"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 9 de agosto de 2015

O paganismo no Baixo Império Romano

Io (à esquerda, com chifres) e Ìsis (sentada, segurando uma serpente). Afresco romano no templo de Ísis, Pompéia. Artistas desconhecidos

* Cultos orientais e sincretismo. No que concerne ao paganismo, a influência do Oriente manifestou-se de maneira intensíssima desde o Alto Império [...]. Coube-lhes afirmarem-se no século III e com força ainda maior.

Foi esta a época, efetivamente, em que os cultos de divindades orientais conheceram maior êxito. Para nos limitar aos principais, os de Ísis, de Cibele e, principalmente, de Mitra atingiram o apogeu de sua difusão, facilitada doravante, não mais apenas pela tolerância, mas pela adesão pessoal dos imperadores. Em 197, Sétimo Severo celebrou em Lião, por um grande taurobólio, sua vitória sobre Clódio Albino. Em Roma, seu filho Caracala construiu um Serapeum e mandou adaptar um santuário de Mitra nos subterrâneos de suas grandes termas. O epíteto de Mitra, invictus (invicto), passou à lista de títulos imperiais, e uma inscrição oficial do tempo de Diocleciano mostra-nos que este deus se transformou então no patrono do Império.

Foi esta também a época em que com maior força se afirmou, contanto com o apoio do poder, a tendência ao sincretismo. Heliogábalo deu-lhe uma forma exagerada e ridícula pela pomposa celebração das núpcias do Baal de Emesa, de que era o sumo-sacerdote e cujo nome trazia, com Celestis, isto é, Tanit, vinda de Cartago por sua iniciativa. Da mesma forma, foi para o santuário por ele edificado ao seu deus que mandou transportar o fogo de Vesta, os escudos sagrados de Marte, a pedra negra da Grande Mãe, isto é, Cibele, originária de Pessinunte e introduzida em Roma pelo Senado no fim da segunda guerra púnica, etc. Mas, pondo-se de parte as extravagâncias, havia maior sensibilidade em relação ao que aproximava as divindades do que ao que as separava. Talvez se experimentasse também o desejo instintivo de levantar, frente ao Deus dos cristãos, um deus único, concentrando em si todas as energias cósmicas. Na ideia que dele se fazia, este ou aquele deus particular predominava: o Sol, fosse como Apolo, fosse diretamente sob o nome grego de Hélio ou  nome latino de Sol, Júpiter, Serápis, Mitra. Em todo caso, os atributos da luz, da dominação sobre todo o universo (cosmocrator), da invencibilidade, passavam indistintamente de um a outro, ao mesmo tempo que se ligavam ao próprio Imperador, transformado, assim, na encarnação terrestre dessa divindade toda-poderosa.

* O neoplatonismo de Plotino. Desde muito tempo [...] o movimento filosófico ajustava-se também a este movimento religioso e produziu, no século III, o que constitui a última grande criação do gênio grego no domínio em que se mostrava tão fecundo: o neoplatonismo que, esboçado em Alexandria por Amônio Sacas no começo do século III, foi completamente elaborado e ensinado em Roma, entre 244 e 270 aproximadamente, por um grego do Egito, Plotino. Encontramos aí as mesmas tendências da época, tanto o fervor exaltado e o apelo à sensibilidade, como a associação com fundo platônico de elementos provindos de doutrinas bastante diversas, em especial o pitagorismo, o aristotelismo e o estoicismo.

Plotino convidava o pensamento a conceber, por um ousadíssimo esforço de abstração, uma Unidade absoluta da qual procede, como por uma série de reflexos cada vez mais degredados, tudo o que existe, razão, alma, corpo. A realidade aparente interessava-lhe apenas pela ordem nela introduzida pelo Ser primeiro, em que se fundem e harmonizam todas as coisas. Um impulso interior impelia-o, pois, para a unidade divina. Mas seu monismo era também um panteísmo e acomodava-se mesmo com o politeísmo, pois todos os deuses são emanações do Ser; ademais, entre o mundo divino, ao qual pertencem os astros, e o mundo terrestre, existe uma multidão de demônios que o homem não pode negligenciar.

Na realidade, o sistema levava a recomendar um esforço de renúncia ascética da alma frente às realidades sensíveis. Se este malograsse, a alma imortal encarnar-se-ia em animais e até em categorias mais inferiores, isto é, em plantas. Se tivesse êxito, viveria à luz dos astros, chegando, finalmente, a absorver-se na fusão em Deus. Mas o êxito dependia do êxtase místico que, proporcionando a iluminação sobrenatural, a visão e a certeza da felicidade suprema, constituía a única possibilidade de estabelecer contato com esta. Assim sendo, o neoplatonismo desviava o espírito do raciocínio; este era empregado apenas para provar sua própria ineficácia.

* A teurgia. Plotino recusava-se a admitir uma religião que não fosse completamente interior. Mas, com a demonologia e a abdicação do racional, o neoplatonismo podia conduzir, e conduzia, longe. [...] Época alguma, pelo menos no mundo greco-romano, acreditou com tanta intensidade na ação imediata e quotidiana de forças superiores sobre o homem, por conseguinte, na adivinhação, na astrologia, magia e feitiçaria.

[...]

[...] Adotou-se o hábito de falar em teurgia, dada a insuficiência revelada pelo vocábulo teologia, pois, em lugar de se cingir a conhecer os deuses, a ambição agora era de agir juntamente com eles, por eles e como eles. Então, começaram a prosperar os mistagogos donos de lojas onde artificiosas e fantasmagóricas montagens cênicas, com música e ruídos insólitos, perfumes, vapores, sombras movediças, estátuas animadas, jogos de luz, impressionavam a imaginação dos neófitos. [...] Em Éfeso, Máximo, em meados do século IV, encarregava-se da iniciação nos mistérios de Hécate; o futuro Imperador Juliano, quando apostatou, mostrou-se sensível a estes mistérios, assim como às interpretações que lhe foram dadas acerca dos ritos e símbolos respectivos. [...]

Juliano praticou também o culto de Mitra; sofreu a aspersão de sangue num taurabólio; inicio-se nos mistérios de Ísis. O paganismo, pelo qual abandonou o Cristianismo, portanto, quase nada tinha [...] em comum com o dos grandes séculos clássicos, cujo patrocínio ele reivindicava. O seu era construído de efusões sentimentais perante o grande mistério da natureza, de inquietações sobre a salvação da alma, de impulsos em direção às beatitudes da imortalidade celeste. [...] Ora, o paganismo de Juliano era o de seu tempo; os campeões das virtudes racionais, os epicuristas, por exemplo, tornavam-se cada vez mais raros e eram considerados ateus.

* Helenismo e paganismo. Entretanto, mesmo cedendo a estas aspirações e recorrendo ao ocultismo, Juliano e os pagãos cultos ambicionavam defender o helenismo. Já na língua dos Evangelhos, heleno opunha-se a judeu: tratava-se , então, menos de politeísmo e monoteísmo do que de ignorância ou observação da Lei de Moisés. [...]

[...] O que os pagãos pretendiam afirmar era sua fidelidade à totalidade de um legado no qual os cristãos eram obrigados a escolher, separando a forma, que podiam admirar, do fundo, que teriam de abandonar. Isso porque a mitologia politeísta empregava as obras-primas literárias artísticas, honra do helenismo que, nascido na Grécia, fora adotado em Roma. [...]

E foi assim, de fato, que o pensamento pagão sobreviveu à morte de Juliano e, depois ao malogro da última tentativa política em torno do usurpador Eugênio. Por meio de interdição e perseguição - houve execuções capitais na época de Valente, uma das quais, pelo menos, na fogueira -, o governo imperial encarregou-se de desembaraçá-lo de suas turvas excrescências. Enquanto no Ocidente os últimos pagãos cultos promoviam ainda a filologia, no Oriente invocavam em seu favor o glorioso passado científico e filosófico da Grécia, principalmente Platão e, acessoriamente, Aristóteles. O neoplatonismo prosseguiu, abertamente, seu ensinamento nas duas escolas ainda acreditadas, em Alexandria e em Atenas. A primeira, continuadora do Museu dos Ptolomeus, parece que se afastou muito rapidamente dos desvios de Jâmblico e manteve o gosto pelas ciências, ao menos a Matemática. No início do século V, a bela e virtuosa Hipácia, filha do matemático Teon e autora de tratados matemáticos, servia de ilustração a esta afirmativa. Sinésio, que, embora se tornasse bispo, não deixou de se considerar filósofo, fora de seu discípulo. Mas sua fama irritava o chefe do cristianismo egípcio, o imperioso bispo Cirilo. Em 415, após os tumultos em que os pagãos não tiveram qualquer papel, alguns energúmenos atacaram-na em plena rua com tijolos, retalharam e queimaram seu cadáver. A escola de Alexandria não sobreviveu a este atentado. Quanto à de Atenas, viveu praticamente durante muito tempo ainda, limitando-se a comentar sem originalidade o pensamento dos grandes mestres; em 529, Justiniano ordenou seu fechamento, indo os derradeiros mestres buscar refúgio junto aos sassânidas.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu Império. As civilizações da Unidade Romana. A Ásia Oriental do início da Era Cristã ao fim do século II. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 64-9. (História geral das civilizações, v. 5)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente III: A Igreja e a evangelização

Hermann e Thusnelda, 
Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

As migrações bárbaras, sem dúvida alguma, favoreceram a reaparição de antigas heresias, muitas vezes latentes nas populações rurais. Isso ocorre na África e, sobretudo, na Espanha [...].

Os godos, antes de seu estabelecimento no Ocidente, haviam sido convertidos ao cristianismo. Porém conduzidos por Ulfila, um dos seus que estivera em Constantinopla quando do triunfo do arianismo, tornaram-se arianos. Ulfila foi consagrado bispo em 341 e, por volta do fim do século, as conversões maciças multiplicaram-se entre os godos. A fé ariana propagou-se a seguir entre os vândalos, borgúndios, suevos e, mais tarde, entre os lombardos. O antagonismo religioso foi, constantemente, um obstáculo à fusão entre germanos e romanos: igrejas separadas, proibição de casamentos, conversões difíceis. Na África, sérias perseguições provocadas certamente também pelo desejo de exterminar a aristocracia romana e a autoridade dos bispos, expulsam os cristãos de suas igrejas, forçam comunidades inteiras ao exílio na Espanha. Outros povos, é verdade, foram mais tolerantes, porém o problema ariano retardou em todo lugar a unidade e ameaçou a paz interior.

[...]

Muito mais difícil e longa foi a evangelização dos pagãos. Na Gália e no norte da Espanha, presencia-se, no século V, um vivo reflorescimento de antigas superstições e idolatrias. A chegada dos germanos, dos francos principalmente, reforça efetivamente esse paganismo, que havia, outrora, resistido às tentativas dos romanos e dos bispos. Sem dúvida, a conversão de reis e chefes foi rápida e espetacular. [...] De fato, no século VI ainda, se as cidades contam com sólidas comunidades cristãs reunidas em torno de seus bispos, a massa da população rural, na Gália, e mais ainda na Germânia além do Reno, permanece ligada às suas antigas crenças. A mesma palavra, paganus, designa, então o camponês e o pagão.


Germano com pele de urso polar, Hermann Katsch 

Dessa ligação às superstições e ao paganismo dão testemunhos a literatura da época [...], as práticas e o mobiliário funerário estudado por E. Salin. Os homens carregam inúmeros amuletos, presas de javalis, dentes de ursos, medalhões de resina ou de âmbar. Alimentam fogos purificadores sobre os túmulos, onde são celebradas refeições rituais. Levam oferendas aos deuses das fontes, dos lagos e das florestas; outros adoram o Sol e o fogo, cujos símbolos (rodas estilizadas, monstros contorcidos) enfeitam as pedras e os objetos familiares; outros, na Germânia, erguem ainda templos às divindades do antigo panteão romano, a Diana, por exemplo.

Nos primeiros tempos bárbaros, o bispo permanece como o único senhor da cidade, encarna a única força espiritual do momento e, muitas vezes, se identifica mesmo com a “nação” romana. Nessa época conturbada, a escolha dos cristãos recai freqüentemente sobre um leigo, pio e poderoso, já acostumado ao andamento dos assuntos públicos, Membro da aristocracia, rico proprietário, administrador experiente, o bispo protege a cidade contra pilhagens e desordens; assegura o abastecimento e controla o mercado, constrói e mantém hospitais e escolas. Perto da catedral faz trabalhar um grupo de pequenos artesãos e lojistas.

Os campos, porém, permanecem ainda, no século VI, pouco influenciados pela vida cristã. As paróquias são pouco numerosas e isoladas [...].

As conquistas longínquas do cristianismo, entretanto, na Gália do Norte e na Germânia, foram principalmente obra de monges missionários ligados, em sua maioria, a duas grandes famílias espirituais, por muito tempo opostas.

Psiquê, Évariste Vital Luminais

A Irlanda, situada à margem do mundo romano e, posteriormente da Bretanha anglo-saxônica, conserva seus antigos costumes, suas estruturas políticas e sociais bem particularizadas: grandes famílias tribais dominadas por chefes, reis, submissos eles próprios a reis mais poderosos. A evangelização da região foi obra de missionários: sacerdotes enviados pelo papa (em 431 por Celestino I) e, sobretudo, Patrício [...]. A nova Igreja, rapidamente toda-poderosa, organiza-se principalmente em volta de mosteiros que, na ausência de cidades e bispos, exercem toda a autoridade espiritual sobre as zonas rurais, convertendo-se nos únicos centros de vida religiosa e intelectual.

[...]

Os monges irlandeses certamente devem às tradições aventureiras dos escotos (pirataria, expedições nas costas da Bretanha e da Escócia) seu gosto por viagens longínquas e a vida errante; toda uma literatura épica e popular dá testemunho disso. A peregrinatio, o desejo de isolamento, virtudes fundamentais, explicam os sítios escarpados dos mosteiros, erguidos sobre ilhotas rochosas ou montanhas abruptas e as longas migrações solitárias [...].

Na Gália do Sul, entretanto, os primeiros mosteiros foram, de início, fundados nas costas da Provença, onde se exerciam mais intensamente as influências do Oriente [...].

[...]

A atividade missionária foi um dos aspectos essenciais dessa obra de restauração. Permitiu dessa forma reduzir os particularismos, a autonomia e o poder da Igreja da Irlanda. Em 597, Gregório enviou à Inglaterra, para evangelizar os saxões, Agostinho, abade do mosteiro que fundara em Roma no monte Coelio. Agostinho consegue rapidamente converter o rei Etelfrido e organiza prontamente a Igreja da Inglaterra: primado de Cantuária, províncias de Londres e York. Esta cristianização, entretanto, é superficial e os sucessores de Agostinho tiveram que lutar por muito tempo contra os reaparecimentos do paganismo. Somente por volta do fim do século VII, a maior parte da Inglaterra parece cristã. No mais, o estabelecimento da Igreja romana provoca um sensível descontentamento entre os monges irlandeses, que já haviam instalado mosteiros e centros de evangelização na ilha. A rivalidade entre as duas igrejas agrava-se ainda devido ao apego dos irlandeses a seus usos particulares: maneira da tonsura dos clérigos e fixação da festa da Páscoa. [...]

[...]


HEERS, Jacques. História medieval. São Paulo: Difel, 1974. p. 30-35.


NOTA: O texto "Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente III: A Igreja e a evangelização" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O universo mental e a cultura popular na Idade Média

A Igreja medieval tentou tornar o mundo o mais simbólico possível, somente decifrável pelos homens de fé. Somente os clérigos sabiam interpretar o mundo dos homens porque ele, segundo a pregação religiosa, havia sido criado como reflexo do mundo celestial. Uma vez que nosso mundo foi criado à semelhança da Cidade de Deus, somente aqueles que conheciam o mundo celestial podiam entender este em que vivemos. Dessa forma os clérigos definiam como deveria ser o comportamento humano, criavam regras de comportamento moral e social e valores culturais.

Assolados por um Demônio sempre à espreita do erro, obrigados a viver entre as muitas tentações condenadas pela Igreja - por exemplo, não pagar suas obrigações -, os pobres não podiam partir para a vida contemplativa, voltada apenas para as orações, para se livrarem dos pecados. Também não dispunham de recursos para fazer grandes doações à Igreja e assim livrarem-se do castigo do inferno. Era um cenário de terror.

Devemos nos perguntar, porém, em que medida as pessoas realmente se envolviam nessa pregação religiosa, ou apenas toleravam essa doutrinação, uma vez que ela era feita pela classe dominante; em que medida ainda preservavam suas tradições pagãs ou passaram de fato a acreditar somente nos valores católicos. Alguns aspectos da cultura popular nos indicam que havia reação a essa imposição cultural.

Uma das características da cultura oficial era o seu tom de seriedade. A crença numa providência divina sinistra; o papel dominante ocupado pela ideia de pecado; a necessidade do sofrimento para a redenção humana eram fatores que criavam um ambiente de preocupação constante. A opressão e a intimidação sofridas pelos pobres consagravam a seriedade. O tom sério afirmou-se como a única forma de expressar a verdade e tudo o que era importante e bom.

O riso, por sua vez, acabou sendo visto como o oposto: a expressão do que era mau. O riso foi declarado como uma emanação do diabo. O cristão deveria conservar a seriedade sempre, para demonstrar seu arrependimento e a dor que sentia na expiação dos seus pecados. É interessante notar que nas histórias infantis medievais essa articulação entre bem e seriedade, mal e riso é fortemente representada. A mocinha que é boa sofre sempre e é tristonha; a bruxa ou feiticeira que é má está sempre dando gargalhadas. Certamente que, seguindo o raciocínio moral da Idade Média, no final da história o sofrimento será recompensado e o riso castigado.

Por ter sido proibido, condenado como um pecado, o riso tornou-se uma forma de reação contra a opressão. Fora da ideologia oficial, o culto ao riso, à alegria, aos prazeres acontecia em, pelo menos, duas festas populares: a festa dos loucos e a festa do asno. Eram festividades realizadas nas ruas nas quais as pessoas se permitiam todas as transgressões possíveis: excessos na comida, embriaguez, gestos obscenos, nudez e, logicamente, muito riso.


A luta entre o carnaval e a quaresma (detalhe), Pieter Bruegel

A Igreja tentava combater esses rituais fazendo coincidir as festas religiosas com as festas pagãs, com o objetivo de cristianizar os cultos cômicos. A princípio a festa dos loucos era realizada dentro das igrejas. Quando foi proibida, passou a se realizar nas tavernas e nas ruas.

A tradição mais antiga permitia o riso e as brincadeiras no interior das igrejas durante a celebração da Páscoa. O padre, do púlpito, fazia brincadeiras e contava histórias divertidas para provocar o riso nos fiéis, depois do período de abstinência que precedia a Páscoa. Esse riso era entendido como uma forma de renascimento feliz após o longo tempo de jejum. As brincadeiras e as histórias usadas pelo padre para fazer os paroquianos rir fazem referência essencialmente à vida material e corporal. Assim como o riso, estavam autorizadas a ingestão de carne e a vida sexual, também proibidas durante o jejum.

Ao que parece, facções do clero organizavam festas exclusivas, sem a participação de leigos, onde os excessos de alimentos e de bebidas não eram condenados. Realizavam-se festas por ocasião da consagração de uma igreja, quando era rezada a primeira missa. Organizavam-se banquetes em honra dos protetores ou doadores enterrados na igreja, quando se bebia à saúde do morto. "Os dominicanos espanhóis bebiam à saúde de seus santos protetores sepultados nas igrejas, pronunciando o voto ambivalente típico: viva el muerto." (BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento.São Paulo: Hucitec/EUB, 1987. p. 69.)

Muitas festas católicas acabaram ganhando feições pagãs. Por exemplo, São Martim e São Miguel eram vestidos com roupas inspiradas no deus grego Baco, pois eram considerados protetores dos produtores de vinho. Na festa de São Lázaro vários costumes pagãos eram retomados: procissão de animais, o uso de fantasias, danças em praça pública. Todos esses são exemplos que comprovam que a cultura católica não sufocou traços de outras culturas, tendo havido contaminação da cultura pagã até mesmo nas festividades da própria Igreja.

Durante a festa dos loucos vigorava uma inversão social. As pessoas invertiam seus hábitos comuns: abusavam da bebida e da comida, perdiam o pudor, travestiam-se, riam abandonando a atitude geralmente série. Usavam as roupas do avesso e colocavam as calças na cabeça.


Dois tolos do carnaval, Pieter Bruegel

Mas, o que é mais sério, havia uma inversão do papel que os estamentos sociais representavam. Era feita a eleição de um abade, de um bispo, de um arcebispo e de um papa para provocar o riso nas pessoas. Esses clérigos cômicos realizavam missas solenes. Escolhiam-se reis e rainhas, que também deveriam rir. A ordem social, defendida como natural pelos poderosos, era subvertida nos dias de festa. Se na maior parte do ano os camponeses aceitavam com submissão o reinado de terror imposto pelos senhores, durante as festas eles revelavam seu descontentamento, sua indignação com a exploração a que eram submetidos. É como se, durante esses pandemônios públicos, os servos revelassem a consciência que tinham da injustiça social em que viviam.

As festas populares se opunham ao imobilismo social que definia o lugar de cada um na sociedade de acordo com o seu nascimento, sem oferecer a possibilidade de mudança. Também se opunham à rígidez conservadora do regime e das concepções estabelecidas, que não podiam ser contestadas.


A literatura oficial era sacra, de louvor a Deus. Contava a vida dos santos, escrevia e reescrevia os textos bíblicos, traduzia as regras de comportamento a ser seguidas pelos católicos. Os textos filosóficos tentavam entender e explicar os mistérios divinos. A literatura greco-romana ficava devidamente enclausurada nos mosteiros, acessível a membros do alto clero.

Bem diferente era a literatura difundida entre os populares. Acompanhando o sentido das festas populares, a literatura paródica subvertia o caráter dos textos sagrados, criava paródias para serem usadas na festa dos loucos, ou simplesmente para criar oportunidades de riso. [...]

A literatura paródica tinha um objetivo de recreação, era para ser lida em momentos de festa, nos quais predominava um clima de liberdade e de possibilidade de mudança da ordem estabelecida. Para os parodistas, em tudo havia comédia: na religião, na sociedade, no universo, na história. A exaltação do lado cômico funcionava, mais uma vez, como a negação e a repulsa à seriedade imposta pela cultura oficial. Nada mais lógico do que o fato de que a grande maioria das paródias se fazia sobre textos sagrados.

[...]

As versões cômicas das orações católicas mais conhecidas, como o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo, são numerosas. A partir do século XI todas as características da doutrina e dos cultos oficiais são parodiados. São conhecidas a Liturgia dos bêbados, a Liturgia dos jogadores, a Liturgia do dinheiro, o Evangelho do marco de prata, o Evangelho dos beberrões. Enfim, nada escapava dos parodistas.

[...]

Como reagia o poder diante de tanta irreverência? Ao que parece havia a necessidade de fazer concessões a esses deboches. Permitir essas transgressões periódicas, devidamente circunscritas nos dias de festa, era um pequeno preço a ser pago pelos longos dias da maior parte do ano, em que os populares se submetiam ao controle e, o mais importante, aos interesses da classe dominante.

No final do Império Romano o clero católico havia condenado as apresentações teatrais por considerá-las imorais e violentas. Dessa forma o teatro romano deixou de ser encenado. Todavia, foram os próprios clérigos que trouxeram o teatro de volta, aproveitando-se das festas religiosas para encenar peças que retratavam cenas bíblicas.

Na Alta Idade Média as encenações eram feitas dentro das igrejas. O aumento de público levou as apresentações para a praça pública [...]. De um lado do palco ficava o Paraíso e do outro a boca de um dragão representava o Inferno. Reproduzia-se, assim, o destino do ser humano segundo a visão cristã [...].

As encenações em praça pública eram feitas nos dias de festa, sobretudo no Natal e na Páscoa, e a mesma história era repetida várias vezes. Eram apresentadas cenas bíblicas misturadas a referências da vida cotidiana, para que os espectadores pudessem entender o simbolismo das ideias religiosas.

Mas, ao ser levado para as ruas, o teatro sofreu mudanças. Na praça, ao ar livre, foram aparecendo outros temas, além dos religiosos. Na Baixa Idade Média, representações que falavam do cotidiano, que faziam críticas às autoridades, que satirizavam os valores sociais foram se tornando cada vez mais populares, enquanto o clero perdia o controle sob a produção teatral. Os padres afastaram-se e as apresentações teatrais acabaram proibidas novamente.

PETTA, Nicolina Luiza de; OJEDA, Eduardo Aparício Baez. História: uma abordagem integrada. São Paulo: Moderna, 2001. p. 41-43.

NOTA: O texto "O universo mental e a cultura popular na Idade Média" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A memória pagã das romarias

Coleta para a manutenção da Igreja do Rosário
Jean Baptiste Debret

Os deslocamentos de devotos para a prática de culto a divindades em locais sagrados distantes - peregrinações chamadas em sua versão ibérica de romarias, em lembrança das excursões dos primeiros cristãos a Roma - constituem uma prática vinda da Antiguidade.

A motivação das caminhadas coletivas de fé baseou-se sempre na crença de que, em determinados locais, existiriam poderes sobrenaturais, quer por estarem concentradas neles as forças da natureza, quer pela descoberta de algo julgado milagroso junto a rios, fontes, cavernas, pedras, árvores ou bosques.

Em idade histórica, aliás, o fato de, próximo a Olímpia, a memória do deus grego Zeus ser lembrada em um altis ou bosque sagrado indica bem que esse deus dos deuses, muito antes de ganhar face humana em poemas de Homero, nove séculos antes de Cristo, já andava representado, em lugar ermo, em um carvalho ou em pedras de corte retangular ou em forma de obelisco ou de pirâmide.

Com o advento do cristianismo, essa tendência milenar à reverência mística de objetos, simbolicamente revestidos de poder sobrenatural, que no Ocidente já enfrentara a concorrência da requintada teogonia do politeísmo greco-romano, precisou adaptar-se a uma nova teofania que, a partir da imposição da ideia de um Deus feito homem, reduzia os mitos fundadores vindos da Antiguidade à necessidade de aceitação de uma hierofania representada figurativamente pelas imagens dos santos e pela busca por relíquias.

Essa fidelidade das camadas populares ao arquétipo da representação de poderes sobrenaturais em objetos materiais estava destinada, de qualquer forma, a facilitar o sucesso do cristianismo na adesão ao novo conceito de relíquia, que propunha enxergar também o sagrado em ossos, dentes, mechas de cabelos ou amostras de qualquer coisa ligada à presença de Cristo, sua família ou apóstolos, nos chamados lugares santos da Palestina.

Em verdade, foi a onda mística das peregrinações a Jerusalém em busca de relíquias, partidas da Europa desde o quinto século depois de Cristo, que permitiu a revivescência disfarçada de antigas práticas de cultos pagãos, já agora identificando em objetos não a representação de poderes mágicos ou sobrenaturais, mas a herança visível de algo materialmente ligado ao mistério da fé.

Essa busca por relíquias, aliás, ao acrescentar à intenção devota das peregrinações ao Oriente próximo o caráter de nova corrente de comércio com os árabes (há muito ativos na troca de bens do Oriente com os europeus através do Egito e de Constantinopla), acabou por gerar uma consequência política de grande repercussão histórica. É que, como a ocupação de Jerusalém em 1076 pelos turcos seldjúcidas (inimigos inconciliáveis dos cristãos) vinha coincidir com o início da luta contra a ocupação árabe da Península Ibérica, a partir da tomada de Toledo, em 1086, o papa Urbano II aproveitou para lançar, em 1095, a novidade das peregrinações armadas, sob o nome de cruzadas.

E foi assim que, nesse mesmo ano, os pobres da Europa, convocados por dois líderes religiosos - Pedro Eremita e Gauthier Sans Avoir -, partiram para a aventura da tomada do Santo Sepulcro pela força, em uma caminhada de fé que, registrada pela história com o nome de Cruzada dos Mendigos, redundaria no massacre da multidão de peregrinos pelos turcos, tão logo atingida a Ásia Menor.

Essa tão antiga disposição natural de acorrer em grupo aos locais de culto ou oráculos - e, entre os gregos, até o envio de embaixadas sagradas aos jogos de Olímpia, Delfos ou Delos, as chamadas teorias -, quando revestida de caráter, por assim dizer oficial, ou seja, quando destinada a cortejos locais de iniciativa do Estado ou de igrejas constituídas, ganhava estrutura sujeita a regras determinadas, para receber então o nome particular de procissão.

O esquema das procissões, logo adotado pelo cristianismo quando de sua institucionalização como igreja, sob o conceito do katholikós, universal, ia ganhar com a organização de suas regras litúrgicas diversas variantes: procissões de bênção, para dias determinados, como Domingo de Ramos; procissões votivas, como a celebração da Assunção (recebimento da Virgem maria no céu); procissões de trasladação, para acompanhar a mudança pública de imagens ou relíquias; procissões de peregrinação, à volta de grutas milagrosas como a de Lourdes, na frança, ou do Santuário de Fátima, em Portugal; e, por fim, procissões comemorativas de milagres ou acontecimentos da vida religiosa ou civil.

Pois essas procissões, que afinal reproduziam, em âmbito limitado, as livres caminhadas dos antigos a seus locais de culto, estavam destinadas a evoluir para certa teatralização religiosa que, em menos de um milênio, ia permitir a volta das velhas peregrinações de fé coletiva à sua origem popular, acrescida de um nítido sentido de festa, no que viria a se chamar, em Portugal, de círios e romarias.

TINHORÃO, José Ramos. Festa de negro em devoção de branco: do carnaval na procissão ao teatro no círio. São Paulo: UNESP, 2012. p. 3-6.

NOTA: O texto "A memória pagã das romarias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.