"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Festas na Roma antiga

Uma bacanal, Sebastiano Ricci

Corridas de cavalo, jogos com gladiadores, autoflagelo de sacerdotes nus, caçadas de animais exóticos, concurso de instrumentos musicais. Na Roma Antiga, o calendário de festividades públicas (feriae) era imenso e tinha ciclos bastante variados nas formas de comemoração, misturando agrados tanto aos deuses quanto aos homens.

Mas as festas estavam longe de significar apenas diversão. Todos os imperadores romanos sabiam da importância de difundir uma imagem positiva de si e do governo para garantir sua manutenção no cargo. As cerimônias tornaram-se um importante instrumento de poder e uma forma sofisticada de comunicação com objetivos políticos, mesmo para os parâmetros de hoje: ajudavam a formar a opinião pública, persuadiam através de imagens, símbolos e mitos, legitimavam o mando e auxiliavam no controle social.

Em 15 de fevereiro começava o festival dos Lupercalia. Os Lupercos eram uma confraria de sacerdotes que em sua procissão ficavam nus e davam a volta no monte Palatino, flagelando-se com correias feitas com a pele de uma cabra que tinham acabado de imolar. Mulheres acompanhavam à margem a passagem dos sacerdotes, esperando receber parte do sangue aspergido por eles, o que lhes garantiria fertilidade.


Lupercália, Andrea Camassei

Em abril havia as festas de início do ano agrário, nos quais se pedia o apoio das divindades para uma boa colheita. Os Parilia, os Cerialia e os Vinalia comemoravam o florescimento das parreiras e a produção vinícola com procissões alegres que cultuavam a divindade Ceres, vinculada à agricultura. Em junho, era a vez dos Vestalia e dos Matralia, celebrações em honra à deusa Vesta. Junto com suas sacerdotisas – as Virgens Vestais – ela era protetora do fogo comum da cidade, uma pira mantida acesa 24 horas, relembrando as fogueiras em torno das quais os primeiros cidadãos se reuniam, e das matronas romanas, como eram chamadas as mães casadas.

Batalha naval entre romanos, Ulpiano Checa

Volcanalia eram festas para louvar o deus Vulcano, que olhava pelos pescadores e artesãos. Aconteciam em 23 de agosto, quando se lançavam pequenos peixes e outros animais ao fogo – oferendas que representavam vidas humanas a serem conservadas a partir da honraria.

De 17 a 24 de dezembro os romanos dedicavam-se à Saturnalia. O deus Saturno teria ensinado os homens a cultivar a terra e por isso era sempre representado carregando uma pequena foice, um auxílio à poda da vinha. Os dias de festa finalizavam o ano agrário e religioso, e tinham um caráter mais licencioso: subvertiam-se as hierarquias sociais, com os escravos mandando em seus senhores e estes servindo a mesa dos banquetes. Era uma forma de garantir a ordem pela inversão dos valores: uma vez por ano os escravos se sentiam importantes diante dos seus senhores ao serem por eles servidos.

A essas festividades republicanas (509-27 a.C.), mantidas no Império, os príncipes juntaram outras cerimônias dignas de nota. Quando visitavam as províncias conquistadas, eram acompanhados de uma grande festa: chamava-se Adventus e era uma procissão de boas-vindas que servia para realçar a dignidade e a autoridade da pessoa que entrava no espaço urbano. As cidades se preparavam para a chegada do soberano enfeitando-se com flores, tochas e incensos.

Havia também festas comunitárias, ou seja, realizadas com financiamento da própria comunidade cívica e não com dinheiro vindo do Aerarium Saturni, como as cavalgadas (19 de março e 19 de outubro), a corrida de sacos dos Robigalia (25 de abril), as corridas a pé ou com mula dos Consualia (21 de agosto e 15 de dezembro), o concurso de pesca com vara dos Ludi Pescatorii (8 de junho), as corridas de cavalos do Equus October (15 de outubro).

Durante o Principado (27 a.C. – 285 d.C.), os romanos também presenciaram mais de 300 triunfos, procissões festivas nas quais se reconheciam publicamente a contribuição do exército e de seus generais para a segurança e a prosperidade do Estado. O evento tornou-se mais comum na República, com a expansão territorial, e combinava elementos militares, políticos e religiosos, ligados a Júpiter e Marte. Os triunfos eram pagos pelo tesouro público e permitidos pelo Senado. A procissão acontecia em sequência. Primeiro, os principais lugares-tenentes carregando fasces – o símbolo do imperium. Em seguida, vinha o general vitorioso – o triumphator – no alto de uma carruagem especial, enfeitada e conduzida por quatro cavalos. Ele aparecia coroado de louros ou ouro, e vestia um manto púrpura que remetia à vitória. Ao lado, um escravo lhe lembrava ao ouvido sua condição de homem, e que toda glória era passageira e devida ao favor de Júpiter. Atrás dele, seguiam membros da família a cavalo, em carros ou a pé.

Passava-se então a apresentar ao público os despojos de guerra: homens, mulheres e crianças aprisionados, estandartes dos inimigos, peças de ouro e pedras preciosas conquistadas pelos romanos, animais diferentes trazidos para serem abatidos no anfiteatro ou guardados no zoológico, entre outras pilhagens. Na sequência, os soldados vencedores recebiam a permissão de entrar no pomerium, o território sagrado da cidade. Armados, eles passavam debaixo de um arco do triunfo para se limpar do sangue da guerra. Por fim, entravam sacerdotes conduzindo animais que iriam ser sacrificados no templo de Júpiter Capitolino. O cortejo percorria as principais avenidas de Roma, passando pelo Campus Martius, pelos palácios do Palatino, pelos fóruns e terminando no Capitólio. A cidade parava para vê-lo passar.

Ave Caesar Morituri te Salutant, Jean-Léon-Gérôme

Os Jogos (Ludi) Gladiatoriais eram realizados nos anfiteatros, cujo exemplar mais famoso é o Coliseu, construído após secarem o lago do Palácio do Imperador Nero (54 a 68 d.C.). Nessas partidas, que aconteciam durante todo o ano, havia corridas de cavalos, encenações teatrais, concursos de instrumentos musicais, dança, mímicas, pantomimas e recitação nos teatros e odeons. Os famosos combates entre gladiadores – ou munera – eram realizados, desde 308 a.C., em funerais particulares dos ricos, em honra a um parente falecido. Mumus significa dívida, tributo, obrigação. A partir de 264 a.C., eles passaram a ser públicos, mas só ganharam o carimbo oficial como eventos anuais em 105 a.C. Durante a República, vários magistrados ofereceram jogos à população, esperando seu apoio nas contendas políticas e militares que marcaram as guerras civis.

As venationes se diferenciavam dos munera ao apresentarem, no lugar dos gladiadores, lutas entre animais ou verdadeiras caçadas que colocavam homens e bichos frente a frente nos anfiteatros. Com a conquista de novas províncias, espécies cada vez mais exóticas eram levadas para a arena – servindo para relembrar ao público a força e a extensão dos domínios romanos. Eram elefantes, rinocerontes, leões, girafas, hienas ou animais menores, como cães e gatos.

Ana Teresa M. Gonçalves. Se quer festa vá a Roma. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 10 / Nº 110 / Novembro 2014. p. 58-61.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O carnaval abre alas

Cena de carnaval, Debret

Em 1899, as ruas do Rio de Janeiro enlouqueceram dançando a música que inaugurou a história do carnaval carioca.

Esse alvoroço debochado se chamava Ó abre alas: um maxixe, invenção musical brasileira, que ria das rígidas danças de salão. A autora era Chiquinha Gonzaga, compositora desde a infância.

Aos dezesseis anos, os pais a casaram, e o marquês que depois seria o duque de Caxias, foi padrinho do casamento.

Aos vinte, o marido a obrigou a escolher entre o lar e a música:

- Não entendo a vida sem música - disse ela, e saiu de casa.

Então seu pai proclamou que a honra familiar tinha sido manchada, e denunciou que Chiquinha havia herdado de alguma avó negra sua tendência à perdição. E a declarou morta, e proibiu que em sua casa o nome daquela desguiada fosse mencionado.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 51.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Carnaval na Época Moderna: a festa de todos

Pouca coisa é mais característica da cultura popular europeia do que a festa, estando aí incluídas as festas familiares, como os casamentos, e as festas públicas, como as dos santos padroeiros das comunidades e paróquias. Além disso, havia as peregrinações a lugares considerados santos e as festas comuns à maioria dos europeus, independentemente do país ou região, como os eventos religiosos (a Páscoa, o Natal, o Ano-Novo ou o Dia de Reis).


O enterro da sardinha, Francisco Goya

Esses momentos de diversão - assim como hoje - eram, também, situações de desperdício, onde se gastava em poucos dias o que poderia ser o sustento da família por muitos meses. Mas nada disso parecia importar, inclusive aos pobres, que pareciam viver espremidos entre a lembrança da festa passada e a expectativa da próxima [...].

Apesar de todo esse extenso e variado elenco de festas e rituais, especialmente na Europa meridional, o Carnaval deve ser destacado como a festa popular por excelência. Assim como hoje, era no Carnaval que as pessoas pareciam livres para praticar o que desejavam em pensamento. Começando em janeiro, ou mesmo em dezembro, a euforia crescia quando se aproximava a Quaresma, enquanto toda a cidade virava uma espécie de imenso teatro a céu aberto em que atores e espectadores trocavam seus papéis e eram representados pelas mesmas personagens.


Carnaval em Roma, Johannes Lingelbach

Uma das marcas do Carnaval era o exagerado consumo de alimentos e bebidas. Bebia-se como se o fim do mundo parecesse próximo e como se nunca mais fosse possível embebedar-se. Aqui, excepcionalmente, homens e mulheres estavam juntos, muitas vezes trocando de roupa entre si, ostentando máscaras e fantasias de papas, cardeais, padres, demônios, arlequins, magistrados, bobos e até animais selvagens. E o próprio Carnaval, assim como o rei Momo da atualidade, era representado por um homem gordo, adornado por salsichas, aves, coelhos e acompanhado, como na Itália, por um grande caldeirão de macarrão. Quanto à Quaresma, sua forma mais popular de representação era a de uma velhinha magricela, vestindo roupas pretas enfeitadas de peixe.

O Carnaval era mais popular na área mediterrânica, envolvendo a Itália, a Espanha e a França, tinha menos força na Europa central e era menos expressivo na Grã-Bretanha e Escandinávia, talvez por causa do frio, que desestimulava eventos em locais abertos.


Corredores sem cavaleiro em Roma, Jean Louis Théodore Géricault

Os temas predominantes no Carnaval eram a comida, o sexo e a violência. A comida pode ser exemplificada com o desfile de uma salsicha imensa, cujos duzentos quilos eram suportados por quase cem açougueiros alemães. O sexo, cuja ocorrência aumentava significativamente no Carnaval, pode ser exemplificado por um imenso falo de madeira carregado pelas ruas de Nápoles. Quanto à violência, ela exprimia-se na permissão de xingamentos e profanações ou na agressão direta de animais e pessoas, sobre quem eram descarregados velhos e persistentes rancores. Por conta disso, os assassinatos cresciam de Moscou a Veneza, de Paris a Londres, onde hordas armadas de paus, pedras, marretas e outras ferramentas saqueavam lojas e teatros e atacavam os bordéis.

[...]

MICELI, Paulo. História moderna. São Paulo: Contexto, 2013. p. 130-132.


NOTA: O texto "O Carnaval na Época Moderna: a festa de todos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Bacanais" à brasileira

Há autores que sublinham a esquizofrenia do brasileiro, um povo que adora e, ao mesmo tempo, repudia a sua vocação mais escancarada e libertina. Povo irreverente que tanto adora sexo quanto falar dele, mas que também não consegue se desvencilhar de um ranço moralista e extremamente conservador que ainda insiste em afirmar que tudo o que se refere a sexo é sujo e pecaminoso, e valoriza o sofrimento em detrimento do prazer. Mas, com uma história de tanta repressão, não é difícil entender as razões para o moralismo. E o outro lado?

Vamos observá-lo, sobretudo em determinados momentos: festas populares, danças e músicas. Estrangeiros sempre olharam tais manifestações com desprezo. Em especial quando as mulheres se mostravam fora do comportamento pudico exigido na época: braços para o alto, pernas e bocas abertas. "Dança obscena", feita de "volúpias asquerosas" ou "febres libertinas", era como se identificavam tais momentos em que a sensualidade levava a melhor. Não escapava o gingado de mulatas e negras capazes de atrair os homens, brancos ou negros, "com suas formas sedutoras e o cheiro de suas axilas". Tais cenas afastavam o "povo" do caminho de moralidade exigido pelo comportamento burguês, já sacramentado na primeira década do século XX. É óbvio que nem todos os segmentos achavam que dançar, suar e brincar eram manifestações de atraso. E passavam longe do projeto de tornar o Brasil uma outra Europa.


Jogos durante o carnaval no Rio de Janeiro (Entrudo familiar), Augustus Earle

Tanto o carnaval quanto as festas religiosas convidavam a excessos em que a sexualidade não se escondia. Por exemplo, a festa de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro, segundo o capelão da irmandade, "transformavam-se todos os anos em bacanal vergonhoso aviltado por crimes hediondos e desordens abomináveis". Era nas faldas do morro escarpado, sobre o qual repousa o templo, que as pessoas iam, "não levadas pela fé", queixava-se o padre, "mas para dar livre e impudica expansão ao libertinismo repugnante". Sexo e fé não rimavam. A imprensa criticava o que se considerava "verdadeira bacanal da Grécia ou Roma antiga".

O carnaval também colocava em cena a sexualidade posta de lado no restante do ano. A praça Onze, no Rio de Janeiro, ponto alto do encontro de camadas populares, promovia uma festa de "gritos e urros", segundo observadores, ao som de cuícas e pandeiros, onde morenas requebravam "como gatas, felinas e maliciosas, tentando branco e preto, louro ou moreno, dançando e rodopiando", descrevia o jornal O Radical em 1933. Não escapou a Graça Aranha, escritor e diplomata, idealizador da Semana de 22 em São Paulo, as diferenças entre o carnaval de rua e aquele dos clubes fechados. No primeiro, triunfavam a negra e a mulata. "Fura a imobilidade um grupo de baianas, dançando, cantando, saracoteando a grossa luxúria negra, seguidas por gorilas assanhados de beiços compridos, tocando pandeiros, pulando lascivos".

Já nos bailes fechados, atos abomináveis se multiplicavam. Éter e cocaína rolavam livremente. Mulheres passando dos cinquenta atracavam-se com "rapazelhos de dezoito". Noivas esqueciam o compromisso e pulavam nos braços de outros. Não faltava o choro envergonhado da mocinha de boa família, apalpada ou espalmada. Problema dela, afinal estava vestida de gigolette, prostituta parisiense das mais reles. A poetisa Cecília Meirelles explicava a opção da fantasia que revelava mais do que escondia: "senhoras tranquilas sofrem silenciosamente o ano inteiro só com a esperança de aparecerem no carnaval, vestidas de gigolettes". Cronistas acusavam a promiscuidade reinante nos melhores ambientes, levando senhoras casadas a se comportarem como prostitutas: "muitas são as damas finas que se nivelam às hetairas nos clubes, nos bailes, nos três dias de orgia carnavalesca. Terminada a festa, porém, as prostitutas continuam no seu triste mister; as elegantes, decaídas eventuais, tornam aos seus lares, tomam parte em ligas contra o álcool, deitam o verbo fulminando  contra o vício", denunciava a Revista Policial, em 1927.

Ou a Fon-Fon: "meninas pudicas que não fumam, não bebem, não vão sequer sozinhas ao cinema, nos dias carnaval, entram em café barato como qualquer homem, bebem com um simples desconhecido, praticam toda a espécie de loucura, satisfazem a todos os desejos de liberdade".

Já as esposas "que vivem para os filhos", essas podiam ser encontradas no High-Life, no Bola-Preta...

Nos anos 50, a cobertura de revistas como O Cruzeiro sublinhava as transgressões femininas. "O movimentado carnaval de três garotas, os bailes, as festas, as brincadeiras e o que aconteceu quando elas resolveram galgar no Trono de Sua Majestade Momo" era título de matéria fartamente documentada com fotos em que, fantasiadas de dançarinas de can-can, com saias curtíssimas, moças posavam em todas as posições.

Outra reportagem tinha como tema a farta difusão de beijos durante as festas do Momo. O título era "Beijos no carnaval" e o autor explicava: "O caso é que no carnaval o beijo impera livremente. Todos, ou quase todos se beijam. Não há malícia, creiam. A hipnose musical e os efeitos do álcool agem profundamente na personalidade de cada um. Parece que todos ficam mais simples, mais espontâneos. E beijam. Principalmente nos bailes. Beijos roubados, beijos apaixonados, beijinhos, beijos espetaculares. É o amor. É o retorno à simplicidade. Não procurem o lado escandaloso, nestas fotografias. O que há aqui é vida. Vida em uma das suas mais ricas manifestações".

E seguiam-se fotos e mais fotos de beijos...

O carnaval era visto como uma festa perigosa, depravada, na qual "as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e inútil, a honra, uma caceteação, o bom senso, uma fadiga". O desejo, sobretudo o feminino, engessado pelos bons costumes durante o ano, explodia nas fantasias e comportamentos espontâneos. Era "sem-vergonhismo" puro, no entender de alguns. Caminhada para a liberdade, no de outros.

A música também assinalava transformações nos comportamentos femininos, registrando o estarrecimento masculino diante das condutas que rompiam com valores tradicionais. O papel "superior" do macho estava sendo questionado. Eis por que se multiplicavam as composições sobre a mulher que renunciava ao lar para emancipar-se: "Good-bye, meu bem", gravada por Raquel de Freitas, ou "Dona Balbina", por Carmem Miranda, são bons exemplos. E os homens não ficaram de braços cruzados. A crítica feroz à liberação do tamanho dos vestidos e o uso da maquiagem, veio na forma de composições como as que fez Francisco Alves com "Tua saia é curta" ou "Futurista". Em "Se a moda pega" ou "Cangote raspado", a queixa é contra moças que expunham a nuca aos rapazes, graças ao corte à la garçonne. Recusa ao namoro ou ao casamento? Frieza e maldade da nova mulher que emergia entre os anos 30 e 40. O resultado de tanta "leviandade", segundo os compositores, era o abandono e a solidão.

Mas as mulheres já tinham suas defensoras. A escritora Ercília Nogueira Cobra foi uma delas. Escrevendo contra a submissão na qual foram sempre colocadas, reagia: "Os homens, no afã de conseguirem um meio prático de dominar as mulheres, colocaram-lhe a honra entre as pernas, perto do ânus, num lugar que, bel lavado, não digo que não seja limpo e até delicioso para certos misteres, mas que nunca poderá ser sede de uma consciência. Nunca!! Seria absurdo! Seria ridículo, se não fosse perverso. A mulher não pensa com a vagina, nem com o útero".

Presa e interrogada, várias vezes, durante o Estado Novo, a paulista de Mococa escandalizou ao lançar suas contribuições para as letras brasileiras: Virgindade anti-higiênica: preconceitos e convenções hipócritas e o romance Virgindade inútil: novela de uma revoltada. Considerada uma anarquista "ameaçadora" aos bons costumes, Ercília discordava da visão conservadora de então. Defendia a educação feminina como forma de evitar a prostituição de meninas pobres e acusava os "grandes hotéis, grandes chás, grandes transatlânticos", lugares do dinheiro e da burguesia, como os espaços por excelência do meretrício chic. A falta de igualdade da mulher em relação aos homens levava-a a acusar: "a única pornografia que existe é o mistério que se lança sobre o mais natural e inocente instinto da natureza humana". E mergulhava fundo na questão, revelando, por exemplo, que a falta de expressão sexual livre, entre as casadas, terminava por dobrá-las aos desejos dos maridos. Para os solteiros, restava a masturbação, exclusiva forma de preservar esse "bem inestimável": a virgindade, único passaporte válido para o casamento. Por agir assim, explicava, a mulher se considerava um objeto, pois criada exclusivamente para aceitar como padrão de comportamento a instituição do matrimônio. Fora disso e da vida religiosa, só existiria "degeneração". Para Ercília, o desgastado dilema "mãe ou prostituta" contribuía para a submissão sem freios da brasileira. Seus ensaios e romance defendiam a destruição dos valores da época, substituídos pelo direito e responsabilidade no exercício da liberdade, emocional e sexual. Incentivo aos bacanais? Não. Mas à liberdade sexual consciente.

DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011. p. 147-151.

NOTA: O texto "Bacanais à brasileira" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.