"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 10 de junho de 2017

Civilização X

Cabeça.
Amedeo Modigliani

Os ataques de 11 de setembro de 2001 e seus desdobramentos impuseram renovadas pressões sobre a ideia confortável de que a vida dos cidadãos ocidentais podia melhorar indefinidamente. O perigo de novos ataques, as restrições às liberdades civis, as alegações em prol da tortura, a imensa superioridade militar de um país sobre todos os outros, o flerte com o uso prático de armas nucleares e as fissuras entre os países ocidentais e no interior deles em torno de questões como a "guerra preemptiva" têm gerado preocupações com a aparente fragilidade das instituições que se supõe serem os esteios dos valores ocidentais. Quem conhece a história dos valores democráticos há de lembrar o quão facilmente eles se desintegraram, nas décadas de 1920 e 1930, na imensa maioria dos países. Estamos começando a nos perguntar se a paz e a prosperidade das seis décadas que nos separam de 1945 são o produto da aplicação resoluta dos valores liberais ou apenas uma indulgência propiciada pela prosperidade contínua. Estaria o esmaecimento da lembrança da Segunda Guerra Mundial propiciando o ressurgimento da guerra como instrumento de política?

Onde, então, nessa nova visão do mundo, haveremos de colocar a arte, joia da coroa da nossa civilização? O que pensar quando já não cremos na confortante certeza de Kenneth Clark de que a "grande" arte é a manifestação suprema da civilização? Teria a predominância e ubiquidade das formas de arte popular, como a música pop, o cinema e a televisão, tornado redundante a chamada "grande arte"? Se a pintura, a escultura e a literatura parecem sempre inclinadas a criticar, ridicularizar e dar as costas aos valores predominantes da sociedade, em que sentido poderiam ser, se é que já foram um dia, a celebração da civilização?

[...]

A história, investigação e interpretação do passado baseada em evidências, é também um conceito peculiar ao Ocidente [...] a história depende dos pontos de vista do historiador e do próprio público leitor, cujos interesses influenciam os rumos da pesquisa e do consumo. Todavia, a despeito da recente expansão dos campos de interesse e das abordagens, a história é ainda escrita pelos vencedores. [...] A história do Ocidente escrita por um viciado em drogas condenado a quarenta anos de prisão na Califórnia depois de roubar, pela terceira vez, uma barra de chocolate ou por um lavrador que nunca saiu da sua aldeia na Galícia seria bastante diferente daquelas com as quais estamos acostumados. Tal documento nunca será produzido, tampouco é nosso desejo que exista, mas devemos estar cientes da sua ausência.

O mesmo se aplica à oportunidade da história. Wordsworth disse que a poesia "tem origem na emoção tranquilamente rememorada". A história, também, é escrita depois do fragor da batalha. Nós tampouco temos histórias da civilização ocidental escritas em Oradour-sur-Glane, em Auschiwitz-1944 nem no campo de trabalhos forçados de Kolyma. Como seria uma história cujo ponto de referência - o presente - fosse o portal do inferno? Nunca saberemos. Embora tenhamos relatos pessoais dos sobreviventes, a história não é escrita nesses momentos nem nesses lugares.

A história é também, como disse Harold Wilson a propóstio da política, "a arte do possível". Tudo o que é escrito ou dito pelos historiadores depende, em última instância, de provas materiais e, principalmente, de registros escritos. Sociedades e culturas que não tinham língua escrita estão virtualmente fora do nosso alcance. [...]

[...]

A história é seletiva em relação ao ponto de vista, formação e posição social do historiador, ao momento em que é escrita, à disponibilidade de documentos, à conexão com os grandes temas do passado e à possibilidade de novas revelações e descobertas. Se não há muito que possamos fazer para mudar o curso da nossa jornada através do passado, devemos ao menos estar conscientes das forças invisíveis que guiam os nossos passos.

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 27-30.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Civilização VIII

A criação de Adão.
(Detalhe do teto da Capela Sistina)
Michelangelo

Se a ideia da "grande tradição" foi posta de lado, o que dizer da retomada, por Freud, da crença agostiniana de que a civilização domestica a fera interior da psique humana? O uso, por Freud, do comportamento do homem primitivo em apoio às suas teorias se revelou uma faca de dois gumes - profícuo no curto prazo, mas vulnerável à investigação sistemática, a qual demonstrou que a maior parte da antropologia eclética de Freud estava mal orientada. A promoção freudiana do inconsciente sofreu não porque o conceito estivesse errado, mas porque ele usou sua ideia do conteúdo do inconsciente para explicar todos os aspectos da vida humana. E embora a psicanálise tenha se mostrado popular entre pessoas moderadamente neuróticas e até aparentemente normais, embora bem de vida, a sua incapacidade de curar problemas mentais sérios prejudicou inevitavelmente a credibilidade das teorias freudianas da mente.

Se, no entanto, colocamos em dúvida as ideias de Freud a respeito da civilização, como explicar a brutalidade das guerras do século XX que ele parecia ter explicado com tanto sucesso? Embora a teoria da "fera interior" tenha auferido considerável prestígio com a carnificina da Primeira Guerra Mundial, uma nova abordagem da psicologia da guerra foi desenvolvida por historiadores recentes. John Keegan afirmou que, entre a derrota de Napoelão em 1815 e a eclosão da Primeira Guerra em 1914, a Europa foi tomando progressivamente o aspecto de um vasto acampamento militar. Não havia nenhuma razão geopolítica para isso, dado que em 1815 a Europa tinha em perspectiva um longo período de relativa paz. Cerca de um século depois, no entanto, "(...) às vésperas da Primeira Guerra quase todos os europeus aptos ao serviço traziam entre seus documentos uma carteira de identidade militar mostrando-lhe quando e onde se apresentar em caso de mobilização geral (...) no começo de julho de 1914 havia cerca de 4 milhões de europeus fardados; no fim de agosto eram 20 milhões e dezenas de milhares já haviam sido mortos".

A cultura militar que vicejava paralelamente à sociedade civil se tornara imensamente poderosa e a guerra surgia como uma resposta automática às dificuldades políticas. Quando, finalmente, as grandes potências foram às vias de fato em 1914, a disponibilidade de milhões de homens equipados com armas pessoais e de artilharia feitas com aço de alta qualidade significava inevitavelmente a destruição em massa de vidas humanas. Keegan mostrou também que o ethos do combate glorioso, da morte digna na batalha e da ânsia de destruir o inimigo faz parte de uma ideia peculiarmente ocidental da guerra - um conflito tão sangrento não teria surgido em outras culturas. Do ponto de vista dos historiadores, as guerras mundiais não foram um retorno da humanidade europeia a um estado primitivo de barbarismo, mas provieram de uma cultura deliberadamente cultivada e promovida durante todo o século anterior.

Esses novos modos de ver a história refletem o nosso entendimento modificado do mundo. Todavia, não apenas eludem a questão "O que é civilização?", como a tornam cada vez mais difícil de responder. A nossa visão de mundo nos apresenta algumas sérias dificuldades. Passamos a acreditar, por exemplo, que as sociedades ditas primitivas têm o direito de continuar existindo tal como são. Que dizer, então, de uma civilização que as destruiu rotineiramente com base em justificativas morais, religiosas e históricas? Se a nossa civilização contém a nossa história e é também a expressão dos nossos valores permanentes, o que nos resta quando esses se nos afiguram tão obviamente em conflito?

Podemos começar a responder a tais perguntas examinando em que nós, a geração atual, somos diferentes de nossos antepassados e por que temos uma visão de mundo tão diferente. [...] Quais são, então, as características particulares do presente a influenciar a visão que temos da nossa civilização?

Nas décadas de 1930 e 1940 era perfeitamente claro o que representavam a sociedade ocidental e a civilização ocidentais. Para um socialista como para um conservador, a civilização era tudo o que Hitler, Mussolini e o Japão imperial estavam tentando destruir, e sua tarefa era, indiscutivelmente, preservar-se. A crença no deus cristão deu lugar à crença no progresso até ser substituída pela urgente necessidade de derrotar o fascismo. Os que lutaram "do lado errado" também o viram claramente quando a guerra terminou. A tarefa imediata dos anos do pós-guerra não era reconstruir a sociedade preexistente - era criar um novo começo. Não obstante, a guerra cobrou daqueles que a viveram um imenso preço em energia emocional e cultural. Depois de um breve flerte com o radicalismo, o Ocidente se aquietou na década de 1950 como uma sociedade política e culturalmente conservadora, ávida por agarrar-se àquilo que já possuía, estática e temente a mudanças.

Os anos 1960 foram, em parte, uma reação contra a atrofia da sociedade subsequente à Segunda Guerra Mundial. A geração que viveu a guerra se sentia aliviada por haver sobrevivido e tido a chance de construir um mundo próspero e pacífico, mas seus filhos e filhas que chegavam à idade adulta queriam algo mais. O anterior sentimento de que fora necessário lutar para preservar a civilização se transformou na nova crença de que fora precisamente a sociedade existente, com suas hierarquias, sua rigidez, seu respeito pela autoridade, sua mentalidade de "o doutor é quem sabe", a responsável pela queda da Europa no turbilhão do conflito. Em Nuremberg, diante de um mundo que se perguntava como foi que cidadãos de um país civilizado como a Alemanha puderam cometer tais horrores, o tedioso bordão era: "Eu só estava cumprindo ordens." Essa frase cruciante se tornou o inverso do lema da nova geração - de agora em diante, ninguém mais devia dar nem receber ordens. A Europa se livrava do militarismo que assombrara o continente durante mais de 150 anos. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 21-3.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Civilização VII

Casa.
Jožef Petkovšek

Se abordagens novas e mais transparentes de temas tradicionais se tornaram populares, o mesmo se deu com o estudo do obscuro e do absolutamente peculiar. A história do bacalhau, do comércio de especiarias, da obsessão holandesa pela tulipa, da busca do método de medição da longitude, do consumo de peixe na antiga Atenas e milhares de outras vêm encontrando públicos entusiásticos. Hoje consumimos avidamente histórias de culturas exteriores à grande tradição: Índia, China, América nativa, Polinésia e Austrália aborígene.

Desenvolvemos também um gosto pela arqueologia do passado histórico e pré-histórico que nos coloca em contato com a rica cultura dos nossos ancestrais até então desconsiderada. O estudo de objetos, como o DNA mitocondrial, os padrões climáticos e vegetativos da Antiguidade, os isótopos preservados na dentição humana e as anomalias geofísicas, revelaram novos e fascinantes aspectos da nossa história.

Quando pedimos aos historiadores que nos mostrem as provas materiais do seu trabalho e nossa ânsia de conhecimento do passado nos leva a tantos atalhos da história, o fio dourado começa a ganhar o aspecto de um rio de tempo com uma miríade de afluentes, córregos, remansos e súbitas corredeiras ou, quem sabe, se assemelhe mais a uma imensa rede de pesca, enrolada até formar uma esfera conectada em todas as direções. A noção de que a civilização europeia, ou antes, de que a própria existência da civilização dependeu da permanência de uma tradição particular estritamente definida começa, em face da multiplicidade do passado, a nos parecer um tanto absurda.

Uma resposta tem sido escrever e falar em civilizações no plural. Autores como Fernand Braudel (A History of Civilizations) e Felipe Fernández-Armesto (Civilizations) escreveram histórias de diferentes civilizações, evitando a tradicional obsessão pelos padrões subjacentes; livros como Worlds Together, Worlds Apart, de Robert Tignor et al., de 2002, se dirigem a um número crescente de cursos universitários norte-americanos de História Mundial que evitam deliberadamente os preconceitos do eurocentrismo. O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial (1996), de Samuel Hutingdon, descreve um mundo com várias civilizações distintas e potencialmente poderosas. Em Europe: A History, também publicado em 1966, Normam Davies nos mostra como, passada apenas uma década do colapso da Cortina de Ferro, as histórias da Europa Oriental e Ocidental podem e devem ser unificadas.

O desenvolvimento da velha crença na superioridade moral e intelectual dos europeus ganhou um reforço intelectual com o surgimento do que podemos chamar de história ambiental. O cientista e historiador norte-americano Jared Diamond defendeu convincentemente que a geografia, a topografia, o clima, as correntes oceânicas e os litorais afetaram o desenvolvimento das distintas sociedades - não num sentido vago, mas em aspectos passíveis de investigação e mensuração. Sua pesquisa levou à conclusão de que os europeus se beneficiaram de uma localização que lhes propiciou desenvolver tecnologias com as quais puderam conquistar o mundo. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 20-1.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Civilização VI

O gaulês moribundo (detalhe).
Escultura romana do século I a.C. 
Escultor desconhecido

As duas ideias dominantes de civilização - a "grande tradição" do século XIX e a domesticação freudiana, com reverberações da teologia cristã, da fera interior - permaneceram conosco no início do novo século. A imagem de um fio dourado civilizacional emitindo um brilho de luz em meio às sombras da barbárie provou ser, para os historiadores, um símbolo poderoso e duradouro. Em 1999, Christian Meier escreveu que o Estreito de Salamina, onde os atenienses derrotaram a frota persa, foi "o buraco da agulha pelo qual teve de passar a história mundial"; Kenneth Clark se referiu ao período em que o cristianismo "sobreviveu agarrado a lugares como Skellig Michael, um pico rochoso a 30 km da costa irlandesa", como a civilização atravessando "o esmalte dos nossos dentes". Em momentos como esse, o fio dourado se esticou de maneira alarmante, mas não se rompeu. Nossa ligação com a grande tradição foi assim tanto preservada quanto exemplificada.

Também os historiadores invocaram as teorias de Freud para explicar comportamentos brutais como manifestações da fera interior que rompe, de tempos em tempos, a frágil barreira da civilização. Numa recente discussão sobre a Revolução Russa de 1917 e a guerra civil subsequente, Orlando Figes escreveu: "Era como se toda a violência dos anos precedentes tivesse removido o fino verniz de civilização que cobria as relações humanas, deixando expostos os instintos zoológicos primitivos do homem. As pessoas começaram a gostar do cheiro de sangue."

Mas não foram só os historiadores que fizeram uso da noção de fera interior. Artistas, cineastas e, particularmente, escritores de novelas policiais são enamorados da visão freudiana de uma humanidade brutal sob controle das forças civilizatórias. Como comentou P.D. James, os escritores de novelas policiais "demonstram o quão frágeis são as pontes que construímos sobre o abismo do caos social e psicológico".

Nas últimas décadas, esses conceitos e as crenças que os sustentam parecem cada vez mais incertos. Nossas maneiras de estudar o passado mudaram radicalmente, e os modos tradicionais de aprender a história, tão brilhantemente satirizados, já em 1930, por Sellar e Yeatman em seu 1066 and All That, deram lugar a uma abordagem muito mais variada e rica do passado. Nós hoje consumimos história com crescente entusiasmo em livros, filmes, televisão e rádio, mas não queremos que nos digam sumariamente que Napoleão foi bom para a França, porém ruim para a Europa, que Stalin era um monstro e que Elizabeth I foi uma "grande" rainha. Queremos receber informação, narrativas, documentos e testemunhos do passado para então formar as nossas próprias ideias. Sabemos que os acontecimentos nunca são vistos com olhos inocentes e que o preconceito do historiador é a influência dominante na forma como a história é contada. Os historiadores responderam abandonando sua pretensão à imparcialidade e à objetividade; em vez de nos dar somente os resultados, eles agora nos mostram como trabalham e compartilham seus métodos, dificuldades, incertezas e entusiasmos. Num tal ambiente, a renovação da tradição dos "grandes homens" por Kenneth Clark perdeu credibilidade. O que em 1969 tinha o aspecto de uma ousada inovação parece hoje o último suspiro de uma elite aristocrática. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 18-20.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Civilização V

A casa do Fauno.
Frank Fox

O significado da civilização para a cultura hoje dominante no mundo ocidental resta ambíguo em meio a todas essas mudanças. Os autores da Constituição dos Estados Unidos foram homens do Iluminismo totalmente impregnados da tradição clássica, ao passo que os colonizadores europeus usaram a ideia de "missão civilizatória" para justificar a tomada do continente americano e a destruição de sua população nativa. Contudo, os Estados Unidos da América foram fundados em oposição aos valores europeus estabelecidos, tornando-se, particularmente depois das migrações em massa de fins do século XIX, uma sociedade de tipo distinto. A civilização elitista e nostálgica de que falavam os europeus era, sob vários aspectos, uma afronta aos ideais norte-americanos, de natureza populista e progressista. Além disso, a cultura de massas e as formas de arte popular tão ridicularizadas pelos intelectuais europeus nos séculois XIX e XX foram, afinal de contas, criações fundamentalmente norte-americanas. Foi só depois da Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos assumiram a liderança política do mundo ocidental, que surgiu a possibilidade de resolução dessas contradições. A civilização se tornou um conceito mais democrático e menos elitista (giro reforçado pelo apreço dos líderes nazistas pela "alta cultura"), portador de um significado ao mesmo tempo vago e inclusivo - a sociedade inteira, não mais as formas de arte da elite, era agora a base da civilização ocidental. Essa abrangência um tanto ampla nos traz de volta ao lugar onde começamos. Retoma-se um conceito que, embora pareça ter perdido parte de sua clareza, conserva, nitidamente, uma extraordinária força política emocional. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história da civilização ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 18.

domingo, 4 de junho de 2017

Civilização IV

Partenon.
Vasily Polenov

As teorias de Freud derrubaram a concepção decimonônica da civilização como uma força benigna e demoliram a noção de progresso humano. Embora controversas e tidas como novidade, suas ideias eram, na verdade, um retorno ao pessimismo radical de Santo Agostinho, o pai da teologia cristã no século V. A doutrina católica afirma que nascemos com os pecados herdados de Adão e Eva. Eles são lavados no batismo, mas a qualquer momento estamos prestes a pecar. As palavras de Santo Agostinho "Levantem-se as barreiras criadas pelas leis e a obscena capacidade que tem o homem de fazer o mal e se entregar à indulgência se manifestará com toda força" poderiam ter sido escritas por Freud, cujas ideias agostinianas sobre a civilização mudaram o foco da sociedade para o indivíduo. Desde então, a mente do indivíduo humano tem sido o foco principal das nossas indagações acerca das questões capitais da guerra, da crueldade, do progresso, do ódio, da criatividade e da destruição.

Historiadores mais convencionais tentaram explicar as convulsões europeias mapeando a ascensão e queda das civilizações mundiais. A Decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, publicado em 1918, e a primeira parte de Um Estudo da História, de Arnold Toynbee, 1934, inspiravam-se ambos na crença decimonônica de que a história era guiada por leis universais e a tarefa do historiador era mostrar que essas leis se aplicavam a todas as civilizações.

O começo do século XX foi marcado pela chegada de uma nova força bárbara a enfrentar a civilização ocidental - a cultura de massas. Nas décadas de 1920 e 1930, os intelectuais europeus falavam e escreviam, desesperados, sobre o fim da civilização imposto pelas massas urbanas e seus execráveis gostos e hábitos culturais. A civilização só poderia ser preservada por uma pequena elite que produzisse e apreciasse obras de arte além do alcance da maioria. A civilização se tornou, aos olhos de alguns, território exclusivo de uma minoria.

Era de esperar que a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e o Terror stalinista tivessem liquidado, de uma vez por todas, qualquer ideia de progresso humano e dos efeitos benéficos da civilização. Na verdade, justo o contrário aconteceu. Os horrores do nazismo, embora nos tenham levado a questionar a nossa humanidade, deram um novo ímpeto à crença de que os humanos podiam e deviam encontrar o caminho para um mundo melhor. Encorajados pela derrota do nazismo e ávidos por acreditar num mundo de coisas boas, durante uma ou duas décadas os ocidentais retornaram às velhas receitas. Cuidando de evitar afirmações banais de progresso, os historiadores da cultura podiam uma vez mais compartilhar o seu deleite com a "grandeza" dos artistas e filósofos e a beleza das pinturas, afrescos e palácios sem terem necessidade de se perguntar a que preço haviam sido comprados. Ao dar à sua série televisiva de 1969 sobre a arte europeia o título Civilização, Keneth Clark assumiu como seus verdadeiros produtos os grandes artistas e seus magníficos artefatos, desviando deliberadamente a atenção da guerra e do genocídio. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 17-8.

sábado, 3 de junho de 2017

Civilização III

Uma mulher grega.
Lawrence Alma-Tadema

O conceito de civilização ocidental como uma cadeia histórica contínua (ainda que ocasionalmente interrompida) foi reforçado pelo renovado interesse pelos mundos clássico e renascentista. Os cavalheiros eruditos da Grã-Bretanha, França, Holanda e Alemanha dos séculos XVIII e XIX percorreram o continente e viajaram ao sul para desenterrar pessoalmente as maravilhas do passado. Vastas quantidades de cerâmica, estatuária, pedra talhada, pinturas e mosaicos foram recolhidas, e inúmeros museus, construídos nas cidades do Norte da Europa para acomodar as descobertas trazidas do Egito, Grécia, Roma e Florença. Europeus eminentes passaram a encomendar imagens pintadas ou esculpidas de si mesmos usando togas e lauréis romanos, suas casas imitavam os templos gregos, seus clubes e regimentos passaram a adotar lemas latinos. Luminares da filosofia política resgataram palavras gregas, como democracia, e J.S. Mill chegou a declarar que "a Batalha de Maratona foi mais importante do que a de Hastings para a história da Inglaterra". A construção da cadeia histórica desembocou no batismo das inovações da arte italiana do século XV como Renascimento ou Renascença, da cultura europeia, descrição confirmada pela obra magistral de Jacob Burchardt, de 1869, A Cultura do Renascimento na Itália. Com a espetacular expansão da colonização europeia na década de 1890, parecia provável que o mundo inteiro, em pouco tempo, sentiria os benefícios da civilização ocidental.

Essa confortadora concepção de civilização sofreu um forte abalo na Grande Guerra de 1914-18, quando a morte de 10 milhões de soldados e a mutilação e cegueira de incontáveis outros a desmascararam como uma grande ilusão. Conflito entre grupos de nações civilizadas ou entre nações civilizadas (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos) e outras que, subitamente, deixaram de sê-lo (Alemanha, Áustria), a guerra de 1914-18 foi, sem sombra de dúvida, tanto quanto os trens a vapor e o David de Michelangelo, um produto da civilização ocidental.

Como pode a civilização chegar a tal ponto? Como foi possível essa quantidade de mortes desnecessárias? A resposta mais convincente a essas interrogações não proveio de historiadores e filósofos, mas de uma fonte totalmente inesperada. Sigmund Freud, cuja visão da psicologia humana começava a se difundir por toda a Europa, tinha uma mensagem alarmante e pessimista para a humanidade. Ele disse a propósito da Primeira Guerra Mundial: "Não se trata de que chegamos tão baixo, mas de que nunca chegamos tão alto quanto imaginávamos."

Os seres humanos, disse Freud, são vítimas dos instintos ignóbeis e brutais herdados de animais e humanos primitivos. A civilização domestica a selvageria animal que mora dentro de todos nós, mas não nos pode livrar dos nossos instintos, que de tempos em tempos rompem a fina camada de verniz e nos levam a cometer atos de extraordinária violência. A explicação de Freud para a carnificina da Grande Guerra forjou a relação entre a psicologia individual e a natureza da civilização e fez da psicanálise o método dominante de seus estudos. A fronteira da civilização já não era um círculo ao redor da Europa Ocidental e Estados Unidos, tampouco um espaço histórico ao redor dos antigos Egito e Grécia e Roma, mas algo que residia dentro de nós. Tornamo-nos, de uma hora para outra, ao mesmo tempo, civilizados e bárbaros. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 15-7.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Civilização II

Gladiadores depois do combate.
José Moreno Carbonero

No século XVIII, época em que se cunhou a palavra civilização, os intelectuais europeus experimentaram um momento de otimismo a respeito da bondade essencial do mundo, da graça de Deus e da capacidade do pensamento racional de classificar todo o conhecimento e resolver os problemas da humanidade. A noção de comportamento civilizado se firmou à medida que a politesse de inspiração francesa convertia proprietários de terras, mercadores e comerciantes (anteriormente dados ao mau hábito de morar e comer com seus trabalhadores) em uma elite portadora de maneiras corretas, quando não refinadas. A cultura cavalheiresca do século XVIII teve o aspecto de uma bem-vinda reedição do espírito de Atenas e Roma, e o otimismo do Iluminismo francês, acabrunhado com a guilhotina e o morticínio das guerras napoleônicas, floresceu novamente nos clubes de cavalheiros britânicos do século XIX. Durante a Era do Progresso e a expansão do Império Britânico, Macaulay, Carlyle e Buckle mostraram que as maravilhas da Grécia e Roma antigas, de Veneza e de Florença tinham uma natureza comum compartilhada com os prodígios da Grã-Bretanha industrial. O historiador vitoriano Henry Thomas Buckle arguiu, em 1857, que a civilização podia ser entendida como uma grande cadeia histórica cujo primeiro elo, a civilização do antigo Egito, "guarda um notável contraste com a barbárie dos demais povos da África". Do Egito, os elos da cadeia levaram à Grécia, depois a Roma, à Renascença, à Reforma, ao Iluminismo e, finalmente, às glórias da sociedade britânica de então. Os membros desse cortejo sagrado eram considerados civilizados; os estranhos, desavindos como bárbaros. O mundo civilizado da época de Buckle não apenas se definia por si próprio, como se dava a missão de "subjugar, converter e civilizar" o resto da humanidade, assim justificando a colonização europeia do mundo como uma salutar combinação de evangelismo e superioridade moral. A fronteira entre o civilizado e o não civilizado era fácil de traçar, embora fosse necessária certa destreza manual para lidar com os marajás mongóis e os imperadores chineses e japoneses: a civilização era branca e cristã; tudo o mais era barbárie. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 14-5.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Civilização I

Toalete de uma dama romana.
Juan Giménez Martín

O termo civilização surgiu na França do século XVIII, mas a ideia ocidental de sociedade civilizada vem da Grécia e Roma antigas. Durante o período clássico, os gregos começaram a se ver como não apenas diferentes, mas superiores a todos os outros povos. Quando, no século V a.C., Heródoto se referia aos "bárbaros", esse era apenas um termo genérico para designar os não gregos. Na época de Aristóteles, cerca de um século depois, os bárbaros e as nações bárbaras já eram definidos por atitudes - o modo de tratar os escravos, a economia baseada no escambo - vistas com reserva pelos gregos civilizados. Os costumes e as práticas culturais tornavam os bárbaros inferiores aos gregos, vistos por si mesmos e, mais tarde, pelos europeus como sinônimos de civilização.

Civilização deriva de civis, palavra latina que significa cidadão. Embora os romanos usassem, em lugar de civilização, a palavra cultura para descrever a sua vida espiritual, intelectual, social e artística, ser cidadão era participar dessa cultura. Tal como os gregos que, sob uma série de aspectos, tomaram como modelo, os romanos se consideravam singularmente cultos. Os conceitos de cultura e civilização se tornaram, pois, retrospectivamente sinônimos. Cercados por bárbaros, os romanos também se viram impelidos a levar aos outros a civilização. Como escreveu Virgílio: "Romanos, é vosso dever governar imperialmente as nações (...) impor o império da paz, poupar os humildes e esmagar os orgulhosos."

A definição de civilização foi recuperada no Ocidente pelos eruditos cristãos dos séculos VII e VIII, como Gregório de Tours e Bede, cujas narrativas dos séculos precedentes mostram o cristianismo seriamente ameaçado antes de triunfar, finalmente, sobre os pagãos. A organização da Igreja, sua cultura e sua aliança com Carlos Magno e quejandos propiciaram que a cristandade latina se tornasse um equivalente assumido da civilização ocidental.

O redespertar do interesse pelo mundo clássico antes e durante a Renascença reacendeu a ideia de uma civilização caracteristicamente europeia com existência anterior e paralela ao cristianismo. Os europeus ocidentais outorgaram a si próprios uma tradição nobre ao adotar a ancestralidade cultural de Sófocles, Platão, Virgílio e Sêneca, além de São Pedro e São Paulo. A descoberta de um Novo Mundo do outro lado do Atlântico e de uma miríade de povos aparentemente primitivos em todas as partes do mundo incentivou os europeus do século XVI a se identificarem ainda mais fortemente com os antigos gregos e romanos - povos civilizados cercados de bárbaros. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 13-4.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Conceito de civilização segundo o historiador Fernand Braudel

A consagração dos templos pagãos e a primeira missa no México-Tenochtitlán. José Vivar y Valderrama

Em um verbete de enciclopédia que escreveu em 1959, o historiador francês Fernand Braudel assim definiu uma civilização:

Em primeiro lugar, um espaço, uma "área cultural" [...], um lócus. Com o lócus [...] você deve imaginar uma grande variedade de "bens", de características culturais, desde a forma das casas, o material com que são construídas, seus telhados, até habilidades como a colocação de plumas em flechas, um dialeto ou grupo de dialetos, as preferências culinárias, uma determinada tecnologia, uma estrutura de crenças, um modo de fazer amor, e até mesmo o compasso, o papel, a imprensa. É o agrupamento regular, a frequência com que determinadas características ocorrem, sua ubiquidade em uma área precisa [combinada com] [...] alguma espécie de permanência temporal [...]

FERGUSON, Niall. Civilização: Ocidente x Oriente. São Paulo: Planeta, 2012. p. 19.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"Brasil" ou "América Portuguesa"?

Mapa de 1565 feito pelo cosmógrafo Giacomo Gastaldi, em que o território já é chamado de Brasil.

Quando nosso país foi descoberto, ele recebeu diversos nomes. O primeiro foi "Ilha de Vera Cruz", porque o achamento foi feito por uma expedição patrocinada pela Ordem de Cristo, cujas bandeiras ostentavam a Cruz de Malta. Por volta de 1505, quando se viu tratar de algo maior, o território passou a ser chamado de "Terra de Santa Cruz", nome que constava de mapas confeccionados nos primeiros anos. Por essa época, alguns portugueses se lembraram de uma lenda medieval a respeito de uma ilha que teria sido descoberta por São Brandão, nomeada de "Brasil", e relacionaram-na com a descoberta de Cabral. O encontro de uma madeira que produzia uma tinta vermelha muito útil para tingir tecidos, o pau-brasil, consagrou no imaginário popular europeu o nome "Brasil", que daí em diante passou a ser empregado nos mapas da primeira metade do século XVI. Um mapa resgatado por um historiador, por exemplo, já usa o nome "Brasil" em 1514.

A expressão "América Portuguesa" servia para distinguir as terras consideradas portuguesas do nome geral do continente, "América", porque esse sugeriria o direito de posse espanhola, mas foi pouco utilizado na época, bem menos que "Brasil". Assim, consideramos o termo "Brasil" mais adequado para contar a história referente a esse território e seus habitantes.

MESGRAVIS, Laima. História do Brasil colônia. São Paulo: Contexto, 2015. p. 12-13.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O termo "Tempos Modernos": uma visão eurocêntrica da História?

Embora, na França, a expressão "Tempos Modernos" seja empregada para, geralmente, designar os séculos XVI, XVII e XVIII, uma explicação é necessária. A consciência de se haver entrado numa era nova foi percebida na Europa Ocidental no decorrer do século XVI.

Todavia, os historiadores estão longe de concordar sobre os limites cronológicos desta era nova. Na França [...] fazemo-la iniciar-se, em geral, em 1492, com a "descoberta" da América. Esta data apresenta o inconveniente de situar-se no meio do Renascimento, que abre os "Tempos Modernos". Certos historiadores, considerando que a Renascença, principia com o despertar das civilizações urbanas no Ocidente se inclinariam por um corte situado no começo do século XIII. Por causa disto, na Inglaterra, prefere-se fixar o início dos "Tempos Modernos" apenas quando a Renascença é dado como realizada, ou seja por volta do ano de 1600.


Carta náutica de Fernão Vaz Dourado, (c. 1520 - c. 1580), integrante de um atlas desenhado em 1571.

Voltados para o progresso, os "Tempos Modernos" não deveriam ter um fim. Entretanto, a historiografia francesa ficou impressionada com o desmoronamento da antiga monarquia, caracterizada por um regime, não somente político, mas ainda econômico e social, que se torna o "Antigo Regime" em relação ao mundo que se crê nascido com a declaração dos direitos do homem de 1789. Para designar este mundo considerado como novo, foi preciso encontrar um outro termo. Os historiadores franceses empregaram o de "contemporâneo", palavra que adquire aqui um sentido particular. Destarte, o ponto de partida da época contemporânea permaneceu curiosamente fixo, ao passo que os "Tempos Modernos", fixados em 1789, se afastam cada vez mais no passado.

Conquanto menos marcados que os franceses pela Revolução, os historiadores dos outros países da Europa distinguem também, em geral, um antigo regime e uma época mais recente, mas as denominações são diferentes. Como é lógico, o termo contemporâneo, para eles, é móvel, pois liga ao presente um passado todo próximo. O termo "moderno" designa, então, um período não acabado, mas incessantemente prolongado. Por causa disto, foram levados a introduzir divisões nesses "Tempos Modernos" destinados a se prolongarem. Os alemães distinguem Frühere Neuzeit e Spät Neuzeit, e os ingleses Early Modern Times e Later Modern Times... Estes termos, certamente menos rígidos que os nossos, se aplicam de maneira precisa ao antigo regime e ao regime novo? Neste caso, sua delimitação variaria segundo os países: 1848, para a maioria dos países da Europa Central; 1860 ou 1917 para a Rússia... De fato, os historiadores ocidentais reconhecem, geralmente, que o fim do século XVIII marca uma etapa importante na história de seus países em consequência do contragolpe das revoluções americana e francesa.

Trata-se, poder-se-á dizer, de modos de ver europeucentristas. Povos que hoje constituem mais da metade da humanidade não foram, em absoluto, subvertidos, no fim do século XVIII e no princípio do XIX, pelos grandes movimentos que afetaram a Europa e seus prolongamentos coloniais. Devemos negligenciar sua presença numa periodização do passado? Eu não penso que este argumento seja de natureza a fazer afastar o fim do século XVIII como termo do nosso período. O Extremo Oriente ou a Índia não têm neste momento, e não terão durante algum tempo ainda, um papel propulsor de primeiro plano na evolução da humanidade.

Outra objeção: o começo do século XVI e o fim do XVIII não representam uma mudança importante na história econômica ou na das condições materiais da vida. O descobrimento da América e o acesso direto dos europeus às Índias só farão sentir seus efeitos no decurso do século XVI, e a revolução da máquina, exceto para a Inglaterra, se situa no decurso do século XIX. Podemos desprezar tais fatos?

É verdade que toda periodização é artificial. [...]

Quando abordamos [a] Antiguidade ou a Idade Média [...] sabemos de antemão que, para compreendermos, nos deveremos desterrar completamente, pois que nos acharemos em presença de um mundo em que os homens viam de maneira diferente da nossa o tempo, o espaço, o domínio da natureza, as relações entre gerações, famílias e classes sociais. [...] Ora, "o homem de Versalhes" está muito longe de nós. Que dizer do homem dos campos ou das pequenas cidades contemporâneas de Lutero? Pois não existe um homem dos Tempos Modernos. Estes três séculos vêem realizar-se uma verdadeira mudança da espécie humana, menos visível e menos precipitada, sem dúvida, que a que assistimos atualmente, porém assaz profunda, uma vez que é ela que prepara esta última. É preciso que nos submetamos a uma série de desterramentos para podermos compreender os homens destes três séculos [...].

Com efeito, no fim do século XV, entram em contato mundos que até então se tinham ignorado inteiramente. Ora, pela primeira vez na história, o homem constatou qual era a forma da Terra. Ele ainda não sabia que não mais havia descobertas a fazer no globo da mesma importância que a da América. Mas nós, que o sabemos, avaliamos melhor que os contemporâneos de Américo Vespucci a importância de seu tempo na História: o planeta realizou sua unidade.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 5-7.

sábado, 27 de junho de 2015

A palavra "século", uma conquista em matéria de temporalidade histórica

Horário de verão, Rupert Bunny

"A palavra latina saeculum era aplicada pelos Romanos a períodos de duração variável, ligada muitas vezes à ideia de uma geração humana. Os cristãos, embora conservassem a palavra na sua antiga acepção, conferiram-lhe também o sentido derivado de vida humana, vida terrena, em oposição ao além. Mas, no século XVI, certos historiadores e eruditos tiveram a ideia de dividir os tempos em porções de cem anos. A unidade era bastante longa, a cifra 100 simples, a palavra conservava o prestígio do termo latino, e no entanto levou algum tempo a impor-se. O primeiro século em que verdadeiramente se aplicaram o conceito e a palavra foi o século XVIII: a partir daí, esta cômoda noção abstrata ia impor a sua tirania à história."

LE GOFF, Jacques. "Calendário". In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, v. 1: Memória/História, p. 286.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Visões da história: o Renascimento

Retrato de Fra Luca Pacioli com um aluno, Jacopo de Barbari

Texto 1
[...] Há certas tendências que parecem permear todas as manifestações da cultura renascentista, como um esforço de metodização e racionalização tanto do real quanto do campo simbólico: uma ênfase contínua nas potencialidades, nos recursos e nos limites do corpo e do espírito humanos, um sabor especial pela liberdade e pelo ato libertador. [...]

Mas o campo da divergência é também prodigiosamente rico. Diferença no espaço, entre o Quattrocento italiano antigótico e o Renascimento flamengo, todo assentado sobre o gótico. Diferenças no tempo entre, por exemplo, a produção da arte italiana dos séculos XIV, XV e XVI. Diferenças simultâneas entre homens contemporâneos e conterrâneos, como Leonardo e Michelangelo [...]. É possível considerar como unidade homogênea um movimento que incorpora tanto Giordano Bruno quanto Inácio de Loyola, Rafael quanto Hieronymus Bosch, [...] Maquiavel quanto Erasmo de Rotterdam, Erasmo quanto Lutero? [...]

Não há, portanto, uma experiência histórica renascentista, há várias. Não há um Renascimento, há múltiplos. [...] SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento. São Paulo: Editora da Unicamp/Atual, 1987. p. 73. (Discutindo a história).

Paisagem com  a queda de Ícaro, Pieter Brueghel, o Velho

Texto 2
Na Idade Média, ambas as faces da consciência - aquela voltada para o mundo exterior e a outra, para o interior do próprio homem - jaziam, sonhando ou em estado de semivigília, como que envoltas por um véu comum. [...] o homem reconhecia-se a si próprio apenas como raça, povo, partido, corporação, família ou sob qualquer outra das demais formas do coletivo. Na Itália, pela primeira vez, tal véu dispersa-se ao vento; desperta ali uma contemplação e um tratamento objetivo do Estado e de todas as coisas deste mundo. Paralelamente a isso, no entanto, ergue-se também, na plenitude de seus poderes, o subjetivo: o homem torna-se um indivíduo espiritual e se reconhece como tal. BURCHARDT, Jacob Christoph. A cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 145.


O festim dos deuses, Giovanni Bellini

Texto 3
Embora o termo Renascimento subsista, aplicado a um momento ou a um conjunto de manifestações da cultura ocidental, existem hoje mais dúvidas quanto à sua precisão do que no século passado. A tendência atual dos historiadores orienta-se para uma desconstrução desta unidade conceitual e para a análise de suas contradições. [...]

Uma das primeiras dúvidas que surgem no estudo do Renascimento é a da cronologia. Rupturas radicais entre Idade Média e Renascimento, Renascimento e Reforma, Renascimento e Contrarreforma, Renascimento e Barroco, Renascimento e Maneirismo tendem a ser amenizadas. [...]

[...] Se o único sentido do Renascimento fosse o da aproximação do Ocidente cristão com a Antiguidade, esse período não se diferenciaria em nada da Idade Média.

A Antiguidade greco-romana nunca se ausentou do imaginário medieval. [...]

Fundamental, no entanto, é o fato de a sociedade europeia dos séculos XIV ao XVI ter sido suficientemente criativa e peculiar para não necessitar impor-se através de mitos póstumos. Ela própria gerou sua mitologia, numa interação de novidades e continuidades, mais nascimentos do que renascimentos. Michelangelo não vivia em Roma a.C. e sabia muito bem disso. QUEIROZ, Tereza Aline P. O Renascimento. São Paulo: Edusp, 1995. p. 15-16, 20. (Acadêmica, 2).

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Operários

Setor constituído pela proletarização de agricultores sem terra, em virtude dos “cercamentos” (enclousures) intensificados na Grã-Bretanha e na Europa ocidental durante o século XVIII, essa massa de despossuídos iria constituir a mão de obra fabril durante a Revolução Industrial. Por extensão, o termo passou a designar, particularmente, os trabalhadores manuais fabris no mundo inteiro.

No século XVIII e parte do XIX, por operário entendia-se o trabalhador desqualificado, sem ofício, ou seja, aquele que não passara pelo sistema de aprendizado dos ofícios manuais regido pelas corporações controladas pelos mestres de ofício. Portanto, o termo comportava uma noção de inferioridade hierárquica dos trabalhadores manuais desqualificados com relação aos qualificados.


Greve, Boris Kustodiev

Nos anos 1830, na Europa ocidental, começou a ser empregada a designação de cunho político “classe operária”, que englobava tanto trabalhadores qualificados quanto não qualificados, como integrantes de um todo, compartilhando interesses e uma identidade comum. Fenômeno similar ocorreu no Brasil na década de 1870. Essa inovação na terminologia refletia a necessidade de formas de atuação e organização capazes de superar as divisões e os interesses setoriais, que se concretizou sob a forma de organizações sindicais gerais, mas também por organizações políticas que pretendiam representar os interesses do operariado, como os partidos que se designavam como operários, trabalhistas, socialistas e, já no século XX, comunistas. Desse modo, na Europa, houve uma clara associação entre o surgimento e crescimento de partidos desse tipo e o crescente peso social do operariado, que constituía a base de apoio dessas organizações.

O peso do operariado também foi decisivo em uma série de movimentos e revoluções, como: as revoluções de 1830 e 1848 na Europa; o movimento cartista (que pretendia a ampliação dos direitos políticos) na Grã-Bretanha nas décadas de 1830-40; a Comuna de Paris de 1871; as revoluções russas de 1905 e 1917; os movimentos grevistas, ocupações de fábricas, levantes e revoluções que atingiram vários países do mundo ao final da Primeira Guerra Mundial. E vários desses movimentos, particularmente a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, foram feitos em seu nome.

Em fins do século XIX, em virtude das transformações operadas no mundo do trabalho, não faltaram discussões acerca da desaparição do operariado. Porém, ao mesmo tempo que setores industriais perderam peso e o número de trabalhadores empregados nessas indústrias diminuiu, esse período assistiu também ao ressurgimento de condições de trabalho semelhantes aquelas encontradas sob a Revolução Industrial

Claudio Batalha. Operários. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 15.

sábado, 18 de maio de 2013

O significado do adjetivo "contemporâneo"

[...] ser contemporâneo é pertencer ao mesmo tempo, ou seja, ser do mesmo tempo. Um exemplo desse sentido da palavra: "Garrincha, que foi um grande jogador de futebol, foi contemporâneo de Pelé na seleção brasileira de futebol". Outro exemplo: "Cristóvão Colombo, que chegou à América, foi contemporâneo de Pedro Álvares Cabral, que chegou ao Brasil". Mais um exemplo: "Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil são compositores de música brasileira contemporânea".

Esses três exemplos simples nos ajudam a compreender que Garrincha e Pelé foram companheiros de futebol na seleção brasileira; que Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral fizeram suas viagens de exploração na mesma época e que os três compositores, Chico, Milton e Gil, estão produzindo, cada um no seu estilo, trabalhos que caracterizam a música popular hoje no Brasil.

Observe que, em todos os exemplos, o acontecimento ao mesmo tempo é o fator que marca a contemporaneidade. [...]

Mas em História, quando nos referimos ao período contemporâneo, ou às sociedades do mundo contemporâneo, o significado do adjetivo contemporâneo é um pouco diferente daquele com que a palavra foi empregada nos exemplos anteriores. Em História, para os acontecimentos serem contemporâneos não basta pertencerem ao mesmo tempo, é preciso possuírem algumas características que revelam um determinado modo de ser e de pensar da época. Nem sempre os acontecimentos contemporâneos se deram ao mesmo tempo. Pode até haver uma distância de muito mais de um século entre um e outro acontecimento e, no entanto, serem contemporâneos porque possuem as características próprias que definem aquele grande período histórico.

Assim, o período histórico que fica entre o final do século XVIII e nossos dias é chamado de período contemporâneo porque as sociedades que nele vivem, em geral, possuem algumas características próprias da época. Diferentes das características que marcaram os períodos anteriores: Antiguidade, Tempos Medievais e Tempos Modernos. Vale lembrar, é claro, que essa é uma foram muito ocidental e cristã de enxergar e analisar a História. Muitas sociedades orientais, muitas sociedades africanas jamais poderiam ser estudadas a partir dessa visão ocidental. A trajetória de seus povos foi outra e a visão cristã do mundo não tem sentido entre aqueles que nunca foram cristãos.

[...]

[...] a Idade Moderna chegava ao final porque grandes transformações do século XVIII revolucionaram as instituições políticas, a sociedade, a economia, o pensamento. As características que marcaram todos esses campos durante a Idade Moderna foram sendo transformadas pelas revoluções: a Industrial, a Americana e a Francesa. E as transformações foram tantas que os historiadores passaram a aceitar como contemporânea a História que aconteceu depois porque era muito recente, muito próxima deles naquele tempo.

Na verdade, os historiadores do século XIX chamaram aquele tempo em que estavam vivendo de tempos contemporâneos porque percebiam que se tratava mesmo de uma outra época, diferente dos tempos anteriores às revoluções. Mas hoje, passados mais de 200 anos, será que podemos afirmar que ainda são contemporâneos? Como ficamos diante dessa pergunta?

Encontramos diversas opiniões a respeito desta questão. Muitos historiadores pensam que a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, e na qual se usou a bomba atômica, mudou muito o mundo e, portanto, depois dela, estamos vivendo um outro período da História. Outros pensam diferente: apontam a chegada do homem à lua em 1969 como sendo o marco de um novo período histórico, que poderia chamar-se Era Espacial. Outros ainda aceitam que entramos em outro período quando os homens inventaram e passaram a usar os robôs que, de fato, são um avanço tecnológico fantástico.

O homem no espaço. O astronauta Edward White flutua suavemente fora da nave espacial Gemini IV, à qual está ligado por uma corda, 160 km acima da Terra.


[...]

Não há uma linha divisória separando um período do outro na História e também não é possível estabelecer uma data que marque o final de um período e o início do outro.

Não há limites rígidos nos processos de mudanças e transformações. Os homens em sociedades, espalhados pelos continentes e vivendo suas próprias experiências, não constroem ao mesmo tempo, nem na mesma intensidade as suas histórias.

Foram os historiadores que, a partir de estudos e análises apoiados nas mais variadas fontes documentais, concluíram que, desde o final do século XVIII até os nossos dias, no Ocidente, vive-se nos tempos contemporâneos.

Por quê?

Porque, quando se analisam os acontecimentos históricos em conjunto - aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais -, é possível perceber muitas características dos tempos contemporâneos.

Alguns exemplos: revolução do trabalho industrial, com todas as suas características, circulação de um volume imenso de dinheiro obtido na indústria, o aparecimento e a consolidação das democracias, o crescimento das cidades, o surgimento da classe operária, um modo de expressão da época através da literatura, artes, filosofia e ciências etc.

No entanto, é preciso não perder de vista que nem todas as sociedades passaram pelos mesmos estágios de vida. Enquanto algumas viviam em determinados níveis de desenvolvimento, muitas outras viviam em níveis e direções totalmente diferentes. Essa diversidade de experiências de cada sociedade resultou no quadro geral que presenciamos hoje no mundo contemporâneo.

Um exemplo dessa diversidade de níveis de desenvolvimento pode ser comprovado quando observamos os russos e os norte-americanos desvendando o espaço cósmico, utilizando a mais sofisticada tecnologia inventada, enquanto muitos povos espalhados pela África, em ilhas da Oceania, na América, sequer conseguiram atingir os estágios básicos do desenvolvimento que nos permitissem dizer que estão no mundo contemporâneo.

Naturalmente podemos afirmar que esses povos são contemporâneos nossos porque vivemo no mesmo tempo em que nós vivemos e vice-versa. Entretanto, se considerarmos que as sociedades do período histórico contemporâneo possuem determinadas características, aqueles povos estão muito distantes de nós.

Isso não significa que são melhores ou piores do que nós. Mas significa que vivem a sua história pelos caminhos que conseguiram percorrer, no ritmo de sua cultura e, principalmente, conservando as suas raízes mais ou menos isoladas do movimento do restante do mundo.

GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedades contemporâneas. Goiânia: UFG, 1998. p. 13-15, 17-18.

terça-feira, 19 de março de 2013

A invenção da Antiguidade


O auriga de Delfos, bronze, 470 a.C.  Artista desconhecido.

A Antiguidade, "Antiguidade clássica", representa para alguns o começo de um novo mundo (basicamente europeu). O período se encaixa com perfeição numa corrente progressiva da história. Nesse sentido, em primeiro lugar, a Antiguidade teve de ser radicalmente apartada de seus predecessores na Idade do Bronze, que caracterizou algumas das mais importantes sociedades asiáticas. Em segundo, Grécia e Roma passam a ser vistas como fundadoras da política contemporânea, sobretudo no que concerne à democracia. Em terceiro, alguns aspectos da Antiguidade, especialmente os econômicos como comércio e mercado, que marcariam mais tarde o "capitalismo", são subestimados, para marcar uma grande distinção entre as diferentes fases que conduzem ao presente. [...]

A Antiguidade é compreendida por alguns como a época que marca o início do sistema político, da "polis", da "democracia" propriamente dita, da "liberdade" e da lei. Economicamente, ela era diferente, baseada na escravidão e na redistribuição, mas não em mercado e comércio. Considerando os meios de comunicação, os gregos com sua língua indo-europeia teriam criado o alfabeto que usamos hoje. O mesmo teria se dado com relação à arte, inclusive à arquitetura. [...]

O roubo da história pela Europa Ocidental começou com as noções de sociedade arcaica e Antiguidade, prosseguindo daí em uma linha mais ou menos reta pelo feudalismo e Renascença até o capitalismo. Aquele começo é compreensível porque, mais tarde para a Europa, as experiências gregas e romanas representaram o amanhecer da "história", com a adoção do alfabeto escrito (antes da escrita tudo era pré-história, e esfera de arqueólogos, não de historiadores). Evidentemente, havia alguns registros escritos na Europa antes da Antiguidade na civilização minóico-micênica de Creta e do continente. No entanto, [...] os documentos consistiam de listas administrativas, não de "história" ou literatura. Essas áreas apareceram com alguma força na Europa somente depois do século XIII a.e.c. com a adoção e adaptação pela Grécia da escrita fenícia, a ancestral de muitos outros alfabetos, com seu sistema de consoantes BCD (sem as vogais). Uma das primeiras matérias da escrita Grega foi a guerra contra a Pérsia que levou à distinção feita em termos valorativos entre Europa e Ásia, com profundas consequências para nossa história política e intelectual a partir de então. Para os gregos, os persas eram "bárbaros", caracterizados pelo uso da tirania em vez da democracia. Era, claro, um julgamento puramente etnocêntrico, alimentado pela guerra greco-persa. [...]

Linguisticamente, a Europa tornou-se o lar dos "arianos", falantes de línguas indo-europeias advindas da Ásia. A Ásia Ocidental, por outro lado, foi o lar dos povos nativos de línguas semitas, um ramo da família afro-asiática que inclui a língua falada pelos judeus, fenícios, árabes, coptas, berberes, e muitos outros do norte da África e Ásia. Foi essa divisão entre arianos e outros, incorporada mais tarde nas doutrinas nazistas, que, na história popular da Europa, tendeu a encorajar o subsequente menosprezo das contribuições do Oriente para o crescimento da civilização.

[...]

Muitos vêem que a história mais recente da Europa emergiu de alguma vaga síntese entre romanos e a sociedade nativa tribal, uma formação social "germânica" em termos marxistas; há controvérsias entre romanistas e germanistas quanto às contribuições de suas respectivas culturas. No que diz respeito ao período anterior, a Antiguidade é frequentemente vista como a fusão das condições da Idade do Bronze com as "tribos" de origem "ariana" que participaram das invasões dóricas. Assim, a Antiguidade teria se beneficiado de ambos os regimes: as centralizadas culturas urbanas "civilizadas" e as "tribos" mais rurais e pastoris.

[...]

Childe enfatiza o papel do comércio no mundo clássico, e como ele foi importante para difundir culturas, ideias e pessoas. Os escravos, claro, eram comercializados, e não somente tinham função de trabalhadores: "entre eles havia também doutores altamente especializados, cientistas, como também artesãos e prostitutas [...] as civilizações orientais e mediterrânicas, tendo se fundido, estavam ligadas pelo comércio e pela diplomacia a outras civilizações do leste e aos velhos bárbaros do norte e do sul". Tal intercâmbio ocorria tanto internamente quanto entre sociedades.

As "tribos" da periferia, os chamados "bárbaros", ou seja, aqueles que não pertenciam às civilizações mais importantes, foram afetadas pelo grande desenvolvimento nas sociedades urbanas com as quais elas intercambiavam produtos, ajudando também no transporte de bens. Tais sociedades urbanas eram vistas como possíveis alvos:  por sua maior mobilidade, assaltar cidades e seu tráfico era um modo de vida para algumas "tribos". Foi essa situação descrita por Ibn Khaldun em seu texto do século XIV sobre o conflito, no norte da África, entre beduínos nômades e árabes sedentários [...] em que as tribos tinham maior "solidariedade" [...] se comparadas aos povos mais avançados tecnologicamente [...]. A maioria das grandes civilizações teve contatos semelhantes com suas "tribos" vizinhas e sofreu incursões semelhantes: os chineses dos manchus, os indianos dos timurids da Ásia Central, o Oriente Médio dos povos do deserto ao redor, os dórios na Europa. Não havia nada de excepcional nos ataques dos germanos e outros no mundo clássico, a não ser o de terem sido um fator importante na destruição do Império Romano e no eclipse temporário das extraordinárias realizações da Europa Ocidental. Entretanto, as tribos não foram simplesmente "predadoras". Eram importantes também [...] por si próprias e por noções de solidariedade, democracia e liberdade, aspectos quase universalmente associados aos gregos.

O que entendemos por Antiguidade tem sua origem, obviamente, na Grécia e Roma; é a narrativa mais sustentada pela maioria dos historiadores clássicos. Há um consenso de que a Antiguidade foi construída sobre um colapso anterior da civilização. Em 1200 a.e.c., "a Grécia se parecia muito com qualquer outra sociedade do Oriente Médio". [...]

[...]

Um dos resultados da interpretação em termos de invasão tribal da Grécia por tribos de fala ariana foi a negligência das contribuições semitas e a ênfase exagerada nas contribuições gregas para o que foram, sem dúvida, desenvolvimentos de grande importância. Por exemplo, nas formas de comunicação, os gregos adicionaram os sons das vogais ao alfabeto semita, portanto, aos olhos de alguns eruditos, "inventaram" o alfabeto. O novo alfabeto tornou-se o mais importante instrumento para comunicação e expressão. No entanto, na verdade, muito foi feito com o alfabeto consonantal, o suficiente para a produção do Antigo Testamento pelos judeus, que serviu de base tanto para o judaísmo como para o cristianismo e o islamismo. Isso já foi um enorme feito histórico, literário e religioso. Como também o foram as literaturas das línguas árabe e indiana que se desenvolveram a partir da versão aramaica dos escritos semitas, de novo sem vogais. [...]

Um tipo de alfabeto só de consoantes estava disponível na Ásia há muito, desde cerca de 1500 a.e.c., favorecendo a literatura de povos como os semitas, fenícios, hebreus, falantes de aramaico e, mais tarde, de árabe também. [...] Além disso, com outros tipos de escrita, a espécie humana fez milagres em termos de acúmulo e difusão do conhecimento, por exemplo, usando a escrita logográfica do Extremo Oriente. Mesopotâmicos e egípcios também produziram obras literárias substanciais usando manuscritos semelhantes, porém, em parte por razões linguísticas, são vistos pelos europeus como "orientais", em vez de clássicos. [...]

[...]

Contatos entre povos têm grande importância social, além de fornecer modelos de desenvolvimento, a contar da mudança do (puramente) oral para o escrito, da emergência de escritas logográficas, silábicas e alfabéticas, do advento do papel, da imprensa e da mídia eletrônica, essas formas se sucedem, mas não se substituem, como acontece com os meios de produção. [...]

GOODY, Jack. O roubo da história. São Paulo: Contexto, 2008. p. 37-43.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O nascimento da Europa

[A Idade Média] conservou o nome que lhe foi dado pelo Renascimento e que tinha, no começo, um sentido pejorativo: [era] uma época cruel ou "tenebrosa", ao mesmo tempo violenta, obscura e ignorante. Sabemos, atualmente, que essa imagem é falsa, mesmo que tenha existido uma Idade Média da violência: não apenas contra judeus, com o começo do antissemitismo, e repressão contra os rebeldes aos ensinamentos da Igreja, aqueles que eram chamados de "hereges", por meio da Inquisição. As Cruzadas, evidentemente, também fazem parte do balanço negativo.

Mas a Idade Média foi também, acho até que principalmente, um grande período criativo. Podemos ver isso nos domínios da arte, das instituições, sobretudo nas cidades (por exemplo, nas universidades), ou ainda no campo do pensamento - a filosofia que chamamos de "escolástica" atingiu altos patamares do saber. Também vimos até que ponto a Idade Média criou "lugares de encontro" comerciais e festivos (as feiras, as festas), que continuam a nos inspirar.

Iluminura medieval que mostra uma cena de aula numa universidade. O professor, de sua cátedra, lê sua lição, e os alunos acompanham com seus livros.

Além disso, a Idade Média realizou uma curiosa combinação entre a diversidade e a unidade. A diversidade é o nascimento daquilo que começa a constituir as Nações: a França e a Alemanha, a partir do século IX, a Inglaterra, no final do século XI, e também a Espanha, quando Castela e Aragão se reuniram pelo casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, no final do século XV. A unidade, ou uma certa unidade, vem da religião cristã, que se impõe por toda parte. [...] Essa religião reconhece a distinção entre clérigos e leigos, de modo que podemos dizer que a Idade Média, de modo geral, marcou o nascimento de uma sociedade leiga. [...]

Falta dizer que a Idade Média foi o período no qual surgiu e foi construída a Europa. Se cada período de civilização tem um papel, uma missão, no conjunto do desenvolvimento histórico, podemos dizer que a missão da Idade Média foi a de permitir o nascimento, de "engendrar" a Europa. Devemos hoje procurar consolidá-la e completá-la; a Idade Média legou, portanto, à Europa um movimento ao mesmo tempo de unidade e diversidade, que ainda pode servir de inspiração.

Não é por acaso que o termo "Europa", pouco frequente nos escritos da Idade Média, surge na metade do século XV, no título de um tratado atribuído ao papa Pio II.

LE GOFF, Jacques. A Idade Média explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2007. p. 111-113.