"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Inti Raymi, a Festa do Sol nos Andes

"Hoje, desde que amanheceu, é celebrada a Festa do Sol, o Inti Raymi, nos cerrados e nas montanhas dos Andes.

No começo dos tempos, a terra e o céu estavam na escuridão. Só havia noite.

Quando a primeira mulher e o primeiro homem emergiram das águas do lago Titicaca, nasceu o Sol.

O Sol foi inventado por Viracocha, o deus dos deuses, para que a mulher e o homem pudessem se ver."

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 204.

Galeria de imagens:






sexta-feira, 4 de março de 2016

O Antigo Regime: a cultura

Pernas de pau, Francisco de Goya,

Na primeira metade do século XVIII, apesar de a sociedade do Antigo Regime permanecer organizada em estamentos, não havia no plano cultural uma uniformidade que correspondesse àquela estratificação aparentemente rígida. O ponto central da questão estava na difícil definição do que deveria mudar e do que deveria ser mantido. O grande conflito cultural dentro de todos os grupos sociais, e entre estes, era portanto entre tradição e transformação.

A tempestade de neve, Francisco de Goya

A cultura clerical sentia o problema nos desacordos entre o clero que frequentava os seminários (criados pela Reforma Católica do século XVI) e o clero que não recebera aquela formação. Teoricamente constituindo um só estamento, com uma mesma cultura, o clero na prática apresentava realidades bem distintas. E isso se refletia nas outras camadas sociais através da educação transmitida pelo clero. Uma escola mantida pela Igreja em uma grande cidade era bastante diferente daquela dirigida pelos párocos rurais.

O médico, Francisco de Goya

Entre os nobres, a situação era semelhante. A alta nobreza, apesar de favorecida pelo Estado, permanecia arraigada culturalmente a seu passado de poder, não vendo com bons olhos as mudanças culturais que acompanhavam a centralização política. Os nobres das províncias, menos favorecidos em todos os aspectos, oscilavam entre seus velhos ideais (e nisso se identificavam com os nobres ligados à corte) e as propostas inovadoras vindas da burguesia urbana.

Merenda campestre, Francisco de Goya

No Terceiro Estado, as populações rurais, sempre mais conservadoras, viviam basicamente como nos séculos feudais. As populações urbanas apresentavam grande diversidade, mas de forma geral maior dinamismo. Os pequenos artesãos e comerciantes, recém-vindos do campo, mantinham ainda muito do folclore e dos hábitos de suas regiões de origem. Aqueles que habitavam há mais tempo as cidades já haviam absorvido dados culturais de diferentes procedências.

O portão de Calais, William Hogarth

As propostas de transformações partiam, pois, das cidades. Em meio às suas diversas atividades, ganhava destaque uma certa parcela da burguesia. Cheia de combatividade intelectual, ela tinha os olhos fixos mais no futuro do que no passado. Ela expressava artística e literariamente as reivindicações de um segmento social que cobrava maior participação nas decisões da sociedade. Ela valorizava os instrumentos racionais como meio de atuação social do homem. Assim, o desenvolvimento intelectual laico, citadino, burguês e racional, que despontara com o Renascimento, ganhava mais consistência e criava condições para que o século XVIII fosse o Século das Luzes.

FRANCO JR., Hilário; FILHO, Ruy de Oliveira Andrade. Atlas História Geral. São Paulo: Scipione, 1994. p. 48.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Os Astecas


Os astecas eram caçadores e coletores nômades que, por volta do século XIII, penetraram no vale do México e serviram como guerreiros mercenários para alguns povos que ali viviam. Depois, aplicaram a experiência militar que adquiriram para derrubar seus antigos senhores. 


Fundação da cidade do México, José María Jara

Em 1325, os astecas fundaram a cidade de Tenochtitlán (localizada onde hoje se situa a Cidade do México). Com duas outras cidades-estados, Texcoco e Tlacopán, formaram uma poderosa aliança que logo conquistou todo o vale. Calcula-se que a aliança controlava cerca de 10 milhões de pessoas de diferentes culturas, que falavam uma língua comum, o "nahuatl". Essa população pagava tributos em mercadorias e fornecia prisioneiros para serem sacrificados ao deus asteca Huitzilopochtli.

Tenochtitlán era a capital política e religiosa do Império Asteca. Construída sobre uma ilha no lago Texcoco, estava unida às margens por três estradas flutuantes. Possuía ruas largas, palácios, mercados, escolas, jardins e templos em forma de pirâmide. Ao redor da cidade, foram construídas ilhotas artificiais, chamadas "chinampas", onde se cultivavam verduras e flores e se criavam perus. No movimentado mercado da cidade, usavam-se sementes de cacau como moeda para adquirir todo tipo de mercadoria: mantas de algodão, cerâmica, víveres, flores, esteiras de junco, milho. penas coloridas etc. Fiscais do governo controlavam o comércio, verificando pesos, medidas, preços e qualidade dos produtos.


Cultivo do milho, Códex Florentino. Bernardino de Sahagún

"A economia asteca baseava-se na agricultura, no comércio e nos tributos pagos com produtos locais pelos povos vencidos. Plantavam milho. feijão, tomate, melões, baunilha. cacau, algodão. agave, tabaco. Com o cacau preparavam uma bebida quente chamada chocolatl e com o agave uma bebida fermentada, semelhante à bebida mexicana de hoje, o pulque. Comerciavam as mais variadas mercadorias; os mercados astecas e os comerciantes vendiam tecidos, cordas e sandálias de agave, plumas, animais selvagens, peles, produtos da terra, cerâmicas, fumo, sal, grande quantidade de ouro, prata, pedras preciosas e até escravos (prisioneiros de guerra). [...]" HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 191.


Astecas fumando e bebendo pulque. Codex Mendoza. Artista desconhecido

Os domínios astecas eram controlados por fiscais e cobradores de impostos. Esses altos funcionários pertenciam à nobreza e tinham privilégios, como isenção de impostos, uso de jóias e recebimento de terras. Mas, se agissem de forma desonesta, eram punidos com mais severidade do que os cidadãos comuns. O imperador era escolhido pelas suas qualidades guerreiras (seu título não era hereditário).

Os sacerdotes eram tão importantes quando o imperador e os nobres. Além das cerimônias religiosas, eles cuidavam da contagem do tempo, dos livros sagrados e da educação dos jovens. As escolas sacerdotais eram abertas aos meninos de todas as camadas sociais. Outros grupos sociais eram os artesãos, os agricultores, os comerciantes e os escravos.

"Os astecas eram exímios artesãos e desenvolveram técnicas de grande habilidade. Na indústria de tecidos, conseguiram excelentes resultados trabalhando o algodão, que fiavam manualmente com o auxílio de rocas de cerâmica. Seus ourives eram também muito hábeis, e as jóias que produziam em ouro e prata deixaram os espanhóis admirados". REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Os exércitos astecas eram numerosos e bem-organizados. Todos os jovens deviam estudar na escola militar, e os melhores lutadores passavam a integrar as principais ordens militares.

"Os astecas cultivavam a poesia, sobretudo a lírica e a religiosa. Ao que parece, sua produção literária também compreendia peças dramáticas, próprias para a representação teatral. Graças a transcrições que os espanhóis fizeram de partes de alguns textos poéticos, conservam-se cerca de sessenta cantos e vinte hinos litúrgicos dos astecas, que eram acompanhados de instrumentos de sopro e percussão." História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 22.


Mãe asteca ensinando sua filha a fazer tortillas. Códex Mendoza. Artista desconhecido


Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. 
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. 
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O mundo dos gregos 4: a cultura das cidades gregas em torno do Mediterrâneo

Eros e um jovem. Ca. 460-450 a.C., Penthesilea. 
Foto: Marie-Lan Nguyen

Um dos motivos para as extraordinárias realizações dessa civilização foi o que podemos chamar, sem fugir à verdade, de desarraigamento. Esses gregos eram recém-chegados em suas novas pátrias. Comparados com os egípcios ou os chineses, eles carregavam muito menos bagagem cultural trazida do passado. Eles honravam seus ancestrais, e tinham seus heróis antigos, mas não se inibiam em fazer e avaliar o que não havia sido feito ou avaliado antes. E nenhuma conspiração de reis-deuses e sacerdotes para lhes dizer o que deveriam pensar. Tinham seus deuses - uma miríade deles -, mas estes devotavam tanto tempo à perseguição de seus casos amorosos ilícitos que dificilmente faziam o tipo capaz de intimidar cidadãos livre-pensadores.

Apolo. Ca. 460 a.C.
Foto: Fingalo

Em uma onda de criatividade que durou trezentos anos, entre 500 a.C. e 200 a.C., essas cidades gregas em torno do Mediterrâneo criaram obras-primas nas artes, na arquitetura e na literatura que até hoje nos deixam sem fôlego. Elas produziram inúmeros gênios - entre eles Arquimedes, Aristóteles, Pitágoras - cujos trabalhos em mecânica, matemática, astronomia e história natural lançaram as bases para as ciências modernas. E inventaram uma abordagem do argumento lógico e da inquirição filosófica que se tornaria tão dominante que a maioria de nós nem sequer tem consciência de que ela foi inventada, e acha que é apenas o modo normal de pensar sobre as coisas.

Julgamento de Paris. Ca. 465-460 a.C.,  Penthesilea. 
Foto: Marie-Lan Nguyen

Como seria de se esperar, foi na mais populosa dessas cidades-Estado - Atenas - que a luz da civilização brilhou com mais força. E foi lá que um experimento notável em vivência comunitária - a prática da democracia - efetivou-se pela primeira vez. Em 507 a.C., o chefe dos magistrados, Clístenes, decidido a limitar a influência das famílias nobres na condução da gestão pública, "firmou uma parceria com o povo". Os direitos e deveres públicos dali por diante não se baseavam mais na família ou no clã, mas na participação em uma deme, ou municipalidade, que mantinha o próprio registro de cidadãos; e elegia não só seus representantes, mas também uma proporção do conselho de quinhentos membros, que supervisionava os negócios da polis. Todo cidadão (ou seja, todo homem adulto e livre) tinha ainda o direito de comparecer - e votar - à assembleia, que se reunia na própria cidade.

[...]

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro, 2011. p. 92-93.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O advento da imprensa

Polemistas, tanto humanistas quanto religiosos, dispuseram, a partir do século XV, de uma nova vantagem: a imprensa. Surgiram na Europa pela primeira vez o tipo móvel de metal, tintas à base de óleo e melhores máquinas impressoras. O verdadeiro herói desta conquista foi o alemão Gutenberg, cujo empreendimento o deixou financeiramente arruinado. Mas a sua invenção teve um enorme efeito. Por exemplo, fez com que as edições de Erasmo, do Novo Testamento em grego, alcançassem mais pessoas mais depressa do que as obras de sábios do passado. Erasmo lhes oferecia um texto mais acurado do que os anteriores, e portanto melhor base para discussão do verdadeiro significado do Novo Testamento. É claro que não foram impressos imediatamente novos livros. Nos primeiros dias da imprensa, o livro mais impresso foi a Bíblia. As pessoas também queriam outras obras conhecidas de grandes teólogos ou legistas, famosos textos de autores antigos, e não novidades. Contudo, a existência da máquina impressora se mostraria de grande importância na circulação de novas ideias - especialmente científicas - entre o pequeno número de pessoas com interesses específicos.

Bíblia de Gutenberg (detalhe)

A imprensa contribuiu para tornar a Europa uma sociedade muito mais culta. Embora grande parte dos europeus não soubesse ler, nem mesmo em 1800, era muito mais comum, à época, que os mais ricos pudessem fazê-lo do que trezentos anos antes. Além disto, muitas vezes os que não sabiam ler conseguiam alguém para ler os livros em voz alta, e o que ouviam era escrito em vernáculo. Os homens cultos continuaram por muito tempo seguindo a prática de escrever em latim, a língua internacional da sabedoria. Porém cada vez mais livros eram publicados em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e outras línguas europeias e, como a invenção da escrita nos tempos primitivos ajudara de certo modo a "fixar" a linguagem, a imprensa padronizou a grafia e o vocabulário em áreas muito mais amplas, antes diferenciadas por dialetos e idiomas locais. Essas mudanças conseguiram impulso quando a impressão começou a ser usada para outras coisas além de livros. Volantes, ilustrações impressas com explicações, boletins, panfletos e finalmente o verdadeiro jornal ou a revista periódica, tudo isso surgiu antes de 1800. Tais publicações não tiveram a mesma forma em todos os lugares. Os ingleses elaboraram panfletos políticos no século XVII (um dos mais famosos foi a Areopagítica, de Milton, importante libelo em favor da liberdade de imprensa), enquanto na França (devido à censura) eles demoraram mais cem anos e forma menos numerosos. Os jornais foram publicados na Alemanha a partir do século XVII. Porém, em 1800, havia muito mais material impresso por toda parte do que três séculos antes, e é provável que nesta época a discussão pública de ideias e acontecimentos fosse mais frequente do que nunca, a despeito da qualidade.

Perto do final do século XVIII, aumentaram as demandas por maior liberdade de imprensa e de publicação, em outros países além da Inglaterra, como a república holandesa e as colônias inglesas da América. Um famoso escritor francês declarou que embora discordasse violentamente do que alguém dizia, lutaria com vigor pelo direito de a pessoa se expressar. Na época, uma declaração assim significava que deveria haver um direito legal de imprimir e publicar opiniões. Por isso lutaram em muitos países os liberais do século XIX, e novamente no século XX, quando se pensou que a batalha estava ganha.

Por volta de 1700, a imprensa já ajudara a criar um público internacional de homens cultos. As descobertas e observações científicas seriam publicadas nas "atas" da Royal Society da Inglaterra, ou de academias reais em outros lugares. [...]

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 486-488,

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Cultura e religião na África pré-colonial

A história do continente africano, geralmente, é construída de fora para dentro, com base nos interesses que buscaram (e buscam ainda) dominar a África e os africanos, mas também por culpa de africanos que se espelham e vivem à imagem dos povos que os dominaram, sem referência ao seu passado histórico. Segundo Ki-Zerbo (2010), é imperativo que a história e a cultura da África sejam também vistas de dentro, sem serem analisadas por parâmetros de valores exclusivamente europeus. Portanto, apesar dos mitos e preconceitos de todo tipo, que durante um longo período de tempo ocultaram a real história deste continente, existiu e existe até os dias de hoje culturas, religiões e grupos linguísticos diversos, bem como uma organização social própria dos povos africanos.



O continente africano é conhecido pela diversidade e pela riqueza de suas culturas e religiões, mas sobre o período pré-colonial a maioria dos filmes e documentários mostra uma imagem essencialmente primitiva e "bárbara". No entanto, essa visão não passa de um olhar racista e ideológico que busca descaracterizar o continente para poder controlá-lo com facilidade. Apesar disso, nenhuma dessas classificações pode apagar a história da mais antiga região do mundo, que é, culturalmente, um conjunto plural, um mosaico de nações étnicas correspondentes a identidades distintas.

Nesse sentido, Cheikh Anta Diop (1999) observa que não se deve construir a humanidade apagando a cultura de uns em benefício de outros e, tampouco, renunciando prematuramente e de forma unilateral sua cultura nacional no intuito de se adaptar à do outro em nome da simplificação da "globalização", pois isso seria um suicídio. Ou seja, importa resgatar as culturas africanas do período anterior ao colonialismo europeu, bem como suas relações com o resto do mundo, principalmente, devido às diferenças físicas, linguísticas e de organizações sociopolíticas que caracterizam a realidade africana.

Desse modo, podemos definir a cultura como sendo o conjunto da maneira de pensar, agir e se comportar de um povo que vive em coletividade, compartilhando símbolos e valores. Segundo Giddens (2004), o conceito de cultura se refere aos aspectos da sociedade humana que são apreendidos e não herdados, porém compartilhados pelos membros das sociedades e tornam possível a cooperação e a comunicação. Desse modo, a cultura é composta tanto por elementos materiais como por obras de arte, técnicas ou instrumentos de trabalho do grupo, bem como suas vestimentas, elementos espirituais ou religiosos que incluem ideias, crenças, normas, valores e costumes do grupo. Portanto, a compreensão de qualquer cultura deve evitar privilegiar, como foi feito no caso da África, o fator psicológico da identidade cultural em vez de considerar também as dimensões históricas e linguísticas (DIOP, 1987). No caso da África pré-colonial, a consideração desses elementos nos leva a falar, além da origem egípcia da civilização africana e mundial, da história dos Estados africanos conhecidos como impérios ou reinos, que foram grandes centros de divulgação da cultura africana.

Durante esse período, apesar do Deserto do Saara dividir o continente africano em dois, gerando o desenvolvimento de estilos de vida diferentes entre o norte e o sul, sempre houve trocas comerciais, culturais e sociopolíticas entre os povos das duas partes do continente. Assim o desenvolvimento de relações intercomunitárias e a organização no âmbito da formação de Estados foram facilitados. Um exemplo disso foi o Império de Gana, o mais antigo da parte ocidental do continente [...], que teve como respectivos sucessores os impérios Mali e Songhai. Essa sucessão mostra, em parte, a continuidade histórica dos povos africanos cuja base da civilização é a cultura egípcia, contrariando as afirmações das teorias que tentam distinguir a civilização e a cultura egípcia da dos demais povos do continente.

Segundo Diop (1999), a civilização do Egito Antigo é a base do patrimônio cultural, filosófico e científico de todos os africanos do continente, influenciando também a diáspora. Importa dizer que apesar de a África ser definida, primariamente, como um continente pobre e que pouco inovou, antes da colonização europeia o continente era uma das partes do mundo mais dinâmicas do ponto de vista da pesquisa e do florescimento cultural graças à organização política e socioeconômica de seus impérios. Assim, segundo Cissé (2010), na África Ocidental, por exemplo, mais especificamente na zona sudanesa-saariana, os contatos entre a população local e a cultura árabe-muçulmana, entre os séculos VIII e IX, propiciou uma grande produção de manuscritos em árabe nos principais centros urbanos como Gao, Djene e Timbuktu.

Considerando um intervalo de tempo um pouco maior, do século VII ao XVI, e sob vários aspectos, o continente africano passou por momento importante, pois este foi um período privilegiado para o desenvolvimento de culturas originais. Sem perder sua identidade, os africanos assimilaram influência externa. Foi nesta época que o grande Império do Sudão, situado ao sul do Saara, entrou em contato com a cultura e a religião islâmicas, as quais a partir de então passaram a fazer parte da cultura africana, convivendo quase que em harmonia com as religiões e crenças locais. Portanto, de forma oposta ao cristianismo, que chegou ao continente negro juntamente com os exploradores e futuros colonizadores europeus, o islamismo chegou à África pregado por africanos que tiveram contato com os fundamentos islâmicos a partir de viagens ao Oriente Médio. Conforme Diop (1999), a penetração do islã na África foi feita de forma pacífica, exceto o caso da islamização do movimento almoravida, durante a primeira metade do século XI, quando os berberes tentaram impor o islã pela força das armas.

Vale ressaltar que o contato dos africanos com o mundo árabe marcou o início de novos relacionamentos do continente negro com o exterior. Essas relações se intensificaram, resultando em formações sociais, políticas e culturais complexas, baseadas na diversidade que caracteriza o continente. Essa diversidade, por sua vez, dificulta a compreensão da formação, em termos de crença, de um sincretismo ou hibridismo religioso que se observa no continente até na atualidade. Desse modo, o entendimento das religiões africanas tradicionais se torna mais complicado devido à incorporação pelas mesmas de outros elementos provindos dos contatos com o exterior, notadamente do islamismo, e mais tarde do cristianismo.

Assim, segundo Tedanga (2005), para caracterizar as práticas religiosas na África tradicional os estudiosos das religiões e antropólogos do mundo moderno fabricaram todo tipo de denominação reducionista e ideológica das crenças africanas. Nesse sentido, encontramos na literatura conceitos como animismo, fetichismo, ancestralismo, magismo e totemismo, entre outros. Independentemente do termo ou conceito que se use, percebe-se a carga reducionista. No entanto, se considerarmos que fetichismo, animismo ou totemismo são três fenômenos da vida humana, é normal que a religião africana tenha interesse por eles, embora seja abusivo reduzir o conjunto de suas crenças focando somente esses elementos.



Importa dizer que as religiões da África são tão diversas quanto as línguas e etnias do continente, já que cada uma delas tem seus deuses, gênios ou ancestrais cuja adoração, ritos, oração ou sacrifício segue uma lógica única. Por isso, segundo Dieng (2007), à primeira vista tudo parece ser diferente entre as religiões dos dogons, dos malis e dos zulus da África do Sul, ou entre os pangos e os iorubás da Nigéria. Porém, um olhar mais aproximado pode diagnosticar algumas características fundamentais, que são idênticas entre esses cultos essencialmente destinados a ligar os homens ao mundo invisível, seja na forma natural ou sobrenatural. Na África, os povos têm mais ou menos a mesma concepção sobre seus ancestrais, sobre os gênios, seus modos de encarnação ou de reencarnação, bem como o entendimento sobre os vivos. Portanto, pode-se encontrar no totemismo e no fetichismo uma relação sutil entre o homem, o animal e a natureza.

Fica evidente que, do ponto de vista religioso, o continente africano apresenta uma rica variedade que reflete o importante papel das crenças nas organizações políticas e socioeconômicas. Isso mostra a importância da religião, da divindade ou do sagrado na vida dos africanos, bem mesmo antes da chegada das chamadas religiões reveladas (cristianismo e islamismo). [...]

Desse modo, pode-se afirmar que o monoteísmo africano é anterior ao islamismo, pois as religiões e o comportamento da maioria dos povos do continente se baseiam na moral e no respeito à vida em conjunto harmonioso, tanto entre os homens quanto entre eles e a natureza. Apesar da grande presença do islamismo na África Subsaariana nos séculos que antecederam à chegada do cristianismo e da colonização, importa sublinhar que a religião que dominava nos principais Estados ou impérios como Songhai, Mali e Benin, por exemplo, é aquela ligada às crenças ancestrais, as quais acreditavam em um ser supremo, do qual procedem todas as pessoas. Consequentemente, todos os indivíduos são valiosos e dignos de respeito. Ou seja, a cultura tradicional africana põe especial ênfase nas virtudes como a tolerância, a hospitalidade, a paciência e todos os valores que asseguram a harmonia social. Daí o rápido crescimento do cristianismo e do islã no continente, pois, segundo Dieng (2007), a rápida expansão dessas religiões na África se deve, em grande parte, ao sentido religioso, ao respeito e a tolerância inerente à cultura tradicional.

Nesse sentido, conclui-se que, do ponto de vista cultural, principalmente no que diz respeito à religião, a África tem sido uma grande precursora dos valores humanos incorporados pelas religiões reveladas (cristianismo e islamismo), apesar do discurso que anunciava a tarefa de "civilizar" os povos africanos a partir de seus valores. [...]

De qualquer modo, a religião dominante na África pré-colonial foi o animismo ou religião tradicional, apesar da islamização do continente a partir do século IX. O animismo consiste na crença em um único criador do universo que colocou um espírito em todas as coisas, sejam elas animadas ou não. Igualmente são cultuados os ancestrais, e se dá um valor particular à magia, notadamente a que cercam os ferreiros. Desse modo, percebe-se que a entrada e a expansão do islamismo se deram, principalmente, devido a essa coincidência de culto ao ser superior único, mas também por não ser uma religião de elite e aceitar sua expansão sem a erradicação do animismo (SYLLA, 1994). Nessa lógica, os seres são hierarquizados. Até o ser supremo, que pode ser confundido com o ancestral, nunca é uma abstração, mas sim energia viva, forças submetidas aos princípios de interação e que, como as forças físicas não mecânicas, podem se somar, se destruir ou se neutralizar (WADE, 2005).

Portanto, mesmo com a entrada das religiões monoteístas (islamismo e cristianismo), vale ressaltar que a religião tradicional continuou sendo a principal crença, pois nesse campo, na maioria das vezes, a aceitação e a adoção das religiões estrangeiras eram vistas pelos africanos como uma forma de receptividade e de acesso ao outro para fins comerciais. [...]

Grosso modo, a cultura e a religião são dois elementos fundamentais para o entendimento da sociedade tradicional africana [...]. Porém, continuam pouco conhecidas e, principalmente, encaradas a partir do etnocentrismo ocidental, pois sempre foi importante justificar a presença estrangeira no continente africano. Mas independentemente dos aspectos negativos dessa presença, importa dizer que as crenças tiveram uma influência profunda sobre a organização social africana, centrada no núcleo tradicional, baseada no clã dirigido pelos anciãos.

VISENTINI, Paulo Fagundes et al. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 21-26.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A relação Mito-História

Júpiter e Tétis, Ingres

Você conhece a Mitologia grega?

E sabe o que é um mito?


O Homem, no seu enfrentamento diário com a Natureza e com os outros homens, tem necessidade de compreender os fenômenos que ocorrem à sua volta: sua atuação, tanto do ponto de vista individual quanto social, exige um conhecimento do mundo que o rodeia. Não sabemos quando, onde, como e por quem foi lançada pela primeira vez a pergunta por quê? No entanto, podemos constatar que os homens sempre procuraram respondê-la, isto é, sempre procuraram compreender os fenômenos.

Sabemos que, em contextos culturais mais primitivos, o Homem se vincula à vida através de uma percepção predominantemente sensorial. É extremamente dependente do meio ambiente: os problemas de sobrevivência lhe tomam todo o tempo; todo os seus sentidos e seu pensamento estão voltados para isso. E não poderia ser de outra forma. Por isso, o Homem primitivo apenas simboliza: criando um conjunto de símbolos para representar a realidade, ele dá respostas aos porquês; as magias, os totemismos, os mitos nada mais são do que uma expressão desse esforço de compreensão do mundo. Portanto, todo o grupo humano no seu enfrentamento com o mundo cria cultura, isto é, cria objetos, para satisfazer a suas necessidades físicas e materiais, e cria ideias, para satisfazer a suas necessidades intelectuais.

Então, o que você pode concluir?

Toda cultura tem sua forma de explicar a realidade. O que varia é a forma de apreensão dessa realidade, e isso depende das possibilidades de o Homem, em uma dada sociedade, com determinadas condições de vida, tomar consciência de si mesmo, de tudo que o cerca e de sua historicidade. Logo, o mito é uma explicação do mundo, fruto de uma apreensão sensorial-afetiva. É uma explicação que incorpora todos os fenômenos em um contexto transcendental, heróico, divino, mágico...

E, o que é mais importante: os mitos, as magias, os totemismos são explicações do mundo vividas e compartilhadas por todos os elementos de um grupo, em um estágio de comunidade primitiva onde o regime de propriedade é coletivo. Assim, a produção intelectual dessas sociedades significa um esforço de compreensão do mundo, cujo resultado é transmitido através de uma linguagem inteligível para todos no grupo... É, sem dúvida, um estágio de pensamento que ainda hoje convive conosco, mesmo nos grandes centros urbanos... Por quê?

Repare! Quando perguntamos se você conhece a Mitologia grega é porque ela representa um primeiro estágio de explicação do mundo dentro da nossa cultura. Estágio que, longe de ser superado, sobrevive simultaneamente com explicações presididas pelo logos, isto é, por uma apreensão racional.

Ora, qual o significado de uma apreensão racional? Quais as condições necessárias ao seu surgimento?

Quando o grupo humano, vivendo sob o regime da comunidade primitiva, conseguiu, através de um aperfeiçoamento técnico, produzir um excedente econômico, criou condições para maior divisão do trabalho. Evidentemente, os elementos do grupo que passaram a ter por função o controle desse excedente econômico assumiram um poder de coação sobre os demais membros do grupo. Ora, essa minoria, cujo trabalho passou a se fundamentar em tarefas de organização e administração, sentiu a exigência de um maior nível de abstração da realidade, além da necessidade de escrever para registrar os dados importantes. Daí, compreendemos que a própria racionalização começava a ser mais uma forma de exercício do poder dessa minoria em relação aos demais membros do grupo, de vez que a linguagem utilizada para expressar os resultados de seus esforços de compreensão do mundo não mais era compartilhada por todos os membros do grupo.

Percebeu, então, quanto é importante para nós, homens do século XXI, procurarmos reviver todos esses momentos de nossa cultura?

Se desejamos realmente crescer como seres humanos, amadurecer emocional e intelectualmente, precisamos superar etapas. Mas isso só será possível quando a totalidade dos homens puder viver todos os níveis de abstração de sua cultura.

O ato de conhecer, que existe no Homem como essência mesmo - na medida em que sem o conhecimento do mundo não poderia sobreviver (sem conhecer as utilidades do fogo, por exemplo, ele não poderia usá-lo) - passou a ser considerado um saber que, se tornando atributo de alguns poucos "eleitos", fez surgir as figuras do sábio, do filósofo, do cientista... Aprofundou-se a hierarquia e a dicotomia entre os que sabiam e os que não sabiam. Na verdade, a dicotomia era entre os que possuíam e os que trabalhavam...

Agora, preste atenção! Voltemos ao termo "História". Evidentemente, a História não foge à análise que fizemos até aqui. A princípio, você pode imaginar, a História esteve associada às lendas e aos mitos, revividos por todos os elementos do grupo através de rituais. Era a forma de o grupo manter viva na lembrança de todos a História - as tradições culturais transmitidas oralmente. Aos poucos, no entanto, foi-se tornando um saber: a vida vivida por todos a ser revivida por alguns através da palavra escrita. E o saber histórico, isto é, a forma de conhecimento da realidade, assumida como ofício por alguns elementos da nossa cultura, é, aqui, o objeto de nossas preocupações.

[...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 39-41.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Poder jovem


Jovem oferecendo uma flor para o policial, 1967

Na segunda metade do século XX, a ação da juventude foi marcada por uma palavra: protesto. Manifestando-se individualmente ou em grupo, os jovens contestaram os valores do mundo "adulto", ou seja, as normas, regras e instituições estabelecidas, bem como concepções e comportamentos determinados pela tradição cultural. O protesto jovem ocupava todos os espaços: a casa (família), a escola, as ruas e as praças.

Na década de 1960, o protesto jovem concretizou-se em dois movimentos que, mesmo articulados, tinham características e propósitos diferentes: o movimento estudantil e o movimento hippie. Ambos tiveram origem nos Estados Unidos e estenderam-se a quase todos os países.

A primeira grande manifestação estudantil ocorreu na Universidade de Berkeley (Califórnia), reivindicando a reforma dos cursos e estudos universitários. A movimentação logo se expandiu, e os estudantes passaram a organizar protestos contra a participação norte-americana na guerra do Vietnã.

Foi, porém, em Paris que o movimento estudantil se caracterizou como protesto político, contestando não só a universidade, mas a ordem social geral.

O movimento estudantil de caráter eminentemente político estruturou-se principalmente nos países que viviam sob regimes ditatoriais. A contestação transformou-se em movimentos que organizavam a luta armada. Em todos os lugares a repressão foi arrasadora, e os jovens foram suas principais vítimas.

O movimento hippie, em contrapartida, pregava paz e amor. Representou uma espécie de alternativa para a contestação estudantil, trocando o engajamento político dos estudantes por uma proposta genérica de liberdade. Os hippies não se propunham a mudar o mundo, mas pretendiam viver como bem entendessem.

Nesse sentido, o movimento hippie levava à alienação, ao desligamento das questões sociais que geravam o descontentamento da juventude. No entanto, em relação a valores, visão de mundo e comportamento, era profundamente contestador.

Os hippies criaram uma nova cultura, baseada na vida em comunidades (nas quais a antiga estrutura familiar estava ausente), na produção artesanal, na prática de uma religiosidade esotérica, no cultivo da música que se identificou com a juventude (o rock 'n' roll e todas as suas variantes) e na liberação do sexo, dos sentimentos, das emoções e (o que foi trágico para a juventude) do uso de drogas.

Depois de ter se imposto como uma nova força no mundo, a juventude, a partir de meados da década de 1980, parece ter sofrido um recuo conservador. Líderes estudantis radicais e hippies deram lugar a yuppies, jovens executivos preocupados apenas com o próprio sucesso.

O "poder jovem" tornou-se um componente da sociedade, na medida em que a juventude passou a ser idealizada, tornando-se símbolo e sinônimo de saúde, vitalidade e, principalmente, beleza - um dos mitos mais importantes do século XX. A juventude ficou na moda e tornou-se, ela própria, moda.

Os jovens continuaram formando grupos específicos que os distinguissem da grande massa, mas sem nenhuma proposta de renovação ou mudança. Mais do que formação de grupos, tornou-se comum o aparecimento de gangues, como os punks e os skinheads.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 516-517.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A cultura de Roma

Pintura romana em Pompéia

A cultura de Roma foi-se desenvolvendo sob a influência de culturas anteriores. Inicialmente pela etrusca e, a seguir - à medida que os romanos expandiam seu território -, por culturas orientais e, sobretudo, pela cultura grega, à qual aliaram-se contribuições originais dos próprios romanos.

Dos etruscos Roma adotou o gosto pelos arcos, que usaram em suas obras de arquitetura com admirável aperfeiçoamento de técnicas de engenharia. Sobressaíram pontes, aquedutos, arcadas, portais de casas, edifícios públicos, teatros, circos, anfiteatros e os arcos de triunfo, sob os quais desfilavam os generais vitoriosos à frente de suas legiões, levando como estandarte a águia, símbolo do poder de Roma. Aperfeiçoando a construção dos arcos e alargando-os, os romanos conseguiram que esses abarcassem espaços maiores e passaram a cobri-los com uma cúpula.

Os edifícios eram revestidos com mármores e granitos vários, decorados com baixos-relevos, estátuas; interiormente, com pinturas, esculturas, mosaico de influência helenística. Em contraste, porém, com o estilo simples preferido pelos gregos, os romanos desenvolveram sua inclinação por um estilo grandioso, monumental, mais rico em detalhes, incorporando colunas herdadas aos gregos. É importante ressaltar que, se de um lado, as construções romanas evidenciavam a predileção do povo por obras de grande magnificência, de outro lado traduziam seu espírito eminentemente prático, pois tanto as residências particulares como os edifícios públicos tinham, como objetivo principal, serem úteis, funcionais, permitindo comodidade e conforto aliados à beleza.

Mosaico romano com cena de amor

Esse objetivo teve um de seus melhores exemplos nas termas, edifícios amplos para banhos públicos, construídos em diferentes níveis, incluindo vários recintos: o calidarium (para banhos a vapor), o tepidarium (para banhos em água morna), o frigidarium (para banhos em água fria). Como as termas incluíam também ginásios e bibliotecas, serviam ainda para local de encontros, conversas, discussões sobre negócios. Sabemos que, no século IV, Roma se orgulhava de possuir cerca de 1.000 termas.

Outra prova evidente do espírito prático e utilitário dos romanos é dada pelo traçado das cidades, retangular, simétrico, a partir de uma área central delimitada pelo cruzamento de dois eixos: um, o principal, orientava-se na direção leste-oeste (decumanus), outro na direção norte-sul (cardo); as portas das cidades eram abertas para os quatro pontos cardeais. O templo aos deuses era construído em uma elevação da área central, o Capitólio (cabeça da cidade); ao seu redor, obedecendo a planos previamente concebidos, e dentro de rigorosa simetria e uniformidade de estilo arquitetônico, iam-se ordenando praças, mercados, templos, teatros, anfiteatros, circos, termas e a basílica.

A basílica foi uma criação tipicamente romana. Edifício espaçoso onde funcionavam diversas seções do Tribunal de Justiça e onde se realizavam também importantes encontros sociais e políticos. Foi a basílica, na sua forma mais simples, com uma nave central, duas alas laterais e, ao fundo, uma abside, que serviu de modelo para as primeiras igrejas cristãs.

Núpcias de Alexandre Magno com a princesa Roxana, encontrado numa casa romana do monte Esquilino

O povo romano era ávido por toda sorte de divertimentos, acorrendo em massa aos espetáculos de circos, teatros, anfiteatros. No anfiteatro romano realizavam-se grandes espetáculos de lutas de gladiadores, entre animais ferozes trazidos das províncias africanas e asiáticas, e até mesmo batalhas navais simuladas. Na arena, os gladiadores combatiam aos pares, ou em grupos, geralmente usando armas diferentes; alguns combatiam com a espada, protegidos por cotas de malha, escudo; outros, de torso nu, apenas armados com um tridente e com uma rede para envolver o inimigo. O vencido implorava pela vida, mas frequentemente os espectadores, voltando o polegar para baixo, exigiam sua morte. Prisioneiros de guerra ou criminosos, e os cristãos na época das perseguições, eram comumente lançados à arena e obrigados a enfrentar, desarmados, leões ou outras feras.

Durante 158 anos os senadores assistiram aos jogos públicos misturados com o povo. Mas este costume, os edis Atílio Serrano e L. Escribônio o aboliram. Para os jogos que fizeram celebrar em honra à mãe dos deuses, designaram, de acordo com a opinião de Cipião o Africano, lugares separados para o Senado e para o povo, medida que desagradou o espírito popular e abalou muito o prestígio de Cipião. (Valério Máximo, I, IV, 8)

No Circo Máximo de Roma cerca de 50.000 pessoas podiam assistir a corridas de cavalos atrelados a carros, ao longo de uma pista elítica que lembra as pistas de nossos hipódromos. Os carros eram bigas ou quadrigas (conforme o número de cavalos, dois ou quatro) pertencentes a associações rivais que se distinguiam por suas cores (azul, branca, vermelha e verde), assim como os jóqueis de hoje em dia.

Um numeroso público acorria também aos teatros, onde eram levadas peças satíricas, farsas, cuja representação exigia o uso de máscarase disfarces. Montavam-se espetáculos grandiosos, empregando aparelhagem complexa e engenhosos recursos mecânicos que permitiam fazer jorrar em cena fontes e cascatas e se sucederem rapidamente as mais variadas paisagens.

Vila do imperador Adriano (Tivoli, Itália)

[...] durante o período de conquista o interesse pela produção artística e literária não teve condições propícias ao seu desenvolvimento. Mas no fim da República, até a época de Augusto (de aproximadamente 100 a.C. até 14 da nossa era), a criação literária, além da artística em geral, atingiu sua fase culminante, fase que ficou sendo conhecida como a época clássica da literatura latina.

A literatura grega exerceu uma das mais poderosas influências sobre a cultura de Roma. Todo romano de fina educação tinha de dominar o grego tão bem quanto o latim e era enviado à Grécia depois dos 17 anos; escravos gregos eram frequentemente encarregados do ensino dado a crianças de famílias patrícias. Com esse preparo cultural os romanos puderam desenvolver uma literatura de primeira ordem, legando-nos obras originais de prosa, poesia, teatro, oratória, história, filosofia.

O realismo, fruto do espírito prático e objetivo dos romanos, que marcara sua arquitetura, escultura e pintura, foi também o traço dominante de sua literatura: na descrição das paixões humanas, das paisagens, da natureza. Além disso, buscando preservar as virtudes e tradições do povo romano, vários poetas e escritores deram ênfase à simplicidade e aos encantos da vida campestre, ao respeito pelas instituições da família, da religião e do Estado.

Ruínas da cidade de Pompéia

Destacou-se na prosa política, na arte da oratória, Cícero. Seus discursos e cartas revelam interesses intelectuais dos mais variados. Como historiadores distinguiram-se Júlio César (De Bello Gallico), Tito Lívio, Tácito, Suetônio, Plutarco (que, através de suas biografias de homens célebres, tornou-se importante fonte de inspiração literária para autores de outras épocas). No gênero epistolar sobressaiu, além de Cícero, seu criador, Plínio, o Jovem; na comédia tiveram projeção Plauto e Terêncio. Marcaram sua época, exercendo grande influência sobre a literatura europeia de séculos posteriores, os poetas Catulo, Virgílio (autor de Eneida, poema inspirado na Ilíada e na Odisséia), Horácio (autor de Sátiras, Epístolas, Odes e Epodos), Ovídio. Por suas críticas à sociedade e aos costumes salientaram-se Marcial (autor de 14 livros de Epigramas) e Juvenal. Na filosofia teve destaque Sêneca.

Odeio e amo. Como é isso possível, talvez me perguntes. Não sei, mas eu o sinto e me torturo. (Catulo, LXXXV, 1-2)

No campo das ciências, os grandes nomes foram todos gregos. Alexandria, com seus famosos museus e bibliotecas, foi o centro de pesquisas e experiências, continuando a obra cultural iniciada por Alexandre, o Grande. Aí Ptolomeu, matemático, astrônomo, cartógrafo, realizou importantes trabalhos. Reuniu, em vários livros, todo o conhecimento até então existente sobre astronomia, tendo sido o primeiro a mostrar em um mapa a forma redonda da Terra. Por muitos séculos foi aceita sua teoria do sistema geocêntrico, isto é, a Terra como centro do universo.

Embora os romanos pouco tivessem contribuído para as ciências, graças ao seu espírito prático souberam aproveitar, em benefício da sociedade, as descobertas de estudiosos gregos no campo da medicina. Construíram os primeiros hospitais, alguns deles dispensando tratamento gratuito aos necessitados. Por volta do ano 14, Roma teve sua primeira escola de medicina, onde, segundo textos existentes, realizavam-se operações de catarata, amígdalas e até mesmo alguns tipos de cirurgia plástica.

Ruínas romanas na Síria

Foi, porém, o Direito Romano - o jus - o maior legado que Roma deixou ao mundo ocidental: a maioria das leis de nossos dias foi marcada pelo Código Romano, principalmente os Códigos Civis da Itália, França, Alemanha, Portugal, Espanha e países da América Latina, entre os quais o Brasil. No reinado de Augusto, a abertura de escolas de Direito favoreceu o estudo detalhado e a coordenação do crescente volume de leis, que foram mais tarde codificadas (no século VI) e assim conservadas e transmitidas ao mundo ocidental.

Ao Ocidente foi também transmitida a língua de Roma, o latim. Tornou-se idioma oficial da Igreja Católica e, nos mosteiros, os monges se encarregaram, mais tarde, de copiar obras de autores clássicos, preservando a herança literária da Antiguidade.

Com o correr do tempo o latim falado foi-se modificando e forneceu as bases das línguas românicas - italiano, espanhol, francês, romeno e português.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 107-112.