"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 3)

O julgamento final (detalhe), Fra Angelico

Todos levantaram-se.

E durante dois dias prepararam-se para a festa. Fariam um ataque-surpresa. Filipe queria que a abadia fosse totalmente destruída pelo mais cruel e violento saque de que a Europa tivera notícias.

Se o castelo de Albey permanecera exatamente igual, o mosteiro de Louvenne, ao contrário, estava muito diferente. Havia sido ampliado em quase dois terços da construção original. Já do lado de fora, podiam ser percebidos ornamentos luxuosos, e, pelos rumores que se escutava, era possível concluir que a festa que se realizava em seu interior devia ser memorável.

Seus homens armados de espadas, pedras e archotes se aproximaram. A ferocidade deles aumentava na medida em que o mosteiro se tornava mais palpável. Fanatizados pela ideia de que sua missão era divina, adquiriam uma nova e poderosa força. Essa era a maior arma que possuíam, embora não tivessem consciência disso.

Enquanto isso, no interior da abadia, com todos ignorantes do que se passava la´fora, a festa prosseguia.

À cabeceira da comprida mesa de carvalho, encontrava-se Samuel Garbois. A sua frente desfilavam faisões, porcos e carneiros, frutas e vinho com fartura. O abade rejubilava-se. Sua abadia ostentava um raro luxo para a época. Com seus 66 anos, era um homem bastante velho, mas vivera o suficiente para ver seu sonho realizado.

O excesso de alimentos e vinho ingeridos criava uma certa sensação de irrealidade. Era um homem obcecado por uma ideia que vira pouco a pouco, ao longo de trinta anos, ser transformada em realidade. Agora que estava tudo concluído, olhava sua obra com certa incredulidade. Era um sonho que se materializava; e agora, o que fazer? Contemplar a obra, apenas isso. Não restava mais nada. Tentava, mas não conseguia esconder uma certa sensação de vazio, apesar de todo júbilo. Eram sentimentos contraditórios que brigavam dentro dele e turvavam sua plena realização naquele dia.

Se pudéssemos penetrar em seus pensamentos, veríamos desfilar em sua cabeça todas as relíquias e tesouros acumulados nesses anos, veríamos pedra por pedra assentada que tornara a Abadia de Louvenne a maior de toda a região.

Veríamos, também, a incômoda certeza de que tudo estava concluído e que não restava mais nada a fazer além de esperar a morte.

Algo de anormal estava acontecendo. Mergulhado em seus pensamentos, não notara que havia uma certa agitação no ar, que trouxe Samuel Garbois de volta ao local onde se encontrava. Estava entorpecido pelo vinho, a visão turvava-se a sua frente, mas percebeu que algo ocorria. Havia uma tensão que fazia com que as pessoas falassem mais baixo, como se estivessem à espera de um grande acontecimento; o ar tornara-se quente e pesado. Começaram os ruídos, no princípio quase inaudíveis, depois fortes demais para se poder ter a ilusão de que era só impressão. O cheiro de fumaça começou a se espalhar e em pouco tempo podia-se ouvir as pessoas tossirem sufocadas, e a fumaça tornou-se tão espessa que a embriaguez do vinho já não era capaz de turvar nada, pois já não se via nada, ou quase nada. Começaram a cair as pedras. Eram tão grandes que cada uma que caía provocava um estrago considerável. As pessoas, apavoradas, começaram a correr sem saber para onde ir, e a maioria acabou seu caminho na ponta de uma espada. Samuel Garbois não se movia. Em algum lugar nesse processo, a razão o abandonara, e através de seus olhos dementes o que se poderia enxergar era a própria visão do apocalipse. Quando viu Filipe parado a sua frente, acreditou realmente que o Dia do Juízo chegara e que os mortos finalmente haviam se levantado.

Filipe olhou para o abade por uns instantes. Aquele homem que sempre causara asco, agora, encurralado naquela cadeira, com os olhos ensandecidos vendo apenas destruição a sua frente, só conseguia lhe despertar pena. Não teve coragem de matá-lo.

Ordenou bruscamente a seus homens que levassem tudo o que pudessem carregar, e o que não pudessem, destruir. Partiram para o Castelo de Albey, onde Filipe pretendia assumir o lugar que era seu de direito, de Senhor do Castelo.

Samuel Garbois olhou ao seu redor. O fogo ainda ardia em alguns pontos. Viu homens estendidos pelo chão. Um rio quente de sangue corria sob seus pés. De seu sonho só restavam escombros. Sentou-se em um banco semidestruído e teve ainda um momento de lucidez, o suficiente apenas para perceber que de medo havia se sujado todo.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo; Clube do Livro, 1988. p. 25-28.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 2)

O juízo final (detalhe), Michelangelo

No fim de uma acentuada curva na estrada, o Castelo de Albey surgiu à sua frente, imenso e sombrio. Estava tudo exatamente como ele se lembrava. Mais umas duas horas de caminhada e chegariam lá.

Para chegar ao castelo teriam que passar próximo à Abadia de Louvenne. Quanto mais se aproximavam, mais Filipe notava que havia ali uma movimentação anormal.

Seguiam seu caminho quando escutavam o barulho de cascos batendo no chão. Assim que avistaram o cavaleiro, Filipe percebeu pelas roupas e ornamentos quem era e de onde vinha.

Ao avistar aquele bando de homens andrajosos e enlameados, de aspecto ameaçador, o cavaleiro tentou recuar, mas já era tarde. Percebeu que havia sido cercado. O aspecto deles não deixava dúvidas: eram saqueadores.

- Não me matem! Eu entrego tudo o que trago comigo!

- Somos muitos e a fome é muito grande. O que traz consigo não é suficiente. Se quer viver dia o que se passa na abadia!

- É uma grande festa. A abadia foi reformada e hoje comemora-se a conclusão das obras, que duraram mais de trinta anos.

- Quem é o abade?

- Samuel Garbois é seu nome. É um homem muito velho e bondoso, que viveu para glorificar Deus com essa obra.

- Às custas de milagres ocorridos no Castelo de Albey há muitos anos, não estou certo?

O outro olhou espantado para aquele que assim lhe falava e que parecia ser o chefe do grupo.

- A história de meu querido irmão, morto há dez anos, tem-se espalhado por fronteiras que não imaginávamos. Sim, foi um verdadeiro milagre, e lamentamos muito a perda de Filie, esse era seu nome. Nasceu marcado para grandes obras, mas a vida o arrebatou muito cedo.

- A grande obra de Filie ainda nem começou, meu caro Francisco, e se lamenta tanto a morte do irmão, por que não procurou salvá-lo dos saqueadores que invadiram o castelo há dez anos, por que não pagou o resgate que exigiam para devolvê-lo, ao invés de abandoná-lo à sua própria sorte? - disse Filipe, afastando o cabelo da testa e que encobria seu sinal de nascença.

- Meu irmão! Então você ainda vive?

Francisco estava pálido de morte. Sentiu no olhar do irmão fúria e ódio gelados que lhe arrepiaram o corpo e lhe esfriaram o sangue.

Filipe não vacilou, e sua mão estava bem firme quando cravou sua espada bem na altura do coração do irmão, antes mesmo que este tivesse tempo de perceber o que acontecia.

Por um momento o silêncio foi total, só sendo cortado pelo barulho da chuva que transformava o vermelho vivo do sangue que corria em vermelho pálido, até se misturar na lama e ser engolido pela terra.

Filipe quebrou o silêncio.

- Se há uma festa na abadia, eu deveria ser o convidado de honra. Vamos, vou reclamar meus direitos.

Seus homens vacilaram. Saquear um castelo, mesmo que fosse a quase inexpugnável fortaleza de Albey, era uma coisa que fariam sem pensar duas vezes. Eram homens duros e desgraçados, que caminhavam dia a dia ao lado da morte, e por esta ser uma presença tão constante não os assustava. Mas saquear uma abadia? Isso eles não poderiam fazer. A abadia era um lugar sagrado, e isso significava ofender a Deus. E se a ira divina se voltasse contra eles? Fazia-os tremer a simples ideia de tormentos inimagináveis que cairiam sobre eles. Não, não iriam.

Estavam acampados próximo à abadia. Filipe pensava exaustivamente numa saída para esse impasse.

Levou instintivamente a mão à testa.

Levantou-se, caminhou com vagar para o centro do acampamento, onde seus homens estavam reunidos em volta de uma pequena fogueira que ameaçava acabar-se a todo instante, pois a chuva prosseguia.

A luz do fogo refletia-se nos olhos de Filipe, que naquele instante parecia terrível e implacável, mesmo a seus homens.

- Trago estampado na testa o sinal sagrado da cruz desde o dia em que nasci. Vocês temem saquear a abadia por ser um lugar sagrado, mas se esquecem de que um sinal divino orienta esta ação. O lugar é sagrado, os homens que o habitam não. Seus atos infames e impuros só têm feito ofender a Deus durante todos estes anos. Cabe a nós, homens escolhidos por Deus, e para provar isso existe o sinal, vingá-lo. Quem se recusa a me seguir se recusa a fazer o que o Senhor ordena. Para esses, os tormentos do inferno estão reservados. Quem quiser me seguir fique de pé, os outros permaneçam sentados.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 22-25.

sábado, 22 de junho de 2013

O porque da vertiginosa conquista hispânica

Cortéz e seus soldados atacam os astecas, Emanuel Leutze

Em um breve tempo de história - mais ou menos meio século - dezenas de milhões de americanos foram dominados por reduzidos grupos europeus. Como aconteceu? Como foi possível isso? O problema intriga os historiadores.

Dizer que as razões que explicam o fenômeno são complexas, é óbvio. Tê-las em nossas mãos, já é mais problemático. Somos capazes de entender o grande drama?

Argumentou-se que as armas de fogo e os cavalos aterrorizaram os índios a ponto de paralisá-los. O argumento é inconsistente. Isso explicaria que os 182 homens que Francisco Pizarro colocou em Cajamarca (dos quais só um terço a cavalo) derrotassem em meia hora, talvez mais de 200.000 guerreiros nativos sob o comando do inca Atahualpa? É difícil aceitar isso. Sabemos que os incas - assim como os astecas e outros povos - encaravam a guerra como uma questão permanente; que sua coragem não era inferior à de ninguém, nem à dos soldados barbudos vindos do ultramar, revestidos de couraças e com o raio da morte em suas mãos. Sabemos o que foi a defesa de Tenochtitlán pelos astecas durante dois anos e meio, e não ignoramos que Cortéz venceu, não propriamente porque os arcabuzes e canhões lhe davam superioridade, mas porque contava com um considerável exército de índios que odiavam os astecas.

Não são poucos os historiadores que assinalam o que usualmente chamaríamos "presságios". [...] No Peru, México e outras áreas da América pré-colombiana corriam lendas ou profecias sobre a próxima chegada, do oriente, de deuses bárbaros, em templos flutuantes, montados em centauros terroríficos e treinados no manejo do trovão e do raio.

Sob o reinado de Huayna-Capac, no Peru, determinados fenômenos naturais foram interpretados como o prognóstico de tragédias que se aproximam. Meteoros vermelhos cruzam os céus, terremotos sacodem violentamente a terra e derrubam montanhas, tempestades violentas devastam várias regiões. E, o mais grave: a aparição da lua rodeada por um tríplice círculo luminoso, que intrigará profundamente aos astrônomos do Incário.

O próprio Huayna-Capac, fica impressionado e manda chamar o astrólogo Llayca para decifrar o significado de sinais tão inquietantes. Llayca responde: a) o sangue dos povos do Incário será amplamente derramado; b) uma guerra fratricida acabará com a dominação dos incas; c) todo o conhecido terá um final bem próximo.

Tudo isso - e que posteriormente é confirmado pela conquista - é lido e interpretado por Llayca no tríplice círculo da lua.

A relativa passividade de Montezuma e Atahualpa nos deixa perplexos... O fato de aceitarem a presença dominadora da tropa hispânica não deve ser visto pelo lado da covardia, mas também deve considerar-se a existência de uma convicção solidamente enraizada em suas consciências: a inevitabilidade da tragédia, prevista, anunciada, profetizada.

Ambos os imperadores se submetem, como se desafiar o destino - e os espanhóis parecem representá-lo - fosse absolutamente inútil. O fatalismo inerente às religiões nativas (e não somente a elas, é claro) deve ter jogado um papel decisivo na paralisia que sobreveio repentinamente em seus seguidores. Uma faca de dois gumes.

Talvez o fatalismo tenha sido cultivado pelos grupos dirigentes e pelo imenso setor sacerdotal como uma maneira de incentivar o messianismo: incas e astecas tiveram que representar-se como designados por uma onipotência superior para dominar. Em nome de seus deuses puseram-se a conquistar e subordinar povos diferentes. Em seu nome impuseram tributos, aumentaram riquezas e poder e tornaram válida a dominação de seus próprios povos. A religião foi sendo adaptada a finalidades que hoje estão muito longe de ser conceituadas como sendo exclusivamente religiosas. Muitos esforços e energias foram despendidos para construir o que a posteridade chamou Confederação Asteca e Império Inca. Talvez sem o papel extraordinariamente mobilizador da religião, não teriam adquirido a dimensão que sabemos que tiveram. Mas, assim como o destino revelado pelos deuses mostrava as vitórias, é possível que esse desígnio superior fosse interpretado a partir de determinado momento como o presságio de uma catástrofe desejada pela vontade onipotente.

Não era concebível desafiar o "além" que não podia ser conhecido, fosse ele favorável ou contrário em suas determinações. Insistimos: uma faca de dois gumes, capaz de gerar fantásticas energias coletivas ou paralisá-las.

Mas esse fenômeno não foi unânime, universal. Os araucanos e outros povos (de menor desenvolvimento material e espiritual que os incas e astecas) mostraram grandes resistências. Incorporaram às suas capacidades o uso do cavalo e das armas de fogo, valendo-se disso igual ou melhor que os conquistadores.

O que ocorreu no México e no Peru é significativo. Os mais fortes foram os primeiros a serem derrotados; os mais inaptos resistiram com uma determinação proporcional à suas forças. O recurso ao fatalismo como fator explicativo não parece fora de propósito, mas como veremos, isso não explica tudo. No entanto, recordemos que a ocupação do templo de uma cidade cercada e cobiçada significava a sua derrota e o triunfo de um novo Deus. Quantos deles não aceitaram isso quando da invasão dos conquistadores sem estar militarmente derrotados!

Sabemos também que a vitória dos incas e astecas não terminava com os deuses dos vencidos, ficando esses num plano secundário em relação à divindade triunfadora. Só que para os cristãos conquistadores não significava a mesma coisa: a adoração ao seu Deus implicava em acabar com os deuses dos vencidos. Mais ainda: acabar com os cultos, templos e lugares sagrados. Eliminar tudo isso da consciência dos índios é outra coisa. Nisso, o triunfo foi bem menor, se é que em alguns casos a derrota não foi total. Apagar da consciência de milhões de indivíduos um mundo de significados e crenças que regulavam até os mínimos atos da vida cotidiana, foi infinitamente mais difícil que arrasar os objetos materiais do culto.

Temos agora uma pergunta intrigante: Por que povos menos desenvolvidos resistiram mais ferozmente aos brancos? Seguindo ainda o exemplo dos araucanos, eles nunca constituíram  um império. Formavam um conjunto de tribos que mantinham entre si relações episódicas de paz e guerra, de aliança e ruptura. Talvez por isso sua religião, crenças, consideravam menos o elemento fatalista existente nas religiões dos grandes dominadores. Como não chegaram a um estágio de desenvolvimento ou situação que os levasse a sentir-se dominadores, legitimando esse sentimento mediante a intervenção de uma vontade superior, provavelmente o espaço que isso lhes deu para manifestar sua liberdade foi muito maior. Não precisaram de um Deus para, em seu nome e maior glória, lançar-se à conquista e à subordinação de outros povos. Isso determinou que seu universo religioso excluísse a guerra como algo ditado por uma vontade superior. Os homens brancos não surgiram - nem foram percebidos ou concebidos - como enviados do "além". Eram simplesmente invasores, inimigos brutais, ousados invasores.

Em poucas palavras: crenças que estavam a serviço de uma dominação - e que tendiam a expandir-se e aprofundar-se - representaram, obviamente, as formas mais adequadas para a mobilização das energias conquistadoras. Mas o mandato que elas continham seguramente resultou de um processo histórico que também os araucanos talvez haviam chegado a realizar, transformaram-se no seu contrário em virtude do elemento aguçadamente fatalista e messiânico que continham. Crenças e concepções de tribos mais isoladas deviam conter forçosamente - como condição de sobrevivência - um poderoso fator auto-defensivo.

Estas explicações são corretas? Achamos, pelo menos, que elas são plausíveis.

No entanto há outro aspecto que convém destacar e que já foi mencionado. Enquanto dominadores, incas e astecas enfrentavam a resistência silenciosa dos povos que deviam pagar-lhes tributos e que tinham que aceitar imposições ultrajantes como, talvez, aquela que se referia ao deus dos vencedores. Tanto no México como no Peru os espanhóis contaram com a eficaz colaboração de comunidades indígenas que se conservavam independentes, ou que estavam lutando de alguma maneira para livrar-se das garras de um poder alheio. Totonecas e tlaxcaltecas foram providenciais aliados de Hernán Cortéz; também a guerra fratricida no meio inca foi importante para Pizarro e sua tropa. A chegada dos brancos barbudos, com suas armaduras, montados a cavalo e manejando armas de fogo parece ter sido festejada - e ao que tudo indica, o foi no México - como uma ajuda do céu para acabar com o poder que vinha de Tecnochtitlán. E se no final, todos terminaram submetidos aos espanhóis e pagaram um preço duríssimo, é outra história. Os índios, e vamos chamá-los de dissidentes, ignoravam o que os esperava quando a conquista começa. De fato, as duas mais importantes estruturas políticas do continente demonstraram ser muito mais artificiais do que se poderia supor. Baseavam-se na força e na passividade relativa que a religião triunfante conseguia impor - nem sempre, já sabemos - aos vencidos. É bom lembrar que em ambos os casos tratava-se de estruturas políticas relativamente recentes, em processo de construção e afirmação, mais a asteca que a inca. Mas em essência, ambas débeis. A unidade do Incário e da Confederação mexicana eram superficiais, não tendo raízes sólidas e penetrantes nas sociedades. Não existia, em os ambos casos, esse fenômeno a que chamamos Nação. Tribos unificadas através da coação militar e da ideologia religiosa, não perderam contudo sua identidade tribal, caracterizada pela adotação aos seus próprios deuses, mantendo costumes diferenciados, usando idiomas ou dialetos diferentes, preservando a heterogeneidade das aptidões.

Quando a cabeça de ambos os impérios é cortada, a estrutura toda desmorona. O caráter autocrático e extraordinariamente centralizado da dominação, particularmente no Incário, devia resultar no que a história nos ensina. Funcionários, sacerdotes e militares obedeciam as ordens que vinham de cima, começando pelo magistrado supremo laico e religioso, que se prolongava para baixo através de sucessivos estratos de sacerdotes, funcionários e militares que comunicavam as determinações entre si até fazê-las chegar ao povo, as massas de camponeses. Não existia o que hoje chamamos espírito e identidade nacional. Estado e Nação são fenômenos diferentes. Na América pré-colombiana encontramos Estados e só por um abuso de linguagem alguns estudiosos falam de Nações. Geralmente a resistência dos índios é mais uma reação contra a violência dos conquistadores que defesa de uma soberania e uma identidade nacional. Não existe a noção de soberania. O que podemos aceitar é a noção de legitimidade, que será implícita. A maioria dos dominados pelos incas e astecas consideravam a dominação como ilegítima. Não que a tenham tornado explícita, como poderiam fazê-los nossos cientistas políticos atuais. Mas o repúdio sórdido ou manifesto, calado ou espetacular ao poder alheio, e o não reconhecimento deste poder era a maneira de expressar sua falta de legitimidade.

POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 83-85.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Conquista da América II: A rapidez da conquista

A espada, a cruz e a fome iam dizimando
a família selvagem.
(Pablo Neruda, poeta chileno)

A Conquista foi iniciada desde a segunda viagem de Colombo (1493) e, por volta de 1550, estava praticamente concluída em suas linhas gerais.

Essa rapidez explica-se, em parte, pelo fato de a América ter-se revelado uma barreira entre a Espanha e a Ásia Oriental, onde os europeus buscavam especiarias, produtos de luxo e riquezas minerais. No afã de ultrapassar esse obstáculo, os espanhóis descobriram, exploraram e conquistaram ilhas e terras litorâneas continentais, onde se apoderaram de riquezas diversas, penetraram pelas bacias fluviais, seja em busca de uma passagem transcontinental até o Pacífico, seja para atingir ricas regiões dos planaltos do interior.

Impulsionados ou não pela sede de ouro e outras riquezas minerais - não podemos esquecer que a Conquista se enquadra na época do Mercantilismo e que a busca de metais preciosos fora uma das razões da expansão espanhola -, os conquistadores rapidamente dominaram as Antilhas e terras continentais.

[...]

Essas riquezas por vezes eram ilusórias porque se baseavam em lendas europeias transferidas para a América ou então criadas em um Novo Mundo que começava a se conquistar. Das Antilhas partiram para a Flórida e Bacia do Mississipi muitos conquistadores em busca da fonte da juventude; do México outros avançaram por terras dos atuais EUA procurando Cíbola (a região das Sete Cidades de Ouro). "Na América do Sul os mitos se multiplicam. Anos e anos se sucedem enquanto homens e mais homens perseguem o Eldorado. Por vezes é um homem, ou uma cidade (Manoa), ou uma lagoa (Parime), ou uma região (Omágua). Para livrar-se do intruso, o indígena não vê inconveniência em mentir e esticar o braço apontando falsas direções. Espanhóis [...] e estrangeiros [...] se desgastaram procurando o príncipe dourado [...] A bela lenda das amazonas foi importada, como outras, do Mundo Clássico e talvez os livros de cavalaria reviveram o mito [...] Na realidade, o mito resultou das casas incaicas onde se guardavam as Virgens do Sol [...] Como um reflexo da riqueza incaica surgiram as ilusões da Terra Rica, do César Branco, da Serra da Prata, do País dos Mojos, do País dos Caracaraís e do Grande Paititi [...]" (MORALES PADRÓN, F. Manual de Historia Universal. Tomos V e VI. Historia General de América. Madri: Espasa-Calpe, 1962. p. 312-313)

Não há dúvida de que a rapidez também decorreu da superioridade do equipamento bélico dos espanhóis, que era infinitamente superior ao dos indígenas. Esta superioridade se evidencia em três pontos essenciais:

* pelas armas de fogo (mosquetes, arcabuzes, pistolas e canhões), cuja utilização proporcionava tríplice vantagem: permitia combater à distância, provocava a morte ou a inutilização por ferimento do adversário, e acarretava o terror psicológico do indígena, que acreditava serem eles instrumentos usados por deuses ou seus representantes;
* pelo uso de armamentos defensivos (armaduras, couraças, capacetes e escudos) e ofensivo (lanças, espadas, punhais etc) feitos de aço; isso tornava o espanhol praticamente invulnerável diante do indígena, que combatia quase desnudo, e contribuía bastante para neutralizar a desvantagem numérica das hostes espanholas diante dos numerosos exércitos nativos;
* pelo emprego do cavalo, que dava ao branco uma extraordinária mobilidade e despertava o terror entre os ameríndios porque o animal era desconhecido na América. Acreditando, a princípio, que cavaleiro e cavalo formavam um único ser, o pânico do nativo explodia, paralisando-o, quando, ao desmontar, o cavaleiro se movia independentemente do cavalo.


A chegada de Cortés e a recepção de Montezuma. Artista desconhecido.


Os conquistadores foram também beneficiados pelas lendas e superstições religiosas dos indígenas, as quais por vezes chegaram até a divinização dos espanhóis. "Com efeito, a chegada dos brancos foi precedida, tanto no México como no Peru, por toda uma série de sinais e de profecias que asseguravam a chegada iminente de deuses... ou de calamidades." (ROMANO, R. Os Mecanismos da Conquista Colonial: Os Conquistadores. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 17.) A destruição de templos e palácios, no México e no Peru, devido a raios e incêndios, foi encarada como sinal do descontentamento dos deuses e como prenúncio de novos tempos.

"Mas ainda mais. Todo o Mundo Americano, na base de sua esfera religiosa, conheceu o mito de deuses civilizadores que, após haver estendido seus benefícios aos homens, desapareceram prometendo voltar. Isto nos ajuda a compreender como e por que a chegada dos homens brancos é percebida pelos índios através da rede do mito." (ROMANO, R. op. cit. p. 18.) A própria cruz conduzida por muitos conquistadores reforçou ainda mais essas crenças: era o símbolo de Quetzalcoatl entre os astecas e de Bochica no Planalto de Bogotá.

"Mas resta assinalar que a falência das religiões indígenas ajudou a penetração da cruz. Essa falência foi facilitada, também, pelo fato de que a autoridade religiosa e autoridade política estavam frequentemente confundidas em uma mesma pessoa física, acarretando a queda do poder leigo, o desmoronamento do poder religioso e dos valores que representava. Assim, o poderoso cimento que a religião deveria ter representado [...] se dissolvia e deixava penetrar de maneira formal e superficial a nova religião. Penetração fácil: os batismos se sucederam e se multiplicaram. (ROMANO, R. op. cit. p. 18.)

"[...] Chegou pela primeira vez em Campeche, o barco dos Dzules, brancos [...] E, com eles, vem o tempo em que os homens maias ingressaram no Cristianismo [...] Começou a entrar água na cabeça dos homens." (Livro de Chilam Balam de Chumayel. ROMANO, R. op. cit. p. 69.)

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das Sociedades Americanas. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1980. p. 65-67.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Apocalypse now?

El fin del mundo anunciado para 2012 es solo uno más entre muchos

Alain Cirou, director de la Asociación Francesa de Astronomia, ha calculado que la predición apocalíptica mayanista para 2012 viene a ser la número 183 desde el inicio de la era cristiana. Esto sin considerar los pasajes referentes a la vida de ultratumba de la Biblia y el Corán (desde el Diluvio Universal hasta el Dia del Juicio Final) ni profecías catastrofistas de escasa trascendencia que para Richard Landes, historiador de la Universidad de Boston, se han contado en "cientos de miles como muy poco".

Los cuatro cavalerios del Apocalipsis, Victor Vasnetsov


1000 - Pánico medieval. Umberto Eco señala en Historia de la belleza: "La Edad Media cree firmemente que todas las cosas en el universo tienen un significado sobrenatural". Así, no es de extrañar que en Europa se temiera la aparición de Satán en el año 1000, al tomarse literalmente el Apocalipsis. Pero, según algunos autores, la fecha pasó desapercebida para la mayoria de la población, que ignoraba el año en que estaba.

1555 - Nostradamus. Las Centurias del médico y astrólogo provenzal ha hecho correr ríos de tinta desde su publicación. Y es que, muy crípticas, se interpretan al gusto del exégeta de turno. Así ocurrío con una lluvia homicida de asteroides pronosticada para 1999 de la que se hizo eco el escritor Charles Berlitz (especializado en el Triangulo de las Bermudas y la Atlántida) en un best selles de 1982 que añadía otros desastres imminentes.

1844 - Hacia el adventismo. Con una solera catastrofista que se remonta a los pioneros puritanos del siglo XVII, Estados Unidos presenci[o en el XIX movimientos como el millerismo. Su inspirador, el pastor William Miller, vaticinó la segunda llegada de Cristo a partir de cálculos bíblicos que hubo de corregir varias veces al no cumplirse. Cansados de esperar en vano el fin del mundo, sus cientos de fieles terminaron desertando y formando la Iglesia adventista.

1910 - El Cometa Halley. La histeria colectiva jalonó este año el paso del cometa Halley, includos casos de suicidio, al temerse que se estrellaría contra la Tierra o la arrasaría con su cola de fuego. También causó alarma en 1973 el bólido Kohoutek o, en 1997, el Hale-Bopp. Para los seguidores de la secta californiana Heaven's Cate, este último era un ovni que los transportaría a una dimensión mejor, previo abandono de la mundana. Elo acarreó el suicidio de 39 personas.

2000 - El "efecto 2000". Los sistemas informáticos iban saltar del año 1999 a 1900 al confundir con éste los últimos dos dígitos de 2000. Se vaticinaron desde caos administrativos hasta apagones masivos o incluso holocaustos atómicos. En España únicamente  hubo ligeros desfases en dos centrales nucleares y problemas irrísorios en los datos del tráfico y en algunas gasolineras y parquímetros. Nada demasiado apcalíptico. 

In: Revista Historia Y Vida. Nº 526. p. 20.

domingo, 25 de março de 2012

As centúrias de Nostradamus: uma crônica do século XVI

O imenso sucesso de Nostradamus continua a surpreender e, muitas vezes, chega a incomodar. O hermetismo da linguagem utilizada em suas Centúrias astrológicas (publicadas originalmente com o título de Profecias, em 1555) confere ao texto tamanha plasticidade que ele parece poder se adaptar a todas as épocas e a todos os temores. No entanto, quem as interpreta à luz do presente deve sempre lembrar que as Profecias foram escritas em um contexto histórico bem particular: o das guerras religiosas na França do século XVI. [...]

As Profecias foram publicadas entre 1555 e 1557, quando a tensão política e religiosa na França se aproximava do auge. No dia 4 de setembro de 1557, uma assembléia calvinista foi fechada em Paris, resultando na prisão de 128 pessoas, das quais sete foram condenadas à fogueira. No Sacro Império Romano-Germânico o cisma religioso já havia provocado guerras cujos detalhes Nostradamus conhecia bem graças à correspondência que mantinha com "clientes" em toda a Europa. Não surpreende, portanto, que suas  Profecias sejam marcadas por um clima de violência e de morte. Entre inúmeros exemplos, há o da quadra 46 da centúria II:

Após grande miséria para a
humanidade, outra maior
se aproxima
Quando se renova o grande
ciclo dos séculos
Choverá sangue, fome e guerra
Nos céus será visto um fogo
arrastando uma trilha de faíscas

Nos versos de Nostradamus, a barbárie se apresenta frequentemente com os traços do cisma religioso que desencadeia o Apocalipse. A Igreja católica e o papa aparecem como vítimas recorrentes. A quadra 15 da centúria II prevê a ruína dos eclesiásticos e de seus adversários, os protestantes:

Marte nos ameaça com a força
da guerra
E causará setenta vezes
derramamento de sangue
O clero será exaltado e aviltado
Por aqueles que não querem
dele aprender nada

As Profecias de Nostradamus são um testemunho de seu tempo. Existe uma relação profunda entre a atmosfera de caos que o autor descreve em suas quadras e o estilo que escolheu para representá-la. A linguagem de Nostradamus é cheia de invenções, de formas inusitadas e desconcertantes que introduzem a confusão na sintaxe e no léxico. A desordem das palavras é o reflexo da desordem das coisas.

O sucesso imediato de Nostradamus se deve provavelmente mais a seu gênio literário do que a suas capacidades visionárias. Sua obra registra a violência de uma época dilacerada pelo cisma religioso e atormentada pela perspectiva do Juízo Final.

Durante o Renascimento, as especulações sobre o futuro não eram obra de alguns poucos charlatães. A astrologia era uma prática comum, baseada na certeza de que qualquer coisa era um sinal. O futuro era visto como a realização de uma realidade já prevista.

As sensibilidades religiosas do século XVI concordavam plenamente com essa visão de futuro. As catástrofes naturais e as anomalias climáticas ou biológicas eram interpretadas à luz da Bíblia e de mapas astrais. As controvérsias entre astrólogos e teólogos não se referiam à legitimidade da ciência astrológica, universalmente reconhecida. O que os clérigos questionavam era o grau de contingência das previsões e o espaço que reservavam ao livre-arbítrio dos homens.

Os protestantes adotavam a mesma postura ambígua em relação à astrologia. Enquanto Lutero admitia a importância e a legitimidade da advinhação, Calvino condenava aqueles que previam o destino dos homens com arrogância.

O conflito religioso irrompeu, portanto, em um contexto de inquietação, em que os mínimos sinais da cólera divina eram interpretados como prenúncios do Juízo Final. De acordo com o historiador Denis Crouzet, esse clima teria contribuído muito para a brutalidade dos embates entre católicos e protestantes, já que a percepção do adversário religioso como um possível anticristo transformava a violência no último recurso purificador e salvador.

Nostradamus

Nenhum outro autor expressou melhor que Nostradamus essa relação entre a violência e a angústia do fim dos tempos. Aliás, seus contemporâneos perceberam as vantagens políticas e religiosas disso e sua obra foi usada tanto por católicos quanto por protestantes.

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[...] Os textos de Nostradamus não só expressam o clima de terror e de violência que reinava no período, como oferecem um sentido à história. A infelicidade dos homens deixa então de parecer arbitrária para se tornar a expressão de um destino.

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Hervé Drévillon. As centúrias, uma crônica do século XVI. In: Revista História Viva. Ano IX, n. 99. p. 42-45.

sábado, 17 de março de 2012

O fenômeno 2012

Tempestades solares, inversão dos pólos magnéticos da Terra, erupção de um supervulcão, cataclismo planetário... Entenda como o mercado da catástrofe transformou uma data ritual maia em sinônimo de fim dos tempos

por Bruno Fiuza

Descoberta em 1790 na Cidade do México, a Pedra do Sol é uma representação da doutrina das Eras do Mundo que os astecas herdaram dos maias.

Assim como aconteceu por volta do ano 1000, a chegada do terceiro milênio foi acompanhada pela proliferação de profecias escatológicas. Agora, porém, os supostos presságios de cataclismo não vêm da tradição cristã, mas de uma antiga civilização que surgiu em meio às florestas tropicais da América Central e viveu seu período de apogeu entre os séculos II e IX: os maias.

Para esse povo, o ano de 2012 marca o fim de um ciclo de 5.125,36 anos de seu calendário. Segundo a tradição maia, ao fim de cada ciclo a humanidade entra em uma nova era [...].

O sistema de Conta Longa do calendário maia foi utilizado por séculos, até desaparecer após a decadência dos centros de poder do Período Clássico, no século IX. No entanto, cerca de mil anos mais tarde os boatos da existência de uma civilização perdida nas florestas do sul do México despertaram o interesse de exploradores modernos como o mexicano Antonio del Rio, o francês Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, o americano John Lloyd Stephens e o inglês Frederick Catherwood. Entre as décadas de 1820 e 1840 eles localizaram as primeiras ruínas de cidades maias e, com elas, os vestígios dos sistemas de escrita e de calendário dessa civilização.

Inspirado por essas descobertas, na década de 1880 o pesquisador inglês Alfred Maudslay fotografou os glifos gravados nas ruínas localizadas até então. Ao analisar essas imagens, o americano Joseph Goodman identificou o funcionamento do calendário maia. Na mesma época, o alemão Ernst Förstemann chegava a conclusões semelhantes ao estudar textos maias reunidos no Códice de Dresden.

Em 1905, Goodman apresentou um modelo de correlação entre as datas da Conta Longa do calendário maia e as do calendário gregoriano. Sua teoria foi complementada pelo antropólogo mexicano Martinez Hernández e pelo arqueólogo inglês J. Eric S. Thompson na década de 1920. O trabalho combinado dos três deu origem à fórmula usada atualmente para converter as datas da Conta Longa do calendário maia para o calendário gregoriano.

As analisar essas datas à luz da cosmologia maia, os pesquisadores chegaram a uma constatação para esse povo, a história do mundo se dividia em eras de 5.125,36 anos, e cada vez que um desses ciclos terminava nosso planeta passava por um período de intensa renovação, quando começava uma nova etapa para a humanidade.

Como a Longa Data do calendário maia era extremamente precisa e informava que a era atual havia começado em 11 de agosto de 3114 a.C., o arqueólogo americano Michael Coe calculou que o atual ciclo terminaria em 24 de dezembro de 2011. Coe publicou essa data final em seu livro Os maias, de 1966, mas pesquisas posteriores demonstraram que a conta estava errada. O equívoco foi corrigido nas edições seguintes da obra, e hoje a data mais aceita para o fim do ciclo é 21 de dezembro de 2012.

Até esse momento, o calendário maia era um assunto restrito a pesquisadores especializados, mas no início da década de 1970 ocorreu uma mudança que transformaria 2012 em um fenômeno de massas, como explica o pesquisador americano John Major Jenkins em seu livro 2012 - A história. Nessa época, dois escritores americanos viram nas traduções místicas dos povos ancestrais do México um antídoto para os males da civilização industrial moderna.

O primeiro foi Tony Sheaner, jornalista de Denver que no fim da década de 1960 largou tudo para viver no México. No início dos anos 1970 ele publicou dois livros em que relacionou a cosmologia e os ciclos de calendário utilizados pelos astecas para formular uma teoria segundo a qual a humanidade estaria vivendo os últimos momentos de um ciclo que terminaria em 1987. Nessa data que se batizou de Convergência Harmônica, o planeta passaria por um renascimento espiritual que marcaria o início de uma nova era.

O segundo foi Frank Waters, que em 1975 publicou um livro no qual estudou o significado místico da Conta Longa do calendário maia. Segundo Waters, os ciclos de 5.125,36 anos se baseariam em cálculos astronômicos e astrológicos e estariam ligados a uma doutrina de Eras do Mundo. Por ter sido o primeiro autor a tratar o fim de um ciclo do calendário maia como um marco de transformação espiritual, Jenkins afirma que Waters "pode ser considerado o homem que desencadeou o fenômeno 2012".

Inspirado por essas descobertas, o escritor americano José Arguelles organizou um grande evento para celebrar a Convergência Harmônica que Sheaner havia previsto para 1987. Nesse mesmo ano, Arguelles publicou um livro chamado O fator maia, no qual apresentou sua própria interpretação espiritual dos ciclos de Conta Longa. Segundo ele, 2012 seria uma nova Convergência Harmônica, que provocaria uma grande transformação espiritual na Terra.

Graças ao sucesso do livro e da Convergência Harmônica de 1987, Arguelles se tornou o líder de movimento que se propunha a adotar o calendário maia e viver de acordo com seus princípios. Em 1991, o escritor desenvolveu um sistema de contagem de tempo batizado de Dreamspell, que ele inicialmente apresentou como uma versão moderna do próprio calendário maia, mas que tinha diferenças importantes em relação à contagem de dias tradicional desse povo.

* A invenção da catástrofe. O movimento criado por Arguelles transformou o calendário maia em um fenômeno pop, mas ele mesmo não via 2012 como o fim do mundo. As teorias que associavam o fim do atual ciclo a cenários catastróficos ganharam força a partir da década de 1990.

Em 1995, o engenheiro e cientista Maurice Cotterell e o escritor Adrian Gilbert publicaram o livro As profecias maias, que apresenta a teoria desenvolvida por Cotterell segundo a qual os ciclos de Conta Longa do calendário maia estariam relacionados a ciclos de atividade solar. Segundo o cientista, o fim da era atual em 2012 coincidiria com um enorme aumento das explosões no interior do Sol, quando o astro envia nuvens de prótons e elétrons em direção à Terra que poderiam inverter os pólos magnéticos do planeta.

Cotterell não apresenta nenhuma evidência concreta tirada da cultura maia que respalde sua tese, mas o sucesso comercial de As profecias maias popularizou essas ideias. Algumas foram retomadas pelo escritor americano Lawrence Joseph no livro Apocalipse 2012, publicado em 2004. Joseph se baseia na teoria do pico da atividade solar em 2012 e acrescenta alguns elementos à fórmula: segundo ele, o fenômeno poderia ser acompanhado por megarrajadas de radiação com potencial para acabar com a vida em nosso mundo, provocar a inversão dos pólos magnéticos da Terra e aquecer o núcleo do planeta a tal ponto que um supervulcão localizado sob o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, entraria em erupção.

Por causa dessas teorias absurdas, sem nenhuma ligação com o antigo pensamento maia, o estudo do significado de 2012 para essa civilização foi praticamente descartado pelos pesquisadores acadêmicos. Muitos especialistas afirmam que os maias nunca fizeram nenhuma menção a 2012 e que tudo não passaria  de uma grande invenção moderna.

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Bruno Fiuza. O fenômeno 2012. In: Revista História Viva. Ano IX, n. 99. p. 46, 48-49.