"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Alimentação e divisão de trabalho na Pré-história e no Peru pré-hispânico

Homens e mulheres incas realizando trabalhos agrícolas

Texto 1. As estratégias alimentares na Pré-história. As causas profundas desta mudança [da passagem do mesolítico para o neolítico] ainda são objeto de debate. [...] Mas o especialista Jacques Cauvin demonstrou que, no Oriente Próximo, a 'revolução neolítica' foi imediatamente precedida de uma fase de especialização na caça, observação que contradiz a hipótese de uma escassez de recursos. [...] J. Cauvin defende, portanto, a ideia de que a revolução neolítica não foi uma resposta às dificuldades econômicas, mas a expressão de uma mudança social e ideológica que acarretou modificações na relação profunda entre o homem e o meio. J. P. Digard, numa obra que renova o próprio conceito de domesticação dos animais, chega a conclusões análogas: o desejo de poder seria uma das razões profundas para o domínio sobre as espécies selvagens. [...]

A partir do paleolítico, os desenvolvimentos técnicos e econômicos permitem múltiplos e variados modos de conservação e de preparação dos alimentos. Desde esse período, também as escolhas alimentares se diversificam e orientam as estratégias econômicas, ao mesmo tempo em que são influenciadas por elas. [...] A partir do neolítico, graças a fósseis mais abundantes e mais bem conservados, isso se confirma. A alimentação pré-histórica não responde exclusivamente às necessidades nutricionais. Se foi assim na aurora da humanidade, tornou-se progressivamente expressão de opções culturais, reflexo de uma ideologia e quem sabe até, mais tarde, de relações de poder. [...]

Como resposta às necessidades individuais, a alimentação torna-se progressivamente elemento essencial de estruturação dos grupos, de expressão de uma identidade própria e origem de um pensamento simbólico. Catherine Perlès. As estratégias alimentares nos tempos pré-históricos. In: Jean-Louis Flandrin., Massimo Montanari (dir.). História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. p. 49, 51, 54.

Texto 2. A participação da mulher no Peru pré-hispânico. No Estado inca, como em outras partes do mundo, a situação da mulher variava segundo o nível social ao qual pertencia. As mulheres das classes altas e dirigentes gozavam de privilégios que as diferenciavam das mulheres dos hatun runa [os "grandes homens", responsáveis pelo pagamento de impostos] ou dos homens comuns.

Estas últimas tinham papel ativo nos trabalhos agrícolas. Guaman Poma (1936) ilustra a faina camponesa dos meses de junho a agosto e mostra os homens arando a terra e as mulheres agachadas esfarelando o terreno ou depositando as sementes ou tubérculos na terra, tarefa considerada puramente feminina por ser a terra do mesmo gênero.

Mario de Tapia e Ana de la Torre (1993) percederam que 60% das tarefas familiares no campo eram realizadas pelas camponesas, incluindo a semeadura, o cultivo, a colheita, a seleção e a conservação das sementes, além do cuidado dos animais.

Na tradição andina, a divisão do trabalho está bem definida entre os gêneros e não se pode transgredir os costumes. Enquanto a semente está na propriedade, o homem é responsável por sua colheita e transporte; uma vez em casa, a mulher assume a tarefa que lhe corresponde. Maria Rostworowski. La mujer en el Perú prehispánico. Lima: IEP (documento de trabajo 72, serie Etnohistoria, 2), 1995, p. 17, 18.

Texto 3. A distribuição dos alimentos. Mais do que uma necessidade nutritiva para manter a comunidade viva, os alimentos são focos de interação familiar e comunitária, já que há muitas dimensões culturais em que o alimento é central; no processo de obtenção e distribuição, nas trocas, no pagamento de impostos, assim como nas proibições de consumo. [...] As mulheres são responsáveis pela preparação e por servir os alimentos. Em muitos casos, o poder da mulher envolve também a distribuição dos alimentos. O envolvimento feminino na produção e armazenamento é mais variável, especialmente quanto ao controle dos meios de produção e da quantidade produzida [...].

[...]

A sociedade andina é claramente dividida por gêneros, mas é também reciprocamente dependente. [...] Há uma divisão sexual do trabalho na comunidade familiar, mas ela é flexível. O cumprimento de tarefas por diferentes pessoas leva à atribuição de diferentes valores a cada tarefa. [Cada uma das] tarefas claramente divididas por gêneros reflete níveis de poder diferentes. Christine A. Hastorf. Gender, Space, and Food in Prehistory. In: Robert W. Preucel, Ian Hodder. Contemporany archaeology in theory: a reader. Oxford: Blackwell, 1996. p. 461, 462, 465.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A sociedade feudal: "Alguns rezam, outros combatem e outros trabalham..."

Clero, nobreza e "povo". Essa iluminura medieval ilustra a ideologia das três ordens sociais.

"A sociedade dos fiéis forma um só corpo, mas o Estado tem três corpos: com efeito os nobres e os servos não se regem pelo mesmo estatuto [...] Uns são guerreiros, protetores das igrejas; são os defensores do povo, tanto dos grandes como dos pequenos, de todos, enfim, e ao mesmo tempo garantem também a sua própria segurança. A outra classe é a dos servos: esta desgraçada raça nada possui senão à custa de sofrimento. Quem, de ábaco na mão, poderia contar os cuidados que absorvem os servos, as suas longas caminhadas, os seus duros trabalhos? Dinheiro, vestuário, alimento, tudo os servos fornecem a toda a gente; nem um só homem livre poderia subsistir sem os servos. Há algum trabalho a realizar? Alguém pretende meter-se em despesas? Vemos os reis e os prelados fazer-se de servos dos seus servos; o senhor é alimentado pelo servo, ele, que pretende alimentá-lo. E o servo não vê fim para as suas lágrimas e suspiros. A casa de Deus, que cremos ser uma, está, pois, dividida em três: uns oram, outros combatem e os outros, enfim, trabalham. Essas três partes que coexistem não sofrem com a sua disjunção; os serviços prestados por uma são a condição da obra das outras duas; e cada uma, por sua vez, se encarrega de aliviar o todo. De modo que essa tripla associação nem por isso é menos unida, e é assim que a lei tem podido triunfar e que o mundo tem podido gozar de paz". Adalberón de Laon (c. 1020). In: LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.)

1. Estrutura política do feudalismo. O feudalismo foi consequência de uma situação econômica difícil, provocada por ondas de invasores (normandos, eslavos, árabes) e por guerras contínuas entre os vários reinos germânicos.


Os habitantes das cidades procuraram refúgio nos campos, passando a depender dos produtos da terra. Em consequência do abandono das cidades e da vida simples e rústica que passou a predominar, os ofícios e o artesanato decaíram, o comércio foi-se estagnando e parou quase por completo em face também da insegurança das estradas. Apenas cidades da orla mediterrânea, particularmente algumas cidades italianas (Veneza e Amalfi), permaneceram como núcleos urbanos e centro de comércio com o Oriente.

Nas regiões afastadas do litoral, a terra representava a única riqueza existente. Assim, quem possuía terras detinha o poder. Os grandes proprietários tornaram-se cada vez mais poderosos, à medida que os pequenos proprietários, em troca de proteção, lhes foram entregando suas terras. Os próprios reis, apesar de representarem a autoridade máxima, precisavam da ajuda financeira e militar dos ricos e poderosos, fossem eles leigos (condes e marqueses) ou religiosos (bispos e abades). Para garantir essa ajuda, os reis confiaram vastas glebas de suas terras, em benefício, aos proprietários mais influentes. Essas terras chamaram-se feudos (de uma palavra germânica significando gado, propriedade agrária). Mediante cerimônia solene, a investidura, o senhor de um feudo tornava-se vassalo do rei, prestando-lhe juramento de fidelidade, comprometendo-se a fornececer-lhe ajuda financeira e tropas armadas, auxílio que o soberano retribuía assegurando ao feudatário igual fidelidade, defesa de sua honra, e justiça.

Os vassalos do rei começaram, pouco a pouco, a distribuir parte de suas terras e senhores menos influentes que, por sua vez, distribuíram terras a outros proprietários ainda menos influentes, criando assim uma corrente de vassalos, uns subordinados a outros, em uma ordem hierárquica semelhante a uma pirâmide, em cujo vértice estava o rei.

Esta estrutura hierárquica, no entanto, ao invés de fortalecer os poderes do rei, enfraqueceu-os, pois cada vassalo acabou por exercer em seu feudo direitos que cabiam ao rei, como administração da justiça, cobrança de impostos, apelo às armas. O poder que assim se concentrou nas mãos dos feudatários fez com que muitos vassalos se tornassem, às vezes, mais poderosos do que o próprio rei. O território do rei parcelou-se em um grande número de propriedades, maiores ou menores, que escaparam totalmente ao controle do soberano.

2. A sociedade feudal. Estruturou-se rigidamente em classes distintas. A classe mais poderosa era formada pelos nobres, em ordem hierárquica, dos simples cavaleiros aos condes, marqueses e duques (antigos chefes militares, do latim dux= chefe).

Aos nobres cabia a responsabilidade da guerra, providenciar às próprias custas recursos bélicos (armas, armaduras, máquinas de assalto), o abastecimento das tropas e também cavalos, pois a cavalaria era de suma importância nas batalhas, sobretudo quando a Europa teve de enfrentar o ataque dos exímios cavaleiros árabes.

Gozavam de igual influência os ricos dignitários da Igreja (bispos e abades) aos quais cabia dirigir o culto e as práticas religiosas.

Formavam a classe inferior alguns poucos artesãos e a grande massa de camponeses, os servos da gleba, homens quase escravos, presos às terras dos senhores feudais: passavam de um proprietário a outro quando as terras mudavam de dono.


"Os clérigos devem por todos orar
Os cavaleiros sem demora
Devem defender e honrar
E os camponeses sofrer.
Cavaleiros e clero sem falha
Vivem de quem trabalha.
(Os camponeses) têm grande canseira e dor.
Pagam primícias (primeiras colheitas), corveias, orações ou a talha (parte da produção entregue ao senhor)
E cem coisas costumeiras.
E quanto mais pobre viver
Mais mérito terá (mérito que o resgata).
Das faltas que cometeu.
Se paga a todos o que deve,
Se cumpre com lealdade a sua fé,
Se suporta paciente o que lhe cabe:
Angústia e sofrimento."
(Estevão de Fougères, clérigo francês do século XII. In: DUBY, Georges. As três ordens ou o imaginário no feudalismo. Lisboa: Estampa, 1982. p. 309.)

Existiam ainda pequenos proprietários, homens livres, isto é, não vinculados a um feudo; mas estes eram pouquíssimos e praticamente nenhuma influência tiveram na sociedade feudal.

3. A economia feudal. Toda propriedade feudal bastava-se a si mesma, constituindo uma comunidade independente, autônoma do ponto de vista econômico.

Um feudo - que por vezes compreendia alguns vilarejos - era formado pelos domínios do senhor e por uma parcela agregada. O feudatário reservava exclusivamente para si a maioria das florestas, devido ao grande valor da lenha, e terras de melhor qualidade por ele destinadas a culturas mais rendosas, como a da vinha.

A parcela agregada, em que viviam os camponeses, fornecia os meios indispensáveis à subsistência do feudo. A produção tocava aos camponeses que, em troca, pagavam ao senhor tributos para utilizar o moinho e o forno de pão de propriedade exclusiva do feudatário, ou em espécie (cereais, ovos, galinhas, porcos, lã, tecidos de linho, utensílios, ferramentas). Além disso, eram obrigados a prestar três ou quatro dias por semana de serviços gratuitos ao feudatário para conservar em ordem construções, pontes, caminhos, margens de cursos de água, para trabalhar na colheita de frutas e abater árvores das florestas senhoriais.


Os doze trabalhos dos meses, Pietro di Crescenzi. Século XV.


O feudo, portanto, produzia praticamente todo o necessário, vindo de fora o sal, para conservação de carnes, e o ferro, para fabricação de armas, ferramentas e utensílios. A economia dessa época era uma economia mais ou menos fechada; concentrava-se no feudo e gravitava em torno da residência do feudatário, verdadeira fortaleza erguida no topo de elevações, protegida por fortes muralhas, o castelo.

Em consequência dessa economia quase fechada, estagnaram-se os intercâmbios comerciais na Europa e também como o Oriente, de onde provinham metais preciosos (ouro e prata), utilizados na cunhagem da moeda, que acabou desaparecendo da circulação. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 130, 132-134.


4. As características militares do feudalismo. O cavaleiro foi a figura característica da organização militar do feudalismo. Ser cavaleiro, com escudos, lanças, espadas, cota de malha e armadura, era privilégio da aristocracia, pois o acesso à cavalaria dependia da origem e da riqueza. Essa característica estava ligada à separação entre guerreiros e chefe que se dera na tribo germânica e também ao custo do equipamento completo de um cavaleiro, que era muito alto para os mais pobres. Era preciso ter muitas terras e servos trabalhando para sustentar um cavaleiro. Ou seja, somente a aristocracia feudal era capaz disso.


Uma das principais funções militares da cavalaria era garantir e ampliar os domínios dos senhores e reprimir rebeliões camponesas que ameaçassem o poder da aristocracia. Mas a militarização servia também para defender a cristandade contra seus inimigos, por exemplo, os muçulmanos, ao mesmo tempo que garantia a conquista de mais terras.


Os constantes combates acabavam destruindo as plantações e os campos. No século X, a Igreja interveio, propondo a Trégua de Deus, que determinava que não se poderia guerrear entre a quinta-feira e a segunda-feira pela manhã.


5. A Igreja medieval ocidental. A Igreja sobreviveu às crises e mudanças do final da Antiguidade e da Alta Idade Média. O clero monopolizava o saber em um mundo de analfabetos e foi responsável por conservar a cultura letrada da Antiguidade Clássica. Apesar de manter essa cultura atrelada a seus interesses de grande senhora de terras, a Igreja muito contribuiu para que o conhecimento não estagnasse.


A Igreja romana acumulou poderes que derivavam de sua riqueza material e da influência espiritual que exercia sobre as pessoas.


[...]


As doações de terras feitas pelos reis e senhores laicos à Igreja faziam com que seu poder político aumentasse, pois ia se transformando num "grande senhor feudal". Essa posição fazia com que a Igreja tivesse que lutar pela defesa de seus interesses tanto quanto os demais senhores feudais.


Mas o mais importante é que a Igreja católica exercia uma poderosa influência na sociedade. O controle que o clero detinha sobre a cultura reproduzia uma visão de mundo da Igreja; os padres, em seus sermões, passavam essa visão de um mundo dividido em classes, naturalmente desiguais. PEDRO, Antonio et all. História da civilização ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 98.


"A influência da Igreja não se limitou a regulamentar os bens e a vida das comunidades eclesiásticas: sua jurisdição também incidiu sobre os demais componentes da sociedade, os quais se subordinaram aos preceitos canônicos relativos à organização da família, graças à regulamentação do casamento, envolvendo dotes, heranças, direitos e deveres dos cônjuges e anulação do matrimônio devido a incesto, bigamia etc. Eram as paróquias que registravam os atos de batismo, casamento e falecimento, enquanto os tribunais eclesiásticos julgavam questões concernentes a testamentos, casamentos etc. Igualmente importante foi a sua ação na defesa dos fracos e oprimidos, através da moderação da rudeza dos costumes feudais, da concessão do direito de asilo e de ativa assistência social: por sua riqueza, pôde fundar e manter orfanatos, hospitais, leprosários e asilos; por seu poder, impôs o Asilo de Deus, que colocava sob proteção os que se encontrassem em domínios da Igreja [...]". AQUINO, Rubim Santos Leão de et all. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 512.


AQUINO, Rubim Santos Leão de et all. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008.
DUBY, Georges. As três ordens ou o imaginário no feudalismo. Lisboa: Estampa, 1982.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.
PEDRO, Antonio et all. História da civilização ocidental. São Paulo: FTD, 2005.

sábado, 15 de outubro de 2011

A Guerra do Paraguai (1864-1870)

Malditas todas las propriedades privadas
que nos privam de vivir y de amar!
(D. Pedro Casaldáliga, Tierra Nuestra, Libertad)

A paraguaia, Juan Manuel Blanes 

Quando o Paraguai se libertou do domínio espanhol, em 1811, Buenos Aires já era a sede dos interesses comerciais ingleses, que ditavam as normas para o comércio internacional na região do Prata. Com a Independência, assumiu o poder José Gaspar de Rodriguez de Francia, El Supremo. Exercendo um poder ditatorial contra os ricos oligarcas ainda ligados aos interesses da Espanha, o governo de El Supremo estabeleceu uma República Popular, que chamou de Ditadura Perpétua, de características bem próprias. Foi criada uma nova ordem econômica baseada em um cooperativismo, isto é, um regime de produção comunitária administrado pelo Estado. Liquidou-se "a impropriedade da propriedade privada, tornando-a propriedade coletiva". O governo promoveu a primeira grande reforma agrária da América Latina e deu-lhe infra-estrutura, fornecendo, além de terra, sementes, implementos agrícolas e gado aos camponeses. Criaram-se as Estâncias da Pátria, onde os camponeses produziam ajudados pelo Estado e dispunham de parte da produção como homens livres.

[...]

Ao mesmo tempo, o governo estabeleceu sua diretriz de acordo com a nova estrutura econômica. Nacionalizou a Igreja Católica, obrigando-a a romper com a Santa Sé, e transformou os conventos em quartéis para defender a soberania do país. Deste modo, eliminou o poder político e econômico da Igreja, igualando os sacerdotes aos homens do povo. Monopolizou, através do Estado, a exportação dos produtos excedentes, em prejuízo da burguesia mercantil, aplicando o lucro obtido em benefício do país. Além disso, empreendeu uma verdadeira revolução cultural, respeitando os costumes dos índios e eliminando o analfabetismo no Paraguai.

Apesar de tudo - e por tudo isso -, a fama de Francia como bárbaro e assassino espalhou-se desde o Prata até a Inglaterra. Por quê? Em síntese, porque sua violência era dirigida contra os ricos: nos cárceres políticos paraguaios da época não existiam pobres (ao contrário de hoje), mas somente ricos - exatamente os que poderiam se voltar contra seu governo.

Agora vejamos os motivos mais amplos. "Francia está organizando uma nação livre e demonstrando que é possível sobreviver sem a submissão a interesses estrangeiros e sem sustentar uma oligarquia parasita. O Paraguai passa a ser, já a partir desse momento, um exemplo péssimo para a América [...]. Por outro lado, El Supremo demonstrou que não há independência política sem independência econômica. Isso era fartamente sabido já naquele tempo: mais justamente pela sua evidência o exemplo paraguaio é mais incômodo. Tanto para os vizinhos dominados como para os dominadores." (CHIAVENATTO, J. J. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 20.)

Ao contrário do que dizem muitos historiadores, o isolamento do Paraguai durante o governo de Francia não foi escolhido, mas determinado por circunstâncias históricas: por não possuir porto marítimo para escoar seus produtos, o país dependia de Buenos Aires, cuja burguesia se ligava aos interesses imperialistas ingleses. Deste modo, o contrato firmado entre os dois governos para facilitar as exportações paraguaias nunca foi respeitado pelos portenhos, que, além disso, criaram um imposto adicional, especialmente sobre o fumo, principal produto paraguaio de exportação. Foi tentado ainda o contato direto com a Inglaterra, igualmente frustrado. Assim, entre perder a soberania do país ou mantê-la a todo custo, o governo de Francia preferiu a última: fechou as fronteiras, isolando o país contra o imperialismo inglês.

Sob os lemas Ordem e Progresso e Independência ou Morte, e apoiado nos camponeses, artesãos, pequenos comerciantes e industriais, construiu o primeiro país livre e soberano da América Latina, onde a liberdade não era um conceito abstrato, mas o direito à terra, ao trabalho e a seus frutos, traduzido na própria consciência nacional - só destruída com o extermínio de seu povo, em 1870, ao fim da Guerra do Paraguai.

"A crítica mais importante que se pode fazer, historicamente, ao ditador Francia, é ter exterminado a oligarquia econômica do seu país sem conseguir, paralelamente, criar uma classe dirigente. Isso, a longo prazo, foi fatal para o Paraguai - a falta de uma classe dirigente vinculada aos interesses nacionais foi sentida fatalmente por Carlos Antônio López e depois pelo seu filho, Solano López, nos conflitos com a Tríplice Aliança." (CHIAVENATTO, J. J. op. cit., p. 21-22.)

Com a morte de Francia, em 1840, assumiu o governo Carlos Antônio López [...]. Recebeu o Paraguai sem analfabetos, com pleno emprego e com uma estrutura sócio-econômica voltada para os interesses populares. O país estava pronto para o desenvolvimento, que era travado pelos elevados tributos impostos por Buenos Aires à exportação de seus produtos.

Para melhor entendimento do governo de Carlos Antônio López, faz-se necessária uma breve análise da conjuntura sócio-econômica dos outros países platinos naquele período. Eram sociedades dependentes da Inglaterra: alimentavam as indústrias inglesas com matérias-primas baratas e consumiam a preços altos os produtos industrializados da civilização. Aliás, civilização, progresso, ciência etc. eram conceitos muito bem aproveitados pela Coroa inglesa para justificar a ação imperialista na América Latina, sobretudo no Império do Brasil e em Buenos Aires, onde uma aristocracia rural e uma frágil burguesia, respectivamente - ligadas ao capitalismo inglês - dominavam o sistema político.

Nesse quadro, evidentemente, a soberania do Paraguai era uma contradição que precisava ser eliminada para o bem da Inglaterra e das classes dominantes platinas. [...] Quando Carlos Antônio López morreu, em 1862, foi sucedido por seu filho Francisco Solano López. Com uma indústria de base em desenvolvimento, o Paraguai já era o país mais progressista da América do Sul e sem dívida externa. Exercendo o poder também de forma ditatorial, Solano López continuou as diretrizes de seus antecessores.

A conjuntura internacional sofria mudanças que, de certa forma, precipitaram a Guerra do Paraguai. A Guerra de Secessão (1861-1865), nos EUA, refletiu na indústria têxtil inglesa na medida em que o Norte bloqueou o litoral dos Estados Confederados, impedindo as exportações sulistas de algodão para a Inglaterra. Consequentemente, muitas fábricas reduziram sua produção e a possibilidade de desemprego em massa ameaçava o próprio equilíbrio social da Inglaterra.  Se lembrarmos que o Paraguai produzia algodão de boa qualidade, poder-se-ia deduzir o óbvio: a Inglaterra compraria o algodão do Paraguai. Errado! A simples compra do algodão paraguaio era uma contradição para a expansão imperialista, pois fortalecia a economia do Paraguai, dando-lhe condições de, a longo prazo, concorrer com a própria Inglaterra nas suas exportações para o Prata. Na visão do imperialismo, o Paraguai - como seus vizinhos - deveria ser apenas um mercado consumidor tradicional de produtos industrializados e fornecedor de matérias-primas. Então, qual seria a saída para a Inglaterra? Destruir o Paraguai. Estava montado o palco para o primeiro ato da tragédia que caracterizou o aniquilamento do povo paraguaio: a Guerra do Paraguai.


Aspecto da Guerra do Paraguai, Victor Meirelles

Sob um manto de intrigas e calúnias, onde não faltaram as acusações de criminoso, ditador, bárbaro e assassino cruel ao Presidente Solano López, o Império do Brasil e a Argentina (economicamente dependentes da Inglaterra) invadiram o fraco Uruguai, então único aliado do Paraguai, e depuseram seu governo, colocando no poder Venâncio Flores, de tendência antiguaranis. Os pretextos foram vários, mas o objetivo apenas um: atrair o Paraguai em defesa do Uruguai e destruir seu modelo econômico, o que era desejado pelo empresariado inglês.

O Uruguai, por sua posição geográfica, era estrategicamente importante para a subsistência do Paraguai, o que, inclusive, havia levado os dois países a uma aliança de defesa mútua (1850). Desse modo, embora alguns historiadores apontem questões de fronteira (o que em parte era verdade, pois latifundiários brasileiros ocupavam terras uruguaias para criar gado) como causa da invasão argentino-brasileira ao Uruguai, a causa fundamental foi a já apontada: desestabilizar o governo uruguaio de Bernardo Berro e substituí-lo pelo de Venâncio Flores, o que foi feito em prejuízo, inclusive, de interesses brasileiros, representados pelo Barão de Mauá, que possuía grandes investimentos no Uruguai.

[...]

Substituindo o governo uruguaio, o Império do Brasil e a Argentina conseguiram a adesão de Venâncio Flores e firmaram o acordo que ficou conhecido como Tratado da Tríplice Aliança. Esse tratado já tinha sido sugerido pela diplomacia inglesa há pelo menos um ano, mas permaneceu secreto até pouco antes de ser assinado por seus representantes na América do Sul [...]. Segundo a Tríplice Aliança, o Paraguai deveria ser destruído e, entre outras coisas, "os troféus e presas que forem tomados ao inimigo se dividam entre aqueles dos aliados que tenham feito a captura". [...] Quer dizes, determinava-se a própria partilha do Paraguai. Esse tratado foi duramente criticado pelos governos do Peru, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e EUA.

[...]

Os aliados esperavam uma guerra rápida, pela própria superioridade militar de suas forças. Mas o Paraguai resistiu por cinco anos e a guerra só terminou com sua população quase exterminada. "Morreram 96,5% dos homens e dos sobreviventes apenas 1,08% tinha mais de 20 anos. Da população total (800 mil) morreram 75,75% (606 mil). O Paraguai foi destruído, aniquilado completamente [...]". CHIAVENATTO, J. J. O Negro no Brasil - da Senzala à Guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 195.

Essa resistência, que ameaçou levar à morte "até o feto do ventre da mulher", como reconheceu o Duque de Caxias ao Imperador do Brasil, explica-se pela própria coesão moral do exército paraguaio, que refletia a própria estrutura sócio-econômica do país.


El ejército de la Pátria será todo el pueblo en
ropa y dignidad de ser el pueblo en armas. Sus
efectivos, los campesinos libres...
(Francia, El Supremo)

[...]

A Guerra do Paraguai foi violenta de ambas as partes, mas deve-se assinalar que, enquanto os paraguaios se prenderam à brutalidade inerente à própria natureza do conflito, do lado brasileiro atrocidades que se caracterizaram como crime de guerra foram cometidos sob responsabilidade do Conde D'Eu, como o incêndio do hospital de Peribebuí, com todos os seus enfermos, velhos e crianças.


Trincheira de Curupayti (detalhe), Cándido López

Esta foi a Guerra do Paraguai. Quem a ganhou? Quem a perdeu?

Houve apenas um ganhador: a Inglaterra, que a financiara. O Brasil conseguiu algumas fatias de terras há muito desejadas e a Argentina anexou o Chaco Austral, igualmente cobiçado. Contudo, não se pode dizer que eles ganharam a guerra, pois a partir dela tornaram-se mais dependentes do capitalismo inglês, principalmente do Banco Rothschild, acumulando enorme dívida externa.

As condições a que ficaram reduzidos os poucos guaranis sobreviventes foram as piores possíveis.

"Para os humildes e estóicos camponeses do Paraguai, o futuro reservava agonias sem nomes [...] Os aliados foram libertar os guaranis de seu tirano e abrir de par em par as portas à civilização moderna, em forma de concessões, financiamentos e inversões estrangeiras e outras influências da Bolsa de Berlim, Londres, Nova Iorque e Buenos Aires. As bençãos do laissez-faire substituíram os males do 'paternalismo', e, como de costume, o camponês se converteu em peão explorado e sem terra." GONZALEZ, J. N. La Guerra al Paraguai - Imperialismo y Nacionalismo en el Plata. Buenos Aires: Sudestada, 1968. p. 104.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades americanas. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 170-176.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O fim da Idade Média: florescimento do comércio, das cidades e da cultura

Comerciante de especiarias

Por volta do ano 1000 o mundo cristão, depois de atravessar muitos séculos de desordens e devastações, começou a conhecer certa estabilidade econômica, social e política. O impulso dado ao comércio e o renascer das cidades, como centros de economia e cultura, permitiram à Europa dos séculos XII e XIII atingir um grau cada vez mais elevado de prosperidade.

* Florescimento do comércio. Por longo tempo a terra representara a principal fonte de riqueza. As cidades haviam-se em parte esvaziado e nos feudos abrigara-se a maioria da população empobrecida, durante o longo período de invasões. Quando estas cessaram registrou-se na Europa um sensível aumento de população e os feudos não puderam mais oferecer trabalho e abrigo ao crescente número de habitantes. Além disso, o progresso nas técnicas agrícolas foi diminuindo a necessidade de braços para a lavoura das terras dos senhores feudais. O aumento populacional e o progresso agrícola levaram parte da população camponesa a deslocar-se dos feudos para as cidades.

- Progresso agrícola. Uma série de inovações técnicas permitiu facilitar as tarefas de plantio e de colheita, conduzindo a uma produção agrícola maior. O arado de madeira foi substituído pelo arado de ferro, a charrua, que revolvendo a terra em profundidade, preparou melhor o solo para a obtenção de colheitas fartas. O peitoral, tipo de atrelagem, aproveitando melhor a força do cavalo, facilitou a tração de arados e carretas, antes puxados a bois. A introdução da ferradura para cavalares e muares deu-lhes resistência e mobilidade maiores, permitindo transportes mais rápidos a longa distância. Apareceu na Europa quase simultaneamente com o estribo. A água passou a ser usada como força motriz para funcionamento de moinhos e de serras, antes movidos à mão, dispensando, assim, o emprego de mão-de-obra numerosa. Foi iniciada a cultura da aveia que, substituindo a cevada, melhorou consideravelmente, com seu alto valor nutritivo, a alimentação tanto humana como animal. Intensificou-se a cultura da vinha, tornando-se cada vez mais rendosa, e a criação de ovelhas foi aumentando à medida que um comércio crescente de tecidos de lã exigia qualidade sempre maior de matéria-prima.

Com o aumento populacional cresceu a demanda de produtos agrícolas, levando camponeses a deslocarem-se para outras regiões de terras ainda virgens, que foram desbravadas e cultivadas; derrubaram florestas, drenaram pântanos e conquistaram novas áreas ao mar, construindo diques de proteção.

- Desenvolvimento do artesanato e do comércio. O artesanato que durante muito tempo ficara reduzido, começou a ganhar importância quando elementos provenientes de zonas rurais procuraram novas condições de trabalho nas cidades, aí desenvolvendo  atividades artesanais das mais variadas. Para defender seus interesses os artesãos organizaram-se em ligas, grêmios ou corporações, segundo o ofício que exerciam, sob a proteção de um santo padroeiro. Os objetivos das corporações eram: 1. regulamentar a profissão, a fim de que somente o indivíduo habilitado pudesse exercê-la; 2. controlar a qualidade e o preço do produto, para defender o bom nome da classe e dificultar a concorrência; 3. amparar os artesãos necessitados; 4. dirigir o aprendizado da profissão.

O desenvolvimento do artesanato reativou o comércio; os vários artigos produzidos pelos artesãos começaram a ser vendidos por comerciantes que, a princípio, se deslocavam de aldeia em aldeia, de cidade em cidade (segundo metade do século X).

Assim o comércio foi-se restabelecendo, aumentando gradativamente; as rotas comerciais multiplicaram-se e estenderam-se. Em pontos de confluência dessas rotas localizaram-se, a partir do século XI, importantes feiras, centros de comércio dos mais variados artigos provenientes de países os mais diversos. Desempenharam papel de destaque as feiras da Champanha (França), onde se reuniam, periodicamente, comerciantes de toda a Europa.

Os comerciantes, assim como os artesãos, formaram associações corporativas, ou ligas, para a defesa de seus interesses e a expansão do comércio a vários países. As corporações de comerciantes tornaram-se muito poderosas por volta do século XIII, quando surgiu a mais famosa dessas associações, a Liga Hanseática (de Hansa = companhia), de comerciantes alemães, que chegou a congregar 80 cidades, chefiadas pelos portos de Lübeck, Bremen, Hamburgo e Colônia (no Reno).

As atividades comerciais, de importação e exportação de produtos, irradiaram-se, por mar e por terra, de três grandes regiões econômicas: Itália, Flandres, costas do Mar Báltico.

Portos italianos se enriqueceram comerciando com o Oriente. Veneza importava em larga escala especiarias (cravo, canela, noz-moscada, pimenta), compradas no Egito e na Síria às caravanas mercantes provenientes da Arábia, da Índia e da China. Transportava para a Europa carregamentos de produtos da terra como arroz, laranjas, damascos, figos, passas e produtos fabricados, tais como perfumes, medicamentos, substâncias corantes e tecidos (algodão, seda, gaze, musselina). Para o Oriente, exportava madeiras e armas. Gênova, depois do século XII, passou a exportar para o Oriente os tecidos de lã de Flandres e Florença, que no fim da Idade Média se haviam tornado comercialmente tão importantes quanto as especiarias.

Em Flandres, Bruges adquiriu, no século XIII, extraordinário destaque internacional, substituindo as feiras periódicas que haviam diminuído em virtude de se terem os comerciantes fixado nas cidades. Isso permitiu contato permanente entre comerciantes de vários países, que mantinham em Bruges grandes lojas, depósitos e armazéns. Além disso, era o principal porto de encontro dos navios mercantes do Mar do Norte e do Báltico.

Quando navios alemães, mais pesados, possibilitaram melhor transporte a grandes carregamentos, a Liga Hanseática passou a dirigir o comércio no norte da Europa, conquistando a mesma importância que tinham os portos italianos no Mediterrâneo.

Bruges continuou centro de ativo comércio para onde convergiam os navios da Liga Hanseática, trazendo trigo da Prússia; peles e mel da Rússia; madeira, alcatrão, peixes secos, arenques salgados das regiões escandinavas e levando lã da Inglaterra, sal e vinhos da França.

Não menos de 150 navios sobem o Zwin, dispersam-se pelos canais, e confundem-se, no crepúsculo, os telhados pontiagudos das casas, os campanários das igrejas, as asas abertas dos moinhos com a floresta entrelaçada de seus mastros. Do fundo de seus porões, marinheiros de todas as raças, do poente e do levante, ou dos frios e sombrios países do Norte descarregam numerosos fardos nos quais se encontram, lado a lado, a cera, o cobre, os couros de Marrocos, as especiarias do Egito, da Arábia e do Sudão, as tâmaras do deserto, os limões, as romãs e o azeite de Navarra e de Andaluzia, as peles da Rússia, os metais da Polônia, a cutelaria da Inglaterra, os vinhos das margens do Reno e os da França. (De uma crônica flamenga do século XV)

A quantidade de mercadorias transportadas pela Hansa foi igual ou mesmo maior do que a transportada no Mediterrâneo. No entanto, os capitais empregados e os lucros obtidos foram menores. Daí a grande influência financeira dos comerciantes italianos no fim da Idade Média.

O reflorescimento do comércio trouxe ampla circulação do dinheiro. Apareceram moedas cunhadas em metal precioso: em ouro, o florim (Florença), o ducado (Veneza), o escudo (França), o cruzado (Portugal); em prata, a libra esterlina (Inglaterra), adquirindo todos enorme prestígio nos mercados europeus.

Em conseqüência da importância crescente da moeda, nasceu, da classe dos comerciantes, a profissão de cambista. Os cambistas, além de fazerem o câmbio (= troca) do dinheiro, controlavam o peso e o teor em metal precioso das moedas. Como trabalhavam junto a um banco ou balcão de madeira, passaram também a ser chamados banqueiros. Os primeiros cambistas surgiram na Itália e logo banqueiros da cidade de Florença passaram a facilitar transações comerciais, introduzindo novo sistema de pagamento por meio de cheques e letras de câmbio, a aceitar depósito em dinheiro dos comerciantes ou fazer-lhes empréstimos.

As facilidades nas transações comerciais, os contatos múltiplos entre homens de negócio de vários países enriqueceram de modo extraordinário a classe dos comerciantes, permitindo-lhes tornarem-se uma potência financeira da qual até mesmo os reis chegaram a depender.

* Florescimento das cidades. A retomada da vida econômica, a concentração de atividades artesanais e bancárias nos núcleos urbanos deu enorme impulso às cidades, cuja vida, durante largo tempo, havia dependido exclusivamente da agricultura circunvizinha e de mercados locais que supriam as necessidades mais prementes de seus habitantes.

Além de garantir com suas muralhas proteção e segurança a um número sempre crescente de moradores, as cidades passaram a oferecer boa oportunidade de lucros a todas as classes: comerciantes, artesãos e camponeses das vizinhanças.

Com o aumento da população as cidades tiveram de ampliar-se. À volta do primeiro núcleo fortificado - onde se erguia a catedral, o palácio do bispo e, por vezes, o castelo do senhor de terras - surgiu novo núcleo, também cercado de muralhas, que se foi tornando mais importante do que o primitivo núcleo, à medida que nele se estabeleciam os prósperos artesãos e comerciantes. Os moradores desse segundo núcleo chamaram-se burgueses (da palavra alemã burg = fortificação), constituindo uma nova classe de homens livres, desvinculados do sistema feudal.

A liberdade tornara-se indispensável ao exercício de novas profissões; já no século XII o servo da gleba considerava-se livre depois de ter morado um ano e um dia em uma cidade. Tornou-se conhecida a frase alemã: "O ar da cidade torna o homem livre".

Todo aquele que vier à cidade tem permissão de aqui se estabelecer livremente e sem ser molestado. Quem tiver residido por um ano e um dia na cidade, sem que qualquer senhor tenha exigido sua volta, gozará, daí em diante, e com toda a segurança, de liberdade incontestável. (Dos Direitos da cidade de Friburgo, 1120)

Desde o início do desenvolvimento das cidades os burgueses buscaram instituir governos próprios, as comunas, e lutaram para conseguir os chamados foros ou forais ou cartas de franquia que lhes garantissem esse direito. A autonomia administrativa das comunas, consolidada no século XII, tinha como principal objetivo fortalecer o sistema defensivo da cidade. Era dever de cada morador contribuir de acordo com seus ganhos para a construção e conservação das muralhas da cidade; esse tributo ou imposto pago em benefício do bem comum substituiu o tributo arbitrário fixado pelo senhor feudal em benefício próprio. Os impostos destinavam-se também à construção de mercados, embarcadouros, pontes, igrejas paroquiais, a disciplinar o exercício do artesanato, a controlar o suprimento de gêneros.

Uma cidade, ao tornar-se independente, elegia um prefeito e um conselho de magistrados encarregados de recolher impostos e zelar pela manutenção da ordem e da segurança da comuna. O território de cada comuna tinha os mesmos privilégios que eram conferidos aos seus habitantes; era lugar de refúgio e liberdade; pátria, para os moradores de uma comuna, era a sua cidade e nenhuma pessoa de fora podia nela residir sem prévio consentimento da comuna.

A evolução das cidades rompeu a estrutura feudal, criando um clima propício ao florescimento cultural, ao aparecimento das nacionalidades, dos Estados modernos.

* Florescimento da cultura. Para atender ao crescimento da população e às exigências de uma sociedade ampla e diferenciada foi necessário reorganizar os centros de primeiros estudos (escolas paroquiais), bem como organizar centros de estudos mais adiantados, em conventos maiores. Estes centros de estudos adiantados adquiriram grande importância, estabeleceram regulamentos próprios, constituindo-se em comunidades, semelhantes às corporações de professores e estudantes, e dando origem às universidades, que foram para os burgueses importante fator de ascensão social. Em todas as universidades os estudos eram feitos exclusivamente em latim, facilitando assim aos estudantes de várias regiões seguirem cursos de sua preferência em uma ou outra universidade e aprimorando ao mesmo tempo a formação religiosa tão característica do mundo medieval.

A força da religião cristã e o papel da Igreja influenciaram de modo decisivo todos os setores da vida intelectual e artística. Com as universidades expandiu-se a vontade de saber e os estudiosos preocuparam-se em obter conhecimentos mais vastos, para isso traduzindo para o latim obras científicas e filosóficas de autores gregos e árabes.

No campo da filosofia mereceram grande atenção os escritos de Aristóteles; do confronto de seu pensamento lógico com os ensinamentos da Igreja surgiu a filosifia Escolástica, cujo maior representante foi São Tomás de Aquino. Em sua obra, Suma Teológica, São Tomás tentou resolver a controvérsia surgida entre fé e razão (filosofia aristotélica), declarando que ambas são dádivas de Deus: certas verdades são entendidas pela razão, outras percebidas através da fé.

No campo das ciências, traduções de obras árabes e gregas exerceram grande influência no mundo medieval: permitiram ampliar os estudos matemáticos adotando os algarismos árabes, a álgebra, a trigonometria, a geometria euclidiana; contribuíram para o progresso dos estudos biológicos e médicos.

A invenção da bússola, de outros instrumentos náuticos e do leme fixo das embarcações, o aperfeiçoamento dos guindastes para melhor serviço nos portos e a feitura de mapas de navegação mais precisos deram grande impulso à arte de navegar, abrindo caminho para as descobertas geográficas da Idade Moderna.

A influência da Igreja manifestou-se também em certas produções literárias redigidas em latim. Destacaram-se os autos sacros, peças em torno da vida de Cristo, da Virgem Maria e dos santos, representadas dentro das igrejas e, mais tarde, em adros, em praças de mercado, feiras, edifícios de corporações.

O latim clássico, porém, já não era acessível ao povo, que começara a desenvolver formas literárias em vulgar. Chamou-se vulgar à alteração sofrida pela língua latina em contato com os idiomas falados por diferentes povos em diferentes regiões. Do vulgar foram evoluindo, pouco a pouco, as várias línguas europeias. Nesses idiomas, em fase de evolução, foram escritas narrativas épicas rememorando feitos heróicos nas lutas contra os invasores. Destacam-se: no século VIII, o Beowulf (redigido em anglo-saxão, base do inglês); no século XI, a Canção de Rolando (em francês antigo); no século XII, a Canção dos Nibelungos (em alemão antigo). Vinculadas às cortes medievais, à vida aventurosa e errante dos cavaleiros desenvolveram-se a poesia e a prosa cavalheiresca bem como a poesia lírica, composta por trovadores e menestréis que, de castelo em castelo, cantavam a honra, a coragem, o dever, o amor, a dedicação do cavaleiro e a formosura, a meiguice, a fragilidade de sua dama. No século XIII surgiu Dante Alighieri, o primeiro grande poeta que resumiu a visão filosófica e o espírito religioso do mundo medieval, descrevendo em sua obra Comédia (mais tarde conhecida por Divina Comédia) uma viagem imaginária, simbólica, através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Os escritos de Dante, tanto os redigidos em latim quanto os redigidos no dialeto de lorença, serviram de inspiração a outros poetas e o dialeto florentino deu origem ao italiano.

Assim como a literatura, também a arquitetura, a escultura, a pintura atestam a poderosa inspiração da fé religiosa. A arquitetura foi caracterizada por dois estilos, o românico e o gótico. O estilo românico lembra certas dominantes dos edifícios de Roma antiga. Usou paredes espessas, colunas maciças, arcos redondos, desenvolvendo-se na horizontal. O estilo gótico, cujas principais características são altas colunas e arcos em ogiva, desenvolveu-se na vertical. Paredes menos espessas permitiram a abertura de amplas janelas ornamentadas por magníficos vitrais coloridos. As fachadas das catedrais góticas foram ricamente ornadas de esculturas. Dominando boa parte da Idade Média, o gótico difundiu-se por toda a Europa, marcando também a construção de palácios e edifícios públicos.

Ao lado da pintura, cuja expressão mais significativa é dada pelas obras dos artistas italianos Cimabue e Giotto, alinharam-se as artes menores representadas por esplêndidos trabalhos em esmalte, mármore, bronze, ourivesaria, e em tapeçaria usada para decorar as paredes dos palácios.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 155-163.

sábado, 14 de maio de 2011

Regimes de produção: comunidade primitiva, servidão coletiva e escravismo antigo

Agricultores. Pintura feita na tumba de Nakht (Egito). 


COMUNIDADE
PRIMITIVA

SERVIDÃO
COLETIVA
ESCRAVISMO ANTIGO
E
C
O
N
O
M
I
A
Divisão natural do trabalho
- sexo e idade; caça, pesca, coleta
Propriedade comum da terra
- todos possuem coletivamente os meios de produção
Trabalho coletivo
Inexistência de classes sociais
Tribo
- organização gentílica
Ausência de comércio
Divisão social do trabalho
- agricultura e pastoreio
- artesanato
Propriedade jurídica das terras: Estado
Posse coletiva das terras: aldeia (paga imposto ao Estado)
Servidão coletiva
Classes sociais
- representantes do Estado
- trabalhadores das aldeias
Comunidade gentílica ou de aldeia
Comércio desenvolvido
Divisão social do trabalho
- agricultura e pastoreio
- artesanato
Propriedade privada
- proprietários individuais
- não-proprietários
Escravidão individual
Classes sociais
- aristocracia
- escravos
Família restrita
Comércio desenvolvido


P
O
L
Í
T
I
C
A
Inexistência de Estado
- chefe: função de liderança (geralmente os mais velhos)
- não há diferença entre o líder e os demais componentes da comunidade (autoridade natural)
Despotismo oriental
- concentração de poderes nas mãos de um monarca cuja autoridade tem uma base religiosa
- funções do Estado
   . dominação
   . organização da produção
   . tributação
   . defesa

Estado escravista
- monarquias ou repúblicas aristocráticas
- funções do Estado
  . dominação
  . defesa
I
D
E
O
L
O
G
I
A
Religião mítica
- fetichismo
- totemismo
-magia simpática
- práticas rituais
   . antropofagia
   . suicídio
Religião
- base ideológica do Estado
- politeísmo
Religião
- politeísmo

AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das Sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 131.