"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 28 de abril de 2017

A civilização neolítica

Imagem 1 - Estatueta feminina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

É que há nos invasores neolíticos um elemento de estabilidade: eles domesticaram animais e criam rebanhos.

Seus animais demoram-se nas terras boas, e voltam para a erva fresca de outra estação. O instinto do boi e do carneiro em busca de pasto e água leva atrás deles os homens; o movimento do rebanho alarga-lhes o domínio, mas torna lenta sua marcha: a captura da caça vai-se tornando menos indispensável. O clã se imobiliza e essa estabilidade relativa lhe permite melhorar seus utensílios. O homem se entrega a polir a pedra, a cinzelar os arpões, a cavar o solo para dele arrancar materiais.

Quando as pastagens se esgotam, é preciso partir: o gado dita a vida social. Esses nômades que vivem de seus animais só param quando a terra é bastante fértil para aliemntá-los sem sacrifício. Então o clã luta para nela se manter e pela posse das fontes indispensáveis aos rebanhos. O vencedor se tornará sedentário.

Depois de haver queimado a vegetação primitiva, ele semeia os grãos que viu germinar e espera a colheita. Coze tubérculos e planta árvores frutíferas. Cultiva os cereais, que ceifa, espiga por espiga, parte os grãos entre pedras chatas e os conserva em vasos de madeira, que produz em vime. Tece a lã e as fibras vegetais. Constrói cabanas de taipa e grupadas em acampamentos protegidos por paliçadas [...].

Imagem 2 - Estatueta masculina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

O clã se crê sob a proteção sagrada de um ser tutelar, senhor absoluto dos homens e dos bens e o poder divino desse animal faz dele a insígnia do clã, o totem, que dispõe de toda fonte de vida. Pela dança e pelo canto, o feiticeiro evoca suas energias sobrenaturais. O clã prossegue sua meditação do mistério. As planícies abertas liberam a imaginação humana e o céu ensina a noção da lei natural; as florestas concentram o espírito da observação. O culto dos mortos se desenvolve e também o da fertilidade. Para suas sepulturas, o clã levanta monumentos de pedra, dolmens, menires, ou cava abrigos artificiais; os costumes variam segundo os diversos focos de cultura neolítica.

Na mesma época coexistem já vários estágios de civilização e tais diferenças contribuem para acelerar as trocas entre os clãs, logo que o crescimento das forças produtivas lhes assegura um excedente de produção.

O objeto produzido torna-se objeto de troca: desde então, ele participa de relações sociais de uma natureza nova que sua função, por outro lado, vai modificar. É preciso primeiro produzir para depois trocar.

Imagem 3 - Cerâmica neolítica. Ca. 6200 a.C.

Os vencidos é que fornecerão o suplemento de trabalho que isso exige.

Outrora, abatiam-se os prisioneiros feitos nos combates pelo vencedor. Postos a serviço do clã vitorioso, seu trabalho contribuirá para enriquecê-lo. Não são as tarefas cada vez mais diversas? Com essa divisão constante do trabalho o encargo feminino passa a segundo plano.

A autoridade do dono dos rebanhos aumenta: ele submete a mulher e as noções de ligação de sangue cedem às de propriedade. Um duplo antagonismo dissolve a comunidade primitiva em proveito dos chefes de família e cinde a sociedade, ao mesmo tempo que a permuta regular de tribo para tribo cria diferenças de riqueza no interior do clã, onde desaparece o matriarcado.

Imagem 4 - Cerâmica do Neolítico. Ca. 6200 a.C.

À propriedade coletiva do clã tende a se sobrepor uma nova forma de propriedade: a desigualdade introduziu-se entre os homens. Depressa ela levará à propriedade individual que os chefes vigorosos reivindicarão, atribuindo-se mais prisioneiros e mais despojos.

[...] Com o crescimento numérico das populações humanas e de suas necessidades, a escravatura - essa domesticação de uma parte da humanidade pela outra - não deixará mais de se desenvolver.

[...]

Os detentores de escravos vão rapidamente beneficiar-se de uma situação privilegiada que procurarão estabilizar ajudando-se mutuamente para reforçar sua supremacia: uma classe dominante se constitui, saída diretamente das novas condições da produção.

[...]

No bem-estar em que melhoraram as condições de sua alimentação, os homens aperfeiçoaram suas técnicas. A tecelagem se torna hábil. Eles fabricam arcos e flechas, manobram suas pirogas a remo e - frágil símbolo dos sedentários - substituem os vasos de vime por uma louça de argila feita no tôrno, cozida e pintada com senso de simetria, em seus desenhos geométricos que reproduzem as fibras trançadas. [...]

Imagem 5 - A grande mãe do Neolítico. 

A reputação de seus trabalhos ganha o Mediterrâneo oriental, e encontra outras influências, que, do Golfo Pérsico, irradiam sobre o Oriente, o pé do planalto do Irã tardiamente liberto dos gelos. Também aí as inundações regulares dos rios asseguram abundantes colheitas aos nômades chegados da Ásia Central à Mesopotâmia. A cevada e o trigo aí nascem independentemente de cultivo. O solo argiloso permite construir casas de tijolos secos ao sol e de trançados de canas. [...]

Assim desabrocharam duas opulentas sociedades agrícolas, semelhantes pelos aperfeiçoamentos técnicos e pela qualidade humana: a tatuagem desapareceu no Egito e na Mesopotâmia, enquanto o resto da humanidade estava ainda na barbárie.

[...]

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. p. 10-3.

sábado, 11 de março de 2017

O Extremo Oriente na Antoguidade: economia e sociedade

Na estrada para Dwarka, Abhimanyu e Subhadra encontram Ghatotkacha. Cena da história do casamento de Abhimanyu e Vatsala. Artista desconhecido

O Extremo Oriente é a parte do continente asiático que, durante a Antiguidade, viveu processos históricos independentes do conjunto mediterrânico.

Esse afastamento, ou mesmo desligamento, não significou, porém, ausência de contatos: a área dos atuais Afeganistão e Paquistão foi intermediária entre as culturas do Extremo Oriente e as do Mediterrâneo (Ásia Ocidental), propiciando assim mútua influência. Além disso, existiram, desde as épocas mais remotas, relações comerciais entre as duas grandes regiões.

[...] 

[...] essas civilizações, ao contrário do que ocorreu com as civilizações centradas no Mediterrâneo, não se extinguiram. Elas passaram, evidentemente, por profundas e radicais transformações. Contudo, a ruptura com as características que as situavam em uma Idade Antiga foi bem mais tardia, ultrapassando em séculos a era cristã. Mas, ainda mais importante, para efeitos de diferenciação, é que essa ruptura não significou, aos respectivos povos, perda de identidade em relação ao seu passado remoto.

Os impérios orientais, apesar das distâncias e do isolamento em relação ao mundo mediterrânico, estabeleceram contatos políticos e militares com o Ocidente. Os territórios dos atuais Afeganistão e Paquistão foram áreas atingidas pelas conquistas persa e macedônica. A China, por sua vez, a partir do século IV, foi periodicamente invadida por nômades altaicos: hunos, turcos e mongóis. Esses grupos, usando cavalos, expandiram-se também sobre a Ásia Ocidental e a Europa, criando grandes impérios.

Dos hunos de Átila, do século V, aos mongóis de Gêngis Khan, dos séculos XII-XIII, a história do Extremo Oriente integrou-se à história europeia.

As sociedades antigas do Extremo Oriente estruturam-se também em uma base agrária.

A partir da economia agrícola, organizaram-se rígidos sistemas de divisão e estratificação sociais. O exemplo mais expressivo foi o sistema de castas da sociedade hindu.

O sistema de castas, cuja origem remonta ao período de instalação dos arianos, formou-se progressivamente no século I da era cristã. A distinção inicial estabeleceu-se a partir dos componentes étnicos. A palavra usada para indicar as castas (varna = cor) distinguia o invasor ariano, branco, do aborígene de cor escura. Na Índia védica (XVI-VII a.C.), apresentavam-se perfeitamente distintos os quatro grupos fundamentais: brâmanes (sacerdotes), xátrias (guerreiros), vaixás e sudras (trabalhadores).

De distinção étnica, o sistema de castas tornou-se a expressão das diferenças socioeconômicas, apresentando-se cada vez mais rígido. Ele estabelecia, ou pressupunha, uma total separação entre os grupos sociais: era proibido o casamento entre membros de castas diferentes. Além da distinção das funções, as castas tinham tipos e condições de vida distintos, inclusive as práticas e os ritos religiosos.

Mesmo onde e quando a sociedade não se apresentou tão rigidamente estratificada como na Índia, prevaleceu uma divisão segundo a qual os proprietários de terra constituíam a categoria social privilegiada e poderosa por excelência, enquanto o camponês, ou seja, o trabalhador da terra, compunha o segmento mais explorado e dominado.

Em todos os Estados extremo-orientais havia, também, a escravidão. O trabalho escravo, explorado pelos senhores de terra e, sobretudo, pelo Estado, representado pelo rei ou pelos templos, era largamente empregado nas grandes construções e em outras tarefas que exigiam mão-de-obra numerosa, como a irrigação de terras.

Os Estados do Extremo Oriente constituíram-se na forma de monarquias despóticas, nas quais se fundiam o poder político e o religioso. O soberano era chefe de Estado e sumo sacerdote, sendo em geral divinizado ou considerado descendente ou mandatário de deuses.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 86-8.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O industrialismo em perspectiva

Ferro e carvão, William Bell Scott

Tal como a Revolução Francesa, a Revolução Industrial ajudou a modernizar a Europa, transformando finalmente cada faceta da sociedade. Na sociedade pré-industrial de meados do século XVIII, a agricultura era a principal atividade econômica, e os camponeses formavam a classe mais numerosa. A vida do camponês girava em torno da família e do vilarejo, que a gente do campo raramente abandonava. O novo espírito crítico e racional associado ao Iluminismo teve pouca penetração na Europa rural: ali, a fé religiosa, a autoridade clerical e as antigas superstições permaneciam firmemente arraigadas.

A classe mais abastada e poderosa era a aristocracia, cuja riqueza provinha da terra. Os nobres dominavam o campo e gozavam de privilégios resguardados pelos costumes e pela lei. Os aristocratas do século XVIII, como seus precursores medievais, viam a sociedade como uma hierarquia, na qual a posição de uma pessoa na vida era determinada pela condição que ela herdara. Ao defenderem os ideais de liberdade e igualdade, a Revolução Francesa solapou a tradicional estrutura de poder: rei, aristocracia e clero. Proclamando a perspectiva racional e secular do Iluminismo, os reformadores franceses desmantelaram ainda mais os pilares políticos e religiosos da sociedade tradicional.

A sociedade tradicional era predominantemente rural. No início do século XIX, 20% da população da Grã-Bretanha, França e Holanda vivia nas cidades; na Rússia, apenas 5%. Os alicerces da economia urbana eram a produção dos artesãos, que trabalhavam em pequenas oficinas, e o comércio para os mercados locais, embora algumas cidades produzissem artigos de luxo para mercados maiores. A manufatura têxtil empregava o sistema de empreitadas, no qual a lã era convertida em tecido em domicílios particulares, geralmente nas casas dos camponeses.

A Revolução Industrial transformou todos os setores da sociedade. Os vilarejos agrícolas e a manufatura artesanal foram superados em importância pelas cidades e fábricas. Na sociedade forjada pela industrialização e urbanização, o poder e os valores aristocráticos decaíram; ao mesmo tempo, a burguesia cresceu em número, riqueza, importância e poder. Cada vez mais, as pessoas eram julgadas pela capacidade e não pela linhagem, e as oportunidades para a mobilidade social ascendente ampliaram-se. A Revolução Industrial tornou-se uma grande força em favor da democratização: durante o século XIX, primeiro a classe média e depois os trabalhadores ganharam o direito de voto. A Revolução Industrial também acelerou o processo de secularização da vida europeia. Nas cidades, os antigos habitantes dos vilarejos, longe dos laços comunais tradicionais, afastaram-se de sua religião ancestral. Num mundo que estava sendo remodelado pela tecnologia, indústria e ciência os mistérios cristãos perderam a força, e para muitas pessoas a salvação tornou-se uma preocupação longínqua. A modernização não ocorreu no mesmo ritmo e com a mesma abrangência em todos os lugares. De modo geral, as forças sociais e institucionais anteriores ao período moderno permaneceram profundamente arraigadas no sul e no leste europeu, persistindo ainda no século XX.

Embora tenha acarretado inúmeros problemas, alguns dos quais continuam sem solução, a Revolução Industrial foi um grande êxito. Em última instância, possibilitou o mais elevado padrão de vida da história da humanidade e criou novas oportunidades para o progresso social, a participação política e o desenvolvimento cultural e educacional. Também ampliou a distância entre o Ocidente e o resto do mundo em termos de ciência e tecnologia. Por volta de 1900, os Estados ocidentais, auxiliados por sua superioridade tecnológica, estenderam seu poder por quase todo o globo, concluindo assim a tendência que se iniciara na época das explorações.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 370-2.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Os Astecas


Os astecas eram caçadores e coletores nômades que, por volta do século XIII, penetraram no vale do México e serviram como guerreiros mercenários para alguns povos que ali viviam. Depois, aplicaram a experiência militar que adquiriram para derrubar seus antigos senhores. 


Fundação da cidade do México, José María Jara

Em 1325, os astecas fundaram a cidade de Tenochtitlán (localizada onde hoje se situa a Cidade do México). Com duas outras cidades-estados, Texcoco e Tlacopán, formaram uma poderosa aliança que logo conquistou todo o vale. Calcula-se que a aliança controlava cerca de 10 milhões de pessoas de diferentes culturas, que falavam uma língua comum, o "nahuatl". Essa população pagava tributos em mercadorias e fornecia prisioneiros para serem sacrificados ao deus asteca Huitzilopochtli.

Tenochtitlán era a capital política e religiosa do Império Asteca. Construída sobre uma ilha no lago Texcoco, estava unida às margens por três estradas flutuantes. Possuía ruas largas, palácios, mercados, escolas, jardins e templos em forma de pirâmide. Ao redor da cidade, foram construídas ilhotas artificiais, chamadas "chinampas", onde se cultivavam verduras e flores e se criavam perus. No movimentado mercado da cidade, usavam-se sementes de cacau como moeda para adquirir todo tipo de mercadoria: mantas de algodão, cerâmica, víveres, flores, esteiras de junco, milho. penas coloridas etc. Fiscais do governo controlavam o comércio, verificando pesos, medidas, preços e qualidade dos produtos.


Cultivo do milho, Códex Florentino. Bernardino de Sahagún

"A economia asteca baseava-se na agricultura, no comércio e nos tributos pagos com produtos locais pelos povos vencidos. Plantavam milho. feijão, tomate, melões, baunilha. cacau, algodão. agave, tabaco. Com o cacau preparavam uma bebida quente chamada chocolatl e com o agave uma bebida fermentada, semelhante à bebida mexicana de hoje, o pulque. Comerciavam as mais variadas mercadorias; os mercados astecas e os comerciantes vendiam tecidos, cordas e sandálias de agave, plumas, animais selvagens, peles, produtos da terra, cerâmicas, fumo, sal, grande quantidade de ouro, prata, pedras preciosas e até escravos (prisioneiros de guerra). [...]" HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 191.


Astecas fumando e bebendo pulque. Codex Mendoza. Artista desconhecido

Os domínios astecas eram controlados por fiscais e cobradores de impostos. Esses altos funcionários pertenciam à nobreza e tinham privilégios, como isenção de impostos, uso de jóias e recebimento de terras. Mas, se agissem de forma desonesta, eram punidos com mais severidade do que os cidadãos comuns. O imperador era escolhido pelas suas qualidades guerreiras (seu título não era hereditário).

Os sacerdotes eram tão importantes quando o imperador e os nobres. Além das cerimônias religiosas, eles cuidavam da contagem do tempo, dos livros sagrados e da educação dos jovens. As escolas sacerdotais eram abertas aos meninos de todas as camadas sociais. Outros grupos sociais eram os artesãos, os agricultores, os comerciantes e os escravos.

"Os astecas eram exímios artesãos e desenvolveram técnicas de grande habilidade. Na indústria de tecidos, conseguiram excelentes resultados trabalhando o algodão, que fiavam manualmente com o auxílio de rocas de cerâmica. Seus ourives eram também muito hábeis, e as jóias que produziam em ouro e prata deixaram os espanhóis admirados". REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Os exércitos astecas eram numerosos e bem-organizados. Todos os jovens deviam estudar na escola militar, e os melhores lutadores passavam a integrar as principais ordens militares.

"Os astecas cultivavam a poesia, sobretudo a lírica e a religiosa. Ao que parece, sua produção literária também compreendia peças dramáticas, próprias para a representação teatral. Graças a transcrições que os espanhóis fizeram de partes de alguns textos poéticos, conservam-se cerca de sessenta cantos e vinte hinos litúrgicos dos astecas, que eram acompanhados de instrumentos de sopro e percussão." História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 22.


Mãe asteca ensinando sua filha a fazer tortillas. Códex Mendoza. Artista desconhecido


Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. 
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. 
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Império Bizantino e sua cultura (Parte 1): Política, economia e sociedade

A embaixada de João, o gramático em 829, entre o imperador bizantino Teófilo (à direita) e o califa Abássida Al-Ma'mun. Séc. XII-XIII.  Artista desconhecido. 

"Tratava-se de um Estado multirracial, que aceitava como cidadão todo aquele que falasse grego e seguisse o cristianismo ortodoxo".(FRANCO JR., Hilário; FILHO, Ruy de Oliveira Andrade. Atlas História Geral. São Paulo: Scipione, 1994. p. 18)


- A fundação do Império Bizantino. No século IV Constantino fundou uma nova capital para o Império Romano, no local da antiga colônia grega de Bizâncio. Quando se desintegrou a metade ocidental do Império, Bizâncio (ou Constantinopla como a cidade passou a ser comumente chamada) sobreviveu como capital de um poderoso estado que incluía as províncias dos Césares no Oriente Próximo. Aos poucos esse estado veio a ser conhecido como o Império Bizantino, embora não fosse antes do século VI, claramente reconhecida a existência de uma civilização bizantina. [...]

- A cultura bizantina. Embora a história bizantina tenha abrangido um período equivalente ao da Idade Média, o padrão cultural era bem diferente ao que dominava na Europa Ocidental. A civilização bizantina possuía um caráter muito mais pronunciadamente oriental. Não só Constantinopla entestava com o Oriente, mas também grande parte dos territórios do Império se localizava fora da Europa. Os mais importantes dentre eles eram: a Síria, a Ásia Menor, a Palestina e o Egito. Além disso, elementos gregos e helenísticos entraram na formação da cultura bizantina em porção maior do que aconteceu na Europa Ocidental. A língua predominante do estado oriental era o grego, ao mesmo tempo que se caracterizavam como profundamente helenísticas as tradições literárias, artísticas e científicas. Por último, o cristianismo do Império Bizantino diferia do da Europa Latina por ser mais místico, abstrato e pessimista, e por estar mais completamente sujeito ao controle político.

- As nacionalidades do Império Bizantino. A população dos territórios sob o governo bizantino compreendia um grande número de nacionalidades. A maioria dos habitantes eram gregos e orientais helenizados: sírios, judeus, armênios, egípcios e persas. Além disso, as partes europeias do Império incluíam numerosos bárbaros, especialmente eslavos e mongóis. Havia, também, alguns germanos, mas em geral os imperadores de Constantinopla conseguiram desviar as invasões germânicas para o Ocidente. Por outro lado, foi-lhes muito mais difícil obstar aos avanços dos eslavos e dos mongóis. A pátria original dos eslavos [...] provavelmente ficava no nordeste dos Montes Carpatos, sobretudo no que hoje constitui a região sudoeste da Rússia. Sendo um pacífico povo agrícola, raramente recorriam à invasão armada, mas aos poucos, desde que surgia uma oportunidade, expandiam-se em territórios pouco habitados. Não somente dirigiam-se para os vastos territórios despovoados da Rússia Central mas também ocuparam muitas regiões abandonadas pelos germanos e, daí, aos poucos, se infiltraram através das fronteiras do Império Oriental. No século VII formavam o mais numeroso povo de toda a península balcânica e de toda a Europa a leste dos germanos. Os habitantes mongólicos da Europa incluíam os búlgaros e os ávaros, que chegaram à Europa vindos das estepes da região que forma hoje a Rússia Asiática. Ambos esses povos eram pastoris, dotados de grande energia e dos hábitos guerreiros peculiares a esse modo de existência. Depois de penetrarem no vale do Danúbio, muitos deles forçaram a passagem para o território bizantino. Foi a fusão de alguns desses povos mongóis com os eslavos que deu nascimento às nações modernas dos búlgaros, dos sérvios e outros.

[...]

- O governo do Império Bizantino. O governo do Império Bizantino assemelhava-se ao de Roma depois de Diocleciano, exceto quanto a ser ainda mais despótico e teocrático. O imperador era soberano absoluto, com poder ilimitado sobre todos os setores da vida nacional. Seus súditos não somente se prosternavam diante dele, mas ao fazer-lhe uma petição usualmente diziam-se seus escravos. Além disso, a dignidade espiritual do imperador não era de modo algum inferior à sua força temporal. Era o vigário de Deus, com uma maturidade religiosa equiparada à dos apóstolos. Embora alguns imperadores fossem administradores capazes e dedicados, a maior parte das funções efetivas do governo era exercida por uma vasta burocracia, muitos de cujos membros se distinguiam por sua alta eficiência. Um grande exército de amanuenses, inspetores e espiões mantinham um controle minucioso sobre a vida e as posses de cada habitante do país.

- O controle estatal do sistema econômico. O sistema econômico era tão estritamente regulamentado quanto o do Egito faraônico. O Império Bizantino foi descrito, mesmo, como o "paraíso do monopólio, do privilégio e do paternalismo". O estado exercia controle absoluto sobre quase todos os gêneros de atividade. O salário de cada trabalhador e o preço de cada produto eram fixados por decreto governamental. Em muitos casos não podia o indivíduo nem sequer escolher sua própria ocupação, uma vez que ainda se mantinha o sistema de corporações estabelecido no extinto Império Romano. Cada trabalhador herdava sua condição de membro desta ou daquela corporação, e as muralhas que cercavam cada organização eram hermeticamente fechadas. Também o produtor não gozava de maior liberdade. Não podia fixar por si mesmo a quantidade ou a qualidade da matéria-prima que desejava comprar, nem lhe era permitido adquiri-la diretamente. Não podia determinar o total da produção, nem em que condições venderia o produto. Todos esses assuntos eram regulamentados pela associação comercial a que pertencia, sendo esta, por sua vez, submetida à supervisão do governo. A fim de tornar menos dispendiosa a administração do sistema, os imperadores encorajavam negociantes rivais e trabalhadores a fazerem-se delatores uns dos outros. O governo possuía e movimentava certo número de grandes empresas industriais. Entre as principais contavam-se a da pesca da púrpura ou múrice, as minas, as fábricas de armamentos e os estabelecimentos têxteis. Em certa época tentou-se estender o monopólio à indústria da seda, mas as fábricas do governo foram incapazes de atender aos pedidos e foi preciso permitir que as manufaturas particulares reiniciassem a produção.

[...]

- Condições sociais no Império Bizantino. As condições sociais do Império Bizantino apresentavam contraste notável com as da Europa Ocidental na primeira fase da Idade Média. Enquanto grandes zonas da Itália e do sul da França haviam baixado quase completamente ao nível primitivo do ruralismo, a sociedade bizantina continuava a manter seu caráter essencialmente urbano e suntuário. Só na cidade de Constantinopla vivia cerca de um milhão de pessoas, sem falar nos milhares que residiam em Tarso, Nicéia, Edessa, Tessalonica e outros grandes centros urbanos. Os mercadores, banqueiros e industriais igualavam-se aos grandes proprietários de terras como membros da aristocracia, pois não havia a tendência, que existira em Roma, de desprezar o homem que auferia seus rendimentos da indústria ou do comércio. Os ricos viviam elegante e comodamente, cultivando como arte superior a satisfação de gostos opulentos. Uma grande parte da atividade industrial da nação era absorvida na produção de artigos de luxo para atender às necessidades das classes mais ricas. A seguinte lista compreende apenas alguns poucos artigos da produção suntuária das fábricas e oficinas, tanto públicas como particulares: magníficas vestimentas de lã e de seda entrelaçada de fio de ouro e prata, tapeçarias de brocado e damasco esplendidamente coloridas, primorosos artefatos de vidro e porcelana, evangelhos com iluminuras e raros e caríssimos adereços.

- As classes inferiores. A vida das classes inferiores era, em comparação, pobre e mesquinha, mas apesar disso é bem provável que o homem comum do Império Bizantino estivesse em melhores condições que o cidadão médio de muitas das outras partes do mundo cristão desse tempo. O largo desenvolvimento industrial e comercial e o alto grau de estabilidade econômica ofereciam oportunidade ao emprego de milhares de trabalhadores urbanos, exceto no período das invasões dos muçulmanos, quando Constantinopla se viu abarrotada de refugiados que não podiam ser absorvidos pelo sistema econômico. Mesmo a sorte dos servos adscritos às terras de alguns grandes proprietários seculares era possivelmente superior à dos camponeses da Europa Ocidental, pois que o poder de exploração dos senhorios ao menos era regulamentado por lei. Não obstante, a condição dos servos era bastante má, pois estavam condenados a uma vida de ignorância e estúpida rotina, limitada ao horizonte estreito em que nasciam. Sua condição era inalteradamente determinada pelo simples acidente de nascerem de pais servos. A população bizantina compunha-se também de uma percentagem considerável de escravos, mas grande parte deles eram empregados em serviços domésticos e gozavam, sem dúvida, duma existência mais ou menos confortável.

- Extremos de ascetismo e de sensualidade. O nível de moralidade do Império mostrava certos contrastes um tanto chocantes. O povo bizantino, a despeito de seus antecedentes gregos, não tinha na aparência nenhuma aptidão para as virtudes tipicamente helênicas do equilíbrio e da moderação. Em lugar do meio termo, parecia preferir sempre os extremos. Por conseguinte, encontravam-se frequentemente, lado a lado com a mais extravagante intemperança, a mais humilde anto-negação e até a laceração da carne. As qualidades contraditórias de sensualidade e de piedade, de caridade e de crueldade, eram comumente encontradas na mesma camada social ou até nos mesmos indivíduos. Por exemplo, o grande imperador reformista Leo III tentou abolir a servidão, mas também introduziu a mutilação como pena judiciária. A vida na corte imperial e entre alguns membros do mais alto clero parece ter-se caracterizado pela indolência, pelos vícios elegantes, pelas maneiras efeminadas e pela intriga. Em razão disso, a própria palavra "bizantino" veio a sugerir sensualidade elegante e refinamento de crueldade.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 283-285, 287-288, 291-292. [Volume 1]

domingo, 12 de abril de 2015

A sociedade fenícia

Cavaleiro. Terracota do século VIII a.C.

"A antiga Fenícia correspondia mais ou menos ao território do Líbano atual. A comunicação por via terrestre era difícil devido ao terreno montanhoso, mas as cidades fenícias tinham fácil comunicação marítima. O litoral tinha bons portos naturais e nas montanhas podia-se encontrar madeira apropriada para a construção de navios. Além do mais, as cidades fenícias estavam localizadas entre a Mesopotâmia e o Egito [...]." (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20)

* O comércio era seu principal meio de vida. Como agricultores, os fenícios plantavam nos vales existentes no litoral, cereais, a videira e a oliveira, com os quais produziam farinhas, vinho e azeite.

Essa produção agrícola era lucrativa, porém frequentemente se perdia, porque a região onde se localizavam as cidades fenícias sofria constantes invasões de povos vindos dos desertos ou de exércitos de Estados fortes (como o Egito). O que deveriam fazer os dirigentes fenícios, diante da periódica destruição da sua produção agrícola? É evidente que teriam de buscar outra atividade econômica mais estável. Escolheram o comércio, que também poderia oferecer lucrativos rendimentos.

Aproveitando-se das madeiras existentes nas regiões montanhosas do interior, construíram numerosas embarcações e se expandiram pelo Mediterrâneo, fundando inúmeras colônias [...].

Em seus navios, movidos a remo e a vela, os comerciantes fenícios transportavam mercadorias produzidas em suas cidades ou compradas nos países com os quais mantinham relações comerciais.

Conhecidos como navegadores audazes e por venderem variados produtos de luxo, os comerciantes fenícios também eram vistos como negociantes desonestos. Essa opinião era comum entre os autores do Mundo Antigo, como se verifica em certa passagem da Odisseia, de Homero, poeta grego do século X a.C. [...]:

"Um dia, os fenícios, povo famoso na marinha, mas sutil e trapaceiro, abordaram as praias da nossa ilha com um barco carregado de tecidos e de bijuterias raras e brilhantes. Havia no palácio de meu pai uma escrava, notável pela beleza e pelos trabalhos que saíam de suas mãos. Aqueles estrangeiros astuciosos trataram de seduzi-la [...] e enviaram [...] um homem manhoso, que apareceu no palácio a pretexto de oferecer à venda um colar de ouro, [...] Enquanto minha mãe e as suas criadas tinham os olhos postos no colar [...] o velhaco levou a escrava para o seu barco [...]"

Segundo informações chegadas até nós, as pequenas embarcações fenícias navegavam inclusive fora do Mediterrâneo, atingindo a Inglaterra ou contornando o continente africano, como nos relata Heródoto:

"Saindo, pois, os fenícios do Mar Eritreo [Mar Vermelho], navegaram  pelo Mar do Noto [Oceano Índico], durante sua viagem. cada vez que chegava o outono, colocavam seus barcos na praia de qualquer litoral da Líbia [África], semeavam a região e esperavam a colheita. Recolhida a colheita, continuavam a viagem. Agindo assim durante dois anos, dobraram as Colunas de Hércules [Estreito de Gibraltar] e, no terceiro ano, chegaram ao Egito."

* O alfabeto foi sua principal realização cultural. A realização desses empreendimentos comerciais e marítimos obrigava os comerciantes e empresários fenícios a registrar suas transações, o que apresentava dificuldades, porque os sistemas de escritas conhecidos eram complicados. As escritas egípcias e mesopotâmicas, amplamente utilizadas pelas sociedades do Oriente Próximo, com seus numerosos e complexos sinais, revelavam-se inadequadas à feitura de recibos de compra e venda, listas de preços de mercadorias, relações de gastos com o transporte e o armazenamento dos produtos.

Foi, então, por motivos utilitaristas, que se criou um sistema de escrita simplificado, capaz de ser empregado por qualquer indivíduo. O novo sistema compreendia 22 letras, todas consoantes, e a denominação de alfabeto origina-se dos nomes das duas primeiras letras fenícias, chamadas aleph (touro) e beth (casa).

Inventado por volta de 2000 a.C., o alfabeto fenício veio depois a ser modificado pelos gregos e romanos, dando origem aos alfabetos atualmente utilizados no Mundo Ocidental.

Pouco sabemos das contribuições da sociedade fenícia nas Artes, na Literatura e nas Ciências porque a maior parte de suas realizações foi destruída pela ação do tempo. Escavações arqueológicas revelaram, contudo, que a produção artística e literária fenícia refletia profunda influência de modelos egípcios e mesopotâmicos.

A religião fenícia era politeísta e cada cidade-Estado possuía suas próprias divindades. Estas divindades sempre formavam um casal identificado com a chuva e com a terra, o que reflete o primitivo caráter agrícola da sociedade fenícia. O casal divino também era venerado como protetor da navegação e respeitosamente tratado de Baal (Senhor) e Baalat (Senhora). Assim, Adônis era o Baal e Astarté, a Baalat de Tiro. O culto incluía, no seu ritual, sacrifícios humanos de crianças, talvez uma prática religiosa para limitar o crescimento das populações urbanas.


Fenício representado em mural do Antigo Egito. 
Ca. 1500-1450 a.C.

* O governo era dos ricos comerciantes. A sociedade fenícia, ao contrário do que ocorreu em outras sociedades do Oriente Próximo, foi incapaz de organizar-se em Estado único, politicamente centralizado, como o Egito dos Faraós. Na realidade, não houve uma História Fenícia, mas, sim, das cidades-Estados fenícias que se desenvolveram independentes entre si. As mais importantes foram Sídon, Ugarit e Biblos. Cada uma delas possuía seus próprios dirigentes.

"A primeira cidade a exercer sua hegemonia foi Biblos (ca. 2500 a.C.), que comerciou intensamente com Chipre, Creta e Egito. No Egito trocava a madeira pelo papiro, material utilizado na escrita. Daí a denominação de biblos dada pelos gregos ao rolo de papiro e, por extensão, ao próprio livro.

Em seguida predominou Sídon (ca. 1500-1300 a.C.), que estendeu o comércio por todo o Mar Egeu e pelo Mar Negro, fundando colônias e comerciando com os gregos ainda semi-bárbaros.

Depois a supremacia passou a Tiro (séculos IX-VI a.C.); os fenícios estenderam-se até o norte da África - onde fundaram colônias, entre as quais Cartago (século IX a.C.) - o sul da Itália, as ilhas do Mar Tirreno, a Espanha, chegando até as atuais França e Grã-Bretanha. A partir do século VI a.C. Tiro entrou em declínio, passando a sofrer a concorrência dos etruscos, dos gregos e de sua própria colônia Cartago, a qual acabou dominando as colônias fenícias da África, da Sicília e da Espanha." (HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43.)

A forma habitual de governo foi a Monarquia, geralmente com poderes limitados pelo Conselho dos Anciãos, cujos integrantes pertenciam às famílias ricas. A hereditariedade da Monarquia, contudo, não satisfazia aos interesses da poderosa classe de comerciantes, de proprietários de navios e de oficinas artesanais. O resultado foi a substituição das Monarquias hereditárias pelos Sufetas, em número de dois e escolhidos pelo Conselho dos Anciãos para exercer o poder temporariamente. 

Essas modificações políticas também foram apoiadas pela classe sacerdotal, proprietária de templos, de terras e de outras riquezas. Os sacerdotes fenícios integravam a aristocracia dirigente e eram recrutados entre algumas das famílias mais ricas da sociedade.

Nas cidades fenícias, a escravidão praticamente não existia, pois os escravos eram mais utilizados como mercadoria de comércio do que como mão-de-obra produtora.

A maioria da sociedade compreendia artesãos. portuários. trabalhadores domésticos e marinheiros, além de pequeno número de camponeses que, em servidão coletiva, cultivavam as terras vizinhas às cidades-Estados.

Por vezes, as cidades fenícias foram atacadas e pilhadas por exércitos de outras sociedades do Oriente Próximo. Algumas vezes, chegavam a ser conquistadas, mas acabavam recuperando a independência. Finalmente, foram integradas ao Império Persa e, posteriormente, a outros Impérios, como o de Alexandre, o Grande, e o Romano.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 42-5.
HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43
PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20

segunda-feira, 16 de março de 2015

Panorama político-econômico e movimentos populares no Império

De 1850 em diante o Brasil passou a viver um processo de transformações no plano econômico que teve suas ligações no plano político. Foi nesse momento que o novo setor da classe dominante, mais progressista e responsável pelas transformações, iniciou a luta política na defesa de seus interesses.

A fase denominada de Segundo Reinado foi marcada justamente pela luta entre o grupo conservador e o grupo progressista afinado com o capitalismo. Dessa forma, ia-se travando o embate político em que o setor escravista, em decorrência do fim do tráfico negreiro, via crescer suas dificuldades de revigoramento em virtude da escassez de mão-de-obra, cujo preço de compra não cessou de aumentar.

[...] O aumento da demanda de escravo, advindo da expansão da lavoura, agiu também como fator de elevação do seu preço.

Em consequência, criou-se um problema para as regiões que se encontravam em decadência econômica, pois o trabalho escravo inibia possíveis correntes migratórias de trabalhadores assalariados para essas regiões. Além disso, o reduzido número de escravos não era capaz de satisfazer às necessidades econômicas dessas regiões. Em decorrência, houve uma liberação da mão-de-obra escrava através do tráfico interno, para regiões que se encontravam em desenvolvimento, bem como pela abolição, como foi o caso do Ceará, que libertou seus escravos em 1884.

Escravos numa fazenda de café, Marc Ferrez

A introdução da usina na produção de açúcar marcou a tentativa de recuperação da economia nordestina, que passou a ser dotada de um alto nível de produção em escala industrial. Porém, tal inovação logo foi esvaziada pelo capital internacional, que passou a controlar esse tipo de produção.

Na Região Amazônica, devido à produção de borracha, passava-se a utilizar o trabalho assalariado, pois a mão-de-obra escrava era incompatível com tal atividade. A principal característica da exploração do trabalhador nos seringais era a dependência excessiva em que ficava em relação ao patrão, visto que o grande proprietário era o dono de todos os instrumentos na extração do látex. A má remuneração que o trabalhador recebia levou-o a enorme dependência, pois a única possibilidade de conseguir o necessário para sua sobrevivência restringia-se ao pequeno mercado existente dentro dos limites onde trabalhava. [...]

O Império não se alinhava às transformações que se processavam no plano econômico. Tendo como principal base de sustentação política a classe de proprietários de escravos, viu crescer a oposição até mesmo entre seus mais próximos aliados, como aconteceu com a Questão Religiosa que colocou em choque setores da Igreja e o governo. Já a Questão Militar acabou levando o Clube Militar a afirmar que o Exército não mais se envolveria na procura de escravos fugidos.

[...] Em 1872 foi fundado o Partido Republicano Paulista [...]. O Império se enfraquecia sem o apoio inclusive da classe média, personificada nos militares, profissionais liberais, funcionários públicos e clérigos.

[...] Para agravar os problemas, o governo imperial contava ainda com dificuldades econômicas e de abastecimento interno, pois a produção brasileira priorizava o cultivo de produtos primários para exportação [...].

A burguesia comercial, que se encontrava composta em sua grande maioria por portugueses, era a grande beneficiada com tal situação econômica, já que o país não se limitava a comprar somente artigos supérfluos, mas, também, gêneros alimentícios. [...]

O quadro econômico do país foi uma sucessão de déficits orçamentários que perduraram até a década de 1880, gerando, em consequência, uma situação inflacionária. O aumento das emissões de moedas, aliado aos empréstimos externos, colocou as classes não proprietárias em posição cada vez mais delicada, pois a miséria se generalizava.

[...]

A proclamação da República foi o último golpe desferido contra o Império. Sem sombra de dúvida, significativas parcelas dos segmentos médios urbanos, cujo setor militar assumiu papel preponderante, incorporaram a ideologia republicana, favorecendo a desarticulação das bases de sustentação política do regime monárquico. [...]

[...]

Família pobre da Província do Ceará, Fotógrafo desconhecido

[...] lutas sociais violentas ocorreram, refletindo o descontentamento de grupos ou camadas sociais contra a opressão das classes dirigentes:

"Tudo era motivo para revolta e atos de violência. Nas principais cidades, de tempos em tempos, ocorriam motins populares. As decisões governamentais que não tinham apoio ou compreensão popular não eram acatadas. A população revoltava-se contra o registro civil dos nascimentos e óbitos, contra o censo geral da população do Império, contra a aplicação dos novos padrões de pesos e medidas etc. Não realizava simples passeatas de protestos, mas autênticas lutas com mortos e feridos. Além disso, desde a Praieira (1848-1850), havia uma animosidade latente entre grandes proprietários e trabalhadores rurais. A tudo isto somava-se a atuação da imprensa e dos políticos radicais, bem como a luta entre facções da elite, disputando o controle das funções públicas. A difícil situação da economia regional ocasionava o rompimento da precária paz entre as classes sociais, e entre estas e o Estado monárquico. As insurreições, conflitos e violência demonstravam a profundidade das contradições econômicas [...]." (MONTEIRO, Hamilton de Mattos. Nordeste Insurgente (1850-1890). São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 30. Coleção Tudo é História)

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al.]. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 20-24.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Aspectos da economia urbana no Brasil Império

É notório que o desenvolvimento industrial na segunda metade do século XIX não correspondeu a nenhum surto de industrialização, até porque nesse momento o capital acumulado não era responsável pela criação de condições objetivas para a formação de uma burguesia industrial. Nesse período, o que ocorreu foram muito mais iniciativas individuais e isoladas que propriamente investimento em larga escala.

[...]

A década de 1880 já foi mais promissora para a indústria. Em 1885 contávamos com 13 fábricas têxteis empregando 1.670 operários e três fábricas de chapéus com 315 operários. Sem esquecer das sete empresas metalúrgicas, nesse mesmo ano, com cerca de 500 operários. Essas informações sobre a expansão da indústria na província de São Paulo, no entanto, servem para demonstrar quão frágil era a indústria brasileira e sua classe operária.

Uma fábrica em 1880, Marc Ferrez

As condições de vida da classe trabalhadora no meio urbano, em especial na cidade do Rio de Janeiro, eram muito ruins. Para as autoridades, o alto índice de mortalidade explicava-se pela insalubridade das moradias e dos locais de trabalho.

O Rio de Janeiro teve, na segunda metade do século XIX, um aumento de sua população sem que com isso fosse acompanhado, de forma planejada, a construção de habitações, o que ocasionou a superlotação em casas de cômodos, onde a circulação de ar se tornava deficitária. Esta situação, agravada pelas péssimas condições de alimentação, fragilizava ainda mais a saúde da classe trabalhadora, que se tornava vítima fácil de doenças, em sua maioria, fatais.

[...]

Uma questão a ser observada, por ter tido influência no agravamento do problema habitacional, foi a do elevado preço dos transportes no Brasil. Este transporte era constituído basicamente com o objetivo de carga e não de passageiros. Isto, quando ocorria, era para atender a uma elite. Dessa forma, a população que constituía a mão-de-obra barata para os capitalistas ficava impossibilitada de procurar os subúrbios, onde a moradia era de valor mais acessível. Esse fato levou a população a se concentrar mais próximo da região central da cidade do Rio de Janeiro para não precisar se locomover de grandes distâncias para o local de trabalho. Tal concentração agravava, assim, o problema habitacional urbano.

Entretanto, esse era um período de crescimento econômico principalmente na região cafeeira. Dessa forma, a circulação de capitais nessa região incentivou, igualmente, o desenvolvimento de outros setores, em especial o terciário. Nesse contexto, a capital do Império [...] foi grandemente beneficiada aumentando a oferta de serviços que proporcionavam maior conforto aos seus habitantes. Este foi o caso da instalação da linha de barcas, em 1870, ligando a Corte a Niterói, bem como a extensão, no mesmo ano, da linha de bonde até o Caju.

Companhias estrangeiras de transporte passaram a explorar os serviços, possibilitando, com isso, rápida oferta de linhas de bonde que buscavam integrar vários pontos distantes da cidade à vida urbana.

"O bonde de tração animal é o veículo que revoluciona os costumes da população. Sua presença altera os hábitos do fluminense: ele aproxima as famílias e permite a descoberta de locais distantes, afastados [...]. Sua exploração é bom negócio e algumas empresas estrangeiras a ele se dedicam. [...] O bonde, dizíamos, renova os costumes, traz mais conforto, facilita o convívio na rua e os encontros. Mas traz consigo, também, muitos dissabores. Desprovidos de segurança, provocam acidentes. [...]

[...] Nem por isso desaparecem de pronto os meios de transporte primitivos. Ainda se anunciam e ainda rodam a vitória, a caleça, o faeton (ou faetonte), o timon. O tílburi circula há alguns anos mediante sistema organizado. Seu uso vai perdurar até o alvorecer do século XX [...]". (RENAULT, Delso. O dia-a-dia no Rio de Janeiro: segundo os jornais, 1870-1889. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982)

A melhoria dos transportes trouxe, também, maior oferta de lazer. Confeitarias foram instaladas, tornando-se locais de encontro de intelectuais e boêmios. A Corte igualmente se beneficiou com o funcionamento de vários teatros [...].

Com as transformações que se processavam no plano material, comportamentos, ideias e valores começaram a se alterar de forma mais acentuada. Com a expansão da imprensa, na década de 1870, presencia-se o avanço ao questionamento da ordem econômica, fazendo circular ideias de liberdade econômica, de autonomia das regiões e de reforma administrativa.

A imprensa, nesse final de século, principalmente no eixo Rio-São Paulo, acompanhou as transformações vividas. [...] Entretanto, cabe ressaltar que o número de alfabetizados girava em torno de 16% da população [...].

[...]

Sinais de novos tempos apontavam que, de forma rápida, o país aumentava a sua renda. A economia de tipo colonial baseada na mão-de-obra escrava e na monocultura, ligada a interesses externos, viu sua renda mudar de mãos: da classe escravocrata para o incipiente setor capitalista que se desenvolvia.

Esse avanço econômico teve como consequência a maior divisão do trabalho no meio urbano.

[...]

A expansão da economia ligou-se ao acréscimo de capitais provenientes do fim do tráfico negreiro. Toda essa expansão foi também acompanhada de perto pelo crescimento das cidades [...]. Dessa forma, a criação de companhias de transporte, iluminação pública a gás, água etc. contou com grande participação do capital estrangeiro, que penetrava também no setor de bens de serviço.

[...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al.]. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 15-19.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A criação de gado no Brasil colonial

Rancho dos tropeiros, Charles Landseer

“Eu venho desde menino
desde muito pequenino
cumprindo o belo destino
que me deu Nosso Senhor:
eu nasci para ser vaqueiro
sou mais feliz brasileiro
eu não invejo dinheiro
nem diploma de doutor...”

“O dono quer ver
a terra plantada
diz de mim que vou
pela grande estrada:
deixem-no morrer
não lhe dêem água
que ele é preguiçoso
e não planta nada!”

Aí estão alguns versos da música Sina, dos cearenses Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra, e de Plantador, do paraibano Geraldo Vandré. Percebemos que a situação do vaqueiro é retratada de uma forma totalmente diferente da do lavrador. Haveria uma explicação histórica para a felicidade do vaqueiro, tão contrastante com a vida do plantador?

Sabemos que a ocupação econômica do Brasil foi feita, principalmente, à base da agro-manufatura do açúcar. A força de trabalho que ampliava os canaviais e movimentava os engenhos era a do negro escravo. Trabalho pesado, obrigatório, sofrido e muito lucrativo para os donos das terras. Trabalho tão explorado que fez muito plantador sair pela “grande estrada”, em busca de coisa melhor.

Nas fazendas de açúcar havia criação de gado, necessário para a alimentação da população local e como força motriz. Com o tempo, esse “gado de quintal” foi considerado antieconômico: ele exigia pastos, tomando terras que poderiam ser muito mais rendosas se cobertas de canaviais. Os rebanhos cresciam, os lucros com a exportação do açúcar também.

[...]

Resistindo ao clima semi-árido, procurando os barreiros de sal, o gado desbravava o agreste e o sertão do Nordeste. Abria caminhos, que se tornaram importantes meios de comunicação na época, como os “Sertões de Fora”, que ligavam a região próxima a Salvador com as imediações de Fortaleza, sem se afastar demais do litoral.

A criação de gado nessa área está muito ligada ao extrativismo salineiro, desenvolvido principalmente no litoral do atual Rio Grande do Norte. O gado fez a prosperidade de Aracati, no litoral do Ceará, com a exportação, no século XVIII, da “carne-do-ceará”. Por sinal, foi um tropeiro cearense, José Pinto, que difundiu no extremo sul as técnicas de charquear a carne, no sal ou no sol.

As fazendas do interior da Bahia articulavam-se com a região maranhense próxima a São Luís, através dos “Sertões de Dentro”, cujos caminhos acompanhavam o curso do “rio dos Currais” – o São Francisco -, e, também, o Canindé, o Parnaíba e o Itapicuru.

Junto com o gado, o dono do gado. Surgiram as feiras. Elas e as muitas fazendas, também chamadas no Nordeste de “currais”, acabaram por dar origem a vários núcleos de povoamento, como Feira de Santana, na Bahia, Pastor Bons, no Maranhão, e Oeiras, antiga vila da Mocha, no Pará.

Como no litoral, certos homens poderosos, requerendo sesmarias ao rei, iam formando enormes propriedades sertanejas, de léguas e léguas [...]. Guimarães Rosa [...] ao percorrer as veredas do grande sertão, conta que “cada lugar é só de um grande senhor, com sua família geral, seus jagunços mil, ordeiros”.

Onde estaria a felicidade do vaqueiro, cantada por Fagner? Talvez no fato de ele se sentir mais livre que o “cabra do eito” – o trabalhador dos canaviais do litoral. Talvez no fato de ele quase nunca ser escravizado e nem sempre estar sob a vigilância do proprietário. Além disso, “depois de quatro ou cinco anos de serviço começava o vaqueiro a ser pago; de quatro crias cabia-lhe uma; podia assim fundar fazenda por sua conta”.

Tropa de mulas, Jean-Baptiste Debret

Uma fazenda não exigia mais que dez ou doze “fábricas” (vaqueiros). Sempre um se destacava, principalmente quando o proprietário não morava na fazenda. Este “chefe”, além de participar do produto, podia receber um pequeno lote de terra para produzir gêneros necessários à sobrevivência e um salário fixo anual.

Conduzindo os rebanhos, a vida do vaqueiro tinha características de seminomadismo. Claro está que para os descendentes dos indígenas essas tarefas estavam mais próximas do seu mundo: muitos deles eram boiadeiros.

No século XVIII, com a descoberta de ouro no centro da colônia, o gado vacum do Nordeste desce pelo curso dos rios São Francisco, Araguaia e Tocantins para a área do novo extrativismo. O gado ia realizando a integração de diferentes regiões econômicas por ser a única atividade do período voltada para o mercado interno.

A pecuária também reduziu as disputas dentro da própria classe dominante: os proprietários que não conseguiam manter os engenhos tornaram-se fazendeiros de gado.

Nesse processo pecuarista de colonização do sertão ocorrem novos choques com os nativos. Os derrotados são, mais uma vez, os donos naturais daquelas terras. Interiorizaram-se ainda mais, foram escravizados, refugiaram-se nas missões ou tornaram-se capangas dos novos poderosos da região. Em suma, poucos restaram como índios.

Tropeiros negociando um cavalo, Nicolas-Antoine Taunay 

A vida dos primeiros sertanejos era dura: fartura só de carne e leite. A matéria-prima principal para quase todos os utensílios era o couro: nas portas das cabanas, nos leitos, nas mochilas, nas cordas, nas roupas, nos carros de boi que puxavam material de aterro para os açudes, nos recipientes para carregar água, guardar comida ou pisar rapé.

[...]

No Sul, no planalto Meridional, os bandeirantes que arranhavam o litoral logo se estabeleceram, apresando o gado cimarrón – que se reproduzia naturalmente – depois de destruídas as missões dos jesuítas espanhóis. Descendo de São Vicente a Laguna, formam estâncias – sempre maiores que as três léguas de sesmarias estabelecidos por lei... – nos campos de Paranapanema, Curitiba, Guarapuava, Lajes, Viamão e Vacaria.

Descanso de tropeiros, Johann Moritz Rugendas

A mineração atrai as tropas de muares vindas do sul, que serão vendidas em Sorocaba, feira importante localizada no interior do atual Estado de São Paulo, de lá seguindo até as Gerais. Com a introdução do charque, segue também a carne desde Pelotas.

Na pecuária sulina os peões tinham uma vida difícil. Oprimidos por rígidos capatazes – como bem retrata a lenda do Negrinho do Pastoreio – esses índios de origem charrua ou minuana, mestiços ou escravos negros que tinham que estar sempre prontos para lutar pela conquista de novas terras – as “califórnias” – ou contra os ataques de espanhóis, contrabandistas e índios submetidos. Trabalho e guerra eram a tônica das vidas dos primeiros cavaleiros gaúchos.

Também no extremo norte a atividade criatória se desenvolveu, dirigida por jesuítas e mercedários. O gado da ilha de Marajó (o búfalo só foi introduzido em 1870, trocado por bovinos de corte com as Guianas) abastecia a população de Belém e o criado em Roraima sustentava o povoamento fronteiriço, sob constante ameaça de incursões holandesas. No século XVIII, com a expulsão da Companhia de Jesus e a extinção da Ordem de Nossa Senhora das Mercês, essas fazendas passaram para o controle do Estado, que as vendeu a particulares.

Atividade constante, voltada para o mercado interno, com enorme irradiação espacial, unindo diferentes áreas geo-econômicas e quase não utilizando o trabalhador escravo, a pecuária diferiu muito de outras atividades do período colonial.


ALENCAR, Francisco [et all]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 53-56.