"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 30 de abril de 2017

A reportagem mais prestigiosa

Vercingetórix joga suas armas aos pés de Júlio César, Lionel Royer

Júlio César foi correspondente de guerra de suas próprias campanhas.

Ele mesmo se encarregou de escrever, para a posteridade, o muito meticuloso relato de suas façanhas.

Sua obra mais famosa se chama Comentários sobre a Guerra Gálica. O tempo transformou em clássico essa exaltação dos méritos militares do autor, que não prestou atenção alguma aos sacrifícios de seus soldados, que jamais se queixavam nem se cansavam.

Júlio César, imperador e deus, repórter de si mesmo, consagrou todo o seu talento literário à homenagem dessa invasão que matou um milhão de gauleses e condenou os sobreviventes à escravidão.

GALEANO, Eduardo. O caçador de histórias. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 123.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Porão de navio negreiro

Porão de navio negreiro brasileiro, Francis Meynell

O tráfico de escravos, na época chamado de "comércio infame" ou "comércio de almas", representou uma das grandes contradições do Império, e de uma maneira geral do Segundo Reinado. A pressão externa pela abolição do tráfico só aumentou, e, entre 1839 e 1842, a Inglaterra liderou o movimento, intensificando a apreensão de navios negreiros. Em 1845, a chalupa britânica Albatross capturou o navio brasileiro Albanez, com cerca de 750 escravos a bordo, retratados pelo oficial da marinha Francis Meynell. A superlotação e a falta de condições de higiene ficam evidentes nesta imagem de época.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

sábado, 16 de agosto de 2014

Salvador na época do levante dos Malês

Uma rua da Bahia. Litografia de François-Auguste Biard, 1862.

Nas primeiras décadas do século XIX, os negros eram os senhores das ruas de Salvador, capital da província da Bahia. Veja um quadro com estimativa da população de Salvador em 1835, ano da grande Revolta dos Malês.

Estimativa da população de Salvador em 1835

Origem
Números Absolutos
%
Africanos
- Escravos
- Libertos
Brasileiros/europeus
- Livres brancos
- Livres e libertos (negros/mestiços)
- Escravos

17.325
  4.615

18.500
14.885

10.175

  26,5
    7,1

  28,2
  22,7

  15,5
Total
65.500
100,0

Fonte: REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos Malês (1835). São Paulo: Brasiliense, 1986. p.16.

Escravos e libertos trabalhavam como artesãos, alfaiates, vendedoras ambulantes, lavadeiras, barbeiros, músicos, pedreiros, carpinteiros, carregadores de água, de mercadorias e de cadeiras de arruar, que transportavam pessoas. A grande maioria, porém, era composta de escravos de ganho, isto é, escravos que eram obrigados a entregar ao seu senhor, por dia ou por semana, uma quantia previamente determinada, que obtinham com seu trabalho. Na maioria das vezes os senhores respeitavam o acerto e o escravo podia ficar com o excedente. Eles costumavam se agrupar por etnia em locais específicos da cidade chamados cantos.

Nesse sistema, o escravo tinha certa autonomia, pois podia decidir onde, como e com quem trabalhar; ainda que tivesse o que prestar contas ao senhor. Com isso, alguns só apareciam nas casas dos seus proprietários no momento de prestar contas. Em contrapartida, esse escravo tornava-se responsável pelo próprio sustento, pagando por sua comida e vestuário.

Os escravos ocupavam o porão do sobrado dos senhores, onde dormiam amontoados. Eram locais escuros e com pouca ventilação, sem nenhum tipo de separação, ou seja, não havia privacidade. Não havia móveis e todos dormiam em esteiras estendidas no chão. Geralmente possuíam um caixote para guardar seus pertences - roupas, instrumentos de trabalho, amuletos, dinheiro. Alguns escravos conseguiam alugar espaços que ocupavam apenas durante o dia, retornando à noite para a casa do senhor.

Os que recebiam autorização do senhor para morar fora alugavam espaços nos quartos de libertos conhecidos. Os que conseguiam melhores ganhos alugavam quartos individuais, em busca de privacidade e da possibilidade de formar uma família. Há poucos registros da existência de filhos, mas os pesquisadores apontam que os escravos estabeleciam laços de solidariedade e parentesco constituindo formas diferentes de família.

As ruas da cidade não eram apenas seu espaço de trabalho. Após o cumprimento das tarefas cotidianas, eles se reuniam para cantos, danças, jogos de capoeira e batuques. Outras vezes, divertiam-se frequentando botequins, tabernas e casas de calundus. Possivelmente, nesses locais, tanto quanto nos cantos, foram iniciadas as discussões e a gestação da maior revolta de escravos do século XIX, a revolta dos Malês.

DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 183.

NOTA: O texto "Salvador na época do levante dos Malês" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Influência da Europa sobre a América

No fim do século XVII, a transformação da América pela Europa já era sensível. Os europeus haviam introduzido no Novo Mundo animais e plantas até então desconhecidos: pombos, galinhas, patos, vacas, cavalos, asnos, mulos, cabras, ovelhas, trigo, centeio, arroz, laranjeira, limoeiro, oliveira, vinha. Tinham transmitido o conhecimento de suas técnicas, especialmente a roda e os derivados, todos os instrumentos e mecanismos baseados no movimento circular, uma das bases da civilização do Velho Mundo, e a abóbada, condição das principais construções européias. O aspecto geográfico de muitas regiões americanas já se transformara. Não obstante, as lavouras, os rebanhos, os edifícios e as estradas dos europeus estavam ainda mal disseminados em faixas costeiras, em zonas restritas ou linhas dispersas. O homem branco limitara-se a encetar este gigantesco continente.

O homem branco levara para a América as instituições de seu torrão europeu. Mas, num meio e em circunstâncias novas, tais instituições transformaram-se, dando origem a sociedades diferentes da mãe-pátria, a verdadeiras nações que possuíam todas, em diversas gradações, seus costumes, maneiras próprias de acionar instituições aparentemente análogas às de suas regiões de origem, seus interesses, suas preocupações, um desejo de levar vida própria e de regular por si mesmas seus negócios, um espírito de particularismo e autonomia. Mas tais nações, segundo suas origens e circunstâncias de evolução, diferiam profundamente umas das outras. Desde as colônias espanholas, levadas pela recessão das correntes comerciais a voltar para um regime dominial, senhorial e vassálico, mais próximo da Idade Média europeia do que da metrópole no século XVII, até as colônias inglesas, onde as diversidades religiosas, a livre iniciativa e o grande comércio criaram todas as formas de burguesia, cadinho de experiências políticas que rapidamente ultrapassam as da metrópole, representativos e parlamentares do futuro, passando pelas colônias francesas e portuguesas, em estágios intermediários, estende-se um magnífico campo de pesquisa e reflexões experimentais para o historiador empenhado em compreender as condições de existência dos diferentes regimes políticos.

Incomparável é também o campo de pesquisa aberto pelo contato destas sociedades brancas com os índios e os negros. De fato, nenhuma sociedade branca teve êxito na assimilação e talvez nenhuma tenha verdadeiramente tentado. Negros e índios encontravam-se em níveis de civilização que os europeus haviam sucessivamente atingido na Europa. O problema consistia em levá-los, em algumas décadas, através de todos os estágios percorridos pelos europeus em mais de trinta séculos: e não houve solução para isto. Um resultado do contato das sociedades brancas mais evoluídas com as sociedades índias que o eram muito menos foi a desorganização e a desagregação destas, a redução do número ou o desaparecimento de seus membros. Outro foi a transferência de considerável número de negros da África, a constituição de uma raça inferior, escrava ou desprezada. Os negros puros passaram por incapazes de assimilar a civilização européia, por mansos e sem iniciativa. Aos mestiços, numerosíssimos, concedeu-se uma verdadeira inteligência, mas uma espécie de instabilidade mental. Um resultado considerável foi a transformação das sociedades europeias da América espanhola, portuguesa, francesa, inglesa nas Antilhas e na parte tropical da América do Norte, quer pelos cruzamentos e pelo afluxo de sangue novo, quer pela sua situação de senhores no meio de escravos, ou de senhores chefiando servos. Os hábitos novos daí resultantes e a influência dos povos de cor sobre seus senhores brancos constituem assunto ainda pouco estudado.


A cativa, Eanger Irving Couse

Já esteve em moda opor as colonizações espanhola e francesa, humanas, preocupadas com o indígena, e o seu progresso, o seu porvir, à colonização inglesa, brutal, orgulhosa destruidora do índio. É certo que o governo inglês não demonstrou o mesmo cuidado de assimilação que os governos espanhol e francês. É certo que os colonos ingleses mostraram ser menos aptos a abandonar seus hábitos de espírito e seu gênero de vida, a compreender os indígenas e possuir menos vontade de tentar algo neste sentido, menos facilidade de se unir pelo casamento às mulheres indígenas, uma repugnância em viver a vida dos índios, mais altivez e maior cupidez no lucro. O espírito puritano só complicava as coisas. Thomas Morton, fundador de Mont-Joyeux, foi expulso do Massachusetts porque seus colonos e ele se entregavam, juntamente com os índios, a bebedeiras e a danças endiabradas, à moda índia. O puritanismo viu facilmente nos índios representantes dos Madianitas e Amalecitas dignos de extermínio e no feliz usurpador das terras índias um eleito de Deus. Os franceses, portugueses, espanhóis conviviam de melhor boa vontade com os indígenas. A maleabilidade dos franceses, sua capacidade de adotar os costumes dos índios e para se tornarem bem-vindos em seu meio ficaram proverbiais.

Contudo, mais talvez do que do caráter e da religião, a atitude dos diferentes colonizadores dependeu das circunstâncias e do modo de produção. Nas Antilhas, frente aos negros, os franceses mostraram-se tão racistas quanto os ingleses, embora os negros, via de regra, gozassem de melhor sorte nas colônias francesas. Nas estepes mexicanas, os espanhóis trataram os Chichimecas de maneira semelhante à que os pioneiros ingleses adotaram com os Abenakis ou os Creeks e, mais tarde, os Sioux. No Canadá, os franceses entendiam-se com os índios e, em certa medida, uniam-se às suas filhas, mas os brancos constituíam um punhado apenas e necessitavam dos indígenas. Como teriam procedido, se se vissem, como no Massachusetts, por volta de 1670, em número de 80.000 contra 12.000 índios, com grande necessidade de terras e com os territórios de percurso dos indígenas encravados no meio das lavouras dos brancos? Os ingleses, relativamente numerosos, pouco a pouco repeliram e destruíram os indígenas, tanto mediante o desbastamento do território de percurso onde fugiam os animais de caça, como pela guerra. Os defensores da civilização agrícola multiplicaram-se e privaram de meios de existência, de espaço vital, os praticantes da civilização seminômade dos caçadores, destinados a desaparecerem paulatinamente. Mas os espanhóis, e mesmo os franceses, em geral, subordinaram mestiços e índios a uma sociedade branca dominante e, por outro lado, justapuseram no espaço estas sociedades estratificadas de predominância branca, com tribos indígenas assujeitadas ou protegidas, que permaneceram mais ou menos à parte. Os mestiços subsistiram como indivíduos de segunda categoria, batedores de floresta ou guardas de haciendas ou estâncias. A verdadeira assimilação, a que consistira, para os índios de puro sangue, na adoção de costumes, línguas, trajes, práticas, religião e espírito europeu, reduziu-se a exceções individuais. O problema mantêm-se de pé, para o historiador: a assimilação, desejada a distância pelos homens de gabinete por razões de princípio, crença cristã na igualdade fundamental dos homens, interesse nacional e monárquico, não foi levada avante seriamente, de fato, pelos coloniais. Seria possível?


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 138-141. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da Europa sobre a América" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A Espanha e a escravidão

Quando Colombo descobre o que a Europa chamará primeiramente Índias Ocidentais, a escravidão está legalizada na Espanha e regulada pelas Sete Partidas, codificação castelhana do século XIII. Em fins do século XV, há na Andaluzia numerosos escravos negros, vindos da Guiné em naves castelhanas, e a partir de 1479 (tratado de Alcaçovas), comprados nos mercados portugueses. São empregados como serviçais domésticos e ornamentam as comitivas dos senhores. A nobreza os considera trabalhadores e alegres. Mas, possuem-nos para realçar a posição social dos proprietários. A própria Coroa tem escravos. Os enviados à América, geralmente utilizados nas obras públicas, são conhecidos como os "negros do rei".


Contrato escravagista. Lima, Peru, 13/10/1794

A escravidão ibérica (compreendendo Portugal) não tem significado econômico; sua função equivale à propriedade de magníficos palácios, exuberantes tapetes persas, sedas da China e espadas de Damasco. Em outras palavras: um objeto exótico que distingue ainda mais a quem o possui. Mas nas ilhas atlânticas da Madeira, São Tomé e Canárias nasce uma escravidão vinculada às plantações tropicais, e mais particularmente às de açúcar. Este fenômeno é novo em relação ao anterior, porque trata-se de uma estrutura produtiva baseada totalmente no trabalho escravo, cujo produto tem como destino a exportação para a Europa continental. Nem a escravidão e nem as plantações surgem repentinamente: prolongam estruturas similares instaladas durante a Idade Média na Palestina e Síria, na Sicília, Chipre e outras regiões mediterrâneas. Elas antecipam a plantação tropical americana; são seus modelos.

A Coroa espanhola exige - pelo menos no começo - que os escravos enviados à América sejam cristãos: não deviam dar mau exemplo aos índios. Mas quando o governador Ovando informa que na ilha Espanhola (São Domingos), esses cristãos escravizados não são um modelo de mansidão - costumam fugir! - determina-se que da[i em diante entrem nas colônias somente os chamados "negros boçais" (negro recém-chegado, inexperiente, simplório), ou importados da África e obviamente "pagãos" ou "hereges" (os muçulmanos fazem parte desta categoria).

O trabalho negro é testado na extração do ouro e nas plantações, e revela bons resultados. Os africanos - opinam os colonos - são mais dóceis que os índios, mais resistentes e mais capacitados ao trabalho. Os 17 negros que o rei Fernando envia à Espanha, em 1505, cumprem bem as tarefas exigidas. Cinco anos depois, o soberano encarrega a Casa de Contratação de Sevilha de enviar mais duzentos.

Frei Bartolomeu de Las Casas [...] argumentava a favor da escravidão negra; prova que 20 negros conseguem extrair mais ouro que o dobro de índios. Para organizar uma colonização camponesa nas costas de Paria (Venezuela), o ilustre frade pede uma autorização para si e para cada um dos cinquenta emigrantes para conduzir três escravos negros. E depois, é lógico, todos aqueles que o trabalho requeria.

As polêmicas sobre a legitimidade da escravidão são intermináveis [...]. Porém, digamos somente que, em 1789, o ano da Revolução Francesa (quando resta pouco tempo de vida ao império espanhol), uma Real Cédula proclama que a religião, a humanidade e o bem público são compatíveis com a escravidão.

POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 117-8.

NOTA: O texto "A Espanha e a escravidão" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 12 de abril de 2014

Cativos, sim; escravos, não: o trabalho no Egito antigo

Israel no Egito (detalhe), Edward Poynter 

Diante dos grandes monumentos, como as pirâmides, só nos resta imaginar as massas de indivíduos curvados sob fardos muito pesados e sob as ordens de contramestres sádicos. E se trabalhar para o faraó constituísse de fato uma forma de recompensa?

É um dos temas que despertam mais paixão nos egiptólogos, mas também o fundamentalismo – a palavra não é forte demais – tanto daqueles que negam ferozmente o fato quanto daqueles que afirmam o contrário com veemência, como se a vida de uns e de outros dependesse da resposta. Como se também fosse possível resolver de forma simples um problema envolvendo noções tão complexas quanto as que dizem respeito à liberdade humana.

O Egito não conheceu a escravidão no sentido greco-romano, designando um indivíduo privado de sua liberdade, vivendo sob a autoridade absoluta de um mestre, seja devido ao nascimento – sendo ele mesmo filho de escravo –, seja após ter sido capturado (no decorrer de uma guerra), vendido ou condenado. Considerado como um bem material, ele se torna – para sempre – a propriedade explorável e negociável de outra pessoa. Ao longo do Vale do Nilo, essa forma de escravidão não ocorreu antes da época ptolomaica (século IV antes da nossa era), data em que os gregos se tornaram soberanos do país, levando com eles algumas de suas tradições, em particular a escravidão. Na sociedade egípcia, existiam múltiplos níveis de dependência que ligavam os homens entre si. Alguns podiam ser identificados como uma forma de escravidão, mesmo que estivessem longe de responder aos critérios impostos pela definição jurídica.

O funcionamento da realeza egípcia baseava-se em um elemento essencial – que aproxima muito o estado de espírito dos trabalhadores egípcios ao dos construtores de catedrais na Idade Média: filho dos deuses e seu representante na Terra, o faraó, no ápice da pirâmide social, garantia a vida e assegurava a cada um sua subsistência. Em troca desses benefícios, ele estava no direito de exigir dos súditos seu trabalho, de modo que cada um participava da grande obra coletiva.

Ainda por cima, por mais árduo que fosse o trabalho, contribuir para a edificação dos monumentos destinados ao futuro solar do rei ou à manutenção do equilíbrio cósmico permitia se apropriar de uma parcela das prerrogativas habitualmente reservadas ao personagem real. Enfim, fato sem dúvida revelador do sucesso do sistema faraônico, a coesão social passava pelo pertencimento a um Estado cuja organização quase militar era centrada na acumulação de riquezas, produzidas por uma mão de obra particularmente móvel com status sociais extremamente diversos.

Em um estudo especialmente instrutivo intitulado “Les noms de l’esclave en egyptien” (Os nomes de escravos em egípcio), o egiptólogo Jules Baillet elaborou uma lista dos vocábulos utilizados nos textos faraônicos para expressar a ideia de escravidão. Eis o que ele constatou: na língua egípcia, não existem palavras para designar o escravo no sentido estrito e, embora muitos termos expressem a sujeição, “nenhum corresponde exatamente à ideia de servidão”, tal como definida na Grécia ou em Roma. Daí sua pergunta: “O que é um estado social se nenhuma palavra o designa?”

Evidentemente, se a palavra não existe, o mesmo ocorre com o status. Entre os muitos termos enumerados por Baillet, dois são mais comumente traduzidos por “escravo” entre os autores favoráveis à tese da existência da escravidão no Egito: hem ebak, duas palavras que parecem totalmente sinônimas na língua egípcia e que se pode, de maneira menos categórica, interpretar por “servo”, e mesmo “dependente”. Em egípcio, o sacerdote é um hem netjer, um “servo de deus”, e, como observa Bernadette Menu, grande especialista nas questões de direito no Egito antigo, um vizir se consideraria o bak do faraó, seu “devoto” de alguma maneira. Segundo Bernadette, a noção de escravidão não responde a uma necessidade egípcia. À luz dos textos jurídicos, parece claramente que o indivíduo hem ou bak era um homem livre, perfeitamente integrado à sociedade, dispondo de um estado civil, titular de direitos e devedor de obrigações idênticas às do resto da população: embora pudesse se casar, ter posses, vender, contratar ou entrar na Justiça, ele não podia escapar do pagamento de impostos e ao regime de corveia (trabalho gratuito).

Paralelamente, estão conservados vestígios nos arquivos, sobretudo da Época Baixa (por volta do século VI antes da nossa era), de contratos relativos à venda ou à locação de indivíduos dependentes, tema muito controverso entre os egiptólogos: trata-se do que chamamos comumente “escravidão por dívida”, cuja negociação se referia a serviços temporários, avaliados e quantificados previamente pelos interessados.

Um homem endividado se colocava a serviço de um mestre para saldar sua dívida, até que a soma fosse integralmente reembolsada. Depois, os dois homens podiam se entender, por meio de um contrato escrito, validado juridicamente e aceito pelas duas partes. Foi o caso de um indivíduo chamado Peftouâoukhonsou, cultivador por conta própria, que entrou para o serviço de Nessemteu para pagar despesas médicas. Uma vez paga a dívida, ele decidiu continuar trabalhando, mas dessa vez remunerado, o que foi objeto de um novo contrato, renovado na sequência.

Trabalhos agrícolas e canteiros de construção monopolizavam cotidianamente uma parte da mão de obra egípcia, fosse ela estrangeira ou recrutada entre a população local, no seio das classes trabalhadoras – em primeiro lugar, os camponeses. Em troca de rações diárias e de um salário mensal – as fontes dissociam bem essas duas remunerações complementares –, os contratados deveriam fornecer determinada quantidade de trabalho. Salário e tarefa eram negociados antecipadamente e por tempo determinado. Era o regime do trabalho obrigatório, o da corveia: o indivíduo não escolhia sua tarefa, mas era pago regularmente pelo trabalho efetuado. É o que revela um documento muito interessante, o papiro Reisner I, datado do reino de Sesóstris I (em torno de 1970-1928 antes da nossa era), no início da XIIª dinastia, durante o Médio Império.

Referindo-se aos trabalhos de construção do reino, o papiro apresenta dados cifrados sobre as rações, os recrutados, as equipes e os trabalhos realizados. Para a maioria, os homens – oriundos da mão de obra das terras agrícolas pertencentes ao Estado – eram trabalhadores destinados às tarefas mais árduas: transporte dos blocos e fabricação de tijolos crus. Reagrupados em equipes de dez trabalhadores dirigidos por um capitão, eles recebiam diariamente um quilo de pão – que constituía a moeda de troca – e alguns extras por ordem real. As listas apresentam alguns artesãos especializados, mais bem remunerados, e contramestres que executavam as ordens dadas pelo vizir, responsável pelos trabalhos de construção perante o faraó. O documento revela o caráter muito regulamentado dessa organização e a extrema mobilidade da mão de Obra sujeita à corveia, que não cessava de se deslocar de um canteiro para outro, dependendo da necessidade.

A partir do Novo Império, além do Estado, qualquer pessoa podia, pagando uma remuneração, alugar os serviços de um terceiro por dia, ou em frações: meio dia, um quarto de dia, uma hora se necessário. Foi o caso do vaqueiro Messouia, que, sob os reinos de Amenófis III e de Akhenaton (XVIIIª dinastia, de 1550 a 1292 antes da nossa era), alugava mulheres para fabricar tecidos. Os contratos – cujo termo hieroglífico pode ser traduzido por “troca a título oneroso” – engajavam essas trabalhadoras por períodos que variavam entre dois até muitos dias, com tarifa diária de dois shâtis.

No papiro Harris I, Ramsés III (que reinou por volta de 1198 a 1168 antes da era cristã) explica como ele “reduziu a pó” os beduínos da Ásia, pilhando seu acampamento, levando seu gado, bens e prisioneiros, e os oferecendo aos deuses “para serem utilizados como servos de seu domínio”. Bem mais cedo, sob o Antigo Império, a Pedra de Palermo (sobre a qual foram gravados os anais reais) revela listas impressionantes de butins de guerra: sob a IVª dinastia, Snefru (em torno de 2700 a.C.) trouxe da Núbia 200 mil cabeças de gado e 7 mil cativos, imediatamente empregados nas explorações agrícolas. Exemplos desse tipo são muito numerosos nas fontes egípcias, em particular no Novo Império, onde o Egito conquistador submete seus vizinhos à força, no espírito de trazer butim e prisioneiros. Estes últimos eram destinados a engrossar os efetivos do exército e os domínios divinos ou reais para executar trabalhos agrícolas, artesanais e domésticos.

Desde essa época, a política egípcia visava integrar esses cativos à sociedade, oferecendo-lhes uma educação que recebiam no seio das fortalezas reais. Rompidos com seu meio de origem, os prisioneiros adotavam um nome egípcio e se lançavam no aprendizado do “falar como aqueles que seguem o rei, de modo que abandonem sua língua e andem no bom caminho sem olhar para trás”, antes de serem destinados a um templo ou a um domínio real onde fariam um trabalho remunerado. Tratava-se de uma acumulação de homens condenados a servir nas engrenagens das estruturas econômicas egípcias. Os cativos de origem principesca se uniam geralmente ao círculo real, onde às vezes exerciam altas funções.

Esses homens, chamados, no momento de sua captura, de hâqou ou seqerou-anhkou – palavras que se aplicavam aos cativos, aos prisioneiros –, se tornavam, após uma egipcianização bem-sucedida, hemou ou bakou, o que nos leva a pensar que não recebiam um status de escravo. Embora a onipresença da iconografia real mostrasse o faraó em toda a sua majestade esmagando os inimigos, em uma visão de mundo em que os países estrangeiros eram seus vassalos e os adversários rebeldes, destinados a morrer, o estrangeiro, a partir do momento que estivesse integrado à sociedade egípcia, era tratado exatamente como um egípcio. Isso era particularmente verdadeiro para os cativos que entravam como servos na casa de um particular graças a um presente do rei a um homem merecedor. Muitas vezes acolhidos com família e filhos, esses dependentes rapidamente faziam parte da casa, na qual permaneciam em geral por toda a vida. Encontra-se também essa integração no domínio militar.

Além dos soldados de carreira, os contingentes eram compostos por corpos de mercenários constituídos “pelos melhores entre os cativos que Sua Majestade fez nos campos de batalha”. Um documento que remonta aos primeiros anos do reino de Ramsés II (de 1300 a 1235 antes da nossa era), atribuído a um escriba encarregado de efetuar a repartição dos víveres entre os soldados de uma mesma unidade quando de uma campanha militar na Síria, mostra que os efetivos contavam com 62%de estrangeiros contra apenas 38% de egípcios.

A partir do reino de Tutmés III (de 1504 a 1450 antes da nossa era), as legiões estrangeiras reuniam essencialmente núbios, asiáticos, líbios, hititas e os habitantes dos países banhados pelo mar Egeu. Esses soldados eram reunidos em unidades e dirigidos pelos responsáveis pelas tropas estrangeiras ou mesmo por nativos. Os textos confirmam que, tendo provado sua lealdade ao faraó após sua chegada ao Egito, eles gozavam do status de homens livres.

O papiro Wilbor, datado do ano 4 do reinado de Ramsés V (1145 antes da nossa era), é um documento fiscal que contém um levantamento das terras com cultivo de trigo entre Minieh e o Fayum e traz também preciosas informações sobre os mercenários estrangeiros. Ele explica que, sob as XIXª e XXª dinastias, por ordem do rei, os prisioneiros de guerra se instalaram com suas famílias nas colônias militares. Reagrupados por etnias, eles gozavam das mesmas vantagens que os soldados egípcios e, como estes, pagavam impostos e possuíam terras que exploravam por conta própria. Nesses campos moravam os téhérou – piratas do mar Egeu –, núbios e sardanas da Ásia Menor, estes últimos constituindo uma tropa de elite destinada à guarda do soberano a partir de Ramsés II. Esses exemplos demonstram como a questão da escravidão no Egito faraônico é complexa. Somente um estudo sistemático das fontes jurídicas à nossa disposição permitirá esclarecer melhor os diferentes níveis de dependência que estruturavam a sociedade egípcia – que eram particularmente numerosos, embora nenhum deles possa ser comparado à escravidão segundo a acepção greco-romana do termo.


Aude Gros de Beler. Cativos, sim; escravos, não. In: Revista História Viva. Grandes Temas. Nº 46. p. 46-51.

NOTA: O texto "Cativos, sim, escravos, não: o trabalho no Egito antigo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 9 de março de 2014

A máscara de flandres

Confeccionada em metal flexível - zinco ou folha de flandres - a máscara cobria todo o rosto à exceção do nariz e dos olhos que eram liberados por pequenos furos. Seu objetivo era impedir a ingestão de alimentos ou bebidas por parte do escravo. Na zona aurífera foram constatados casos de colocação da máscara em negros para impedir que engolissem alguma pedra preciosa ou pepita de ouro que depois, por meios naturais, pudessem recuperar e vender por conta própria.

Castigo de escravo - máscara de flandres, Jacques Etienne Arago

Além do incômodo e da dor, a máscara era fonte de ridículo para os infelizes que a ela eram submetidos, razão pela qual era utilizada quando se queria humilhar alguém.

O pretexto que os senhores usavam para aplicar a máscara aos escravos quase sempre era a bebida. De fato, o consumo de cachaça entre a escravaria - como, aliás, entre os livres e os próprios senhores - era generalizado e independia de sexo e idade. [...] a pinga funcionava quase como complementação alimentar, graças a seu alto índice de calorias. Sabemos ainda que o hábito da bebida funcionava duplamente, como forma de o escravo tentar esquecer sua sorte e como forma de o senhor ver o escravo prostrado fora do horário de serviço, de forma a não lhe criar maiores problemas. O que não podia era embebedar-se a ponto de atrapalhar a produção, a carpa, o plantio ou a colheita. Aí o escravo era castigado e, no limite, vendido.

Escravo com máscara de flandres, Jean-Baptiste Debret

José Alípio Goulart nos recorda uma quadrinha popular que, com certo humor e alguma ironia, retrata a preocupação acima descrita:

Todo branco, quando morre
Jesus Cristo é quem levou.
Mas o negro quando morre
Foi a cachaça que matou...

Mais uma vez a condição a que o negro foi submetido e os hábitos adquiridos a partir disso aparecem como vícios inatos ou característicos da raça.

PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009. p. 74.

NOTA: O texto "A máscara de flandres" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O fanatismo na História

Fanático, termo cunhado no século XVIII, denomina pessoas consideradas partidárias extremistas, exaltadas e acríticas de uma causa. O que identifica o fanático é a certeza absoluta e incontestável que ele tem a respeito de suas verdades e isto pode representar um grande perigo para os outros. Ao se pretender detentor de uma verdade supostamente revelada especialmente para ele pelo seu deus, o fanático não tem como aceitar discussões ou questionamentos racionais com relação àquilo que apresenta como seu conhecimento; a origem divina de suas certezas não permite que argumentos apresentados por simples mortais se contraponham aos seus. Pode-se argumentar que as palavras de Hitler ou as de Mao mobilizaram fanáticos tão convictos como os religiosos e não tinham origem divina. Ora, de certa forma, esses líderes eram cultuados como deuses e suas palavras não podiam ser objeto de contestação, do mesmo modo que ocorre com qualquer conhecimento de origem especificamente religiosa. A irracionalidade é, portanto, condição essencial do fanatismo. Ao se sentar para debater ideias, de forma receptiva, o indivíduo mostrará que não faz parte de um grupo de fanáticos.

É possível estudar as manifestações de fanatismo na história, inclusive em períodos anteriores à Era Moderna, sem incorrer em anacronismos, se procurarmos compreender o fenômeno lançando mão de uma cuidadosa investigação histórica. Como se sabe, o olhar que lançamos sobre o acontecido é, necessariamente, o de alguém que vive numa determinada época, em um determinado lugar, e é fruto das contingências decorrentes dessas determinações. Assim, ao estudar a história de séculos passados (a partir de nossa perspectiva do século XXI) podemos identificar, em vários contextos, sinais de fanatismo (mesmo que o termo ainda não existisse na época). Afinal, a irracionalidade e a existência das tais supostas verdades reveladas não são coisa recente...

Sistematizamos um conjunto de manifestações de fanatismo baseadas em quatro grandes categorias de justificativas ideológicas adotadas pelos fanáticos: as religiosas, as racistas, as políticas e as “esportivas”.

A religião serviu e serve como explicação/pretexto para perseguições, torturas e assassinatos em diversos momentos da história, dos cruzados medievais aos fundamentalistas do século XXI. Afinal, sob o pretexto de ordens emanadas pelo próprio e verdadeiro (na concepção deles) deus, qualquer crime se justifica...


O massacre de São Bartolomeu, François Dubois

O racismo (contra negros, semitas, orientais, etnias minoritárias) provocou e provoca muitas humilhações e derramamento de sangue. Violência e escravidão têm sido instrumentos de fanáticos em diferentes sociedades contra raças supostamente inferiores. Em pleno século XX, o fanatismo atingiu importantes setores do povo alemão que se deixou seduzir pelo nazismo: pessoas eram confinadas em campos de extermínio, onde foram escravizadas, torturadas e mortas, por uma suposta inferioridade racial congênita. As manifestações mais conhecidas de fanatismo racista são as atividades da Ku Klux Klan, do nazismo e do famigerado e atuante neonazismo.

A política foi e é desculpa para inúmeras violências contra opositores, manifestações agressivas de chauvinismo, opressão e terrorismos – a partir de “verdades definitivas” tão diversas como a comunista, a imperial, a libertária, a do “mundo livre”, a nacionalista. O fanatismo político é facilmente identificável nos expurgos stalinistas, na ação camicase, no macarthismo, na Revolução Cultural da China e no terror com finalidades políticas. Fanáticos políticos têm horror a debates de ideias, preferem fazer os adversários se calar.

E torcer pelo futebol surge como o mais novo fundamento para atitudes antissociais e violências, não só contra simpatizantes dos times “inimigos”, mas também contra determinados grupos étnicos, mulheres, homossexuais e migrantes. Os hooligans e os membros das torcidas organizadas no Brasil são, evidentemente, sujeitos fanáticos. Com certa constância verificamos agressões seguidas de morte nos embates entre torcedores. [...]

O machismo (misoginia, homofobia) – motivação para violências específicas contra mulheres e homossexuais – aparece no interior de várias formas que assumem as justificativas acima mencionadas.

Num tempo de perplexidade, em que olhamos para as conquistas da humanidade, por um lado, mas vemos, por outro, os homens exibindo sua face mais cruel, é muito importante analisar várias das diferentes faces que o fanatismo adquiriu ao longo do tempo e em contextos distintos. Numa época de homens-bomba, atentados terroristas, manifestações racistas, ações extremistas, pensar o fanatismo é atual, relevante e urgente.


PINSKY, Jaime. Por que gostamos de História. São Paulo: Contexto, 2013. p. 31-33.

NOTA: O texto "O fanatismo na História" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 6 de julho de 2013

Religião e escravidão

Desde suas mais primitivas origens, a Igreja católica aceitou e promulgou a escravidão como uma prática institucional que se considerava justa, necessária ou inevitável. As Escrituras não a condenavam e esse fato facilitou aos cristãos fazerem uso dela sem problemas de consciência. No tempo de São Paulo, a escravidão era condenada como instituição derivada do pecado dos homens, e com Santo Tomás e as doutrinas aristotélicas admitiu-se a escravidão como derivada da suposta inferioridade moral ou espiritual dos escravizados. A escravidão havia desaparecido de grande parte da Europa norte-ocidental durante a Idade Média, mas sua prática conservou-se na região do Mediterrâneo. Na Itália, Espanha, Portugal e norte da África, manteve-se a escravidão em consequência das numerosas guerras que por motivos econômicos e religiosos se sucederam.


Mercado de escravos no Rio de Janeiro, Edward Francis Finden


Nesta experiência escravagista, Espanha e Portugal estavam mais próximos da África do que a Europa. Para a Igreja, neste contexto geopolítico, era mais importante a propagação da fé (e os emolumentos que invariavelmente renderiam os territórios conquistados) que os assuntos como a liberdade do homem. Era uma questão de simples prioridade. A escravidão, então, como bem assinala Duchet, era legítima pois contribuía para a propagação do cristianismo. A posse de escravos pelo clero, por sua vez, convertia-se no melhor exemplo da legitimidade da prática. Assim, a Igreja, tanto doutrinalmente, como exemplarmente, defendeu a existência da escravidão. Este fato, tão conveniente ao expansionismo guerreiro monárquico, facilitou a colaboração entre ambas as jurisdições no momento de dispor de prisioneiros e de populações capturadas. Após a tomada de Málaga pelos reis católicos em 1492, e depois de converter em escravos toda a sua população, enviou-se ao papa, como presente, cem cabeças.

Chafariz das Marrecas, Armand Julien Pallière



Em Sevilha do século XVI, o setor eclesiástico era dos principais proprietários de escravos, fossem mouros, guanches, negros ou índios. Durante todo o século a Igreja não manifestou repúdio ou crítica à escravidão do negro, embora o fizesse, em segmentos importantes, contra a do índio. Mas esta distinção baseava-se mais na conclusão inevitável das próprias premissas do que numa real mudança da ótica da escravidão na instituição.

Negros cangueiros, Jean-Baptiste Debret


A escravidão do índio não podia ser justificada em termos religiosos como a do negro pela qual a ação de escravizá-los seria improcedente. A questão ao menos suscitou um debate importante e procedeu à discussão histórica tanto do colonialismo como da liberdade do homem.

BADILLO, Jalil Sued. "Igreja e escravidão em Porto Rico no século XVI". In: Escravidão Negra e História da Igreja na América  Latina e no Caribe. Petrópolis: CEHILA/Vozes, 1987.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Aurora do século XX: Trabalho e cotidiano

A necessidade de cultivar alimentos e cuidar dos animais de criação ocupava todo o tempo de nove entre dez pessoas em todo o mundo. O dia a dia era dominado por plantações de coco e banana, campos de arroz e trigo, rebanhos de ovelhas e gado bovino, extração da borracha, pomares, vinhedos e bosques de oliveiras. Na Europa, o cotidiano ainda era mais parecido com o da África. A cada manhã, da Noruega a Moçambique, os primeiros a se levantar observavam o céu à procura de sinais de chuva, de ventos indicativos de tempo seco ou de quaisquer outros elementos climáticos que pudessem auxiliar ou prejudicar as plantações.

O semeador, Jean-François Millet


A colheita era o evento mais importante. Se fosse fracasso, dezenas de milhões de pessoas estariam expostas à fome, à subnutrição ou doenças graves. A maior parte dessa atividade era feita manualmente, por um pequeno exército de mulheres e homens que trabalhavam do nascer ao pôr do sol. [...]

A colheita de batata, Jean-François Millet


[...]

Em quase todas as partes do mundo, pesados carregamentos eram transportados pela força bruta. Carregadores, curvados sob o peso  que levavam, cruzavam montanhas íngremes, por onde não passavam estradas nem ferrovias. Quase todo o sal que chegava ao interior da parte sul da China era transportado em grandes blocos acomodados em uma armação de madeira colocada sobre os ombros dos carregadores. [...] Em portos movimentados, que se estendiam desde o Mar Vermelho até o Mar Amarelo, formava-se uma fileira de trabalhadores para carregar o carvão em sacos e cestas até os navios a vapor, uma vez que esteiras transportadoras eram raras. O carvão que abastecia os navios representava um risco para os passageiros bem vestidos, e as mulheres que usavam chapéus de tons claros e luvas brancas aborreciam-se quando percebiam a rapidez com que suas roupas ficavam salpicadas de pó de carvão.

Em países mais prósperos, muitas tarefas ficavam a cargo de cavalos, e não de suados homens e mulheres. [...]

As pessoas, em sua maioria, possuíam animais, grandes ou pequenos, mais por sua utilidade do que para servir de companhia. Gatos eram caçadores de ratos em armazéns e cozinhas. Cães ajudavam na caça e no pastoreio de ovelhas, e as raças de grande porte podiam ser aproveitadas para puxar pequenas carretas. [...]

Uma típica família rural europeia que se mudava para a cidade precisava menos de animais e dispunha de pouco espaço para eles. No entanto, à medida que as cidades cresciam e as pessoas, além de se tornarem mais prósperas, viviam mais, os animais de estimação se tornavam desejáveis. As cidades inglesas provavelmente foram as primeiras a abrigar animais de estimação em grande número - a Inglaterra organizou a primeira feira de cães, em Newcastle, em 1859 - e então o costume se espalhou pela Europa continental [...]. 

Nas propriedades rurais de boa parte do mundo, as tarefas cotidianas se pareciam. Com um balde, buscava-se água no poço ou córrego; a madeira vinha de longe até o fogão a lenha, onde se preparavam todas as refeições; as velas eram acesas no cômodo principal da casa ao anoitecer. [...] Crianças descalças, que não frequentavam a escola, seguiam o vagaroso carro de bois até as matas vizinhas, para enchê-lo de lenha e feixes de gravetos.

Certas regiões rurais da África e da Ásia desfrutavam de um padrão de vida talvez mais alto do que o de várias zonas rurais da Europa. [...] o típico tibetano [...] gostava muito de cantar e contar histórias. Em contraste com esses lugares alegres, em algumas partes do mundo ainda havia escravidão.

O escravo vivia em situação pior do que os indivíduos pertencentes a qualquer minoria étnica da Europa. Embora, por volta de 1880, o regime tivesse sido abolido no Brasil e em Cuba, uma ilha produtora de açúcar, ele persistia na África e na Península Arábica. Nos portos do norte africano, os navios que transportavam esses trabalhadores eram vistos movendo-se furtivamente à noite. Os turcos empregavam escravos domésticos em grande número e continuaram a mantê-los, embora em quantidades mais modestas, mesmo após o Império Otomano ter abolido tal prática, em 1889.

[...] Na década de 1920, a escravidão continuava nas montanhas da Etiópia, e mesmo na década de 1950, aproximadamente meio milhão de escravos trabalhavam na Arábia Saudita, a maioria em tarefas domésticas.

Poucos eventos contribuíram tanto para o fortalecimento do otimismo em 1900 quanto o fato de diversos males do passado estarem, aos poucos, sendo erradicadas. A escravidão era a principal delas.

[...]

Fora das terras dominadas pelos povos europeus, as condições de vida eram precárias. A taxa de mortalidade de crianças e de pessoas de meia-idade era alta. As calamidades naturais eram frequentes. Na África e na Ásia, a fome severa continuava. Pragas batiam às portas das cidades asiáticas. A malária atacou maciçamente nos trópicos e até mesmo o sul da Itália estava infestado de mosquitos transmissores da doença [...].

Em 1900, talvez metade dos habitantes do mundo jamais tenha conversado com um médico nem entrado em um hospital. Caso se sentissem muito doentes, procuravam a cura no folclore ou em antigos tratamentos à base de ervas. Na África, adivinhos, astrólogos ou necromantes muitas vezes eram chamados como última esperança. Em muitos países, as primeiras escolas de Medicina foram fundadas somente no século XX.

BLAINEY, Geoffrey. Breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 27-33.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O trabalho dos africanos no Brasil

Para atingir os objetivos de exploração econômica das suas colônias na América, os europeus tiveram que escolher produtos de grande procura na Europa e que permitissem a produção em grande escala. A cana-de-açúcar enquadrou-se plenamente nesses propósitos. O cultivo da cana iniciou-se na península ibérica por volta do século XIV. No século seguinte, com a expansão marítima de Portugal e Espanha, a cana-de-açúcar passou a ser cultivada também nas ilhas do Atlântico: Madeira, São tomé, Açores, Cabo Verde e Canárias. Com esse produto foi transferido o tipo de mão-de-obra utilizada no seu cultivo: a escrava.

Engenho de açúcar, Henry Coster


No Brasil, o plantio da cana foi promovido em várias localidades, a partir do século XVI, com a construção de engenhos em São Vicente, Porto Seguro, Ilhéus e no Espírito Santo. Mas, foi nas capitanias de Pernambuco e da Bahia que esse produto melhor se adaptou, por conta das condições geográficas e do desenvolvimento da colonização. Já nessa época, o açúcar era exportado para Europa, sobretudo para Lisboa e Porto. E, no final desse mesmo século, estava entre as principais mercadorias adquiridas em Londres, Antuérpia, Hamburgo e Amsterdã.

No início da produção, os engenhos construídos eram pequenos. A maioria era movida por animais e poucos utilizavam a força hidráulica. A mão-de-obra utilizada foi a indígena, pois era a mais acessível e barata daquele momento. Os africanos começaram a ser empregados por volta do século XVII, quando o tráfico atlântico de escravos havia se consolidado, fazendo, então, do africano a peça fundamental da empresa açucareira.

No século XVI, cerca de 100 mil escravos africanos chegaram ao Brasil originários da região de Senegalândia, capturados entre os povos mandingas, jalofos, balantas, bijagôs etc. Nesta época, muitos foram embarcados em Pinda, no reino do Congo e em Angola. Só nas últimas décadas desse século as importações chegaram a quase 15 mil escravos por ano. No início do século XVII, Pernambuco recebeu, aproximadamente 4 mil escravos por ano e a Bahia, 3 mil.

Embora o tráfico de escravos para o Nordeste tenha privilegiado todas as áreas da África Subsaariana, existiram ciclos de predominância geográfica. No século XVI, os embarques de escravos na região da Senegalândia foram maiores, ao passo que no século seguinte as exportações em Angola e no Congo predominaram. Já nos séculos XVIII e XIX foi a vez da Costa da Mina (três primeiros quartos do século) e do Benin (de 1770 a 1850) destacarem-se no tráfico de escravos.

Grande parte do trabalho na produção de açúcar era realizada no campo, nos canaviais. O cultivo e as colheitas eram tarefas muito cansativas, que exigiam força para preparar e cavar a terra pesada de massapê. Outra atividade frequente nos engenhos era o corte da lenha utilizada nas casas das caldeiras. Muitos senhores até preferiam comprar madeira de outras regiões a ter de usar seus escravos. O escravo também ficava encarregado da manutenção da propriedade, construir cercas, poços, fossos, além de, em alguns engenhos, cuidar da sua própria subsistência, cultivando um pedaço de terra fornecido pelo proprietário, depois que cumprisse sua cota estipulada de trabalho.

O estabelecimento do sistema de cotas na produção do engenho era uma forma de garantir o ritmo de trabalho e evitar que os escravos dificultassem a produção, fingindo, por exemplo, estarem doentes. Além da permissão do cultivo de suas próprias plantações, os escravos ganhavam outras recompensas em troca da boa produção, como produtos derivados da cana, em especial, a garapa e a cachaça, que representavam uma parte importante da empresa açucareira e tinham grande aceitação no mercado.

Já no fabrico do açúcar, os escravos eram constantemente supervisionados por trabalhadores especializados (alguns também escravos), pois as técnicas de produção exigiam que eles fossem qualificados.

O trabalho nos engenhos era dividido por sexo. Aos homens cabiam as tarefas mais pesadas de desmatamento, corte de lenha, enquanto as mulheres eram aproveitadas no corte da cana e na produção do açúcar. Elas eram empregadas, sobretudo, na moenda, onde duas ou três delas passavam a cana pelos tambores, tarefa muito perigosa, necessitando habilidade e atenção, pois a força da moenda era grande e qualquer descuido poderia causar algum acidente, como ter a mão, o braço ou até mesmo o corpo inteiro esmagados. Muitas delas cuidavam de levar o bagaço da cana para alimentar os animais, outras tiravam o caldo e levavam para a casa das caldeiras. Não tão perigosas eram as atividades na casa de purgar, na qual o caldo da cana era fervido, engrossado e enformado em recipientes untados com barro, e na embalagem do açúcar.

As quase 20 horas de trabalho eram divididas em dois turnos: o do dia e o da noite. Cerca de 25 escravos trabalhavam, por turno, nos processos de moagem da cana-de-açúcar e cozimento do caldo. Para que funcionassem adequadamente, os engenhos precisavam de 60 a 80 escravos no total.

Até a metade do século XIX, o açúcar permaneceu como um dos principais produtos brasileiros exportados, embora na segunda metade do século XVII, por conta da concorrência externa, as exportações tenham diminuído. Até mesmo no apogeu da mineração, no século XVIII, o açúcar e os seus derivados - a cachaça e a garapa - continuaram a ter grande procura no mercado internacional.

O início da colonização do Brasil foi marcado pelo interesse e pela busca dos portugueses de ouro e outros metais preciosos. No entanto, apenas na última década do século XVII o ouro foi descoberto em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás pelos bandeirantes paulistas, que viajavam pelo sertão para apresar indígenas e receberam incentivos da Coroa portuguesa para encontrar o tão cobiçado metal.

Nesse momento, com a propagação da notícia da descoberta de ouro no interior da colônia, houve uma corrida desenfreada de pessoas de várias localidades, inclusive do exterior, em direção às áreas mineradoras. A população total cresceu rapidamente e os escravos passaram a representar quase 50% dos habitantes.

A exploração das jazidas de ouro era realizada de duas formas, em aluvião e em lavras, necessitando de instrumentos especiais e mão-de-obra escrava. As condições de trabalho eram muito duras. Os escravos tinham que permanecer quase todo o tempo com os pés na água, no interior das minas. Os proprietários tentavam incentivar o trabalho dos cativos oferecendo recompensas, como mais tempo para descansar ou a alforria, em troca de determinada quantidade de ouro ou de um grande diamante.

O tráfico interno de escravos foi intensificado. Para as áreas mineradoras foram enviados, em especial, escravos africanos ocidentais. Em geral, estes eram preferidos pelos proprietários mineiros por conta do conhecimento técnico e da experiência adquirida no continente africano. Mas também porque, apesar da indústria açucareira na Bahia ter passado por algumas dificuldades ao ver decrescer as exportações em alguns períodos do século XVIII, os mercadores de escravos baianos continuaram traficando um número significativo de africanos da Costa da Mina e os reexportado para Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e o interior da Bahia, onde eram aproveitados na mineração. Esses africanos ficaram conhecidos como minas, pois eram embarcados na Costa Leste ou Costa a Sotavento do Castelo de São Jorge da Mina. Os portos utilizados para o embarque de escravos nessa região eram Jaquim, Popo, Apá e Ajudá, controlados pelos reinos de Ajudá e Aladá e, mais tarde, pelo Daomé. Esses escravos eram de origem nagô (iorubá), jeje (daomeanos), mahis, guruncis, entre outros.

Com a extração de ouro houve um aumento do número de escravos importados também no Rio de Janeiro. Nas primeiras duas décadas do século XVIII, os comerciantes cariocas destinaram para a região mineradora cerca de 2.300 escravos africanos por ano. Na década de 1830, as importações cresceram 40%, sendo desembarcados 4.750 africanos. Os escravos que chegaram, nessa época, no porto carioca foram embarcados na região centro-ocidental africana, sobretudo no Congo e em Angola.

O Rio de Janeiro era responsável pela metade das importações de africanos, redistribuindo, além de Minas Gerais, para São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No século XI, mesmo com a crise da mineração, Minas Gerais continuou recebendo quase a metade dos africanos desembarcados no Rio de Janeiro, destinando-os nesse período à agropecuária.

Os traficantes cariocas também abasteciam de escravos africanos as regiões de Campos de Goitacases, na qual predominava a economia açucareira e cuja metade da população era escrava. A capital carioca (o centro mercantil) e o seu entorno receberam um volume significativo de escravos, chegando a 40% dos habitantes da província.

Após a chegada da família real, em 1808, e com a consequente abertura dos portos ao comércio internacional, as importações de escravos africanos cresceram enormemente em 1810, intensificando-se ainda mais com a possibilidade da abolição do tráfico, depois de assinado o tratado com a Grã-Bretanha associando-se o reconhecimento da independência do Brasil ao fim do tráfico de escravos.

Nessa época, a maior demanda por escravos africanos vinha das fazendas de café. A produção de café teve início no final do século XVIII no Rio de Janeiro. No século XIX, cresceu vertiginosamente ao encontrar terras férteis e clima propício em São Paulo, especialmente em Jacareí, Taubaté, Areias, Bananal, Guaratinguetá - cidades que formam o chamado Vale do Paraíba.

Depois de 1830, as lavouras de café expandiram-se para a região do Oeste Paulista: Campinas, Porto Feliz, Piracicaba, Sorocaba, Jundiaí e Itu tornaram-se grandes pólos produtores e exportadores desse produto. Nesse período, houve um nítido crescimento da produção de café nas cercanias da cidade do Rio de Janeiro, isto é, em Paraíba do Sul, Vassouras, Resende, Valença, Cantagalo, Itaperuna, Madalena e Bom Jardim.

Vale lembrar que esse tipo de produção, da mesma forma que os engenhos de açúcar, voltada para a exportação, privilegiava a utilização do trabalho escravo, em especial o africano. Dessa maneira, com a expansão das plantações de café, nota-se o aumento do número de escravos importados do continente africano.

[...]

A rotina de trabalho dos escravos nas fazendas de café era árdua. Logo cedo eles se levantavam e, antes do sol raiar, se dirigiam para os cafezais a pé ou em carros de boi. Lá passavam 15 horas por dia trabalhando, permanecendo na labuta até o anoitecer, quando regressavam para a sede da fazenda. Ao chegarem, ainda eram obrigados a cortar lenha, preparar a comida para o outro dia e torrar o café. Já eram 10 horas da noite quando se recolhiam nas senzalas, feitas de pau-a-pique e sapé, sem janelas.

Também era comum nas fazendas de café o cultivo de lotes de terras pelos escravos, destinados a sua subsistência. Faziam isso sobretudo aos domingos, quando folgavam.

No entanto, o escravo não foi utilizado apenas nas grandes propriedades agrícolas destinadas à exportação, como nos engenhos do Nordeste e nas fazendas de café cariocas e paulistas, ou no trabalho de exploração das minas de ouro e pedras preciosas. No âmbito urbano, em cidades como São Paulo, por exemplo, a mão-de-obra escrava, inclusive africana, era aproveitada em diversos setores econômicos. Os escravos trabalhavam em pequenas fazendas e sítios localizados nas áreas periféricas da cidade. A maior parte dessas propriedades era voltada para a produção de café, arroz, feijão, milho, algodão, fumo, farinha de mandioca, azeite de amendoim, aguardente e para a criação de gados e porcos. Esses produtos eram destinados ao comércio interno e ao abastecimento de várias outras localidades brasileiras.

O algodão, utilizado na confecção de roupas para os escravos e no ensacamento de açúcar, café, arroz, era cultivado em pequenas lavouras e a sua fiação era realizada com técnicas manuais pelos escravos mais jovens. A mão-de-obra escrava também era empregada na produção de farinha de mandioca e de milho, na qual os grãos eram esmagados em pilões manuais, depois a massa torrada em recipientes de cobre e passada numa peneira.

No caso de São Paulo, a cana-de-açúcar era muito cultivada nos arredores da capital paulista. Além de utilizada na produção do açúcar, da fermentação do caldo extraído da cana, destilava-se a aguardente.

Nas áreas periféricas dos centros urbanos, os escravos ocupavam-se igualmente de outras tarefas, além da produção de gêneros agrícolas. Acabavam cuidando dos serviços domésticos, da manutenção das propriedades e de suas próprias plantações de subsistência. Trabalhavam ainda no transporte desses produtos para o núcleo central, onde eram vendidos. Outros empregavam-se em atividades artesanais, como o beneficiamento de couro e a fabricação de objetos de cerâmica, bem como nas olarias, pedreiras e no corte de lenha e capim.

Nos centros urbanos, os escravos eram responsáveis pelo abastecimento de água, ficando encarregados de buscá-la nos chafarizes e bicas espalhados pela cidade. O transporte de seus proprietários era outra tarefa comum aos cativos, em carruagens, cadeirinhas ou liteiras, carregadas por dois ou três deles. Trabalhando como carregadores, levavam desde sacas de café, arroz e sal até baús e móveis. Realizavam mudanças, transportavam encomendas, carregavam cargas pesadas na cabeça, sozinhos ou em grupo.

Além do transporte por terra, os escravos eram encarregados do transporte por água. Trabalhavam em canoas, barcos pequenos ou a vapor, levando mercadorias e pessoas, em viagens curtas pelo litoral brasileiro ou longas, atravessando o oceano em direção à África e à Europa. Aos escravos remadores era exigida grande força física. Muitos cativos eram aproveitados nos navios negreiros e, em geral, tinham que ter alguma especialização. Outros tornaram-se pescadores, fazendo esse tipo de trabalho sozinho ou com seus companheiros, mas, na maior parte do tempo, ficavam longe dos seus proprietários.

Aos escravos cabia também a limpeza das ruas. De preferência, era feita pelos presos, que, acompanhados por soldados, andavam pelas ruas com suas correntes a fazer barulho. Em geral, ao cair da noite, carregavam o lixo e os dejetos das casas até os rios. Às mulheres escravas ficava reservada a lavagem de roupas em ribeirões. Alguns senhores até alugavam chácaras próximas aos rios e ofereciam esse trabalho realizado por suas escravas à população em geral.

Servindo em matadouros, os escravos ficavam encarregados de matar os animais, limpá-los e entregá-los aos estabelecimentos nos quais eram vendidos. Outros cativos, a maioria presos ou alugados, trabalhavam em obras públicas, construindo prédios e estradas, abrindo ruas e canais, carregando terra e fazendo a pavimentação.

Nas áreas urbanas, a mão-de-obra escrava era empregada, sobretudo, no trabalho de ganho ou de aluguel. O proprietário que colocava seu escravo ao ganho fazia um acordo com o próprio cativo, estabelecendo uma quantia em dinheiro que este deveria entregar diariamente ou num período fixado e o restante do valor obtido era destinado ao seu próprio sustento. No caso do escravo de aluguel, os proprietários os colocavam à disposição de outras pessoas, acertando previamente a duração do tempo de serviço e o valor do pagamento pelo trabalho. Alguns desses escravos eram chamados a trabalhar por jornada, por isso dizia-se que dependiam de seus "jornais".

Os escravos de ganho ou de aluguel eram empregados em ofícios desde os mais especializados, como o de sapateiro, barbeiro, ferreiro e alfaiate, até em trabalhos menos qualificados de pedreiros, lavadeiras, carregadores e quitandeiras. Muitas vezes, especializavam-se com o incentivo dos proprietários, que, dessa forma, conseguiam obter maiores ganhos com os seus serviços diários ou ao alugá-los.

Os ferreiros eram os escravos de ganho que recebiam os melhores pagamentos por seus serviços, pois eram especializados. Fabricavam quaisquer objetos em ferro, cobre, prata e ouro, desde panelas, caldeiras, correntes, algemas, lanternas até instrumentos musicais. Muitos escravos eram barbeiros e "cirurgiões" ou sangradores. Tendo em vista a rara presença de médicos, os barbeiros cuidavam ainda do tratamento de doenças, utilizando sanguessugas para fazer o doente sangrar e, assim, eliminar as doenças. A maioria das parteiras era escrava ou liberta e colocava em prática seus conhecimentos da medicina natural, utilizando ervas e plantas fáceis de obter nos matagais da cidade.

Outros escravos eram artistas, músicos, escultores e pintores. Tocavam em bandas públicas, das irmandades e nas missas das igrejas, confeccionavam altares e imagens de santos em madeira e pintavam os prédios públicos, residenciais e religiosos. Muitos escravos sabiam tocar vários instrumentos musicais, sobretudo aqueles de origem ou influência africana. Eles próprios fabricavam seus instrumentos, entre eles tambores (tocados em festas, rituais religiosos e na prática da capoeira), marimba - feita de cuia ou cabaça -, viola de Angola - uma espécie de alaúde de arco - e urucungo ou oricongo, que provavelmente deu origem ao berimbau.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 103-112.