"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 23 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 4

Em 1492, a  civilização mais complexa na América do Norte se encontrava no vale do México. Essas pessoas se autodenominavam mexicas, mas, em anos posteriores, os espanhóis se referiam a elas como astecas. Sua capital, Tenochtitlán, foi construída em uma ilha do lago Texcoco e era maior do que qualquer cidade europeia. Canoas deslizavam por canais em toda parte. Mercadores traziam produtos de milhares de quilômetros de distância. Havia papagaios à venda, mantos de algodão e chocolate quente, tortillas, peru, coelho, peles de animais, penas bonitas de todos os tipos e ouro em pó, cuidadosamente embalado dentro de bicos de penas de ganso. Tenochititlán ostentava zoológicos e jardins de museus cheios de plantas exóticas. Aquedutos traziam água potável à cidade, de montanhas a quilômetros de distância. A religião e a cultura astecas eram tão avançadas e únicas quanto as de qualquer civilização na Ásia ou na Europa.

Buffalo hunt, Karl Ferdinand Wimar

Por trás da cultura de todo grupo, há uma história - isto é, um relato de como um costume começou. Na América moderna, por exemplo, muitas pessoas usam calça jeans azul unida por rebites. Esse é um costume, e tem uma história. Na verdade, dois norte-americanos, Levi-Strauss e David Jacobs, tiveram a ideia em 1873. De maneira similar, alguém, ou talvez um grupo de índios, deve ter pensado em como confeccionar roupas melhores com pele ou uma lança mais afiada - ou teve a ideia de configurar um sistema político em que as pessoas "honoráveis" recebiam reconhecimento especial. Mas nenhum dos povos originários da América do Norte inventou a escrita. Por isso, não temos histórias contando de que modo os indivíduos contribuíram para a maneira como as pessoas viviam, ou sobre os vilarejos que construíram ou as guerras que travaram.

Indian canoe, Albert Bierstadt

Os arqueólogos assumiram a tarefa de descobrir o que aconteceu antes de haver uma história escrita. Seu trabalho de detetive é realmente impressionante, com novos conhecimentos adquiridos a cada ano. Ainda assim, restam muitos enigmas. O que aconteceu com o povo hohocan, que construiu canais? Antes de 1492, a região desértica do Arizona provavelmente abrigou mais índios do que qualquer outro lugar ao norte do império mexica. Por que os canais foram abandonados? O clima se tornou mais quente ou mais seco, dificultando a sobrevivência? Passou a haver pessoas demais vivendo em uma área pequena? Os índios vindos do norte atacaram esses povos? Não sabemos essa história.

Chippewas à la chasse au caribou, Cornelius Krieghoff

Há um enigma similar em torno da única cidade nos Estados Unidos de nossos dias a ter sido construída antes de 1492. Cahokia cresceu à margem do rio Mississíppi onde hoje fica St. Louis. Por volta de 1050, uma praça central, maior do que dez campos de futebol, foi construída à sombra de uma colina de quarenta metros de altura feita pelo homem. Milhares de pessoas viveram lá e ergueram mais de 120 colinas similares. Alguns arqueólogos acreditam que a cidade foi construída, em parte, do assombro religioso depois que uma luz resplandescente iluminou o céu noturno: uma supernova, a explosão de uma estrela morrendo, que foi vista pelos astrônomos chineses em 1054. Mas esta é apenas uma teoria. Tampouco sabemos por que os habitantes da cidade se mudaram, deixando-a deserta na época em que Colombo chegou à América do Norte. Não havia registros escritos.

The War Bonnet, Joseph Henry Sharp

Depois de outubro de 1492, os registros escritos chegaram à América do Norte. Os pássaros voando perto da ilha de São Salvador olharam para baixo e viram algo que nunca tinham visto antes. Sim, como sempre, havia fumaça subindo ao céu, e homens pescando em canoas de tronco. Mas, agora, três embarcações maiores apareceram no vasto oceano azul, com suas velas, gastas pela intempérie, bem estiradas nos mastros. Barcos estranhos com humanos ainda mais estranhos a bordo. As pessoas observando Colombo e seus marinheiros de baixo das árvores da ilha devem ter ficado perplexas. Que roupas estranhas eles usavam! Meias compridas e calças até os joelhos. Casacos acolchoados, quentes e pesados. Quem eram eles? O que sua chegada significava?

A história escrita estava chegando à América do Norte - história escrita, rabiscada em jornais, impressa em livros, armazenada em baús pesados ou enfiada em bolsos. Nada voltaria a ser como antes.

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 13-5.

domingo, 8 de janeiro de 2017

A agricultura nas sociedades indígenas do Brasil

A maioria dos grupos indígenas do Brasil pratica a agricultura de coivara. Trata-se de uma forma de cultivo presente não apenas entre os aborígines brasileiros, mas também em outros continentes em toda a região tropical. Tal agricultura se realiza somente em terras florestais. Para limpar o terreno necessário a uma lavoura, é preciso derrubar uma porção da floresta, o que se faz na estiagem. Algum tempo depois, estando os troncos e galhos caídos suficientemente secos, lança-lhes fogo. As chamas não consomem totalmente as árvores caídas; os grossos troncos ficam enegrecidos e o terreno continua ainda cheio de garranchos que não se queimaram de modo total. Então os agricultores cortam esses garranchos, juntam-nos em vários montes, o que constitui a coivara, deles fazendo outras tantas fogueiras. Assim o terreno fica pronto para ser semeado. O aspecto do terreno preparado desse modo é bem chocante para aqueles que, não estando familiarizados com esta modalidade agrícola, imaginam o campo a ser semeado como uma área retangular, com a terra toda homogeneamente revolvida, como nas regiões temperadas. Mas não é nada disso: o terreno tem uma forma irregular e nem sempre está todo no mesmo nível; está inteiramente recoberto de cinzas, contrastando com a floresta verdejante que o envolve; o chão aparece por uma intrincada rede de troncos enegrecidos que o fogo não queimou totalmente; a cinza mal esconde as pontas negras que emergem do chão, restos dos caules de vegetais de pequeno porte cortados pelos agricultores, aqui e ali alteia um grande tronco que, tendo oferecido alguma resistência aos trabalhadores, não foi derrubado.

Índio Tapuia, Albert Eckhout


É justamente no espaço disponível entre os troncos caídos que se faz o plantio. Essa tarefa se inicia com as primeiras chuvas. Não há faixas de terra nitidamente demarcadas para cada gênero de planta. Eles crescem mais ou menos misturados, embora não tenham sido plantados na mesma ocasião. Os produtos agrícolas, ao invés de estarem separados em áreas justapostas, mais parecem estar, ao contrário, em camadas superpostas: olhando-se uma dessas roças, destacam-se dos demais vegetais os frutos das bananeiras e dos mamoeiros, que ocupam o estrato superior; numa camada mais baixa estão as espigas de milho; ao rés do chão, as abóboras; na camada mais inferior, dentro da terra, as batatas-doces, os inhames, as raízes de mandioca.

Um pouco mais de atenção sobre as roças indígenas faz perceber uma ordem no seu aspecto inicialmente confuso ao observador estranho. Os caiapós derrubam as árvores de modo que caiam umas sobre as outras em pilhas que deixam entre si espaços vazios. Nesses espaços são plantados os tubérculos antes que se faça a queimada. Isso permite que seu sistema de raízes se forme de modo a aproveitar os nutrientes que se infiltrarão com as primeiras chuvas. A queimada, realizada antes das chuvas, é feita em separado para cada pilha de modo a evitar o calor excessivo, que prejudicaria as raízes em formação. As roças marubos, quanto vistas do alto, de um avião, mostram duas tonalidades de verde: uma da macaxeira, plantada em duas faixas paralelas, uma de cada lado dos caminhos traçados pelo cimo das colinas; outra do milho, plantado nas encostas dessas colinas. Nos corredores de macaxeira se plantam também mamoeiros e pupunheiras. A macaxeira se conserva no solo e vai sendo colhida conforme a necessidade; os mamoeiros produzem por uns poucos anos; e as pupunheiras por muito mais tempo, aí ficando, mesmo depois que a maloca se tenha transferido. Entremeadas ao milho, plantam-se as bananeiras, que se desenvolvem após a colheita do primeiro.

Índia Tupi, Albert Eckhout


[...] Depois de um, dois ou mais anos, o terreno cultivado já não produz satisfatoriamente, o que obriga os agricultores a derrubarem uma outra porção da floresta. Após algum tempo, tendo os agricultores esgotado os terrenos que estão a sua volta, devem migrar para mais longe, a fim de derrubarem outras porções de floresta.

Atualmente, a maior parte dos índios do Brasil se utiliza de facões, machados e enxadas de ferro. Mesmo aqueles grupos indígenas ainda isolados dos brancos recebem esses instrumentos dos postos de atração mantidos pela Funai ou por intermédio de outros indígenas ligados aos brancos. Porém, antes da introdução dos instrumentos de ferro, utilizavam-se de machados de pedra para cortar os troncos vegetais, sendo que as árvores mais grossas eram derrubadas fazendo-se fogueiras em torno delas. O solo era perfurado, para a semeadura, ou para o arrancamento de raízes comestíveis, com ajuda de paus pontudos, que se costuma chamar de “bastões de cavar”. Esses bastões, em certas atividades, resistem à concorrência das ferramentas de metal: os marubos continuam a usar seus cavadores de madeira de tronco de pupunheira para plantar as mudas de bananeira.

Embora as técnicas agrícolas sejam mais ou menos as mesmas entre os vários grupos tribais brasileiros, mesmo assim as sociedades indígenas diferem no que toca à agricultura. Em primeiro lugar, nem todas dão a mesma importância às atividades agrícolas, algumas possuindo roças razoavelmente grandes, como sói ocorrer com os índios do tronco tupi, e outras, plantações bem pequenas, tal como se vê entre os timbiras ou os xavantes. Em segundo lugar, diferem na ênfase que dão a certas espécies cultivadas. Assim, enquanto a agricultura dos tupis dá mais importância ao plantio do milho e da mandioca, os jês setentrionais e centrais cuidaram mais do plantio da batata-doce e do inhame, pelo menos no passado. Os timbiras e os xerentes, para dar mais um exemplo, plantam um vegetal completamente desconhecido aos outros índios: trata-se do cipó comestível denominado kupá. A agricultura dos xavantes anterior à chegada dos brancos só consistia no plantio de três vegetais, a mandioca, tanto a brava quanto a mansa (aipim ou macaxeira), a batata-doce, o milho, a fava, a abóbora, o cará, o ananás, a pimenta; aprenderam também o cultivo da banana, do arroz, da batata-inglesa, da cana-de-açúcar, do algodão.

MELATTI, Julio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014. p. 100-103.

sábado, 7 de janeiro de 2017

A coleta nas sociedades indígenas do Brasil

[...] Para os poucos grupos indígenas que não praticavam a agricultura, a coleta era o único meio de obter alimento vegetal. Não há propriamente exemplos de índios sem agricultura no Brasil recente; houve o abandono da agricultura por alguns deles, antes do contato como os brancos, por um certo período, para mais facilmente escapar a ataques ou por julgá-la dispensável diante do que o meio então oferecia; foi o caso dos guajás do Maranhão, dos xoclengues de Santa Catarina e de parte dos paracanãs do Pará. Nas atividades de coleta também se pode incluir a procura de animais minúsculos, como gafanhotos, certas larvas, determinadas espécies de formigas e de produtos de origem animal, como o mel, ovos de tartaruga etc.

Grupo de camacãs na floresta, Maximilian zu Wied-Neuwied


As atividades coletoras variam com as regiões e segundo as tradições alimentares de cada sociedade. Os xoclengues, por exemplo, por viverem no sul do Brasil, podem dar uma grande importância à coleta do pinhão, mas não têm em seu território os frutos do buriti, a cuja procura se aplicam os timbiras do Brasil Central.

A coleta não inclui apenas elementos comestíveis, mas também matéria-prima para elaboração de produtos diversos: plantas que tenham qualidades medicinais ou mágicas, canas para a fabricação de flechas, fibras para fazer cordas, timbó para entorpecer peixes, cal para pintar o corpo, cera e resinas que sirvam de adesivos, em suma, uma infinidade de elementos.

Tribo indígena, Johann Moritz Rugendas


No passado, a coleta era uma das atividades que os timbiras praticavam quando saíam de suas aldeias em longas expedições após terem plantado suas roças. Essas expedições duravam até o momento em que o milho das roças estava pronto para ser colhido. Até pouco depois de seu contato com os brancos, em meados do século XX, os xavantes passavam a maior parte do ano a fazer expedições que duravam de seis semanas até três ou quatro meses, freqüentando os locais, nas épocas adequadas, onde podiam coletar itens vegetais que constituíam matéria-prima para seus artefatos. E os matis, de sudoeste do Amazonas, após o contato, valem-se das embarcações motorizadas da Funai, para mais facilmente se transportarem até os locais onde há os vegetais necessários à confecção do curare.


MELATTI, Julio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014. p. 99-100.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A pesca nas sociedades indígenas do Brasil

A ênfase nas atividades de pesca também varia de uma sociedade para outra, e são muitas as técnicas utilizadas para a obtenção de peixes. É muito comum, entre os índios do Brasil, o uso de vegetais que têm a propriedade de matar ou atordoar os peixes, como o tingui ou timbó. A pesca com tais elementos tem de ser de caráter coletivo, visto o trabalho exigido para efetuá-la: os cipós de timbó são cortados e amarrados em feixes; esses feixes são surrados com cacetes e mergulhados continuamente na água, para que fique impregnada pelo suco do vegetal. Entre os índios do alto Xingu, uma barragem é previamente construída para fechar a saída da lagoa ou deter o curso das águas do igarapé, e os meninos batem com varas na água para afugentar os peixes na direção da barragem, onde a concentração do tóxico é maior. Do outro lado da barragem, são colocadas canoas para aparar os peixes que conseguem pulá-la; quando escapam às canoas, são abatidos a flechadas. Entre os craôs, a barragem não é construída; por isso, o ribeirão só pode ser impregnado com timbó na estação seca, quando suas águas são poucas e mansas; uma vez impregnada a água, as famílias vão descendo pelas margens do ribeirão, acompanhando o suco do timbó, que desliza juntamente com as águas. Os peixes, atordoados, imóveis, descem ao sabor da corrente. Mas dificilmente podem ser apanhados com a mão, pois, uma vez tocados, debatem-se e escorregam; são, por isso, fisgados com flechas de ponta de osso ou simplesmente de pau-roxo, pois estas se prendem no peixe. [...] A flecha, uma vez fisgado o peixe, flutua com ele e é apanhada com a presa pelo pescador. Os peixes podem ser abatidos também a golpes de facão e depois apanhados com a mão.

Família de botocudos atravessando um rio, Maximilian zu Wied-Neuwied


Quando as águas são claras e mansas, é possível fisgar os peixes com flechas, sem auxílio de entorpecentes, sendo que o pescador os espera nos lugares mais propícios, como, por exemplo, no alto de uma árvore cujos galhos estejam por sobre as águas e cujos frutos sejam apreciados pelos peixes.

Há também armadilhas que podem ser utilizadas na pesca. Os índios teneteharas, por exemplo, possuem vários tipos. Um deles é o pari; trata-se de um cesto cilíndrico, totalmente fechado numa extremidade e, na outra, há uma abertura afunilada que permite a entrada do peixe, mas não sua saída; é colocado no fundo dos igarapés, com uma isca no interior. Uma outra armadilha usada pelos mesmos índios é o mororó, também um cesto cilíndrico, mas com as duas extremidades abertas, sendo que a inferior termina em pontas aguçadas; é usado em águas rasas, sendo fincado no leito da corrente no momento em que passa um cardume, retirando-se os peixes pela abertura superior. Uma terceira armadilha, chamada igualmente pari, constitui-se de uma esteira de talos, amarrados um ao lado do outro, tendo pontas aguçadas na parte que deve tocar o fundo do igarapé. A cerca, flexível, é fincada no meio do igarapé à moda de labirinto, sendo feita uma barragem entre as margens do igarapé e o pari, para induzir os peixes a entrar no labirinto. Os índios do rio Uaupés, afluente do rio Negro, também dispõem de armadilhas para a pesca. Uma delas é o mesmo pari de boca afunilada dos índios teneteharas. Outra, o cacuri, é constituído por um cercado de varetas com uma abertura que cede quando o peixe a força. Mas torna a fechar-se pela pressão da corrente da água; Uma terceira armadilha é o cajá, isto é, um jirau construído junto às pequenas quedas de água, de tal modo que apare os peixes que tentam galgar a cachoeira ou segure os que são trazidos por ela.

Índio do rio Uaupés, Décio Villares


Em inúmeras sociedades indígenas, atualmente, é muito comum o uso de anzóis de metal introduzidos pelos civilizados. Em algumas, tais como as do Uaupés, o peixe pode ser conservado moqueado, isto é, assado e defumado em fogo lento sobre uma grelha de madeira posta cerca de um metro do fogo. Fazem também a farinha de peixe, pisando o peixe moqueado no pilão, levando-o, em seguida, ao forno, onde é esfarinhado com a mão, até ficar completamente enxuto. O peixe moqueado ou em forma de farinha conserva-se durante muito tempo. Os antigos tupinambás do litoral brasileiro faziam tanto o moquém como a farinha de peixe.


MELATTI, Julio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014. p. 97-9.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A caça nas sociedades indígenas do Brasil

Em todas as sociedades indígenas, a caça é uma atividade masculina. Pode ser realizada individual ou coletivamente. Naturalmente, nem todos os grupos indígenas dão a mesma importância à caça. Os índios do alto Xingu, por exemplo, dedicam-se muito mais à pesca. Eles não fazem caçadas coletivas; praticam a caça de aves e, ocasionalmente, de pequenos mamíferos; não se nota, no alto Xingu, o consumo de caça de pêlo (veado, porco, capivara etc.) e um grande número de tabus desestimulam o consumo de carne [...].

Outros grupos, como os timbiras, dão uma importância muito grande à carne de caça. Entre eles, nos meados do século XX, além das caçadas individuais, eram freqüentes as caçadas coletivas, não raro destinadas a obter carne a ser consumida nos ritos. Hoje provavelmente elas já não são tão produtivas, dado o aumento da população não indígena na região em que vivem. Já para os índios maués, a caça é sempre uma atividade individual.

Família de botocudos em marcha, Jean-Baptiste Debret


As técnicas utilizadas na caçada variam de sociedade para sociedade. Elas variam também segundo a espécie de animal procurada. Os xoclengues de Santa Catarina, por exemplo, por volta de 1930, caçavam a anta perseguindo-a em suas carreiras, com ou sem ajuda de cachorros; o caititu, caçavam-no esperando-o sair da toca ou obrigando-o a sair dela com ajuda de fogo. Os teneteharas costumavam construir abrigos no chão ou no alto das árvores, nos locais freqüentados por cada espécie de animal, onde o caçador os espera, sobretudo à noite; na estação chuvosa, o terreno se alaga, e a caça se refugia nas partes mais altas, onde é fácil capturá-la. [...] Uma das técnicas dos índios xavantes é atear fogo em círculo num local do cerrado, deixando uma abertura por onde os animais fogem espavoridos, sendo aí abatidos.

As atividades de caça obrigam os índios a conhecerem os hábitos dos animais para melhor poder procurá-los ou esperá-los. Desse modo, dos representantes de cada espécie, sabem se andam de dia ou de noite, de que frutas gostam, onde costumam se esconder. Também dispõem de uma série de recursos mágicos para caçar: os índios craôs, por exemplo, usam determinados vegetais para esfregar no corpo ou para fazer infusões que ingerem, segundo a espécie de animal que desejam caçar; os índios teneteharas tomam muito cuidado para não ofenderem seres sobrenaturais, a fim de não ficarem “panema”, isto é, sem sorte na caça. Alguns grupos indígenas acreditam que os sonhos possam predizer o sucesso das caçadas, como os maués e os craôs.

Tipos diferentes de flechas de indígenas brasileiros, Jean-Baptiste Debret


Após o contato com os civilizados, as técnicas indígenas de caça se alteram devido à introdução de itens importantes, como as armas de fogo, a lanterna de pilha e o cão. As armas de fogo são logo adotadas, por permitirem alcançar alvos a maior distância que as flechas lançadas pelo arco. Mas, em certas situações, uma arma indígena como a zarabatana, que lança projetis com ponta embebida em curare, de uso entre os matis do sudoeste do Amazonas, mostra-se mais adequada que a espingarda: por ser silenciosa, permite vários tiros às aves ou macacos nas árvores, sem espantá-los. A lanterna abriu a possibilidade da caçada de espera noturna. Os cães se tornaram auxiliares tão preciosos que chegam a ter até mito de origem entre os marubos, vizinhos dos matis, mito este que não alude aos brancos, talvez por não terem sido recebidos destes diretamente, mas chegado por intermédio de uma série de outras sociedades indígenas. Malgrado proporcionarem mais eficiência na atividade de caça, essas contribuições dos civilizados trazem também a desvantagem de tornar os índios dependentes de artigos que eles próprios não podem fabricar: balas, cartuchos, pólvora, chumbo, pilhas. Além disso, os vizinhos sertanejos passaram a ser concorrentes dos índios na procura da caça, não somente para sua alimentação, mas também para a obtenção de produtos comerciais, tais como couros de diversas espécies e penas de ema.

MELATTI, Julio Cezar. Índios do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014. p. 95-7.

domingo, 14 de agosto de 2016

O corpo sedento: as bebidas na América pré-colombiana

Festa de beber dos coroados, E. Meyer

Na Europa, as bebidas mais valorizadas foram as fermentadas, consideradas desde a Antiguidade até a época moderna como superiores à água pura, uma vez que esta poderia estar contaminada, e os vinhos ou as cervejas tinham a capacidade de purificá-las, combatendo alguns dos micróbios transmissores de doenças. Além disso, a fermentação sempre foi vista como um processo mágico, um cozimento sem fogo, que produz calor, gases, efervescência, borbulhas. Por isso, certas civilizações, especialmente entre os ameríndios, relacionam-na ao sêmen humano e à formação da própria humanidade, constituindo, assim, o alimento cultural por excelência. [...]

No caso dos indígenas do Brasil, havia diversas substâncias essenciais, entre as quais o tabaco, os rapés alucinógenos (paricá e yopo), as bebidas enteogênicas, como a ayahuasca, mas, antes de tudo, por sua difusão extremamente ampla, os diversos líquidos fermentados (pouquíssimos foram os grupos indígenas amazônicos ou litorâneos que desconheceram-nas, diferentemente dos norte-americanos ou do extremo sul patagônico).

Um grande cientista brasileiro das drogas e bebidas, o pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima, cujo reconhecimento de suas contribuições originais ainda é insuficiente, estudou profundamente todos esses processos de fermentação tanto no Brasil como em outros países, especialmente o México. Escreveu, assim, os trabalhos pioneiros da etnozimologia (estudo das fermentações tradicionais), dando conta das formas antigas e contemporâneas de produção dessas bebidas como resultado da ação de bactérias e leveduras.

No nível mais simples, encontramos os bebedores de seivas de palmeiras, muitas vezes por meio de um buraco diretamente no tronco, em que, em poucas horas, o líquido leitoso e doce fermenta, podendo ser absorvido da própria planta (tal como faziam os guatós, do Pantanal). O mel também servia para essa finalidade, misturado com a cera em água, produzindo um hidromel de fraco teor alcoólico, especialmente utilizado pelos tapuias do sertão, assim como por outros hábeis colhedores de colmeias, como os kaingang do sul.

A fermentação por “salivação e esputo”, ou seja, por mascagem da mandioca, feita em geral por mulheres, é um dos métodos mais conhecidos, mas também se produzem bebidas alcoólicas por meio da fermentação de beijus, como é o caso do pajauaru, especialmente na região do Rio Negro. Nessa técnica, a mandioca é mergulhada por alguns dias na água e lama de um riacho e se torna “puba”, um pouco apodrecida, tornando assim mais fácil a amilase, ou seja, a quebra dos amidos.

Entre os índios brasileiros, o principal fermentado era o cauim. Assim eram chamados nas regiões litorâneas habitadas pelos tupinambás todos os sucos da mandioca e das frutas doces e generosas, como o ananás e o caju, mas também o cacau, a mangaba, a jabuticaba, entre tantas outras. Outro método era de frutas liquefeitas e trituradas com água que fermentavam e precisavam ser rapidamente consumidas antes de se estragar. Fossem fabricadas com mandioca, milho ou frutas, alcançavam um teor alcoólico máximo de 7%, no caso do abacaxi (o mais rico em açúcares), variando de acordo com o teor de açúcares do produto usado, o que é a característica geral de todos os fermentados.

Índios preparando e consumindo o cauim, detalhe da "America" de Jodocus Hondius, ca. 1606


Outros métodos também desenvolvidos, além da insalivação, eram o da fabricação de beijus, que, deixados embolorar, ficavam sacarificados pela ação do mofo e depois, misturados à água, fermentavam, constituindo o caxiri (especialmente nas regiões do Rio Negro, influenciadas pela cultura aruaque), o mucururú, a caiçuma e o pajauaru, ou então a massa da farinha de mandioca ou milho era envolta em folhas de bananeira (a técnica da moqueca ou da pamonha brasileira ou, ainda, da huminta andina) e também deixada embolorar para depois ser transformada em uma bebida fermentada, tal como o masato amazônico.

Essa busca, em todos os produtos da natureza, de matérias-primas transformáveis em bebidas fermentadas, foi uma das características mais amplamente difundida entre os indígenas americanos que, com exceção daqueles dos extremos sul e norte, fabricaram em quase todas as regiões licores alcoólicos, cuja denominação mais geral, além de cauim, foi, a partir das regiões da colonização espanhola, chicha. O mais provável é que o termo seja caribenho, como registrou no século XVI o cronista Gonzalo Fernandez Oviedo. Passou a designar os diversos fermentados americanos, o mais comum sendo o de milho germinado (maltado), mas podendo ser feito também de mandioca, batatas, pinhões, cogumelos e todos os tipos de frutas. Essa propensão a também fazer de todos os produtos comestíveis fontes para a fabricação de bebidas não escapou aos olhos dos primeiros europeus. O próprio Colombo, ao chegar na Ilha de La Hispaniola (atual República Dominicana e Haiti), registrou que “do que fazem pão, fazem vinho”.

No processo de colonização ocorreu uma contaminação dos brancos, africanos e mestiços pelos rituais idolátricos indígenas, em que o consumo sagrado do cauim, do pulque ou da chicha muitas vezes é acompanhado de outras substâncias psicoativas ainda mais fortes, mais desconhecidas e mais inquietantes. Isso tornou-se um pesadelo para as autoridades eclesiásticas, que desencadearam, com seus aparelhos policiais inquisitoriais, inúmeras campanhas de “extirpação de idolatrias” em que o alvo era sempre a embriaguez, especialmente no Peru no século XVII, quando as festas (taquis) e bebidas (chicha) dos índios eram perseguidas como depositárias de antigas tradições sobreviventes que deveriam, para a boa cristianização, ser completamente extintas.

Sempre há embriaguez em seus pecados, diziam dos indígenas as autoridades eclesiásticas. Por isso, buscavam proibir suas festas, rituais e cerimônias em geral e, especialmente, as que eram alimentadas pelo calor dessas poções de ebriedade. A embriaguez indígena passou a ser vista por quase todos os cronistas europeus como a causa principal da idolatria. O padre jesuíta José de Acosta, por exemplo, afirmará, em relação ao Peru, que tal não só é um pecado, como também é a causa principal de todos os outros.

Essa embriaguez descontrolada que atingiu os indígenas americanos, livres dos antigos controles tradicionais, abrangeu ainda os colonizadores europeus, assim como os escravos trazidos da África, que já possuíam o domínio das técnicas da fermentação, produzindo o pombe, cerveja de sorgo, assim como os diversos vinhos da seiva de palmeira, chamados de malafo, mas só tomaram contato com o vinho de uvas e sobretudo com os destilados, a partir do contato com os europeus.

O colapso das grandes civilizações ameríndias se deveu, em grande parte, ao choque biológico com as novas doenças europeias, além da desarticulação dos sistemas sociais existentes. No entanto, contemporâneos dessa que talvez tenha sido a mais grave hecatombe demográfica conhecida (morte de cerca de 90% da população original), buscaram outras explicações para o enorme despovoamento. Generalizada em toda a América pelos colonizadores europeus, uma delas culpava os supostos maus hábitos indígenas por essa catástrofe. No Peru, o padre Lizárraga afirmava que o alcoolismo e a sodomia foram as causas da despovoação das Índias. O demônio teria estabelecido seu império sobre aquela gente e todas as suas crenças e devoções foram identificadas a ele pelos missionários. O próprio conhecimento das plantas inebriantes teria sido transmitido pelo demônio aos povos originários, enquanto as consideradas puramente medicinais teriam outra fonte de saber.

Os usos de bebidas fermentadas e outras drogas foram objeto de grandes discussões teológicas entre vários autores durante o século XVI, com o dominicano Bartolomé de Las Casas defendendo os indígenas e sendo tolerante com suas formas de embriaguez e até com suas “superstições”, enquanto outros teólogos, que predominariam, viam em suas festas, bebedeiras, adivinhações e cultos de lugares, plantas, animais e coisas manifestações demoníacas que deveriam ser extirpadas. [...]

O uso em si das bebidas não era condenado, pois os europeus também o faziam, mas sim a busca deliberada dos “transtornos que afetam a mente”, dos efeitos psicoativos das diversas manifestações e formas das ebriedades, consideradas todas, fossem de bebidas fermentadas, fossem de tabaco, de coca ou de ololiuqui como “borrachez”, sendo assim censuradas como embriaguez no sentido geral de alteração voluntária do estado mental, que era exatamente a marca mais característica das formas de beber indígenas, intensas e extremadas. A perseguição à embriaguez buscada de forma deliberada e sistemática, em rituais de convívio, com significados de devoção e hospitalidade, foi uma das grandes obsessões dos colonizadores das Américas.

No âmbito do mundo luso-brasileiro, João Azevedo Fernandes reuniu boa parte das evidências existentes nas fontes primárias a respeito da perseguição implacável dos colonizadores, especialmente os clérigos, para com os ritos da cauinagem, vistos como a verdadeira religião sem templo dos aborígenes. O antigo “regime etílico” indígena, regrado, ritualizado e servindo de elemento central das culturas nativas, foi praticamente destruído, interditado e substituído pelos derivados da cana-de-açúcar, sobretudo a cachaça.

Henrique Carneiro. O corpo sedento. In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Márcia (Orgs.). História do Corpo no Brasil. São Paulo: UNESP, 2011.

sábado, 19 de setembro de 2015

O que aprendemos com os povos indígenas

Guerreiro cheyenne com cocar, escudo e lança, ca. 1915-1937. Monroe Tsatoke

Tomate, batata, feijão, milho, mandioca e cacau são algumas das dezenas de plantas descobertas e cultivadas pelos povos nativos da América, há milhares de anos. Hoje, a dieta básica de milhões de pessoas de todo o mundo contém espécies vegetais originadas do continente americano. Mesmo o chiclete, a goma de mascar popularizada pelos norte-americanos, foi tomado dos maias, inclusive seu nome; ainda hoje sua matéria-prima é extraída das florestas tropicais da Meso-América, onde estão os sapotis, a árvore de onde se extrai o "chicle". É igualmente grande o número de plantas empregadas na indústria que os antigos povos da América já utilizavam: borracha, palmeira, carnaúba, amendoim, castanha-do-pará, girassol, tabaco, algodão, juta e sisal são alguns exemplos. O conhecimento acumulado pelos ameríndios ao longo de muitas gerações está merecendo, atualmente, a atenção dos cientistas.


O presente, 1922. Ernest L. Blumenschein

Os grupos indígenas desenvolveram uma ciência própria. Alguns, por exemplo, classificam o solo de acordo com as plantas e a matéria inorgânica (areia e argila, por exemplo) que a compõem. Dão nomes específicos a cada tipo de solo e discriminam as plantas ideais para cultivar em cada um. Na mata virgem, identificam centenas de espécies vegetais, muitas das quais desconhecidas pelos botânicos. Além das alimentícias, os indígenas reconhecem plantas medicinais (curativas, anestésicas, antissépticas etc.), inseticidas, tóxicas, corantes, fertilizantes, lubrificantes, além daquelas usadas para cobrir casa, trançar cestos e esteiras, fabricar ferramentas e armas, conter encostas e barrancos.


Mestre de cerimônias, 1925. Gerald Cassidy

Alguns medicamentos da medicina ocidental foram feitos a partir de plantas há tempos utilizadas pelos indígenas, como o ipecacuanha (tratamento de infecções gastrintestinais), a capaíba (contra afecções das vias urinárias), a quinina (contra a malária), a coca (como anestésico local), o curare (em cirurgias cardíacas) e o peiote (em tratamentos psiquiátricos) - plantas perigosas que, entre os ameríndios, só eram manipuladas pelos curandeiros ou sacerdotes, pois o erro na dosagem podia matar o doente.

A indústria têxtil usa espécies de algodão há milênios cultivadas pelos indígenas da América e consideradas as melhores do mundo.

[...] astecas e incas, para aproveitar os espaços e ampliar as áreas de cultivo [criaram] as chinampas, os canais de irrigação e o uso de fertilizantes naturais. Muitos pesquisadores já demonstraram que essas técnicas são mais simples, baratas e tão produtivas quanto aquelas que utilizam as modernas e caras máquinas e fertilizantes químicos de hoje.


O cacique do pueblo, 1916. Walter Ufer

Outras culturas nativas americanas também desenvolveram eficientes técnicas agrícolas. Ao contrário do que muitos pensam, os indígenas interferiram na natureza, criando artificialmente terrenos propícios à lavoura. No Brasil, por exemplo, há grupos indígenas que espalham sobre a área de cultivo uma mistura de palha com terra de cupinzeiros e formigueiros esmagados. Colocam cupins e formigas vivas na terra recém-cultivada para que os insetos lutem entre si e não ataquem os brotos. Transplantam espécies vegetais para locais onde elas não são comuns.

Na Amazônia, onde o solo se esgota rapidamente e a camada de húmus é muito fina, os indígenas desenvolveram a agricultura itinerante. Uma família derruba apenas a área correspondente à sua capacidade de trabalho (em geral um hectare). A mata derrubada é deixada  para secar por dois ou três meses. Procede-se, então, à primeira queima, que é, depois, seguida de nova queimada com os galhos e folhagens que restaram.


Nas Colinas de Pé, 1896. John Hauser

Os indígenas que utilizam a técnica da coivara sabem quando é chegada a hora da queima. Observam a direção do vento e se orientam por alguns sinais da natureza. Os kuikuro, por exemplo, que vivem no Alto Xingu, só procedem à queimada quando a constelação do Pato aparece do lado leste do céu, antes do raiar do sol, e quando as tracajás desovam nas praias do rio Culuene. Não se sabe qual é a relação entre esses fenômenos e o sucesso da queima, mas sabe-se que os kuikuro nunca provocaram um incêndio na floresta.

A cinza obtida fertiliza imediatamente o solo e o carvão é enterrado para servir de adubo extra que a planta absorverá durante seu crescimento. Inicia-se, então, o cultivo de diversas espécies com alturas diferentes - o que reduz o impacto dos ventos e das fortes chuvas e evita a propagação de pragas. Pela mesma razão, o mato que cresce entre as plantas cultivadas não é arrancado. depois que a terra se esgota, ela descansa por dois ou três anos. Ali crescerão brotos e folhagens que alimentarão pacas, queixadas e caititus, transformando-se em uma área de caça para a tribo.


Dança do búfalo, 1860. Karl Ferdinand Wimar

As técnicas agrícolas indígenas, do tipo extensivo e policultor, têm a vantagem de manter a fertilidade do solo e permitir a rápida recuperação da floresta. Já as fazendas de gado da Amazônia mostram um resultado inverso. Uma única fazenda desmata cerca de 10 mil hectares num ano para formação de pastagens. O desmatamento é total, e a superfície do solo fica exposta ao calor do sol e às pancadas de chuva, provocando sérias alterações no meio ambiente. Além disso, cada hectare produz somente 30 kg de carne bovina ao ano. Isso significa que um boi come o equivalente ao que alimenta uma família indígena no mesmo período, com a agravante de destruir o solo.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 128-130.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A difusão cultural

O Senado de Tlaxcala, Rodrigo Gutiérrez

O eminente etnólogo norte-americano Paul Radin defende, entusiasticamente, a seguinte tese: as civilizações Maia, Pré-Incaica e Incaica seriam as grandes criadoras e irradiadoras culturais do continente. Os Maias teriam exercido influencia nos atuais territórios do México e dos Estados Unidos e mediante sucessivas migrações rumo ao sul, teriam também influenciado a América Central e América do Sul. O início destas migrações - a data não é precisa - remonta a uns cem anos antes de Cristo. Essas migrações massivas - cujos motivos desconhecemos - levavam consigo os admiráveis elementos da civilização Maia que, no contato com outros povos de níveis de desenvolvimento inferiores aos deles, perderam parte de sua entidade original exercendo porém uma intensa e benéfica influência. Ainda de acordo com a tese de Radin, os vestígios da cultura Maia são encontrados em uma área gigantesca, habitada por inúmeros povos de diferentes níveis culturais, possuidores de diferentes manifestações daquela cultura.

Atualmente, não há dúvida alguma de que os povos pré-incaicos possuíam uma civilização de altíssimo nível, e que a tribo Inca que os dominou e construiu o império [...] não acrescentou grande coisa àquelas civilizações. Também estaria fora de discussão o caráter de pólo irradiador de civilização que haviam tido e cujas projeções chegam até os Araucanos no sul do Chile, os Kauka no Equador, os Chibcha na Colômbia, os Calchaques na Argentina e numerosíssimas comunidades indígenas do Brasil. Povos que viviam nas margens do Rio Amazonas e seus tributários assim como os Tupi-Guarani, teriam sido alcançados de formas diversas pela civilização que, a partir do terceiro século de nossa era, irradiou-se das regiões que hoje formam o Peru e a Bolívia. Também nesse caso cada povo assimilou a influência à sua maneira e aproveitou dela aqueles elementos que pudessem facilitar sua sobrevivência e talvez aquilo que seu nível cultural permitisse assimilar.

Excelentes estudos confirmam a existência de comunicações marítimas entre México e Peru. Entre outras, são muitas as provas arqueológicas e filológicas. O momento do apogeu destes contatos situa-se antes da criação da Confederação Asteca e do Império Inca e, de acordo com Paul Rivet e Arsendaux, entre os séculos X e XI de nossa era. [...]

POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 36-7.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os Incas

"O maior império das Américas foi o dos índios quíchuas, conhecido também como Império Inca, por ser esse o título de seus chefes supremos, tidos como filhos do sol.

A civilização quíchua ou incaica desenvolveu-se em regiões dos atuais Peru, Equador, Bolívia, Chile, atingindo seu auge no século XIV. [...]" HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: FTD, 1974. p. 192.

Manco Capac, primeiro Inca, Artista desconhecido

Os métodos de conquista dos incas forma algumas vezes brutais: deportaram os povos insubmissos, aos milhares, mandando-os para pontos distantes do Império; levaram os filhos dos chefes vencidos como reféns para Cuzco, a capital inca. Impuseram a todos os povos submetidos a sua religião, que cultuava Viracocha, deus supremo e criador de todas as coisas, e Inti, o deus Sol, do qual o imperador inca dizia ser descendente direto. Tornaram ainda a sua língua, o quíchua, idioma oficial de todo o Império.

Para controlar e unificar seu território, os incas construíram cerca de 40 mil km de estradas, ligando montanhas, vales e o litoral. Pontes suspensas feitas de cordas trançadas e pontes de madeira e de pedra passavam sobre precipícios, pântanos e rios. Por elas circulavam os mensageiros do imperador (os chasquis), o exército e o próprio Inca (o imperador) com sua comitiva.

As terras conquistadas eram divididas em três partes: um terço para o Inca, outro para o deus Sol (administrado pelos sacerdotes, mas que, na prática, eram do imperador) e o terço restante para os agricultores e suas famílias. Os adultos deviam prestar  um certo tempo de trabalho gratuito para o Inca e os deuses, cultivando as terras deles, produzindo objetos artesanais ou construindo e conservando pontes, estradas, edifícios públicos. Esse trabalho gratuito chamava-se "mita".

"A arquitetura constitui a expressão máxima da cultura inca. Nas construções mais importantes, usavam-se blocos de pedra ou granito modelados com extraordinária precisão. Por não possuírem ornamentos esculpidos, as construções incas aparentam uma certa austeridade, sobretudo se comparadas às dos maias e astecas. Na realidade, muitas dessas construções foram despojadas de seus ornamentos pelos espanhóis, os quais retiraram todos os trabalhos em ouro que, muitas vezes, revestiam as paredes de aposentos inteiros. Os conjuntos arquitetônicos mais impressionantes e mais bem conservados da civilização Inca são as cidades-fortalezas de Sacasahuamán e Machu Picchu." História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 26


O excedente de alimentos era armazenado e distribuído à população em caso de carestia. Graças ao trabalho coletivo, foram construídos enormes terraços em degraus nas íngremes encostas das montanhas dos Andes. Irrigados e adubados com excrementos de aves e restos de peixes, os terraços garantiam uma farta colheita de cerca de quarenta espécies de plantas, como milho, batata, vagem, amendoim, abóbora e algodão.

"Cada homem se alistava com seu instrumento de trabalho, formando-se assim uma larga frente de agricultores. Atrás deles as mulheres e os meninos iam avançando pausadamente, desfazendo os montículos com uma vara e depositando em cada cova aberta pelo homem algumas sementes, e cobrindo logo de terra o buraco, com as mãos e os pés, para evitar que as aves comessem os grãos". MIRANDA, Fernando M. A cultura dos incas. In: LEVENE, R. História das Américas. Rio de Janeiro: Jackson Editores, 1964. v. 2. p. 121

A numerosa mão-de-obra disponível era o mais importante recurso que o Estado possuía para conservar e estender seus domínios. A população era regularmente recenseada e registrada por idade. Assim, o imperador podia saber, por exemplo, o número de homens aptos a prestar a mita ou a lutar na guerra. Os registros eram feitos nos quipos, um feixe de cordões coloridos com nós.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974,
LEVENE, R. História das Américas. Rio de Janeiro: Jackson Editores, 1964. v. 2. 
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. 

domingo, 13 de setembro de 2015

Nazcas. Mochicas. Tiahuanaco e Chimu

Poncho Nazca, ca. 400-500. Artesão desconhecido

Cerca de 500 a.C., várias culturas regionais começaram a suplantar a cultura Chavín, do Peru. O povo Paracas, que floresceu na costa sul do Peru entre 500 a.C. e 200 d.C., adotou muitos elementos da iconografia Chavín, inclusive as representações de felinos que aparecem em sua cerâmica. O clima seco, que possibilitava a mumificação dos cadáveres, preservou também belos tecidos de decoração exuberante, com criaturas míticas e animais fantásticos. O maior depósito de múmias, cerca de 430 delas, foi encontrado em Wari Kayan, na península de Paracas, todas revoltas em tecidos e acompanhadas de oferendas fúnebres, como ornamentos em ouro.

* Os Nazcas. A cultura Nazca floresceu no sul do Peru de cerca de 200 a.C. a 500 d.C. Embora fossem em sua maioria habitantes de aldeias, os nazcas chegaram a construir complexos arquitetônicos impressionantes, como o monumental centro religioso em Cahuachti, por volta de 100 d.C. Embora seus tecidos, trabalhos em metal e cerâmica fossem de alta qualidade, eles são mais conhecidos pelos desenhos que fizeram no deserto. Os nazcas criaram uma gama de imagens de animais e representações abstratas retirando pedras da superfície do deserto e expondo o subsolo para criar as linhas. Os desenhos, alguns dos quais têm muitos quilômetros de extensão, só podem ser vistos completamente do alto. Entre eles estão a figura de um beija-flor sugando néctar de uma planta e a de um macaco com a cauda enrolada. Seu propósito permanece desconhecido.

* Os Mochicas. Os vales do norte do Peru passaram a ser dominados pelos mochicas em cerca de 100 d.C. Artesãos talentosos, eles construíram também grandes pirâmides, conhecidas como huacas, e são notáveis por seus delicados tecidos, trabalhos em metal e cerâmica. A partir de Huaca del Sol, possivelmente o centro de irradiação dessa cultura, os mochicas desenvolveram uma sociedade predominantemente agrícola. Mais tarde, por volta de 300 d.C., surgiram centros urbanos maiores. Esse povo se expandiu para regiões do sul, e há indicações de atividades guerreiras, frequentemente representadas na decoração de cerâmica. No final do séc. VI d.C., desastres ambientais como secas e inundações parecem ter minado a estabilidade desse povo, e sua civilização entrou em colapso. PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 157.


Cocar mochica com ornamentos de Condor. Artista desconhecido

* Tihuanaco e Chimu. No território da atual Bolívia, perto do lago Titicaca, encontram-se as ruínas de templos, muralhas, estátuas e outras construções de pedra. Pertenceram à cidade de Tiahuanaco, um centro religioso que, entre os anos 600 e 1000, atraiu milhares de pessoas, habitantes da região dos Andes.


Objetos de Tihuanaco, ca. 800-1200. Artistas desconhecidos

O local é inóspito com frio intenso, ventos fortes, geadas, mudanças bruscas de tempo, ciclos de seca alternados com grandes chuvas e inundações avassaladoras. Além disso, está a 3,8 mil metros de altitude. Para enfrentar essas dificuldades naturais, o povo de Tihuanaco cultivou espécies resistentes de batata, quinoa (um cereal semelhante ao arroz) e milho, construiu canais de irrigação e desenvolveu formas de conservação dos alimentos. Criou lhamas e alpacas, que, além de fornecerem leite, lã e carne, adubavam a terra com seu estrume.

"Com base em pesquisas arqueológicas concluiu-se que as populações costeiras do norte e do sul reagiram de forma diferente à influência de Tiahuanaco. Os mochicas, guerreiros e agressivos, não estavam dispostos a abrir mão do controle que exerciam sobre todo o litoral norte e resistiram energicamente. Acredita-se que, depois de derrotados, teriam migrado para os vales mais setentrionais, como os de Lambayeque e Piúra, onde conservaram as principais características de sua civilização, as quais reapareceriam modificadas nas culturas de Chimu. Já as populações de Nazca, em um processo inverso, parecem ter sido facilmente assimiladas, e sua cultura desapareceu para sempre." (História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 24.)

Desconhecem-se as causas do fim de Tihuanaco. A cidade já havia desparecido quando os chimus, no norte do Peru atual, consolidaram a conquista de seu Império. Por mais de trezentos anos (entre 1100 e 1470), os chimus dominaram diversos povos que viviam em uma faixa de mil quilômetros ao longo do litoral do Peru.


Manto chimu (detalhe). Artesão desconhecido

Em seu apogeu, a capital chimu, Chan-Chan, tinha cerca de 50 mil habitantes. Era formada por dez cidadelas (centros fortificados), cada uma contendo espaços cerimoniais, cemitérios, campos de cultivo murados, pirâmides etc. Muitos muros e paredes foram decorados com frisos em relevo feitos de barro, que reproduziam desenhos geométricos e figuras marinhas estilizadas.

Os chimus alcançaram um grande desenvolvimento metalúrgico, criando diversas técnicas para trabalhar o bronze, o cobre, a prata e o ouro. Foram também notáveis engenheiros hidráulicos. Abriram canais de irrigação, construíram cisternas para captação de água da chuva e ergueram diques para conter inundações.


Figura chimu, têxtil, ca. 1100-1550. Artesão desconhecido

Por volta de 1470, o Império Chimu caiu sob o domínio dos incas, Como eles estavam mais interessados em expandir seus domínios do que em acumular tesouros ou capturar escravos, as obras dos chimus não foram destruídas. No entanto, chuvas fortes e inundações devastadoras danificaram seriamente as construções de barro dos chimus. Os ladrões de tumbas completaram a destruição.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Os Astecas


Os astecas eram caçadores e coletores nômades que, por volta do século XIII, penetraram no vale do México e serviram como guerreiros mercenários para alguns povos que ali viviam. Depois, aplicaram a experiência militar que adquiriram para derrubar seus antigos senhores. 


Fundação da cidade do México, José María Jara

Em 1325, os astecas fundaram a cidade de Tenochtitlán (localizada onde hoje se situa a Cidade do México). Com duas outras cidades-estados, Texcoco e Tlacopán, formaram uma poderosa aliança que logo conquistou todo o vale. Calcula-se que a aliança controlava cerca de 10 milhões de pessoas de diferentes culturas, que falavam uma língua comum, o "nahuatl". Essa população pagava tributos em mercadorias e fornecia prisioneiros para serem sacrificados ao deus asteca Huitzilopochtli.

Tenochtitlán era a capital política e religiosa do Império Asteca. Construída sobre uma ilha no lago Texcoco, estava unida às margens por três estradas flutuantes. Possuía ruas largas, palácios, mercados, escolas, jardins e templos em forma de pirâmide. Ao redor da cidade, foram construídas ilhotas artificiais, chamadas "chinampas", onde se cultivavam verduras e flores e se criavam perus. No movimentado mercado da cidade, usavam-se sementes de cacau como moeda para adquirir todo tipo de mercadoria: mantas de algodão, cerâmica, víveres, flores, esteiras de junco, milho. penas coloridas etc. Fiscais do governo controlavam o comércio, verificando pesos, medidas, preços e qualidade dos produtos.


Cultivo do milho, Códex Florentino. Bernardino de Sahagún

"A economia asteca baseava-se na agricultura, no comércio e nos tributos pagos com produtos locais pelos povos vencidos. Plantavam milho. feijão, tomate, melões, baunilha. cacau, algodão. agave, tabaco. Com o cacau preparavam uma bebida quente chamada chocolatl e com o agave uma bebida fermentada, semelhante à bebida mexicana de hoje, o pulque. Comerciavam as mais variadas mercadorias; os mercados astecas e os comerciantes vendiam tecidos, cordas e sandálias de agave, plumas, animais selvagens, peles, produtos da terra, cerâmicas, fumo, sal, grande quantidade de ouro, prata, pedras preciosas e até escravos (prisioneiros de guerra). [...]" HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 191.


Astecas fumando e bebendo pulque. Codex Mendoza. Artista desconhecido

Os domínios astecas eram controlados por fiscais e cobradores de impostos. Esses altos funcionários pertenciam à nobreza e tinham privilégios, como isenção de impostos, uso de jóias e recebimento de terras. Mas, se agissem de forma desonesta, eram punidos com mais severidade do que os cidadãos comuns. O imperador era escolhido pelas suas qualidades guerreiras (seu título não era hereditário).

Os sacerdotes eram tão importantes quando o imperador e os nobres. Além das cerimônias religiosas, eles cuidavam da contagem do tempo, dos livros sagrados e da educação dos jovens. As escolas sacerdotais eram abertas aos meninos de todas as camadas sociais. Outros grupos sociais eram os artesãos, os agricultores, os comerciantes e os escravos.

"Os astecas eram exímios artesãos e desenvolveram técnicas de grande habilidade. Na indústria de tecidos, conseguiram excelentes resultados trabalhando o algodão, que fiavam manualmente com o auxílio de rocas de cerâmica. Seus ourives eram também muito hábeis, e as jóias que produziam em ouro e prata deixaram os espanhóis admirados". REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Os exércitos astecas eram numerosos e bem-organizados. Todos os jovens deviam estudar na escola militar, e os melhores lutadores passavam a integrar as principais ordens militares.

"Os astecas cultivavam a poesia, sobretudo a lírica e a religiosa. Ao que parece, sua produção literária também compreendia peças dramáticas, próprias para a representação teatral. Graças a transcrições que os espanhóis fizeram de partes de alguns textos poéticos, conservam-se cerca de sessenta cantos e vinte hinos litúrgicos dos astecas, que eram acompanhados de instrumentos de sopro e percussão." História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 22.


Mãe asteca ensinando sua filha a fazer tortillas. Códex Mendoza. Artista desconhecido


Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. 
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. 
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os Toltecas. Os Maias



* Os Toltecas. Por volta do séc. IX, surgiram no México novas culturas, mais militarizadas e bem situadas para se aproveitarem da persistente situação de guerra da região. Entre eles estavam os chichimecas, nômades invasores vindos do norte, e uma outra cultura, mais avançada, conhecida como tolteca, da qual os astecas se diziam descendentes.

Os toltecas entraram no México no início do séc. X e, liderados por Topiltzin Quetzalcoatl, construíram  sua capital em Tollan (atual Tula). De lá, entre 950 e 1150, eles controlaram uma parte do vale do México, Puebla e Morelos. Os locais de imolação adornados com os crânios dos inimigos e os temas de sacrifício humano predominantes em seus baixos-relevos indicam uma cultura de povo guerreiro. Por volta de 1180, tribos inimigas invadiram Tollan, incendiando a cidade e pondo fim ao domínio tolteca no México central. PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 204.


Ruínas de Tollan. Arquitetura tolteca. 

* Os Maias. O conhecimento que se tem da cultura maia baseia-se em pesquisar arqueológicas e no estudo das estelas e dos códigos manuscritos elaborados por esse povo. Os documentos mais antigos são as estelas, monólitos que apresentam um grande número de inscrições e sinais de calendário. Um outro documento de suma importância pela sua antiguidade é a chamada "tabuinha de Leyda", que remonta aos primórdios do período clássico, por volta de 320 d.C. Com relação aos códigos, apenas três salvaram-se da destruição por parte dos conquistadores espanhóis: o de Dresden, o Trocortesiano e o Peresiano. Esses documentos são feitos de cortiça revestida com uma camada fina de cal, onde estão gravadas inscrições e figuras coloridas alusivas ao calendário, a práticas de adivinhação e a rituais religiosos dos maias.

Apenas a terça parte dos textos inscritos nos monólitos já foi decifrada; e no que diz respeito aos códigos, estes carecem de dados especificamente históricos, deficiência em parte compensada pelos relatos que funcionários e sacerdotes europeus redigiram, com base em informações prestadas pelos nativos. Além disso, existem documentos manuscritos em idioma nativo mas com caracteres latinos que datam do período imediatamente posterior à conquista espanhola. Segundo especialistas, tais registros poderiam ser a transcrição de antigos documentos maias que teriam sido destruídos. HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 10-11. Volume 3.

* Os centros cerimoniais. A civilização maia formou-se por volta do século IV, numa região próxima ao oceano Pacífico, na atual fronteira entre o México e a Guatemala. Espalhou-se depois por toda a Guatemala, sul do México, península do Iucatán, Belize e parte ocidental de Honduras. Era constituída por centenas de centros cerimoniais autônomos, que se ligavam por rotas terrestres e fluviais, permitindo uma intensa troca de produtos: obsidiana, jade, plumas de quetzal, cacau, tecidos de algodão, punhais de sílex, peles de jaguar, cerâmica, centre outros. 

Os centros cerimoniais maias não eram exatamente cidades. Eles reuniam os templos, as residências dos governantes, os monumentos políticos e as praças destinadas às celebrações. Neles moravam somente os sacerdotes, os governantes e os servidores dos templos.  Não tinham muralhas nem fortificações. A população vivia em pequenos casebres dispersos pelos arredores e ia ao centro apenas para as cerimônias religiosas e para o mercado.

As construções maias traziam numerosas inscrições com nomes de governantes e datas.  Marcar o tempo era uma grande preocupação de seus sacerdotes, que usavam dois calendários: um religioso, com 260 dias, e um de uso civil, com 360 dias mais 5 dias considerados nefastos. A cada 52 anos, quando os dois calendários coincidiam, começava uma nova era, comemorada com a construção de novos templos sobre os antigos.  RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 118.

Dignitário maia, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-800. Artista desconhecido

* Economia. Os maias, cuja economia baseava-se na agricultura, dedicavam-se ao plantio do milho. O cultivo desse cereal absorvia apenas 48 dias de trabalho nos campos, permitindo que o tempo restante fosse empregado na construção de centros religiosos, templos monumentais, observatórios astronômicos, plataformas destinadas a danças e jogos e a rituais religiosos sob a direção de uma poderosa classe sacerdotal.  HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190.

O trabalho na terra era feito coletivamente. As vastas plantações eram irrigadas com o auxílio de sistemas que aproveitavam as águas do rio San Juan e das chuvas. Os maias também praticavam a caça e a pesca com frequência.

No comércio usavam às vezes sementes de cacau ou contas coloridas como moedas. Não só comercializavam produtos agrícolas, mas também mantas de algodão, camisas, jóias e tintas para pintar o corpo.  REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Um senhor maia proíbe uma pessoa de tocar em um recipiente de chocolate. Artista desconhecido


* As mulheres. As mulheres encarregavam-se dos serviços culinários. Aproveitavam o milho de muitas maneiras, depois de colocá-lo de molho em água e sal e moê-lo. Com esse produto faziam pão, uma pasta muito utilizada na dieta alimentar, uma espécie de leite e até mesmo uma bebida, à qual também misturavam cacau e pimenta.


Cerâmica maia: mulher com criança, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-900. Artista desconhecido

As mulheres participavam ativamente da vida social. Como assinala F. de Aparício, delas dependiam "o sustento da casa, o pagamento de tributos, a educação dos filhos, a fiação e a tecelagem, bem como o amanho da terra." REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175-6.

Vaso: mulher maia, ca. 600-900. Artista desconhecido


* Indumentária. Os homens usavam uma faixa de algodão enrolada ao redor do tronco, passando entre as pernas, caindo uma das extremidades para a frente e outra para trás, e um quadrado de fazenda abotoa nos ombros à guisa de capa. Os cabelos eram tonsurados na frente, deixando uma longa cauda cair pelas costas. Até o casamento, o corpo e o rosto eram pintados de negro, depois de vermelho. Os guerreiros pintavam-se de negro e vermelho, os sacerdotes de azul, os prisioneiros de riscas horizontais brancas e pretas. Tatuavam-se e usavam perfumes. Os nobres e sacerdotes apresentavam um aspecto resplandecente: plumas, ornamentos de jade, pingentes de conchas, peles de jaguar, dentes de crocodilo, colares, braceletes e penachos e, para os chefes, as suntuosas plumas da cauda de quetzal, de cor verde-azul irisada.

As mulheres vestiam uma túnica de algodão, bordada com flores, pássaros, insetos; usavam um longo manto; cobriam a cabeça com um pedaço de fazenda. Seus cabelos eram longos. Tatuavam-se e perfumavam-se. MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 43-4. [História geral das civilizações, v. 10]

Pintura mural, Bonampak. Artistas desconhecidos
Foto: Inakiherrasti


* Produção artística. O alto nível de organização social atingido pelos maias revela-se na extraordinária qualidade de sua produção artística; sobretudo nas artes plásticas, em que se verifica uma acentuada preferência pelos baixos-relevos, presentes nas inúmeras estelas produzidas por esse povo. O grau de perfeição alcançado na pintura pode ser observado nos afrescos descobertos em Bonampak, que cobrem as paredes de três recintos de um edifício, dispostos em largas faixas horizontais superpostas. Estas faixas representam cenas de cerimônias religiosas, danças e batalhas, revelando particularidades a respeito das roupas, ornamentos, armas e instrumentos musicais dos maias. História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 16. Volume 3.

Vaso maia: cena de batalha, ca. 600-900, Guatemala. Artista desconhecido

* Festas e guerras. Os maias gostavam de se divertir. Promoviam então bailes que chegavam a durar o dia inteiro, nos quais dançavam e bebiam bastante. O saldo dessas festanças nem sempre era agradável, pois elas resultavam às vezes em brigas violentas e até em mortes. As mulheres apenas serviam bebidas aos homens, não chegando a dançar. Tinham, no entanto, suas festas particulares, quando também se embriagavam.

Festas à parte, os maias eram hábeis guerreiros. Usavam arco e flecha, assim como lanças e machados de metal com cabo de madeira. Protegiam-se com escudos. Quando vencedores, cortavam a mandíbula inferior do inimigo morto para usar como bracelete nas festas e cerimônias. REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 176.

Figura masculina com máscara removível, Campeche, Ilha de Jaina ca. 700-900. Artista desconhecido.


* Legado. Legaram-nos [...] belos exemplos de pintura mural, de cerâmica e de objetos de adorno executados em jade, quartzo e turquesas, os materiais mais preciosos para os maias; desenvolveram um calendário aperfeiçoadíssimo [...] e uma escrita hieroglífica com a qual documentaram acontecimentos históricos, dados de astronomia, rituais, métodos de adivinhação, conhecimentos científicos. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190-1.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. Volume 3.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. [História geral das civilizações, v. 10]
PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002.