"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 6

["Não existe pecado do lado de baixo do Equador"]

Os invasores, Antônio Parreiras

"Não existe pecado do lado de baixo do Equador" - diz um verso do vibrante frevo de Chico Buarque, inspirado em um provérbio português do período quinhentista (século XVI).

Além do Equador, tudo era permitido - ou quase tudo - em nome de El-Rei!

Nossa História, para começar, não foi tão pacífica, como afirmam alguns autores. Ao contrário, ela se fez à custa de muitos e sangrentos conflitos sociais. Foi mair (francês) contra peró (português). Branco contra índio e negro. Senhor x escravo. Colono combatendo padre. Dono de terras se opondo a mascate. Donatário brigando com Governador Geral. Emboaba expulsando paulista. "Vida difícil em uma terra fértil", como previu o escrivão Caminha...

Caraíbas (homens brancos) de várias nacionalidades - portugueses, franceses, espanhóis, holandeses -, negros africanos de diversos grupos étnicos - bantos, jejes, nagôs -, indígenas de vários troncos linguísticos - tupis, aruaques, jês, caribas -, foi essa a diversificada fauna humana que fez da Terra dos Papagaios um lugar chamado Brasil.

Mas a nossa Colonização foi sobretudo obra dos portugueses.

"Dominando vasto território e suas populações, assumiram o controle e a direção de tudo, aqui atuando em forma dominadora durante três séculos, deixando-nos como herdeiros daquilo que realizaram e que constitui o nosso passado colonial."

Era do Brasil que saía a tinta que coloria os tecidos e servia para escrever; o açúcar e o cacau que a Europa consumia; o couro com que se faziam os calçados e o algodão com que os ingleses se vestiam; o ouro que adornava os palácios e igrejas; o tabaco e aguardente para a África...

E para aqui vinham o azeite, o vinho, o bacalhau, as louças e pratarias, os móveis, os tecidos finos, as armas de fogo... sobretudo estas últimas, com que os portugueses erguiam nos trópicos uma original Civilização, baseada no latifúndio, na monocultura e na escravidão - a nossa pesada herança colonial.

"Ao integrar-se no ciclo comercial, a América luso-hispana recebeu um formidável enxerto africano. A mão-de-obra indígena e a outra, de procedência africana, foram os pilares do trabalho colonial americano. América e África - destilado seu sangue pelos alquimistas do comércio internacional - foram indispensáveis ao deslumbrante florescimento do capitalismo europeu."

A História da Colônia está profundamente ligada às diretrizes do Mercantilismo. A Colônia existia para satisfazer os apetites da Metrópole, atendendo aos interesses coloniais portugueses e da política europeia. E o instrumento do Mercantilismo foi o Pacto Colonial, isto é, o direito exclusivo de comerciar com a Colônia.

"Estava, nessas circunstâncias, traçado o sentido da Colonização portuguesa no Brasil: explorar as riquezas naturais da terra recém-descoberta, apropriar-se do que ela possuía de comerciável no mundo civilizado, despojá-lo de tudo o que pudesse proporcionar lucro à metrópole. Nada mais do que isso interessava. E essa foi, com efeito, a política posta em prática durante os três séculos de domínio português no Brasil."

Assim, o pretexto de expandir a fé e o comércio, a Metrópole portuguesa subordinou e explorou durante 300 anos uma terra e seu povo. Afinal, na visão do colonizador, o centro do mundo era a Europa - o resto eram "terras d'além-mar" e gente que vivia nesse tal "lado de lá do Equador"...

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli.]. Fazendo a História: As Sociedades Americanas e a Europa na Época Moderna. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 88-9.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Os limites do totalitarismo: resistência na Alemanha nazista

A literatura produziu dois clássicos de ficção política na primeira metade do século XX: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1932), e 1984, de George Orwell (1949), ambos com várias edições em diversas línguas. O primeiro mostra um mundo onde a vida das pessoas é controlada por meio da ciência e da técnica. No segundo, a dominação política total é obtida pela repressão e pelo controle de toda e qualquer comunicação.

Mas, mesmo nessas histórias de ficção, existe uma falha do poder. Alguém, mesmo só por um momento, escapa do controle absoluto.

No caso do regime nazista, que não pertence ao mundo da ficção mas ao da realidade histórica, o controle da comunicação e do pensamento também não foi total e absoluto. Existem muitas evidências da capacidade de resistência a esse poder avassalador do Estado nazista. [...]

A juventude de classe média alta alemã tomou gosto pelo swing, música popular de raízes negras dos Estados Unidos. Essa juventude achava muito entediante a música volkish, ou seja, do povo, da raça alemã. Os nazistas defendiam esse tipo de música, ao mesmo tempo que condenavam as músicas estrangeiras, particularmente o swing e o jazz, ambos de origem negra e considerados imorais e destruidores da tradição alemã.

O Café Sing Sing, em Berlim, fotografado em 1934. Os garçons e a banda de jazz vestiam-se como prisioneiros, e mesmo o cenário lembrava a prisão de Sing Sing, nos Estados Unidos. Mesmo em meio à rígida disciplina nazista, as pessoas abriam espaços de crítica e resistência. 
[1934, Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Stock Photos]

Essa juventude desafiava as autoridades, promovendo reuniões para ouvir jazz e dançar swing e também organizando shows com grupos musicais alemães que imitavam as orquestras dos Estados Unidos.

Tais manifestações de inconformismo com a cultura oficial eram duramente reprimidas. Mesmo assim continuaram acontecendo clandestinamente. Um relatório da Juventude Hitlerista fala de um desses "festivais", ocorrido em fevereiro de 1940 em Hamburgo, com a presença de quinhentos a seiscentos jovens.

Outro exemplo de resistência foram as pichações. Os muros e paredes eram pichados com dizeres contra o nazismo e seus líderes. Isso era feito nas horas em que as cidades eram bombardeadas pelos aliados.

A queda na tiragem dos jornais logo depois que os nazistas submeteram todas as publicações de jornais e livros à censura do Estado também pode ser interpretada como uma reação à doutrinação nazista: muitos deixaram de ler jornais.

Outra forma de driblar a censura era escrevendo romances que se passavam em outras épocas, criando histórias e personagens medievais com características dos líderes nazistas, criticando-os indiretamente.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 36-7.

sábado, 31 de janeiro de 2015

O espírito do Santo Ofício da Inquisição continua?

[...]


Durante três séculos, o Estado e a Igreja privaram o colono luso-brasileiro da livre crença e da liberdade de consciência, mantendo a colônia sem imprensa, sem universidade, sem ciência, sem novelas, sem arte e sem livros, a não ser aprovados pela Igreja. Foi a Inquisição responsável pela estagnação intelectual da vida colonial, centrando em torno da Igreja, da missa, do sermão, das procissões, todas as diretrizes da vida, e incutindo uma obsessão pelo sentimento de pecado, que marcou todos os homens com o estigma da culpa. [...]

Condenados pela Inquisição, Velázquez

Apesar de todas as promessas de punição, a Inquisição não conseguiu fazer calar as inquietações, a solidariedade e a busca de novas mensagens, e as heresias se propagaram por toda a América. As mais autênticas expressões de fé, não oficiais, permearam toda a história colonial, desaguando algumas fortes, outras apagadas, no próprio século XX.

A América colonial foi vítima da repressão, de perseguições, de extermínios. As políticas totalitárias da Espanha e de Portugal, que anteciparam cinco séculos os totalitarismos do século XX, não podiam reconhecer e tolerar diferenças de pensamento e de fé, uma vez que havia interesses econômicos envolvidos.

Mesmo sem sucesso, milhares de portugueses e espanhóis lutaram, silenciosos, num campo de batalha, espremidos entre um poder absoluto e um universo impregnado de fanatismos, superstições e crendices. A resistência dos colonos conversos, dos índios, dos negros, dos hereges e dissidentes à imposição forçada da religião, dos valores, dos costumes, foi calada e clandestina. Os hereges Garcia da Orca, Antonio José da Silva, Padre Antonio Vieira, Juan de Vives, Frei Luís de Leon, Fernando Rojas e tantos outros foram a verdadeira glória de Portugal e da Espanha, e não seus religiosos, guerreiros e governantes.

O recrudescimento em nossos dias dos nacionalismos, do antissemitismo, dos ódios raciais, dos antagonismos religiosos, da xenofobia, mostra que, apesar de todo o progresso técnico, os homens ainda carregam consigo, viva, a herança destrutiva do passado.

[...]

O Tribunal da Inquisição, Goya

O Santo Ofício da Inquisição, que queimou Giordano Bruno ¹ e perseguiu Galileu ², passou a denominar-se Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Esta Congregação advertiu e puniu numerosos teólogos contemporâneos, que têm questionado diferentes aspectos da doutrina católica e a infalibilidade da Igreja.. Todas as medidas restritivas receberam a aprovação do papa João Paulo II.

¹ O que era semente faz-se erva, e do que era erva faz-se a espiga; do que era espiga faz-se o pão, do pão quilo, do quilo sangue, deste semente e desta embrião, deste homem, deste cadáver, desta terra, desta pedra. (Giordano Bruno, Diálogos)

² A filosofia está escrita neste imenso livro que se nos abre continuamente diante dos olhos (quero dizer o universo), mas não podemos entendê-lo, se antes não aprendermos a compreender a língua e a conhecer os caracteres nos quais está escrito. Está escrito em língua matemática, e os caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas, sem os quais meios é impossível entender humanamente qualquer palavra sua; sem eles é um inútil vagar por escuro labirinto. (Galileu)

Os principais teólogos acusados de heresia foram Edward Schillebeeckx,  professor de Teologia da Universidade Católica de Nijmaegen, Holanda, e Hans Küng, professor de Dogma e Teologia Ecumênica da Universidade do Estado, Tubingen, Alemanha. No Brasil foi acusado e punido o teólogo Frei Leonardo Boff.

Desde 1957 Hans Küng entrou em choque com o Vaticano, por ter posto em dúvida a infalibilidade da Igreja e criticado a debilidade da doutrina papal sobre o controle da natalidade. Küng acredita que a Igreja "devia aprender por seus próprios erros". Chamado a Roma em 1971, para justificar as suas ideias, respondeu que só iria se pudesse ver todo o seu processo e escolher seus próprios advogados. A Congregação recusou. Nessa atitude vemos a repetição do procedimento da Inquisição ibérica, na qual os réus não tinham conhecimento do seu processo e os únicos advogados admitidos eram homens internos da Inquisição. O próprio Küng acusou os membros da Congregação de agirem de acordo com o espírito da Inquisição. Küng também foi punido por dizer que a ressurreição não podia ser um acontecimento histórico, a virgindade de Maria era uma lenda, que não se devia identificar Jesus com Deus e que Jesus nunca se intitulou Messias. O próprio papa João Paulo II, em 18 de dezembro de 1979, declarou que Hans Küng, nos seus escritos, afastou-se da verdade integral da fé católica e portanto não podia mais ser considerado um teólogo católico, nem atuar como tal num papel de professor.

Os crimes contra a moral, que foram sempre preocupação central da Igreja, e deram motivo à constante pela Inquisição espanhola e portuguesa, também recebem atualmente, da Congregação para a Doutrina da Fé, um especial interesse. Autores como o reverendo Charles Curran, professor de Teologia Moral da Universidade Católica de Washington, D.C., autor de Sexual and Medial Ethics e Tradition in Moral Theology (Notre Dame University Press, 1978 e 1979, respectivamente), o jesuíta John J. Mc Neill, autor da obra The Church and the Homossexual (Sheed, Andrews and McMeel, 1976) e o reverendo Anthony Rosnik, coautor de Human Sexuality: New Directions in American Though (Paulist Press, 1977), foram seriamente advertidos e criticados pela Congregação.

Os pensadores religiosos estão divididos hoje, como estiveram divididos durante a Inquisição ibérica.

NOVINSKY, Anita. A Inquisição. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 7-9, 103-5. (Coleção Tudo é História, 49).

domingo, 20 de abril de 2014

A revolta de Boadiceia, rainha dos icenos

Boadiceia. Esta rainha que ousou revoltar-se contra a ocupação romana é um exemplo da participação das mulheres celtas nos combates. Litografia do século XIX.

Em meados do século I de nossa era, na Bretanha (atual Grã-Bretanha), ocupada em parte pelos romanos, restam ainda reinos vassalos, como o dos icenos (Norfolk e Suffolk). Seu rei Prasutagus, à sua morte (por volta do ano 60), deixa um testamento instituindo como herdeiros suas duas filhas e o imperador Nero. Espera assim pôr seu reino ao abrigo dos ataques romanos. O que se produz é o contrário: os centuriões romanos devastam o país, despojam os nobres icenos de seus bens e reduzem à escravidão os parentes do rei. A rainha Boadiceia (ou Budica) é açoitada e suas duas filhas violentadas.



Esses ultrajes impelem os icenos à revolta, logo apoiados por outros povos celtas do Suffolk e do Essex. Aproveitando-se do fato de o governador da Bretanha, Suetônio Paulino, estar ocupado em subjugar a Ilha Mona (Anglesey), os bretões, comandados por Boadiceia, se apoderam de Camulodunum (Colchester), de Londinium (Londres) e de Verulamium (Saint Albans). Os habitantes dessas cidades são atrozmente torturados e mortos. Mais de 70 mil indivíduos são assim massacrados. Voltando às pressas ao saber da revolta dos bretões, Suetônio Paulino encontra o exército dos insurgentes a noroeste do país. No comando de 230 mil bretões, entre os quais muitas mulheres, Boadiceia, montada num carro de combate com suas duas filhas, dirige as operações. Sua aparência física tem do que surpreender os legionários: "forte e alta, assustadora até com seu olhar penetrante e sua voz rouca. Uma cabeleira volumosa de um vermelho ardente descia até a parte inferior de suas costas. Com o pescoço cingido com um pesado colar de ouro, estava vestida com uma túnica de todas as cores e um grande manto preso por um broche" (Dion Cássio). Apesar de superioridade numérica, os bretões, que combatem em desordem, não podem fazer frente à estratégia romana. Vencida, Boadiceia se envenena para não cair viva nas mãos de seus inimigos. Tal foi o fim da primeira heroína da Grã-Bretanha.

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 264-265.

NOTA: O texto "A revolta de Boadiceia, rainha dos icenos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Guerra do Vietnã (1961-1975)

Laos, Camboja e Vietnã, países que resultaram da decomposição do domínio francês na Indochina, foram violentamente atingidos pelos conflitos decorrentes da divisão do mundo em dois blocos. O mais sangrento e dramático foi a Guerra do Vietnã (1961-1975), que, a rigor, foi continuação das lutas de independência.


"Diante das dificuldades para se lutar num território desconhecido e com florestas muito densas, os norte-americanos desenvolveram armas químicas, como o napalm, objetivando a queima de árvores, e o "agente laranja", um poderoso desfolhante, que poderiam facilitar a localização de redutos de soldados vietnamitas. O napalm era uma espécie uma espécie de gasolina gelatinosa que queimava ao contato. Calcula-se que os Estados Unidos lançaram sobre o Vietnã cerca de 340 mil toneladas de napalm. Na foto, crianças fogem de um ataque no qual foi utilizado esta substância. À direita, fotógrafos registram a cena. A divulgação de imagens como esta comprometeu a posição dos EUA tanto no plano externo como junto à opinião pública interna." (BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.)

A tensão política no Vietnã, dividido em norte e sul, persistiu depois da independência (1954), apesar dos acordos feitos em Genebra. No sul, o primeiro-ministro Ngo Dinh Dien, católico e anticomunista, com ajuda norte-americana, adiou as eleições previstas para 1956, afastou Bao-Daí do governo e proclamou a República do Vietnã do Sul, declarando-se presidente. Em contrapartida, os comunistas organizaram a resistência, criando, em 1960, a Frente de Libertação Nacional (FLN) e, em 1961, o Exército de Libertação Nacional, chamado pelos norte-americanos de Vietcong.

Em 1963, a tensão política agravou-se com o assassinato de Ngo Dinh Dien. O governo norte-americano, sob a presidência de Lyndon Johnson, resolveu intervir militarmente e, em agosto de 1964, ordenou ataques aéreos ao Vietnã do Norte. A partir daí a guerra se generalizou no país. O Vietnã do Sul e as forças norte-americanas passaram a lutar contra as tropas do Vietnã do Norte e o Vietcong, que usava táticas de guerrilha. Os efetivos norte-americanos na área chegaram a contar com 541 mil homens.


Big Guns, David Fairrington

Em 1968, com o avanço do Vietcong, foram suspensos os bombardeios norte-americanos e iniciaram-se, em Paris, as negociações entre Washington e Hanói (capital do Vietnã do Norte).

Os encontros, porém, arrastavam-se, sem solução. Nos Estados Unidos cresciam as manifestações contrárias à guerra¹, conforme eram divulgados pela imprensa (principalmente a TV) a violência e os ataques norte-americanos à população civil das cidades e aldeias camponesas indefesas², além da devastação das plantações e dos recursos naturais provocada pelo uso de agentes químicos proibidos por convenções internacionais.³

Em 1970, contrariando a opinião pública do país e a internacional, o presidente dos Estados Unidos Richard Nixon ampliou o conflito, bombardeando o Camboja sob o pretexto de eliminar “redutos” comunistas. Em 1972, tropas norte-americanas atacaram, com intensidade sem precedentes, a capital norte-vietnamita. As forças do Vietnã do Norte, a FLN e o Vietcong resistiram. Em 1973 foi assinado, em Paris, um acordo, segundo o qual as forças norte-americanas deveriam se retirar do Vietnã, seria formado um conselho para organizar eleições no Vietnã do Sul e os prisioneiros seriam libertados.

Contudo, a saída dos Estados Unidos não significou o fim das lutas. De 1973 a 1975 a guerra foi “vietnamizada”, ou seja, as forças comunistas do norte avançaram sobre as províncias do sul e acabaram dominando todo o país. Em 1975, os comunistas ocuparam Saigon, encerrando-se a guerra com a reunificação do país, que passou a constituir a República Socialista do Vietnã. 

Mas o fim da Guerra do Vietnã não trouxe a paz para a região. Além dos graves problemas internos – determinados pelas divergências político-ideológicas, não eliminadas pelo conflito, e pelos efeitos devastadores das lutas prolongadas -, o Vietnã enfrentou os países fronteiriços: Camboja, em 1977; China, que em 1979 chegou a invadi-lo por 15 dias; e Tailândia, em 1980.

Wietnamska Pieta, Edward Knapczyk.

¹ "Assim, a guerra foi se tornando extremamente impopular junto à opinião pública nacional e internacional, deixando o governo dos EUA praticamente isolado no plano político internacional. No final da década de 60 e início da década de 70, manifestações contrárias à guerra aconteceram em quase todas as grandes cidades da Europa Ocidental e da América Latina. A queima de bandeiras norte-americanas em frente às sedes diplomáticas dos EUA no exterior tornou-se uma cena comum relatada pelo noticiário internacional.

Na Europa, foi criado até mesmo um tribunal internacional, formado por figuras eminentes do mundo cultural, que julgou e condenou o governo dos EUA de ter praticado crimes de guerra no Vietnã. [...]


O termo Vietnã entrou para o vocabulário político com o significado de 'o atoleiro em que se mete um país quando intervém em outro'. [...] Aparentemente, a chamada maioria silenciosa apoiava os atos do governo, mas o "barulho" feito pelos ativistas - estudantes, intelectuais, liberais, pacifistas etc. - teve um efeito muito grande sobre a opinião pública. Os jovens, especialmente, questionavam não apenas a guerra em si, mas o próprio estilo de vida americano - american way of life -, cujos dogmas tinham permanecido praticamente intocáveis durante décadas (os movimentos hippies, undergrounds e de contracultura surgiram mais ou menos nessa época).


Contudo foram as cenas mostradas pela TV que abalaram sensivelmente a sociedade norte-americana - pois a imagem da guerra transmitida pelo governo era muito diferente da realidade. [...] As feridas deixadas pela Guerra do Vietnã ainda não cicatrizaram de todo. Os mais de 50 mil mortos, os mais de 300 mil feridos e o drama vivido por inúmeros veteranos do Vietnã, que não conseguiram superar psicologicamente os traumas causados pela guerra, ainda estão vivos nas lembranças do povo norte-americano." (OLIC, Nelson Bacic. A Guerra do Vietnã. São Paulo: Moderna, 1988. p. 45-46.)

² "A Guerra do Vietnã foi marcada, entre outros aspectos, pelo grande sofrimento da população civil. Durante os 15 anos de conflito, essa população sofreu agressões sem precedentes do maior aparelho militar do mundo, que inclusive utilizou armas químicas e bacteriológicas contra militares e mesmo contra a população civil. Muitas aldeias foram atacadas por soldados norte-americanos, como foi o caso de My Lai, em abril de 1968. Os 120 soldados da "Companhia Charlie" foram encarregados de "limpar" a aldeia, que, segundo os norte-americanos, estaria servindo de abrigo a soldados inimigos. Ao final da invasão, 508 aldeões foram mortos em suas choupanas, em sua maioria mulheres, crianças e idosos." (BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.)

³ "Entre 1961 e 1971, o exército norte-americano realizou pulverizações maciças de desfolhantes sobre o Vietnã. Pretendia arrasar a cobertura vegetal, para impedir que o adversário se camuflasse, e destruir as colheitas para matar de fome as populações e os combatentes. O segundo objetivo era explícito: como as operações de guerrilha dependiam estreitamente das colheitas locais para seu abastecimento, os agentes antiplantas possuíam um elevado potencial ofensivo para destruir ou limitar a produção de alimento.

Os desfolhantes compreendiam essencialmente o agente laranja - que contêm a dioxina, um produto químico particularmente tóxico. [...] Foi uma catástrofe sanitária e ambiental para o Vietnã. E ainda é, porque a dioxina, produto químico muito estável, degrada-se lentamente e se integra na cadeia alimentar. Seus efeitos persistem no ambiente e afetam os habitantes das zonas atingidas. [...] Trinta anos após o fim das pulverizações, o agente laranja continua a provocar mortes, patologias de extrema gravidade e malformações no nascimento. [...]

Em relação ao meio ambiente, ainda que as taxas de dioxina no solo sejam felizmente baixas, regiões inteiras tornaram-se impraticáveis para os agricultores. [...] Perante a amplitude do desastre, a questão fundamental permanece: responsabilidade." (GRENDEU, Francis. Quem faz as guerras químicas. Le monde diplomatique, 1º jan. 2006.)

BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem 3. Curitiba: Base Editorial, 2010. p. 134.
NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 499-500.
OLIC, Nelson Bacic. A Guerra do Vietnã. São Paulo: Moderna, 1988. p. 45-46.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

"Apartheid"

“A liberdade de um homem é o jugo de outro”.
(Provérbio africano, Benin)

Mural Huddleston, Josef Langerman 

Na África do Sul, cuja independência dentro da Commonwealth (ou Comunidade Britânica) ocorreu em 1931, os brancos africanos (descendentes de holandeses e ingleses) intensificaram a segregação racial (conhecida como Apartheid – privava os não brancos de todos os direitos políticos e civis e da maior parte dos direitos humanos) a partir da vitória do Partido Nacionalista, sobretudo nos governos de Daniel Malan (1948-1954) e Hendrik Verwoerd (1958-1966). “O aguçamento do racismo parece-nos ter correspondido a um novo perigo de proletarização de amplas camadas brancas da população”. (PEREIRA, J. M. N. Descolonização. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 1973. p. 39) Foi justamente o Apartheid que levou o governo de Verwoerd a cortar todos os laços com a Inglaterra e a proclamar a República Sul-Africana (1961).

Em 1985, na África do Sul, havia 5.500.000 brancos (os africânderes), 22.500.000 negros (chamados africanos), 3.250.000 mestiços (denominados coloureds) e 975 mil asiáticos. Durante as quatro décadas de existência do Apartheid, a luta entre a minoria branca (17%) e a maioria não branca (83%) foi constante, principalmente pelo crescimento da consciência negra.¹ Ficou conhecido o Massacre de Sharpeville, ocorrido em 21 de março de 1960, tornado o Dia Mundial contra a Discriminação Racial. Sabe por quê? Neste dia, as autoridades brancas massacraram uma centena de negros e prenderam mais de 200 que protestavam contra o Apartheid. Também em 1960 foi colocado fora da lei o Congresso Nacional Africano e encarcerado seu principal líder, Nelson Mandela – que permaneceu preso até 1990 -, decisões que levaram o partido a pregar a luta armada para conquistar direitos que os negros não possuíam. Graças, inclusive, às imagens transmitidas pela televisão, a opinião pública mundial tomou conhecimento da violência das autoridades brancas contra os protestos negros. Nessa luta destacou-se Desmond Tutu, primeiro bispo negro do país e Prêmio Nobel da Paz em 1984.

¹ “A minoria branca, que compunha um quinto da população total em meados do século, dominava a nação, conduzindo a mais bem-sucedida economia do continente, da Cidade do Cabo até Durban. Os africanos negros e os chamados mestiços do Cabo formavam 80% da população e serviam como mineiros, trabalhadores rurais, reparadores de estradas, varredores de ruas, garçons e empregados domésticos. Eram mal remunerados, pelos padrões do país, mas bem pagos em comparação com a maioria das nações africanas.” (BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 188-189).

Massacre de Sharpeville, Godfrey Rubens

Em 1988, o governo sul-africano proibiu toda e qualquer atividade de organizações oposicionistas, alegando que essas entidades “insistem em manter e promover um clima revolucionário”. Aliás, desde que decretou o estado de emergência, em junho de 1986, o governo sul-africano prendeu 25 mil pessoas sem julgamento, assassinou milhares de outras e, em 1987, estabeleceu feroz censura aos meios de comunicação.

E sabe por que toda essa violência? Para garantir à burguesia empresarial branca a disponibilização de mão de obra farta e barata, sem dispor de qualquer proteção das leis. Ao contrário, a legislação existente colocava a maioria não branca inteiramente à mercê da minoria branca.

Entretanto, a oposição cada vez mais violenta do Congresso Nacional Africano levou o governo do presidente Frederick de Klerk a revogar as leis do Apartheid: oficialmente deixou de haver o Apartheid (1991).²

Um plebiscito, no ano seguinte, aprovou, por maioria de votos, as decisões governamentais.

Mesmo assim, continuou instável a situação do país:
- a crise econômica permaneceu:
- aumentou a violência da organização branca neonazista Movimento de Resistência Africânder, com suas milícias fardadas de cáqui, usando a suástica e a saudação nazista;
- articularam-se organizações e partidos negros defensores de uma democracia baseada no princípio de um-homem-um-voto e na aprovação de nova Constituição.

Em 1994, Nelson Mandela, velho militante negro, foi eleito presidente da República, sendo formado um ministério de conciliação nacional. Desistindo de concorrer à reeleição, Mandela foi sucedido, em 1999, por Thabo Mbeki, também do CNA.

² “De qualquer forma os negros puderam votar e, principalmente, locomover-se livremente pelo país, geralmente em busca de empregos e melhores condições de vida. Por esta razão surgiram enormes favelas junto às grandes cidades, mostrando uma pobreza que estava oculta em regiões afastadas onde as “comunidades tribais” eram obrigadas a permanecer. Mas houve melhorias, apesar do alto índice de desemprego, pois o acesso à saúde, à educação, à eletricidade e, gradativamente, à moradia está sendo conquistado. Contudo, inegavelmente, há frustração pela falta de emprego, desigualdade social (agora há termo de comparação) e o resultado é o aumento da criminalidade, especialmente juvenil.

O país também recebe muitos imigrantes das regiões mais pobres da África, o que complica a situação e cria “bodes expiatórios” para os descontentes e forças políticas que buscam a instabilidade. Há um processo de Black empowerment, um programa governamental destinado a aumentar a presença dos negros nos negócios e na administração. Mas o que isto gerou até agora foi a formação de uma pequena elite negra, claramente cooptada pelo modo de vida dos antigos senhores, como o rico cinema sul-africano tem mostrado.

Embora a situação interna sul-africana seja complicada, especialmente quanto aos problemas sociais que afetam a maioria negra, começa a esboçar-se uma área de integração na África Austral em torno da “nova” África do Sul. O processo de paz traz implícita a integração econômica da região, permitindo virtualmente uma maior estabilidade social e diplomática, bem como uma inserção internacional menos onerosa desta área no movimento de globalização econômica em curso.” VISENTINI, Paulo Fagundes [et al]. História da África e dos Africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 152-153.


AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al]. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 584-585.
BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 188-189.
VISENTINI, Paulo Fagundes [et al]. História da África e dos Africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 152-153.

sábado, 7 de setembro de 2013

Guerra e resistência

A Segunda Guerra Mundial sujeitou grande parte da Europa e do leste da Ásia à ocupação militar estrangeira. As respostas dos povos ocupados variaram de um lugar para outro e entre as populações – algumas vezes até mesmo entre os membros da mesma família – da mesma comunidade. Nas Índias Holandesas do leste, os invasores japoneses foram inicialmente bem recebidos como libertadores do domínio colonial ocidental. Na Noruega, a maioria dos cidadãos resistiu tanto contra os nazistas quanto ao punhado de colaboradores noruegueses reunidos pelos nazistas como um governo marionete. Algumas vezes, o caminho da resistência ofereceu complicados dilemas morais. Por exemplo, aqueles que espionavam para o inimigo ou que escondiam crianças judias e outros refugiados foram, com freqüência, obrigados a agir de forma que colocava em perigo suas próprias vidas e as vidas de suas famílias, vizinhos e colegas.

Nem toda resistência ocorreu como atos individuais de consciência moral. Após a queda da França, em 1940, duas formas de oposição francesa contra os alemães surgiram. Os patriotas franceses, liderados pelo General Charles de Gaule (1890-1970), organizaram a resistência contra os alemães a partir do exterior. Dentro ou fora da França, nos territórios franceses norte-africanos, um movimento de resistência secreto, camuflado, operou com muito sucesso para esconder judeus e pilotos britânicos e norte-americanos abatidos e para ajudar alguns deles a escapar das autoridades alemãs. Muitos homens e mulheres deram sua vida à Resistência. Houve também movimentos de resistência em comunidades na Dinamarca e na Holanda. A resistência iugoslava tomou a forma de guerrilha contra as forças de ocupação alemãs e italianas, conduzidas por dois grupos: os leais à monarquia e os “partisans”, apoiados pela União Soviética e liderados por Josef Broz (1892-1980), conhecido como Tito.

Movimentos de resistência dentro da Alemanha e da Itália opuseram-se aos nazistas e aos fascistas de Mussolini. Por exemplo, Rosa Branca foi o nome de um pequeno grupo de estudantes, professores e intelectuais alemães que se opunham à guerra e distribuíam panfletos pedindo que o povo alemão resistisse aos nazistas e aos esforços de guerra. Dois estudantes e um professor da Universidade de Munique foram executados, em 1943, por conta de suas atividades com a sociedade Rosa Branca. A resistência judia foi extremamente difícil nos campos fortemente vigiados, embora tenha havido focos de protestos isolados, mas notáveis. No gueto de Varsóvia, onde milhares de judeus poloneses estavam confinados em um bairro da cidade e sujeitos ao superpovoamento e à fome, uma rebelião armada ocorreu, em 1943. Os membros da resistência não receberam qualquer apoio externo e a maioria acabou sendo morta pelos nazistas.

Soldados alemães prendem judeus durante a revolta do Gueto de Varsóvia, maio de 1943

É difícil encontrar a documentação da resistência de grande escala contra o governo nazista na sociedade alemã. Um exemplo de resistência massiva das mulheres alemãs ocorreu em 1943, quando cerca de 600 mulheres desarmadas marcharam até um prédio próximo ao quartel general da Gestapo, em Berlim, exigindo que fossem libertados os prisioneiros recolhidos como resultado das leis que restringiam o casamento entre judeus e não judeus. As mulheres manifestantes tiveram sucesso em assegurar a libertação daqueles acusados; suas ações salvaram as vidas de muitos alemães.


GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 353-354.

sábado, 31 de dezembro de 2011

O campo de Terezin

O comboio das crianças de Bialystok, Leo Hass. Memorial de Terezin. 

[A cidade de Theresienstadt, na antiga Tchecoslováquia, ficou conhecida como campo de Terezin durante a Segunda Guerra Mundial. Judeus proeminentes da sociedade, como artistas, cientistas e heróis de guerra, foram convidados a habitar uma cidade sob a proteção de Hitler. Ali os judeus se instalaram sob a falsa promessa de bons alojamentos, alimentação e cuidados médicos mediante a assinatura de um contrato que cedia todos os bens ao Reich. 
O gueto foi apresentado ao Ocidente como uma cidade administrada por judeus, que aparentemente gozavam de autonomia política, social, econômica e cultural. Sabe-se, entretanto, que doenças, superlotação, falta de comida e medicamentos eram a realidade do lugar. 
Durante os quatro anos de existência do campo, os judeus mantiveram uma intensa atividade cultural, da qual participaram cerca de 15 mil crianças. Com diferentes técnicas e com materiais improvisados, elas faziam arte como um meio de defesa e resistência à violência do regime nazista.]
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional


Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje


Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que lutar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz


Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
você se juntará a nós
E o mundo será como um só


Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade humana
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo


Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só
John Lennon

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Os bastidores da 2ª Guerra Mundial (1939-1945)

A batalha industrial - tanques prontos para embarque no exterior, Albert Richards

Texto 1. 
* O cotidiano e a população civil nos Estados Unidos - A guerra também trouxe mudanças sociais significativas para as mulheres e para os negros norte-americanos. As mulheres ocuparam a maioria dos postos de trabalho na indústria bélica, atendendo, em massa, à convocação do trabalho feminino feita pelo governo. Para se ter uma ideia, na cidade de Detroit, em 1943, 91% das vagas criadas na indústria da guerra eram ocupadas por mulheres. Os negros, contingente importante das tropas norte-americanas, passaram a lutar contra o preconceito e a discriminação nas forças armadas, marcando o início do movimento afro-americano pelos direitos civis, que teria maior repercussão na década de 1950.

A população civil também era convocada a cumprir o seu "dever patriótico" quer doando toda sorte de metais, quer reciclando materiais como o alumínio - utilizado na produção de aviões -, ou ainda doando dinheiro para o esforço de guerra. Essas práticas eram estimuladas pelas campanhas publicitárias feitas no rádio e no cinema, as formas mais populares de entretenimento durante a guerra. Aliás, a grande expansão econômica dos Estados Unidos no período contribuiu para incrementar a produção cinematográfica.

O crescimento da economia não impediu o surgimento da necessidade de racionar certos produtos como gasolina, café, açúcar e carne, considerados indispensáveis na frente de batalha. A política de racionamento gerava filas intermináveis no dia a dia das cidades. Por outro lado, esse infortúnio também estimulava a criatividade, como, por exemplo, no caso da moda. O racionamento de tecido e a dificuldade de acesso às mercadorias europeias estimularam o nascimento de uma moda tipicamente norte-americana e adequada às necessidades da guerra.


Kiirung, Formosa – Exterior de um campo de prisioneiros japoneses, James Morris

* O cotidiano na terra do sol nascente - Do outro lado do Oceano Pacífico, as dificuldades eram bem maiores. A economia de guerra japonesa era essencialmente uma "economia da escassez". No início de 1942, cada cidadão recebia uma cota de arroz de apenas 330 gramas por dia. É preciso lembrar que o Japão dependia das importações de alimentos para suprir as necessidades da população. A escassez de alimentos trouxe consequências desastrosas, sobretudo para as crianças e os idosos. Nas grandes cidades, houve surto de tuberculose e de outras doenças que vitimaram a população. À medida que a guerra avançava e o território japonês era constantemente assolado pelos bombardeios norte-americanos, a falta de alimentos no país agravava-se ainda mais.* ALVES, Alexandre; OLIVEIRA, Letícia Fagundes de. Conexões com a História. São Paulo: Moderna, 2010. p. 145.

* "Os bombardeios norte-americanos jogaram mais de 160.000 toneladas de bombas explosivas e incendiárias em 66 cidades japonesas, destruindo cerca de quarta parte das residências e 42% das áreas industriais e matando mais de meio milhão de civis". (WILLMOTT, H. P. e outros. Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 129.)


Texto 2.
* A violência presente na Segunda Guerra Mundial - A Segunda Guerra Mundial atingiu um grau de crueldade até então desconhecido, de que as populações civis foram as principais vítimas. O massacre de Katyn e os crimes cometidos pelo Exército Vermelho em território alemão, o bombardeamento inglês de Dresden em 13 de fevereiro de 1945, a profunda interrogação moral que continua a pairar sobre a utilização da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, demonstram que a barbárie não é monopólio de nenhum dos campos. Contudo, na medida em que corresponde a um programa sistemático de sujeição e de extermínio, a barbárie nazi não tem comparação com qualquer outra. As populações do leste foram as primeiras a sofrê-la, em nome da inferioridade eslava e do ódio ao comunismo; é o caso do tratamento dos prisioneiros polacos e soviéticos, da deportação de populações civis, do desaparecimento de toda uma elite política e cultural. Posteriormente, a multiplicação das organizações e dos atos de resistência vai estender a repressão a toda a Europa ocupada, com o seu triste cortejo de prisões, torturas e execuções. Anteriores à guerra mas multiplicados por ela, gerados na sua maioria pela SS, os campos de concentração proliferam nos territórios conquistados, organizando-se segundo um sistema complexo com a sua hierarquia e as suas especializações. Aos antinazis da primeira hora vêm juntar-se comunistas, resistentes e perseguidos de todos os países. Subalimentados e mal-tratados, explorados em proveito dos interesses da indústria de guerra alemã, sabem no entanto demonstrar um grau notável de resistência e entreajuda. Bernard Droz e Anthony Rowley. História do século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 2. p. 116.

Texto 3. 
* O episódio mais marcante da resistência judaica na Europa foi o levante do gueto de Varsóvia, que começou em 19 de abril de 1943. Na época, viviam no gueto apenas sessenta mil judeus. Quase 350 mil haviam sido levados aos campos de extermínio. Participaram da rebelião cerca de mil pessoas, jovens militantes de partidos de esquerda ou de movimentos sionistas, que tinham algumas poucas armas. A primeira ação dos rebeldes foi matar o chefe da polícia judaica, que colaborava com os alemães e feriram noventa. Mas os alemães dominaram a revolta, massacrando centenas de habitantes do gueto. Em seu relatório final, de 18 de maio, o comandante alemão Juergen Stroop escreveu: "O bairro judeu de Varsóvia não existe mais! Hoje, 180 bandidos judeus e sub-humanos foram destruídos". O líder da revolta, o socialista Mordechai Anielewicz, jogou-se do prédio do quartel-general, na rua Mila, 18, enrolado na bandeira azul e branca que depois seria adotada pelo Estado de Israel. BRENER, Jayme. A Segunda Guerra Mundial. O Planeta em chamas. São Paulo: Ática, 2005. p. 46. Retrospectiva do Século XX.