"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Masculinidade em Nossa Senhora do Desterro no século XIX

Uma rua da cidade do Desterro, Victor Meirelles

Foi em busca de uma vida de afetividade e sociabilidade que Duarte Paranhos Schutel, desterrense, estudante de medicina na cidade do Rio de Janeiro, em viagem pelas terras catarinenses, narrou o vivenciado no romance A Massambu (1861). Crônica sobre os costumes do povo catarinense, o romance acompanha as transformações urbanas que ocorriam nas cidades brasileiras no segundo império.

O dia mal tinha amanhecido, Duarte paranhos Schutel, juntamente com alguns amigos, verificava as bagagens e os apetrechos que os auxiliariam na viagem. O dia nublado, chuvoso e frio indicava que o caminho seria cansativo, o que tornava o percurso ainda mais difícil e perigoso. A festa do Divino Espírito Santo, em Santo Amaro da Imperatriz, cidade distante, a 80 quilômetros de Nossa Senhora do Desterro - atual cidade de Florianópolis - prometia fé e namoricos.

Os jovens amigos aventureiros iam com alguns dias de antecedência, com o propósito de participar da folia que antecedia a festa. De tradição açoriana, a folia do divino era uma pequena companhia de músicos e cantores que percorria, dias antes dos festejos, as ruas da cidade batendo de porta em porta a cantar, a comer, a dançar e a beber, recolhendo dinheiro para a igreja e donativos a serem leiloados no dia da festa do Divino Espírito Santo.

A travessia da serra do ubatão fora penosa com muita chuva e trovões que clareavam a mata e o longo paredão de rochas pontiagudas. O barulho da cachoeira com suas águas virgens a escorrer pelo penhasco obtuso num bailar nômade deixava à mostra suas reentrâncias repletas de languidez. Com habilidade e destreza, ao conduzirem suas montarias, os jovens aventureiros foram conquistando a serra. Agora, a descida, com a trilha iluminada pelos raios do sol, que atravessavam as copas da vegetação espessa, surgia como redentora de todos os temores. 

Na descida, já alcançando a pequena planície, repleta de pés de limões, laranjas e mamões cercados por uma roça de mandioca, os moços festeiros foram despertados pelo barulho de um carro de boi que transportava uma família que se dirigia a Santo Amaro da Imperatriz para participar dos festejos. Vinham famílias inteiras, uns a cavalo, outros em carro de boi, e existiam aqueles que se dirigiam ao lugar das festas caminhando pelas trilhas íngremes da região. Não demorou muito para que as pessoas estabelecessem uma conversa cordial, aos poucos dando referências de onde iam ficar na localidade. Nessas ocasiões, recorria-se ao abrigo de parentes próximos e distantes, às casas dos amigos e aos compadres, ou se amontoavam no interior da igreja em busca de proteção para as crianças e as mulheres. Enquanto isso, as moças, todas faceiras, trocavam olhares, sorrisos e gestos sorrateiros com os rapazes vistosos em busca de um enlace matrimonial. Era tempo também de novas alianças políticas e econômicas, de jogos de cartas com os amigos e de visitas a familiares.

E entre conversas despretensiosas, amenas e singelas, Schutel narra uma cena em que o erotismo invade seus pensamentos ao perceber que, distraidamente, uma das jovens sentada na beira da carroça de boi

[...] ia deixando um pezinho que, às vezes com o balanço, parecia fugir e adiante então um tornozelo bem malicioso.

Nesse descuido da inocência a menina ria conversando com os cavalheiros que pareciam não reparar nos desafios daquele pezinho [...].

Atento à cena que seu olhar observa, formula juízo de valor sobre a falta de atenção dos cavalheiros que cavalgavam logo atrás da carroça e que estabeleciam diálogo despretensioso e ingênuo com a moça. Na sua leitura, os cavalheiros não eram dignos de cobiçar os inocentes pezinhos, pois o primeiro "pequenino e magro trazia nas costas uma enorme bossa, que não era ao certo a da inteligência", enquanto o segundo, "gordo como um vigário", se espalhava sobre a montaria, fornido de barriga "para aguentar o peso desse monstro de cavalheiro".

Diante desse cenário bucólico que seu olhar identificava como território da languidez, percebeu ser a feiura a única coisa, em comum, a unir os dois cavalheiros que cavalgavam em conversação com a delicada e angelical menina-moça a balançar seus doces pezinhos de um lado para outro, criando essa despretensiosa inocência, "dando preferência ora à abundância ora à parcimônia".

Estes dois contrastes tinham, contudo uma cousa de comum, era a fealdade do rosto, nenhum se poderia gabar de mais favorecido do que outro, e por isso reinava a mais perfeita harmonia em sua amizade, onde não tinha entrado o ciúme.

O ciúme na província de Santa Catarina quase sempre foi o motivo dos desafetos das festas. Na vila de Tijuca Grande, distante 70 quilômetros ao norte de Florianópolis, o jornal O Campeão narra notícia dos filhos do senhor João Guerreiro, que primaram numa noite de sábado pela libertinagem e dissolução dos costumes. O motivo para o tumulto que se generalizou nas dependências da residência do senhor Ethur, ilustre comerciante da vila, foi a forma como o jovem Aristo dirigiu-se à namorada de um dos envolvidos.

[...] crê-se que levado por ciúmes, por galanteios do recém-chegado à sua namorada, levou de mão, e sem tir-te nem guar-te, descarregou -lhe uma brutal bofetada. Aristo assim ofendido ao baixar-se para juntar a si o agressor e vingar ao insulto, foi filado na goela por José Guerreiro. A este tempo, meteram-se de permeio outros moços ali presentes, tirando da mão ao primeiro a faca com que se preparava para de novo cair sobre sua vítima.

Engraçada e irônica foi a discussão estabelecida entre Manuel José Ferreira e sua esposa Ana Joaquina na Vila de São José da Terra Firme. Pelas páginas do jornal Correio Catharinense, Manuel e Ana Joaquina travaram discussão sobre traição cometida por ela. Enquanto o marido ultrajado acusava a esposa de adultério e de tê-lo abandonado com três crianças pequenas, sua esposa o denunciava por não querer dar-lhe seu quinhão de terras que possuíam no distrito de Picadas do Sul. O entrevero durou dias na imprensa desterrense e, por onde se andava, não se falava de outra coisa.

Vista do Desterro, Victor Meirelles

Logo que a desavença familiar começou a ser esquecida, a população da Ilha de Santa Catarina se viu envolvida em outro caso amoroso. Para delícia dos moradores da pacata e aprazível vila do Desterro, numa manhã de quarta-feira, um suposto amante preterido diante do seu assédio, vendo-se não mais correspondido em suas intenções amorosas, faz publicar na imprensa:

Recebi seu amável recado! Fiquei sabendo que minhas cartas não terão mais a honra de serem recebidas pela senhora, mas, peço, ao menos responda à que tive a honra de dirigir-lhe em 7 do corrente mês, pedindo uma solução favorável aos nossos negócios.

O viajante Auguste de Saint-Hilaire, que visitou a ilha de Santa Catarina, em 1820, e que aqui viveu algum tempo, registrou que, no Desterro, os homens se privavam de muitas coisas em favor das suas mulheres e amantes. Acrescentou ainda que não observou em outras regiões do Brasil patriarcal uma desproporção tão acentuada do vestuário feminino e masculino. Nos dias de festividades, elas se vestiam com elegância e bom gosto, "e a maneira como se acham trajados os seus maridos faz com que eles pareçam seus criados".

Açoriana, Victor Meirelles

Se os maridinhos arrumadinhos da Ilha de Santa Catarina se sacrificavam em nome de suas esposas e amantes, como constatou Saint-Hilaire, não saberíamos asseverar. Contudo, com o sugestivo título "Amor Perdido", o jornal Periódico da Semana narra as artimanhas que uma suposta amante encontrou por ter sido pega pelo amante nos braços de outro.

Tendo um amante encontrado a sua bela nos braços de seu rival, ela lhe negou atrevidamente o fato - Como! Disse ele furioso, atrevei-vos a negar a desmentir aquilo que eu vi com os meus próprios olhos?! Ah! pérfido! lhe disse ela, bem vejo que tu não me amas, visto que crês mas no que tu vês do que no que digo.

Diante da enfermidade do senhor Genuíno, alguém lhe sugere procurar o doutor Bovino, que possui um "meio fácil" para curá-lo.

O senhor Genuíno está atacado de uma moléstia conhecida pelo nome de corno Mania. Um sujeito a quem isto foi dito lembrou um meio fácil para obter-se cura infalível. E era ser consultado sem perda de tempo o doutor Bovino que cura pelo sistema de Rêlhopathia.

[...]

Ao difundir a economia dos gestos e das atitudes, a burguesia, em ascensão na província de Santa Catarina, tratava de patrocinar as clivagens das condutas. A representação do homem cortês, provedor e próspero tornara-se, no século XIX, a imagem a ser conquistada e construída.

Os rituais das ambiguidades e dos contraditórios buscavam a afirmação de si numa sociedade repleta de salões e palcos. A encenação das atitudes e gestos inventava uma corrente de signos e de simbologias. E seu itinerário evaporava-se nos impulsos de um mundo sem limites. Decifrar os códigos e dominar as etiquetas era a única oportunidade para o homem mensurar e distinguir as práticas de afetividade e de sociabilidade. [...]

[...]

Schutel, depois de devidamente instalado nas cercanias da vila, na residência de um parente distante, logo que chegou à festa do Divino Espírito Santo e diante da movimentação no adro da igreja, bem como no seu interior, perscrutou o burburinho de olhares, gestos e palavras sussurradas em segredos. Sinais identificados como espaço da libidinosidade e que, de acordo com seu juízo ético, "era justamente o prazer que os homens buscavam espalhar com essa festa".

Entre sua inocência e inocentes observações, descreve os homens presentes na festa - roceiros, matutos, mal-educados, magros, apatetados, mal trajados, viciados em jogos, feios, obesos - e, em várias oportunidades, não deixa de criticar, com certa ironia, o vestuário dos homens dessa paragem. [...]

[...]

Auguste de Saint-Hilaire, em sua expedição à província de Santa Catarina, ao visitar a ilha em 1820, viu alguma elegância no vestuário dos homens de maiores posses. Seus trajes eram constituídos de calça de algodão, chapéu de feltro preto e sapatos muito limpos.

Robert Avé-Lallemante, que andou por terras catarinenses em 1858, assevera ao seu indulgente leitor que falta à cidade de Nossa Senhora do Desterro "o verniz de certa elegância", porém encontrou na festa da romaria do menino Jesus "cavalheiros e senhoras muito elegantes a cavalo [...] e que tinham boa aparência".

[...]

John Mawe, que chegou a Nossa Senhora do Desterro no dia 29 de setembro, em plena primavera de 1807, participou de algumas reuniões sociais. Conta que "os habitantes, em geral, são muito urbanos e corteses para com os estrangeiros".

[...]

Ao desencadearem uma série de imagens da população masculina da capital da província de Santa Catarina, os viajantes estrangeiros quase sempre construíram as representações masculinas a partir de seu olhar europeu, que via, no novo mundo, o lugar da barbárie.

[...]

Antonio Emilio Morga. Masculinidade em Nossa Senhora do Desterro e Manaós: territórios e ardis. In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Márcia (Orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: EDUSP, 2013. p. 213-218, 222-223, 230-232.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Estética no fim do medievo: Contradições da vida moral

Cavaleiros medievais, Codex Manesse, entre 1305-1315, Meister des Codex Manesse

Angústia da existência e aspiração de uma vida melhor, todas as hesitações e todos os contrastes que marcam o pensamento filosófico e a vida religiosa encontram-se nos séculos XIV e XV, tanto na expressão da vida social como nas manifestações da arte. Abriu-se debate entre o sensível e o racional, a espontaneidade e a rebusca, a brutalidade e a afetividade. Nenhuma tendência das que se afirmam faz antever a resposta a este debate.

Seria fácil compor, utilizando os arquivos judiciários e os textos moralistas mal-humorados – neste tempo em que florescia o gênero dos Sonhos e das Lamentações -, um quadro exageradamente negro dos costumes da sociedade cristã. Era a época da peste e da guerra, ambas endêmicas. Tratar-se-ia de uma sociedade “fora dos eixos”, que perdera todo o pudor, fazendo gala de seus vícios e brutalidades, próxima em geral da demência, passando sem transição do crime cínico à penitência piegas, glorificando-se por vezes das suas ações torpes e respirando deliciada o odor dos túmulos? Muitos traços desta pintura romântica, ora trágica, ora picaresca, provém de uma ilusão de óptica. Efetivamente, devemos observar, de um lado, que os progressos dos espírito laico assim como da classe burguesa haviam [...] desenvolvido o gosto pela sátira social, pela maior liberdade de expressão e por um realismo menos embaraçado com as convenções. De outro, como se acentuava o contraste entre os costumes, sempre brutais, e o luxo crescente das classes elevadas, as contradições morais ainda ressaltavam mais vivamente.

Na sua vida, em geral precária e curta, os homens do século XIV não se embaraçavam com as próprias indignidades nem respeitavam as alheias. A inauguração em Hamburgo, em 1375, do primeiro manicômio será uma prova de agravamento das doenças mentais? De qualquer forma, é inegável que nenhuma corte deixava de possuir os seus loucos e anões; não havia festas populares onde eles não aparecessem: eram incluídos entre os animais dos circos. Como todos os seus predecessores, há séculos, os reis e os senhores não sabiam moderar suas violências; os súbitos ataques da raiva do cavalheiresco João, o Bom ou do afável Eduardo III, os acessos de furor de Filipe, o Bom, que se acalmava andando a cavalo, até o esgotamento, na floresta de Soignes, das crises de “melancolia” do Temerário são comuns a todos aqueles cuja vida ora guerreira, ora cheia de refinamentos não incitava a controlar as paixões. Froissart, embora seja um admirador cego da classe dos cavaleiros, confessa que “altos príncipes e altos senhores... seriam como que animais se não existisse o clero”. A atração das ciências ocultas difundidas largamente pelos próprios homens da Igreja, inclinados demais a denunciar um mal que viam em toda parte, é um indício de que, nestes tempos perturbadores, se procuravam aliados em todas as forças sobrenaturais ou infernais. Henrique de Transtâmara nada empreendia sem consultar o seu necromante de Toledo; dizia-se que um espírito familiar de Gaston-Phoebus, Conde de Foix, o avisava dos acontecimentos no próprio instante em que estes se desenrolavam. Quando um homem tão equilibrado como Gérson achava oportuno escrever um tratado destinado a afastar suas irmãs das infelicidades do casamento, fazia-o tanto como eco da antiga maldição monástica, reprovando o ato da carne, como para protestar contra as licenciosidades e aberrações de que era testemunha. Destes excessos, os moralistas extraíam uma condenação absoluta da vida secular, desde o romance satírico que acusa todos os contemporâneos de passar o tempo “assoando Fauvel” – o asno vermelho símbolo de todos os vícios – até às poesias de Eustache Deschamps, maldizendo aquele.

Temps plain d’orreur qui tout fait faussement
Age menteur, plain d’orgueil et d’envie.¹

Seu pessimismo tornava-se ainda mais forte perante as paixões coletivas que assaltavam prontamente as multidões urbanas. Estas ora choravam nos sermões, recebendo os sacramentos com fervor e expulsando as mulheres de vida fácil por exortação de um pregador (tolerando-as no entanto logo no dia seguinte), ora se revoltavam em “comoções” sangrentas, às quais, aliás, se mesclavam curiosamente os seres celestes. Assim, por ocasião das chacinas da guerra civil, em 1413 e 1418, os rebeldes parisienses colocaram sobre as imagens dos seus santos um chapéu largo, dos usados na Borgonha. Entretanto, as distrações populares assumiam freqüentemente foros de revoltante brutalidade, como acontecia com os espetáculos, prolongados à vontade, das execuções capitais, ou como certo torneio de cegos, realizado em Paris, em que estes se chacinavam a pauladas. Em todas as cidades existiam malandrins que de noite dominavam as ruas escuras. Em Paris havia o “reino dos maltrapilhos”, entre os quais os “francos burgueses”, cujo nome procedia de sua recusa de participar nos encargos comuns. A guerra provocou a subida à superfície, vindos dos covis, destes bandos de ladrões, assaltantes e assassinos; os coquillards² do século XV chegam a injuriar o próprio emblema dos peregrinos de Santiago.

Se as paixões são vivas e as dificuldades de uma inquieta existência incitam os homens a fazer fortuna o mais depressa possível – os coletores de impostos, cambistas e comerciantes de todos os gêneros são os mais apressados e também os mais frequentemente acusados de fraudes e concussões -, devemos esquecer o “burguês honesto” e o “pobre trabalhador”, cuja existência só conhecemos quando, tendo-se afastado da boa conduta, solicitam em termos chorosos as respectivas cartas de remissão. Existem duas maneiras de julgar o tempo em que vivemos ou condená-lo sem apelo, como fazem os moralistas e os satiristas, ou acomodar-se à situação com bonomia, sem esconder as fraquezas, criando uma moral temperada que, rechaçando qualquer exagero, concede o devido lugar ao prazer e ao interesse. Dentro da primeira forma integram-se, na Inglaterra, a crítica social de um Langland, cuja Visão de Piers Plowman se inspira nas prédicas populares; à segunda pertence a ironia sorridente de um Chaucer, nos seus Contos de Cantuária, obra de um homem de gosto cosmopolita, respeitador das convenções sociais.

¹ Tempo cheio de horrores que faz tudo falsamente
Era mentirosa, cheia de orgulho e inveja.

² Bandos de mendigos cujo nome deriva de suas vestes cobertas de conchas.


PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica (séculos XI-XIII). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 297-300. (História geral das civilizações, 7).

sábado, 17 de maio de 2014

O homem do século XVI: a afetividade

Cena de aldeia com a pousada (taverna) São MIguel, Pieter Brueghel, o Jovem

Se os tipos físicos são mais diversificados do que hoje, provavelmente o fato é ainda mais verídico no que respeita aos tipos psíquicos. Entre homens tão diferentes e tão estreitamente acantonados, os contatos, salvo vizinhança imediata, só poderiam ser rudimentares e esporádicos. Foram necessários dois séculos para ser estabelecida uma diplomacia europeia. As relações com os mundos exteriores só eram desejadas em caráter de exceção, salvo sob forma de conquista, por causa da confusão de estruturas sociais e políticas e, também, das diferenças de grau no controle de si e da diversificação das formas de afetividade.

Bordel, Joachim Beuckelaer

- O controle de si.  Somente este controle permite a organização e a manutenção de uma ordem social. Entre certos povos, tal controle não é, provavelmente, senão passividade.

Conhece-se melhor o caso dos europeus. O francês do princípio dos Tempos Modernos, bem como seus vizinhos, nos aparecem grosseiros e lascivos, instáveis, emotivos, impulsivos, suscetíveis de sentimentos singularmente violentos. Cupidez e concupiscência são mal refreadas. Assassinatos, crimes passionais, premeditados ou não, violações e raptos são relativamente frequentes em todos os níveis sociais. O clero evita a duras penas tais excessos. Os sentimentos mais elevados, fé religiosa, honra, têm um aspecto visceral e tomam, na ocasião, uma expressão feroz como o testemunham as guerras de religião e os duelos.


Rixa de camponeses, Pieter Brueghel, o Jovem

A crueldade da época nos surpreende. A vista do sangue não provoca repulsa. Atrai, de preferência. Corre-se a assistir as execuções capitais, acompanhadas de grande variedade de suplícios. Encontra-se o mesmo exagero na desesperança e nas penitências livremente consentidas.

Nasce, sem dúvida, na Itália, um tipo de homem superior novo, o cortesão, descrito por Baldassarre Castiglione em um livro célebre desse título (1528), cujo controle de si constitui uma das maiores virtudes, acrescido da distinção das maneiras e da cultura sem afetação. Todavia, tal controle de si é odioso à maioria dos franceses. Contribuiu mais tarde à impopularidade da Corte de Valois.

As paixões individuais mudam-se depressa em paixões coletivas. A peste, o anabatismo, a Guerra dos Camponeses são a oportunidade de "emoções" populares e de matanças generalizadas.

- A sociabilidade. As relações com o próximo correm, amiúde, o risco de serem relações de força. Infeliz do homem só, já o disse a Bíblia; podemos ajuntar: e da mulher sozinha.


Camponeses felizes do lado de fora da taverna "O cisne", Pieter Brueghel, o Jovem

A criança não suscita nenhum interesse por si mesma. Entre os grandes, os nobres, os burgueses, o filho representa o futuro da linhagem. Respeita-se no ancião o benefício da experiência, que ele pode fornecer, e a proximidade do céu na qual talvez se encontre. A caridade, altamente proclamada como uma virtude e um dever, é exercida no interesse do doador e não daquele a quem é dirigida. Os mendigos são tolerados, mas à condição de que não sejam estranhos à localidade.

É que os franceses e seus vizinhos, bastante gregários, constituem células sociais elementares, comunidades rurais, paróquias, muito fortes. Essas comunidades não são entidades, porém sua existência é sentida como a dos organismos vivos, corpos com cabeça e membros. O estrangeiro, o horsain, suscita apenas desconfiança e torna-se facilmente um bode expiatório, sobretudo se não fala a mesma língua, não pratica a mesma religião (judeus), ou exerce, além do mais, uma atividade distinta da do conjunto do corpo (negociante, banqueiro). Então, o ódio que o persegue é endêmico.

Não obstante, solidariedades supralocais são provocadas entre nobres, servidores do soberano. O espírito de corpo, anima determinados ofícios além dos limites da cidade. Os reis da França e da Inglaterra, combateram-se durante muito tempo e, por ser diferente do que veio a tornar-se em consequência, o sentimento nacional existe em seus dois povos.

- A vida e a morte. Estes dois termos não têm o mesmo valor de hoje em dia. A vida é demasiado curta para a maioria dos homens e a duração de todas as idades da vida é diminuída. O homem do século XVI se faz adulto e se desgasta muito cedo. Entre os povos menos resignados, a violência das paixões traduzem uma pressa de viver.

O apego à vida está incessantemente aguilhoado pelo espetáculo cotidiano da morte. Considera-se normal um casal perder a metade de seus filhos numa tenra idade. Somente os pais que perdem um filho único, esperado arrimo de sua velhice, podem, decentemente, afligir-se em público.

No mundo cristão, a morte reveste-se de grande importância, não tanto pelo fato de marcar o termo da vida terrestre, mas porque abre as portas para a vida eterna. Deste além, o homem forma uma representação demasiado concreta e vive-a intensamente quando ela vem ao seu espírito. Esses chamamentos do além suscitam, em todos os níveis, o desejo mais ou menos constante de sacrificar-se. Há, no ocidental do século XVI uma "predominância do afetivo sobre a inteligência" (R. Mandrou). Esta preponderância existe nas relações sociais como, também, nas tentativas de ultrapassagem.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 19-21.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: a afetividade" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.