"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 5 de janeiro de 2014

A Igreja na América hispano-indígena

Foi o grande instrumento de dominação dos índios. Manuel Amat expressou claramente: “Os religiosos devem ser úteis ao Estado”. Manuel Amat sabia o que dizia: era Vice-rei do Peru.

Foi ao mesmo tempo um formidável poder econômico. Cobrou dízimos sobre a produção rural, recebeu infinitas doações e heranças, possuiu gigantescas propriedades territoriais e imponentes edifícios urbanos: o esplendor arquitetônico, que marca sua presença no continente, confirma seu poder e sua riqueza.


Índios e missionários atravessando um rio na região do ChacoFlorian Paucke

Interveio na educação, cultura, arte e na vida das pessoas; fundou universidades e introduziu imprensas; ergueu bibliotecas e fez autos de fé com os livros que continham a sabedoria indígena. Condenou os hereges aos calabouços da Inquisição: pagãos, judeus e judaizantes; em não poucas ocasiões defendeu ardorosamente o indígena, o desamparado; em outras, agiu tal qual os conquistadores. Não negou as instituições repressoras, quis atenuá-las, humanizá-las. Possuiu escravos, mas alguns de seus membros repudiaram a escravidão. Fez negócios e emprestou dinheiro a juros, enterrando na tumba do esquecimento seu repúdio medieval aos juros e os negócios. Na pessoa dos jesuítas teve os mais notáveis administradores de negócios que a história colonial conheceu; os mais habilidosos apaziguadores de índios. Ela tentou penetrar o mais profundo na alma indígena para retirar dela a antiga herança cultural e religiosa: conseguiu em termos relativos. Procurou construir Igrejas e Catedrais utilizando, como alicerces, as ruínas dos centros cerimoniais nativos. Catequizou milhões de índios, mas é duvidoso que tenha penetrado até os últimos desvãos de sua consciência. E talvez, sabendo disso, colocou imagens de Virgens e santos nos altares diante dos quais se ajoelhavam os adoradores do sol, da terra e da serpente emplumada. Fez com que o culto fosse compreensível para os povos conquistados: aprendeu seus idiomas e neles redigiu catecismos, livros edificantes, histórias de santos. E àqueles que reverenciavam deidades que amparavam as colheitas e as atividades da terra, a família e as pessoas, a água, as árvores e os pássaros, propôs imagens visíveis, mais que um Deus abstrato. O Colibri Zurdo dos nativos se transformou no Santiago espanhol, atropelador de pagãos com as patas de seu cavalo; Tlaloc passou a ser Senhor del Sacromonte; Nossa Senhora Espírito, a Virgem de Guadalupe.

A Igreja encontrou no Frei Juan de Zumárraga, primeiro bispo do México, um discípulo de Erasmo de Roterdam, denunciador de atrocidades. E, em Vasco de Quiroga, primeiro bispo de Michoacan, um admirador de Tomas Morus que tentou, em sua diocese, transformar a Utopia em realidade. No entanto, o primeiro grande esforço dos espanhóis e da Igreja era converter a nobreza nativa; depois dela viria – supunha-se – o povo baixo e ignaro.

Os quadros eclesiais eram compostos pela mais variada gama de seres humanos. Frei Angel de Valencia e outros franciscanos, ao se dirigirem ao Imperador em 1553, pediam que os clérigos que fossem às Índias fossem “examinados, visitados e preparados, porque uma das maiores pestilências que a doutrina de Cristo sofre é por parte dos clérigos”. Hernán Cortez, longe de ser um santo, dirigia-se a Carlos V, em 1424, dizendo-se escandalizado pelas “pompas e outros vícios” dos clérigos, “e que se os índios vissem os vícios e profanidades que agora mostram em nosso Reino [...] seria um dano tão grande que não aproveitariam nada das pregações feitas”. O cronista Fernández de Oviedo observa que os sacerdotes costumam casar-se, o que não lhe parece um erro, pois a terra deve ser povoada. Mas, o que seria conveniente – prossegue – que os filhos passassem por sobrinhos. No terceiro Concílio de Lima (1583) Santo Toríbio Mogrovejo recordava aos clérigos que eles deviam ser pastores de almas e “não carniceiros, porque é muito feio que os Ministros de Deus sejam verdugos dos índios”. O padre Tomás Gage, que viveu na Guatemala na primeira metade do século XVII, revela que “as imagens dos santos que dependem das igrejas” produzem “continuamente, ao padre, somas de dinheiro, galinhas, círios e outras oferendas”. Enquanto padre de dois povoados, com dezoito imagens em um, e vinte no outro, “me produziam quatro escudos cada dia de festas, pela missa, pelo sermão e fazer uma procissão; além disto, galinhas, perus, cacau e as oferendas que colocavam diante dos santos”.

Seria fácil continuar com este tipo de depoimentos, mas a justiça pede que seja ressaltada a extraordinária prédica de Bartolomeu de Las Casas em favor dos índios, e de outros que sem chegar a tão grande fama, defenderam os aborígenes das violências físicas e cobranças econômicas. Mas casos individuais não definem a ação global, e esta – repetimos – foi o grande instrumento de dominação. A Igreja fez pregações sobre a resignação e a submissão, a humildade e a mansidão. Amenizou os tristes dias dos índios com as coloridas festas e procissões da Semana Santa, o Patrono do povoado, Corpus, Natal e tantas outras. Permitiu que nas festividades católicas se misturassem antigos rituais de religiões pré-colombianas; foi condescendente com o impulso que emergia do mais profundo da consciência indígena. Talvez não tenha ignorado que quando os índios se ajoelhavam diante do altar, o significado de suas preces divergia profundamente daquele que o cristianismo pedia. Muitas de suas celebrações – anota Cardoza e Aragon – comemoravam o triunfo dos conquistadores, a derrota dos nativos. John L. Stephens, que visita a Guatemala em 1839-1840 observa que na maior parte das entremezes, louvações ou balés rudimentares tratavam os mouros e os chefes indígenas de maneira ridícula e invariavelmente vencidos pelos conquistadores. Os dias de festas e descanso – o tempo livre, digamos – eram aproveitados para a doutrinação ideológica do dominador, introduzindo o sentimento de um valor menor naqueles que, sendo os filhos da terra, deviam acatar ao homem branco e civilizado exatamente por isso: por ser branco e civilizado.

A Coroa espanhola manteve sobre os clérigos no continente um controle férreo: não permitiu que eles se lhe escapassem. E quando um grupo ou uma ordem ultrapassou os limites admissíveis do poder espiritual e temporal, foi expulso. Em 1767, os jesuítas foram expulsos. No México, onde a Igreja, no final do período colonial, chegou a possuir a metade das terras planas férteis, os soldados de sotaina de Ignácio de Loyola eram proprietários de 45 fazendas com mais de 1.100.000 hectares; tinham seis engenhos de açúcar (com um valor que oscilava entre 500.000 e m milhão de escudos), 300.000 carneiros e outros grandes rebanhos. O bispo de Puebla, Juan de Palafox, observa: “A opulência de seus bens, que é excessiva, uma estupenda capacidade para fazer dar frutos e crescer mais, e a indústria do tráfico e comércio, tendo armazéns públicos de mercadorias, de animais, açougues, lojas para negócios dos mais vis e indignos de sua profissão, enviando uma parte dessas mercadorias à China, pelo caminho das Filipinas.

Na Guatemala, no vale das Mesas de Petapa, entre oito “maravilhosos e opulentos engenhos” a Igreja tinha cinco. No Peru, foram incalculáveis as riquezas acumuladas. [...]

A alta hierarquia luziu pompas e luxos fora do comum, insolentes; a corrupção depravou corpos e almas. Não foram poucos os sacerdotes que empunharam armas e foram à luta; não faltaram os intrigantes e os santos homens. Nem todos os padres mandaram, mas a Igreja mandou.


POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 144-145.

NOTA: O texto "A Igreja na América hispano-indígena" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 2 de novembro de 2013

As religiões da Antiguidade Clássica

O poema de Hesíodo, Teogonia, nos proporciona a visão mais coerente da religião dos gregos. Nele, são identificadas duas idades distintas da história dos deuses: uma primeira, de desordem, em que reinava o Caos, pai da Obscuridade e a Noite, que, por sua vez, gerou filhos como o Destino, a Morte, o Sonho, ou como as Parcas, que tecem a sorte do ser humano. De Gaya, a Terra, nasceriam Urano (o céu), as montanhas e Pontos (o mar), e de suas relações entre si, surgiram os Titãs, os Ciclopes e os monstros de cem mãos. Com o Urano queria evitar que os filhos saíssem do ventre de Gaya, um dos titãs, Cronos (o tempo, conhecido pelos romanos como Saturno), cortou os testículos de seu pai com a foice que lhe deu a própria Gaya. Cronos, por sua vez, sabendo que um dos seus próprios filhos o derrotaria, como ele havia feito com seu pai, os devorava ao nascer, porém, a mãe, Rea, salvou um deles, Zeus, escondendo-o em Creta, onde cresceu e se tornou forte e, armado com o raio, derrotou a Cronos e aos titãs depois de uma longa luta, obrigando seu pai a vomitar, depois, todos os seus irmãos que havia devorado. Teria início, então, uma nova etapa da história dos deuses, com Zeus no Olimpo, regendo sem disputa a sorte do Universo e, consequentemente, a dos homens.

Ares e Afrodite. Afresco romano. Casa di Meleagro, Pompéia.

A primeira etapa da religião grega relaciona-se intimamente com os mitos do Oriente Próximo, com as cosmogonias dos babilônios e dos hititas. Os deuses destronados por Zeus não recebiam culto normalmente, exceto em períodos muito especiais (Cronos, por exemplo, o recebia no período “carnavalesco” entre o final de um ano e o começo de outro). Eram deuses do passado, excluídos da nova ordem religiosa que reinava no tempo de Hesíodo. Posteriormente, os filósofos gregos foram reinterpretando o cosmos, relacionando os mitos com as forças naturais e a princípio abstratos, enquanto que os historiadores veriam os mitos heróicos como um reflexo de fatos reais do passado, iniciando, com eles, seus relatos da história do mundo.

Os romanos souberam transformar sua religião num sincretismo em que os deuses dos diversos povos eram admitidos como variantes da religião romana, identificando-os com eles, ou os integravam ao Panteão, sem nenhum tipo de discriminação (parece que Alexandre Severo quis construir um templo a Jesus Cristo para incluí-lo na religião oficial). Este mosaico de religiões vinculadas à ordem estabelecida tinha um ritual que dava ao imperador uma dimensão religiosa, como herdeiro das funções sacerdotais dos senadores e como sacrificador. Muitos dos templos egípcios, que associamos à época faraônica, foram embelezados e reconstruídos pelos romanos (Trajano aparece representado como um faraó no templo de Khnum e, no de Luxor, há um altar com uma inscrição de Constantino). Os romanos não tinham Igreja organizada com uma casta sacerdotal: a religião era, para eles, parte de seu sistema político.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusc, 2000. p. 298-299.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Cultura e religião na África pré-colonial

A história do continente africano, geralmente, é construída de fora para dentro, com base nos interesses que buscaram (e buscam ainda) dominar a África e os africanos, mas também por culpa de africanos que se espelham e vivem à imagem dos povos que os dominaram, sem referência ao seu passado histórico. Segundo Ki-Zerbo (2010), é imperativo que a história e a cultura da África sejam também vistas de dentro, sem serem analisadas por parâmetros de valores exclusivamente europeus. Portanto, apesar dos mitos e preconceitos de todo tipo, que durante um longo período de tempo ocultaram a real história deste continente, existiu e existe até os dias de hoje culturas, religiões e grupos linguísticos diversos, bem como uma organização social própria dos povos africanos.



O continente africano é conhecido pela diversidade e pela riqueza de suas culturas e religiões, mas sobre o período pré-colonial a maioria dos filmes e documentários mostra uma imagem essencialmente primitiva e "bárbara". No entanto, essa visão não passa de um olhar racista e ideológico que busca descaracterizar o continente para poder controlá-lo com facilidade. Apesar disso, nenhuma dessas classificações pode apagar a história da mais antiga região do mundo, que é, culturalmente, um conjunto plural, um mosaico de nações étnicas correspondentes a identidades distintas.

Nesse sentido, Cheikh Anta Diop (1999) observa que não se deve construir a humanidade apagando a cultura de uns em benefício de outros e, tampouco, renunciando prematuramente e de forma unilateral sua cultura nacional no intuito de se adaptar à do outro em nome da simplificação da "globalização", pois isso seria um suicídio. Ou seja, importa resgatar as culturas africanas do período anterior ao colonialismo europeu, bem como suas relações com o resto do mundo, principalmente, devido às diferenças físicas, linguísticas e de organizações sociopolíticas que caracterizam a realidade africana.

Desse modo, podemos definir a cultura como sendo o conjunto da maneira de pensar, agir e se comportar de um povo que vive em coletividade, compartilhando símbolos e valores. Segundo Giddens (2004), o conceito de cultura se refere aos aspectos da sociedade humana que são apreendidos e não herdados, porém compartilhados pelos membros das sociedades e tornam possível a cooperação e a comunicação. Desse modo, a cultura é composta tanto por elementos materiais como por obras de arte, técnicas ou instrumentos de trabalho do grupo, bem como suas vestimentas, elementos espirituais ou religiosos que incluem ideias, crenças, normas, valores e costumes do grupo. Portanto, a compreensão de qualquer cultura deve evitar privilegiar, como foi feito no caso da África, o fator psicológico da identidade cultural em vez de considerar também as dimensões históricas e linguísticas (DIOP, 1987). No caso da África pré-colonial, a consideração desses elementos nos leva a falar, além da origem egípcia da civilização africana e mundial, da história dos Estados africanos conhecidos como impérios ou reinos, que foram grandes centros de divulgação da cultura africana.

Durante esse período, apesar do Deserto do Saara dividir o continente africano em dois, gerando o desenvolvimento de estilos de vida diferentes entre o norte e o sul, sempre houve trocas comerciais, culturais e sociopolíticas entre os povos das duas partes do continente. Assim o desenvolvimento de relações intercomunitárias e a organização no âmbito da formação de Estados foram facilitados. Um exemplo disso foi o Império de Gana, o mais antigo da parte ocidental do continente [...], que teve como respectivos sucessores os impérios Mali e Songhai. Essa sucessão mostra, em parte, a continuidade histórica dos povos africanos cuja base da civilização é a cultura egípcia, contrariando as afirmações das teorias que tentam distinguir a civilização e a cultura egípcia da dos demais povos do continente.

Segundo Diop (1999), a civilização do Egito Antigo é a base do patrimônio cultural, filosófico e científico de todos os africanos do continente, influenciando também a diáspora. Importa dizer que apesar de a África ser definida, primariamente, como um continente pobre e que pouco inovou, antes da colonização europeia o continente era uma das partes do mundo mais dinâmicas do ponto de vista da pesquisa e do florescimento cultural graças à organização política e socioeconômica de seus impérios. Assim, segundo Cissé (2010), na África Ocidental, por exemplo, mais especificamente na zona sudanesa-saariana, os contatos entre a população local e a cultura árabe-muçulmana, entre os séculos VIII e IX, propiciou uma grande produção de manuscritos em árabe nos principais centros urbanos como Gao, Djene e Timbuktu.

Considerando um intervalo de tempo um pouco maior, do século VII ao XVI, e sob vários aspectos, o continente africano passou por momento importante, pois este foi um período privilegiado para o desenvolvimento de culturas originais. Sem perder sua identidade, os africanos assimilaram influência externa. Foi nesta época que o grande Império do Sudão, situado ao sul do Saara, entrou em contato com a cultura e a religião islâmicas, as quais a partir de então passaram a fazer parte da cultura africana, convivendo quase que em harmonia com as religiões e crenças locais. Portanto, de forma oposta ao cristianismo, que chegou ao continente negro juntamente com os exploradores e futuros colonizadores europeus, o islamismo chegou à África pregado por africanos que tiveram contato com os fundamentos islâmicos a partir de viagens ao Oriente Médio. Conforme Diop (1999), a penetração do islã na África foi feita de forma pacífica, exceto o caso da islamização do movimento almoravida, durante a primeira metade do século XI, quando os berberes tentaram impor o islã pela força das armas.

Vale ressaltar que o contato dos africanos com o mundo árabe marcou o início de novos relacionamentos do continente negro com o exterior. Essas relações se intensificaram, resultando em formações sociais, políticas e culturais complexas, baseadas na diversidade que caracteriza o continente. Essa diversidade, por sua vez, dificulta a compreensão da formação, em termos de crença, de um sincretismo ou hibridismo religioso que se observa no continente até na atualidade. Desse modo, o entendimento das religiões africanas tradicionais se torna mais complicado devido à incorporação pelas mesmas de outros elementos provindos dos contatos com o exterior, notadamente do islamismo, e mais tarde do cristianismo.

Assim, segundo Tedanga (2005), para caracterizar as práticas religiosas na África tradicional os estudiosos das religiões e antropólogos do mundo moderno fabricaram todo tipo de denominação reducionista e ideológica das crenças africanas. Nesse sentido, encontramos na literatura conceitos como animismo, fetichismo, ancestralismo, magismo e totemismo, entre outros. Independentemente do termo ou conceito que se use, percebe-se a carga reducionista. No entanto, se considerarmos que fetichismo, animismo ou totemismo são três fenômenos da vida humana, é normal que a religião africana tenha interesse por eles, embora seja abusivo reduzir o conjunto de suas crenças focando somente esses elementos.



Importa dizer que as religiões da África são tão diversas quanto as línguas e etnias do continente, já que cada uma delas tem seus deuses, gênios ou ancestrais cuja adoração, ritos, oração ou sacrifício segue uma lógica única. Por isso, segundo Dieng (2007), à primeira vista tudo parece ser diferente entre as religiões dos dogons, dos malis e dos zulus da África do Sul, ou entre os pangos e os iorubás da Nigéria. Porém, um olhar mais aproximado pode diagnosticar algumas características fundamentais, que são idênticas entre esses cultos essencialmente destinados a ligar os homens ao mundo invisível, seja na forma natural ou sobrenatural. Na África, os povos têm mais ou menos a mesma concepção sobre seus ancestrais, sobre os gênios, seus modos de encarnação ou de reencarnação, bem como o entendimento sobre os vivos. Portanto, pode-se encontrar no totemismo e no fetichismo uma relação sutil entre o homem, o animal e a natureza.

Fica evidente que, do ponto de vista religioso, o continente africano apresenta uma rica variedade que reflete o importante papel das crenças nas organizações políticas e socioeconômicas. Isso mostra a importância da religião, da divindade ou do sagrado na vida dos africanos, bem mesmo antes da chegada das chamadas religiões reveladas (cristianismo e islamismo). [...]

Desse modo, pode-se afirmar que o monoteísmo africano é anterior ao islamismo, pois as religiões e o comportamento da maioria dos povos do continente se baseiam na moral e no respeito à vida em conjunto harmonioso, tanto entre os homens quanto entre eles e a natureza. Apesar da grande presença do islamismo na África Subsaariana nos séculos que antecederam à chegada do cristianismo e da colonização, importa sublinhar que a religião que dominava nos principais Estados ou impérios como Songhai, Mali e Benin, por exemplo, é aquela ligada às crenças ancestrais, as quais acreditavam em um ser supremo, do qual procedem todas as pessoas. Consequentemente, todos os indivíduos são valiosos e dignos de respeito. Ou seja, a cultura tradicional africana põe especial ênfase nas virtudes como a tolerância, a hospitalidade, a paciência e todos os valores que asseguram a harmonia social. Daí o rápido crescimento do cristianismo e do islã no continente, pois, segundo Dieng (2007), a rápida expansão dessas religiões na África se deve, em grande parte, ao sentido religioso, ao respeito e a tolerância inerente à cultura tradicional.

Nesse sentido, conclui-se que, do ponto de vista cultural, principalmente no que diz respeito à religião, a África tem sido uma grande precursora dos valores humanos incorporados pelas religiões reveladas (cristianismo e islamismo), apesar do discurso que anunciava a tarefa de "civilizar" os povos africanos a partir de seus valores. [...]

De qualquer modo, a religião dominante na África pré-colonial foi o animismo ou religião tradicional, apesar da islamização do continente a partir do século IX. O animismo consiste na crença em um único criador do universo que colocou um espírito em todas as coisas, sejam elas animadas ou não. Igualmente são cultuados os ancestrais, e se dá um valor particular à magia, notadamente a que cercam os ferreiros. Desse modo, percebe-se que a entrada e a expansão do islamismo se deram, principalmente, devido a essa coincidência de culto ao ser superior único, mas também por não ser uma religião de elite e aceitar sua expansão sem a erradicação do animismo (SYLLA, 1994). Nessa lógica, os seres são hierarquizados. Até o ser supremo, que pode ser confundido com o ancestral, nunca é uma abstração, mas sim energia viva, forças submetidas aos princípios de interação e que, como as forças físicas não mecânicas, podem se somar, se destruir ou se neutralizar (WADE, 2005).

Portanto, mesmo com a entrada das religiões monoteístas (islamismo e cristianismo), vale ressaltar que a religião tradicional continuou sendo a principal crença, pois nesse campo, na maioria das vezes, a aceitação e a adoção das religiões estrangeiras eram vistas pelos africanos como uma forma de receptividade e de acesso ao outro para fins comerciais. [...]

Grosso modo, a cultura e a religião são dois elementos fundamentais para o entendimento da sociedade tradicional africana [...]. Porém, continuam pouco conhecidas e, principalmente, encaradas a partir do etnocentrismo ocidental, pois sempre foi importante justificar a presença estrangeira no continente africano. Mas independentemente dos aspectos negativos dessa presença, importa dizer que as crenças tiveram uma influência profunda sobre a organização social africana, centrada no núcleo tradicional, baseada no clã dirigido pelos anciãos.

VISENTINI, Paulo Fagundes et al. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 21-26.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Religião, sexo e família

Coleta de esmolas para a Igreja do Rosário, Debret

[...] a religião funcionava, como justificativa última da escravidão, na medida em que tudo o que acontecia com o escravo seria para o seu bem, para a salvação de sua alma. Mas era importante que também o escravo fosse cristão: abandonando sua religião de origem ele perderia um importante referencial de sua vida como homem livre e adotando o catolicismo teria como se conformar com sua condição. Assim, o escravo não apenas podia ser católico, ele tinha que sê-lo.

[...] A religião, no período da escravatura, deveria ser um freio para os revoltados, um consolo para os desanimados, uma esperança para os desgraçados, um alento para os fracos, como se dizia na época.

O senhor deveria ser entendido como um pai, severo e duro, temido e respeitado, que tudo fazia para o bem dos seus filhos. [...] a par da exploração material, acenava-se com a igualdade espiritual; conviviam o fato da miséria terrena e o ideal do paraíso celeste; argumentava-se com o infinito àqueles que só enxergavam suas cadeias; acenava-se com um assento à mesa de Deus aos miseráveis que engoliam sua comida nojenta de cócoras; falava-se de plenitude aos carentes, de calor aos que tinham frio, de alegria aos tristes, de alívio aos sofridos.

Tudo isso, porém, só poderiam obter se cumprissem o seu dever. Porque a virtude do homem - dizia a religião para o escravo - estava em trabalhar duro para o seu sustento; em conformar-se e se manter manso [...]; em submeter-se à ordem vigente, em respeitar o senhor e em arrepender-se das faltas [...].

O escravo era batizado logo que chegava ao seu local de trabalho - fazenda ou cidade - recebendo um nome "cristão". Devia esquecer a forma pela qual era chamado no seu lugar de origem. A atribuição de um novo nome e o batismo representavam a transformação do cativo em escravo, isto é, o início do trabalho compulsório. Assim, era de se esperar uma identificação feita pelo escravo, entre o poder e a religião. [...]

A religião, ensinando a mansidão e o conformismo, não se afinava com os movimentos de revolta em qualquer nível, ativos e passivos.

Por outro lado, não se pode negar que a grande massa de escravos ia se adaptando, tanto à sua condição quanto à religião. As formas de repressão desenvolvidas pelos senhores tinham por objetivo exatamente desestimular qualquer tipo de revolta ou reação contra si. [...] (Há exceções notáveis aqui, entre as quais a importante revolta dos malês, ocorrida na Bahia, assim como o candomblé e a capoeira como formas de resistência.)

Jogo de capoeira, Rugendas

No decorrer dos anos, o catolicismo imposto aos escravos vai sofrer alterações significativas, digerido tanto pela cultura trazida por eles da África, quanto pela prática social no Brasil. O chamado sincretismo religioso é uma das formas que distinguem a religião dos escravos daquela dos senhores. [...]

Por outro lado, valores morais apregoados pela religião eram sabidamente desobedecidos pelos senhores. Com toda a propalada preocupação em manter unida a família, o escravismo foi um elemento profundamente desagregador de uniões permanentes. Primeiramente porque separava, sem a menor cerimônia, casais que porventura viessem unidos da África. Depois, porque a desproporção entre homens e mulheres trazidos não era de molde a propiciar ligações permanentes. Na verdade, as condições de vida nas senzalas e a existência de uma mulher para quatro ou cinco homens estimulava o caráter transitório das ligações.

[...]

Conscientes do problema que representava a presença de muitos homens sem mulher, os senhores, na prática, estimulavam uniões transitórias, realizadas, frequentemente, apenas com o seu beneplácito, sem as bênçãos da religião - que, aliás, fechava os olhos para o fato. Mais comum ainda era a escrava ter filhos de vários homens, sem mesmo se envolver em ligações transitórias oficializadas pelo senhor.

Quando, excepcionalmente, a cerimônia religiosa ocorria, os sacramentos eram cumpridos pelo padre como formalidade desagradável e não como ato de fé. Considerava-se o ato como um luxo e não como decorrência da formação religiosa ministrada aos negros desde a infância.

Não se levam em consideração esses elementos quando, com enorme carga de preconceito, pretende-se atribuir aos negros características como leviandade nas relações pessoais e promiscuidade sexual. Na verdade, isso não tem, evidentemente, nenhum fundamento biológico, ou mesmo social: era fruto de constrangimento a que eram submetidos, à sua condição.

Interior de uma casa do baixo povo, Guillobel

Mesmo porque os senhores se utilizavam da situação para dar vazão à sua atividade sexual geralmente bastante reprimida em casa. Com efeito, o papel da esposa branca e legítima era apenas o de dar filhos ao seu marido [...]. Limitada em seus movimentos às fronteiras da residência do casal, pouco fazia. Desde menina tinha um bando de negrinhas a segui-la, atentas às suas ordens. Não se abaixava para levantar um lenço do chão, crescia balofa e vadia. Casava-se cedo, cedo começava a procriar. Evitava o "terrível" pecado original do prazer nas relações sexuais: na verdade, isso lhe era implicitamente vedado. Tinha como modelo a própria mãe de Deus, Maria, e supunha-se que deveria chegar perto de Maria como mulher virtuosa. Engordava após o parto e dificilmente voltava às curvas originais - com vinte anos já era uma matrona.

Não é difícil agora, numa época de menor repressão sexual imaginar a frustração dessas verdadeiras matrizes, utilizadas para procriar sem prazer. [...]

Quanto ao senhor, contudo, não há dúvidas. Cumpria com sua mulher branca as obrigações de reprodutor e marido, mas voltava-se às escravas para o prazer sexual. Entregava-se às negras e mulatas com todo o empenho, buscando usufruir delas a satisfação que não encontrava em sua formal cama de casado. O mito das mulheres quentes, atribuído, até hoje, às negras e mulatas pela tradição oral, decorre do papel que lhes era designado pela sociedade escravista. O historiador José Alípio Goulart recolheu [...] duas quadrinhas populares que consagram o caráter de objeto sexual dado às escravas bonitas:

Preta bonita é veneno
Mata tudo que é vivente;
Embriaga a criatura,
Tira a vergonha da gente.

Mulata é doce de coco,
Não se come sem canela.
Camarada de bom gosto,
Não pode passar sem ela.

Por seu turno, para as escravas, uma relação com o patrão poderia reverter em vantagens dentro da sua condição. Sabe-se de violências sexuais atrozes praticadas por senhores e feitores contra as negras escravas. [...] Mas não se pode negar que, diante da possibilidade de melhorar de condição [...] e vislumbrando também a possibilidade de ter um filho livre, a escrava acabasse cedendo ou, até mesmo, seduzindo o seu senhor. Ela sabia que quanto melhor fosse o seu desempenho sexual, mais oportunidades ela teria de prender o senhor, de reverter e até inverter a relação de poder, num ato que era também uma forma de vingança contra a sinhá e expectativa de tratamento privilegiado. Se conseguisse engravidar, via perspectivas de seu filho vir a ser libertado e incluído como agregado à grande família do senhor.

[...]

Às vezes - e muitas - a vingança saía pela culatra. Ofendida em seu amor próprio, a senhora utilizava-se de sua posição e torturava cruelmente a escrava, a ladra de seu homem. Assim morreram muitas jovens escravas, algumas das quais nem sequer quiseram dormir com o patrão, mas viram-se constrangidas a concordar com uma relação que, na sua condição de propriedade alheia, dificilmente conseguia evitar.

De qualquer forma, os documentos registram numerosos testemunhos das incursões que os senhores faziam às suas senzalas, com ou sem o consentimento das sinhás, com ou sem a aprovação das escravas: a multidão de mulatos, filhos de negras retintas; o grande número de agregados que aparecem nas famílias, sem papel definido, mas geralmente exercendo funções de confiança do senhor, e às vezes sendo por eles lembrados nos testamentos; e manumissões, de outras formas inexplicáveis, provavelmente fruto de promessas feitas durante o ato do amor com a mãe do libertado.

A partir de meados do século XIX, a propaganda abolicionista iria revelar vários aspectos da promiscuidade sexual, usando-a como argumento contrário à escravidão, acrescentando, já agora com o apoio de certos setores "progressistas" da Igreja, que ela "corrompia a família brasileira". Só então a legislação tratou de evitar a separação entre cônjuges, de estimular a união duradoura, de impedir a venda de filhos menores de 15 anos, entre outras medidas. [...]

[...]

[...] as relações inter-raciais eram muito complexas, não se reduzindo à já caricata presença da matronal mãe preta: produtora de leite sempre à mão e anjo de guarda das traquinagens dos garotos brancos.

Como consequência da relação senhor/escrava, ou por meio de ligações que ocorreram e ainda ocorrem entre negros e brancos livres, a miscigenação racial tem sido muito intensa no Brasil. [...]

PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2019. p. 56, 58, 60, 62, 64-66.