"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Caçadores-coletadores: evidências mais remotas

Caçar e colher alimentos eram as únicas formas de sobrevivência dos humanos até cerca de 12 mil anos atrás. Era um estilo de vida bem-sucedido que, por sua flexibilidade, tinha grandes vantagens sobre o das sociedades agrícolas que o substituíram. Atualmente, apenas poucas sociedades de caçadores-coletadores sobrevivem na bacia Amazônica e na África, o que fornece uma evidência muito importante do estilo de vida de seus antepassados pré-históricos.

Caçadores-coletadores precisam vencer longas distâncias para obter alimentos, por isso carregam poucos objetos. Em consequência disso, caçadores-coletadores pré-históricos deixaram poucos sinais de seus pertences. Raros achados de bastões para cavar, como os de Gwisho, na África central, e machados de madeira revelam que aquele povo cavava para colher tubérculos e cortava capim nativo. Ossos partidos, espinhas de peixe e pólen revelam detalhes da dieta desses indivíduos, bem como os profundos depósitos de detritos cheios de cascas de moluscos. Sítios como o Starr Carr, no noroeste da Inglaterra, de cerca de 9000 a.C., revelam que caçadores-coletadores podiam voltar várias vezes aos mesmos lugares, estabelecendo permanências sazonais perto dos locais onde a caça era abundante. Pequenas figurinhas e entalhes representando ursos e mamutes descobertos em Dolní Věstonice, na República Tcheca, e notáveis esculturas de peixes de Lepenski Vir, na Sérvia, mostram o nível de sofisticação cultural que as sociedades primitivas chegaram a alcançar.

Imagem: Vênus de Dolní Věstonice

Com o tempo, porém, a caça e a coleta foram substituídas pela agricultura. Provavelmente, quando agricultores passaram a se fixar em seus territórios, alguns caçadores-coletadores adotaram esse novo estilo de vida, enquanto outros foram forçados para as margens dos territórios. Em ambientes marginais, a dependência da agricultura sempre constitui um risco de fome se a colheita fracassar. Ainda hoje há grupos isolados, como os San do deserto do Kalahari, na África, que mantêm as antigas tradições da caça e da coleta.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 68.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Família e sexualidade na sociedade primitiva

[...] Ao se tornar dependente da carne, o Homo erectus se transformou num parasita das manadas desse jogo - e, portanto, precisava segui-las ou explorar novos territórios onde procurá-las - e era mais provável se estabelecer e se multiplicar em alguns locais do que em outros. Assim, foram estabelecidas as bases de moradia. [...]

A família que vivia na base de moradia também se desenvolvia. A existência desta base já tornou mais provável que a futura família humana fosse muito diferente das famílias animais. Isto ficou mais evidente quando os antecessores do Homo sapiens se tornaram maiores. Por exemplo, cabeças maiores, necessárias para acomodar cérebros maiores, significavam que as crianças seriam maiores antes do nascimento e isto se refletia em mudanças na pelve feminina que permitiram o nascimento de bebês com crânios maiores e também foi necessário um período mais longo de crescimento depois do nascimento para que as crianças amadurecessem. Nenhuma mudança fisiológica na fêmea podia fornecer aos fetos acomodação que os protegesse até a maturidade física. Em consequência, as crianças humanas - diferentes da maioria dos mamíferos, cujos filhotes amadurecem em meses - necessitam de cuidados maternos até bem depois do nascimento. Uma infância prolongada, dependência e apoio às crianças pela família e pela sociedade durante a imaturidade significava que as famílias humanas se desenvolveram de forma muito diferente das famílias dos outros animais. Em parte isto era resultado de uma seleção genética: grandes ninhadas deixaram de ser a maneira pela qual se assegurava a sobrevivência das espécies. Em vez disso, as sociedades humanas aprenderam a dar atenção maior e mais demorada à proteção, à alimentação e ao treinamento dos seus jovens [...]. Apareceram diferenças mais agudas entre os padrões de vida de machos e fêmeas. As mães hominídeas eram muito mais tolhidas do que as mães de outros primatas e os pais passaram a se envolver mais na provisão de comida por meio da caça, o que demandava uma atividade árdua e prolongada da qual as fêmeas não podiam participar facilmente.


Idade da Pedra: o festim, Viktor M. Vasnetsov

Outro resultado da infância prolongada foi que o aprendizado e a memória se tornaram cada vez mais importantes. Com o Homo erectus parece que ultrapassamos outra etapa. O aprendizado consciente e a reflexão sobre o meio ambiente substituíram de alguma forma a programação genética dos antecessores da humanidade. Em algum lugar [...] aconteceu uma mudança, onde a tradição e a cultura - as coisas que os membros de uma comunidade aprendem um dos outros - assumem o lugar da herança fisiológica como fator de seleção evolucionária. É óbvio que a herança fisiológica ainda permanece muito importante. Por exemplo, é claro que importou muito para a futura forma da sociedade humana que um grupo genético particular há muito tempo ainda tenha dado à nossa espécie uma característica sexual única. Entre todos os outros mamíferos, tanto a atração sexual exercida pela fêmea sobre o macho quanto a sua fertilidade restringiam-se a certos períodos. Diz-se que nestas épocas os animais estão "no cio" e nessa condição as suas vidas ficam muito desintegradas. Se precisassem tomar conta de filhos, com certeza não poderiam continuar a alimentá-los. As fêmeas humanas não funcionam assim, e isto é muito importante. Se fossem como os outros animais, os filhotes, de amadurecimento vagaroso, teriam sido negligenciados na infância e dificilmente sobreviveriam. Pode ter levado um milhão de anos mais ou menos para surgir um grupo genético com características sexuais que dispensassem o "estro", como se diz, mas quando isto aconteceu foram enormes as consequências para o futuro desenvolvimento da humanidade, o que afetou a nossa maneira de viver muito mais do que admitimos. O fato de as fêmeas humanas atraírem continuamente os machos humanos (e não apenas em períodos em que cada sexo era regido por mecanismos automáticos de atração) deve ter transformado a escolha individual num fator muito mais importante no acasalamento. É o começo de uma estrada muito longa e obscura que leva a noções posteriores de amor sexual. Junto com a infância mais longa e a menor dependência, possibilitadas por melhor coleta de alimentos, também aponta para uma unidade familiar humana mais estável e mais duradoura - pai, mãe e prole - que permanecem juntos e constituem uma verdadeira comunidade. [...]

[...] A cultura e a tradição pouco a pouco assumiram o lugar da mutação genética e da seleção natural como fonte primária de mudança entre os hominídeos - ou, em outras palavras, o que era aprendido estava se tornando tão importante para a sobrevivência quanto o que era biologicamente herdado. Os grupos com melhor "memória" de meios eficientes de fazer coisas e com crescente poder de refletir sobre elas levariam adiante a evolução humana com mais rapidez. [...]

[...] Tudo o que podemos dizer é que a vida do Homo erectus se parece mais com a dos humanos do que a dos pré-humanos. Fisicamente, o cérebro da criatura era de uma ordem de magnitude comparável à nossa, mesmo que o seu crânio fosse ligeiramente diferente na forma. O Homo erectus fabricou ferramentas de diferentes estilos e em diferentes locais, construiu abrigos, tomou posse de refúgios naturais explorando o fogo e dali saiu para caçar e coletar comida. Fez isto em grupos, mostrando alguma disciplina, e foi capaz de transmitir ideias por meio da fala, fundou uma base de moradia e uma distinção entre as atividades de machos e de fêmeas. Pode ter havido outras especializações: portadores de fogo ou criaturas mais velhas cujas memórias os transformavam em "bancos de dados" das suas "sociedades", e que talvez tenham sido, até certo ponto, sustentados pelos outros.

[...] Quando o Homo sapiens evoluiu a partir de uma ou mais subespécies do Homo erectus, já estavam à sua disposição um novo tipo físico, grandes realizações e uma herança. Os indivíduos chegaram nus ao mundo, mas a humanidade não. Ela trouxe consigo do passado tudo o que a constitui.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 34-7.

terça-feira, 5 de março de 2013

O Homo erectus e o grande jogo da caça

Apesar das enormes brechas no nosso conhecimento, não pode haver dúvida de que o Homo erectus foi uma espécie muito bem-sucedida. De onde provinha o seu cérebro maior? Aqui há mais mistérios, porém parece ser mais provável que uma mudança na dieta explique o surgimento de um novo tipo físico. Comer mais carne pode ter ajudado a sobrevivência e a reprodução de criaturas de estatura maior que a média. Isto bem pode estar ligado ao aparecimento da primeira habilidade especializada: a caça.


Idade da Pedra, Viktor Vasnetsov

 Os primeiros carnívoros parecem ter dependido de pequenas presas, como répteis ou roedores, ou ter comido a carniça encontrada onde haviam morrido animais maiores. Bem no começo dos registros arqueológicos, elefantes e talvez girafas e búfalos tenham ajudado a fornecer carne consumida em Olduvai, mas muito antes disto os detritos registram a enorme preponderância de ossos de pequenos animais. Não era garantido ir em busca de alimentos, e isto se transformou na verdadeira caça - e também no grande jogo da caça -, só que muito lentamente. Porém a mudança e as consequências que causou foram muito grandes. Junto com o crescimento de tamanho dos animais, restos encontrados entre os vestígios da dieta primitiva podem demonstrar um crescimento paralelo no tamanho do crânio dos carnívoros. Por volta de 300000 a.C., elefantes eram mortos e imediatamente retalhados; foram encontrados restos de grande número deles (em um só local, cerca de cinquenta). No mesmo período (e também em tempos posteriores), a forma dos dentes e das mandíbulas de criaturas semelhantes ao homem evoluiu lentamente a partir das espécies predominantemente vegetarianas. Nesta questão é difícil determinar a causa e o efeito. A melhor dieta conseguida da caça organizada só estava à disposição de criaturas já pelo menos avançadas o suficiente para realizar esta operação complicada. Mais uma vez isto mostra a velocidade da mudança evolutiva. Uma enorme e nova amplitude de capacidades e habilidades passa a existir em algum ponto entre 1000000 e 100000 a.C. e possibilitou o surgimento das primeiras sociedades humanas.


Idade da Pedra, Viktor Vasnetsov

 Antes que o grande jogo da caça se tornasse possível, alguém precisou conhecer muito a respeito dos hábitos dos animais e ser capaz de passar aos outros este conhecimento, tanto aos engajados na empreitada cooperativa da caça como de geração em geração. Portanto, algum tipo de fala deve ter existido. Tem-se discutido se a seleção genética´que levou a mudanças na forma do cérebro favoreceu o desenvolvimento da linguagem. Talvez nunca se saiba como o Australopithecus se comunicava, mas até mesmo primatas inferiores têm meios de fazer isto. Talvez o primeiro passo na organização da linguagem tenha sido a fragmentação de gritos, como os de outros animais, em sons particulares, capazes de uma nova ordenação. Isto possibilitaria diferentes mensagens. Mas outras mudanças também podem ter ajudado. Melhor visão, um senso crescente do mundo como porções de objetos separados e a feitura de novas coisas (ferramentas), tudo aconteceu simultaneamente durante centenas de milhares de anos durante as quais a linguagem evoluiu. Tudo isto possibilitou aos poucos o advento do pensamento abstrato (pensar em coisas não de fato presentes). E esta tendência deve ter sido reforçada quando a caça tornou ainda mais importantes o registro e a memória.


Idade da Pedra, Viktor Vasnetsov

 A caça também exigiu grande variedade de técnicas e habilidades. Era extremamente difícil preparar armadilhas e matar monstros, como o mamute ou o rinoceronte peludo, com a ajuda exclusiva de armas de pedra ou madeira. Era preciso muito cálculo e disciplina para levar aquelas pesadas criaturas a um local onde o abate seria favorecido por causa de um pântano, ou porque oferecia aos caçadores bons pontos de vantagem ou plataformas seguras. Uma vez mortas, as vítimas apresentavam outros problemas. Era preciso retalhá-las, apenas com ferramentas de madeira e pedra. E, depois, a carne deveria ser levada para casa.

Maiores suprimentos de carne representavam um passo minúsculo para um pequeno lazer: os consumidores eram temporariamente liberados da enfadonha tarefa da busca incessante de pequenos porém continuamente disponíveis quinhões de alimentos, e tinham tempo para fazer outras coisas. Podiam aprimorar a tecnologia existente. Além de fabricar machados manuais mais elaborados e bifaciais, o Homo erectus também deixou a primeira evidência comprovada de habitações construídas, das primeiras madeiras trabalhadas, da primeira lança de madeira, do primitivo recipiente, uma tijela de madeira. Inventar coisas nesta escala demonstra um ritmo de desenvolvimento e uma capacidade bastante diferentes do que acontecera antes. As mentes imaginavam os objetos antes de começar a manufaturá-los. Alguns têm argumentado que as formas simples (triângulos, elipses e ovais) usadas em grande número de ferramentas de pedra podem ser vistas como a origem da arte - a produção de objetos que davam prazer, tanto por sua forma quanto por sua utilidade.

[...]

É mais fácil formar um quadro das circunstâncias materiais da vida antiga do que daquilo que se passava dentro dos cérebros maiores que agora enfrentavam estas circunstâncias. Mas examinar esses restos materiais é na verdade tudo o que podemos esperar fazer, e que eles nos digam algo. Vale a pena pensar mais uma vez no grande jogo da caça. Ao se tornar dependente da carne, o Homo erectus se transformou num parasita das manadas desse jogo -, e portanto, precisava segui-las ou explorar novos territórios onde procurá-las - e era mais provável se estabelecer e se multiplicar em alguns locais do que em outros. Assim, foram estabelecidas as bases de moradia. Algumas parecem ter sido ocupadas por milhares e milhares de anos.

[...]

[...] O Homo erectus fabricou ferramentas de diferentes estilos e em diferentes locais, construiu abrigos, tomou posse de refúgios naturais explorando o fogo e dali saiu para caçar e coletar comida. Fez isto em grupos, mostrando alguma disciplina, e foi capaz de transmitir ideias por meio da fala, fundou uma base de moradia e uma distinção entre as atividades de machos e fêmeas. Pode ter havido outras especializações: portadores de fogo ou criaturas mais velhas cujas memórias os transformavam em "bancos de dados" das suas "sociedades", e que talvez tenham sido, até certo ponto, sustentados pelos outros.

No entanto, nada se tem a ganhar procurando uma linha divisória na Pré-história. Não existe evidência alguma. Tudo o que podemos afirmar com confiança é que as coisas aconteceram de certa maneira. Quando o Homo sapiens evoluiu a partir de uma ou mais subespécies do Homo erectus, já estavam à sua disposição um novo tipo físico, grandes realizações e uma herança. Os indivíduos chegaram nus ao mundo, mas a humanidade não. Ela trouxe consigo do passado tudo o que a constitui.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 30-32, 34, 37.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Revolução Urbana

A transformação das aldeias neolíticas em cidades populosas, com divisão do trabalho, comércio e artesanato desenvolvidos, organizadas politicamente como Estados, só foi possível devido ao desenvolvimento das forças produtivas observado entre 6000 e 3000 a.C., quando os homens acumularam enorme soma de conhecimentos técnicos: a utilização da força de tração animal - o boi - e dos ventos, o uso do arado, do carro de rodas e do barco a vela, a fundição do cobre e, mais tarde, a fabricação do bronze [...], o desenvolvimento de um calendário aperfeiçoado. A nova economia urbana exigiu a escrita, os processos de contagem e os padrões de medida.

A passagem da Barbárie à Civilização ocorreu primeiramente na faixa geográfica que corresponde ao Oriente Próximo: do Vale do Nilo e do Mediterrâneo Oriental, passando pela Síria e pelo Iraque (Mesopotâmia) até o Planalto Iraniano e o Vale do Indo. Nessas regiões, de vales aluvionais e áreas desérticas e semidesérticas, o trabalho coletivo de um grande número de trabalhadores era a condição necessária para regularizar o curso dos rios, drenar pântanos, construir canais de irrigação, enfim, recuperar o solo para a agricultura.

Sendo regiões cortadas por grandes rios, que anualmente renovavam as terras aráveis, facilitou a sedentarização das populações.

Para se dar a passagem para a nova economia, fizeram-se necessárias a produção e a acumulação de excedentes para alimentar o grande número de trabalhadores empenhados nas obras coletivas, que não produziam diretamente o alimento que consumiam enquanto realizavam aquelas tarefas. Essa reserva de alimentos foi uma das precondições para a transformação da aldeia em cidade, conquistando novos territórios adjacentes, que antes eram pântanos ou desertos.

Além disso, a dependência dessas populações dos canais de irrigação impôs, de certa forma, a solidariedade do grupo: o acesso aos canais podia ser vedado àqueles que violassem as normas vigentes - a água podia ser cortada, os canais fechados. [...]

Com a vida sedentária, aperfeiçoaram-se as habitações, abrindo caminho para a arquitetura. Já antes de 3000 a.C., no Egito e na Mesopotâmia, construíam-se casas de barro. A arquitetura do tijolo, que envolvia a aplicação de princípios de Física e matemática, desenvolveu-se na Síria e na Mesopotâmia.

As comunidades agrícolas do Oriente Próximo passaram a produzir um excedente em relação ao consumo mínimo. Além dessas aldeias de agricultores, haveria, com certeza, grupos de caçadores, pescadores e pastores. Com a produção de excedentes e a diversidade dos produtos obtidos existia possivelmente uma certa interdependência entre aquelas comunidades sedentarizadas e esses grupos seminômades. A troca tornou-se, ao mesmo tempo, necessária e possível. [...] esse intercâmbio - precursor do comércio - foi precondição da Revolução Urbana.

O fator dominante da segunda revolução foi o aparecimento da metalurgia. [...]

A metalurgia alcançou um grande desenvolvimento a partir de 3500 a.C., mas só muito lentamente o metal substituiu a pedra como matéria-prima para a fabricação dos instrumentos de trabalho. [...]

[...]

A invenção da roda, aplicada ao transporte e ao artesanato da cerâmica, em cerca de 3000 a.C., em algumas regiões, provocou uma revolução no transporte de cargas e a transformação do artesanato doméstico da fabricação de potes a mão (praticado pelas mulheres) em um ofício especializado, a cargo dos homens. Os ceramistas tornaram-se especialistas, afastados da tarefa da produção de alimentos, e trocavam seus artigos por uma parte do excedente agrícola. [...]

Técnicas agrícolas no Neolítico: o arado de bois abrindo sulcos onde as sementes lançadas são calcadas pelas patas dos animais. Pintura na tumba de Sennedjem

A introdução dos veículos de rodas, puxados por bois ou outros animais, desenvolveu as comunicações e o transporte de mercadorias, o que teve grande significado na Revolução Urbana. O burro e o jumento, já domesticados no Egito e na Mesopotâmia por volta de 3000 a.C., eram os meios de transporte terrestre mais comuns. Já o cavalo, introduzido no Egito em 1650 a.C., pelos hicsos, juntamente com a roda, era exclusivamente animal de tiro, atrelado a carros de combate. Quanto ao transporte marítimo, os homens aprenderam a construir barcos de tábuas e a usar velas.

A metalurgia, a roda, o carro de bois e o barco a vela parecem ter sido invenções devidas ao homem e certamente fortaleceram a sua posição econômica, cortando as bases econômicas do matriarcado - a cultura da enxada, o transporte de cargas, a fabricação de potes a mão. [...]

As populações que habitavam as regiões do Vale do Nilo, do Tigre e do Eufrates e da Bacia do Indo desde cedo desenvolveram grandes obras públicas, como drenagem de pântanos e construção de diques e canais de irrigação, domesticando as águas e preparando o solo para a agricultura. [...] Devido à fertilidade do solo, aquelas populações tinham alimento abundante, o que tornava possível não só a troca do excedente agrícola pelas matérias-primas indispensáveis, como também abastecer os grupos de mercadores, transportadores e artesãos especializados, que não participavam diretamente da produção de alimentos. Com o tempo surgiu a necessidade de soldados, para proteção às caravanas, e de escribas, especializados no registro das transações mercantis, além de outros funcionários, para cuidarem da administração pública.

[...]

Na época primitiva, a guerra, embora ocasional e em pequena escala, deve ter existido. A necessidade de obtenção de produtos agrícolas pode ter induzido tribos pastoras a se imporem pela força sobre comunidades de agricultores, passando a cobrar a "proteção" sob a forma de tributos em alimentos. A cumulação de riquezas - rebanhos, terras etc. - precondição da Revolução Urbana, talvez se deva, pelo menos em parte, ao saque às populações vencidas, isto é, à guerra.

Uma das instituições econômicas do Estado antigo na Grécia e na Itália - na verdade a base do sistema de produção - era a existência de um trabalhador-mercadoria: o escravo.

[...]

Entretanto, a guerra não era a única fonte de obtenção de escravos. Os mais antigos textos escritos indicam outras formas de recrutamento de trabalhadores. Muitas vezes, comunidades inteiras ou membros mais pobres de uma gens podiam ceder seus serviços em troca de alimento e abrigo.

O comércio e, mais tarde, a escravidão por dívidas (o devedor insolvente era escravizado pelo credor, por um prazo limitado ou não) eram outras maneiras de se obterem escravos.

[...] Nas sociedades escravistas a divisão em classes sociais abrangia, de um lado, os homens livres - grandes proprietários e pequenos produtores - e de outro, os escravos. A necessidade de manter os escravos em submissão e de ampliar o território e de protegê-lo contra os inimigos do exterior fez aparecer na Grécia e Roma antigas o Estado de classes. [...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 121-125, 127.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Uma caçada em Dolni Vestonice

Apesar de nômades, os homens do Paleolítico se fixavam por algum tempo em abrigos, que podiam ser cavernas ou cabanas. Em geral escolhiam um lugar onde a caça fosse abundante. Isso pode ser constatado no estudo feito em Dolni Vestonice, no sul da República Eslovaca. Nessa região foram encontrados restos de alimentos, como ossos, sinais de construção de cabanas e objetos deixados por grupos humanos que lá viveram. Vamos imaginar...

Estamos chegando à região no início do inverno de 25000 a.C., com as primeiras nevadas. Ao circular por ali, os homens inteligentemente observavam que todos os anos, no inverno, muitas manadas de mamutes passam por aquele lugar, seguindo em direção ao sul. Por essa razão decidiram fazer suas grandes cabanas naquele ponto.

Alguns desses animais se aproximam para beber água no rio. Apesar de grandes e combativos, um grupo de homens cerca um deles de surpresa. Encurralado, o animal é atacado pelos homens que gritam em volta dele, golpeando-o com as afiadas pontas de pedra lascada das lanças. O mamute se agita, tenta correr, mas acaba tombando, mortalmente ferido.

Em seguida, os homens abrem o animal com facas, punhais e raspadores de pedra lascada, retirando a sua carne. Grande parte dessa carne é secada ao vento ou enterrada em covas, onde se mantém congelada até o dia de ser consumida.

O mamute é um animal muito importante para esses homens. Eles comem a carne, aproveitam os ossos e as presas para construir cabanas, que cobrem com o seu couro ou o de outros animais. E, com falta madeira na região, ainda usam seus ossos para fazer fogueiras.

A caça de animais menores - lebres, raposas, aves - é realizada permanentemente, com a ajuda de armadilhas espalhadas pelo campo. Outros animais que pastam tranquilos, como renas, bisões e cavalos selvagens, também são abatidos.

A pesca nos rios da região é outra fonte de alimentos. Eles sabem que o momento mais favorável para essa atividade é quando os cardumes sobem os rios para a desova. São dias de intenso trabalho: com agilidade, os homens espetam os peixes, como o salmão, com seus arpões de três dentes, feitos de osso. Imediatamente as mulheres os limpam e os põem a secar. Esses peixes secos duram muito mais tempo e serão usados quando faltar comida.

As mulheres e as crianças também não descuidam da coleta de frutos, especialmente nozes e avelãs.

Antes de a noite chegar, o povo de Dolni Vestonice foge do frio abrigando-se dentro de suas cabanas, construídas de galhos, ossos e peles. Vestidos também com peles de animais, eles comem e se divertem, conversando e tocando suas flautas de osso em volta das fogueiras.

MARANHÃO, Ricardo; ANTUNES, Maria Fernanda. Trabalho e Civilização - Uma História Global: a humanidade em construção. São Paulo: Moderna, 2002.