"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Estruturas mentais dos homens na Idade Média

Que estruturas mentais possuíam os homens da Idade Média? De que maneira viam o mundo ao seu redor? Quais eram seus sonhos, medos, esperanças, angústias, crenças? O que eles imaginavam? [...]

A primeira característica importante das estruturas mentais do homem medieval foi a religiosidade. [...]

O mundo para os homens do Ocidente medieval tinha um caráter ameaçador e inseguro: uma natureza da qual dependiam, em regra hostil, mas que não era explicada cientificamente; doenças que não sabiam combater; a presença quase constante da fome e da carestia; o medo do desconhecido. Por isso, o mundo sobrenatural adquiriu uma força significativa nesta sociedade, onde o universo era visto como funcionando a partir da ação das forças do bem e do mal. Ou seja, Deus e o diabo estavam em todas as partes, em todas as manifestações concretas da vida: as boas dádivas - colheitas fartas, clima favorável às plantações, fertilidade da terra, vitórias em guerras - eram signos da presença divina atuando. Mas, quando o diabo se fazia presente, o mal se abatia sobre os homens: más colheitas, tempestades, secas, derrotas etc.

Não era possível para este homem compreender o mundo de outra forma. Esta dualidade estava manifesta em todos os momentos. Para que o homem estivesse sempre sob as influências divinas, ele deveria desenvolver sua espiritualidade através de obras positivas aos olhos de Deus como forma de combate às forças do mal e às influências diabólicas.

As armas para enfrentar esta batalha constante no cotidiano difícil da vida na Idade Média feudal foram dadas pela Igreja: orações, exorcismos, sacramentos, amuletos protetores.

[...]

Uma das figuras mais importantes do universo mental do Ocidente medieval foi o diabo, que neste momento ganhou uma força significativa. Concebido na tradição cristã como anjo decaído, portanto teoricamente submetido ao poder de Deus, a quase onipotência de satã acabou por preponderar nos discursos dos teólogos na Baixa Idade Média. Foi a partir do ano 1000 que ele passou a ser representado no imaginário cristão. Representação animalesca, hostil, monstruosa, correspondente aos medos de fim de milênio, que assolaram o Ocidente medieval.


Santa Juliana e um demônio. Ca. 1170-1200, Artista desconhecido. 

A partir do século XI, foi representado como um homem animalizado, com presas, chifres, orelhas pontudas, asas de morcego, e, a partir do século XIII, com cauda, corpo peludo, garras. Foi atribuída a ele uma intensa atividade sexual, com a possibilidade de fecundar mulheres, e uma inteligência ímpar, podendo influenciar e agir sobre o espírito humano e sobre a matéria. Os homens imaginavam-no assumindo diferentes formas: assaltava homens adormecidos, sob o aspecto de mulheres bonitas, ou então como homens, como santo ou como o próprio Cristo, quando tentava as religiosas.

O diabo também era imaginado como provocador de ódios, pesadelos, selando pactos com os homens, provocando tentações da carne, do dinheiro, do poder, e era inspirador de práticas mágicas, duramente condenadas pela Igreja.

A partir do século XIII, se consagrava a majestade de satã. Sua existência e sua nefasta influência era tão certa que Santo Tomás de Aquino afirmou que "a fé verdadeiramente católica determina que os demônios existem e que podem causar dano mediante suas operações". Sua imagem era quase imperial, e associada ao mau poder: sentado de frente, com cetro, coroa, trono, soberano na sua corte de demônios.

Ao longo de todo este período, dominou a concepção de que o diabo era o príncipe dos pecadores: o pecado original de Adão e Eva levou o homem a se submeter ao poder do demônio. Mas Cristo anulou com seu sacrifício o direito que o diabo tinha sobre a humanidade, levando o homem novamente para perto de Deus. Estava formado então o embate entre estas duas forças, e os inimigos da Igreja eram vistos como seguidores do diabo: os pagãos, os muçulmanos, os judeus, os hereges, os feiticeiros, os pecadores.

Entre os espaços possíveis do mundo do Além, para onde iam as almas dos homens após a morte - o paraíso e o inferno -, surgiu, na segunda metade do século XII, um terceiro espaço, o do purgatório. Dependendo do tipo de pecado e das condições da morte do indivíduo, à sua alma era vetada a entrada imediata para o inferno, indo assim para esta "sala de espera", o purgatório, na tentativa de se purificar e poder alcançar o paraíso.

Local menos terrível que a morada do diabo, as almas poderiam diminuir seus dias de purgação em função de orações, missas, penitências, peregrinações e oferendas depositadas em sua intenção. A inauguração deste novo espaço do tempo da Igreja fazia crescer imensamente o seu poder, cuja ajuda era fundamental no encaminhamento satisfatório de cada alma para o paraíso. [...]

A noção de contratualidade também marcou a mentalidade medieval. Essência das relações sociais no feudalismo, o contrato pessoal [...] se transpôs para as relações dos homens com Deus, criando entre eles vínculos hierárquicos recíprocos. Deus conferiu vida aos homens, que tinham por dever combater seu maior inimigo e traidor, o diabo, bem como os seus seguidores, como prova de fidelidade. O homem era vassalo de Deus, portanto devia se conduzir como tal, servindo-o de várias maneiras: peregrinando a lugares sagrados, cultuando relíquias, adorando santos, combatendo pecadores e hereges, e combatendo, por meio das Cruzadas, os usurpadores da cidade sagrada de Jerusalém.

[...]

Os homens da Idade Média estiveram muito mais propensos a escutar do que propriamente a ver. Acreditavam nos relatos fantásticos daquele mundo que abrigava seres escandalosos e monstruosos, humanos ou animais, e que assim povoaram a sua imaginação, a exemplo dos mitos do paraíso terrestre, do reino de Gog e Magos, ou mesmo do Preste João. [...]

CALAINHO, Daniela Buono. História medieval do Ocidente. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 111-8.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Jagunços? Fanáticos? Sertanejos?

Jagunços do Contestado. 
Foto: Claro Jansson

Em estudo clássico, Rui Faço mostrou a distinção entre fenômenos sociais que muitas vezes se confundem.

“No nível cultural de desenvolvimento em que se encontravam as populações rurais, mergulhadas no quase completo analfabetismo e no obscurantismo, a sua ideologia só podia ter um cunho religioso, místico, que se convencionou chamar de fanatismo. Sob essa denominação têm-se englobado os combatentes de Canudos ou do Contestado, do Padre Cícero ou do Beato Lourenço: fanáticos. Quer dizer, adeptos de uma seita ou misto de seitas, que não a religião dominante.

Só que a seita por eles abraçada, fortemente influenciada pela religião católica, que lhe dá o substrato, era a sua ideologia. Como toda ideologia, um conjunto de conceitos morais, religiosos, artísticos etc., que traduzem suas condições materiais de vida, seus interesse, seus anseios de libertação e seus próprios métodos de luta.” (FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1963. p. 47-48)

Não podemos, contudo, considerar que Canudos, Contestado e outros ajuntamentos menores de trabalhadores rurais sejam reduzidos apenas a conflitos de fundo religioso, a simples movimentos oriundos do fanatismo sertanejo, como afirmam Pedro Calmon, Pandiá Calógeras e outros autores presos a enfoques da História Oficial, eivados de preconceitos e de conceituações mitificadoras.

Tanto na Bahia como no Brasil Meridional, a concentração da propriedade nas mãos de poucos gerou – e ainda hoje o fenômeno se processa – uma grande massa de trabalhadores rurais desempregados. Eram antigos pequenos e médios proprietários, posseiros, agregados, rendeiros, vaqueiros sem perspectivas, ex-escravos. Marginalizados, esses grupos populacionais desenraizados, pobres e miseráveis, na sua maioria incluíam mestiços e negros.

Muitos migravam para outras regiões do Brasil. Viajavam sozinhos ou com suas famílias. As secas que ocorriam no Nordeste tornavam mais trágica a existência desses sertanejos, que acabaram sendo conhecidos como jagunços.

De acordo com mestre Aurélio Buarque de Holanda, a palavra jagunço é corruptela de zaguncho, arma de arremesso, espécie de lança, com ponta de ferro e haste de madeira. Com o tempo, o termo passou a ser usado para designar todo aquele que manejava aquela arma. Contudo, a expressão jagunço acabou variando no tempo e no espaço.

“Na região do médio São Francisco, em fins do século XIX, o jagunço era um homem temente à lei, que só pegava em armas, sob a responsabilidade do chefe.

Distinguia-se do bandido e do cangaceiro que ‘afrontavam e desprezavam a lei’.

Entretanto, na Bahia, em fins do século XIX, o termo era empregado na acepção de brigão, valentão ou capanga, que mais tarde se sobrepôs às demais.

Com a campanha de Canudos [...] o termo adquire uma dimensão nacional e um novo sentido: o do indivíduo que guerreava em defesa de um líder religioso carismático, recebendo em troca recompensa espiritual, um lugar no Reino do Céu.” (SILVA, B. [et alli]. Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1986. p. 646.)

O jagunço, Cândido Portinari

Não há dúvida de que existiram muitas semelhanças entre os movimentos de resistência sertaneja à exploração imposta pelos poderosos da República. As estruturas sociais, os costumes, as crenças, a religiosidade, com a esperança de uma vida em um paraíso terrestre, construído com a ajuda de forças divinas. Esse misticismo era reforçado pela crença, trazida pelos portugueses, no retorno de D. Sebastião, desaparecido na África da batalha de Alcácer Quibir. O sebastianismo não morrera em Portugal. Permanecera no imaginário popular. Teve continuidade no Brasil. Relatos diversos mencionam a convicção de que o Esperado D. Sebastião chegaria com muitas riquezas que seriam distribuídas entre os seus crentes. Os pobres, humildes, humilhados e explorados da sociedade.

Em Santa Catarina, porém, o sebastianismo substituiu D. Sebastião por S. Sebastião, anunciando o fim do mundo e recompensando seus crentes com a imortalidade e o bem-estar.

Além disso, no Nordeste, a luta sertaneja era contra os poderosos identificados com as oligarquias estaduais e o governo federal que havia suprimido a Monarquia, estabelecido a separação entre a Igreja e o Estado, imposto casamento civil e tributos que aumentavam a miserabilidade da população. No Contestado, a explosão popular foi dirigida também contra a presença espoliadora das empresas norte-americanas Southern Brazil Lamber and Colonization Co. e South Brazil Railway Co., cujo desenvolvimento implicava a ocupação de terras e a expulsão de centenas de sertanejos.

Conhecido como Sindicato Farquhar, porque pertencente ao empresário norte-americano Percival Farquhar, o poderoso truste South Brazil Railway Co. obtivera do governo federal extensas concessões de terras para construção de uma ferrovia ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul. Acontece que o traçado dessa ferrovia passava justamente pelo Contestado, região assim chamada porque disputada pelos estados do Paraná e de Santa Catarina, mais um diferencial em relação a Canudos.

Os jagunços do Contestado, como de outros movimentos sertanejos, curiosamente não detectados nos sertões da Bahia, dedicavam um culto quase religioso a Carlos Magno, antigo rei dos francos, que viveu em fins do século VIII e inícios do século IX. Muitos dos poucos que sabiam ler possuíam um livro relatando a versão romanceada da vida de Carlos Magno e seus lendários cavaleiros. As proezas de Rolando, Olivério e Reinaldo eram relatadas em conversas dos jagunços, reunidos ao pé da fogueira. Os analfabetos escutavam atentos a narrativa dos que sabiam ler. O imaginário popular vivia aquela época de um passado distante, pintado com as cores vivas de valores como a igualdade, a justiça e a lealdade ao rei.

Tanto os jagunços do Contestado como os de Canudos desenvolveram sentimentos saudosistas dos tempos da Monarquia. De uma época em que muitos haviam vivido. De uma época em que a Igreja estava ligado ao Estado. Com verdadeira idolatria considerava-se a Monarquia como coisa do céu. Não há dúvida de que essa idealização dos tempos passados foi influenciada no Contestado pelas histórias de Carlos Magno e seus Pares de França, cujos personagens romanceados constituíam exemplos de coragem, de devotamento a causas justas, de luta pela verdade e pela justiça.

Aspecto marcante nos dois movimentos foi o igualitarismo comunitário: nas comunidades criadas pelos jagunços, desenvolveu-se forte tradição de que os bens individuais possuídos anteriormente passavam a pertencer a todos. Havia mesmo um certo desprezo pelos bens materiais. Afinal, no Reino dos Céus, as riquezas terrenas nada significavam! Não era o que afirmavam as Sagradas Escrituras?

“A existência desse igualitarismo básico, de condição econômica e de etiqueta, não significava, porém, que reinasse a anarquia entre os irmãos e que entre eles não houvesse diferenças de posição social [...]. Reconheciam-se as relações anteriores de amizade, de compadrio e de família, desde que nenhuma destas se chocasse com os interesses da crença. Acima de tudo, colocavam-se os valores religiosos, políticos e sociais da causa.” (QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Messianismo e conflito social: a Guerra Sertaneja do Contestado, 1912-1916. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. p. 157.)

Não se pode esquecer que o milenarismo também estava presente no imaginário dos sertanejos de Canudos. A chegada de novo milênio se aproximava. E com ele viria o fim dos tempos, como anunciavam os textos do Apocalipse. Novos tempos começariam. Os bons, justos e humildes seriam levados ao Reino dos Céus!


AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 138-141.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Gregos, romanos e africanos

O conhecimento do mundo ocidental sobre o continente negro sempre foi precário. Desde a Antiguidade Ocidental, a imagem da África foi fantasiosa, sem respaldo de uma ideia sólida sobre o povo africano. Heródoto, historiador grego do século V a.C., acreditava que os homens nascidos ao sul do Saara tinham cabeça de cão e os olhos no peito. Com base nos seus estudos, o romano Plínio, o Velho, no século I d.C., escreveu que os habitantes da África Negra tinham perdido as características de seres humanos. Ptolomeu, geógrafo grego, do século II d.C., cujos escritos serviram, até o período do Renascimento, como fontes para os estudiosos ocidentais descreverem geograficamente o mundo, dizia que, abaixo da região da Floresta Tropical, era impossível existirem seres humanos. Essas terras tórridas e os homens e os homens que lá viviam eram deformados, monstruosidades resultantes do clima. Os gregos e os romanos tinham ideias confusas a respeito dos limites geográficos africanos e nada sabiam das diferenças internas do continente.

Mapa do mundo de Ptolomeu, 150 d.C. Redesenhado no século XV.

O mundo cristão medieval perpetuou essa ignorância. A Idade Média Ocidental contribuiu muito para uma percepção especulativa sobre a desigualdade dos negros, favorecendo, assim, a consolidação dos estereótipos populares que continuaram a contaminar a compreensão dos europeus sobre aquelas sociedades. Somente na Europa renascentista a visão do mundo ptolomaico foi ultrapassada, quando as grandes viagens pelo Atlântico provaram que a África Negra não era povoada por monstros. Apesar de não duvidar que o continente negro fosse um mundo real, persistiram, no imaginário da Europa cristã, os mitos herdados dos tempos clássicos. Com base nesse imaginário, criaram-se paralelos entre a cor negra, o diabo e o pecado.

Hoje, o conhecimento do continente africano situa-se em graus mais elevados do que há 50 anos na História Universal. Apesar disso, permanecem grandes lacunas sobre o conhecimento de áreas específicas do continente.


PANTOJA, Selma. Uma antiga civilização africana: história da África Central Ocidental. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2011. p. 17-18.

NOTA: O texto "Gregos, romanos e africanos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cultura popular e vida cotidiana na Europa moderna

O Renascimento, que marcou a cultura europeia da época moderna, impregnou-a de valores eruditos e elitistas.

Até por volta da segunda metade do século XX, a historiografia tradicional nem sequer levantava questões sobre a vida das pessoas comuns. Atualmente, porém, as questões envolvendo a vida, as ações, os sentimentos e as concepções de homens e mulheres comuns constituem um dos principais campos de estudos históricos, gerando novos temas, como a história dos oprimidos, excluídos, marginais e vencidos. Isso indica um tipo de avaliação qualitativa sobre o sentido histórico da expressão povo em oposição à história dos grandes homens, isto é, os vencedores, dominantes, opressores e heróis.

Essa nova abordagem requer, também, a utilização de novos tipos de documentos e/ou uma nova leitura dos documentos tradicionais. Nesse sentido, há dois tipos de fontes fundamentais: as obras de arte - literatura e artes visuais -, que em geral registram a vida das pessoas comuns, incluídas no conjunto da sociedade; e os documentos jurídicos e inquisitoriais, entre os quais se encontram processos contra os transgressores das normas vigentes, isto é, os oprimidos e marginalizados.


A leiteira, gravura de 1510 do artista holandês Lucas de Leyde.

* Homens e mulheres comuns. Os grandes (como os reis) eram poucos e quase todos aparentados. Podem, assim, ser conhecidos em suas individualidades. Já o povo, formado pelos mais diversos grupos e categorias sociais - que em muitos casos nem a mesma língua falavam, é mais facilmente conhecido por meio de tipos, componentes de uma multidão (camponeses, soldados, artesãos).

Dois setores fornecem alguns tipos mais significativos da cultura popular e do modo de vida de homens e mulheres comuns, na época moderna: o trabalho e a feitiçaria.

* Trabalho e cultura popular. O trabalho era o principal elemento de identificação da parte da população conhecida como povo. Na Europa moderna, 80 a 90% dessa categoria ainda era constituído por camponeses. Entretanto, a importância dos trabalhadores urbanos foi crescendo gradualmente.

Na época moderna, o campo e a cidade partilhavam de uma identidade popular comum, conferida por sua posição frente aos poderosos. Para estes, o trabalhador, do campo ou da cidade, seria o povo e, como tal, alguém a ser sobretudo controlado.

Embora partilhassem de uma identidade comum, camponeses e cidadãos (habitantes da cidade) hostilizavam-se. Ou melhor, os cidadãos desprezavam e discriminavam os camponeses.

- A vida nos campos. Entre os camponeses havia uma diversidade muito grande, conforme as regiões que habitavam e as atividades que desenvolviam. Os homens do campo eram agricultores, artesãos, pastores, mineiros. Entre eles havia muitas diferenças culturais e antagonismos.

Os agricultores estavam ainda muito marcados pelas estruturas feudais, algumas das quais persistiram durante toda a época moderna. Entre os pastores, porém, eram raros os servos da gleba; já os artesãos levavam vida itinerante, praticando seu ofício em diferentes aldeias.

Cada grupo desenvolvia culturas distintas e próprias. As canções, poesias, danças e outras manifestações populares revelam uma extraordinária diversidade de condições de vida e visões de mundo.

De modo geral, a cultura popular camponesa apresentava profundos vínculos com as tradições pagãs, notadamente nos aspectos religiosos. Muitos mitos e práticas rituais cristãs eram adaptações ou mesmo transposições de cultos e lendas referentes às antigas divindades e seres sobrenaturais. Por isso, no imaginário popular moderno, o espaço do campo era habitado por seres fantásticos (duendes, anões, gnomos, fadas, bruxas, magos e prestidigitadores de toda sorte) que interagiam e interferiam na vida dos seres humanos. Acreditava-se que percorriam os campos e as aldeias, às vezes auxiliando, mas quase sempre causando medo e prejuízos aos habitantes.

Esses seres eram considerados poderosos, podendo ser conjurados por meio de mágicas e sortilégios, tanto para fazer o bem quanto para provocar malefícios.

- O cotidiano nas cidades. Embora ainda vigorassem instituições e normas feudais na regulamentação dos ofícios e da prática do comércio, as atividades nas cidades eram cada vez mais desenvolvidas de acordo com as novas exigências capitalistas. O trabalho assalariado tornou-se predominante, e a produção manufatureira submeteu-se às necessidades do comércio, ficando mais sob o controle de quem vendia as mercadorias do que de quem as produzia.

A cultura popular nas cidades apresentava-se, mais do que no campo, extremamente diversificada. Apesar das modificações das formas de trabalho, os artesãos urbanos continuavam organizados em corporações ou guildas que, além de defender os interesses da categoria, eram responsáveis por manifestações culturais específicas.

As festas, a arte, a religião ensejavam os mais diferentes tipos de manifestações culturais da população urbana, cujos registros - alguns recolhidos bem posteriormente - compõem uma espécie de patrimônio constituído de poemas, canções, pinturas e peças de teatro que representam a modernidade tanto quanto as belas-artes clássicas do Renascimento.

* Feitiçaria e Inquisição. O crescimento da massa trabalhadora, do qual dependia o desenvolvimento econômico das nações modernas, e as mudanças em sua condição de vida eram ensejos para muitas situações de conturbação da ordem e conflitos, sobretudo quando havia carestia ou escassez dos gêneros de subsistência. Ou, no contexto das reformas religiosas, quando havia contestação às igrejas oficiais.

Nessas ocasiões, os trabalhadores eram tratados como transgressores, tanto da ordem social como da ortodoxia religiosa.

Dentre os diversos tipos de transgressores, os praticantes da feitiçaria - ou mais especificamente as feiticeiras - eram apontados como os principais perturbadores da ordem terrena e divina.

O desenvolvimento da modernidade tinha por fundamentos o humanismo e o uso da razão, do discernimento crítico. No entanto, isso não foi capaz de conter, e talvez tenha até estimulado, um dos mais violentos e irracionais processos de perseguição a pessoas cujo crime era ser diferente, estranho, isto é, pessoas consideradas o outro.

A instituição que chamou a si o encargo e o presumido direito de exercer o controle sobre o pensamento e a ação das pessoas, vigiando, coibindo e punindo os desvios e as contestações, foi a Inquisição.

As pessoas identificadas como hereges eram consideradas "perigosas e ameaçadoras" para as instituições e a sociedade organizada. Dois grupos foram os principais enquadrados nessas categorias: os cristãos-novos (judeus) e os praticantes de feitiçaria. Entre estes últimos, embora houvesse homens, a grande maioria era de mulheres. Herdeiras da misoginia medieval, também eram muito discriminadas na época moderna.

A perseguição inquisitorial aos judeus convertidos ao catolicismo foi típica, quase exclusiva, dos países da península Ibérica, estendendo-se às suas colônias na América. As feiticeiras foram caçadas em toda a Europa. O período compreendido entre o século XV e meados do século XVI foi marcado pela caça às bruxas.

Além da violência da execução, os processos inquisitoriais admitiam o uso da tortura como meio de obter a confissão das acusadas. Mesmo que escapasse da morte, a mulher não estava livre dos tormentos.

O tribunal religioso recebia as denúncias, interrogava e concluía pela culpa ou não dos acusados. Os considerados inocentes (raros) eram liberados, depois de pagas as custas do processo. Os condenados a cumprir penitência eram mantidos em prisão perpétua pela Igreja.

Os culpados de falta grave, os que não confessavam sua culpa e os reincidentes eram entregues ao poder laico, que, depois de um novo julgamento meramente formal, estabelecia e executava a sentença de morte. A condenação e a execução deviam ser assumidas pelo Estado, pois a Igreja, generosa e caridosa por definição, não podia sujar as mãos com o sangue dos cristãos.

* Expansão do mundo moderno e o outro. A modernidade europeia foi múltipla e diversificada. Foi uma época marcada pelas criações fulgurantes da arte renascentista e pela intolerância em relação ao outro - diferente e, por isso, inimigo -, reafirmada pela renovação religiosa. Nesse período a Europa expandiu suas fronteiras continentais pelo mundo, sem reconhecer limites, como afirmam os versos de Camões, em Os Lusíadas:

Por mares nunca dantes navegados
Nossos mundos ao mundo ião mostrando
E mais mundo houvera lá chegara.

Mas nos novos mundos havia outros povos, diferentes dos europeus. Para cada novo e estranho povo, tratado como o outro, o inimigo, não faltaram fogueiras... e outras penitências!

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 265-269.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Era Vargas III: o mito Vargas

Como todos os mitos políticos, Vargas não surgiu do vazio. Vargas foi, ou é ainda, o mito que representava o Estado nacional organizado, a legislação trabalhista, a soberania, o nacionalismo, a brasilidade, a defesa dos humildes. Era o "pai dos pobres" e o chefe com qualidades excepcionais. Como se deu esta criação? Como um político parecido com tantos outros pôde ser transformado em um tipo único, superior e exemplar? Isso só pode ser explicado pelo longo e sofisticado processo de propaganda e pelas muitas providências tomadas pelo poder centralizados e autoritário do Estado Novo.

O mito Vargas começou a ser construído pelo Estado Novo quando foi montada uma ampla rede de censura e propaganda. O DIP, órgão que se encarregava dessas tarefas, dedicou-se com afinco a promover a imagem do ditador. Eram produzidos filmes mostrando, de forma heróica, a obra e a vida de Getúlio Vargas, as inaugurações que fazia e as homenagens que recebia. Esses filmes eram exibidos nos cinemas e nas escolas. Várias festividades foram criadas e constituíam ocasiões especiais em que o presidente se dirigia às massas e era por elas saudado. Exemplos disso eram as festividades do Dia do Índio e do aniversário do presidente (19 de abril), do Dia do Trabalho (1º de maio), do Dia da Raça (10 de junho) e do Dia da Pátria (7 de setembro).

Nessas datas costumava haver, normalmente em estádios de futebol, grandes desfiles de crianças e jovens, uniformizados e devidamente treinados para que a parada fosse uma demonstração de grandiosidade da Pátria e de seu chefe. Retratos de Vargas eram distribuídos entre os que desfilavam e por eles carregados de modo que ele fosse a imagem mais presente na cerimônia. As músicas evocavam também a liderança do chefe e o patriotismo do povo, e tudo era preparado para que a beleza estética das cores, dos movimentos, das imagens fosse também grandiosa. [...]

Livros como Getúlio Vargas para crianças e História de um menino de São Borja [sua cidade natal] mostravam regularmente uma ideia pejorativa das atividades políticas democráticas e a "coragem" de Getúlio em destruí-las quando se transformou em ditador. A ditadura, que silenciava a todos, era apresentada como obra do gênio para proteger seu povo, e os que a ela se opunham eram tratados como inimigos da nação.

Propaganda do Estado Novo, mostrando Vargas ao lado de crianças

Além da propaganda oficial, registrada em documentos escritos e audiovisuais, foram surgindo aos poucos manifestações da cultura popular que evidenciavam aqueles sentimentos de exaltação a Vargas e ao povo brasileiro. É possível, por exemplo, encontrar um amplo conjunto de músicas que enaltecem a figura de Vargas. A literatura de cordel foi abundante nesse sentido.


No imaginário popular, predominou a imagem de um chefe protetor, qualidade indicada como superior, ou até mesmo independente, de suas tendências e de sua trajetória política. De certa forma, o mito Vargas teria cumprido o papel sonhado por seus mentores: tornou-se uma forma simbólica de comunicação entre o líder e seus liderados, uma maneira de relacionamento entre a massa e o chefe de governo, uma especial modalidade de patriotismo e de obediência política. [...]

D'ARAÚJO, Maria Celina. A Era Vargas. São Paulo: Moderna, 1997. p. 91-95.

sábado, 2 de junho de 2012

Assim nasceu a bruxaria

Para pregar o bem, cristãos convenciam seu rebanho da existência do mal: o demônio estava solto e a mulher era perigosa

Por Carlos Roberto Nogueira


Inferno,  artista desconhecido

O cristianismo surgiu com a proposta de ser uma religião universal, mas o mundo tinha particularidades, sobretudo religiosas. Para levar a Boa-Nova a todos os homens, os cristãos precisavam se impor sobre seus oponentes. Assim foi construída a Igreja, primeiro apartando-se do judaísmo, o mais incômodo adversário pela inquietante proximidade. Eliminados os judeus - "assassinos de Cristo" -, os heterodoxos foram os seguintes a ser calados ou perseguidos.

Ao longo do período medieval, a Igreja era atormentada pelas seitas de "adoradores do diabo", e por isso as perseguiu. Com rigor cada vez maior, chegou à caça às bruxas da Europa moderna: a combinação trágica e eficaz entre a alteridade e a erudição.

A construção de uma mitologia satânica implicou um monumental esforço de reconhecimento do demônio, de suas formas e possibilidades de atuação. Também era preciso identificar seus agentes, ou seja, aqueles que, embora inseridos no rebanho dos fiéis, tramavam secretamente para a sua perdição. Entre estes estava a mulher. Teólogos e eruditos medievais a converteram em bruxa, o suprassumo da traição e da maldade, o veículo preferencial de toda a malignidade de Satã - enfim, o feminino em toda a sua tragicidade.

A doutrina cristã apresentava como razão para a submissão feminina a própria Criação: se o homem não foi criado pela mulher, ela estava numa posição automaticamente submissa. E ela também era a introdutora do pecado responsável pela condenação dos homens aos tormentos deste e do outro mundo, tornando-se a vítima e, ao mesmo tempo, a parceira consciente do diabo. De presa preferencial do demônio, Eva - a primeira mulher - foi convertida em seu lugar-tenente.

Os movimentos e seitas que ameaçavam e se opunham à Igreja no período medieval levaram à conclusão de que o diabo estava solto. Teólogos e eruditos deixaram de sustentar que o demônio tinha sido totalmente vencido. Se assim fosse, não haveria razão para a continuada existência da Igreja.

O rumor público serviu para ajudar a identificar o mal e seus agentes, especialmente numa Europa em crise. O continente convivia com a peste, as guerras, o Cisma do Papado - a existência de um papa em Avignon e outro em Roma, cada um deles se proclamando o verdadeiro - e a súbita ruptura do mundo tradicional, que eram terríveis novidades certamente causadas por Satã e seus representantes, fossem feiticeiros, adivinhos ou judeus. Havia um imaginário frenético de um mundo em mudança, onde os homens assistiam perplexos à traição do costumeiro, ou seja, da pacífica continuidade que deveria levar o mundo de sempre à bem-aventurança da Jerusalém Celeste. Eles se perguntavam "chorando e gemendo neste vale de lágrimas": por que os diabos agora se apoderam de tudo e de todos, destruindo o rebanho cristão, com a misteriosa permissão de Deus?

Deste modo, a partir do século XIV, o medo do fim do mundo e da danação eterna é intensificado e difundido na Europa de forma jamais vista. Mas esta angústia em relação ao mal não produziria efervescência sem a ação dos pregadores mendicantes, especialmente franciscanos e dominicanos. Conclamando todos ao arrependimento e à penitência, eles evocavam os horrores dos castigos eternos para obter a cura espiritual da cristandade.

Os esforços didáticos da pregação, em vez de tranquilizar as consciências, acabaram impondo, através do diabo, um rígido código ético e moral a partir do final do século XV. Resultado: todos os fatos da vida coletiva foram justificados pela sombria e inescapável mediação do Maligno.

A humanidade era atormentada pela cólera divina, o Dies Irae, e pelo medo de Satã, estreitamente associado à espera do fim dos tempos no senso comum. O Martelo das Bruxas, o "Manual de Caça às Bruxas", assim o enuncia: "Em meio às calamidades de um século que desmorona, o mundo em seu ocaso desce para seu declínio e a malícia dos homens aumenta". E Satã "sabe em sua raiva que tem pouco tempo".

Assim, foi no início dos Tempos Modernos, e não na Idade Média, que o diabo e seus seguidores ocuparam o cenário principal do imaginário europeu. A era das reformas, o período das dissidências religiosas na cristandade que deu origem ao Protestantismo, correspondeu ao momento máximo da repressão à bruxaria. A presença do diabo era necessária para justificar o árduo e ininterrupto esforço missionário, ao mesmo tempo em que a existência de um Satã todo-poderoso servia de fundamento para toda sorte de medidas repressivas e de violências, transformadas em luta contra o diabo, seus agentes e suas armadilhas.


Cena de execução: queima de uma mulher - bruxa - em Willisau, Suíça, 1447. Crônica de Schilling de Lucema (1513)

Esse é o momento do "triunfo de Satã". Herdando os conceitos e as imagens modeladas pelas consciências medievais, o início da modernidade emprestou ao demônio uma coerência e uma difusão jamais alcançadas. O medo desmesurado e onipresente do demônio estava associado, na mentalidade popular, à espera do fim do mundo. A luta religiosa conferiu ao diabo o seu estatuto de grandiosidade: ele é o grande rebelde. As reformas confirmaram seu direito de existir em toda a sua potência, em toda a sua majestade. E as perseguições, os processos inquisitoriais, acabaram materializando as ilusões - por que não dizer decepções? - e os medos de uma cristandade que se sentia permanentemente ameaçada pelo mal.

Carlos Roberto Nogueira. Assim nasceu a bruxaria. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 5, nº 56, maio de 2010. p. 18-20.