"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 4 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 4

[Consequências das iniciativas colonizadoras]


Vista de Sevilha, porta de entrada das Índias, ca. 1576-1600. Alonso Sánchez Coello

Assim que, a partir do século XVI, foram-se desenvolvendo as iniciativas colonizadoras de várias nações europeias, grandes transformações políticas, econômicas, sociais e culturais processaram-se na Europa. Ao mesmo tempo o eixo do comércio deslocou-se dos portos do Mediterrâneo para os do Atlântico. Em Lisboa, Sevilha, Cádiz os produtos e mercadorias coloniais eram comerciados e seguiam para os portos de Antuérpia, principal praça de mercado, Amsterdã, Bordeaux, Londres.

A enorme quantidade de ouro e de prata, introduzida na Europa pelos espanhóis, deu larga projeção política à Espanha permitindo-lhe durante um século custear guerras e comprar alianças com outros países.

Entretanto, começaram a esboçar-se acentuadas rivalidades entre as nações colonizadoras que resultariam em uma série de conflitos internacionais. Por outro lado, a grande quantidade de ouro e de prata derramando-se por toda a Europa provocou importantes modificações econômicas: a cunhagem de moedas, em larga escala, acarretou a desvalorização do dinheiro e uma assustadora alta de preços, particularmente dos produtos agrícolas.

A alta de preços* prejudicou sobretudo os nobres que, participando de questões e conflitos políticos, não controlavam a produção de suas terras; prejudicou também os trabalhadores do campo e da cidade cujos salários não acompanhavam o custo de vida. Beneficiaram-se todos aqueles que produziam, trocavam ou vendiam: os grandes proprietários de terras, os mestres-artesãos, os banqueiros, os comerciantes, isto é, a burguesia.

* A causa principal, quase única, da alta dos preços (que ninguém até agora mencionou) é a abundância do ouro e da prata existente hoje em dia neste reino em escala bem maior do que há quatrocentos anos.

Mas, diria alguém, de onde pode ter vindo, desde então, assim tanto ouro e tanta prata? [...] Os castelhanos, submetendo ao seu poder as novas terras ricas em ouro e prata, abarrotam a Espanha.

Ora, a Espanha que só vive graças à França, vendo-se inevitavelmente forçadas a vir buscar aqui cereais, linhos, tecidos, papel, corantes, livros, artefatos de madeira e todos os tipos de manufaturas, vai procurar para nós, nos confins do mundo, o ouro e a prata. (Jean Bodin, Da República)

Paralelamente a essas transformações econômicas e sociais, a Europa enriqueceu-se culturalmente, ampliando seus conhecimentos a respeito de astros, continentes, plantas até então desconhecidas vindas da América, a respeito de raças humanas e de civilizações até então ignoradas.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 188-9.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Piratas, corsários e bucaneiros nos mundos do Mediterrâneo, do Oceano Índico e do Atlântico

Piratas, Max Slevogt

[...] Todos os grandes corpos d’água – o Mediterrâneo, os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico – foram palco de pirataria, que algumas vezes apoiou e em outras desafiou os interesses políticos e econômicos dos Estados, impérios e nações. A pirataria ao redor do mundo revelou a permeabilidade das fronteiras e também o desafio das autoridades.

Abandonado, Howard Pyle

A pirataria pode ser vista como uma forma de comércio, na qual os indivíduos retiram o lucro agindo como intermediários entre os mercadores ou pelo confisco forçado das mercadorias para venda ou troca. A pirataria, em vários lugares, assinalou a existência das fronteiras – zonas de interação – que surgiram quando o controle político enfraqueceu. Fronteiras vulneráveis estavam, frequentemente, nas extremidades ou nos pontos de encontro de grandes políticas. A pirataria fazia parte de um sistema econômico maior; refletia a instabilidade, a desordem e o caos das fronteiras tanto quanto os criava. Às vezes, a pirataria também podia ser patrocinada pelos governantes ou rebeldes que buscavam utilizar os piratas como mercenários, para a obtenção de fins políticos. A pirataria dependia dos olhos de quem a viam e, se algo era pirataria ou comércio, dependia inteiramente da perspectiva do observador. Encontrada no Mediterrâneo, no Oceano Índico, no Atlântico e no Pacífico, a pirataria era uma extensão das experiências dos limites, dos encontros e das fronteiras terrestres.

Ilha dos Piratas, David Cox

[...] a pirataria [...] floresceu nas zonas limítrofes e de fronteira entre culturas. Durante os séculos XVI e XVII, a pirataria atingiu seu auge no Mediterrâneo, onde nem todos os piratas se opuseram ao controle estatal. Os corsários eram piratas licenciados pelo Estado. Sob o pretexto do corso, dois grupos igualmente apoiados, os Corsários Bárbaros e os Cavaleiros da Ordem de São João, agiram como guerreiros em uma extensão da guerra santa entre os turcos otomanos e a Espanha católica. Na verdade, essas duas forças corsárias realizaram um intercâmbio de mercadorias entre muçulmanos e cristãos que, de outra forma, teria sido impossível. Esses piratas estavam tão integrados na economia do Mediterrâneo que o sultão otomano de Constantinopla concordou com seu comércio ao apontar, pela primeira vez, um líder bárbaro ao posto de governador-geral de Argel, em 1518, e mais tarde ao o tornar almirante das frotas otomanas, em 1535.

O retorno dos corsários, Maurice Orange

Da mesma forma que, a colaboração íntima entre piratas e governos no Mediterrâneo, as elites que viviam ao longo da linha costeira do Canal da Mancha deram suporte em longa escala à pirataria durante a Era Elisabetana (nomeada em homenagem à Elisabeth I, aproximadamente 1588-1603). Por todo o século XVI, a gentry britânico ao longo da costa sul obteve lucros rápidos ao comercializar os espólios dos saqueadores locais. Essas condições se adequaram bem às aspirações das monarquias da época: a guerra com a Espanha era a maior preocupação internacional da soberana Tudor, mas travar a guerra era um problema, pois a monarquia ainda era dependente de forças voluntárias. Ao sancionar os piratas e os transformar em corsários – navios cujos capitães, durante o período de guerra, recebiam a autorização governamental para atacar portos e navios inimigos – Elisabeth obteve uma marinha sem custos em uma época em que a monarquia inglesa era incapaz de sustentar-se.

Captura do pirata Barba Negra, 1718. Jean Leon Gerome Ferris

A ambigüidade das identidades piratas e a constante transformação da natureza do ambiente em que a pirataria floresceu ocorreram igualmente no Oceano Índico. No começo do século XVIII, um marinheiro independente, chamado Kanhoji Angre, aliou-se à confederação de Marayha, que havia se formado na resistência ao Império Mughal. Ele também se aliou aos portugueses em Goa, que estavam interessados em desafiar os britânicos e holandeses, aliados dos Mughal. Contudo, Kanhoji atuou como um agente independente, apesar de sua aliança com os portugueses, de quem ele capturou um dos navios. Ele também capturou um navio inglês levando um agente da Companhia das Índias Orientais Britânica, cuja esposa foi mantida em troca de um resgate (Patrícia Risso). Kanhoji e suas contrapartes, no Oceano Índico, agiram de forma muito semelhante aos piratas de outros lugares. Eles eram como agentes com extrema independência, que eram utilizados por forças políticas terrestres quando necessário. Por sua vez, os piratas mudavam de aliados quando lhes convinha e buscavam enriquecer quando e onde fosse possível.

Espanhóis e corsários bárbaros, Cornelis Hendriksz

A hegemonia europeia e a feroz competição durante o século XVIII cruzaram o Atlântico até o Caribe, onde tudo ocorria em um pano de fundo de constante pirataria e corso. Nem toda pirataria é lucrativa. Um dos primeiros piratas a atravessar o Atlântico foi Paulmier de Gonneville, que tomou, de forma bem sucedida, mercadorias dos espanhóis, mas não foi capaz de recuperar os custos de sua expedição. Mercadores e navios tinham de se defender contra os piratas e corsários. O status de corsário também significava que, se eles fossem pegos por um inimigo, teriam os mesmos direitos dos soldados. Se capturados, eles seriam feitos prisioneiros em vez de serem enforcados como criminosos.

Bucaneiro, Howard Pyle

Os criminosos e os bucaneiros, ou servos fugidos escapando de seus contratos de servidão, encontraram segurança da exploração de seus senhores, lucrando ao se tornarem piratas no Caribe. Os bucaneiros começaram como caçadores de gado fugido em Santo Domingo (onde receberam o nome de boucan, um grill de madeira para carne defumada), e logo começaram a combinar a caça com a pirataria. Os bucaneiros atravessaram o Caribe e o Atlântico e atingiram lugares tão distantes quando Madagascar, no Oceano Índico, onde estabeleceram a República Pirata de Libertalia.

Uma ação entre um navio inglês e vassalos dos corsários bárbaros, Willem van de Velde the Younger

Como suas contrapartes das águas da Ásia e do Mediterrâneo, os piratas do Caribe se juntaram ao patrocínio político. Na verdade, foi difícil distinguir o contrabando do comércio legítimo, de tão pouco ortodoxas e inescrupulosas que eram, igualmente, as negociações dos mercadores e dos piratas. O famoso bucaneiro do final do século XVII, Henry Morgan, velejou sob as ordens do governador da Jamaica, uma colônia britânica. Sua última expedição foi uma tentativa de capturar e pilhar a Cidade do Panamá, apesar dos acordos entre a Espanha e a Inglaterra de cessar essas ilegalidades. Mais devastador para a pirataria do que as leis Britânicas de Navegação, que limitaram o comércio aos navios britânicos, foi o terremoto de Port Royal, em 1692, na Jamaica. O terremoto e as ondas altas subseqüentes açoitaram esse centro costeiro de pirataria, conhecido como “a cidade mais perversa da terra”, até ser coberta pelo mar.

Anne Bonny e Mary Read, Benjamin Cole

Como no mundo das águas cantonês, mulheres piratas não foram alto tão incomum nas fronteiras do Caribe. Duas dessas mulheres foram Mary Read e Anne Bonny, trazidas perante o governador da Jamaica, em 1720, e sentenciadas ao enforcamento. As mulheres foram ao mar como passageiras, serventes, esposas, prostitutas, lavadeiras, cozinheiras e, como menos freqüência, como marinheiras. Para evitar controvérsias e usurpar aquilo que era considerado como uma liberdade masculina, as piratas femininas frequentemente se vestiam como homens, utilizando calças e jaquetas masculinas e carregando pistolas ou machados, se não ambos. Read e Bonny também xingavam e diziam palavrões como qualquer homem. Ambas foram criadas em ambientes familiares não convencionais e se sobressaíram em suas presas escolhidas, sendo reconhecidas como líderes em seus navios piratas. Essas “mulheres guerreiras” foram celebradas ao redor do mundo atlântico em cantigas populares, sugerindo que seu impacto foi tanto econômico quanto cultural.


Piratas dividindo seus despojos, Howard Pyle

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 324, 326-328.

domingo, 31 de agosto de 2014

Atividades produtivas no mundo antigo oriental

A base da economia era, então, a agricultura e a criação de animais. No entanto, em algumas épocas, houve conflitos entre as duas atividades, representados pelo choque entre grupos pastores - povos ainda nômades - e os agricultores - povos sedentários. Muitas vezes, as inúmeras invasões sofridas pelos reinos organizados eram resultado desse processo.

Nas cidades, geralmente sob o controle de templos e palácios, desenvolvia-se o artesanato, destacando-se a cerâmica, a tecelagem e o trabalho com metais e pedras preciosas como os setores mais importantes, que cresciam desde longa data.

O artesanato de luxo, produzindo jóias, tecidos finos e ricos, era praticado principalmente na região Sírio-Palestina e particularmente entre os fenícios, que eram também os principais fornecedores para os grandes reinos e impérios.

No decorrer do I milênio a.C., generalizou-se a metalurgia, principalmente a do ferro, que conferiu aos povos que a dominavam uma extraordinária superioridade bélica, em virtude da produção de armas muito mais resistentes do que as feitas de bronze ou pedras. A utilização do ferro para o fim militar parece ter sido iniciada pelos hititas e, mais tarde, largamente utilizada pelos assírios.

Além das atividades produtivas, agropastoril e manufatureira, havia o comércio, outra atividade tipicamente urbana e controlada pelo Estado.

A vinculação entre o comércio e o governo teve seu ponto alto nos reinos semitas da região Síria-Palestina. Os reis eram, antes de tudo, grandes mercadores. O rei Salomão, dos hebreus, é o exemplo clássico.

Os maiores comerciantes da Antiguidade foram, porém, os fenícios, que eram os grandes navegadores do mundo antigo. Eles faziam um comércio verdadeiramente mundial (no contexto da Antiguidade), na medida em que integravam, pela navegação, toda a orla mediterrânea e traziam para os seus portos os produtos e as matérias-primas existentes nos mais diferentes lugares, inclusive grande quantidade de escravos. As cidades fenícias podiam, assim, suprir todo o restante da Ásia e até mesmo o Egito.


Transporte de cedro do Líbano. Baixo-relevo do Palácio de Sargão II, ca. 713-716 a.C., Dur Sharrukin , Assíria

Enquanto os fenícios se destacavam no mar, os arameus eram os grandes distribuidores terrestres. O comércio terrestre de longa distância foi beneficiado pela montagem dos grandes impérios, que construíram extensas vias de comunicação (estradas). Além disso, criaram formas de organização e controle (inclusive defesa contra salteadores) das grandes rotas e caravanas, capazes de transportar as mercadorias para os lugares mais distantes, até mesmo para a Índia ou a China, conforme comprovam escavações mais recentes. No Império Persa, por exemplo, foram construídas estradas, como a que ligava Sardes, na Lídia, a Susa, no Elam, com cerca de 2400 km de extensão.


Ataque assírio a uma cidade com arqueiros e um aríete com rodas. Baixo-relevo do Palácio de Nimrud, ca. 865-860 a.C.

Nos grandes impérios, a própria guerra era, muitas vezes, mais uma empresa comercial do que política ou militar. Algumas campanhas eram levadas a efeito tendo em vista os espólios (saques) de guerra. A conquista militar era também uma conquista econômica, representada pelo confisco dos bens e das propriedades das populações dominadas. Prisioneiros eram transformados em escravos e havia sempre a imposição de tributos, que os povos conquistados, ou seus soberanos, deveriam pagar periodicamente sob a forma de presentes aos conquistadores.


Representação de Hoshea, rei de Israel, pagando tributo ao rei Shalmaneser III da Assíria (2 Reis 17:3). Obelisco negro de Shalmaneser III de Nimrud, ca. 827 a.C. 
Foto: Steven G. Johnson

De certo modo, a guerra substituía o comércio e era a forma, por excelência, de expropriação de riquezas. A formação de um Império Assírio, rico e poderoso, por exemplo, foi o resultado e não a motivação inicial das guerras.

A guerra também tinha um sentido econômico na medida em que beneficiava a classe dos militares: os soldados, além de receberem parte do saque, passaram a ser recompensados com a propriedade da terra e de escravos. Além disso, muitos militares passaram a integrar os privilegiados quadros de altos funcionários do governo.

Mas mesmo o comércio, propriamente dito, era vinculado ao Estado.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 77-78.


NOTA: O texto "Atividades produtivas no mundo antigo oriental" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

As especiarias na Idade Moderna

Os "Mulus" colhendo pimenta preta. Ilustração francesa de As viagens de Marco Polo.

Na Antiguidade já eram conhecidas e valorizadas algumas das especiarias asiáticas que chegavam à Europa, onde eram consumidas pelas elites. Alarico, o general visigodo que em 408 sitiou Roma, exigiu como resgate para deixar a cidade, entre outras coisas, 3 mil kg de pimenta.

A pimenta (Piper nigrum), conhecida por nós como "do reino", era o principal desses produtos. Seu uso não era propriamente culinário, mas tratava-se, como a maioria das especiarias, de substância "quente", que servia para equilibrar os humores do corpo, que, segundo a medicina hipocrático-galênica, para ser saudável devia ter a tendência ao calor e à secura. Os temperamentos eram constituídos assim em função das temperaturas, as quais as especiarias (os temperos) podiam equilibrar (temperar).

As especiarias, portanto, mais que meros condimentos, eram substâncias preciosas, usadas como signo de distinção social, em um consumo suntuário, representando remédios provedores de calor e energia. Eram alimentos-droga, e a própria palavra droga vem de um termo holandês para "produto seco".

No século XV, o comércio de especiarias orientais na Europa foi objeto de guerras comerciais entre Gênova e Veneza, que venceu a disputa e dominou o comércio com os árabes e otomanos. Com a descoberta por Vasco da Gama, em 1498, do caminho às Índias Orientais pelo contorno do sul da África, pelo cabo da Boa Esperança, os portugueses passaram a predominar nesse tráfico e construíram todo um sistema de feitorias pela Ásia para garantir a posse desses tesouros vegetais. Para legitimá-los, contavam com várias bulas papais que lhes concederam, assim como para os espanhóis, o privilégio de exclusividade na exploração da África, Ásia e América, sob a justificativa da expansão da fé.

A segunda expedição portuguesa enviada para a Índia, após o retorno de Vasco da Gama, foi a liderada por Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil em 22 de abril de 1500 e depois continuou sua viagem para a Índia, onde combateu o reino local de Calicute e muitos morreram, incluindo Pero Vaz de Caminha.

Mais tarde, os portugueses derrotaram uma esquadra árabe-veneziana-indiana coligada na costa da Índia, em Diu (1509), e conquistaram sucessivamente Goa (1510), Malaca (1511), as ilhas de Amboíno, Ternate e Tidore (1514), Ormuz (1515) e se estabelecem em Colombo, no Ceilão (1519).

A primeira viagem ao redor do mundo, realizada pela expedição espanhola de Fernando de Magalhães, entre 1519 e 1522, tinha os cravos como "o principal objetivo de nossa viagem", conforme as palavras de Pigaffeta, autor do diário de bordo.

A pimenta vinha da costa ocidental da Índia, cujos reinos hinduístas de Calicute e Cochim a forneciam aos portugueses. A canela (Cinnamomum zeylanicum), do Ceilão. O cravo (Caryophylus aromaticus), das ilhas Amboíno, Ternate e Tidore, no arquipélago das Molucas, atual Indonésia. Das minúsculas ilhas de Banda, ao sul das Molucas, também procedia a noz-moscada (Myristica fragrans). Gengibre, ópio e outros produtos de menor importância completavam as cargas das naus mercantes. O padre jesuíta francês Pierre du Jaric, em 1608, exclamava: "Parece que Deus quis esconder aos homens em ilhas tão pequenas e tão remotas as iscas da glutonice".

A partir de 1595, os holandeses seguiram o mesmo caminho dos portugueses e passaram a se apossar das fontes das especiarias. Não reconheciam mais a autoridade do papa e predominaram militarmente tanto na Europa, onde venceram a guerra pela independência da Espanha, como no âmbito colonial. Numa verdadeira guerra mundial, tomaram o cravo da ilha Amboíno em 1605, fundaram Batávia, na ilha de Java, em 1609, depois tentaram se apossar do açúcar do Brasil, em 1624 e entre 1630 e 1654, e por fim tomaram o Ceilão e sua canela em 1658.

No Brasil, desde o século XVI, d. Manuel proibira o plantio das especiarias asiáticas, exceto o gengibre, mas, por outro lado, o comércio das drogas do sertão iria adquirir importância após o século XVIII, quando a quinina, a ipecacuanha (poaia), o cacau e outros produtos vegetais se tornaram importantes itens da exportação do Grão-Pará.

O holandês Gaspar Barléu escreveu, no século XVII, que as "drogas quentes", "temperadoras dos frios", eram, "a pimenta, o macis, a noz-moscada, a canela, o cravo, o bórax, o benjoim, o almíscar, o estoraque, o sândalo, a cochonilha, o índigo, o bezoar, o sangue-de-drago, a goma-guta, o incenso, a mirra, as cubebas, o ruibarbo, o açúcar, o salitre, a goma-laca, o gengibre". Também o açúcar e o tabaco são especiarias que, de produtos de luxo de consumo conspícuo, iriam se tornando aos poucos de alcance maciço, uma "vulgarização do luxo", como se refere o historiador Fernand Braudel, que destacou a importância central dessa massificação de mercadorias de luxo na formação do sistema mercantil moderno.

O comércio transoceânico de especiarias, tabaco, açúcar e outros produtos unificou pela primeira vez o globo, expandiu impérios ocidentais a um domínio inédito sobre o planeta, foi objeto de guerras e acumulou o capital da Revolução Industrial. O consumo cada vez mais intenso desses gêneros os tornou de primeira necessidade e fez de seu consumo um tempero da vida. A revolução que promoveram não foi apenas no gosto alimentar, mas na economia, nas relações internacionais e nos estilos de vida.

Henrique Carneiro. Especiarias. In: BETING, Graziella. História de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro, Duetto, 2009. p. 74-75.

NOTA: O texto "As especiarias na Idade Moderna" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A difusão do comércio de escravos: dos mercados de escravos do Oriente Médio ao tráfico Atlântico

O comércio de escravos (Escravos na Costa Oeste da África), François-Auguste Biard

A escravidão é cruel. [...] a posse de seres humanos por outros seres humanos está entre as piores práticas para deteriorar a humanidade. Porém, grande parte do que se chama de civilização foi construída sobre a escravidão. Nas culturas antigas, inclusive os sumérios, babilônios, a antiga Grécia e Roma, a escravidão era uma base econômica e geralmente considerada um modo de vida razoavelmente tolerável pelos menos privilegiados, que preferiam a escravidão a morrer de fome.

Os árabes tinham poucos problemas com a escravidão, fazendo deles os clientes ideais para os vikings, que vendiam escravos. Grande parte do litoral da Suécia fica no mar Báltico, de frente para o leste; então, os vikings dessa parte da Escandinávia geralmente navegavam para o leste em vez de irem para o oeste e para o sul, como faziam os vikings noruegueses e dinamarqueses. Conforme esses aventureiros nórdicos da Suécia exploravam pontos nas atuais Letônia, Lituânia e Estônia, eles começaram a navegar mais para o leste, atravessando pequenas baías e rios até chegarem à Rússia. Nas florestas do norte da Rússia, eles encontraram uma fonte de riqueza: um povo tribal, que foi capturado para ser vendido como escravo.

Os vikings não tinham dificuldade para chegar aos mercados de escravos do Oriente Médio pelo mar. Eles simplesmente transportavam sua carga através de um rio. O Dniepre corre pelo atual oeste da Rússia, passando pela Ucrânia e pela Bielorrúsia em seu caminho até o Mar Negro. A partir dali, eles podiam navegar até Constantinopla. Mas a leste, o rio Volga segue na direção sul até o Mar Cáspio, que faz fronteira com o atual Irã. A partir do Mar Cáspio, os vikings podiam chegar aos lucrativos mercados de escravos de Bagdá. Quando os missionários cristãos se aventuraram pela primeira vez na Escandinávia, os nórdicos capturaram e venderam alguns deles.

Os árabes já lidavam com escravos havia muito tempo e tinham outras fontes além dos comerciantes vikings para seres humanos prisioneiros. Desde a conquista de grande parte do norte da África, nos séculos VI e VII, os árabes levavam escravos daquele continente.

As guerras africanas, assim como as guerras em grande parte do restante do mundo desde os tempos pré-históricos, geralmente envolviam uma tribo ou um vilarejo que capturava as pessoas de outra tribo ou vilarejo. Conforme os comerciantes árabes penetraram no continente a partir do século VI, os africanos aprenderam que poderiam trocar seus inimigos prisioneiros por mercadorias valiosas com estes estrangeiros.

O comércio escravo árabe criou uma economia escrava na África, que ainda tinha força no final do século XV. Quando os navegadores portugueses começaram a aportar no oeste africano, encontraram vendedores de escravos locais dispostos a vender trabalhadores. Em 1482, os comerciantes portugueses construíram seu primeiro posto de troca de escravos em Gana. No início do século XVI, os portugueses enviavam prisioneiros para Portugal e as ilhas dos Açores, no Atlântico, onde os colonizadores portugueses precisavam de trabalhadores. Em alguns anos, havia um novo mercado para estes escravos nas Américas e os portugueses foram obrigados a fornecer para ele.


Navio negreiro, Rugendas

Em meados do século XVI, os colonizadores espanhóis das ilhas caribenhas haviam decidido que precisavam de uma nova fonte de trabalho. Os indígenas locais, que haviam sido escravizados, não tinham imunidade contra as doenças da Europa. Muitos estavam doentes ou fracos e muitos haviam morrido.

Os espanhóis começaram a importar escravos africanos, que tinham menos propensão de contrair varíola (a varíola - uma das doenças mais mortíferas entre os europeus e muito mais para os indígenas caribenhos - estava tão espalhada pela África que os escravos africanos acabaram desenvolvendo uma resistência natural). Os primeiros escravos foram comprados de navios portugueses por volta de 1530, iniciando um comércio que aumentou bastante ao longo dos séculos XVI e XVII e teve seu ápice no XVIII.

Também no século XVI, os espanhóis descobriram que o trabalho escravo fazia com que as colheitas, como a do açúcar, que podia ser cultivado em Hispaniola e outras ilhas caribenhas, fossem altamente rentáveis. Assim, eles compraram mais escravos. Por volta de 1700, quatro mil chegavam às ilhas governadas pela Espanha todos os anos.

Os ingleses, que estavam construindo seu primeiro estabelecimento permanente na América do Norte, em Jamestown, Virgínia, em 1607, não esperaram muito para começar a importar escravos. Os ingleses também tinham uma plantação bastante rentável e que exigia muitos trabalhadores: o tabaco. Em 1619, a Virgínia começou a usar escravos africanos nos campos de tabaco.

Portugal levou escravos para o Brasil em uma quantidade tão elevada que, por volta de 1800, metade da população deste país enorme tinha herança africana.

O tráfico de escravos era uma das maneiras mais certas de ficar rico com o comércio intercontinental, de 1500 a 1800. Os europeus se uniram aos comerciantes árabes e aos governantes africanos, que também podiam fazer fortuna com este negócio horrível. Os holandeses, ingleses, franceses e dinamarqueses se uniram aos portugueses, construindo estações de escravos na África.

"No Brasil, um pouco recuperados das agruras da viagem, os africanos eram exibidos nas lojas dos comerciantes de carne negra, amarrados uns aos outros. Às vezes eram tantos os negros que a mercadoria vazava para as ruas, onde ficava exposta à curiosidade dos compradores. Eram examinados como animais: apalpados, dedos enfiando-se pelas bocas, procurando os dentes para adivinhar a idade ou conferir se o vendedor não mentia. Os órgãos sexuais, objetos de cuidadosa inspeção, as mulheres tendo os seios manipulados e os genitais escancarados para a avaliação da sua qualidade como objeto sexual ou como "parideiras". Henry Koster repugna-se ante tamanha brutalidade: '[...] Deus de bondade! é a coisa mais horrível do mundo. Eles, porém, não parecem sentir mais que o desconforto da situação. Seu alimento é carne salgada, farinha de mandioca, feijão e às vezes banana da terra. A comida de cada dia é cozida no meio da rua, em enormes caldeirões. À noite, os escravos são conduzidos a um ou mais armazéns e o condutor fica de pé, contando-os à medida que eles passam. São trancados; e a porta é aberta de novo ao romper do dia seguinte'." (CHIAVENATO, Júlio José. O negro no Brasil, da senzala à guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 127-128.)

Em 1713, a Espanha concedeu à Inglaterra um monopólio para abastecer suas colônias americanas com 4800 escravos por ano durante 30 anos. Ninguém sabe quantas pessoas foram capturadas e vendidas, mas os números podem ter chegado a sete milhões somente no século XVIII. É difícil chegar a um número exato, parcialmente porque muitas pessoas morreram no transporte. As condições aterradoras a bordo dos navios negreiros incluíam colocar escravos acorrentados em ganchos com pouco mais de 90 centímetros de altura. Muitos morriam na sujeira, de doenças e de desespero e os marinheiros jogavam os corpos, sem qualquer cerimônia, no mar. Aqueles que sobreviviam eram vendidos em leilões.

HAUGEN, Peter. História do mundo para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011. p. 124-126.

sábado, 20 de abril de 2013

A preponderância holandesa no século XVII

A Holanda (denominação usualmente dada às Províncias Unidas dos Países Baixos), muito antes de se tornar independente, constituía uma das regiões mais florescentes da Europa.

The Y at Amsterdam, seen from the Mosselsteiger (mussel pier), Ludolf Bachuizen


Sua agricultura, apesar da escassez de terras, progredia. Suas indústrias desenvolviam-se, principalmente, na produção de tecidos de linho, estofos de lã, tapeçarias, construção naval, peixe salgado etc. O comércio, beneficiado com as vitórias sobre a Hansa Teutônica e pelos progressos da marinha, expandiu-se rapidamente, aproveitando-se das rotas fluviais (o Escalda, o Reno e o Mosa ligavam a região com a França e com o Sacro Império Romano-Germânico) e marítimas. Aspecto importante, na atividade mercantil, era sua intensidade com o porto de Lisboa, de onde transportavam produtos vindos do Brasil, da África e da Ásia. A propósito, a Hansa Teutônica foi uma associação de cidades alemãs; formada no século XIII sob a liderança de Lubeck, até o século XV dominou o comércio marítimo da Europa Setentrional; seu declínio deveu-se ao deslocamento do eixo econômico para o oceano Atlântico, consequência da Expansão Marítima e Comercial.

Com as rápidas transformações econômicas do século XVI, a sociedade assistiu ao fortalecimento de rica e ativa burguesia, sobretudo nos centros urbanos setentrionais dos Países Baixos, onde o calvinismo converteu-se na religião predominante.

Politicamente, os Países Baixos integravam-se ao Império Espanhol; cada uma das dezessete províncias dispunha de um conselho e de um governador (Estatúder) e enviava representantes aos Estados Gerais. As instituições comuns e a autonomia desfrutada, ao longo do governo de Carlos V, acabaram de forjar o sentimento nacional.

A ascensão de Felipe II ao trono espanhol marcou uma brusca mudança política em relação aos Países Baixos, ocorrendo crescentes choques contra a intolerância religiosa, manifestada pela introdução da Inquisição; a opressão fiscal, mediante a criação de novos impostos e elevação dos já existentes; regulamentação econômica promulgada em moldes mercantilistas e disposições administrativas suprimindo a autonomia existente.

A revolta conduziu à divisão dos Países Baixos: o Sul permaneceu unido à Espanha pela União de Arrás, enquanto os burgueses calvinistas do Norte formavam a União de Utrecht (1579), contando com a ajuda da Inglaterra de Elisabete I.

Apesar de a Espanha só haver reconhecido, diplomaticamente, a independência das Províncias Unidas mediante o Tratado de Vestfália (1648), estas já se haviam organizado em uma república federal, burguesa e calvinista.

"Os holandeses aproveitaram-se de várias circunstâncias favoráveis: sua localização em frente ao Mar do Norte; a ruína de Antuérpia; o declínio dos portos hanseáticos; e, sobretudo, a decadência de Portugal, que, então, estava anexado à Espanha." (ARONDEL, M.; LE GOFF, J. Du Moyen Âge aux Temps Moderns (1328-1715). Paris: Bordas, 1968. (Collection d'Histoire).

Ainda no decorrer da luta contra Felipe II, a Holanda procurou conquistar colônias aos luso-espanhóis )de 1580 a 1640 houve a União Ibérica), daí os ataques aos domínios ultramarinos daqueles países visando a efetuar pilhagens (foi, por exemplo, o caso das diversas incursões ao litoral brasileiro) e, principalmente, o estabelecimento definitivo. Na América, os holandeses se apoderaram da Guiana, da ilha de Curaçao, diversos pontos da América do Norte, tendo dominado o litoral norte e nordeste do Brasil durante algum tempo. Na África, estabeleceram-se na Colônia do Cabo e, temporariamente, em Angola, Benguela, São Tomé etc. No Oriente, criaram feitorias na Índia e dominaram Java, Ceilão, Málaca, Célebes, Molucas (as ilhas das especiarias), Nova Guiné, Sonda e Timor.

Para o processamento dessa intensa atividade, os holandeses construíram numerosas embarcações, formando a primeira frota naval do mundo.

Graças a tudo isso, Amsterdã, com suas feiras, sua Bolsa, seu banco, companhias de comércio (das Índias Ocidentais, das Índias Orientais), converteu-se no principal centro comercial e financeiro da Europa durante a primeira metade do século XVII.

Embora a ascensão hegemônica fosse rápida e se mantivesse na primeira metade do século XVII, o declínio se precipitou na segunda metade do mesmo século, quando guerras desastrosas, contra a Inglaterra (1652-1654 e 1655-1667) e contra a França (1672-1678), arruinaram o país e reduziram sua participação no comércio mundial.

Aos fatores externos somaram-se os de ordem interna, que apresentaram características distintas daquelas ocorridas nos Países Ibéricos. Com efeito, os holandeses foram incapazes de passar do capital comercial para o capital industrial: as excelentes possibilidades de lucro oferecidas pelas transações mercantis desviaram capitais de outras atividades, como a indústria, que estagnou e declinou; as perdas sofridas, externamente, acabaram dissipando a maior parte do capital de giro acumulado.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 39-42.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Ásia e África no comércio internacional


[...] O espaço marítimo que se estende desde as costas orientais da África até o sudeste asiático, penetrando até o Mediterrâneo através do mar Vermelho e até o Oriente Próximo pelo Golfo Pérsico foi, desde as origens da civilização, um lugar de freqüentes navegações, favorecidas pela regularidade das monções que sopram de sul a norte no verão e de norte a sul, no inverno, possibilitando percorrer longas distâncias em embarcações à vela.

Há pelo menos sete mil anos, já existia o tráfico marítimo no golfo Pérsico e, há cinco mil, a Mesopotâmia e a civilização do vale do Indo comerciavam entre si. No início de nossa era, há dois mil anos, havia, no Índico, uma densa rede de tráficos comerciais que ia desde Madagáscar até o sul da China em um amplo mercado que comercializava produtos da distante Europa (na Índia, encontraram-se objetos e moedas de ouro procedentes de Roma), marfim da África, estanho da Malásia e sedas da China.

Esses intercâmbios alcançaram tal importância que se pode afirmar que, entre 1250 e 1350, encontrava-se, ali, um mercado mundial em pleno processo de formação, diferente do que a Europa construiu em seu proveito a partir do século XVI, pelo fato de ser um sistema “policêntrico”, não dominado por um só povo, mas, que admitia a participação, em pé de igualdade, de europeus, asiáticos e africanos.

Num extremo deste mercado mundial, estavam as cidades-estado do leste da África, como Kilwa, um povoado com mesquitas e palácios, habitados por pessoas das mais diversas procedências, que devia sua importância ao fato de controlar a produção de ouro do interior africano (do reino de Guruswa ou Monomotapa, do qual se conservam as grandes ruínas de Zimbawe, a “grande casa de pedra”). Os comerciantes de Kilwa chegavam até o sudeste asiático, onde trocavam seus produtos com os da China.

Ruínas de Kilwa


No outro extremo desta rota, estava a China, onde localizava-se uma cidade comercial que o viajante muçulmano Ibn Batuta nos descreveu como sendo “a maior que meus olhos viram em toda a terra, com uma extensão que equivale a uma caminhada de três dias”. Compunha-se de seis recintos protegidos por uma grande muralha exterior: bum viviam os judeus, os cristãos e os zoroastrianos, noutro, os muçulmanos.

Esta era uma época em que a China diminuíra seu isolamento em que os grandes juncos, que transportavam até 400 passageiros, freqüentavam os portos do sul da Índia, comerciavam com a África e, talvez, tenham chegado à Austrália. Entre 1405 e 1433, a “frota do tesouro”, enviada pelo almirante eunuco Cheng Hô, fez sete grandes viagens ao golfo Pérsico e até as costas da África. A “frota do tesouro” era um conjunto de navios de carga, de abastecimento e de defesa, que chegou a levar 28.000 tripulantes, com dimensões globais não superadas até o século XX. [...] Posteriormente, quando o comércio chinês retraiu-se, os contatos se realizaram nos portos das cidades comerciais da Malásia e da atual Indonésia [...], onde os produtos da China eram trocados com os levados pelos comerciantes muçulmanos, que controlavam o comércio desde a Índia até as costas orientais da África.

Entre o século XIV e o XVI, estes fluxos chegaram ao seu ponto máximo, num âmbito que estava dominado, em boa parte, pela cultura islâmica. Os negócios compreendiam, ainda, mercadorias de consumo comum – cobre, ferro, arroz, cavalos – transportadas em grandes embarcações que levavam, também, numerosos peregrinos muçulmanos que iam a Meca, hindus que se dirigiam a Benares, budistas em viagem ao Ceilão e, inclusive, cristãos asiáticos que iam à Etiópia, seguindo as pegadas de Santo Tomás.

Ao lado deste comércio marítimo, havia, na Ásia, rotas terrestres que não só relacionavam estes países entre si – a Índia com a China, por exemplo -, mas que cruzavam a Ásia central e chegavam até os portos do Mediterrâneo oriental (o Levante) ou do mar Negro, pelo caminho conhecido como “o da seda”, transportando muitos outros produtos e conduzindo, também, outras mercadorias ao Oriente (no século XIII, os mongóis não só importavam tecidos do Ocidente, mas instalaram artesãos muçulmanos na China para que produzissem brocados de ouro). Nos portos ocidentais – desde a colônia genovesa de Kaffa, no mar Negro, até Alexandria do Egito, visitada frequentemente por catalãos, italianos e franceses – podiam-se encontrar mercadorias de diferentes partes do mundo e escravos das mais distintas raças e religiões. Um viajante sevilhano, Pero Tafur, nos deixou uma descrição de Kaffa em 1435. Era uma grande cidade (duas vezes a de Sevilha, como nos disse) e muito próspera, dedicada ao comércio de escravos, de peles, de especiarias e de pedra preciosas. “Aqui, vendem-se” – disse Tafur – “mais escravas e escravos que em todo o resto do mundo.” Os cristãos tinham bula do papa para comprar e manter escravizados cristãos de muitas nações “para que não acabem em mãos de mouros e reneguem sua fé”.

Porém, estas relações entre Oriente e Ocidente não se limitaram ao caminho das caravanas pelas rotas dos desertos, mas assentavam-se em redes comerciais solidamente estabelecidas: nas colônias de armênios, instaladas nas cidades (desde Marselha ou Amsterdam até a China) ou, nos séculos XVII e XVIII, na diáspora dos comerciantes indianos no Irã (onde parece que chegaram a ser milhares), em Turan (a terra dos uzbekos) e na Rússia, com uma forte penetração em Astrakan e posteriormente em Moscou.

No que se refere à África, o que mais se assemelhou a um comércio intercontinental foi o das caravanas entre a zona ao sul do Saara, de onde vinha o ouro de Gana, e os portos do Mediterrâneo. Mais ao sul, na zona tropical, a falta de animais para conduzir carros e a própria estrutura do território impediam o desenvolvimento de importantes intercâmbios terrestres, exceptuando-se os que ocorriam entre o interior e a costa. Isto explica que o comércio se efetuasse entre a África oriental, que comerciava no Índico, e a ocidental, que o fazia no Atlântico. [...] As do Atlântico eram muito diferentes: numa primeira etapa, estiveram sob o domínio dos navegadores muçulmanos que trocavam os produtos do Saara pelos da Andaluzia e do sul de Portugal, até que a perda das costas ibéricas abriu este espaço marítimo aos portugueses primeiro e, depois, a outros comerciantes europeus que buscavam, sobretudo, o ouro de Gana, até que, desde o século XVII, a crescente demanda de mão-de-obra das plantações americanas converteu os escravos na mais importante das exportações africanas (desde o final do século XIX, depois da proibição do “tráfico”, passaria a ser o azeite de coco e o amendoim). Em troca dos escravos africanos, recebiam, sobretudo, tecidos, artefatos metálicos, armas e bebidas alcoólicas. Esta importações, contudo, nunca alcançaram um volume que afetasse o desenvolvimento econômico africano, nem positiva nem negativamente, sendo que esta situação não se alterou até a conquista colonial. É a partir deste momento que se pode falar de uma situação de dependência que se prolonga até o presente. A África desempenhou um importante papel no surgimento do mercado mundial que a Europa configurou a partir da área do Atlântico, porém dele não se beneficiou.

FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: EDUSC, 2000. p. 145-151.