"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O surgimento da classe operária brasileira

Os primeiros operários brasileiros surgiram ainda em plena sociedade escravista. Muitas de nossas primeiras empresas industriais caracterizavam-se pelo trabalho conjunto de operários livres e escravos. Somente com a abolição tal quadro mudaria. Até lá, porém, essa coexistência atrapalharia muito a afirmação do operariado como classe entre nós.

Esses primeiros operários originavam-se das camadas mais pobres da população urbana, sendo muitos deles menores, retirados de asilos ou casas de caridade, diretamente para o regime das fábricas. As condições de trabalho e de vida desses aprendizes não eram melhores do que as de muitos escravos, formando um contingente significativo de trabalhadores não-especializados. Adultos e crianças chegavam a trabalhar até dezesseis horas por dia, sem folga semanal ou qualquer outro direito.


Operários diante da fábrica, São Paulo, pousando para a fotografia coletiva, fins do século XIX

Já os operários qualificados, necessários ao desenvolvimento industrial, eram contratados quase sempre na Inglaterra e sofriam muitas dificuldades de adaptação ao clima do país, além de saírem bem mais caro para os primeiros industriais, que eram obrigados a pagar-lhes salários maiores do que os que estavam acostumados a pagar.

A entrada em massa de imigrantes no Brasil, a partir de 1870/1880, começou a alterar a composição do operariado brasileiro. Os estrangeiros - italianos, portugueses, espanhóis - aos poucos tornaram-se maioria nas fábricas do Rio e de São Paulo, situação que se manteve mesmo após a abolição. Somente nos centros industriais menos dinâmicos, como aqueles situados na Bahia, Pernambuco ou Pará, predominou o emprego da mão-de-obra nacional na indústria.

O crescimento da grande indústria, verificado na virada do século XIX para o XX, pouco contribuiu para melhorar as condições de vida dos operários. A superexploração do trabalho industrial não só se manteria, como seria agravada, em função de um novo fato: a incorporação maciça de mulheres e crianças ao trabalho fabril. É bom lembrar que esses últimos recebiam salários ainda menores do que os trabalhadores adultos.


Saudades de Nápoles, Bertha Worms
[A obra retrata um menino italiano engraxate, figura bastante comum nas ruas de São Paulo na época]

Outro fator que favorecia a superexploração era a ameaça do desemprego ou da diminuição temporária de frentes de trabalho. Com a chegada de novos imigrantes às cidades, a oferta de mão-de-obra aumentava, provocando demissões e desvalorização dos salários.

MENDONÇA, Sônia. A industrialização brasileira. São Paulo: Moderna, 1996. p. 20-22. (Coleção Polêmica)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O processo de unificação da Itália e da Alemanha

Napoleão III e Otto von Bismarck na manhã seguinte à Batalha de Sedan, Wihelm Camphausen

O mapa político da Europa foi redefinido no contexto do Congresso de Viena, quando prevaleceu uma política "de compensações territoriais" às grandes potências, que não levou em consideração as aspirações emancipacionistas de determinadas nacionalidades e, muito menos, as das minorias nacionais.

A Polônia, por exemplo, foi incorporada ao Império Russo czarista desconsiderando-se antigas configurações geopolíticas e a especificidade cultural dos poloneses. Apenas no contexto do pós-Primeira Guerra, é que a Polônia emergiu no cenário político europeu como um Estado Nacional de fato independente.

Assim, entre 1815 e 1871, verificaram-se profundas transformações de ordem geopolítica no continente, em especial na Península Itálica e na Europa Central. Também no século XIX, a questão das nacionalidades europeias foi uma das razões mais significativas para a "explosão" de uma série de movimentos de caráter revolucionário, como os ocorridos em 1830 e 1848.

Conforme observou o historiador René Rémond, "esse século, por direito, pode ser chamado 'o século das revoluções', porque nenhum - até agora - foi tão fértil em levantes, insurreições, guerras civis, ora vitoriosas, ora esmagadas. Essas revoluções têm como pontos comuns o fato de quase todas serem dirigidas contra a ordem estabelecida (regime político, ordem social, às vezes, domínio estrangeiro), quase todas feitas em favor da liberdade, da democracia política ou social, da independência ou unidade nacionais." (RÉMOND, René. Introdução à História de Nosso Tempo. O Século XIX: 1815-1914. São Paulo: Cultrix, 1976. v. 2, p. 13.)

Na década de 1870, ocorreram os processos de unificação da Itália e da Alemanha, que, até então, eram constituídas por várias unidades políticas. Essas denominações (Itália e Alemanha), eram apenas expressões geográficas e culturais. A fragmentação política dificultava o crescimento econômico, uma vez que existiam várias legislações, diversas moedas e barreiras alfandegárias internas que dificultavam a livre-circulação de mercadorias.

Tanto na Itália como na Alemanha, a unificação foi liderada pelos estados mais industrializados: o Reino de Piemonte-Sardenha, na Itália; e o Reino da Prússia, na Alemanha. Nesses reinos, uma rica burguesia (grandes comerciantes e industriais) tinha interesse na criação de um mercado nacional devidamente protegido por tarifas alfandegárias para seus produtos.

Em ambos os casos verificou-se uma conciliação entre burguesias industriais emergentes e aristocratas - na Alemanha, representada pelos junkers e, na Itália, por latifundiários sulistas.

Através de bem sucedidas alianças políticas e de conflitos militares contra países vizinhos poderosos, os reinos de Piemonte-Sardenha e da Prússia lideraram a unificação e, ao mesmo tempo, desenvolveram um projeto político de caráter conservador a fim de evitar a emergência de movimentos sociais de perfil mais democrático e igualitário.

Por isso, nesses dois casos, afirma-se que as unificações foram realizadas "de cima para baixo", com um claro caráter excludente.

Esse caráter conservador das unificações ficou evidenciado no romance O Leopardo, escrito pelo italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1958), em 1956. Nessa obra, o autor aborda o processo de unificação italiana a partir da perspectiva de uma família aristocrática decadente da Sicília, cujo patriarca (Dom Fabrizio, Príncipe de Salinas) se mostra apreensivo com a aparente ascensão da classe média e das camadas populares, simbolizadas pelos "camisas vermelhas" liderados por Garibaldi na década de 1860.

Numa passagem do romance, seu sobrinho Tancredi, no entanto, revela o caráter moderado, excludente, antidemocrático e conciliador (aristocracia e burguesia) desse processo histórico por meio de uma frase lapidar: "Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude".

BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem. Curitiba: Base Editorial, 2010. V. 2. p. 78-79.