"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Império Bizantino e sua cultura (Parte 1): Política, economia e sociedade

A embaixada de João, o gramático em 829, entre o imperador bizantino Teófilo (à direita) e o califa Abássida Al-Ma'mun. Séc. XII-XIII.  Artista desconhecido. 

"Tratava-se de um Estado multirracial, que aceitava como cidadão todo aquele que falasse grego e seguisse o cristianismo ortodoxo".(FRANCO JR., Hilário; FILHO, Ruy de Oliveira Andrade. Atlas História Geral. São Paulo: Scipione, 1994. p. 18)


- A fundação do Império Bizantino. No século IV Constantino fundou uma nova capital para o Império Romano, no local da antiga colônia grega de Bizâncio. Quando se desintegrou a metade ocidental do Império, Bizâncio (ou Constantinopla como a cidade passou a ser comumente chamada) sobreviveu como capital de um poderoso estado que incluía as províncias dos Césares no Oriente Próximo. Aos poucos esse estado veio a ser conhecido como o Império Bizantino, embora não fosse antes do século VI, claramente reconhecida a existência de uma civilização bizantina. [...]

- A cultura bizantina. Embora a história bizantina tenha abrangido um período equivalente ao da Idade Média, o padrão cultural era bem diferente ao que dominava na Europa Ocidental. A civilização bizantina possuía um caráter muito mais pronunciadamente oriental. Não só Constantinopla entestava com o Oriente, mas também grande parte dos territórios do Império se localizava fora da Europa. Os mais importantes dentre eles eram: a Síria, a Ásia Menor, a Palestina e o Egito. Além disso, elementos gregos e helenísticos entraram na formação da cultura bizantina em porção maior do que aconteceu na Europa Ocidental. A língua predominante do estado oriental era o grego, ao mesmo tempo que se caracterizavam como profundamente helenísticas as tradições literárias, artísticas e científicas. Por último, o cristianismo do Império Bizantino diferia do da Europa Latina por ser mais místico, abstrato e pessimista, e por estar mais completamente sujeito ao controle político.

- As nacionalidades do Império Bizantino. A população dos territórios sob o governo bizantino compreendia um grande número de nacionalidades. A maioria dos habitantes eram gregos e orientais helenizados: sírios, judeus, armênios, egípcios e persas. Além disso, as partes europeias do Império incluíam numerosos bárbaros, especialmente eslavos e mongóis. Havia, também, alguns germanos, mas em geral os imperadores de Constantinopla conseguiram desviar as invasões germânicas para o Ocidente. Por outro lado, foi-lhes muito mais difícil obstar aos avanços dos eslavos e dos mongóis. A pátria original dos eslavos [...] provavelmente ficava no nordeste dos Montes Carpatos, sobretudo no que hoje constitui a região sudoeste da Rússia. Sendo um pacífico povo agrícola, raramente recorriam à invasão armada, mas aos poucos, desde que surgia uma oportunidade, expandiam-se em territórios pouco habitados. Não somente dirigiam-se para os vastos territórios despovoados da Rússia Central mas também ocuparam muitas regiões abandonadas pelos germanos e, daí, aos poucos, se infiltraram através das fronteiras do Império Oriental. No século VII formavam o mais numeroso povo de toda a península balcânica e de toda a Europa a leste dos germanos. Os habitantes mongólicos da Europa incluíam os búlgaros e os ávaros, que chegaram à Europa vindos das estepes da região que forma hoje a Rússia Asiática. Ambos esses povos eram pastoris, dotados de grande energia e dos hábitos guerreiros peculiares a esse modo de existência. Depois de penetrarem no vale do Danúbio, muitos deles forçaram a passagem para o território bizantino. Foi a fusão de alguns desses povos mongóis com os eslavos que deu nascimento às nações modernas dos búlgaros, dos sérvios e outros.

[...]

- O governo do Império Bizantino. O governo do Império Bizantino assemelhava-se ao de Roma depois de Diocleciano, exceto quanto a ser ainda mais despótico e teocrático. O imperador era soberano absoluto, com poder ilimitado sobre todos os setores da vida nacional. Seus súditos não somente se prosternavam diante dele, mas ao fazer-lhe uma petição usualmente diziam-se seus escravos. Além disso, a dignidade espiritual do imperador não era de modo algum inferior à sua força temporal. Era o vigário de Deus, com uma maturidade religiosa equiparada à dos apóstolos. Embora alguns imperadores fossem administradores capazes e dedicados, a maior parte das funções efetivas do governo era exercida por uma vasta burocracia, muitos de cujos membros se distinguiam por sua alta eficiência. Um grande exército de amanuenses, inspetores e espiões mantinham um controle minucioso sobre a vida e as posses de cada habitante do país.

- O controle estatal do sistema econômico. O sistema econômico era tão estritamente regulamentado quanto o do Egito faraônico. O Império Bizantino foi descrito, mesmo, como o "paraíso do monopólio, do privilégio e do paternalismo". O estado exercia controle absoluto sobre quase todos os gêneros de atividade. O salário de cada trabalhador e o preço de cada produto eram fixados por decreto governamental. Em muitos casos não podia o indivíduo nem sequer escolher sua própria ocupação, uma vez que ainda se mantinha o sistema de corporações estabelecido no extinto Império Romano. Cada trabalhador herdava sua condição de membro desta ou daquela corporação, e as muralhas que cercavam cada organização eram hermeticamente fechadas. Também o produtor não gozava de maior liberdade. Não podia fixar por si mesmo a quantidade ou a qualidade da matéria-prima que desejava comprar, nem lhe era permitido adquiri-la diretamente. Não podia determinar o total da produção, nem em que condições venderia o produto. Todos esses assuntos eram regulamentados pela associação comercial a que pertencia, sendo esta, por sua vez, submetida à supervisão do governo. A fim de tornar menos dispendiosa a administração do sistema, os imperadores encorajavam negociantes rivais e trabalhadores a fazerem-se delatores uns dos outros. O governo possuía e movimentava certo número de grandes empresas industriais. Entre as principais contavam-se a da pesca da púrpura ou múrice, as minas, as fábricas de armamentos e os estabelecimentos têxteis. Em certa época tentou-se estender o monopólio à indústria da seda, mas as fábricas do governo foram incapazes de atender aos pedidos e foi preciso permitir que as manufaturas particulares reiniciassem a produção.

[...]

- Condições sociais no Império Bizantino. As condições sociais do Império Bizantino apresentavam contraste notável com as da Europa Ocidental na primeira fase da Idade Média. Enquanto grandes zonas da Itália e do sul da França haviam baixado quase completamente ao nível primitivo do ruralismo, a sociedade bizantina continuava a manter seu caráter essencialmente urbano e suntuário. Só na cidade de Constantinopla vivia cerca de um milhão de pessoas, sem falar nos milhares que residiam em Tarso, Nicéia, Edessa, Tessalonica e outros grandes centros urbanos. Os mercadores, banqueiros e industriais igualavam-se aos grandes proprietários de terras como membros da aristocracia, pois não havia a tendência, que existira em Roma, de desprezar o homem que auferia seus rendimentos da indústria ou do comércio. Os ricos viviam elegante e comodamente, cultivando como arte superior a satisfação de gostos opulentos. Uma grande parte da atividade industrial da nação era absorvida na produção de artigos de luxo para atender às necessidades das classes mais ricas. A seguinte lista compreende apenas alguns poucos artigos da produção suntuária das fábricas e oficinas, tanto públicas como particulares: magníficas vestimentas de lã e de seda entrelaçada de fio de ouro e prata, tapeçarias de brocado e damasco esplendidamente coloridas, primorosos artefatos de vidro e porcelana, evangelhos com iluminuras e raros e caríssimos adereços.

- As classes inferiores. A vida das classes inferiores era, em comparação, pobre e mesquinha, mas apesar disso é bem provável que o homem comum do Império Bizantino estivesse em melhores condições que o cidadão médio de muitas das outras partes do mundo cristão desse tempo. O largo desenvolvimento industrial e comercial e o alto grau de estabilidade econômica ofereciam oportunidade ao emprego de milhares de trabalhadores urbanos, exceto no período das invasões dos muçulmanos, quando Constantinopla se viu abarrotada de refugiados que não podiam ser absorvidos pelo sistema econômico. Mesmo a sorte dos servos adscritos às terras de alguns grandes proprietários seculares era possivelmente superior à dos camponeses da Europa Ocidental, pois que o poder de exploração dos senhorios ao menos era regulamentado por lei. Não obstante, a condição dos servos era bastante má, pois estavam condenados a uma vida de ignorância e estúpida rotina, limitada ao horizonte estreito em que nasciam. Sua condição era inalteradamente determinada pelo simples acidente de nascerem de pais servos. A população bizantina compunha-se também de uma percentagem considerável de escravos, mas grande parte deles eram empregados em serviços domésticos e gozavam, sem dúvida, duma existência mais ou menos confortável.

- Extremos de ascetismo e de sensualidade. O nível de moralidade do Império mostrava certos contrastes um tanto chocantes. O povo bizantino, a despeito de seus antecedentes gregos, não tinha na aparência nenhuma aptidão para as virtudes tipicamente helênicas do equilíbrio e da moderação. Em lugar do meio termo, parecia preferir sempre os extremos. Por conseguinte, encontravam-se frequentemente, lado a lado com a mais extravagante intemperança, a mais humilde anto-negação e até a laceração da carne. As qualidades contraditórias de sensualidade e de piedade, de caridade e de crueldade, eram comumente encontradas na mesma camada social ou até nos mesmos indivíduos. Por exemplo, o grande imperador reformista Leo III tentou abolir a servidão, mas também introduziu a mutilação como pena judiciária. A vida na corte imperial e entre alguns membros do mais alto clero parece ter-se caracterizado pela indolência, pelos vícios elegantes, pelas maneiras efeminadas e pela intriga. Em razão disso, a própria palavra "bizantino" veio a sugerir sensualidade elegante e refinamento de crueldade.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 283-285, 287-288, 291-292. [Volume 1]

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Estética no fim do medievo: Contradições da vida moral

Cavaleiros medievais, Codex Manesse, entre 1305-1315, Meister des Codex Manesse

Angústia da existência e aspiração de uma vida melhor, todas as hesitações e todos os contrastes que marcam o pensamento filosófico e a vida religiosa encontram-se nos séculos XIV e XV, tanto na expressão da vida social como nas manifestações da arte. Abriu-se debate entre o sensível e o racional, a espontaneidade e a rebusca, a brutalidade e a afetividade. Nenhuma tendência das que se afirmam faz antever a resposta a este debate.

Seria fácil compor, utilizando os arquivos judiciários e os textos moralistas mal-humorados – neste tempo em que florescia o gênero dos Sonhos e das Lamentações -, um quadro exageradamente negro dos costumes da sociedade cristã. Era a época da peste e da guerra, ambas endêmicas. Tratar-se-ia de uma sociedade “fora dos eixos”, que perdera todo o pudor, fazendo gala de seus vícios e brutalidades, próxima em geral da demência, passando sem transição do crime cínico à penitência piegas, glorificando-se por vezes das suas ações torpes e respirando deliciada o odor dos túmulos? Muitos traços desta pintura romântica, ora trágica, ora picaresca, provém de uma ilusão de óptica. Efetivamente, devemos observar, de um lado, que os progressos dos espírito laico assim como da classe burguesa haviam [...] desenvolvido o gosto pela sátira social, pela maior liberdade de expressão e por um realismo menos embaraçado com as convenções. De outro, como se acentuava o contraste entre os costumes, sempre brutais, e o luxo crescente das classes elevadas, as contradições morais ainda ressaltavam mais vivamente.

Na sua vida, em geral precária e curta, os homens do século XIV não se embaraçavam com as próprias indignidades nem respeitavam as alheias. A inauguração em Hamburgo, em 1375, do primeiro manicômio será uma prova de agravamento das doenças mentais? De qualquer forma, é inegável que nenhuma corte deixava de possuir os seus loucos e anões; não havia festas populares onde eles não aparecessem: eram incluídos entre os animais dos circos. Como todos os seus predecessores, há séculos, os reis e os senhores não sabiam moderar suas violências; os súbitos ataques da raiva do cavalheiresco João, o Bom ou do afável Eduardo III, os acessos de furor de Filipe, o Bom, que se acalmava andando a cavalo, até o esgotamento, na floresta de Soignes, das crises de “melancolia” do Temerário são comuns a todos aqueles cuja vida ora guerreira, ora cheia de refinamentos não incitava a controlar as paixões. Froissart, embora seja um admirador cego da classe dos cavaleiros, confessa que “altos príncipes e altos senhores... seriam como que animais se não existisse o clero”. A atração das ciências ocultas difundidas largamente pelos próprios homens da Igreja, inclinados demais a denunciar um mal que viam em toda parte, é um indício de que, nestes tempos perturbadores, se procuravam aliados em todas as forças sobrenaturais ou infernais. Henrique de Transtâmara nada empreendia sem consultar o seu necromante de Toledo; dizia-se que um espírito familiar de Gaston-Phoebus, Conde de Foix, o avisava dos acontecimentos no próprio instante em que estes se desenrolavam. Quando um homem tão equilibrado como Gérson achava oportuno escrever um tratado destinado a afastar suas irmãs das infelicidades do casamento, fazia-o tanto como eco da antiga maldição monástica, reprovando o ato da carne, como para protestar contra as licenciosidades e aberrações de que era testemunha. Destes excessos, os moralistas extraíam uma condenação absoluta da vida secular, desde o romance satírico que acusa todos os contemporâneos de passar o tempo “assoando Fauvel” – o asno vermelho símbolo de todos os vícios – até às poesias de Eustache Deschamps, maldizendo aquele.

Temps plain d’orreur qui tout fait faussement
Age menteur, plain d’orgueil et d’envie.¹

Seu pessimismo tornava-se ainda mais forte perante as paixões coletivas que assaltavam prontamente as multidões urbanas. Estas ora choravam nos sermões, recebendo os sacramentos com fervor e expulsando as mulheres de vida fácil por exortação de um pregador (tolerando-as no entanto logo no dia seguinte), ora se revoltavam em “comoções” sangrentas, às quais, aliás, se mesclavam curiosamente os seres celestes. Assim, por ocasião das chacinas da guerra civil, em 1413 e 1418, os rebeldes parisienses colocaram sobre as imagens dos seus santos um chapéu largo, dos usados na Borgonha. Entretanto, as distrações populares assumiam freqüentemente foros de revoltante brutalidade, como acontecia com os espetáculos, prolongados à vontade, das execuções capitais, ou como certo torneio de cegos, realizado em Paris, em que estes se chacinavam a pauladas. Em todas as cidades existiam malandrins que de noite dominavam as ruas escuras. Em Paris havia o “reino dos maltrapilhos”, entre os quais os “francos burgueses”, cujo nome procedia de sua recusa de participar nos encargos comuns. A guerra provocou a subida à superfície, vindos dos covis, destes bandos de ladrões, assaltantes e assassinos; os coquillards² do século XV chegam a injuriar o próprio emblema dos peregrinos de Santiago.

Se as paixões são vivas e as dificuldades de uma inquieta existência incitam os homens a fazer fortuna o mais depressa possível – os coletores de impostos, cambistas e comerciantes de todos os gêneros são os mais apressados e também os mais frequentemente acusados de fraudes e concussões -, devemos esquecer o “burguês honesto” e o “pobre trabalhador”, cuja existência só conhecemos quando, tendo-se afastado da boa conduta, solicitam em termos chorosos as respectivas cartas de remissão. Existem duas maneiras de julgar o tempo em que vivemos ou condená-lo sem apelo, como fazem os moralistas e os satiristas, ou acomodar-se à situação com bonomia, sem esconder as fraquezas, criando uma moral temperada que, rechaçando qualquer exagero, concede o devido lugar ao prazer e ao interesse. Dentro da primeira forma integram-se, na Inglaterra, a crítica social de um Langland, cuja Visão de Piers Plowman se inspira nas prédicas populares; à segunda pertence a ironia sorridente de um Chaucer, nos seus Contos de Cantuária, obra de um homem de gosto cosmopolita, respeitador das convenções sociais.

¹ Tempo cheio de horrores que faz tudo falsamente
Era mentirosa, cheia de orgulho e inveja.

² Bandos de mendigos cujo nome deriva de suas vestes cobertas de conchas.


PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica (séculos XI-XIII). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 297-300. (História geral das civilizações, 7).