"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos

sábado, 26 de janeiro de 2013

Poder jovem


Jovem oferecendo uma flor para o policial, 1967

Na segunda metade do século XX, a ação da juventude foi marcada por uma palavra: protesto. Manifestando-se individualmente ou em grupo, os jovens contestaram os valores do mundo "adulto", ou seja, as normas, regras e instituições estabelecidas, bem como concepções e comportamentos determinados pela tradição cultural. O protesto jovem ocupava todos os espaços: a casa (família), a escola, as ruas e as praças.

Na década de 1960, o protesto jovem concretizou-se em dois movimentos que, mesmo articulados, tinham características e propósitos diferentes: o movimento estudantil e o movimento hippie. Ambos tiveram origem nos Estados Unidos e estenderam-se a quase todos os países.

A primeira grande manifestação estudantil ocorreu na Universidade de Berkeley (Califórnia), reivindicando a reforma dos cursos e estudos universitários. A movimentação logo se expandiu, e os estudantes passaram a organizar protestos contra a participação norte-americana na guerra do Vietnã.

Foi, porém, em Paris que o movimento estudantil se caracterizou como protesto político, contestando não só a universidade, mas a ordem social geral.

O movimento estudantil de caráter eminentemente político estruturou-se principalmente nos países que viviam sob regimes ditatoriais. A contestação transformou-se em movimentos que organizavam a luta armada. Em todos os lugares a repressão foi arrasadora, e os jovens foram suas principais vítimas.

O movimento hippie, em contrapartida, pregava paz e amor. Representou uma espécie de alternativa para a contestação estudantil, trocando o engajamento político dos estudantes por uma proposta genérica de liberdade. Os hippies não se propunham a mudar o mundo, mas pretendiam viver como bem entendessem.

Nesse sentido, o movimento hippie levava à alienação, ao desligamento das questões sociais que geravam o descontentamento da juventude. No entanto, em relação a valores, visão de mundo e comportamento, era profundamente contestador.

Os hippies criaram uma nova cultura, baseada na vida em comunidades (nas quais a antiga estrutura familiar estava ausente), na produção artesanal, na prática de uma religiosidade esotérica, no cultivo da música que se identificou com a juventude (o rock 'n' roll e todas as suas variantes) e na liberação do sexo, dos sentimentos, das emoções e (o que foi trágico para a juventude) do uso de drogas.

Depois de ter se imposto como uma nova força no mundo, a juventude, a partir de meados da década de 1980, parece ter sofrido um recuo conservador. Líderes estudantis radicais e hippies deram lugar a yuppies, jovens executivos preocupados apenas com o próprio sucesso.

O "poder jovem" tornou-se um componente da sociedade, na medida em que a juventude passou a ser idealizada, tornando-se símbolo e sinônimo de saúde, vitalidade e, principalmente, beleza - um dos mitos mais importantes do século XX. A juventude ficou na moda e tornou-se, ela própria, moda.

Os jovens continuaram formando grupos específicos que os distinguissem da grande massa, mas sem nenhuma proposta de renovação ou mudança. Mais do que formação de grupos, tornou-se comum o aparecimento de gangues, como os punks e os skinheads.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 516-517.

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