"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 16 de julho de 2016

Os celtas: as origens

Guerreiros celtas, Antoine Glédel

Gauleses? O termo, imposto pela tradição, não é claro. César, quando da conquista, restringe-o a uma parte dos habitantes da Gália independente: entre o Sena e o Marne, de um lado, o Garona e o Ródano de outro. Estes, diz ele, “chamam-se celtas em sua língua e gauleses na nossa”. O que, aliás, não impedia os romanos de atribuir à palavra “Gália” uma extensão muito mais considerável [...] E os gregos empregavam o nome de “celtas” e, mais tarde, na época helenística, também o de “gálatas”, para distinguir homens que viviam em regiões bem diversas, desde a Península Ibérica até o coração da Ásia Menor.

[...] A Arqueologia e a lingüística fornecem dados mais sólidos [...]

[...] A idade do bronze corresponde mais ou menos, na Europa Ocidental, ao II milênio a.C. [...] As antigas civilizações dos megálitos (menires, dolmens, aléias cobertas) e das palafitas (cabanas sobre estacas das aldeias lacustres), não só sobrevivem, como também ganham terreno. [...] Ao mesmo tempo surgem outras civilizações, particularmente a dos tumuli, que sepulta os mortos, com objetos familiares, sob montículos de terra e pedra [...] Depois, nos fins da idade do bronze e do II milênio a.C., verifica-se a propagação [...] da civilização Urnenfelder (“compos de urnas”), que pratica a incineração e constrói cemitérios de tumbas planas.

Desaparece, assim, durante a idade do bronze, o isolamento geográfico das civilizações neolíticas. Os contactos, certamente, multiplicam-se e as crenças misturam-se, ao mesmo tempo que as técnicas. [...] Quanto à antropologia, embora consiga distinguir os tipos humanos dominantes, na maioria das vezes isso permite-lhe apenas comprovar a existência de mestiçagens, aliás, muito antigas.

A situação só começa a clarear um pouco no princípio do I milênio a.C., com o aparecimento do ferro. Parecem ter sido as da Alta Áustria as primeiras jazidas exploráveis deste minério. A região, além disso, estava apta a sofrer, por intermédio da Ilíria, certas influências provenientes do Mediterrâneo Oriental. Em todo caso, a mais antiga civilização do ferro recebeu a designação de Hallstatt [...] Constitui-se ela entre 900 e 800 a.C. e estende-se por um território muito vasto. Com facies diferentes, dispersa seus tumuli de inumação ou incineração e seu armamento, cuja peça mais característica é uma espada amolada e afiada. [...]

Na realidade, nada em seus progressos, tais como a arqueologia os revela, nos indica que esses fossem realizados de maneira brutal, por conquistas, chacinas e destruições. [...] devem ter correspondido a deslocamentos humanos, mas sob a forma de infiltrações lentas e sucessivas ao longo dos vales fluviais, deixando subsistir os estabelecimentos anteriores que sofreram apenas absorção progressiva.

O mesmo verificou-se [...] com a civilização que, a partir do fim do século V a.C., sucedeu à de Hallstatt. Atribu-se-lhe o nome de La Tène, estação suíça situada perto da extremidade setentrional do lago Neuchâtel. Ela ocupa pouco a pouco o território da civilização precedente, substituindo imediatamente a espada por um sabre feito para talhar e, mais lentamente, os tumuli por sepulturas subterrâneas. Suas joias e seu mobiliário são mais ricos, com coral, esmaltes, contribuições estrangeiras mais numerosas e vindas de mais longe. Evolui, aliás, no sentido do aperfeiçoamento técnico e do enriquecimento, e o fim de seu terceiro e último período coincide com o seu desaparecimento, na Gália, em face da civilização romana implantada pela conquista.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu império. O Ocidente e a formação da unidade mediterrânica. São Paulo: Difel, 1974. p. 59-61. (História geral das civilizações, 3)