"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Morte de um europeu do século VIII

Batalha de Roncenvaux: morte de Rolando, Jean Fouquet

A célebre canção de gesta, uma epopéia, A Canção de Rolando, narra a morte de Rolando, sobrinho de Carlos Magno, morto nos Pirineus, em Roncenvaux, em 778, quando voltava de uma campanha de Carlos Magno contra os muçulmanos no norte da Espanha. Entre os mortos dessa batalha, há também um importante personagem da corte, Egginhard. A inscrição gravada em seu túmulo diz: "O italiano chora por ele, o franco tem o coração torturado, a Aquitânia e a Germânia estão de luto". [...]

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 65.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: as ideias da Igreja sobre a mulher

Uma jovem dama da moda, Paolo Uccello

A doutrina da Igreja medieval sobre o casamento baseava-se em ideias que foram se desenvolvendo dentro da própria Igreja ao longo de sua história. Sob influência da tradição e dos desafios de cada momento, essas ideias iam sendo renovadas e atualizadas.

A renovação católica iniciada com o papa Urbano II, no final do século XI, produziu uma atualização das ideias sobre a mulher. Do final do século XII ao final do século XV, os textos que tratavam da mulher, do casamento e da sexualidade se multiplicaram. Eles revelam a necessidade que os homens da Igreja sentiram de impor valores e modelos de comportamento à mulher.

Muitas mulheres tinham participado de movimentos heréticos, e também era grande o número das que entravam para as ordens religiosas. Algumas escreveram sobre seus ideais religiosos. Isso despertou a atenção do clero.

Na nova economia que se esboçava nessa época, principalmente com o crescimento do comércio e da vida urbana, as mulheres participavam como produtoras e vendedoras de bens. Mas elas eram vistas apenas como mães, filhas e esposas.

Definir claramente os papéis sociais femininos foi um dos objetivos principais dos homens da Igreja. Eles estavam empenhados em restituir a palavra de Deus, vale dizer, a autoridade do clero, onde ela se achava ameaçada. Os pregadores preocupavam-se com uma espécie de desleixo intelectual e moral, que emanava principalmente das cidades.

Ao falar às mulheres, os homens da Igreja não identificam claramente as destinatárias. Dirigem-se às nobres, às camponesas ou às habitantes da cidade? Aparentemente a todas as mulheres, não importando a posição sexual.

Nota-se, entretanto, um esforço de classificação ao qual não estavam acostumados. A tentativa de classificação oscilava entre a categoria social, o tipo de atividade, a idade etc. Assim, temos as virgens, as casadas e as viúvas. As esposas e as mães. As monjas e as servas. As moças, as mulheres jovens, as de meia idade e as velhas. As mulheres pobres e as prostitutas.

Os discursos têm como eixo a oposição entre o que as mulheres eram e o que deveriam ser. Não podemos esquecer que são discursos de clérigos. Além de serem homens falando sobre mulheres, estavam submetidos às regras do celibato e da castidade. Tendiam a ser tanto mais severos na censura da sexualidade, principalmente da feminina, quanto mais dela estivessem afastados.

Para esses pregadores, as mulheres das categorias sociais superiores eram portadoras, ou deveriam ser, de valores mais elevados. Esperava-se que elas servissem de exemplo para as camadas subalternas e tomassem consciência dos seus altos deveres como nobres. As mulheres pertencentes a categorias sociais mais baixas foram vítimas das principais condenações morais nestes discursos.

Quando a mulher é referida sem a identificação do grupo social ao qual pertencem, aparece como uma criatura de extremos entre o bem e o mal: é a filha de Eva ou a virgem que imita Maria.

Mas, independentemente da categoria social, o espaço da mulher é o doméstico. A única que não pertence a ele é a prostituta, à qual só resta o arrependimento e a penitência.

Os textos mais impressionantes são os que falam sobre as mulheres, e não para elas. Eles demonstram claramente o grande medo que elas despertavam. O medo da mulher é uma das principais características do pensamento medieval. Esse medo levava a um severo controle sobre as mulheres. Controlar e castigar as mulheres era uma tarefa dos homens.

Como há um predomínio do espírito sobre a carne, a pureza seria mais de pensamento do que do corpo, mas na hierarquia da castidade, a virgem de corpo está em primeiro lugar.

Foram estabelecidos, então, três graus possíveis de castidade, de virtude e de perfeição. O ideal de mulher é a virgem que renuncia para sempre ao sexo. As viúvas que renunciam a ele por haverem perdido o marido e não se casam estão em um segundo plano. As casadas, que usam o sexo de forma casta e moderada com a finalidade de procriação, estão em terceiro lugar na escala dos méritos. A castidade vale mais do que a continência.

[...]

Até a sua presença na missa seria arriscada, pois os seus olhares poderiam "incendiar os lugares sagrados".

Os conhecimentos medievais sobre anatomia confirmavam o juízo depreciativo dos homens da Igreja em relação à mulher. A fisiologia da mulher foi objeto de longos debates. A conclusão era a de que ela trazia no próprio corpo as marcas da sua inferioridade e mesmo dos seus malefícios.

O Gênesis é citado para mostrar que a mulher é um ser secundário, um apêndice do homem. Acreditava-se que os órgãos femininos fossem menos aperfeiçoados e fracos, de certa maneira opostos aos masculinos. O corpo da mulher foi considerado com base no modelo masculino e os seus órgãos, classificados de acordo com a finalidade. Os seios, por exemplo, eram vistos apenas pela sua finalidade de aleitamento.

No pensamento medieval, o matrimônio era enfocado na sua finalidade de procriação. Por isso não se falava do prazer sexual, mesmo dentro do casamento. Dessa forma, não existiram no Ocidente cristão condições para o desenvolvimento de uma verdadeira arte erótica.

Ao mesmo tempo, os discursos revelam o medo de um saber feminino sobre o sexo. Saber sempre envolvido em mistério e sempre suspeito de origem demoníaca. Tinha-se medo da mulher durante a menstruação e das que deixaram de menstruar.

As velhas eram consideradas particularmente perigosas. Pensava-se que elas conheciam os segredos do sexo e induziam as mulheres mais jovens ao pecado.

A mulher era vista como um tesouro a ser protegido e preservado, pois era fácil de se perder. Daí a necessidade de reprimir, vigiar e enclausurar. Deus é a cabeça de Cristo; Cristo é a cabeça do homem; o homem é a cabeça da mulher.

As mulheres que desejavam roupas cada vez mais bonitas e caras preocupavam os pregadores. Eles achavam que esse cuidado com a aparência e com o corpo se aproximava da idolatria. A maquiagem e os enfeites foram insistentemente condenados.

Apesar de afirmarem que a mulher devia ser protegida, os pregadores diziam que ela precisava ter autocontrole. Aconselhavam-na a não se divertir muito, a mostrar-se orgulhosa, comer pouco, dançar com compostura e mover-se com moderação. Alertavam para o perigo da bebida e do ócio. Contra as tentações, prescreviam o trabalho e a caridade.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 232-235.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: os movimentos heréticos

Cena noturna da Inquisição, Francisco de Goya

No século XI, os movimentos denominados heréticos pela Igreja coincidem com as mudanças que ocorriam na época, entre elas o esforço dos chefes de famílias nobres para controlar o casamento, a renovação católica e a degradação da condição feminina.

Podemos ver nesses movimentos uma reação dos oprimidos por essas mudanças: filhos deserdados, mulheres que tinham seus direitos desrespeitados pelos homens, camponeses abastados que começaram a ser explorados por senhores feudais, clérigos que não concordavam com as imposições dos seus superiores, populações urbanas que queriam se livrar das imposições dos senhores.

Os cristãos, leigos e clérigos, que contestavam radicalmente o casamento, considerando-o um impedimento à salvação, encontravam apoio nas práticas monásticas tradicionais, que davam prioridade à vida em comunidade, à castidade e à obediência. Todavia, contrariavam o projeto de trazer o casamento para a esfera religiosa, de tornar sagrada a união matrimonial, para controlar melhor a sua prática.

Em muitas comunidades heréticas, as mulheres eram tratadas como iguais, abolindo-se as diferenças entre os sexos e colocando como ideal para ambos a pureza dos anjos. Esses puros eram um pequeno número, mas atraíam muitos simpatizantes. Aderir aos grupos heréticos era uma forma de reagir contra a intervenção da Igreja nas regras matrimoniais do povo. No fundo significava um protesto contra os privilégios do clero. Os hereges julgavam o clero inútil.

Como costuma acontecer com os movimentos contestadores da ordem, a heresia, perseguida e destruída, deixou pouca memória. Seus vestígios são encontrados na palavra dos vencedores, dos que a condenaram e destruíram.

As vozes dos vencedores procuraram ligar a heresia à mulher, ser que, na visão católica, era envenenador, instrumento de Satanás, eterna Eva que levava à perdição.

Como muitos hereges recusavam o casamento e o sexo, foram taxados pelos membros da Igreja como hipócritas e mentirosos. Na verdade, diziam os clérigos, praticariam a comunidade sexual, tendo relações com a mulher que estivesse mais próxima, fosse sua mãe ou irmã. Os filhos dessas relações monstruosas seriam queimados em rituais etc. Conhecemos, portanto, as vozes dos que venceram as heresias, mas muito pouco as dos vencidos.

Os bispos da Igreja venceram as heresias e acomodaram os seus interesses aos das altas linhagens nobres. Disso resultou um modelo de casamento e de comportamento sexual que se estabeleceu solidamente na sociedade feudal.

Esse modelo dava ao cristão apenas duas maneiras de lidar com a sexualidade. Como cônjuge, na moderação das relações matrimoniais - seguindo as normas e proibições -, e como dirigente da Igreja, renunciando ao sexo. O casamento seria uma proteção contra o mal.

O convento passou a ser refúgio das esposas repudiadas e das mulheres sem marido, ajudando a resolver a questão da bigamia e a do repúdio à esposa.

A acomodação entre a sociedade e a doutrina da Igreja sobre o casamento trouxe também a aceitação implícita da diferença entre o ensinamento e a prática.

A repressão ao sexo se afrouxava quando os laços do matrimônio não estavam em questão. O pecado era perdoado pela penitência, uma para cada tipo de falta. O pecador reafirmava a sua submissão à Igreja aceitando a penitência. Dava também uma satisfação à sociedade pelo seu erro. A sua prática contribuía, então, para a ordem social.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 231-232.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: a sacralização do casamento

O casamento de Arnolfini,  1434, Jan van Eyck

O conflito entre o clero e a nobreza teve início na fase de desagregação do império carolíngio e se acentuou no século XI, quando o papa Urbano II empreendeu um movimento de reforma na Igreja. Ele se empenhou em combater os maus costumes do clero, principalmente o gosto pelos prazeres do mundo e, sobretudo, pelas mulheres.

[...]

Antes, até o final do século IX, o parentesco era sobretudo horizontal, estabelecendo um grupo formado por parentes consanguíneos e os seus aliados, congregando duas ou três gerações. Nesta forma de estrutura familiar, os homens e as mulheres estavam no mesmo plano.

No decorrer do século X e da primeira metade do XI esse modelo foi substituído por outro, no qual se privilegiava a verticalidade. Recordava-se cada vez mais um maior número de mortos em direção a um antepassado fundador da família. Cada família de nobres imitava, assim, as próprias dinastias de reis.

Nesse novo modelo, o chefe de família reforçava o seu controle sobre os casamentos. Facilitava o matrimônio das mulheres e dificultava o dos homens, pois este aumentaria os laços familiares por via masculina no sentido horizontal. Tentava-se, assim, concentrar o patrimônio nas mãos do primogênito. Foram colocados limites aos direitos de herança e extinguiu-se o antigo direito da mulher de doar bens.

Por esse costume, as mulheres da casa recebiam uma parte do patrimônio, que se transmitia de mãe para filha e de tia para sobrinha. Antes do casamento, também o noivo dava um patrimônio à futura esposa, do qual podia dispor livremente e que lhe garantia o sustento na viuvez ou quando fosse vítima de repúdio. Também esse costume se extinguiu lentamente. O poder e a propriedade se concentravam nas mãos do marido.

O primogênito devia se casar e dar continuidade à família, mas não os irmãos mais novos. Esses eram muitas vezes destinados à carreira eclesiástica ou enviados para longe para buscarem glória e fortuna. A esperança era encontrar uma herdeira, uma filha sem irmãos. Alguns não primogênitos chegavam a ser assassinados.

Essa prática criou uma série de pequenas dinastias rivais e manteve fixo o número de casas aristocráticas.

A mulher ficou mais estreitamente submetida ao homem, mas acentuou-se o medo que as esposas inspiravam aos seus maridos. Era um outro sangue introduzido na casa. Pelo veneno ou pelo adultério, ela poderia comprometer a perpetuação de uma estirpe.

[...]

Aos poucos o conflito foi dando lugar a uma adaptação, uma acomodação entre a nobreza e a Igreja. Com isso o casamento passou para a esfera do sagrado e foi submetido ao controle da instituição eclesiástica.

O movimento reformista católico do século XI visava basicamente a uma mudança nos costumes dos leigos e do clero. Foi uma verdadeira guerra contra o que era considerado vício. Procurou-se impor aos clérigos a sempre pregada abstenção do sexo e aos leigos a moderação, o comedimento.

[...]

O discurso que colocava o homem acima da mulher estabelecia também a submissão dos leigos ao clero, do temporal ao espiritual. Determinava celibato para o clero e casamento sob a autoridade da Igreja para os leigos.

O movimento de renovação acabou em uma definição do matrimônio como monogâmico, indissolúvel e sagrado.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 229-230.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Abelardo e Heloísa: amor e tragédia

Representação de Abelardo e Heloísa em ilustração de manuscrito francês de 1370. Artista desconhecido

Pedro Abelardo (1079-1142) era um brilhante professor de Dialética (Lógica) em Paris, na França. Heloísa (1101-1164) era a jovem e culta sobrinha de Fulberto, o cônego da catedral de Notre-Dame. Quando se conheceram, ele tinha 36 anos e ela 17. Abelardo, para ficar mais próximo da moça, convenceu o cônego a dar-lhe abrigo e passou a lecionar para ela.

O cônego não suspeitou que os dois tivessem iniciado um relacionamento amoroso. Quando descobriu a paixão entre sua sobrinha e o professor, Fulberto expulsou Abelardo de sua casa.

O casal continuou a se encontrar secretamente e a moça engravidou, dando à luz o filho longe de Paris para evitar escândalos. Contrariado, o cônego consentiu que Abelardo e Heloísa se casassem às escondidas, mas não perdeu a chance de se vingar do ultraje: contratou uns homens para invadir os aposentos de Abelardo e castrá-lo. Humilhado e envergonhado, Abelardo se tornou monge, ordenando que sua esposa fizesse o mesmo.


O amor de Abelardo e Heloísa, Jean Vignaud

A partir de então, nunca mais se viram, e comunicaram-se apenas por cartas. Mais do que protagonistas de uma trágica história de amor, Abelardo e Heloísa passaram a ser vistos como exemplos de liberdade intelectual e moral em uma época de rígidas convenções religiosas e sociais. Além disso, simbolizavam o amor em suas diversas formas (físico, intelectual e espiritual).

Não é possível comprovar a veracidade dos textos hoje conhecidos como as cartas de Abelardo e Heloísa, uma vez que, ao longo de séculos, tal correspondência foi numerosas vezes transcrita, recriada, poetizada. Alguns estudiosos se referem a elas como um mito literário. Ainda assim, a popularidade dessas cartas, em suas várias versões, traduzidas para diversas línguas, contribuíram para disseminar a história desse amor proibido, bem como os valores da época e a situação da mulher na sociedade medieval.

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio. Volume 1. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 131.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Sexo e casamento na Idade Média (Parte 2)

Casamento de D. João I e Filipa de Lencastre. Chronique de France et d' Angleterre, Jean Wavrin, século XV

Em terceiro lugar, trata-se de união indissolúvel. Ao contrário dos vários tipos de aliança conjugal na Roma antiga, onde a separação do casal podia ocorrer sem maiores formalidades, o casamento cristão em tese só se desfaz com a morte de uma das partes ("não separe o homem o que Deus uniu", Mateus 19, 6). A Igreja medieval aceitava, no entanto, a anulação do casamento quando ele não era fisicamente consumado por incapacidade de um dos cônjuges. Ou quando ele unira pessoas aparentadas (por sangue ou por afinidade, como padrinhos e madrinhas), o que feria o grande tabu do incesto, já presente no Antigo Testamento e que ganharia peso ainda maior na Idade Média. A literatura expressou esse forte sentimento contrário ao incesto, por exemplo, no relato de Filipe de Beaumanoir, por volta de 1230, La manekine, cuja heroína amputa a própria mão para afastar o desejo proibido de seu pai. Um casamento podia ainda ser desfeito por outros motivos (bigamia, traição feminina etc), dependendo da influência da parte interessada nisso.

Em quarto lugar, o casamento é exogâmico. Na tentativa de dificultar o incesto e de estimular a circulação das riquezas, impedindo sua excessiva concentração em poucas famílias, a Igreja determinou que os noivos não tivessem parentesco abaixo do sétimo grau. De fato, na aristocracia o casamento era um importante negócio, que afetava não apenas as pessoas diretamente envolvidas, mas todo o clã. Se a mulher era a herdeira dos bens patrimoniais de sua família, precisava de um marido para administrar o senhorio e ser responsável pelas relações feudo-vassálicas relativas àquela terra. Se ela não era a herdeira principal, ao se casar (geralmente aos 13 ou 14 anos) entrava para a família do marido e levava um dote que era uma antecipação de sua parte na herança. Na burguesia, muitos empreendimentos comerciais ou artesanais eram ampliados por meio de alianças matrimoniais entre duas famílias. No campesinato, um servo que se casava com mulher de outro senhorio devia determinada taxa por tirar mão de obra de seu senhor.

Qualquer que fosse a categoria social das pessoas, desde fins do século XI ou princípios do XII surgiu o ritual eclesiástico do casamento. Ele tornou-se obrigatório apenas no século XVI, com o Concílio de Trento, porém difundia-se cada vez mais desde a Idade Média Central. Seus componentes já então estavam bastante uniformizados. Sob o pórtico da igreja ocorriam os esponsais, uma troca de juramentos assistida pelo padre. Vinha a seguir o período dos banhos (geralmente de 40 dias), isto é, da publicação da intenção de casamento para que se verificassem eventuais impedimentos.

A cerimônia que selava o casamento dava-se no pórtico da igreja, com os noivos quase sempre vestidos de vermelho, coroados de flores, a moça com os cabelos soltos em sinal de virgindade ou com um véu ligeiro. Novamente se trocavam juramentos - prática presente em todos os aspectos da vida social medieval -, seguia-se a bênção do casal e a troca de anéis. Entrava-se depois na igreja para a bênção nupcial e a missa, a que os esposos assistiam cobertos por um mesmo véu. Iam depois até o altar da Virgem, ao qual ofereciam uma vela e onde, em algumas regiões, a noiva fiava por alguns instantes. Tudo era acompanhado por muitos padrinhos e madrinhas, testemunhos indispensáveis para uma época pouco ou nada acostumada ao registro escrito e oficial de atos importantes da vida social.

Saindo da igreja, os recém-casados e seus parentes iam até o cemitério rezar sobre os túmulos dos antepassados, que não podiam ficar excluídos de uma cerimônia central para a solidariedade familiar e o espírito do clã. Finalmente, os novos esposos iam para casa, onde os amigos jogavam sobre eles punhados de trigo, rito propiciatório que deveria estimular a fertilidade material e física do casal. Começava então a festa. No caso dos nobres, ela era suntuosa. mesmo porque o casamento da filha mais velha de um senhor feudal era um dos quatro momentos em que os vassalos deviam ajudá-la financeiramente. No caso dos burgueses, sempre desejosos de imitar o padrão de vida nobiliárquico, a festa também tendia a ser farta, dependendo, é claro, dos recursos das famílias. No caso dos camponeses, toda a aldeia, inclusive o senhor, participava das bodas.

O reconhecimento social de que aquelas duas pessoas formavam um casal e poderiam manter relações sexuais não lhes dava, porém, liberdade total para tanto. Determinados dias da semana (em especial o sagrado domingo) e certos períodos do ano (festas religiosas, sobretudo a Quaresma) estavam interditados ao sexo. Jean Louis Flandrin calculou que na Alta Idade Média cerca de 180 dias por ano eram liturgicamente proibidos para relações sexuais, sem contar os dias de menstruação, gravidez e amamentação, igualmente de abstinência. A transgressão era punida de forma variável conforme os locais e as épocas. mas a média girava em torno de 20 a 40 dias de penitência, jejum alimentar e/ou continência sexual. Ademais, o sexo deveria ser apenas vaginal, visando à procriação, a mulher colocada debaixo do homem e no escuro, para se evitar a visão da nudez. O sexo oral e sodomita, a magia para atrair o desejo de alguém, as práticas anticoncepcionais e abortivas, as relações incestuosas e adúlteras eram pecados duramente castigados: de seis a 15 anos de jejum e de excomunhão, geralmente acompanhados de interdição perpétua de qualquer relação sexual e de casamento.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 128-130.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sexo e casamento na Idade Média (Parte 1)

Coito, Giovannino de' Grassi

Em uma sociedade tão fortemente penetrada pelos valores da Igreja, quer dizer, da comunidade cristã, muitas atividades anteriormente consideradas de foro pessoal passaram, pelo menos até o século XIII, a ser vistas como de interesse comunitário. Nesse processo de levar para a esfera pública as coisas privadas, o sexo foi talvez o mais atingido. Essa mudança de comportamento começara na verdade antes do cristianismo, com certas correntes filosóficas pagãs defendendo uma vida mais regrada, mais afastada dos prazeres materiais considerados animalizadores do ser humano. Como em vários outros aspectos, o surgimento do cristianismo respondia a essa demanda psicológica e comportamental da sociedade romana, daí seu sucesso. Tornado religião oficial em 392 e cada vez mais institucionalizado pela Igreja, já na primeira Idade Média o cristianismo pôde impor seus valores.

A vida sexual ideal passou a ser a inexistente. A virgindade tornou-se um grande valor, seguindo os modelos de Cristo e sua mãe. Vinha depois a castidade: quem já havia pecado podia em parte compensar essa falta abstendo-se de sexo pelo restante da vida. Os relatos hagiográficos de toda a Idade Média, sobretudo de suas duas primeiras fases, abundam em exemplos de santas que morreram para defender sua virgindade e de santos e santas que ao se converter ao cristianismo abandonaram a vida conjugal. No entanto, esse desprendimento não podia ser adotado pela maioria das pessoas. Era mesmo perigoso que gente sem o suficiente autocontrole tentasse levar uma vida de abstinência sexual. São Paulo já definira a questão no século I: "É melhor casar do que abrasar" (1 Coríntios 7,9). A vida sexual era possível para o cristão médio, desde que ocorresse nos quadros de uma relação definida e supervisionada pela Igreja, o matrimônio.

Contudo essa interferência eclesiástica na vida íntima dos fiéis não foi aceita com facilidade. Quanto mais recuados no tempo e mais afastados dos grandes centros clericais (sedes de bispado, mosteiros), mais os medievos puderam viver de forma "pagã", no dizer da Igreja. Os camponeses, em especial, superficialmente cristianizados até fins da Idade Média em várias regiões, quase sempre escapavam aquele controle. Os aristocratas, interessados em casamentos que garantissem bons dotes e grande prole para dar continuidade à linhagem e herdar o patrimônio fundiário da família, resistiram por muito tempo ao modelo de união sexual que a Igreja determinava. Mesmo os clérigos não aderiram de bom gosto ao celibato obrigatório imposto pela Reforma Gregoriana.

Assim, apenas ao longo do século XII, a Igreja pôde, com dificuldade, completar a definição da única modalidade aceitável de vida sexual cristã - o matrimônio, tornado um dos sacramentos. Ou seja, em primeiro lugar, uma relação heterossexual. Combatia-se. assim, a prática da bestialidade (sexo entre humano e animal), frequente no mundo antigo e no campesinato medieval. Uma tradição mítica interpretava o versículo bíblico no qual Adão, ao ver Eva, diz "desta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gênesis, 2, 23), como prova de que ele anteriormente fazia sexo com animais. as únicas companhias que tivera até então no Éden. O casamento cristão combatia especialmente a homossexualidade, o pior pecado sexual possível, por visar apenas ao prazer e não à procriação, como Deus determinara ao primeiro casal: "Sejam fecundos e multipliquem-se" (Gênesis, 1, 28). Outra passagem bíblica, muito citada pelo clero medieval, comprovava o horror ao homossexualismo, difundido em Sodoma e Gomorra, cidades por essa razão destruídas por Deus com enxofre e fogo (Gênesis, 18, 20-21; 19, 1-29).

Em segundo lugar, o matrimônio é uma relação monogâmica. Por um lado, isso atendia a um dado da mentalidade medieval, fascinada pela Unidade cosmológica, talvez como forma compensatória à grande diversidade da realidade concreta do Ocidente, dividido em vários reinos, milhares de feudos, dezenas de línguas e dialetos, diferentes liturgias (apenas com a Reforma Gregoriana tentou-se impor o rito galicano-romano a todas as regiões, o que demoraria a se concretizar). Assim, idealmente, ao Deus único deveria corresponder uma só Igreja, uma só fé, um Só governante secular. Por outro lado, a monogamia respondia a uma lenta, mas inegável transformação na sensibilidade coletiva - que a Igreja soube reconhecer e tornar lei - pela qual se passava a ver a essência do casamento no consentimento mútuo dos noivos. Isto é, a união deveria ser construída a partir do afeto recíproco, e não apenas de interesses políticos ou patrimoniais. Ora, com base no afeto conjugal, que é único (como o dirigido aos pais e a Deus), concluiu-se pela exigência de um único parceiro.

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 126-128.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Estruturas mentais dos homens na Idade Média

Que estruturas mentais possuíam os homens da Idade Média? De que maneira viam o mundo ao seu redor? Quais eram seus sonhos, medos, esperanças, angústias, crenças? O que eles imaginavam? [...]

A primeira característica importante das estruturas mentais do homem medieval foi a religiosidade. [...]

O mundo para os homens do Ocidente medieval tinha um caráter ameaçador e inseguro: uma natureza da qual dependiam, em regra hostil, mas que não era explicada cientificamente; doenças que não sabiam combater; a presença quase constante da fome e da carestia; o medo do desconhecido. Por isso, o mundo sobrenatural adquiriu uma força significativa nesta sociedade, onde o universo era visto como funcionando a partir da ação das forças do bem e do mal. Ou seja, Deus e o diabo estavam em todas as partes, em todas as manifestações concretas da vida: as boas dádivas - colheitas fartas, clima favorável às plantações, fertilidade da terra, vitórias em guerras - eram signos da presença divina atuando. Mas, quando o diabo se fazia presente, o mal se abatia sobre os homens: más colheitas, tempestades, secas, derrotas etc.

Não era possível para este homem compreender o mundo de outra forma. Esta dualidade estava manifesta em todos os momentos. Para que o homem estivesse sempre sob as influências divinas, ele deveria desenvolver sua espiritualidade através de obras positivas aos olhos de Deus como forma de combate às forças do mal e às influências diabólicas.

As armas para enfrentar esta batalha constante no cotidiano difícil da vida na Idade Média feudal foram dadas pela Igreja: orações, exorcismos, sacramentos, amuletos protetores.

[...]

Uma das figuras mais importantes do universo mental do Ocidente medieval foi o diabo, que neste momento ganhou uma força significativa. Concebido na tradição cristã como anjo decaído, portanto teoricamente submetido ao poder de Deus, a quase onipotência de satã acabou por preponderar nos discursos dos teólogos na Baixa Idade Média. Foi a partir do ano 1000 que ele passou a ser representado no imaginário cristão. Representação animalesca, hostil, monstruosa, correspondente aos medos de fim de milênio, que assolaram o Ocidente medieval.


Santa Juliana e um demônio. Ca. 1170-1200, Artista desconhecido. 

A partir do século XI, foi representado como um homem animalizado, com presas, chifres, orelhas pontudas, asas de morcego, e, a partir do século XIII, com cauda, corpo peludo, garras. Foi atribuída a ele uma intensa atividade sexual, com a possibilidade de fecundar mulheres, e uma inteligência ímpar, podendo influenciar e agir sobre o espírito humano e sobre a matéria. Os homens imaginavam-no assumindo diferentes formas: assaltava homens adormecidos, sob o aspecto de mulheres bonitas, ou então como homens, como santo ou como o próprio Cristo, quando tentava as religiosas.

O diabo também era imaginado como provocador de ódios, pesadelos, selando pactos com os homens, provocando tentações da carne, do dinheiro, do poder, e era inspirador de práticas mágicas, duramente condenadas pela Igreja.

A partir do século XIII, se consagrava a majestade de satã. Sua existência e sua nefasta influência era tão certa que Santo Tomás de Aquino afirmou que "a fé verdadeiramente católica determina que os demônios existem e que podem causar dano mediante suas operações". Sua imagem era quase imperial, e associada ao mau poder: sentado de frente, com cetro, coroa, trono, soberano na sua corte de demônios.

Ao longo de todo este período, dominou a concepção de que o diabo era o príncipe dos pecadores: o pecado original de Adão e Eva levou o homem a se submeter ao poder do demônio. Mas Cristo anulou com seu sacrifício o direito que o diabo tinha sobre a humanidade, levando o homem novamente para perto de Deus. Estava formado então o embate entre estas duas forças, e os inimigos da Igreja eram vistos como seguidores do diabo: os pagãos, os muçulmanos, os judeus, os hereges, os feiticeiros, os pecadores.

Entre os espaços possíveis do mundo do Além, para onde iam as almas dos homens após a morte - o paraíso e o inferno -, surgiu, na segunda metade do século XII, um terceiro espaço, o do purgatório. Dependendo do tipo de pecado e das condições da morte do indivíduo, à sua alma era vetada a entrada imediata para o inferno, indo assim para esta "sala de espera", o purgatório, na tentativa de se purificar e poder alcançar o paraíso.

Local menos terrível que a morada do diabo, as almas poderiam diminuir seus dias de purgação em função de orações, missas, penitências, peregrinações e oferendas depositadas em sua intenção. A inauguração deste novo espaço do tempo da Igreja fazia crescer imensamente o seu poder, cuja ajuda era fundamental no encaminhamento satisfatório de cada alma para o paraíso. [...]

A noção de contratualidade também marcou a mentalidade medieval. Essência das relações sociais no feudalismo, o contrato pessoal [...] se transpôs para as relações dos homens com Deus, criando entre eles vínculos hierárquicos recíprocos. Deus conferiu vida aos homens, que tinham por dever combater seu maior inimigo e traidor, o diabo, bem como os seus seguidores, como prova de fidelidade. O homem era vassalo de Deus, portanto devia se conduzir como tal, servindo-o de várias maneiras: peregrinando a lugares sagrados, cultuando relíquias, adorando santos, combatendo pecadores e hereges, e combatendo, por meio das Cruzadas, os usurpadores da cidade sagrada de Jerusalém.

[...]

Os homens da Idade Média estiveram muito mais propensos a escutar do que propriamente a ver. Acreditavam nos relatos fantásticos daquele mundo que abrigava seres escandalosos e monstruosos, humanos ou animais, e que assim povoaram a sua imaginação, a exemplo dos mitos do paraíso terrestre, do reino de Gog e Magos, ou mesmo do Preste João. [...]

CALAINHO, Daniela Buono. História medieval do Ocidente. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 111-8.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Cultura erudita na Baixa Idade Média

[...]


A Igreja monopolizava o mundo intelectual. Ela foi a representante da chamada cultura erudita, da cultura letrada. Os clérigos monopolizaram a cultura escrita, pelo menos até o século XII, com o latim, que se tornou a "língua oficial" da Igreja. Na Alta Idade Média, a cultura clerical teve grande impulso com a renovação cultural promovida por Carlos Magno, conhecida por Renascimento Carolíngio. Ampliou-se o sistema de ensino com a criação das escolas eclesiásticas, voltadas para a formação de futuros clérigos, e das escolas paroquiais. Gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música - as chamadas "sete artes liberais" - foram as disciplinas a partir das quais se organizou o ensino.

Também neste período os mosteiros tiveram um papel importante na preservação da cultura clássica. Através das mãos dos hábeis copistas, muitos autores da Antiguidade foram transcritos para as bibliotecas dos mosteiros, algumas até abrigando cerca de mil livros. A influência dos monges nas artes e na cultura medieval foi significativa [...].

A partir do século XII, em meio às novas transformações do mundo medieval [...] começaram a surgir escolas dentro das cidades. Foram as escolas urbanas, dentro das catedrais, originárias das escolas episcopais. Inaugurava-se um novo tipo de ensino, reunindo-se grupos de discípulos ao redor de um mestre, comentando e analisando textos e livros de algum ramo do saber. Aos poucos, estas escolas foram se tornando corporações de mestres e alunos, originando as universidades.


Detalhe de uma miniatura de um mestre e alunos. 
Gautier de Metz, 1464

Algumas surgiram espontaneamente, como foi o caso de Bolonha, na Itália, em 1158, congregando várias escolas existentes, e a de Paris, em 1200; outras nasceram de dissidências internas, como a de Cambridge (Inglaterra), surgida a partir de Oxford, em 1209, e por fim, aquelas que foram criadas por bulas imperiais ou papais, como foi o caso de Coimbra (Portugal), em 1290. Inicialmente, o aluno estudava por seis anos as artes liberais e depois escolhia uma das grandes áreas do saber: Direito, Medicina ou Teologia.

Num mundo onde a imensa maioria da população era iletrada, a arte, sob a forma de pintura, escultura, arquitetura, mosaicos e vitrais, foi uma forma ímpar de veiculação de ideias, valores e dogmas religiosos. A arte medieval era pedagógica, com a finalidade de incutir valores, e não pura e simplesmente pelo seu valor estético.

A arte românica, característica dos séculos XI e XII, surgida no sul da França e na Itália, era típica das ordens monásticas de início da Baixa Idade Média, particularmente da ordem de Cluny. Os edifícios eram de pedra, com poucas janelas, paredes grossas, arcos nas portas e teto em forma de abóboda. O estilo gótico, que sucedeu o românico, predominou dos séculos XII ao XV. Utilizado pela primeira vez pelo italiano Vasari, no século XVI, para designar esta nova estética, o termo "gótico" tinha uma conotação negativa, significando "bárbaro", "grosseiro", tal qual a concepção pejorativa da Idade Média característica do Renascimento europeu.

O gótico correspondeu às grandes mudanças que marcaram o Ocidente Europeu a partir do século XI: o crescimento populacional, o desenvolvimento do comércio, da circulação monetária e das cidades. Essa arte foi tipicamente urbana e sua expressão mais significativa se deu através da construção das catedrais.

A cidade era um mundo em efervescência, aglomerando novas profissões e dinheiro. Era lugar de abundância, de comércio. Embora tivesse gerado pobreza, miséria, a cidade se erguia imponente como o lugar do burguês, do mercador. No século XII, o cristão do mundo urbano se lembrou que os ricos tinham poucas chances de entrar no Reino dos Céus e salvarem sua alma, Por isso, era preciso dar pelo menos uma parte do que possuíam, e assim foram financiando as catedrais, com o dinheiro da burguesia nascente.

Uma das características mais marcantes da catedral gótica foi a luminosidade. A luz que a invadia tinha um sentido pedagógico e uma carga simbólica: demonstrar a presença de Deus. Afinal, Deus era a luz, e, em tudo que espelhasse luz, Ele lá estaria. A catedral gótica deveria refletir a irradiação divina, com a utilização de materiais brilhosos no seu interior. A decoração interna era rica, com imagens de santos, pinturas, esculturas, além dos objetos do rito litúrgico.

Os vitrais - vidraças coloridas ou pintadas - foram excelentes veículos para ensinar aos homens a glória do poder divino. Ali se materializavam a história de Jesus Cristo e seus apóstolos, da Virgem Maria, passagens bíblicas etc. [...]

[...]

A partir do século XII, o Ocidente medieval já desfrutava de várias traduções do grego e do árabe para o latim, tendo contato com obras clássicas, como a de Aristóteles e outros autores ligados às áreas da medicina, filosofia, matemática, química e astronomia. No século XIII, a geografia e a cartografia se desenvolveram em função das viagens empreendidas ao Oriente por homens como Pierre D'Ailly e Marco Polo.

No plano da filosofia o grande destaque foram Alberto Magno (1200-1280) e Tomás de Aquino (1224-1274), representantes da corrente filosófica denominada de Escolástica, que buscou uma harmonia entre a fé e a razão, com base no pensamento de Aristóteles.

CALAINHO, Daniela Buono. História medieval do Ocidente. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 105-9 e 111.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A criação do Santo Ofício

A Inquisição foi uma instituição da igreja medieval destinada à repressão da heresia. Originou-se no fim do século XII, quando Alexandre III decretou sanções contra os hereges, e institucionalizou-se no Tratado de Paris (1229), assinado sob o pontificado de Gregório XI, o qual na bula Ille Humani Generis (8 de fevereiro de 1232), confiou a luta contra a heresia à Ordem dos Dominicanos.

No início, esse tribunal de exceção combateu sobretudo os cátaros do Languedoc (século XIII), mas se transformou logo num instrumento de perseguição a todos os inimigos - reais ou supostos - da Igreja Católica. Desse modo, a Inquisição lutou, no decorrer dos séculos XIV e XV, contra os templários, os espirituais (seita que esperava uma segunda vinda do Espírito Santo), os judeus, os wicletistas e hussitas (que pregavam uma reforma da Igreja na Inglaterra e na Boêmia, respectivamente). A partir do século XVI, as atividades da Inquisição concentraram-se na Espanha e na Itália, em lutar contra as ideias da Reforma e da Renascença. Em 1545, o papa Paulo III instituiu a Congregação da Inquisição ou Santo Ofício, com sede na Espanha.

A Inquisição espanhola teve seu início oficial com uma bula de Sisto IV, datada de 1º de novembro de 1478, plenamente aprovada pelos Reis Católicos. O primeiro tribunal da Inquisição espanhola foi instaurado em Sevilha, com a finalidade de fiscalizar especialmente os "conversos" - judeus convertidos à força ao catolicismo.

Em outubro de 1483, frei Tomás de Torquemada foi nomeado Grande Inquisidor de Castela, Aragão, Leão, Catalunha e Valência. Suas Instruções  (normas para conduzir processos da Inquisição) eram tidas como lei do reino no final do século XV. O Grande Inquisidor era sempre aprovado pela Santa Sé, os outros juízes eram nomeados pelo rei.

A Inquisição espanhola perseguia, além de hereges, bruxas, assassinos, sodomitas, polígamos e diversos outros "criminosos". Não há dúvida de que a Inquisição encontrou na Espanha sua terra de predileção. Passou para Portugal, por decisão de Dom João III e do papa, em 1536, para ali combater os judeus que tinham fugido da Espanha. Além do judaísmo, o tribunal português considerava crimes o luteranismo, o maometismo, a feitiçaria, a bigamia, a pederastia etc. No século XVI, a Inquisição estendeu-se às colônias espanholas da América, atingindo também o Brasil.

Um auto-de-fé no povoado de San Bartolomé Otzolotepec, Artista desconhecido

O processo inquisitorial tinha regras cujo essencial se desenrolava da seguinte maneira: três ou quatro sacerdotes inquisidores chegavam a um lugar suspeito de ter núcleos de heresias. Reunindo o povo na Igreja, faziam uma pregação solene e apocalíptica, exortando os culpados à confissão espontânea. Um "mês de tolerância" ou "tempo de graça" era geralmente concedido para que os "criminosos" confessassem sua culpa, Depois desse prazo, vinham as denúncias, abertas ou anônimas, e os acusados eram conduzidos pelo cura local e pelas testemunhas ao inquisidor. Todo cristão, sob pena de excomunhão, devia denunciar os suspeitos de heresia que conhecesse ou que tivesse ouvido falar.

Começavam então os interrogatórios, sem advogados, sem revelação do nome de quem denunciava e sem uma relação dos crimes apontados. A Inquisição dava, no entanto, valor especial à confissão dos culpados. Nos casos de confissão espontânea, o réu sofria apenas uma pequena penitência. Caso contrário, era submetido a tortura, autorizada oficialmente por documentos pontifícios. Os juízes podiam escolher entre a flagelação, o garrote (estrangulamento operado lentamente, sem suspensão do corpo), a polé ou roldana e os tições acesos. Na maior parte dos casos, os reús, extenuados, confessavam-se culpados de todas as possíveis formas de heresia.

Em cerimônias chamadas autos-de-fé, verdadeiros dias de festa, as sentenças eram pronunciadas publicamente, na presença de autoridades seculares e religiosas, numa praça onde se reunia o povo. A Igreja aplicava diretamente as penas de prisão perpétua, de confiscação de bens, remetendo ao "braço secular" os casos de pena de morte, quase sempre na fogueira. Havia ainda marcas de infâmia (cruzes amarelas sobre as vestes do condenado), peregrinações obrigatórias, destruição de propriedades e de casas e até mesmo exumação dos mortos, cujos crimes de heresias só foram conhecidos após a morte.  

As Grandes Religiões. São Paulo: Abril Cultural, 1973. v. 3, p. 442-443.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Marco Polo (1254-1324)

Caravana da viagem de Marco Polo às Índias, 1375. Abraham Cresques

Nascido em uma família de comerciantes de Veneza, Marco Polo uniu-se ao seu pai e ao seu tio em uma viagem à China em 1271. Pelos seus relatos, o imperador Kublai Khan o apontou como um enviado e, em seguida, como governador de Yahngzhou, antes de o italiano voltar para casa em 1292. Soldado de Veneza em uma guerra contra os genoveses, Marco Polo foi capturado e preso e escreveu As Viagens de Marco Polo enquanto estava na prisão. O livro foi lido por muitas pessoas e invadiu a consciência provinciana de muitos estudiosos europeus. Muitos contemporâneos de Marco Polo achavam que ao livro continha mentiras e muitos estudiosos que surgiram mais tarde também duvidam da veracidade dos relatos. Eles acham que ele inventou seu currículo chinês, mas as descrições do Oriente contidas em seu livro ainda são um marco intercultural.

Os Polo retornando ao Kublai Khan com presentes do Papa Gregório X, 1375. Artista desconhecido

O conhecimento de Marco Polo sobre o Oriente e suas riquezas conquistou seguidores, pois ele escrevia sobre suas experiências. Cada vez mais pessoas ficavam fascinadas com seus relatos e seu livro [...] passou a ser uma leitura obrigatória no século XIV. Ele alimentou a fome pela seda, pela cerâmica e por outras mercadorias exóticas e guiou a expedição para encontrar uma rota marítima a fim de transportá-las. Como diz o historiador Daniel J. Boorstin em seu livro Os Descobridores, "Sem Marco Polo... teria havido Cristóvão Colombo?" 

HAUGEN, Peter. História do Mundo para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011. p. 328-9 e 367.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O cristianismo e o poder da Igreja na Idade Média

Durante o período das grandes invasões, terminada a missão da Roma imperial, começou a missão da Roma cristã, cidade onde, segundo as tradições religiosas, o apóstolo São Paulo teria lançado os fundamentos da Igreja.

A formação de vários reinos germânicos provocou em toda a Europa desordem administrativa, caos econômico e político, bem como o enfraquecimento de antigos valores culturais.

Nesse quadro agitado e confuso, apenas a Igreja cristã conseguiu assegurar certa ordem e disciplina, proteger e socorrer populações indefesas, assumindo papel político de destaque, preservando da destruição o legado cultural greco-romano. A partir desse momento, a Igreja, com sede principal em Roma, denominou-se católica, isto é, universal.

* Organização da Igreja. A partir do século II, de acordo com a expansão cada vez mais intensa da fé cristã e o contínuo aumento de congregações de fiéis, tornou-se necessário dar à Igreja uma organização uniforme, capaz de estruturá-la de forma disciplinada e hierárquica.

A paróquia constituía a menor congregação de fiéis, a ela pertencendo os moradores de pequena zona urbana ou rural. O centro da paróquia era a igreja, nome dado à basílica onde se celebrava o culto religioso. Dirigida por um padre (pároco), aí eram ministrados os sacramentos, oficiadas missas, pelo menos aos domingos - com acompanhamento de hinos - realizadas as grandes festas cristãs, Natal, Epifania ou Reis, Páscoa, Assunção, Pentecostes.

Na igreja paroquial eram também guardadas as relíquias trazidas por fiéis de suas peregrinações a lugares santos, na Palestina, a túmulos de apóstolos ou mártires.

A diocese agrupava, sob a direção de um bispo, várias paróquias, sendo sua sede um núcleo urbano de projeção. O bispo, que gozava também de grande prestígio político, providenciava a distribuição de esmolas e alimentos aos necessitados e, em caso de perigo, assumia a direção da cidade. Em cada antiga província romana um arcebispo dirigia os bispos encarregados das dioceses e os reunia, duas vezes por ano, em Concílios, onde eram tomadas decisões visando a assegurar unidade de fé e unidade de ação.

O Papa. Todos os bispos, inicialmente, eram chamados papa, isto é, pai; a partir do século V, porém, esse título passou a ser reservado unicamente ao bispo de Roma, tido - na qualidade de chefe da maior congregação cristã - como sucessor de São Pedro. A primazia do bispo de Roma custou a ser aceita, mas em fins do século VI foi reconhecida pelos bispos do Ocidente, graças sobretudo à ação enérgica, ao senso administrativo seguro e à habilidade política do papa Gregório o Grande, disciplinando a estrutura da Igreja, definindo a forma do culto, controlando a obediência dos chefes religiosos.

Através de uma estrutura cada vez mais firme e centralizada, enriquecida por grandes doações de terras, a Igreja foi assumindo papel político preeminente e consolidando gradativamente seu poder. Para tanto contribuiu também o movimento monástico, que se desenvolvera paralelamente ao movimento organizador das instituições eclesiásticas.

* Os monges e os mosteiros. O movimento monástico começou no século IV e, partindo do Oriente, expandiu-se rumo ao Ocidente. No período das invasões, muitos cristãos, homens e mulheres, procuraram refúgio e tranquilidade em uma vida rude e simples, afastada de aglomerações urbanas, e formaram comunidades isoladas, vivendo da oração, da caridade dos fiéis e do trabalho agrícola de seus membros.

Assim surgiram os primeiros conventos e mosteiros, dirigidos por um abade, nas comunidades masculinas, ou uma abadessa, nas femininas. Em 525 São Bento fundou, na Itália, o mosteiro de Monte Cassino e criou a Ordem Beneditina (de Benedictus, seu nome em latim). A fim de garantir disciplina e ordem à vida comunitária, estabeleceu normas que serviram de modelo para posteriores reformas da vida monástica e para outras ordens religiosas aparecidas mais tarde (Cistercienses, Cluniacenses, Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas, Clarissas, Agostinianos. Segundo a regra beneditina, os monges eram obrigados ao voto de pobreza, castidade, obediência a seus superiores; e os mosteiros deviam bastar-se a si mesmos: possuir terras para cultivo e pastoreio, pomar, horta, poço e construções reunidas em torno de uma área central - claustro - a igreja ou capela, a cozinha, o refeitório, as oficinas, as celas (diminutos dormitórios individuais). Frequentemente os mosteiros davam assistência a gente de fora, mantendo um hospital e uma hospedaria para abrigo de viajantes.


Cistercienses no trabalho em um detalhe da vida de São Bernardo de Claraval, Jörg Breu, o Velho

O papel dos mosteiros, na Idade Média, foi muito importante dos pontos de vista religioso, econômico e cultural.

Do ponto de vista religioso, o movimento monástico, em sua expansão pelo Ocidente, contribuiu para cristianizar os povos germânicos. Dos mosteiros partiram monges missionários para fundar novas comunidades religiosas em terras distantes, nelas difundindo os ensinamentos cristãos: São Patrício (Irlanda), Santo Agostinho (Inglaterra), São Bonifácio (Germânia) e muitos outros. E foi nos mosteiros que se formaram as personalidades de grandes figuras do clero, destinadas a alcançar especial projeção em sua época.

Do ponto de vista econômico, os mosteiros, através do trabalho organizado e metódico de seus membros, sobretudo na lavoura, muito contribuíram para melhorar a economia enfraquecida de várias regiões da Europa e para a formação de aldeias e lugarejos.

Do ponto de vista cultural, foram os mosteiros, durante séculos, os únicos centros conservadores da cultura antiga. Monges copistas transcreveram sobre pergaminho textos clássicos gregos e romanos, "iluminando-os", isto é, ornando-os com iluminuras. Possuindo bibliotecas próprias, os mosteiros eram também centros de ensino: neles eram educados rapazes, exercitando-se na leitura e na escrita ou preparando-se para a carreira eclesiástica; neles muitos aprendiam diversos ofícios, neles eram aperfeiçoadas técnicas agrícolas. Por longo tempo, até o florescimento da vida urbana e a fundação das primeiras universidades, os mosteiros foram a única instituição transmissora de cultura e de informações valiosas que chegaram até nós sob a forma de relatos históricos, as Crônicas e os Anais.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 126-9.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Documento: Combate à vagabundagem na Idade Média

Os mendigos (Os aleijados), Pieter Bruegel, o Velho

"O ano dessa ordenação do rei da França, 1351, está muito próximo do ano em que se iniciou a Peste Negra, a qual teria dizimado cerca de um terço da população europeia. O século XIV foi marcado por uma profunda crise, com a desvalorização da moeda e grandes falências de mercadores e banqueiros. O início da crise é anterior à Peste Negra, mas ela veio agravar a situação já calamitosa. Os motins, as revoltas, o banditismo e a mendicância atormentavam as elites e preocupavam as autoridades.

As medidas do rei João estão ligadas a essa situação de crise. É comum os grupos dominantes tentarem conter os efeitos das crises reprimindo as principais vítimas delas". (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 66.)

João, pela graça de Deus, Rei da França...


1. Porque várias pessoas, tanto homens quanto mulheres, mantêm-se em ociosidade pela cidade de Paris e por outras cidades [...] e não querem expor os seus corpos a fazer qualquer trabalho, antes vagabundeiam uns, e outros permanecem nas tabernas e bordéis; é ordenado que toda feitura de tal gente ociosa ou jogadores de dados ou cantores de rua ou vagabundos ou mendicantes, de qualquer estado ou condição que sejam, tendo ou não ofício, homens ou mulheres que sejam sãos de corpos e membros, se prontifiquem a fazer alguma tarefa de labor, com que possam a vida ganhar, ou evacuem a cidade de Paris e outras cidades [...] dentro de três dias a contar deste pregão. E, se após os ditos três dias aí forem encontrados ociosos, ou jogando dados, ou mendigando, serão presos e levados à prisão a pão, e assim mantidos pelo espaço de quatro dias; e quando tiverem sido libertados da dita prisão, caso sejam encontrados ociosos ou sem bens com que possam manter a vida, ou sem aval de pessoa idônea, sem fraude, para quem façam trabalhos ou prestem serviços, serão postos no pelourinho; e a terça vez serão assinalados na testa com ferro em brasa, e banidos dos ditos lugares.

2. Item, far-se-á empenho junto ao bispo, ou provisor de Paris, e junto aos religiosos jacobinos, franciscanos, agostinianos, carmelitas e outros, para que digam aos frades de suas ordens que, quando pregarem nas paróquias e noutras partes, e também os curas nas suas próprias pessoas, digam seus sermões que quem quiser dar esmolas não o façam a nenhuma pessoa sã de corpo e de membros, nem a pessoa que trabalho possa fazer, com que possa ganhar a vida; mas as dêem a gente cega, aleijadas e outras miseráveis pessoas.

3. Item, que se diga a quem guarda e governa os hospitais ou casas de misericórdia que não se dêem albergue a tais vagabundos, ou tais pessoas ociosas, se não forem aleijados ou doentes passantes pobres, sequer por uma noite.

4. Item, os prelados, barões, cavaleiros, burgueses e outros digam aos seus esmoleres que nenhuma esmola dêem a tais vagabundos, sãos de corpo e de membros.

Ordenação de João, o Bom, promulgada em fevereiro de 1351. Ordenances dos reis de France. Citado por DUBY, Georges. A Europa na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 115-8.

sábado, 10 de outubro de 2015

Aspectos da vida feudal

Ilustração do manuscrito das Cantigas de Santa Maria, escritos em galego-português durante o reinado de Alfonso X, o sábio (1221-1284). Artista desconhecido.

Texto 1. Em suas propriedades os nobres dedicavam grande parte de seu tempo a divertimentos ao ar livre; organizavam torneios, combates violentos entre numerosos cavaleiros armados, destinados a mantê-los em forma para as frequentes expedições guerreiras; justas, concursos de habilidade e destreza entre poucos concorrentes e caçadas, uma das suas distrações preferidas. Modalidade de caça muito em voga na Idade Média foi a caça auxiliada por cães ou por falcões adestrados para a captura de aves. Nos jardins ou no interior do castelo realizavam-se leituras, danças, banquetes, jogos, espetáculos proporcionados por artistas ambulantes, saltimbancos e menestréis, que divertiam a corte com proezas e agilidades, músicas e cantos celebrando façanhas heróicas ou aventuras cavalheirescas em busca de amor e de glórias. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. [Org.]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 135-6.

Texto 2. Os grandes senhores feudais eram [...] os homens mais ricos e poderosos de sua região e, com isso, cresceu o desejo de manifestar essa posição mediante o esplendor de suas cortes. [...] Na concorrência entre os governantes de territórios, elas se tornaram os locais para exibir o poder e a riqueza de seus senhores. Estes, por isso mesmo, reuniam escribas não só para finalidades administrativas mas também para redigir a crônica de suas façanhas e destino. [...] No contexto da sociedade secular, no caso daqueles que se haviam especializado na escrita [...] e tinham de viver disso, fossem ou não amanuenses, o patrocínio da corte constituía o único meio de sustento.

Artistas viajavam de um castelo para outro. Se alguns eram cantores, a maioria trabalhava simplesmente como palhaços ou bufões [...]. Nessa qualidade, eram encontrados também nos castelos dos cavaleiros mais simples e menos importantes. Mas só os visitavam de passagem, pois não havia alojamento, nem interesse, e, não raro, tampouco meios de alimentá-los e remunerá-los por um longo período. Tais condições só as poucas cortes maiores podiam fornecer. [...] Os senhores mais importantes, mais ricos - o que vale dizer, os de graduação mais alta -, podiam atrair os melhores artistas para suas cortes. ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formação do Estado e civilização. v. 2. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 72-73.

Texto 3.  [...] uns rezavam, outros combatiam e a maioria trabalhava.

Era uma sociedade bem agradável para a minoria [...], onde cavaleiros e damas viviam em castelos, distraindo-se em festas e refeições, em que os criados serviam comidas saborosas e constantemente enchiam os grandes copos de vinho de seus poderosos senhores. Por vezes, músicos e artistas tornavam o ambiente mais alegre e agradável.

Estes senhores possuíam extensas propriedades, frequentemente reunindo-se em torneios. Então, em meio à fanfarra dos tambores e aos toques dos clarins, os turbulentos cavaleiros enfrentavam-se em combates singulares, exibindo suas qualidades guerreiras para uma platéia, onde todos trajavam ricas vestimentas. Ainda que alguns caíssem feridos, com frequência mortalmente, era visível a alegria geral.

Por vezes, muitos saíam em loucas cavalgadas, acompanhados por suas matilhas de cães e dezenas de servidores, para caçar raposas e outros animais. Em meio à algazarra geral, não hesitavam em atropelar, com seus cavalos, quem cruzasse seu caminho, ou, por simples distração, conduzir seus corcéis pelos campos cultivados...

E o duro e estafante trabalho diário dos camponeses, que sustentavam a ociosidade divertida e alegre da minoria, acabava sendo parcialmente perdido.

E os campos cultivados, por aqueles que trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol, viviam em pobres cabanas e se vestiam de roupas grosseiras, ainda estavam sujeitos a ser pilhados e incendiados quando ocorriam guerras entre os senhores feudais. AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]; Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 150.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A herança medieval no Brasil

Bumba meu boi, Portinari

Mesmo no Brasil, que vivia na Pré-história enquanto a Europa estava na chamada Idade Média, muitos elementos medievais continuam presentes. A colonização portuguesa introduziu práticas que, apesar de já então superadas na metrópole, foram aqui aplicadas com vigor, inaugurando o clima de arcaísmo que marca muitos séculos e muitos aspectos da história brasileira. Luis Weckmann detectou com pertinência a existência de uma herança medieval no Brasil, porém limitou sua presença apenas até o século XVII. E, na realidade, ela continua viva ainda hoje nos nossos traços essenciais.

Os dois elementos culturais que enquadram a consciência de nacionalidade são de origem medieval. O nome de nosso país vem da "ilha afortunada" O'Brazil, identificada nos séculos XIV-XV com as Canárias, antes de sê-lo com a América. A tradicional associação da terra descoberta por Cabral com a madeira tintorial aí encontrada (o pau-brasil) desconsidera que a própria madeira tirara seu nome da mítica ilha medieval. O idioma, obviamente, é aquele introduzido e imposto pelos colonizadores, idioma que, como todos os do mundo ocidental, nascera na Idade Média.

Na vida política, a duplicidade de um poder central teoricamente forte e a realidade dos poderes locais atuantes permanece. O ponto de partida, que deixou fundas raízes, foi o sistema de capitanias. Isto é, o sistema usado pelas comunas italianas medievais nas suas colônias do Oriente Médio e das ilhas mediterrâneas, mais especificamente por Gênova, que nos séculos XIV-XV mantinha estreitas relações com Portugal. As primeiras capitanias portuguesas, nas Ilhas Canárias, foram entregues em 1370 a um "capitão" genovês. O funcionamento do sistema foi o mesmo na Idade Média e nos séculos XVI-XVII: cada donatário tinha o usufruto das terras e nelas poderes regalianos como arrecadar impostos, aplicar justiça, convocar milícias. Intermediária privilegiada entre o poder monárquico e os colonos, a figura do donatário gerou no Brasil o personalismo típico das relações medievais, responsável pela fraqueza das instituições políticas brasileiras dos séculos seguintes.

Na vida social, por muito tempo, e ainda hoje em certas regiões, prevaleceu a família patriarcal, que dificulta a transformação do indivíduo em cidadão, dos interesses particulares em interesses gerais e, por consequência, a consolidação do Estado. O patriarca - termo correspondente linguística e funcionalmente ao senior ("o mais velho") feudal - constituía-se em suas amplas terras uma espécie de micro-Estado que produzia quase todo o necessário para a vida de sua população. O patriarca detinha ali poder de vida e morte sobre seus familiares. Dependentes das riquezas e da proteção fornecidas pelo patriarca, os demais habitantes daquela terra também estavam submetidos ao seu poder. Essa organização colonial e imperial transferiu-se para a República, por longo tempo dominada por aqueles aristocracias regionais. Mesmo a democratização recente do país não eliminou ainda o clientelismo e seu pressuposto, a prática do "dando é que se recebe".

No plano jurídico. as normas formalmente derivadas do Direito Romano não escondem a força de um direito consuetudinário informal, paralelo, de um conjunto de ilegalidades socialmente aceitas. Estas quase sempre são praticadas em detrimento do Estado, cotidianamente assaltado nas suas prerrogativas, muitas vezes por dentro, por parte de altos funcionários e dos próprios governantes. Como na época feudal, o Estado brasileiro não é uma "coisa pública" (res publica), é propriedade dos mais fortes e espertos. Ao longo de nossa história pouco se distinguiram as noções de público e privado, da mesma forma que ocorria na sociedade feudal, na qual tudo é privado e ao mesmo tempo tudo se torna público.

No plano econômico, a situação brasileira, fundamentalmente agrária até meados do século XX, denuncia o passado medieval transplantado pelos portugueses e prolongado pelo sistema colonial mercantilista e pelo neocolonialismo industrial. Da mesma forma que o sistema de valores medieval exaltava a aventura do cavaleiro andante, o destemor religioso do cruzado, o espírito de risco do mercador que partia para locais distantes, por muito se desprezou no Brasil o trabalho cotidiano e rotineiro. A ocupação do solo e a exploração das riquezas naturais deram-se, no Brasil "moderno" e "contemporâneo", de forma predatória semelhante à praticada na Europa "medieval". Associada ao caráter agrário da sociedade, a urbanização europeia fora fraca até o século XI, a brasileira até fins do século XIX.

No plano cultural, apesar da globalização neste início de milênio, alguns elementos medievais ainda são visíveis. Artur e Carlos Magno estão presentes com frequência na literatura nordestina de cordel, cujo espírito, temática, transmissão e recepção essencialmente orais prolongam a poesia europeia da Idade Média no Brasil do século XX. Mesmo certas criações eruditas do Nordeste, como os textos de Ariano Suassuna e as músicas de Elomar,, bebem fundamentalmente de fontes medievais. O calendário brasileiro atual tem 14 feriados oficiais, dos quais 11 são de origem medieval. Festas como o Carnaval, no Rio de Janeiro e no Nordeste, o Bumba meu boi, em São Luís do Maranhão, a Procissão de Círio, em Belém do Pará. têm inegáveis raízes medievais.

A religiosidade nacional, sincrética, exacerbada, informal, traz em si diversos traços medievais: as irmandades. o culto a santos não canonizados (caso de Padinho, o padre Cícero), a visão mágica de sacramentos (roubar hóstias consagradas para fazer amuletos foi comum na Europa medieval e no Brasil colonial), o sentimento messiânico-milenarista (como mostram o sebastianismo, Canudos, certos eventos políticos recentes), várias superstições (espelho quebrado, saliva cura e mata, pé direito etc.). O processo de formação do catolicismo brasileiro também lembra o fenômeno na Idade Média. Nesta ocorreu uma cristianização do paganismo e uma paganização do cristianismo, no Brasil uma cristianização do culto africano e uma africanização do cristianismo. A sensibilidade coletiva brasileira é de forte instabilidade emocional, oscilando do pessimismo mais negro ao otimismo mais eufórico, semelhante ao constatado por Marc Bloch na Europa feudal.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 168-170.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Estética no fim do medievo: O luxo e a moda

Blanca Maria Sforza, Giovanni Ambrogio de Predis, cerca de 1493. [Dama medieval com vestuário luxuoso e cabelo trançado.]

Mais ainda do que os pontos de honra, a cupidez provocava muitas brutalidades. Nesta época em que se desmoronavam os rendimentos senhoriais e em que o luxo penetrava cada vez mais as classes abastadas, a vaidade impunha faustosas generosidades testamentários e a liberalidade continuava uma virtude essencial do gentil-homem. Era preciso, portanto, "manter seu estado" a qualquer preço. A inveja e a avareza, tal como a prodigalidade eram "rainhas e senhoras". Todos os serviços eram pagos, a começar pelo militar. "Os homens de armas - escrevia Froissart - não vivem de perdões." Como, por outro lado, esperam de guerra saques e resgates, os cavaleiros convertem-se facilmente em estradiotos. Assim, embora Eustáquio d'Auberchicourt, cujas façanhas Froissart admira, se apodere de uma praça por recreio, para conquistar o amor de sua senhora, já Croquart, enriquecido pela guerra, sobe de pajem a senhor.

Nesta classe nobiliária, onde há muitos recém-chegados, a juventude rica aturde-se no luxo, ridicularizado, contudo, pela sátira burguesa do Contrefait de Renart:

A gente alegre movimenta-se.
Um joga dados, outro se diverte.
Um justa, outro guerreia.
Todos são grandes e gordos.
Não sabem donde lhes vêm os bens.

As extravagâncias da moda, o novo gosto pelos tecidos caros, pelas sedas e vestes forradas não são apanágios de uma classe privilegiada. Logo depois da Grande Peste, afirma o florentino Villani, as "mulheres mais humildes ostentam os vestidos das damas da aristocracia que morreram". Na Inglaterra certas leis suntuárias tentam, em vão, graduar o luxo do vestuário segundo a posição e a fortuna de cada um. A moda masculina inaugurara, logo no início do século XIV, os trajes bipartidos, em que as véstias, os calções e o chapéu eram de cores diferentes do lado direito e do lado esquerdo. Por volta de 1340 acrescentou-se a isso o uso de véstias curtas e justas: só as pessoas sérias, clérigos, magistrados, professores e médicos continuavam fiéis aos trajes compridos. Na segunda metade do século, a camisa de lã fina dá lugar à de pano; as peles raras utilizam-se na confecção de chapéus e no enfeite de certos trajes feitos de tecido mais leve e tintos em cores vivas e variadas, capazes de exprimir os matizes convencionais dos sentimentos. A silhueta das pessoas torna-se estranha: as mulheres puxam os cabelos para trás, a fim de libertar completamente a testa, mas usam na cabeça um hennin alto e pontiagudo, ou um chapéu parecido com o dos astrólogos, ornado com um véu comprido e esvoaçante; o senhor de La Tour-Landry critica os decotes audaciosos, as caudas longas, que é necessário segurar no braço e as cinturas apertadas até o sufocamento. Mais singular ainda é o aparato masculino: ombros falsos almofadados, cintura apertadíssima, véstia justa ao corpo e plissada. Tudo isso dá ao busto uma forma trapezoidal içada numas pernas fragéis, com calções colantes. Calçam sapatos de bico arrebitado - esporões de animais monstruosos, segundo Eustáquio Deschamps. Este traje completa-se com uns chapelões altos ou redondos, de tecido ou pele. A barba, que voltara à moda, com duas pontas "afigadas", desaparece no fim do século; os cabelos compridos e ondulados, no início, são mais tarde cortados em calote circular. João de Condé troça dessa forma de vestir numa composição oportunamente intitulada Do macaco:

Os jovens que agora chegam / apresentam-se fantasiados. / Fazem-se com tecidos diversas medidas, / cortes e aplicações; / e outrora os que vestiam estes tecidos / passavam todos por arautos; / agora, vestem-se grandes e pequenos... / Presentemente entraram na moda / mangas curtas, com um bico à frente, / muito estreitas entre os braços. / E cortam-se os bons tecidos / em faixas e em quartos... / Outros cingem-se tão baixo / que o cinto fica sobre os rins.

Petrarca já vilipendiara estas modas "desonrosas", e Urbano V e Carlos V proscreveram, naturalmente em vão, os sapatos de bico arrebitado. No século XV as coisas ainda se complicaram mais, acumulando-se as joias, os tecidos caros, sobretudo sedas e lamés dourados e prateados. O luxo do guarda-roupa que acentuava ainda mais o contraste entre a fortuna e a miséria das massas, correspondia, entretanto, a uma aspiração comum aos homens desse tempo por uma vida melhor, em busca de uma certa forma de beleza de que a literatura e a arte representam, melhor do que as excentricidades da moda, os movimentos mais autênticos.

PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica (séculos XI-XIII). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. p. 303-305. (História geral das civilizações, 7).