"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A história apenas começa

Cartaz do filme alemão Metropolis, dir. Fritz Lang, 1927. Pôster criado pelo pintor alemão Heinz Schulz-Neudamm

Ao contrário do que tanto se disse, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. As histórias podiam ser, no máximo, continentais, em função dos impérios que se estabeleceram a uma escala mais ampla. O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes. Chegava-se a dizer de tal ou tal povo que ele era sem história.

[A humanidade como um bloco revolucionário] O ecúmeno era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta. Somente agora a humanidade pode identificar-se como um todo e reconhecer sua unidade, quando faz sua entrada na cena histórica como um bloco. É uma entrada revolucionária, graças à interdependência das economias, dos governos, dos lugares. O movimento do mundo revela uma só pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história.

Vivemos em um mundo complexo, marcado na ordem material pela multiplicação incessante do número de objetos e na ordem imaterial pela infinidade de relações que aos objetos nos unem. Nos últimos cinquenta anos criaram-se mais coisas do que nos cinquenta mil anos precedentes. [...]

[...]

Nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem pouco a pouco descobre suas novas forças. Já que o meio ambiente é cada vez menos natural, o uso do entorno imediato pode ser menos aleatório. As coisas valem pela sua constituição, isto é, pelo que podem oferecer. Os gestos valem pela adequação às coisas a que se dirigem. Ampliam-se e diversificam-se as escolhas, desde que se possam combinar adequadamente técnica e política. [...]

Um dado importante de nossa época é a coincidência entre a produção dessa história universal e a relativa liberação do homem em relação à natureza. A denominação da era da inteligência poderia ter fundamento neste fato concreto: os materiais hoje responsáveis pelas realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados e não mais matérias-primas naturais. [...] Na era da ecologia triunfante, é o homem quem fabrica a natureza, ou lhe atribui valor e sentido [...]. Todos os lugares fazem parte da história. As pretensões e a cobiça povoam e valorizam territórios desertos.

[A nova consciência de ser mundo] Graças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, não importa onde esteja. O outro, isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se, para todos, a certeza e, logo depois, a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual. O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo tempo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim, o cotidiano de cada um se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro. [...]

Funda-se, de fato, um novo mundo. Para sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se cria é o mundo como realidade histórica unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado. [...]

Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. [...]

[A grande mutação contemporânea] Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. [...] A globalização atual não é irreversível.

Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.

[...]

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2010. p. 170-174.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A terra, uma dimensão sagrada para o homem primitivo

Três gerações, Howard Terpning

Para o homem primitivo, a terra onde plantava não existia separada das suas relações sociais. Não era desligada da sua vivência religiosa, da sua relação de parentesco, enfim, de todos os aspectos que faziam parte de sua existência. A terra tinha para ele uma dimensão sagrada. Ele criou ritos mágicos para auxiliá-lo a vencer a Natureza e o medo do desconhecido.

[...] os ritos são práticas seguidas pelos homens, em qualquer religião. Os ritos buscavam, então, favorecer a caça, trazer chuvas e condições climáticas favoráveis às plantações. Foram os ritos mágicos que inspiraram as primeiras manifestações artísticas desenhadas e pintadas, nas paredes das cavernas, com carvão, tintas minerais e vegetais, representando o seu dia-a-dia. Também pintavam imagens femininas, simbolizando a fecundidade da Natureza: assim como as crianças nascem das mulheres, plantas e frutos nascem da Mãe Natureza.

"O Homem primitivo dependia universalmente da Natureza [...] da sucessão regular das estações, da queda das chuvas nas ocasiões apropriadas, do crescimento das plantas e da reprodução dos animais. Estes fenômenos naturais não ocorreriam, a não ser que ele cumprisse certos sacrifícios e ritos. Instituiu, assim, cerimônias destinadas a fazer chover, nas quais se borrifava água sobre espigas de milho para imitar a precipitação das chuvas [...] A totalidade dos habitantes de uma aldeia, ou mesmo dos componentes de uma tribo, vestia peles de animais e arremedava os hábitos e atividades de alguma espécie, da qual dependesse para a obtenção de alimento. Pareciam ter a vaga noção de que, com o imitar o gênero de vida da espécie, estavam contribuindo para garantir a sobrevivência dela."

Tendo a terra uma dimensão sagrada, aqueles que possuíam os poderes mágicos mais fortes, que garantiam a fertilidade dos campos e dos animais, exerciam um controle sobre a produção e os bens de sua comunidade.

Em cada comunidade havia um grupo social com mais direito sobre a terra do que os outros, apesar de ser possível a todos o acesso à terra, produtora de alimentos.

O exercício da função religiosa por alguns garantiu-lhes o poder e o controle sobre os meios de produção. "A terra é um meio de produção. Sem ela não se pode produzir."

Assim começou a existir uma separação entre os interesses dos dirigentes religiosos e o interesse coletivo.

[...]

Se a terra não é mais uma propriedade comum a todos os componentes da comunidade, se só algumas pessoas detêm a posse, o que acontece com aquelas que não a têm? Para a maioria, a vida começa a tornar-se muito difícil. Foi o que aconteceu com grande parte da população das sociedades primitivas.

"A produção de excedente trouxe consigo a propriedade privada; alguns elementos do grupo, apropriando-se do excedente comunal, puderam também controlar o intercâmbio comercial e, aos poucos, acumular uma riqueza que lhes permitiu imporem-se aos demais membros da comunidade como dirigentes [...] A acumulação da riqueza nas mãos de alguns foi a base para o advento da Civilização."

Você deve estar pensando que estas sociedades primitivas ocorreram há milênios. Que hoje não existe nenhum grupo humano em estágio semelhante aos das sociedades pré-históricas. Está equivocado.

"Ainda hoje, na América Latina, na Oceania, na África e na Ásia, povos pré-letrados maravilham-se com os ciclos do nascimento e morte, expressando sua integração na Natureza, através de rituais, cuja principal característica é a vivência, a participação de todos os membros da tribo nas cerimônias religiosas. Essa vivência se estende a totalidade social e natural. A economia e a vida da tribo são cíclicas e repetitivas, como também o são a própria Natureza e o organismo humano. A expressão dessa harmonia é constituída pelo mito primitivo, que narra os ciclos exemplares. Ao repetir o que já foi vivido por antepassados míticos, o homem primitivo encontra a explicação e a justificação de sua vida.

Uma das formas frequentemente encontradas na configuração do sistema religioso desses grupos consiste na concepção do mana, força sobrenatural, presente nos objetos, nos espíritos dos ancestrais e dos que governam os elementos da Natureza. Temida, respeitada e ambicionada pelo homem, cujo propósito fundamental é conquistá-la, assegura ao seu possuidor o respeito e o prestígio social.

[...] Complexos e elaborados sistemas explicativos introduzem, entre os grupos pré-letrados, heróis nacionais, deuses e semideuses, aos quais se atribuiu o conhecimento das técnicas de produção econômica. Animais, plantas e acidentes geográficos são unidos ao homem por laços míticos de parentesco, propiciando a compreensão sobre a estabilidade e o sentido dos fenômenos da Natureza bem como da organização social [...] Embora nem sempre seja fácil distinguir a religião da magia, a posição desses dois sistemas de relacionamento com o mundo sagrado é essencialmente de mútua oposição. Enquanto a vida religiosa se caracteriza pela submissão e aceitação da vontade de Deus e de sua Providência, a manipulação mágica pretende obrigar às forças sobrenaturais a realizar desejos particulares.

[...] Todas as culturas [...] tendem a reservar, paralelamente ao cotidiano [...] outra esfera, que diz respeito a aspectos fundamentais da existência humana, que envolvem atitudes de respeito, temor e piedade. Estreitamente vinculados e interdependentes, esses dois mundos - o do sagrado e o do profano - se misturam, evidenciando-se a supremacia do primeiro em momentos decisivos da existência: por ocasião do nascimento, nos ritos da puberdade, no casamento, na morte. [...] Também os fenômenos de maior significado social acham-se protegidos pela sacralidade: na esperança dos agricultores pela fecundidade da terra; no emprego, pelos caçadores, de artimanhas propiciatórias e mágicas; nos ritos protetores e nas festas solenes que comemoram o convívio pacífico ou preparam a guerra contra sociedades rivais. Cultuam-se, dessa forma, as forças do mundo natural, bem como os heróis lendários que representam as tradições e a história mítica da cultura.

[...] Isso ocorre, por exemplo, com as diversas tribos indígenas brasileiras que habitam o Parque Nacional do Xingu e que têm em comum, nas suas tradições míticas, aspectos que explicam a origem e o domínio das forças naturais, bem como o papel desempenhado pelo herói lendário, que ensina aos homens como ambientar-se ao meio."

Veja o depoimento do sertanista Orlando Vilas Boas, publicado na revista Visão, de 10 de fevereiro de 1975:

"O índio, em sua tribo, tem um lugar estável e tranquilo. É totalmente livre, sem precisar dar satisfações de seus atos a quem quer seja. Toda a estabilidade tribal, toda a coesão, está assentada em mundo mítico [...] Seus hábitos são os mesmos; organizam-se identicamente; possuem em comum as mesmas crenças e superstições; realizam festas e ritos cerimoniais perfeitamente semelhantes, no fundo e na forma. E têm, sobre todas as coisas e aspectos da vida e do mundo, as mesmas concepções. O ritmo, a natureza e o ciclo das atividades, em geral, são praticamente um só em todas as aldeias. Há até mesmo uma estreita semelhança psicológica entre os membros de várias tribos. As particularidades anulam-se, em face das inúmeras correspondências e relações que igualam e vinculam os vários grupos entre si, dando ao seu conjunto um perfeito ar de família. Laços de toda natureza concorrem para essa homogeneidade. São, por exemplo, tão intimamente interligados em suas atividades religiosas que algumas das suas mais  importantes festas só podem ser realizadas por uma determinada tribo com a obrigatória participação de outra. No plano social, as relações mútuas se concretizam nos frequentes casamentos intertribais."

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 21-23.