"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A sexualidade a bordo das naus lusitanas

Nu deitado, Amedeo Modigliani


Em meio a um ambiente conturbado, repleto de privações, a sexualidade a bordo das naus lusitanas era encarada como um tabu e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, com uma liberdade quase nunca observada no reino.

Enquanto em terra havia um tabu com relação à nudez do corpo, entre os homens do mar, habituados à nudez dos nativos das terras descobertas e à sua forma de encarar o sexo mais livremente, a sexualidade era quase libertina.

Nos navios. o ato sexual era quase sempre uma prática coletiva, com a ausência de parceiros fixos e o compartilhamento de objetos sexuais. Práticas consideradas mesmo em nossos dias promíscuas eram corriqueiras nas embarcações. Por vezes, as mulheres disponíveis eram duplamente penetradas, enquanto forçadas a praticar sexo oral e a manusearem, em cada uma das mãos, as genitálias de outros homens, servindo, sexualmente, cinco deles, ao mesmo tempo. Ao redor, outros se masturbavam ou praticavam sexo entre si, aguardando sua vez de participar da bacanal.

Quando não havia mulheres a bordo, os pobres grumetes terminavam servindo sexualmente à marujada, integrados ao sexo grupal. Se a Inquisição caçava os adeptos do homossexualismo em terra, no mar procurava ser mais branda, uma vez que a falta de mulheres a bordo justificava, a seus olhos, os atos de sodomia.

Em terra firme, a Inquisição em Portugal queimava os implicados em atos homossexuais, mas apenas quando reincidentes. Assim, estrangeiros diziam que a Inquisição em Portugal era muito branda se comparada com a atuante na França, na Suíça e na Alemanha, onde se queimavam sodomitas sem remissão.

De fato, muitos eclesiásticos portugueses defendiam a isenção de penas para os praticantes de sodomia, ou pelo menos, que eles não tivessem castigo tão severo. A motivação da defesa era conhecida de todos e tema de piada entre os estrangeiros: os religiosos lusitanos, mesmo os inquisidores, tinham fama de homossexuais ativos. Em certas casas eclesiásticas, onde os jovens aprendiam as ciências e a piedade, eram também iniciados em práticas sexuais homoeróticas, chamadas "relaxações", inspiradas pelo modelo grego que pregava que o verdadeiro amor só podia ser desenvolvido entre pessoas do mesmo sexo, com um homem mais velho conduzindo um jovem pelos prazeres da carne.

Parece que, atendendo aos apelos dos religiosos, sob o disfarce de benevolência que procurava ocultar a natureza homossexual da motivação da piedade, no além-mar os estatutos da Inquisição portuguesa eram mais brandos, embora não se possa negar que atendessem a uma necessidade social, ou seja, viabilizar a aventura marítima portuguesa num contexto de grande disparidade numérica entre homens e mulheres a bordo.

A Inquisição de Goa, por exemplo, recomendava que se evitasse a pena pública para a sodomia, imputando apenas uma penitência oculta, condenando secretamente os praticantes reincidentes, quando pegos em flagrante, ou degredo.

A raridade de mulheres nos navios levava a maioria dos embarcados a satisfazer seu desejo sexual com outros homens. Tais relações, muitas vezes, realizavam-se pela força bruta (posse forçada do corpo dos mais fracos) ou pelo peso das hierarquias, que obrigava os mais humildes a satisfazer as vontades dos seus superiores.

Dentro desse contexto, os grumetes, na hierarquia abaixo dos marinheiros, eram muito visados, a despeito de serem crianças entre 9 e 16 anos. Dada a fragilidade infantil, incapaz de conter os assédios, ou em troca de proteção de um adulto ou de um grupo de adultos, os grumetes eram obrigados a abandonar precocemente, a inocência infantil, entregando-se à sodomia. Quando tentavam resistir, eram estuprados com violência, e, por medo ou vergonha, dificilmente se queixavam aos oficiais, até porque, muitas vezes, eram os próprios oficiais que permitiam ou praticavam tal violência.

Em suma, imperava a lei e a moral do mais forte.

Os marujos eram gente de má fama, tidos como adúlteros, alcoviteiros, amantes de prostitutas e ladrões, capazes de acutilar e matar por dinheiro. A reputação dos soldados não era muito melhor, acrescida da impressão de que não guardavam grande respeito ou obediência com relação aos oficiais superiores. Já os passageiros eram em sua maioria miseráveis, descalços, famintos e desarmados, tendo, portanto, muito pouco a perder. Esse conjunto, nas condições precárias de vida das naus, era capaz de dar origem a criminosos da pior espécie, elementos responsáveis por inúmeras violências a bordo.

O próprio cotidiano, repetitivo, empurrava os tripulantes e passageiros de má índole para a caça de parceiros sexuais como um meio de ver o tempo passar rápido.

O mesmo tipo de sexualidade observada na Idade Média entre as corporações de ofício, quando dividir um parceiro sexual entre os companheiros simbolizava o estreitamento dos laços de amizade e camaradagem, terminou sendo adotado a bordo das embarcações portuguesas do início da Idade Moderna.

A prática sexual do estupro coletivo de uma mulher ou de um garoto por grupos de marinheiros ou soldados não era execrável na época sendo dificilmente punida pela autoridades de dentro e mesmo de fora dos navios.

[...] era comum os marinheiros embarcarem prostitutas clandestinas, enganando-as ou forçando-as a subir a bordo com ameaças e violência. A presença de meretrizes nos navios, muitas vezes, servia para acalmar os ânimos dos homens. Sabendo disso, alguns capitães optavam por fazer com que essas clandestinas pagassem sua passagem com trabalho sexual.

Entretanto, embora as prostitutas a bordo desviassem um pouco a atenção dos homens dos garotos, não impediam o assédio constante às escassas "mulheres de bem", pois, além de o número de mulheres para cada homem estar sempre longe do suficiente, o risco de contrair doenças venéreas, como em terra, criava uma certa aversão às profissionais do sexo. De fato, o contato com essas mulheres representava um grande perigo, já que raramente deixava de premiar os incautos com "lembranças de Vênus", suficientes para amargurar e causar forte arrependimento.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 104-106.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

As mulheres embarcadas nas naus lusitanas

Nu feminino, Amedeo Modigliani


Em meio a uma população quase que exclusivamente masculina, quando imperava uma proporção de mais de cinquenta homens para cada mulher, o gênero feminino se tornava um foco de tensão a bordo. A ideia de violentar as órfãs, esposas e noivas em viagem instigava a imaginação dos marujos, que sempre que possível chegavam às vias de fato.

Percebendo isso, a Coroa tentou não só desencorajar a ida de portuguesas para a Índia como também legislou especificamente contra o embarque de raparigas solteiras e de mulheres desacompanhadas de um membro masculino da família. No entanto, não conseguiu impedir a presença de mulheres a bordo, pois a lei era contornada com facilidade e muita frequência.

Além disso, nada obstava que um chefe de família e a esposa pudessem levar consigo não só filhas como também sobrinhas e primas. Havia ainda moças que, buscando marido nas colônias, faziam-se passar por familiar ou criada de um chefe de família complacente.

Apesar da preocupação da Coroa em "preservar a honra" das moças solteiras, não se criou qualquer legislação para proteger as mulheres casadas ou as celibatárias (viúvas ou freiras) das investidas masculinas. Tampouco existia qualquer tipo de proteção oficial à honra das órfãs do rei, originárias de Porto e Lisboa, enviadas para as colônias pela própria Coroa para casar-se com homens da baixa nobreza em além-mar.

As únicas proteções efetivas contra o assédio sexual eram a alta condição social da passageira ou sua faixa etária. Em concordância com o costume observado na Idade Média, a menos que a vítima fosse menor de 14 anos, o estupro de mulheres de baixa extração nunca era punido por lei. Além de os violadores não serem castigados, as vítimas acabavam depreciadas no mercado matrimonial e várias delas, entregues pelas autoridades a um bordel público, já que, acreditava-se, não encontrariam mais quem as quisesse como esposa. Quando as vítimas pertenciam a um estamento mais elevado, apesar de sujeitas a igual depreciação social, os violadores, quando identificados, recebiam punição exemplar. Portanto, o simples fato de uma mulher pertencer à nobreza inibia o assédio dos que temiam os castigos da justiça.

No pesadelo dos navios, as ciganas, por serem as mais indefesas, eram as vítimas preferenciais, embora, de fato, e conforme aumentavam as privações, os marinheiros iletrados não guardavam respeito por mulher alguma.

A cobiça pelo corpo feminino não poupava nem mesmo as religiosas embarcadas. Em certa ocasião. uma freira precisou ser vestida de rapaz para evitar atrair atenções indesejáveis. Mulheres acompanhadas pelo marido tampouco estavam isentas. Em 1601. mulher e filhos de Ventura da Mota, meirinho-geral da frota da Índia, foram confinados para sua própria segurança em uma câmara trancada a cadeado pelo capitão, que ordenou que ninguém se aproximasse mais de cinco palmos da porta.

As órfãs do rei eram vítimas constantes de violações coletivas nos navios. Eram garotas entre 14 e 17 anos. e atraíam a atenção dos homens do mar com o frescor de sua tenra idade. Grupos de marinheiros mal-intencionados espreitavam essas meninas por algum tempo, até que surgisse a oportunidade ideal de burlar a vigilância dos religiosos que as guardavam para, então, atacá-las. À vítima só restava calar. Queixando-se, a pobre coitada poderia ser repudiada pelo futuro marido assim que chegasse à colônia e enviada de volta ao reino para ser metida em um bordel.

O fato de os estupros serem comumente praticados não por indivíduos isolados, mas, sim, por grupos de homens tornava muito difícil a identificação dos responsáveis. Se isso era verdade em terra, mais ainda nos navios, onde o anonimato da violência somava-se à "lei do silêncio" ou à cumplicidade entre marujos e soldados, criando a certeza de impunidade, que, por sua vez, perpetuava a prática.

Os marinheiros pareciam ter uma libido insaciável. Os estupros tornaram-se tão habituais que alguns capitães chegaram a proibir a presença de mulheres a bordo. Em certa ocasião, após aprisionar uma embarcação pirata que carregava donzelas para serem vendidas como escravas, em vez de fazê-las passar ao seu navio e, em seguida, queimar o dos piratas, como era usual, o capitão optou por deixar as mulheres no barco inimigo. junto com dois padres e alguns soldados de confiança, forçando um pequeno grupo de marinheiros a conduzi-lo até um porto, onde pudesse fazê-las desembarcar.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 106-107.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Hospitais, igrejas e prostíbulos na capital lisboeta na época dos Descobrimentos

As padeiras, José Malhoa

Havia vários hospitais na cidade, uma vez que eram mais do que necessários para abrigar, entre outros enfermos, alguns dos debilitados passageiros e tripulantes que chegavam nos 1.500 navios que demandavam, mensalmente, o porto lisboeta. O maior era o de Todos os Santos, construído no Rossio, em 1492, próximo à principal artéria da cidade, a rua Nova dos Mercadores, onde estavam instaladas as mais importantes casas de comércio de especiarias.

O fado, José Malhoa

A vida espiritual da população era orquestrada por várias igrejas, espalhadas pelas partes alta e baixa da cidade. A mais importante era sede do bispado, a sé de Lisboa, uma catedral gótica, construída em 1150, por ordem de D. Afonso Henriques, sob as ruínas de uma mesquita. Ela seria danificada por dois tremores de terra, no século XIV, e, finalmente, devastada pelo terremoto de 1755, que destruiria boa parte de Lisboa e obrigaria o marquês de Pombal a reconstruir suas ruas, no traçado reto que obedecem ainda hoje.

A religiosidade do povo português, expressa pela imensa quantidade de igrejas, tornava habitual cruzar pelas ruas com procissões ou festejos de santos, ao passo que comemorações profanas estavam terminantemente proibidas.

Os bêbados ou Festejando o S. Martinho, José Malhoa

Entretanto, a principal diversão dos fidalgos era freqüentar bordéis e tavernas. Recusar um convite de um nobre para ter com prostitutas era considerado uma ofensa grave. Outro público que freqüentava com assiduidade o ambiente eram os marujos, sempre famintos de companhia feminina, após meses no mar. A ampla demanda pelo serviço era acompanhada, igualmente, de uma numerosa oferta. Existiam bordéis em número igual ou superior ao de igrejas, enquanto as tavernas talvez somassem o dobro da quantia.

Cena de bordel, Brunswick Monogrammist

Sendo freqüente o vai-e-vem de forasteiros, existiam em Lisboa inúmeras hospedarias. A maioria delas era muito simples, confundindo-se com os bordéis, em cujos quartos não havia mais do que uma cama, uma pequena mesa, uma cadeira, uma bacia com água e um penico, para que os hóspedes mais exigentes cuidassem da própria higiene.

Artistas itinerantes em um bordel, Brunswick Monogrammist

Os fidalgos e marujos que compartilhavam as prostitutas quase sempre eram brindados com as mais diversas doenças venéreas, o que fazia muitos evitarem o contato com profissionais, apesar da grande quantidade de bordéis disponíveis. A alternativa mais “à mão” era cortejarem as muitas senhoras cujos maridos estavam ausentes, servindo nas colônias e nos navios portugueses.

PESTANA, Fábio Ramos. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 45-46.

domingo, 2 de março de 2014

A exploração da Oceania

Os navios Resolution e Adventure, ancorados diante da ilha de Taiti, em 1773. William Hodges

Povo aborígene pescando e acampando em Merri Creek. Charles Troedel

Os primeiros navegadores europeus que se empenharam na exploração do oceano Pacífico estavam, em sua maioria, a serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Nessas viagens, chegaram às costas australianas, à Nova Guiné, à Nova Zelândia e a vários arquipélagos, como os das ilhas Salomão, Tonga e Fidji. Entre os grandes exploradores desse período inicial destacou-se o holandês Abel Tasman (1603-1659), que descobriu a ilha batizada por ele de Tasmânia e explorou a costa meridional da Austrália, dela fazendo os primeiros mapas. Até a metade do século XVIII, porém, não houve maior interesse pela exploração do continente australiano, já que nele não se encontravam especiarias e jazidas de metais preciosos.


Uma oferenda antes do Capitão Cook nas ilhas Sandwich, John Webber

Timmy, um aborígene da Tasmânia, atirando uma lança. Benjamin Duterrau

Em 1768, uma expedição inglesa comandada pelo capitão James Cook (1728-1779), seguiu para os chamados “mares do Sul” a fim de explora-los. Cook fez um detalhado relatório dessa viagem, de grande importância para o conhecimento geográfico da época. Depois de atingir as ilhas do Taiti e da Nova Zelândia, o navegador inglês chegou à costa meridional da Austrália, que chamou de Nova Gales do Sul e da qual tomou posse em nome da Grã-Bretanha.


Representação de um sacrifício humano no Taiti, John Webber

Canoas aborígenes comunicando-se com o monarca e Tom Tough, 28 de agosto de 1855. John Thomas Baines

Em 1786, a Nova Gales do Sul tornou-se uma possessão da Coroa britânica, que ali instalou uma colônia penal. O primeiro grupo de deportados (cerca de setecentos) foi levado para a colônia pelo capitão Arthur Phillip, que se estabeleceu na região onde atualmente se encontra a cidade de Sidney. Nos primeiros anos, a vida da colônia foi marcada por uma série de dificuldades e incidentes, tendo o governador entrado em choque com alguns oficiais que haviam recebido concessões de terras e pretendiam explora-las utilizando a força de trabalho dos deportados. A situação agravou-se ainda mais com a nomeação de William Bligh (1754-1817) para governador da Nova Gales do Sul. Devido à sua extrema severidade, Bligh já havia provocado, em 1789, o motim da tripulação de um navio por ele comandado, o Bounty. A crise chegou a tal ponto que, em 1808, os colonos se rebelaram e aprisionaram o governador, o que levou o governo britânico a retirar suas tropas da região. Apesar de todos esses problemas, a Austrália logo passou a desempenhar um papel muito importante na economia colonial inglesa, principalmente depois que nela foi introduzido a criação de bovinos e ovinos.


Tambores do Taiti. Ídolos das iIlhas Sandwich. Pás. Altar. John Webber

Corrobore, sul da Austrália. WR Thomas

O primitivo estágio de desenvolvimento cultural em que se encontravam os aborígines australianos despertou grande interesse nos exploradores e estudiosos europeus. James Cook e Louis Antoine Bougainville (1729-1811), por exemplo, fizeram análises bastante minuciosas do modo de vida e dos costumes desses povos. Tendo participado da terceira expedição de James Cook ao Pacífico (1776-1779), os naturalistas George Louis Leclerc Buffon (1707-1788), Johann Reinhold Forster (1729-1798) e Johann Georg Adam Forster (1729-1794) realizaram profundos estudos etnológicos sobre os nativos da Austrália e das ilhas do Pacífico, que se estendiam desde o sudeste asiático até o oeste das Américas. Como essas populações ainda se achavam culturalmente na Idade da Pedra, esses cientistas europeus chegaram a acreditar, em um primeiro momento, que haviam desvendado o mistério da origem do homem.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 110 e 112. Volume IV.

NOTA: O texto "A exploração da Oceania" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

As especiarias na Idade Moderna

Os "Mulus" colhendo pimenta preta. Ilustração francesa de As viagens de Marco Polo.

Na Antiguidade já eram conhecidas e valorizadas algumas das especiarias asiáticas que chegavam à Europa, onde eram consumidas pelas elites. Alarico, o general visigodo que em 408 sitiou Roma, exigiu como resgate para deixar a cidade, entre outras coisas, 3 mil kg de pimenta.

A pimenta (Piper nigrum), conhecida por nós como "do reino", era o principal desses produtos. Seu uso não era propriamente culinário, mas tratava-se, como a maioria das especiarias, de substância "quente", que servia para equilibrar os humores do corpo, que, segundo a medicina hipocrático-galênica, para ser saudável devia ter a tendência ao calor e à secura. Os temperamentos eram constituídos assim em função das temperaturas, as quais as especiarias (os temperos) podiam equilibrar (temperar).

As especiarias, portanto, mais que meros condimentos, eram substâncias preciosas, usadas como signo de distinção social, em um consumo suntuário, representando remédios provedores de calor e energia. Eram alimentos-droga, e a própria palavra droga vem de um termo holandês para "produto seco".

No século XV, o comércio de especiarias orientais na Europa foi objeto de guerras comerciais entre Gênova e Veneza, que venceu a disputa e dominou o comércio com os árabes e otomanos. Com a descoberta por Vasco da Gama, em 1498, do caminho às Índias Orientais pelo contorno do sul da África, pelo cabo da Boa Esperança, os portugueses passaram a predominar nesse tráfico e construíram todo um sistema de feitorias pela Ásia para garantir a posse desses tesouros vegetais. Para legitimá-los, contavam com várias bulas papais que lhes concederam, assim como para os espanhóis, o privilégio de exclusividade na exploração da África, Ásia e América, sob a justificativa da expansão da fé.

A segunda expedição portuguesa enviada para a Índia, após o retorno de Vasco da Gama, foi a liderada por Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil em 22 de abril de 1500 e depois continuou sua viagem para a Índia, onde combateu o reino local de Calicute e muitos morreram, incluindo Pero Vaz de Caminha.

Mais tarde, os portugueses derrotaram uma esquadra árabe-veneziana-indiana coligada na costa da Índia, em Diu (1509), e conquistaram sucessivamente Goa (1510), Malaca (1511), as ilhas de Amboíno, Ternate e Tidore (1514), Ormuz (1515) e se estabelecem em Colombo, no Ceilão (1519).

A primeira viagem ao redor do mundo, realizada pela expedição espanhola de Fernando de Magalhães, entre 1519 e 1522, tinha os cravos como "o principal objetivo de nossa viagem", conforme as palavras de Pigaffeta, autor do diário de bordo.

A pimenta vinha da costa ocidental da Índia, cujos reinos hinduístas de Calicute e Cochim a forneciam aos portugueses. A canela (Cinnamomum zeylanicum), do Ceilão. O cravo (Caryophylus aromaticus), das ilhas Amboíno, Ternate e Tidore, no arquipélago das Molucas, atual Indonésia. Das minúsculas ilhas de Banda, ao sul das Molucas, também procedia a noz-moscada (Myristica fragrans). Gengibre, ópio e outros produtos de menor importância completavam as cargas das naus mercantes. O padre jesuíta francês Pierre du Jaric, em 1608, exclamava: "Parece que Deus quis esconder aos homens em ilhas tão pequenas e tão remotas as iscas da glutonice".

A partir de 1595, os holandeses seguiram o mesmo caminho dos portugueses e passaram a se apossar das fontes das especiarias. Não reconheciam mais a autoridade do papa e predominaram militarmente tanto na Europa, onde venceram a guerra pela independência da Espanha, como no âmbito colonial. Numa verdadeira guerra mundial, tomaram o cravo da ilha Amboíno em 1605, fundaram Batávia, na ilha de Java, em 1609, depois tentaram se apossar do açúcar do Brasil, em 1624 e entre 1630 e 1654, e por fim tomaram o Ceilão e sua canela em 1658.

No Brasil, desde o século XVI, d. Manuel proibira o plantio das especiarias asiáticas, exceto o gengibre, mas, por outro lado, o comércio das drogas do sertão iria adquirir importância após o século XVIII, quando a quinina, a ipecacuanha (poaia), o cacau e outros produtos vegetais se tornaram importantes itens da exportação do Grão-Pará.

O holandês Gaspar Barléu escreveu, no século XVII, que as "drogas quentes", "temperadoras dos frios", eram, "a pimenta, o macis, a noz-moscada, a canela, o cravo, o bórax, o benjoim, o almíscar, o estoraque, o sândalo, a cochonilha, o índigo, o bezoar, o sangue-de-drago, a goma-guta, o incenso, a mirra, as cubebas, o ruibarbo, o açúcar, o salitre, a goma-laca, o gengibre". Também o açúcar e o tabaco são especiarias que, de produtos de luxo de consumo conspícuo, iriam se tornando aos poucos de alcance maciço, uma "vulgarização do luxo", como se refere o historiador Fernand Braudel, que destacou a importância central dessa massificação de mercadorias de luxo na formação do sistema mercantil moderno.

O comércio transoceânico de especiarias, tabaco, açúcar e outros produtos unificou pela primeira vez o globo, expandiu impérios ocidentais a um domínio inédito sobre o planeta, foi objeto de guerras e acumulou o capital da Revolução Industrial. O consumo cada vez mais intenso desses gêneros os tornou de primeira necessidade e fez de seu consumo um tempero da vida. A revolução que promoveram não foi apenas no gosto alimentar, mas na economia, nas relações internacionais e nos estilos de vida.

Henrique Carneiro. Especiarias. In: BETING, Graziella. História de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro, Duetto, 2009. p. 74-75.

NOTA: O texto "As especiarias na Idade Moderna" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

América 1: "Os signos da cruz nas empunhaduras das espadas"

Códice Durán

Quando Cristóvão Colombo se abalançou a atravessar os grandes espaços vazios a oeste do Ecúmeno, ele aceitaria o desafio das lendas. Tempestades terríveis sacudiram suas ruas como se fossem cascas de nozes e as lançariam na boca dos monstros, e a grande serpente dos mares tenebrosos, faminta de carne humana, estaria à espreita. Faltavam só mil anos para que as chamas purificadoras do Juízo Final arrasassem o mundo, segundo acreditavam os homens do século XV, e o mundo era então o mar Mediterrâneo com seu litoral de ambígua projeção para a África e o Oriente. Os navegadores portugueses asseguravam que o vento do oeste trazia cadáveres estranhos e às vezes arrastava toras curiosamente talhadas, mas ninguém suspeitava de que sem demora o mundo seria assombrosamente multiplicado.

A América não só carecia de nome. Os noruegueses não sabiam que a tinham descoberto já fazia tempo, e o próprio Colombo morreu ainda convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas. Em 1492, quando a bota espanhola enterrou-a pela primeira vez nas areias das Bahamas, o almirante acreditou que essas ilhas eram as sentinelas avançadas do Japão. Colombo levava consigo um exemplar do livro de Marco Polo, coberto de anotações nas margens das páginas. Os habitantes de Cipango, dizia Marco Polo, "possuem ouro em enorme abundância, e as minas onde o encontram jamais se esgotam (...). Também há nesta ilha pérolas do mais puro brilho em grande quantidade. São rosadas, redondas, de tamanho grande, e superam em valor as pérolas brancas". A riqueza de Cipango chegara aos ouvidos do Grande Khan Kubilai, tinha despertado em seu peito o desejo de conquistá-la: ele fracassara. Das fulgurantes páginas de Marco Polo alçavam voo todos os bens da criação; havia quase treze mil ilhas no mar da Índia, com montanhas de ouro e pérolas, e doze tipos de especiarias em imensas quantidades, além das pimentas branca e preta. A pimenta, o gengibre, o cravo-da-índia, a noz-moscada e a canela eram tão cobiçadas quanto o sal para conservar a carne no inverno sem que se deteriorasse ou perdesse o sabor. Os reis católicos da Espanha decidiram financiar a aventura do acesso direto às fontes, para livrar-se da onerosa cadeia de intermediários e revendedores que monopolizavam o comércio das especiarias e das plantas tropicais, das musselinas e das armas brancas que provinham de misteriosas regiões do Oriente. O anseio de metais preciosos, a moeda de pagamento no tráfico comercial, também impulsionou a travessia dos mares malditos. A Europa inteira precisava de prata; estavam já quase exauridos os filões da Boêmia, da Saxônia e do Tirol.

A Espanha vivia o tempo da reconquista. O ano de 1492 não foi apenas o ano do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências. Foi também o ano da recuperação de Granada. Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que com o casamento tinham evitado o desmonte de seus domínios, no princípio de 1492 eliminaram o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Custara quase oito séculos a retomada daquilo que fora perdido em sete anos, e as despesas da campanha tinham esgotado o tesouro real. Mas esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação, erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI, que era valenciano, converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a terra.

Três anos depois do descobrimento, Cristóvão Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Um punhado de cavaleiros, 200 infantes e uns quantos cães especialmente adestrados para o ataque dizimaram os índios. Mais de 500, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos em Sevilha e morreram miseravelmente. No entanto, alguns teólogos protestaram, e a escravização dos índios foi formalmente proibida no século XVI. Na verdade, não foi proibida, foi abençoada: antes de cada ação militar, os capitães da conquista deviam ler para os índios, na presença de um tabelião, um extenso e retórico Requerimento que os exortava à conversão à santa fé católica: "Se não o fizerdes, ou se o fizerdes maliciosamente, como dilação, certifico-vos que, com a ajuda de Deus, agirei poderosamente contra vós e vos farei guerra da maneira que puder em todos os lugares, submetendo-vos ao jugo e à obediência da Igreja e de Sua Majestade, e tomarei vossas mulheres e vossos filhos e vos farei escravos e como tais sereis vendidos, dispondo de vós como Sua Majestade ordenar, e tomarei vossos bens e farei contra vós todos os males e danos que puder (...)".

A América era um vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo. Bernal Díaz del Castillo, soldado de Hernán Cortez, escreve que eles chegaram à América "para servir a Deus e a Sua Majestade, e também por haver riquezas".

Ao alcançar o atol de San Salvador, Colombo deslumbrou-se com a colorida transparência do Caribe, a verdejante paisagem, a doçura e a limpeza do ar, os pássaros esplêndidos e os jovens "de boa estatura, gente mui formosa" e "muito mansa" que ali habitava. Presenteou os indígenas com "alguns gorros vermelhos e umas contas de vidro que eles colocavam no pescoço, e muitas outras coisas de pouco valor com as quais ficaram contentes e tão nossos que era uma maravilha". Mostrou-lhes as espadas. Não as conheciam, seguravam-nas pelo fio e se cortavam. Entrementes, conta o almirante em seu diário de bordo, "eu estava atento e trabalhava para saber se havia ouro, e vendo que alguns deles traziam um pedacinho enfiado no buraco que tinham no nariz, por gestos pude me informar que, indo para o sul ou contornando a ilha pelo sul, encontraria um rei que possuía grandes vasos daquilo, e em grande quantidade". Porque "do ouro se faz tesouro, e quem o tem faz o que quiser do mundo e até leva as almas para o Paraíso". Em sua terceira viagem, ao abordar a costa da Venezuela, Colombo ainda supunha que andava no mar da China; isto não o impediu de informar que dali se estendia uma terra infinita que subia até o Paraíso Terrestre. Também Américo Vespúcio, explorador do litoral do Brasil na alvorada do século XVI, relataria a Lorenzo de Médicis: "As árvores são de tanta beleza e tanta brandura que nos sentíamos como se estivéssemos no Paraíso Terrestre (...)". Com pesar, Colombo escrevia aos reis em 1503, da Jamaica: "Quando descobri as Índias, disse que eram o maior domínio rico que há no mundo. Disse do ouro, pérolas, pedras preciosas, especiarias (...)".

Na Idade Média, uma bolsa de pimenta valia mais do que a vida de um homem, mas o ouro e a prata eram as chaves que o Renascimento usava para abrir as portas do Paraíso no céu e as portas do mercantilismo capitalista na Terra. A epopeia de espanhóis e portugueses na América combinou a propagação da fé cristã com a usurpação e o saque das riquezas indígenas. O poder europeu se irradiava para abraçar o mundo. As terras virgens, densas de selvas e perigos, instigavam a cobiça de capitães, cavaleiros fidalgos e soldados em farrapos, que se lançavam à conquista de espetaculares butins de guerra: acreditavam na glória, "o sol dos mortos", e na audácia. "Os ousados a fortuna ajuda", dizia Cortez. O próprio Cortez havia hipotecado todos os seus bens pessoais para equipar a expedição do México. Salvo raras exceções, como foi o caso de Colombo e Magalhães, as aventuras não eram custeadas pelo Estado, mas pelos próprios conquistadores ou por mercadores e banqueiros que os financiavam.

Nasceu o mito do Eldorado, o rei banhado em ouro que os indígenas inventaram para afastar os intrusos: de Gonzalo Pizarro a Walter Raleight, muitos o perseguiram em vão nas florestas e nas águas do Amazonas e do Orinoco. A quimera do "monte que manava prata" se tornou realidade em 1545, com o descobrimento de Potosí, mas antes já haviam morrido, vencido pela fome, pelas doenças ou atravessados por flechas indígenas, muitos dos expedicionários que, subindo o rio Paraná, tentaram infrutiferamente alcançar o manancial de prata.

Havia, sim, ouro e prata em grande quantidade, acumulados na meseta do México e no altiplano andino. Hernán Cortez revelou para a Espanha, em 1519, a fabulosa magnitude do tesouro asteca de Montezuma, e depois chegou a Sevilha o gigantesco resgate, um aposento cheio de ouro e prata, que Francisco Pizarro fez o inca Atahualpa pagar antes de degolá-lo. Anos antes, com o ouro arrebatado às Antilhas, a Coroa já havia pago os serviços dos marinheiros que acompanharam Colombo em sua primeira viagem. Finalmente, a população das ilhas do Caribe deixou de pagar tributos, pois desapareceu: os indígenas foram completamente exterminados nas lavagens do ouro, na terrível tarefa de revolver as areias auríferas com a metade do corpo debaixo d'água, ou lavrando os campos até a exaustão, com as costas dobradas sobre pesados instrumentos de arar trazidos da Espanha. Muitos indígenas da Dominicana se antecipavam ao destino imposto por seus novos opressores brancos: matavam seus filhos e se suicidavam em massa. O cronista oficial Fernandez de Oviedo assim interpretava, em meados do século XVI, o holocausto dos antilhanos: "Muitos deles se matavam com veneno para não trabalhar, e outros se enforcavam com as próprias mãos".

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 29-34.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Onde foi parar o Mar Tenebroso?

Mapa do Oceano Pacífico, 1589. Ortelius

Apesar das dificuldades, as expedições foram bem-sucedidas, tanto as que seguiram para o Oriente quanto as que foram para o Ocidente. Inúmeras descobertas: mares, terras, povos, animais, plantas... Retornos cheios de glória e com muitos relatos. Isso tudo causou grande impacto e fez com que muitas ideias sobre o universo e a Terra, aceitas como verdadeiras, sofressem alterações.

Um cronista espanhol, Francisco Lópes de Gómara, em 1522, escreveu que a descoberta da América "foi o maior acontecimento desde a criação do mundo". Hoje, passados 500 anos, é difícil imaginar como as pessoas da época receberam as notícias. O espanto e a surpresa seguramente não foram sem razão. Os relatos aguçaram a curiosidade e o desejo dos reis, dos comerciantes, dos navegadores e dos estudiosos.

Américo Vespúcio, que fez várias viagens à América, em uma de suas cartas a um amigo se mostrava deslumbrado com a natureza encontrada:

"[...] fomos à terra e descobrimo-la tão cheia de árvores que era coisa maravilhosa, não somente a grandeza delas, mas seu verdor e cheiro suave que delas saía e que dava tanto conforto ao olfato [...] E o que vi aqui foi uma feíssima coisa de pássaros de diversas formas e cores, e tantos papagaios que era deslumbrante [...] E a mata é de tanta beleza e suavidade que pensávamos estar no paraíso terrestre".

Em outra carta, Américo Vespúcio apresenta um aspecto em que a realidade era diferente das ideias que corriam:

"[...] parece-me que a maior parte dos filósofos nesta minha viagem seja reprovada, pois afirmam que dentro da tórrida zona não se pode habitar por causa do grande calor, e eu vi nessa minha viagem ser o contrário [...]". (VESPÚCIO, Américo. Novo Mundo, cartas de viagens e descobertas. p. 50, 51 e 55).

Os europeus tiveram que mudar muitas teorias. Por exemplo, aquelas que afirmavam ser o Oceano Atlântico um mar tenebroso e cheio de monstros. Ficou provado que as sereias e os ímãs que atraíam os navios para o fundo do mar não passavam de uma lenda, pois nenhum navegador sofreu qualquer dano dessa ordem. Também não se tem notícias de mortes provocadas pelo calor, na região do Equador.

Os habitantes encontrados na América, vivendo em diversos níveis de desenvolvimento as mais diferentes formas de vida, assustaram também os europeus¹, que tiveram de refazer muitas de suas ideias sobre a população da Terra. Encontraram pessoas, animais e plantas vivendo em regiões muito frias, temperadas ou de muito calor. Gente morando nos desertos, nas planícies, nas montanhas, nos alagados e ilhas. Gente muito diferente! Nos costumes diários, na forma de religião, nas concepções de riqueza, na alimentação, no vestuário, nas habitações...

¹ [O europeu diante dos índios americanos] "Andavam nus como a mãe lhes deu à luz [...] E todos os que vi eram jovens, nenhum com mais de trinta anos de idade: muito bem feitos, de corpos muito bonitos e cara muito boa; os cabelos grossos, quase como pêlos de cavalos, e curtos [...] Eles se pintam de preto e são da cor dos canários, nem negros nem brancos, e se pintam de branco, e de encarnado, e do que bem entendem, e pintam a cara, o corpo todo, e alguns, somente os olhos ou o nariz. Não andam com armas, que nem conhecem, pois lhes mostrei espadas, que pegaram pelo fio e se cortaram por ignorância. Não têm nenhum ferro: as suas lanças são varas sem ferro, sendo que algumas têm no cabo um dente de peixe e outras uma variedade de coisas". (COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América. 1492, p. 45.)

Em muitas cidades da Ásia e da África oriental, os europeus ficaram fascinados pelo luxo e riqueza encontrados. No entanto, era mais ou menos o que esperavam encontrar, de acordo com as descrições que já tinham chegado à Europa através dos mercadores e viajantes. Mas ficaram espantadíssimos com as cidades ricas da África, de população negra, e com as dos astecas e incas, na América.


Templo do Sol, Palenque


Também as populações mais simples, tanto da África quanto da América, assombraram os europeus. Quem são elas? Por que se comportam assim? Como chegaram a se organizar dessa forma? Por que não se interessam, como os europeus, pelas riquezas, por exemplo, o ouro e as pedras preciosas? Seguramente, essas questões estavam na cabeça dos descobridores e das pessoas que passaram a ter conhecimento do que existia no mundo, um mundo muito maior do que tinham imaginado.

Nos diários, nas cartas e relatos diversos que nos deixaram os navegadores, os escrivãos e outros estudiosos que faziam parte das expedições, as descrições são inúmeras e demonstram o espanto do primeiro encontro. Na África², encontraram populações que possuíam o ouro e a prata, mas esses metais de nada lhes serviam e, como moeda, usavam os búzios. Em certas regiões da América e em algumas ilhas da Oceania, encontravam povos vivendo de forma muito simples. Quase todos andavam nus, enfeitavam-se com penas coloridas e viviam do que coletavam na natureza. Um exemplo é o caso dos índios do Brasil e de várias outras partes do continente americano.

² [Os africanos diante do europeu] "Os negros, tanto homens como mulheres, acorriam todos para me ver [...] Alguns mexiam-me nas mãos e friccionavam-me os braços com saliva, para ver se minha brancura provinha de qualquer pintura ou se a carne era mesmo assim. Quando verificavam isso, ficavam muito espantados". (CADAMASTO, A. Relação da viagem à costa ocidental da África. 1457, p. 70).

Mas, por outro lado, a organização política, social, econômica e cultural, principalmente dos astecas e incas³, espantou os espanhóis. Tenochtitlán, capital dos astecas (onde hoje é a cidade do México), deixou Cortés, conquistador espanhol, absolutamente surpreso. Ele a descreveu em detalhes e chegou a compará-la com as grandes cidades da Espanha. Para alguns historiadores, Tenochtitlán, no século XVI, juntamente com Constantinopla, eram as duas maiores cidades do mundo, apesar de se ignorarem.

³a [Os incas diante dos espanhóis] "Atahualpa (cacique dos incas) viu chegar os primeiros soldados dos espanhóis, montados em briosos cavalos ornamentados com casquetes e penachos, que corriam provocando ruído e poeira com seus cascos velozes: tomado pelo pânico, o inca caiu de costas". (GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina).

³b [Os astecas diante dos espanhóis] "[...] rápido dispararam um canhão: tudo ficou confuso. Corriam sem rumo, as pessoas dispersaram-se sem que nem porque, debandavam, como se fossem perseguidos. Tudo era como se todos tivessem comido cogumelos estupefacientes, como se tivessem visto algo assombroso. O terror dominava a todos, como se todo mundo tivesse perdido o coração. E, quando anoitecia, era grande o espanto, o pavor se estendia a todos, o medo dominava todos, por temor perdiam o sono". (LEÓN-PORTILLA, Miguel. A tragédia da conquista narrada pelos astecas. p. 76).

As descrições dos contemporâneos são muitas e cheias de assombro. Era o espanto diante do diferente e do inacreditável, tanto do lado dos europeus quanto dos povos africanos e americanos. O Mar Tenebroso deixou de ser o lugar perigoso que separava os povos para tornar-se o mar que conduzia as embarcações, os homens e as ideias, ligando a Europa ao Oriente, África e América. Mundos diferentes! Pessoas diferentes! Ideias diferentes! Mas, no entanto, vivendo o mesmo tempo histórico e, a partir dos descobrimentos, não mais podendo se ignorar.

GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedade dos tempos modernos. Goiânia: UFG, 1998. p. 79-84.

sábado, 20 de abril de 2013

A preponderância holandesa no século XVII

A Holanda (denominação usualmente dada às Províncias Unidas dos Países Baixos), muito antes de se tornar independente, constituía uma das regiões mais florescentes da Europa.

The Y at Amsterdam, seen from the Mosselsteiger (mussel pier), Ludolf Bachuizen


Sua agricultura, apesar da escassez de terras, progredia. Suas indústrias desenvolviam-se, principalmente, na produção de tecidos de linho, estofos de lã, tapeçarias, construção naval, peixe salgado etc. O comércio, beneficiado com as vitórias sobre a Hansa Teutônica e pelos progressos da marinha, expandiu-se rapidamente, aproveitando-se das rotas fluviais (o Escalda, o Reno e o Mosa ligavam a região com a França e com o Sacro Império Romano-Germânico) e marítimas. Aspecto importante, na atividade mercantil, era sua intensidade com o porto de Lisboa, de onde transportavam produtos vindos do Brasil, da África e da Ásia. A propósito, a Hansa Teutônica foi uma associação de cidades alemãs; formada no século XIII sob a liderança de Lubeck, até o século XV dominou o comércio marítimo da Europa Setentrional; seu declínio deveu-se ao deslocamento do eixo econômico para o oceano Atlântico, consequência da Expansão Marítima e Comercial.

Com as rápidas transformações econômicas do século XVI, a sociedade assistiu ao fortalecimento de rica e ativa burguesia, sobretudo nos centros urbanos setentrionais dos Países Baixos, onde o calvinismo converteu-se na religião predominante.

Politicamente, os Países Baixos integravam-se ao Império Espanhol; cada uma das dezessete províncias dispunha de um conselho e de um governador (Estatúder) e enviava representantes aos Estados Gerais. As instituições comuns e a autonomia desfrutada, ao longo do governo de Carlos V, acabaram de forjar o sentimento nacional.

A ascensão de Felipe II ao trono espanhol marcou uma brusca mudança política em relação aos Países Baixos, ocorrendo crescentes choques contra a intolerância religiosa, manifestada pela introdução da Inquisição; a opressão fiscal, mediante a criação de novos impostos e elevação dos já existentes; regulamentação econômica promulgada em moldes mercantilistas e disposições administrativas suprimindo a autonomia existente.

A revolta conduziu à divisão dos Países Baixos: o Sul permaneceu unido à Espanha pela União de Arrás, enquanto os burgueses calvinistas do Norte formavam a União de Utrecht (1579), contando com a ajuda da Inglaterra de Elisabete I.

Apesar de a Espanha só haver reconhecido, diplomaticamente, a independência das Províncias Unidas mediante o Tratado de Vestfália (1648), estas já se haviam organizado em uma república federal, burguesa e calvinista.

"Os holandeses aproveitaram-se de várias circunstâncias favoráveis: sua localização em frente ao Mar do Norte; a ruína de Antuérpia; o declínio dos portos hanseáticos; e, sobretudo, a decadência de Portugal, que, então, estava anexado à Espanha." (ARONDEL, M.; LE GOFF, J. Du Moyen Âge aux Temps Moderns (1328-1715). Paris: Bordas, 1968. (Collection d'Histoire).

Ainda no decorrer da luta contra Felipe II, a Holanda procurou conquistar colônias aos luso-espanhóis )de 1580 a 1640 houve a União Ibérica), daí os ataques aos domínios ultramarinos daqueles países visando a efetuar pilhagens (foi, por exemplo, o caso das diversas incursões ao litoral brasileiro) e, principalmente, o estabelecimento definitivo. Na América, os holandeses se apoderaram da Guiana, da ilha de Curaçao, diversos pontos da América do Norte, tendo dominado o litoral norte e nordeste do Brasil durante algum tempo. Na África, estabeleceram-se na Colônia do Cabo e, temporariamente, em Angola, Benguela, São Tomé etc. No Oriente, criaram feitorias na Índia e dominaram Java, Ceilão, Málaca, Célebes, Molucas (as ilhas das especiarias), Nova Guiné, Sonda e Timor.

Para o processamento dessa intensa atividade, os holandeses construíram numerosas embarcações, formando a primeira frota naval do mundo.

Graças a tudo isso, Amsterdã, com suas feiras, sua Bolsa, seu banco, companhias de comércio (das Índias Ocidentais, das Índias Orientais), converteu-se no principal centro comercial e financeiro da Europa durante a primeira metade do século XVII.

Embora a ascensão hegemônica fosse rápida e se mantivesse na primeira metade do século XVII, o declínio se precipitou na segunda metade do mesmo século, quando guerras desastrosas, contra a Inglaterra (1652-1654 e 1655-1667) e contra a França (1672-1678), arruinaram o país e reduziram sua participação no comércio mundial.

Aos fatores externos somaram-se os de ordem interna, que apresentaram características distintas daquelas ocorridas nos Países Ibéricos. Com efeito, os holandeses foram incapazes de passar do capital comercial para o capital industrial: as excelentes possibilidades de lucro oferecidas pelas transações mercantis desviaram capitais de outras atividades, como a indústria, que estagnou e declinou; as perdas sofridas, externamente, acabaram dissipando a maior parte do capital de giro acumulado.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 39-42.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A dura vida dos navegantes

Fome, sede, doença e estupro eram apenas algumas das palavras incorporadas ao cotidiano dos navegantes nos séculos XV e XVI. Fugindo de uma vida dura na Europa, centenas de homens embarcaram nas caravelas dos descobrimentos. Alguns buscavam enriquecimento rápido e fama; outros, penitência pelos pecados e oportunidade de difundir a fé em Cristo. Eram atraídos pela brisa do mar e pela aventura, encontrando uma existência repleta de surpresas nem sempre agradáveis.


A partida de Vasco da Gama para a Índia em 1497, Alfredo Roque Gameiro


Dentre os obstáculos que precisaram ser vencidos para desbravar os mares, nenhum supera a dureza do cotidiano nas caravelas. Os tripulantes eram confinados a um ridículo espaço que impedia qualquer tipo de privacidade. Os hábitos de higiene eram precários. Proliferavam insetos parasitas: pulgas, percevejos e piolhos. O mau cheiro se acumulava, tornando-se insuportável em pouco tempo. Além disso, havia o perigo constante de naufrágio e a possibilidade de serem mal recebidos pelos nativos. Ainda assim, apesar de todas as mazelas, a vida no mar podia ser instigante: encontrar novas terras e gentes, escapar da rotina.

A rígida separação que existia na Europa entre nobres e plebeus, com leis distintas para cada categoria, era atenuada no universo marítimo. Só o mar podia proporcionar a quebra de hierarquia que dificilmente ocorreria em terra, num continente dominado pelos títulos de nobreza que separavam aqueles com sangue azul da imensa maioria da população. Os perigos e o limitado espaço para circular a bordo estimulavam a camaradagem, o que podia servir, inclusive, como meio de ascensão social.

Não foram poucos os escudeiros e simples marujos que, por mérito, acabaram agraciados com títulos de nobreza pelo rei de Portugal nos séculos XV e XVI. [...]

Mas o risco constante de motim fazia com que os marinheiros fossem submetidos a uma rígia disciplina militar. Para garantir a ordem, cada capitão era obrigado por lei a ter duas peças de artilharia em seu camarote e a portar duas armas de fogo e uma espada.

Amotinados eram presos a ferros no porão, onde permaneciam até o fim da viagem. Quando em terra, não eram julgados, mas perdiam direito ao soldo e tinham os nomes incluídos numa lista negra que impedia que fossem admitidos em outro navio. [...]

O ambiente de permanente tensão era gerado, em parte, pelo aperto a bordo. As caravelas tinham dimensões modestas. Desenvolvidas a partir de uma confluência de tradições, havia uma grande variedade de tipos, com dimensões entre sete e 18 metros de comprimento, tendo uma largura de um para três. Isto significa que a chamada "caravela latina", a mais utilizada nas viagens de exploração da costa africana, com 16 metros de comprimento, teria cerca de cinco metros de largura.

Além do convés, que ficava a céu aberto, qualquer tipo de caravela tinha no máximo mais dois pavimentos inferiores. Este espaço era lotado com canhões, pólvora, munição e, principalmente, água e alimentos necessários para enfrentar o alto-mar, deixando pouco espaço para os marujos.

O número de tripulantes variava entre 12 e 120, muitas vezes envolvendo, além de marinheiros, bombardeiros responsáveis pelo manuseio dos canhões e soldados que deveriam garantir a segurança no desembarque em praias lotadas de nativos potencialmente hostis.

Nos pavimentos inferiores, o ar e a luz eram extremamente escassos, fornecidos apenas por fendas entre os ripados de madeira, que também deixavam passar água, tornando os porões abafados, quentes e úmidos. Nesse ambiente insalubre, apinhado de carga, os marinheiros ficavam amontoados em um único cômodo.

Cada marujo possuía um baú para guardar seus pertences, alojando embaixo do catre inferior, uma espécie de beliche de três ou quatro pavimentos de madeira que servia de cama, sem o conforto dos modernos colchões. Ali os tripulantes se revezavam para descansar.

Devido aos apertos nos navios, o abastecimento e a alimentação constituíram um problema permanente. Os gêneros embarcados tinham sempre uma péssima qualidade. Estavam frequentemente deteriorados ainda no início da viagem e terminavam apodrecendo em pouco tempo.

O rol dos produtos oficialmente embarcados incluía carne vermelha defumada, peixe seco ou salgado, favas, lentilhas, cebolas, vinagre, banha, azeite, azeitonas, farinha de trigo, laranjas, biscoitos, açúcar, mel, uvas-passas, ameixas, conservas e queijos. Também eram transportados barris de vinho e água, embora, depois de algumas semanas, o vinho se transformasse em vinagre e a água, em fétido criadouro de larvas.

Para garantir a presença de alimento fresco, iam a bordo alguns animas vivos, principalmente galinhas, e, por vezes, bois, porcos, carneiros e cabras, brindando os embarcados com muito esterco e urina, que contribuíam para agravar o quadro de doenças entre os humanos.

Mesmo assim, raramente havia carne vermelha fresca [...]. O embarque de animais de grande porte não era recomendado, tomava muito espaço, consumia víveres e água, deixava o ambiente ainda mais insalubre. [...] Muitas vezes, na falta de lenha, peixe e carne eram consumidos crus.

Em viagens longas, passado um mês, o que sobrava para comer era uma espécie de biscoito duro e seco, então já todo roído por ratos e baratas. [...] Diante da iminência de fome, muitos traziam seu próprio estoque de comida, outros optavam por tentar pescar nos períodos de calmaria ou caçar os muitos ratos presentes a bordo.

A dieta pobre em vitaminas explica diversas doenças que se tornaram corriqueiras nos navios, com sintomas como disenteria, febre, fraqueza extrema e desnutrição. A principal era o escorbuto, chamado na época de "mal das gengivas" [...], provocado pela falta de vitamina C. Causava inchaço das gengivas e perda dos dentes, dilatações e dores nas pernas, conduzindo a uma lenta, horrível e dolorosa morte.

[...]

A ausência de hábitos de higiene piorava os estragos causados pelo alto grau de deterioração dos víveres. Não era costume, por exemplo, lavar as colheres, as gamelas e os pratos usados. Estes utensílios eram compartilhados, sendo de uso coletivo entre os tripulantes. [...]

Os tripulantes precisavam conter sua repugnância diante dos companheiros de viagem, que arrotavam, vomitavam, soltavam ventos e escarravam perto dos que comiam sua escassa refeição. Não havia instalações sanitárias a bordo. Eles faziam as necessidades se debruçando no costado da nau, na borda do navio, voltados para o mar. Alguns caíam enquanto buscavam alívio e nunca mais eram vistos. [...]

Tudo em meio ao convívio com gente que havia embarcado fugindo de desafetos ou da Justiça. Apesar de muitos buscarem redenção pelos pecados, outros estavam à procura de oportunidades de arranjar mais encrenca, cometer estupros ou atirar o companheiro ao mar para se apoderar de seus pertences.

[...]

Em meio a um ambiente conturbado e masculino, repleto de privações, a sexualidade a bordo das caravelas era encarada com uma liberdade quase nunca observada em terra. Usar pouca roupa era comum entre os homens do mar [...]. A sexualidade era quase libertina. Nos navios, o ato sexual era frequentemente uma prática coletiva, com ausência de parceiros fixos e o compartilhamento de objetos sexuais. Quando não havia mulher por perto, os pobres grumetes, crianças que eram aprendizes de marinheiro, terminavam servindo sexualmente à marujada, integrados ao sexo grupal. [...]

Fábio Pestana Ramos. A dura vida dos navegantes. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, Nº 84, p. 22-25.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os grandes descobrimentos geográficos

O "Theatrum Orbis Terrarum" ("Teatro do Globo Terrestre") de Abraham Ortelius, publicado em 1570 em Antuérpia

"Já não tínhamos mais nem pão para comer, mas apenas polvo impregnado de morcegos, que tinham lhe devorado toda a substância, e que tinha um fedor insuportável por estar empapado em urina de rato. A água que nos víamos forçados a tomar era igualmente pútrida e fedorenta. Para não morrer de fome, chegamos ao ponto crítico de comer pedaços de couro com que se havia coberto no mastro maior, para impedir que a madeira roçasse as cordas. Este couro, sempre ao sol, à água e ao vento, estava tão duro que tínhamos que deixá-lo de molho no mar durante quatro ou cinco dias para amolecer um pouco. Frequentemente nossa alimentação ficou reduzida à serragem de madeira como única comida, posto que até os ratos, tão repugnantes ao homem, chegaram a ser um manjar tão caro, que se pagava meio ducado por cada um. [...] PIGAFETTA, Antonio. Diário da expedição de Fernão de Magalhães, 1512-1522. (Relato das dificuldades enfrentadas pelos navegantes europeus durante as viagens marítimas)

Disputa entre cosmógrafos (Alegoria ao Novo Mundo), José Antônio da Cunha Couto

Após as crises do século XIV e a nova estrutura do Estado Moderno, a Europa do século XV sentiu crescente necessidade de capitais para ampliar seu comércio que enfrentava sérias dificuldades. Em razão do monopólio comercial exercido pelos turcos no Oriente, pelos árabes na África e pelos venezianos no Mediterrâneo, haviam-se tornado muito caras as mercadorias africanas e asiáticas: perfume, sedas, tapetes, pedras preciosas, marfim e, sobretudo, as especiarias, largamente usadas para conservação e tempero de alimentos e no preparo de remédios.

Decididos a vencer essas dificuldades, a burguesia europeia e o Estado Moderno deram início à expansão marítima ao longo de rotas ainda não exploradas.

Nau de Pedro Álvares Cabral

"Alguns temores europeus em relação a mares e terras desconhecidos tinham bases reais, como as dificuldades de orientação e o desconhecimento das correntes marítimas. Mas havia os produtos da imaginação, criados e/ou fomentados pela mística religiosa em relação ao Mar Tenebroso - o Atlântico. Dizia-se que, quando se chegasse ao fim do mar, também se alcançaria o fim do mundo; falava-se de monstros marinhos que habitavam as regiões ao sul do equador e de povos estranhos, dispostos a massacrar os incautos que se aventurassem em suas terras. Mas nem tudo era assustador. Também se aventurava a possibilidade de reencontrar o paraíso, o Éden bíblico ou, o que até seria melhor, o El Dorado, um lugar todo feito de ouro." (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 260)

Livro das Maravilhas. Entre 1420 e 1422. Autor desconhecido


* As viagens portuguesas. Portugal, após ter firmado sua independência e se estruturado como Estado Moderno, não tendo como expandir-se por terra, voltou-se para a navegação do Atlântico, estimulado pela própria casa real de Avis, na qual se destacou o Infante Dom Henrique, filho de D. João I. Cercando-se de astrônomos, pilotos, construtores de navios, coletando obras sobre viagens e navegação, D. Henrique fundou em Sagres um grande centro de estudos e pesquisas náuticas.


Descoberta do Brasil, Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo

Durante o reinado de D. João I iniciou-se a expansão portuguesa visando alcançar a Ásia contornando a África; atingiram gradativamente pontos geográficos que se transformaram em importantes escalas marítimas:

1415 - Ceuta
1420 - Ilha da Madeira
1434 - Cabo Bojador
1441 - Cabo Branco
1446 - Cabo Verde
1456 - Golfo da Guiné

A morte do Infante D. Henrique (1460) e dificuldades técnicas para a navegação no hemisfério sul, sobretudo as calmarias da zona equatorial, sustaram por 30 anos o périplo africano, que só foi retomado no fim do século XV:

1485 - Estuário do Congo
1487 - Bartolomeu Dias atinge e ultrapassa o Cabo das Tormentas (depois Cabo da Boa Esperança)
1498 - Vasco da Gama chega a Calicute (Índia)
1500 - Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil; segue para a Índia onde impõe a soberania portuguesa
1502/1503 - Vasco da Gama impõe a soberania portuguesa na costa do Malabar
1507 - Ceilão
1511 - Málaca
1516 - China (Cantão)
1520 - China (Pequim)
1530 - Portugal obtém a concessão de Macau (China)
1542 - Japão

A chegada de Vasco da Gama a Calicute, Alfredo Roque Gameiro

Outro mundo encoberto
vimos então descobrir,
que se tenha por incerto:
pasma homem de ouvir
o que sabe muito certo.
que coisas tão grandes são
os da Índia e Iucatão,
e quão na China espantosas,
que façanhas façanhosas
no Brasil e Peru vão?
(Garcia de Rezende, Miscelânea e variedade..., 50)

A penetração de Portugal no Oriente foi conseguida através de lutas contra os árabes, senhores até então do comércio no oceano Índico. A expulsão dos árabes e acordos com chefes locais permitiram a Portugal dominar o comércio do Extremo Oriente por meio do estabelecimento de feitorias. Em 1512 Afonso de Albuquerque ampliou a conquista das Índias.

Lisboa, nas três primeiras décadas do século XVI, tornou-se uma das mais ricas e movimentadas praças do mundo. Para lá convergiam todos os produtos orientais, podendo ser obtidos por preços até cinco vezes menores do que o preço das mesmas mercadorias trazidas por Veneza através do Mediterrâneo: prata, do Japão; sedas, porcelanas, lacas, cânfora, essências aromáticas, da China; ouro, pedras preciosas, especiarias, das ilhas da Indonésia e da Índia; seda, pérolas, prata, perfumes, tapetes, coral, café, do Golfo Pérsico e da Arábia; ouro, marfim, âmbar, ébano, escravos, da África.

* As viagens espanholas. Antes da unificação das terras espanholas, o reino de Aragão lançou-se à conquista de vários pontos de apoio no Mediterrâneo, que lhe permitisse participar do comércio europeu:

séc. XIII - Ilhas Baleares, Ilha da Sicília
séc. XIV - Ilha da Sardenha
séc. XV - Nápoles

Em 1492 os reis espanhóis Fernando e Isabel apoiaram o projeto do navegador genovês Cristóvão Colombo, que tencionava atingir a Ásia navegando pelo Atlântico rumo a ocidente. Partindo, com três caravelas (Pinta, Niña, Santa Maria), do porto espanhol de Palos (agosto de 1492), Colombo aportou dois meses depois (12.10) em uma ilha do Mar das Antilhas. Contornou em seguida as atuais ilhas de Cuba e de São Domingos (por ele batizada La Espaniola) e retornou à Espanha certo de ter encontrado as Índias, razão pela qual deu a seus habitantes a denominação de índios.

Colombo e a índia virgem, Constantino Brumidi

Os reis espanhóis apressaram-se em garantir a posse das terras recém-descobertas, temendo a expansão marítima portuguesa. Conseguiram do papa espanhol Alexandre VI a bula Inter Coetera (1493) que assegurava a Castela o domínio exclusivo das terras situadas a oeste de um meridiano imaginário traçado a 100 léguas a ocidente dos arquipélagos de Cabo Verde e dos Açores. Em virtude dos protestos de Portugal que, através de bulas anteriores, havia obtido garantias de posse das terras por ele ocupadas, em 1494 Espanha e Portugal assinaram o conhecido Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo em dois hemisférios por meio de outro meridiano imaginário, desta vez traçado a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. O hemisfério do Ocidente tocava à Espanha, o do Oriente a Portugal.

Página do Tratado de Tordesilhas

As viagens de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama e de Cristóvão Colombo despertaram a curiosidade dos europeus, levando-os a explorações posteriores. Um dos primeiros a afirmar que as novas terras ao oeste não faziam parte da Ásia foi Américo Vespucci, navegador florentino, a serviço ora de Portugal ora de Castela, onde se tornou Almirante, que, empreendendo quatro viagens (1497-1503), explorou a costa leste da América do Sul. Foi em sua homenagem que o novo continente se chamou América.


Representação alegórica que mostra o navegador florentino Américo Vespúcio "despertando" a América de seu "sono", aqui representada por uma índia tupinambá. Ao fundo, uma cena de antropofagia frequente nas imagens que os europeus faziam do Novo Mundo. Vespúcio esteve no Brasil duas vezes, entre 1501 e 1504. A gravura é de Theodor Galle (1589).

As explorações dos espanhóis continuaram sucedendo-se:

1510 - Vasco de Balboa funda, no Istmo do Panamá, o primeiro núcleo espanhol.
1513 - Juan Ponce de León explora a península da Flórida.
1519 a 1522 - Fernando de Magalhães, navegador português a serviço da coroa espanhola, efetua a primeira viagem de circunavegação da terra. Partindo de Sevilha contorna a Patagônia e, pelo estreito que hoje leva seu nome, chega ao Oceano Pacífico. Apesar da morte de Magalhães em viagem, a expedição alcança seu objetivo, o de atingir a Ásia pelo Ocidente, retornando a Sevilha através da rota do Cabo da Boa Esperança.
1521 - Fernando Cortés subjuga os povos astecas e maias que habitavam o atual México.
1535 - Francisco Pizarro conquista o atual Peru, dominando seus habitantes, os quechuas.
1539 a 1542 - Hernando de Soto explora o sudeste do atual território dos Estados Unidos da América, próximo às terras do rio Mississipi.
1540 - Francisco de Coronado explora o sudoeste dos Estados Unidos atuais, descobre o Grand Canyon. Maravilha-se com as manadas de búfalos que percorrem as planícies.
1542 - Ruy Lopes de Villalobos estabelece o primeiro núcleo espanhol do Oriente, nas ilhas Filipinas.

Mapa da cidade asteca de Tenochtitlán e do Golfo do México, feito por um membro da expedição de Cortés, 1524

* As viagens inglesas e francesas. A partilha do globo entre espanhóis e portugueses, estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, não foi aceita pela França e pela Inglaterra, que também se lançaram a explorações marítimas em busca do caminho para as Índias pelo ocidente. Como as expedições portuguesas e espanholas se dirigiam predominantemente para as regiões do sul do continente americano, franceses e ingleses concentraram-se nas regiões norte da América, procurando sem cessar uma passagem setentrional para a Ásia, a passagem do noroeste; a busca não teve êxito, mas permitiu importante ocupação de terras.

"[...] Os reis Francisco I, da França, e Elizabeth I, da Inglaterra, concediam cartas de corso aos súditos e a navegadores que se dispusessem a realizar viagens formalmente, por conta própria, mas, de fato, a serviço dos monarcas.

Os corsários agiam como os piratas: atacavam as frotas e os portos ibéricos, assaltando-os e saqueando-os, desrespeitavam a proibição de percorrer as águas navegáveis e de alcançar as terras descobertas ou a descobrir, de um e de outro lado do meridiano de Tordesilhas. Os monarcas que os protegiam, sem se comprometer legalmente, partilhavam dos lucros obtidos." (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 263)

1497 - Giovanni Caboto, navegador italiano a serviço da Inglaterra,  aporta em regiões do atual Canadá, reivindicando-as para a coroa inglesa.
1524 - Giovanni de Verazzano, italiano a serviço da França, explora a costa leste dos territórios norte-americanos desde a Carolina do Norte até a Terranova.
1534 - Jacques Cartier, explorador francês, sobe o rio São Lourenço, no atual Canadá, reivindicando para a França a posse da região.
1577 - Sir Francis Drake, navegador inglês, combina objetivos de exploração com atos de pirataria. Atravessa o Estreito de Magalhães, costeia o continente sul-americano pelo Pacífico, atacando navios espanhóis carregados de metais preciosos. Atinge as costas da atual Califórnia, possivelmente chegando, mais ao norte, até a ilha de Vancouver.
1609 - Henry Hudson, inglês, a serviço dos holandeses, descobre o rio e canal que levam seu nome. Passando a serviço dos ingleses explora toda a área da Baía de Hudson.

Após essas grandes viagens de descobrimentos as nações europeias principiaram a consolidar suas posições nos territórios por elas reivindicados. Teve início uma fase de rivalidades entre os vários países à medida que estes foram fundando núcleos colonizadores, explorando recursos naturais, comerciando produtos das novas terras. As rivalidades eram também motivadas pelas reivindicações vagas e imprecisas, pois os territórios eram extensos e ainda pouco e mal conhecidos.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 174-177.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 260 e 263.