciou à conservação da Mesopotâmia e tornou a trazer a fronteira para o alto Eufrates. O império cercou-se de um muro-fronteira e limitou-se a conservar o status quo. E o desequilíbrio do comércio com o Extremo Oriente persistiu.

No interior, as despesas das cidades (urbanização, leis sociais, ensino) tornavam-se pesados demais para elas. O império precisou intervir. Passou a vigiar-lhes a gestão. O imperador Marco Aurélio colocou um curador imperial ao lado dos magistrados municipais, que se libertaram, a partir desse momento, do controle da burguesia, que anteriormente os elegia; cooptaram-se; arrogaram-se poderes arbitrários, transformando-se numa espécie de nobreza que pretendeu colocar-se acima das leis.

O estatismo introduzido por Marco Aurélio mudou-se, sob Cômodo (180-192), em absolutismo. Reavivou-se a oposição do Senado. A falta de reservas metálicas, num momento em que reapareciam graves distúrbios políticos, levou Cômodo a desvalorizar maciçamente a moeda em 30%. Disso resultou uma rápida elevação do custo de vida, que provocou a crise econômica e a agitação social. Diante do descontentamento do exército, aumentou-se o soldo. O encargo suplementar que o aumento representou para o tesouro ultrapassou os benefícios da desvalorização. Foi um descalabro. Após um século de prosperidade, o império se via bruscamente atirado a uma crise política, econômica e fiscal, que parecia sem saída. Em 192, Cômodo, que enlouquecera, foi assassinado. Nova guerra dinástica estourou.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 141.
PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. São Paulo: DIFEL, EDUSP, 1973. p. 116-119.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 231

NOTA: O texto "O Império Romano sob os Antoninos (96-192)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 12 de julho de 2014

O Império Romano sob os Césares e os Flavianos (14-96 d.C.)

O imperador Tibério. Artista desconhecido.
Foto: Jastrow

Otávio, apesar de ter completado a consolidação do Império, não tinha estabelecido o critério de sucessão. Mas, desde o ano de 4 d.C., tinha associado ao poder seu genro e filho adotivo Tibério, que o sucedeu após sua morte.

Nessa primeira etapa imperial, a sucessão ficou restrita a duas famílias: Júlia e Cláudia. Parentes entre si e de Augusto, essas famílias, pertencentes à antiga nobreza romana, constituíram uma dinastia patrícia.

Dinastia júlio-claudiana

Otávio
29 a.C. – 14 d.C.
Tibério
14 a 37
Calígula
37 a 41
Cláudio
41 a 54
Nero
54 a 68

Tibério (14-37), sucessor de Augusto, inaugurou uma política nitidamente centralizadora. Transformou em conselho imperial permanente o conselho de amigos criado por Augusto. Convertidos em verdadeiros ministérios, os serviços públicos foram colocados sob a direção do prefeito do pretório, transformado em primeiro ministro. Criou-se um fundo para a concessão de créditos públicos baratos à classe média, que se revoltava na Gália contra o açambarcamento das terras pelos capitalistas romanos. Estes se insurgiram. As cortes pretorianas foram colocadas às portas de Roma para reprimir as conjurações que se tramavam contra a vida do imperador. As execuções sucederam aos confiscos. Espanhóis e gauleses substituíram, no Senado, os romanos executados.

A morte de Tibério, Jean-Paul Laurens

Calígula (37-41), educado na tradição egípcia, tencionava manifestamente fazer que se admitisse em Roma a noção de poder por direito divino, que possuía como faraó do Egito. Combatido pelo Senado, que pretendia conservar para a aristocracia romana o domínio de um império submetido, foi assassinado quando se preparava para passar ao Egito.

Um imperador romano em 41 AD, Sir Lawrence Alma-Tadema

O Senado proclamou, então, a abolição do “principado” e anunciou a intenção de assumir o governo do império. Mas teve de inclinar-se diante dos pretorianos, que levaram ao trono Cláudio (41-54), tio de Calígula.

Calígula deposita as cinzas de sua mãe e seu irmão na tumba de seus antepassados, Eustache Le Sueur

O novo imperador recompensou largamente os pretorianos, erguendo assim para o futuro, em face do poder legal do Senado, novos apetites, que todos os imperadores teriam de tomar em consideração.

Cláudio governou com colaboradores não romanos, fortemente impregnados das concepções helenísticas. Sob a orientação deles, o governo central organizou-se segundo o modelo das administrações egípcias, especializadas e centralizadas, ao mesmo tempo; a chancelaria foi amplamente desenvolvida. O império tendia à igualdade de todos os súditos diante do imperador. Fazendo-se democrático e liberal, este renunciou ao terror e às proscrições. O poder imperial procurou fazer-se hereditário e dinástico. Para ligar-se a Augusto, Cláudio desposou uma descendente deste último: Agripina, que só lhe trouxe revoluções palacianas. Depois de haver mandado envenenar Cláudio e ter afastado o herdeiro legítimo, Britânico, fez com que a guarda pretoriana colocasse no trono o seu próprio filho, Nero (54-68).


Proclamação do imperador Cláudio, Sir Lawrence Alma-Tadema

O poder imperial esteve a pique de perder-se nessas lutas palacianas, no mesmo momento em que Sêneca, que Cláudio dera por preceptor a Nero, pregava o advento de um império constitucional, em que o poder pessoal do imperador seria substituído pela partilha do poder legislativo entre o imperador e o Senado, formado de representantes de todas as províncias.


Agripina com as cinzas de Germânico, Sir. Lawrence Alma-Tadema

A evolução econômica do império acentuou, sob Nero, a luta entre o imperador e o Senado. O comércio mediterrâneo com a Ásia atingiu, então, um nível que só voltaria a conhecer no 19º século. Mas esse comércio estava inteiramente nas mãos dos egípcios e dos sírios. Os capitalistas de Roma continuavam açambarcando terras nas províncias ocidentais. Os pequenos rendeiros desapareciam, transformados em colonos hereditários ou aumentando o proletariado urbano, ao passo que os grandes proprietários, escapando à autoridade dos magistrados locais, tinham acesso, praticamente, à autonomia senhorial. O desaparecimento da pequena propriedade, em favor dos latifundia, provocava a diminuição da produção de trigo, obrigando o Estado a uma intervenção que desfigurava o mercado. Enfim, as manipulações monetárias, acarretadas pelo déficit do comércio com a Ásia e pelas despesas suntuárias de Calígula e Nero, provocaram a elevação do custo de vida, que contribuía para a ruína da classe média. Para acudir-lhe, criaram-se caixas hipotecárias, ao passo que o imperador, acentuando a luta contra os capitalistas, mandou matar os seis maiores proprietários da África, que possuíam a metade dessa província, e confiscou-lhes as terras. Opondo-se ao Senado por uma política democrática e absolutista, Nero deixou-se arrastar para medonhas demonstrações demagógicas, que redundaram no incêndio de Roma (64). Os cristãos foram responsabilizados por isso. Tornaram-se objeto de perseguições, porque a sua religião monoteísta ameaçava as bases panteístas da autoridade por direito divino, para a qual tendia o império.


Uma dedicação à Baco, Sir. Lawrence Alma-Tadema

Desde o 2º século a.C., a crença na imortalidade da alma e no julgamento do homem na outra vida praticamente se generalizara sob a influência dos cultos orientais: os mistérios de Dioniso e de Osíris; o culto de Ísis, confundido com o de Ceres, a deusa-mãe; as festas primaveris de Átis, que celebravam, ao mesmo tempo, o luto pela morte do deus e o júbilo pela sua ressurreição; o culto de Mitra, enfim, que pregava a solidariedade humana e a justiça, e anunciava a ressurreição dos corpos no juízo final.

Os mistérios de Mitra, como todos os cultos orientais, favoreciam a política absolutista dos imperadores, pois afirmavam que o poder provém diretamente de Deus. Somente o cristianismo, entre todos os cultos místicos, parecia perigoso para o absolutismo imperial por ser hostil ao panteísmo, sobre o qual repousava a noção da divindade do imperador.

As perseguições de que foram vítimas os cristãos não se exerciam apenas contra as suas ideias religiosas, mas contra todas aquelas que pudessem ser prejudiciais ao absolutismo do imperador. A censura, estabelecida por Tibério e afrouxada por Cláudio, fez-se mais dura sob Nero. Sêneca foi condenado à morte; os escritores políticos desapareceram e, diante da supressão da liberdade de pensamento em Roma, a vida intelectual refugiu-se nas províncias.

O remorso de Nero após o assassinato de sua mãe, John William Waterhouse

Para levar a cabo a sua política absolutista por direito divino, Nero procurou o apoio das províncias orientais. O Senado, ao contrário, escorou-se nas províncias ocidentais para tentar uma reação republicana. Em 68 d.C., os governadores das províncias ocidentais se revoltaram. Declarado inimigo público do Senado, Nero suicidou-se. O seu sucessor, Galba, nomeado pelas legiões da Espanha com o assentimento do Senado, empreendeu uma política de reação conservadora. Sublevou contra si o povo de Roma, aliado aos pretorianos, e foi massacrado. A sua sucessão provocou a guerra civil. Ao imperador Otão, amigo de Nero, elevado ao trono de Roma, as legiões opuseram Vitélio, na Gália, e Vespasiano, no Oriente.

Dinastia flaviana


Vespasiano
69 a 79
Tito
79 a 81
Domiciano
81 a 96


O triunfo de Tito, Sir Lawrence Alma-Tadema

A guerra terminou com o triunfo de Vespasiano, que tentou uma reforma constitucional. Romano, ele concebia o império como essencialmente formado pelo Ocidente latinizado. Transformou o Senado numa espécie de conselho imperial, em que figuravam poucos orientais. Inspirando-se, porém, ao que parece, em ideias orientais, associou os próprios filhos ao poder, apresentando-os como seus herdeiros e afirmando-se fundador de uma dinastia. Ao mesmo tempo, tentou restabelecer as finanças e tirou do Senado a distribuição de terras públicas para anexá-las à coroa e explorá-las sistematicamente, segundo os métodos helenísticos.

Domiciano, seu sucessor, procurou de novo o apoio do Oriente para as pretensões absolutistas que manifestou. Tropeçou nos mesmos obstáculos que haviam empeçado os desígnios de Nero: a aristocracia romana, os cultos monoteístas e a liberdade de pensamento. Respondeu a eles com banimentos de senadores, perseguições de cristãos e judeus, e a expulsão de Roma de todos os filósofos (94).

O assassínio de Domiciano, em 96, assinala o malogro das tentativas dos Césares e Flavianos de edificar o império sobre a monarquia absoluta, de inspiração oriental.

O Senado continuava a ser a única base legal do poder. Mas a oligarquia romana nele fora submergida pelas famílias provinciais, para as quais não existia tradição republicana. A nova aristocracia imperial, entretanto, era quase que exclusivamente latina e ocidental.

Roma solidarizava-se com as províncias ocidentais, em face da influência monárquica e mística do Oriente. E isso viria acentuar gravemente o dualismo do império.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 141.
PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. Difel/EDUSP: São Paulo, 1973. p. 111-114.

NOTA: O texto "O Império Romano sob os Césares e os Flavianos (14-96 d.C.)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Império Romano sob Augusto (27 a.C. - 14 d.C.)

César quisera integrar Roma na tradição milenar das monarquias helenísticas. Augusto adotou uma política essencialmente romana.

Ficando como único titular dos poderes triunvirais, declarou renunciar a eles (27 a.C.) e restituir à república as suas antigas instituições. Dizimado pelas proscrições, o Senado foi reconstituído por ele. Os senadores não foram mais eleitos pelo povo, mas nomeados pelo imperador. Devolveram os poderes triunvirais a Augusto, primeiro por dez anos, depois até a sua morte (14 d.C.). Os comícios, que formavam outrora a base do poder, perderam toda a autoridade real. Limitaram-se a ratificar a outorga dos poderes do imperador. Os magistrados nomeados pelo Senado, por proposta do imperador, escaparam ao controle do povo, que outrora os elegia. Juridicamente, subsistia a república. Na realidade, desaparecera. O recurso às suas instituições não fazia mais do que legalizar a ditadura militar.

Imperador Augusto. Artista desconhecido.
Foto: Jastrow

Augusto dividiu a sociedade em classes hierarquizadas, dotadas de status jurídicos diferentes. Os senadores seriam julgados pelos seus pares. Entre eles se recrutavam os governadores de províncias e os generais. Somente os cavaleiros podiam ser oficiais superiores. Os simples cidadãos careciam de quaisquer direitos políticos. Podiam ser oficiais subalternos se fossem italianos; simples soldados, se o não fossem. Os cidadãos recenseados eram 5 milhões. Os outros habitantes do império dividiam-se em homens livres, peregrinos e escravos. Entre os peregrinos, os ocidentais e os africanos tiveram acesso fácil à cidadania romana e ao Senado. Os orientais, menos. Os egípcios relegaram-se, com os alforriados libertados, à classe dos que haviam capitulado sem condições e foram marcados pela incapacidade de chegar algum dia ao direito de cidade. Convertido em apanágio imperial, o Egito se tornou, para o imperador, uma terra de exploração.


O encontro de Antônio e Cleópatra, 41 a.C., Sir Lawrence Alma-Tadema

Os escravos, privados de todos os direitos, foram submetidos a sanções penais implacáveis, tiradas do mais arcaico direito romano. A antiga concepção grega do escravo como “instrumento animado” impôs-se a todo o mundo mediterrâneo.

Às teorias democráticas que concebem os homens como iguais entre si, opôs Augusto a superioridade natural dos romanos, raça dominante.


Catulo em Lésbia, Sir Lawrence Alma-Tadema

Augusto, aliás, não fecha Roma à influência intelectual do mundo helenístico. Estimula as letras. Com Horácio, Virgílio, Cornélio Nepos, Catulo, Tito-Lívio, Tibulo e Propércio, Roma exerceu sobre a elite intelectual helenizada irresistível atração. Dessa maneira, afirmou-se, não como conquistadora, mas como capital do mundo helenístico.


Uma coleção de pinturas na época de Augusto, Sir Lawrence Alma-Tadema

Como César, Augusto lutou contra o domínio do grande capitalismo sobre o Estado. Adotando a política das antigas monarquias orientais, que haviam sempre reservado para o Estado a exploração das minas, instaurou-lhes o monopólio. Mas a sua intervenção na organização econômica do império não foi mais adiante. Ele não empreendeu uma política de economia dirigida. A oligarquia capitalista não chegou a formar um Estado dentro do Estado. Não encontrando emprego em Roma, que não era um centro industrial, nem local de tráfico, os capitais refluíram para os centros econômicos do império. Investiram-se em províncias ocidentais, na forma de propriedades imobiliárias; nas províncias orientais, foram absorvidos pelas atividades comerciais, que conheciam um novo impulso em conseqüência do reinício do comércio com as Índias, pela estrada marítima do mar Vermelho.


Loja de vinhos, Sir Lawrence Alma-Tadema

Augusto esforçou-se por fomentar a expansão comercial. O canal de Suez, assoreado, foi restabelecido. Enviou-se uma frota romana ao mar Vermelho para tentar retomar aos árabes de Adem o domínio da navegação, mas debalde. Nem as armas, nem a guerra das tarifas aduaneiras, nem a aliança da Abissínia, que teve, então, rápida expansão marítima, proporcionaram a Roma tanto quanto lhe proporcionaria, sob os sucessores de Augusto, o simples restabelecimento do comércio livre.

O império era formado de duas partes distintas: um bloco continental (Itália, Gália, Espanha e África latina) de tendência terrestre e aristocrática, e um vasto conjunto marítimo, formado pelos antigos Estados helenísticos dedicados ao comércio, de tendência democrática. O Mediterrâneo, do qual Augusto acabou de fazer um lago romano, unia tudo num vasto conjunto.

Politicamente, esse conjunto se achava repartido entre as províncias subestimadas às instituições da República romana e aquelas cuja administração depende diretamente do imperador. Foi a administração destas últimas que deu origem às instituições imperiais. Nela preponderou a influência das concepções orientais, visto que, para governar os povos diversos que não viviam sob as instituições romanas, o imperador recorreu aos princípios do direito helenístico. Nomeou governadores e funcionários remunerados, baseou o imposto sobre a capitação e as rendas imobiliárias, instaurou o cadastro e mandou elaborar o orçamento anual das receitas e das despesas. Essas instituições sábias substituíram, nas antigas províncias, o sistema arcaico da república. Na própria Itália, o imperador instaurou órgãos de governo tirados do direito público helenístico: criou prefeitos e comissões executivas (obras públicas das estradas, dos aquedutos etc.).

O direito privado sofreu igualmente a influência oriental; transformou-se a noção da propriedade: o usufruto e a hipoteca foram tomados ao direito grego, e o direito contratual tornou-se mais flexível.

Se o imperador não era mais que o primeiro dos cidadãos (princeps) nas antigas províncias romanas, nos antigos Estados helenísticos era soberano, considerado, ao mesmo tempo, senhor e protetor. Declarado “divino”, como César, Augusto foi objeto, nas províncias helenísticas, de um culto imperial, cuja organização deu lugar à eleição de delegados das cidades. Esses delegados, reunindo-se anualmente para celebrar o culto do imperador, logo votaram pedidos que lhe foram transmitidos.

Obrigado a dar instituições ao império, o imperador deixou que este lhe impusesse o culto imperial que legitimara o poder em todas as monarquias antigas, e as assembleias provinciais, que foram os primeiros órgãos políticos, lhe permitiram colocar-se em contato com a opinião pública.

O Senado, ao contrário, prisioneiro dos seus privilégios, obstinou-se numa política nacional e reacionária.

Na luta que o oporia ao Senado, o imperador, arrastado pela unidade do império, faz-se-ia campeão da emancipação dos peregrinos, e surgiria diante do povo, erguendo-se contra os privilégios da aristocracia romana, como protetor da liberdade.


PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. Difel/EDUSP: São Paulo, 1973. p. 109-111.

NOTA: O texto "O Império Romano sob Augusto (27 a.C. - 14 d.C.)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Os domingos, o sal e as escrituras


O mais antigo painel do Cristo: Saint Catherine's Monastery (Sinai), século VI.

A atual forma do cristianismo, as observâncias e os dias santos, aparecem aos poucos. O domingo, inicialmente, não era necessariamente o dia do Senhor. Os judeus haviam reverenciado o sábado como seu dia e, de início, os cristãos tendiam a reverenciar esse dia como o coração da semana. São Paulo começou a conferir ao domingo o dia de reverência, uma vez que era o dia da ressurreição de Cristo. Quando o imperador Constantino tornou-se cristão e fez com que o Império Romano entrasse em conformidade com sua nova fé, sua lei de 321 declarou o domingo como sendo o dia de adoração na cidade, mas, não, no interior. Lá, as vacas e cabras tinham de ser ordenhadas, a colheita feita e a terra arada, independente do dia.

A Páscoa logo tornou-se a época especial do calendário dos cristãos, mas sua data exata não foi escolhida facilmente. Ao longo das costas da Ásia Menor, o coração inicial da Cristandade, o dia de Páscoa não era primeiramente no domingo. Durante anos, os teólogos cristãos discutiram sobre o dia ideal em que a Páscoa deveria cair. Seu desacordo foi mais estridente em 387; naquele ano, na Gália, o Domingo de Páscoa foi celebrado em 18 de março. Na Itália, aconteceu exatamente um mês depois e, em Alexandria, foi ainda mais tarde, sendo celebrado em 25 de abril. No sétimo século, uma região da Inglaterra celebrava o Domingo de Ramos no mesmo dia em que outra parte celebrava a Páscoa. A unidade da Cristandade era frequentemente muito precária.

Muitos dos dias especiais do ano cristão vinham muito tarde. Durante três séculos, as primeiras igrejas ao redor das margens do Mediterrâneo não celebravam o nascimento de Cristo. Com o tempo, os cristãos, com bastante sensatez, aproveitaram da oportunidade dos festivais populares que tinham há muito tempo sido reservados para marcar o dia mais curto do ano no Hemisfério Norte. Assim, em Roma, o dia 17 de dezembro tinha sido celebrado como o dia pagão das festividades, conhecido como Saturnália, mas esse dia de regozijo acabou sendo tomado à força pelos cristãos e mudado para 25 de dezembro, quando foi proclamado ser o dia do nascimento de Cristo. Mesmo quando Roma decidiu de uma vez por todas celebrar o atual dia de Natal, os cristãos em Jerusalém aderiram, ao contrário, ao dia 6 de janeiro.

Como o dia do nascimento de Cristo, o dia especial reservado a Maria, a mãe de Cristo, demorou a achar um lugar no calendário cristão. Em 431, o Conselho de Éfeso deu a Maria um papel de honra; e o seu dia, 25 de março, cada vez mais tornou-se conhecido como o Dia da Anunciação. À medida que crescia o culto a Maria, um culto de menos vulto se desenvolveu em torno de sua própria mãe, Ana: e um dia chamado de "a concepção de Santa Ana" acabou sendo reverenciado na cidade italiana de Nápoles. Por centenas de anos, Maria recebeu mais veneração nas igrejas do oriente do que nas do Ocidente.

O cristianismo lentamente adaptou alguns de seus rituais vindos da vida cotidiana dos romanos. Por exemplo, quando um bebê romano chegava ao seu oitavo dia, alguns grãos de sal eram colocados em seus pequeninos lábios, na fé de que o sal afastaria os demônios que poderiam, do contrário, prejudicar a criança. Quando a igreja cristã, em seu início, batizava seus novos seguidores, ela benzia um bocado de sal e, imitando o costume romano, dava-o aos batizados. Isso era para manter o ensinamento de Jesus que, sabendo como os pobres desperdiçavam no uso do sal, escolheu o sal como símbolo para o que era precioso e raro. Quando foi às montanhas, disse a seus discípulos: "Vós sois o sal da terra".

Em muitos dos lugares em que grandes quantidades de cristãos se reuniam, eles se envolviam em debates animados entre si. Discutiam porque vinham de vários partes do Império Romano, discutiam porque Cristo às vezes falava em parábolas e não deixava muito claro seu significado para aqueles que ouviam sua mensagem em segunda mão, discutiam porque confiavam naqueles que, depois da morte de Cristo, escreveram seus ensinamentos e ofereceram visões conflitantes do mesmo sermão ou milagres. E, às vezes, os cristãos discutiam entre si porque cada um lia nas palavras de Cristo o que eles próprios queriam ler. Ainda assim, um sinal de unidade era inegável; os viajantes geralmente se sentiam em casa, pelo menos em espírito, quando entravam numa igreja cristã longe de casa.

Por pelo menos quatro séculos, o cristianismo era como um metal quente despejado de fornos em moldes de formatos variados. Às vezes, um forno quase explodia ou o fogo era apagado. Frequentemente, os fornos eram remodelados e, muitas vezes, eram ampliados. Os moldes eram mudados repetidas vezes, de forma que se os primeiros seguidores de Cristo tivessem voltado a viver novamente, não teriam reconhecido muito bem muitas das crenças e rituais da igreja que eles tinham ajudado a fundar. Teriam ficado mistificados por outro fato: o fim do mundo, tão iminente em seus olhos e um estímulo tão insistente em suas profundas crenças, ainda esperava no futuro.

Enquanto isso, a cidade de Roma estava deixando de ser o coração do vasto império. Os exércitos do império e sua procissão de generais famosos começaram a substituir as velhas instituições de Roma como centro do poder. Além disso, a cidade era sitiada muito longe em direção à extremidade ocidental de um império cuja verdadeira riqueza e equilíbrio da população ficava na extremidade oposta do Mar Mediterrâneo. Consequentemente, no ano 285, o império foi dividido, por facilidade administrativa, em dois: o Império do Ocidente, governado a partir de Milão, e o Império do Oriente, governado a partir da cidade de Nicomédia, localizada no Mar de Mármara, a cerca de 100 quilômetros a leste da atual cidade de Istambul, florescendo, em pouco tempo, com majestosos prédios.

Na história, muitos acontecimentos fundamentais são moldados por forças, movimentos e fatores escondidos, mas, ocasionalmente, uma pessoa quase sozinha muda a direção do mundo. Um menino que vivia na cidade de Nicomédia em seus anos de maior orgulho, quando batalhões de pedreiros praticamente se atropelavam, veio a ser um desses moldadores de grandes acontecimentos. Constantino era o filho de um oficial de exército que subiu de cargo rapidamente e tornou-se o imperador da metade ocidental do império. Quando o imperador Constantino foi morto em batalha em York, na Inglaterra, em 306, o filho, com um pouco mais de 20 anos, foi aclamado pelo exército como sucessor de seu pai. Constantino provou ser um grande general. Para a surpresa de muitos, ele era extremamente solidário com o cristianismo. Na França, seis anos depois, ele se converteu. Em suas campanhas militares, daí em diante, trazia consigo uma capela portátil que seus serventes podiam rapidamente instalar dentro de uma barraca, possibilitando, assim, que os serviços religiosos fossem realizados para ele e seus companheiros em questão de poucos minutos.

Constantino acreditava que o cristianismo era intrinsecamente adequado a ser seu aliado. Não desejava dominar o Estado, por já estar há muito tempo acostumado a um papel mais humilde. Com a tendência de ser internacionalista, não mostrava o fervoroso sinal nacionalista às vezes visível no judaísmo. Podia se encaixar perfeitamente num império multirracial. Por tratar todos de forma igual, o cristianismo parecia bastante adequado a um império que consistia de gregos, judeus, persas, eslavos, germanos, ibéricos, romanos, egípcios e muitos outros. Seu único defeito era que nem sempre demonstrava respeito ao imperador e sua pretensão à divindade; mas, uma vez que Constantino se tornou cristão, esse defeito foi automaticamente eliminado.

Na história do cristianismo, nenhum acontecimento sequer, desde a crucificação de seu fundador, foi tão influente quanto a mudança de atitude do jovem imperador Constantino no ano 312 d.C. Ele oferecia tolerância cívica aos cristãos, e restaurou propriedades que tinham sido confiscadas deles. Com sua mãe, começou a construir grandiosas igrejas, uma das quais tão distante quanto Jerusalém.

Até então, os cristãos provavelmente não constituíam mais do que um em cada 12 habitantes do vasto Império Romano, mas agora, de repente sentados numa posição privilegiada ao lado do imperador, seus adeptos rapidamente se multiplicaram. Pela primeira vez, havia mais pessoas dentro do império frequentando os cultos de adoração cristãos aos domingos do que as sinagogas aos sábados. Os residentes das cidades que um dia podem ter escarnecido dos cristãos achavam-se perguntando se, no novo clima religioso, eles poderiam ganhar promoção ou favores seculares se fossem vistos frequentando um local de adoração cristão.

Em comparação, as sinagogas, que às vezes tinham estado a favor dos governadores romanos, eram agora desprezados. Em menos de um século, os judeus perderam seu direito de casar-se com cristãos, a não ser que mudassem de religião, e perderam seu direito de servir ao exército. Não podiam tentar converter outras pessoas a sua religião; em vários lugares, as multidões destruíam sinagogas. Os padrinhos do cristianismo foram, na verdade, declarados ilegítimos. Na era anterior, alguns judeus em algumas cidades tinham tentado prejudicar os cristãos, voltando as autoridades romanas contra eles. Mas, agora a banda tocava do outro lado, e tocava mais alto e cada vez mais.

Constantino não era bem um cristão ortodoxo (ele colaborou para que seu filho fosse morto) mas não se desviou de sua crença de que Deus estava a seu lado. Havia só uma religião para seus olhos e aqueles que não aderissem a ela eram uma ameaça ao império. Tornou-se ainda mais fervoroso em sua fé.

Constantino morreu em 337 e foi enterrado na cidade ainda pequena de Constantinopla, que ele havia planejado. O auge de Roma havia nitidamente passado e havia perdido sua supremacia para essa nova cidade do Oriente.

[...]

BLAINEY,  Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 82-85.