"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 19 de outubro de 2013

Estigmatizados e perseguidos pelos nazistas: ciganos, judeus, homossexuais, eslavos, comunistas...

Os condenados, Felix Nussbaum
 

Os ciganos, outro alvo do nazismo, por serem vistos como constituintes de uma raça bastarda, de marginais e parasitas, também foram estigmatizados, levando na roupa um triângulo negro com o objetivo de se fazerem reconhecidos. Em 1939 havia em torno de 750 mil ciganos na Europa; cerca de 260 mil deles foram exterminados durante a guerra. [...]

A implantação do processo de aborto e esterilização permitiu que os médicos ficassem mais acostumados a intervir no corpo humano, mas nem por isso as mortes eram menos comuns. Depois de experimentos químicos e com o uso de raios X, os métodos abortivos foram aprimorados; criou-se, por exemplo, a injeção uterina, que diminuía os riscos de hemorragia e evitava outras complicações. Experiências dessa natureza eram feitas em mulheres judias e ciganas até que fossem devidamente testados os mecanismos de contracepção e de eugenia. [...]

Fileiras de cadáveres no campo de concentração de Nordhausende, Alemanha, 1945

Para uma visão de mundo que considera o diferente uma anomalia, não era difícil classificar o homossexual como culpado e dispensar-lhe o mesmo tratamento dado aos outros grupos perseguidos. [...] Em 1940, Himmler radicalizaria seu discurso: "É preciso abater esta peste pela morte". Os homossexuais eram obrigados a usar um triângulo rosa que os distinguia, classificava, isolava, estigmatizava, tornando-os presa fácil do racismo que crescia a cada dia.

Os eslavos, por sua vez, também eram vistos como subumanos pelos nazistas. Entre eles, os poloneses sofreram particularmente. As elites foram neutralizadas; a população, subjugada. Na verdade, durante todo o século XIX, a Polônia permaneceu dividida entre as grandes potências da região (Áustria, Rússia e Prússia), o que muito deve ter colaborado para a formação de um conceito depreciativo desse povo por parte dos nazistas. Provavelmente a fragilidade tão à mostra desse país muito contribuiu para que os nazistas, cujo pensamento considera as mudanças e os acasos da história como incompetência de sujeitos sociais incapazes de serem vencedores, formassem um conceito extremamente negativo dos poloneses. Hitler e seus seguidores tinham uma repulsa doentia pelo que consideravam fraqueza nas pessoas, grupos ou povos - "fraqueza" que, na realidade, é apenas sinal de vida. [...]

Os soviéticos sofriam duplo preconceito, por serem eslavos e por serem comunistas. Em relação a eles também o objetivo era a destruição completa. A invasão da União Soviética pela Alemanha, em junho de 1941, reforçou a arrogância dos alemães, e o massacre impetrado a civis e militares deu-lhes a ilusão de que o objetivo seria atingido. Entre 1941 e 1945, 60% dos 5 milhões e 700 mil prisioneiros de guerra soviéticos foram mortos pelos alemães. [...]

Os campos de concentração e extermínio, locais onde se eliminavam os que eram considerados dissonantes do todo homogêneo e coerente imaginado pelos nazistas, foram a materialização perfeita da visão de mundo totalitária. Ali a humanidade seria depurada, e a produção da morte em massa possibilitaria a emergência de uma nova raça, idêntica a si mesma, ou seja, mais "pura" e pronta para o domínio universal. Nos campos estava condensada a essência do regime nazista.

CAPELATO, Maria Helena; D'ALESSIO, Márcia Mansor. Nazismo: política, cultura e holocausto. São Paulo: Atual, 2004. p. 32, 92-95. (Coleção Discutindo a história)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cultura popular e vida cotidiana na Europa moderna

O Renascimento, que marcou a cultura europeia da época moderna, impregnou-a de valores eruditos e elitistas.

Até por volta da segunda metade do século XX, a historiografia tradicional nem sequer levantava questões sobre a vida das pessoas comuns. Atualmente, porém, as questões envolvendo a vida, as ações, os sentimentos e as concepções de homens e mulheres comuns constituem um dos principais campos de estudos históricos, gerando novos temas, como a história dos oprimidos, excluídos, marginais e vencidos. Isso indica um tipo de avaliação qualitativa sobre o sentido histórico da expressão povo em oposição à história dos grandes homens, isto é, os vencedores, dominantes, opressores e heróis.

Essa nova abordagem requer, também, a utilização de novos tipos de documentos e/ou uma nova leitura dos documentos tradicionais. Nesse sentido, há dois tipos de fontes fundamentais: as obras de arte - literatura e artes visuais -, que em geral registram a vida das pessoas comuns, incluídas no conjunto da sociedade; e os documentos jurídicos e inquisitoriais, entre os quais se encontram processos contra os transgressores das normas vigentes, isto é, os oprimidos e marginalizados.


A leiteira, gravura de 1510 do artista holandês Lucas de Leyde.

* Homens e mulheres comuns. Os grandes (como os reis) eram poucos e quase todos aparentados. Podem, assim, ser conhecidos em suas individualidades. Já o povo, formado pelos mais diversos grupos e categorias sociais - que em muitos casos nem a mesma língua falavam, é mais facilmente conhecido por meio de tipos, componentes de uma multidão (camponeses, soldados, artesãos).

Dois setores fornecem alguns tipos mais significativos da cultura popular e do modo de vida de homens e mulheres comuns, na época moderna: o trabalho e a feitiçaria.

* Trabalho e cultura popular. O trabalho era o principal elemento de identificação da parte da população conhecida como povo. Na Europa moderna, 80 a 90% dessa categoria ainda era constituído por camponeses. Entretanto, a importância dos trabalhadores urbanos foi crescendo gradualmente.

Na época moderna, o campo e a cidade partilhavam de uma identidade popular comum, conferida por sua posição frente aos poderosos. Para estes, o trabalhador, do campo ou da cidade, seria o povo e, como tal, alguém a ser sobretudo controlado.

Embora partilhassem de uma identidade comum, camponeses e cidadãos (habitantes da cidade) hostilizavam-se. Ou melhor, os cidadãos desprezavam e discriminavam os camponeses.

- A vida nos campos. Entre os camponeses havia uma diversidade muito grande, conforme as regiões que habitavam e as atividades que desenvolviam. Os homens do campo eram agricultores, artesãos, pastores, mineiros. Entre eles havia muitas diferenças culturais e antagonismos.

Os agricultores estavam ainda muito marcados pelas estruturas feudais, algumas das quais persistiram durante toda a época moderna. Entre os pastores, porém, eram raros os servos da gleba; já os artesãos levavam vida itinerante, praticando seu ofício em diferentes aldeias.

Cada grupo desenvolvia culturas distintas e próprias. As canções, poesias, danças e outras manifestações populares revelam uma extraordinária diversidade de condições de vida e visões de mundo.

De modo geral, a cultura popular camponesa apresentava profundos vínculos com as tradições pagãs, notadamente nos aspectos religiosos. Muitos mitos e práticas rituais cristãs eram adaptações ou mesmo transposições de cultos e lendas referentes às antigas divindades e seres sobrenaturais. Por isso, no imaginário popular moderno, o espaço do campo era habitado por seres fantásticos (duendes, anões, gnomos, fadas, bruxas, magos e prestidigitadores de toda sorte) que interagiam e interferiam na vida dos seres humanos. Acreditava-se que percorriam os campos e as aldeias, às vezes auxiliando, mas quase sempre causando medo e prejuízos aos habitantes.

Esses seres eram considerados poderosos, podendo ser conjurados por meio de mágicas e sortilégios, tanto para fazer o bem quanto para provocar malefícios.

- O cotidiano nas cidades. Embora ainda vigorassem instituições e normas feudais na regulamentação dos ofícios e da prática do comércio, as atividades nas cidades eram cada vez mais desenvolvidas de acordo com as novas exigências capitalistas. O trabalho assalariado tornou-se predominante, e a produção manufatureira submeteu-se às necessidades do comércio, ficando mais sob o controle de quem vendia as mercadorias do que de quem as produzia.

A cultura popular nas cidades apresentava-se, mais do que no campo, extremamente diversificada. Apesar das modificações das formas de trabalho, os artesãos urbanos continuavam organizados em corporações ou guildas que, além de defender os interesses da categoria, eram responsáveis por manifestações culturais específicas.

As festas, a arte, a religião ensejavam os mais diferentes tipos de manifestações culturais da população urbana, cujos registros - alguns recolhidos bem posteriormente - compõem uma espécie de patrimônio constituído de poemas, canções, pinturas e peças de teatro que representam a modernidade tanto quanto as belas-artes clássicas do Renascimento.

* Feitiçaria e Inquisição. O crescimento da massa trabalhadora, do qual dependia o desenvolvimento econômico das nações modernas, e as mudanças em sua condição de vida eram ensejos para muitas situações de conturbação da ordem e conflitos, sobretudo quando havia carestia ou escassez dos gêneros de subsistência. Ou, no contexto das reformas religiosas, quando havia contestação às igrejas oficiais.

Nessas ocasiões, os trabalhadores eram tratados como transgressores, tanto da ordem social como da ortodoxia religiosa.

Dentre os diversos tipos de transgressores, os praticantes da feitiçaria - ou mais especificamente as feiticeiras - eram apontados como os principais perturbadores da ordem terrena e divina.

O desenvolvimento da modernidade tinha por fundamentos o humanismo e o uso da razão, do discernimento crítico. No entanto, isso não foi capaz de conter, e talvez tenha até estimulado, um dos mais violentos e irracionais processos de perseguição a pessoas cujo crime era ser diferente, estranho, isto é, pessoas consideradas o outro.

A instituição que chamou a si o encargo e o presumido direito de exercer o controle sobre o pensamento e a ação das pessoas, vigiando, coibindo e punindo os desvios e as contestações, foi a Inquisição.

As pessoas identificadas como hereges eram consideradas "perigosas e ameaçadoras" para as instituições e a sociedade organizada. Dois grupos foram os principais enquadrados nessas categorias: os cristãos-novos (judeus) e os praticantes de feitiçaria. Entre estes últimos, embora houvesse homens, a grande maioria era de mulheres. Herdeiras da misoginia medieval, também eram muito discriminadas na época moderna.

A perseguição inquisitorial aos judeus convertidos ao catolicismo foi típica, quase exclusiva, dos países da península Ibérica, estendendo-se às suas colônias na América. As feiticeiras foram caçadas em toda a Europa. O período compreendido entre o século XV e meados do século XVI foi marcado pela caça às bruxas.

Além da violência da execução, os processos inquisitoriais admitiam o uso da tortura como meio de obter a confissão das acusadas. Mesmo que escapasse da morte, a mulher não estava livre dos tormentos.

O tribunal religioso recebia as denúncias, interrogava e concluía pela culpa ou não dos acusados. Os considerados inocentes (raros) eram liberados, depois de pagas as custas do processo. Os condenados a cumprir penitência eram mantidos em prisão perpétua pela Igreja.

Os culpados de falta grave, os que não confessavam sua culpa e os reincidentes eram entregues ao poder laico, que, depois de um novo julgamento meramente formal, estabelecia e executava a sentença de morte. A condenação e a execução deviam ser assumidas pelo Estado, pois a Igreja, generosa e caridosa por definição, não podia sujar as mãos com o sangue dos cristãos.

* Expansão do mundo moderno e o outro. A modernidade europeia foi múltipla e diversificada. Foi uma época marcada pelas criações fulgurantes da arte renascentista e pela intolerância em relação ao outro - diferente e, por isso, inimigo -, reafirmada pela renovação religiosa. Nesse período a Europa expandiu suas fronteiras continentais pelo mundo, sem reconhecer limites, como afirmam os versos de Camões, em Os Lusíadas:

Por mares nunca dantes navegados
Nossos mundos ao mundo ião mostrando
E mais mundo houvera lá chegara.

Mas nos novos mundos havia outros povos, diferentes dos europeus. Para cada novo e estranho povo, tratado como o outro, o inimigo, não faltaram fogueiras... e outras penitências!

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 265-269.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Quem matou Alexandre, o Grande?

Alexandre, o Grande se recusa a tomar água, Giuseppe Cades

Babilônia, 11 de junho de 323 a.C.: por volta das 5 horas da tarde, Alexandre, o Grande, morre aos 32 anos, depois de conquistar um império que ia da atual Albânia até o leste do que hoje é o Paquistão. A pergunta sobre o que, ou quem, matou o rei da Macedônia nunca foi respondida com sucesso. Agora, novas teorias estão reabrindo um dos casos mais antigos da história.

As especulações sobre a morte de Alexandre começaram antes mesmo de o corpo do rei esfriar, mas recentemente novas hipóteses vieram à tona. O debate atual foi estimulado pelo filme Alexandre, de Oliver Stone, lançado em 2004. Sejam quais forem suas falhas artísticas, a produção apresenta uma teoria bem apoiada em pesquisas históricas sobre quem matou Alexandre e por quê.

[...]

[...] quando o rei caiu gravemente doente e morreu, os 50 mil homens de seu poderoso exército ficaram em choque, sem saber quem seria seu próximo líder, já que Alexandre não havia planejado sua sucessão e até então não tinha nenhum herdeiro legítimo. O súbito desaparecimento do rei macedônio revelou-se catastrófico e deu início a um período de 50 anos de instabilidade e disputas [...].

É perturbador pensar que o mero acaso - um gole de água do riacho errado ou uma picada de mosquito - tenha posto o mundo antigo em um rumo tão inesperado e perigoso. Uma explicação que atribui a mudança à ação humana pode ser tranquilizadora, mas aponta para uma perspectiva mais sombria da relação de Alexandre com seus Companheiros, o círculo mais próximo de amigos e oficiais de alta patente que o rodeavam na Babilônia.

Historiadores da Antiguidade não chegaram a um consenso sobre a causa da morte do conquistador, embora muitos a atribuam a doenças. Em 1996, Eugene Borza, um especialista na Macedônia antiga, fez parte de uma junta médica da Universidade de Maryland que chegou ao diagnóstico de febre tifóide. Malária, varíola, e leucemia também foram sugeridas, e fatores como alcoolismo, uma infecção causada pelo pulmão ferido e a tristeza pela morte do amigo Heféstion são frequentemente apontados como agravantes. Mas alguns historiadores relutam em identificar uma doença específica, ou mesmo escolher entre doença e assassinato [...].

[...]

A ideia de que o rei macedônio foi assassinado começou a chamar mais atenção em 2004, graças ao final do filme de Oliver Stone. No epílogo, Ptolomeu, o general mais velho de Alexandre [...] relembrando a morte de seu comandante décadas depois, declara: "A verdade é que nós o matamos. Com nosso silêncio, consentimos. Porque não podíamos continuar". Ptolomeu então instrui o alarmado escriba que registra suas palavras a destruir o que havia acabado de escrever e recomeça. "Você vai escrever: ele morreu de febre e de fraqueza."

A ideia de que os generais de Alexandre estavam esgotados pelas campanhas de seu mestre e conspiraram para assassiná-lo, e assim detê-lo, não surgiu da imaginação de Stone. Existem algumas evidências de que nem mesmo os comandantes mais velhos do exército do conquistador estavam dispostos a acompanhá-lo. Na Índia, em 325 a.C., no extremo leste da bacia do rio Indo, os homens do rei da Macedônia se recusaram a marchar em direção ao Ganges. Até os comandantes de patente mais alta participaram do motim. Stone considerou esse episódio um precursor da conspiração para assassinar o rei, uma vez que Alexandre estava mais uma vez planejando novas e grandiosas campanhas na época de sua morte. [...]

Stone se valeu também de pesquisa histórica para conceber a ideia de que Ptolomeu tentou encobrir o assassinato do rei, mas aqui o diretor mergulha em águas muito turvas. O relato que Ptolomeu pede que seu escriba redija no fim de Alexandre aparentemente foi registrado em um documento antigo e controverso, os chamados Diários reais. Embora o texto original tenha se perdido, a obra foi resumida (em diferentes versões) por Ariano e Plutarco, dois escritores gregos da época do Império Romano, que sancionaram o documento como o registro mais confiável sobre os últimos dias de Alexandre.

Alguns pesquisadores, encabeçados pelo classicista australiano Brian Bosworth, acreditam que os Diários reais foram falsificados para fazer com que a morte de Alexandre parecesse natural, exatamente como o filme de Stone mostra. Outros, porém, creem que os Diários eram um legítimo registro da vida cotidiana do rei produzido por uma testemunha ocular, como já afirmavam Ariano e Plutarco.

O debate acerca dos Diários reais tem enormes implicações para o entendimento da morte de Alexandre, porque Ariano e Plutarco descrevem o evento de forma muito diferente de outras fontes da Antiguidade. Ambos afirmam que o conquistador ficou febril depois de um banquete regado a bebidas na casa de um amigo chamado Medius. Sua febre piorou ao longo de 10 ou 12 dias (os dois registros diferem nessa cronologia), culminando numa paralisia que impediu o rei de se mexer e até de falar. A morte veio no dia seguinte.

Vários outros relatos, no entanto, pintam um cenário muito diferente, e foram esses que Stone seguiu em Alexandre. Nessa versão alternativa, o rei macedônio adoeceu durante a festa, não depois dela, e, mais importante: logo depois de beber uma enorme taça de vinho. Esses registros afirmam que Alexandre sentiu pontadas nas costas após ingerir a bebida e gritou em voz alta. Desse ponto em diante, essas fontes registram uma variedade de sintomas, incluindo forte dor, convulsões e delírios, mas pouco ou nada dizem sobre febre, o ponto principal nos relatos de Plutarco e Ariano.

Goles de vinho seguidos de dores agudas sugerem envenenamento, motivo pelo qual Plutarco, em sua biografia de Alexandre, nega essa hipótese de forma veemente [...]. 

Para os defensores da hipótese de envenenamento, a questão central é "quem fez isso?" O filme de Stone é muito cuidadoso com a resposta. Na cena do banquete fatal, os Companheiros trocam olhares sombrios para mostrar que sabem que a taça de Alexandre contém veneno, mas não há pistas de como a substância foi colocada ali. Muitos escritores romanos e gregos apontam para o mesmo suspeito: Antípatro, o general que Alexandre havia deixado no comando da Macedônia, e para dois de seus filhos, Cassandro e Iolas.

Ele pode de fato ter tido motivos para matar Alexandre na primavera de 323 a.C., porque o rei havia removido de seu posto e ordenado que ele fosse para a Babilônia, quiçá com intenções hostis. O general não foi, mas enviou Cassandro em seu lugar. De acordo com vários registros antigos, Antípatro mandou com seu filho uma dose de água tóxica, coletada do rio Estige, que, segundo acreditavam os gregos antigos, corria acima do chão no norte da região do Peloponeso, antes de mergulhar no inframundo.

A água tinha de ser transportada dentro do casco oco de uma mula, porque se dizia que ela corroía qualquer substância, menos chifres. Na Babilônia, Cassandro teria entregado o casco da mula a seu irmão Iolas, que, convenientemente, servia o vinho a Alexandre. Ele, então, teria posto o veneno na bebida do rei.

Os elementos básicos dessa história são os mesmos em todas as versões da Antiguidade, mas os detalhes variam. Algumas delas mencionam o filósofo Aristóteles como um dos conspiradores. Outros fazem de Medius, o anfitrião do banquete fatal e supostamente amante de Iolas, um membro da trama. [...]

[...] Em 1913, o renomado classicista J. G. Frazer declarou que as águas que os gregos identificavam como do Estige [...] não continham toxinas, o que encerrou a discussão por quase um século.

No entanto, em 2010 duas pesquisadoras reabriram o debate. Durante uma conferência em Barcelona, a historiadora Adrienne Mayor e a toxicologista Antoinette Hayes propuseram que o calcário em torno do Mavroneri poderia facilmente ter cultivado uma bactéria letal chamada caliqueamicina. Agora elas querem realizar testes químicos para determinar se essas bactérias estão presentes ainda hoje na região. [...]

A abordagem de Mayor e Hayes, que relaciona as toxinas disponíveis no mundo antigo com os sintomas atribuídos a Alexandre, foi seguida por outros pesquisadores para formular suas próprias teorias. Em 2009, o toxicologista neozelandês Leo Schep e o detetive John Grieve, da Scoltland Yard, apareceram juntos em um documentário para a TV, Alexander the Great mysterious death ("A misteriosa morte de Alexandre, o Grande"), no qual Schep afirma que o conquistador teria sido envenenado por uma substância usada como remédio pelos gregos antigos, mas que poderia ser letal em grandes doses: o heléboro-branco em pó. Grieve, por sua vez, sugere que o heléboro não foi entregue ao rei por um assassino, mas pelos médicos de Alexandre, que acidentalmente deram uma dose excessiva a seu paciente enquanto tentavam curá-lo.

A hipótese já ganhou apoio de pelo menos um especialista em Alexandre, o classicista britânico Richard Stoneman. [...]


A toxicologia na qual Schep e Grieve se baseiam, no entanto, levou o escritor Graham Philips a conclusões diferentes. [...] Philips afirma que somente a estricnina poderia ter produzido uma morte como a de Alexandre.

Philips tenta, então, identificar o assassino de Alexandre descobrindo quem tinha acesso à estricnina. A planta venenosa é rara na rota percorrida por Alexandre e só poderia ser cultivada em regiões elevadas do subcontinente indiano [...]. Não foi todo o séquito de Alexandre que o acompanhou por áreas como essas. Ele conclui, então, que a única pessoa que podia ter motivos para assassinar o conquistador e tinha meios para isso era Roxana, a primeira das três esposas do rei. Na visão de Philips, ela teria ficado enfurecida com Alexandre por causa de seus dois casamentos posteriores e o teria matado.

[...]

É surpreendente pensar que Ptolomeu ou Roxana, dois personagens normalmente dependentes e devotados a Alexandre, desejassem sua morte, mas essas possibilidades não podem ser descartadas. E nem a hipótese de Stone de que todos os generais do rei conspiraram no seu assassinato, pelo menos não interferindo para evitá-lo. [...]

[...]

Apesar dos esforços [...] de todos os [...] pesquisadores, a causa da morte de Alexandre permanece um mistério. Se o corpo embalsamado do conquistador algum dia for achado, nós poderemos finalmente desvendá-lo, mas a múmia desapareceu no terceiro ou quarto século de nossa era. [...]

Sem os restos mortais e com testemunhos ambíguos, o ônus da prova no caso de Alexandre recai fortemente sobre evidências circunstanciais, e muitas delas desafiam todas as teorias conspiratórias. [...]

James Romm. Quem matou Alexandre, o Grande? In: Revista História Viva. Ano IX, nº 105. p. 41-47.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Catherine The Great (1729-96)

Catherine II of Russia, Aleksey Antropov

The woman who became known as Catherine the Great was born Sophie Auguste Friedericke von Anhalt-Zerbst on May 2, 1729 in Stettin, which then belonged to Prussia. In 1744, she was betrothed to Peter II of Russia, the grandson of Peter the Great, and converted to the Russian Orthodox Church. It was at this time that she changed her name to Catherine. She gave birth to a son, Paul, on October 1, 1754. After the death of her mother-in-law, the Empress Elizabeth, on January 5, 1762, Peter took the throne, and he and Catherine moved to St. Petersburg.

A reformist. Peter's rule was not to last, for on July 9 he was deposed in a bloodless coup while staying in Oranienbaum, away from his wife who had returned to St. Petersburg, and Catherine became the new Russian empress. Peter was then killed on July 17, just eight days after being deposed. It is not known whether Catherine herself had any part in this assassination, but the possibility has been the subject of much debate.

Under Catherine's rule, Russia enjoyed a period of great success. She expanded her adopted country's borders westwards and southwards, annexing the territories of the Crimea, Belarus, and Lithuania. She also negotiadet with Prussia and Austria to divide Poland between them, with these partitions occurring in 1772, 1793, and 1795. Russia's influence and territory now stretched far into Europe, and it had established itself as one of the continent's "Great Powers."

Catherine's modernization of Russia forms an important part of her legacy. In 1766, she established a "Legislative Commission" of 564 deputies of various social and national backgrounds, where she put forward her ideas for a more enlightened and modern Russia. Thought this convened for over 200 sittings, it achieved few practical reforms, partly because the ideas Catherine put forward were often too radical for the establishment to accept. Despite this, various reforms were implemented, including the Code of Commercial Navigation and the Salt Trade Code of 1781, the Police Ordinance of 1782, and the Charter to the Nobility in 1785. By the end of her reign, Russia had more than double the number of government officials as at its start, and they were spending six times as much on local government.

Catherine's lovers. Catherine is as known for her many romantic affairs as she is for her political achievements. Unhappy with her husband Peter, she had relations with many mem over the years (often with several at the same time), both during their marriage and after Peter died. The most famous of these were Stanislas Poniatowski, who became king of Poland; Count Gregory Orlov, who was influential in helping Catherine ascend the throne after the death of her husband; and Gregory Potemkin, whom Catherine was rumored to have married in secret.

Patron of the arts. Catherine was a keen patron of the arts and education, and Russian culture flourished during her reign. The Hermitage Museum, which was founded en 1764, originally housed Catherine's private collection of paintings. It grew over the years, and today contains over three million items. She corresponded regularly with leading thinkers of the era, including Voltaire and Diderot. Her patronage opened up Russia to many classical and Western European influences, which in part inspired the Russian Enlightenment.

Catherine died on November 17, 1796, as the result of a stroke, and was succeeded by her son Paul. She was buried in the Peter and Paul Cathedral in St. Petersburg.

Wars with the Ottoman Empire. During Catherine's reign, Russia fought two wars against the Ottoman Empire to the south. Previous campaigns by Peter the Great has established Russian dominance on the edge of the Black Sea, and Catherine continued the conquest of new territory. During the first Russo-Turkish War (1768-74) the Ottomans were heavily defeated at the Battles of  Chesma (July 5-7, 1770) and Kagul (July 21, 1770). This allowed Russia to expand across Ukraine, where the city of Yekaterinoslav was founded in Catherine's honor. Russia also gained access to the Black Sea, a move of great strategic importance.

COWPER, Marcus. History book: an interactive journey. National Geographic. Washington: Carlton Books, 2010.  p.88-89.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A sociedade feudal: "Alguns rezam, outros combatem e outros trabalham..."

Clero, nobreza e "povo". Essa iluminura medieval ilustra a ideologia das três ordens sociais.

"A sociedade dos fiéis forma um só corpo, mas o Estado tem três corpos: com efeito os nobres e os servos não se regem pelo mesmo estatuto [...] Uns são guerreiros, protetores das igrejas; são os defensores do povo, tanto dos grandes como dos pequenos, de todos, enfim, e ao mesmo tempo garantem também a sua própria segurança. A outra classe é a dos servos: esta desgraçada raça nada possui senão à custa de sofrimento. Quem, de ábaco na mão, poderia contar os cuidados que absorvem os servos, as suas longas caminhadas, os seus duros trabalhos? Dinheiro, vestuário, alimento, tudo os servos fornecem a toda a gente; nem um só homem livre poderia subsistir sem os servos. Há algum trabalho a realizar? Alguém pretende meter-se em despesas? Vemos os reis e os prelados fazer-se de servos dos seus servos; o senhor é alimentado pelo servo, ele, que pretende alimentá-lo. E o servo não vê fim para as suas lágrimas e suspiros. A casa de Deus, que cremos ser uma, está, pois, dividida em três: uns oram, outros combatem e os outros, enfim, trabalham. Essas três partes que coexistem não sofrem com a sua disjunção; os serviços prestados por uma são a condição da obra das outras duas; e cada uma, por sua vez, se encarrega de aliviar o todo. De modo que essa tripla associação nem por isso é menos unida, e é assim que a lei tem podido triunfar e que o mundo tem podido gozar de paz". Adalberón de Laon (c. 1020). In: LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.)

1. Estrutura política do feudalismo. O feudalismo foi consequência de uma situação econômica difícil, provocada por ondas de invasores (normandos, eslavos, árabes) e por guerras contínuas entre os vários reinos germânicos.


Os habitantes das cidades procuraram refúgio nos campos, passando a depender dos produtos da terra. Em consequência do abandono das cidades e da vida simples e rústica que passou a predominar, os ofícios e o artesanato decaíram, o comércio foi-se estagnando e parou quase por completo em face também da insegurança das estradas. Apenas cidades da orla mediterrânea, particularmente algumas cidades italianas (Veneza e Amalfi), permaneceram como núcleos urbanos e centro de comércio com o Oriente.

Nas regiões afastadas do litoral, a terra representava a única riqueza existente. Assim, quem possuía terras detinha o poder. Os grandes proprietários tornaram-se cada vez mais poderosos, à medida que os pequenos proprietários, em troca de proteção, lhes foram entregando suas terras. Os próprios reis, apesar de representarem a autoridade máxima, precisavam da ajuda financeira e militar dos ricos e poderosos, fossem eles leigos (condes e marqueses) ou religiosos (bispos e abades). Para garantir essa ajuda, os reis confiaram vastas glebas de suas terras, em benefício, aos proprietários mais influentes. Essas terras chamaram-se feudos (de uma palavra germânica significando gado, propriedade agrária). Mediante cerimônia solene, a investidura, o senhor de um feudo tornava-se vassalo do rei, prestando-lhe juramento de fidelidade, comprometendo-se a fornececer-lhe ajuda financeira e tropas armadas, auxílio que o soberano retribuía assegurando ao feudatário igual fidelidade, defesa de sua honra, e justiça.

Os vassalos do rei começaram, pouco a pouco, a distribuir parte de suas terras e senhores menos influentes que, por sua vez, distribuíram terras a outros proprietários ainda menos influentes, criando assim uma corrente de vassalos, uns subordinados a outros, em uma ordem hierárquica semelhante a uma pirâmide, em cujo vértice estava o rei.

Esta estrutura hierárquica, no entanto, ao invés de fortalecer os poderes do rei, enfraqueceu-os, pois cada vassalo acabou por exercer em seu feudo direitos que cabiam ao rei, como administração da justiça, cobrança de impostos, apelo às armas. O poder que assim se concentrou nas mãos dos feudatários fez com que muitos vassalos se tornassem, às vezes, mais poderosos do que o próprio rei. O território do rei parcelou-se em um grande número de propriedades, maiores ou menores, que escaparam totalmente ao controle do soberano.

2. A sociedade feudal. Estruturou-se rigidamente em classes distintas. A classe mais poderosa era formada pelos nobres, em ordem hierárquica, dos simples cavaleiros aos condes, marqueses e duques (antigos chefes militares, do latim dux= chefe).

Aos nobres cabia a responsabilidade da guerra, providenciar às próprias custas recursos bélicos (armas, armaduras, máquinas de assalto), o abastecimento das tropas e também cavalos, pois a cavalaria era de suma importância nas batalhas, sobretudo quando a Europa teve de enfrentar o ataque dos exímios cavaleiros árabes.

Gozavam de igual influência os ricos dignitários da Igreja (bispos e abades) aos quais cabia dirigir o culto e as práticas religiosas.

Formavam a classe inferior alguns poucos artesãos e a grande massa de camponeses, os servos da gleba, homens quase escravos, presos às terras dos senhores feudais: passavam de um proprietário a outro quando as terras mudavam de dono.


"Os clérigos devem por todos orar
Os cavaleiros sem demora
Devem defender e honrar
E os camponeses sofrer.
Cavaleiros e clero sem falha
Vivem de quem trabalha.
(Os camponeses) têm grande canseira e dor.
Pagam primícias (primeiras colheitas), corveias, orações ou a talha (parte da produção entregue ao senhor)
E cem coisas costumeiras.
E quanto mais pobre viver
Mais mérito terá (mérito que o resgata).
Das faltas que cometeu.
Se paga a todos o que deve,
Se cumpre com lealdade a sua fé,
Se suporta paciente o que lhe cabe:
Angústia e sofrimento."
(Estevão de Fougères, clérigo francês do século XII. In: DUBY, Georges. As três ordens ou o imaginário no feudalismo. Lisboa: Estampa, 1982. p. 309.)

Existiam ainda pequenos proprietários, homens livres, isto é, não vinculados a um feudo; mas estes eram pouquíssimos e praticamente nenhuma influência tiveram na sociedade feudal.

3. A economia feudal. Toda propriedade feudal bastava-se a si mesma, constituindo uma comunidade independente, autônoma do ponto de vista econômico.

Um feudo - que por vezes compreendia alguns vilarejos - era formado pelos domínios do senhor e por uma parcela agregada. O feudatário reservava exclusivamente para si a maioria das florestas, devido ao grande valor da lenha, e terras de melhor qualidade por ele destinadas a culturas mais rendosas, como a da vinha.

A parcela agregada, em que viviam os camponeses, fornecia os meios indispensáveis à subsistência do feudo. A produção tocava aos camponeses que, em troca, pagavam ao senhor tributos para utilizar o moinho e o forno de pão de propriedade exclusiva do feudatário, ou em espécie (cereais, ovos, galinhas, porcos, lã, tecidos de linho, utensílios, ferramentas). Além disso, eram obrigados a prestar três ou quatro dias por semana de serviços gratuitos ao feudatário para conservar em ordem construções, pontes, caminhos, margens de cursos de água, para trabalhar na colheita de frutas e abater árvores das florestas senhoriais.


Os doze trabalhos dos meses, Pietro di Crescenzi. Século XV.


O feudo, portanto, produzia praticamente todo o necessário, vindo de fora o sal, para conservação de carnes, e o ferro, para fabricação de armas, ferramentas e utensílios. A economia dessa época era uma economia mais ou menos fechada; concentrava-se no feudo e gravitava em torno da residência do feudatário, verdadeira fortaleza erguida no topo de elevações, protegida por fortes muralhas, o castelo.

Em consequência dessa economia quase fechada, estagnaram-se os intercâmbios comerciais na Europa e também como o Oriente, de onde provinham metais preciosos (ouro e prata), utilizados na cunhagem da moeda, que acabou desaparecendo da circulação. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 130, 132-134.


4. As características militares do feudalismo. O cavaleiro foi a figura característica da organização militar do feudalismo. Ser cavaleiro, com escudos, lanças, espadas, cota de malha e armadura, era privilégio da aristocracia, pois o acesso à cavalaria dependia da origem e da riqueza. Essa característica estava ligada à separação entre guerreiros e chefe que se dera na tribo germânica e também ao custo do equipamento completo de um cavaleiro, que era muito alto para os mais pobres. Era preciso ter muitas terras e servos trabalhando para sustentar um cavaleiro. Ou seja, somente a aristocracia feudal era capaz disso.


Uma das principais funções militares da cavalaria era garantir e ampliar os domínios dos senhores e reprimir rebeliões camponesas que ameaçassem o poder da aristocracia. Mas a militarização servia também para defender a cristandade contra seus inimigos, por exemplo, os muçulmanos, ao mesmo tempo que garantia a conquista de mais terras.


Os constantes combates acabavam destruindo as plantações e os campos. No século X, a Igreja interveio, propondo a Trégua de Deus, que determinava que não se poderia guerrear entre a quinta-feira e a segunda-feira pela manhã.


5. A Igreja medieval ocidental. A Igreja sobreviveu às crises e mudanças do final da Antiguidade e da Alta Idade Média. O clero monopolizava o saber em um mundo de analfabetos e foi responsável por conservar a cultura letrada da Antiguidade Clássica. Apesar de manter essa cultura atrelada a seus interesses de grande senhora de terras, a Igreja muito contribuiu para que o conhecimento não estagnasse.


A Igreja romana acumulou poderes que derivavam de sua riqueza material e da influência espiritual que exercia sobre as pessoas.


[...]


As doações de terras feitas pelos reis e senhores laicos à Igreja faziam com que seu poder político aumentasse, pois ia se transformando num "grande senhor feudal". Essa posição fazia com que a Igreja tivesse que lutar pela defesa de seus interesses tanto quanto os demais senhores feudais.


Mas o mais importante é que a Igreja católica exercia uma poderosa influência na sociedade. O controle que o clero detinha sobre a cultura reproduzia uma visão de mundo da Igreja; os padres, em seus sermões, passavam essa visão de um mundo dividido em classes, naturalmente desiguais. PEDRO, Antonio et all. História da civilização ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 98.


"A influência da Igreja não se limitou a regulamentar os bens e a vida das comunidades eclesiásticas: sua jurisdição também incidiu sobre os demais componentes da sociedade, os quais se subordinaram aos preceitos canônicos relativos à organização da família, graças à regulamentação do casamento, envolvendo dotes, heranças, direitos e deveres dos cônjuges e anulação do matrimônio devido a incesto, bigamia etc. Eram as paróquias que registravam os atos de batismo, casamento e falecimento, enquanto os tribunais eclesiásticos julgavam questões concernentes a testamentos, casamentos etc. Igualmente importante foi a sua ação na defesa dos fracos e oprimidos, através da moderação da rudeza dos costumes feudais, da concessão do direito de asilo e de ativa assistência social: por sua riqueza, pôde fundar e manter orfanatos, hospitais, leprosários e asilos; por seu poder, impôs o Asilo de Deus, que colocava sob proteção os que se encontrassem em domínios da Igreja [...]". AQUINO, Rubim Santos Leão de et all. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 512.


AQUINO, Rubim Santos Leão de et all. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008.
DUBY, Georges. As três ordens ou o imaginário no feudalismo. Lisboa: Estampa, 1982.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1983.
PEDRO, Antonio et all. História da civilização ocidental. São Paulo: FTD, 2005.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Brasil: Religiosidades na Colônia

Negras novas a caminho da igreja para o batismo,  Jean Baptiste Debret

O Brasil nasceu à sombra da cruz. Não apenas da que foi plantada na praia do litoral baiano, para atestar o domínio português, ou da que lhe deu nome - Terra de Santa Cruz -, mas da que unia Igreja e Império, religião e poder. Mais. Essa era uma época em que viver fora do seio de uma religião parecia impossível. A religião era uma forma de identidade, de inserção num grupo social - numa irmandade ou confraria, por exemplo - ou no mundo. A colonização das almas indígenas não se deu apenas porque o nativo era potencial força de trabalho a ser explorada, mas, também, porque os índios não tinham "conhecimento algum do seu Criador, nem de cousa do Céu". Isso foi fundamental para dar uma característica de missão à presença de homens da Igreja na América portuguesa. [...]

O zelo fanático em extirpar idolatrias e heresias, num momento delicado em que católicos e protestantes se digladiavam pela hegemonia religiosa no Velho Mundo, somou-se à necessidade de pregar a palavra de Deus, evangelizando, catequizando e impondo ideias. "Todos temem e todos obedecem e se fazem adeptos para receber a fé", registrava, no século XVI, o jesuíta Antonio Blasques. [...]

Os primeiros religiosos a desembarcar entre nós foram oito franciscanos membros de importante ordem estabelecida, há tempos, em Portugal. Sua presença como capelães de bordo na navegação portuguesa era comum, mas sua participação na evangelização do gentio ou nas práticas religiosas de colonos só ganha envergadura a partir de 1580, quando da conquista da Paraíba. Junto a eles, multiplicaram-se carmelitas e beneditinos. Papel bem mais relevante, contudo, teriam os jesuítas. Vindo com Mem de Sá em 1549, o primeiro grupo era composto por seis missionários da recém-fundada Companhia de Jesus, liderados por Manuel da Nóbrega [...]. Sua primeira providência? A organização de uma escola que, como outras que se seguiram, consistia na base da missão. Um ano mais tarde, chegavam mais padres acompanhados de "órfãos de Lisboa, moços perdidos, ladrões e maus", que teriam papel relevante, embora anônimo, nos projetos da Companhia. Chamados "meninos-língua", cabia-lhes aprender o tupi-guarani, tendo como tarefa a conversão das crianças nativas. [...]

As cartas escritas pelos padres jesuítas a seus superiores na Europa revelam como transcorria o cotidiano nas missões onde se juntavam padres e indígenas. [...] A clientela era feita de filhos de índios e mestiços, acrescida, de tempos em tempos, de um "principal", ou seja, um chefe. As atividades consistiam em recitar juntas, na igreja, ladainhas ou Salve-Rainha. Nas sextas-feiras, disciplinavam-se em cerimônias de autoflagelação e, com o corpo coberto de sangue, saíam em procissão. Cantavam hinos [...] e revezavam-se entre aulas de flauta e canto. [...] Confessavam-se de oito em oito dias e todas as tardes saíam para caçar e pescar, pois não havia qualquer forma regular de aprovisionamento. A alimentação baseava-se na "farinha-de-pau" (nome dado à farinha de mandioca) e na caça [...]. O pescado era considerado "gostoso", e o cardápio engrossado por legumes, favas, folhas de mostarda e abóbora, e "em lugar de vinho [...] milho cozido em água a que se ajunta mel". As meninas indígenas eram ensinadas a tecer e fiar algodão, capaz de vestir os jovens nus. O tempo livre das crianças ficava por conta do banho de rio ou de "ver correr as argolinhas", brinquedo, segundo Nóbrega, importado de Portugal. [...] As atividades físicas mais simples impregnavam-se de cantos e danças nos quais a cultura indígena se impunha. Em festas de aldeamentos, os meninos levantavam-se à noite para a seu modo cantar e dançar "com taquaras que são canos grossos que dão no chão e com o som que fazem, cantam e com as maracas que são umas frutas, umas cascas como cocos furados por onde deitam pedrinhas dentro". A sensibilidade musical do indígena fazia crer aos jesuítas que, "tocando e cantando entre eles, os ganharíamos" [...] anotava Nóbrega, não haveria cacique que recusasse seus filhos à escola jesuítica. Nos batismos em grupo, os meninos índios eram vestidos com "roupas brancas, flores na cabeça e palmas na mão", sinal da vitória que teriam alcançado contra o Demônio.

Até 1580, os jesuítas procediam como uma espécie de missionários oficiais da Coroa. A anexação de Portugal à Espanha, no período da União Ibérica (1580-1640), mudou, contudo, essa hegemonia, inaugurando-se o ingresso de outras ordens religiosas ao Brasil. Os franciscanos destacaram-se por seguir a ocupação do litoral nordestino, do Rio Grande do Norte a Alagoas. Unidos aos senhores do açúcar, desenvolviam sua ação dentro das capelas de engenhos, rezando missas, realizando batismos e casamentos comunitários, abençoando as moendas e os animais. Acompanharam os bandeirantes em suas expedições de apresamento de índios e, ao contrário dos jesuítas, situaram-se mais do lado do branco do que do índio. Nas expedições oficiais para a conquista da Paraíba, por exemplo, jamais apoiaram tabajaras e potiguares, e entre 1588 e 1591 começaram a estabelecer-se em conventos, lado a lado com beneditinos e carmelitas.

Instalados ao final do século XVI em Olinda, os carmelitas ensinavam teologia e língua brasílica, ou seja, o tupi, e daí enviaram seus missionários Brasil afora. Foram vigorosos defensores dos interesses portugueses na Amazônia, perdendo rapidamente o interesse pelo caráter missionário e investindo nas relações com as populações de vilas interessadas no comércio de especiarias, como o cacau. Mais dedicados à vida contemplativa do que a qualquer outra atividade, os beneditinos pertenciam, por sua vez, a uma ordem rica, possuidora de inúmeros imóveis e fazendas sustentadas por escravos. [...]

À medida que a colonização, a fome e as guerras dizimavam os índios do litoral e que os negros africanos, chegados para o trabalho nos engenhos, eram catequizados em massa - sem que nenhuma autoridade religiosa argumentasse contra sua escravização -, os movimentos missionários se deslocavam para o interior da Colônia à procura de novas almas. Nos sertões do rio São Francisco, capuchinhos franceses, aliados das reformas propostas pelo Concílio de Trento, e oratorianos italianos, muito voltados para as práticas piedosas de orações e devoções, tiveram destacada atuação. [...] Suas missões lhes permitiram estar mais próximos do povo humilde que habitava, disperso e sem auxílio, as ermas vastidões do interior.

Mas havia muitos espinhos nos caminhos da evangelização. Os conflitos entre leigos e o clero se sucediam. Os mais importantes deram-se em torno da escravização dos indígenas, verdadeira pedra no sapato - ou melhor, nas alpargatas - dos padres que desejavam a catequese e a conversão do gentio. Desde o século XVI, a Companhia de Jesus conseguiu que o governo proibisse a escravização dos nativos. Todavia, grupos importantes de plantadores de cana, donos de engenhos e, posteriormente, bandeirantes que obtinham grandes lucros com a escravização dos "negros da terra" consideravam sua proteção uma ruína para a Colônia. Eles não apenas insistiam junto às autoridades do Reino para que estas lhes concedessem liberdade para usar o trabalho compulsório dos índios, como também, através de pressões e ameaças, retardaram, o quanto puderam, a supressão da escravatura. [...]


[...]


Em relação às demais populações católicas, um importante espaço de práticas religiosas para homens e mulheres coloniais eram as irmandades ou confrarias. Associações de caráter local, tais instituições auxiliavam a ação da Igreja e promoviam a vida social, desempenhando tarefas que, muitas vezes, deveriam caber ao tão ausente governo português: fundação e manutenção de seminários de meninos pobres, de hospitais e recolhimentos de órfãos. Sua finalidade específica era promover a devoção a um santo. Em torno de festas, do culto e da capela do mesmo, um grupo de pessoas, fossem brancos, mulatos ou negros, se organizava. O que caracterizava a irmandade era justamente a participação de leigos no culto católico [...]. Confrarias e irmandades demonstravam toda a força por ocasião da festa do padroeiro: ruas e igrejas eram decoradas com tapetes e ervas perfumadas, e iluminadas por tijelinhas de barro cheias de óleo de baleia. Irmãos de opa vermelha, tocheiros à mão, abriam a procissão, seguida de carros alegóricos ricamente enfeitados, atrás dos quais volteavam músicos e bailarinos. A diversidade de instrumentos musicais não ficava atrás da pompa coreográfica dos cortejos. Ritmos profanos e peças sacras se mesclavam à sonoridade dos batuques africanos. Músicos negros vestidos de seda e cobertos de plumas, tocando címbalos, pífaros e trombetas, misturavam-se a brancos tocadores de clarins e charamelas. Uma imensa variedade de sons rasgava o ar, enquanto fiéis, piedosamente, desfilavam os estandartes e as imagens religiosas.


Seguindo o costume português, a vida doméstica também consistia em importante espaço espiritual. Nas paredes das casas de moradia, era comum encontrarem-se cruzes de madeira, gravuras do anjo da guarda ou do santo onomástico. [...] Ao levantar-se, pela manhã, o cristão benzia-se murmurando o Pelo Sinal. Oratórios, ou quartos de santos, eram iluminados por lâmpadas votivas que queimavam diuturnamente e onde as imagens eram vestidas e adornadas pelas mulheres. Flores naturais ou de papel, palhas bentas no Domingo de Ramos, medalhas milagrosas, escapulários e livros de oração compunham o arsenal do devoto na luta contra Satã. [...] Santos de estimação, como, por exemplo, Santo Antônio, eram invocados para interceder em favor do fiel em caso de escravos fugidos, cavalos extraviados ou roubos. As solteiras costumavam invocá-lo para arranjar maridos [...]. Orações em que se nomeavam os santos, Jesus ou Maria eram usadas por benzedeiras e curandeiras para aliviar as dores, feridas e maleitas dos fiéis [...].


Além do catolicismo, a Colônia foi palco de outros credos e práticas religiosas. Descendentes de judeus, por exemplo, buscaram refúgio nessas terras, que lhes pareciam de promissão. O movimento migratório começara em inícios do século XVI em função de perseguições que lhes eram movidas na península Ibérica. Instalados sobretudo na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, os recém-chegados integravam-se rapidamente à língua, aos costumes e à economia local, misturando-se aos cristãos, com quem dividiam cargos administrativos, burocráticos e comerciais. Os cristãos-novos, nome que se dava aos convertidos, detinham engenhos, escravos e terras. Para manter vivos os laços comunitários e de identificação, realizavam clandestinamente práticas e atos religiosos do judaísmo, mesmo que sob a ameaça da Inquisição. Mas como é que se fazia presente na Colônia?


Espécie de justiça ambulante, as visitas de inquisidores - realizadas em 1591, 1618 e 1627, ao Nordeste, e de 1763 a 1769, ao Pará - tinham por objetivo combater as heresias e zelar pela fé e boa moral dos católicos. Nesse quadro, ritos, preceitos ou cerimônias judaicas eram alvo dos monitórios gerais, ou seja, um documento eclesiástico com aviso aos fiéis que descrevia minuciosamente tais ritos e era afixado às portas das igrejas. Pequenos atos do cotidiano serviam para indicar judaísmo. Guardar os sábados, por exemplo, revelava-se através do hábito de vestir roupas limpas e arrumar a casa de véspera - limpar e cozer alimentos, acender candeeiros etc. - para que não houvesse necessidade de trabalhar nesse dia. [...] Enterravam os mortos em mortalha nova e terra virgem [...]. Os meninos eram circuncidados. Mesmo não seguindo as práticas judaicas de modo inteiramente consciente, os cristãos-novos conservavam a essência de sua cultura original. Repudiavam as imagens dos santos que enfeitavam os oratórios, consideravam a religião católica uma idolatria, esquivavam-se do sacramento da confissão [...].


Ao contrário dos cristãos-novos, os judeus que se instalaram em Pernambuco quando da invasão holandesa, de 1630 a 1654, encontraram melhores condições para exercer sua religiosidade. Concentrados numa rua do Recife, a Jodenstraat (rua dos judeus), aí construíram a sinagoga da comunidade Zur Israel: uma casa de muitas janelas, com o térreo ocupado por duas lojas, tendo no andar de cima uma ampla sala mobiliada para utilização religiosa. Ao rabino [...] Isaac Aboab da Fonseca, devem-se as primeiras páginas literárias, em hebraico, escritas no Brasil: um poema que descreve os sofrimentos suportados pelos judeus em 1646, quando Recife ficou sitiado pelos luso-brasileiros.


O protestantismo teve, entre nós, dois momentos marcantes. O primeiro vai de 1555 a 1560, quando chega à baia de Guanabara o vice-almirante francês Nicolau Durand de Villegaignon, para fundar [...] uma colônia, a França Antártica, com franceses calvinistas (huguenotes), hostilizados em sua terra. O segundo [...] foi o da colonização holandesa no Nordeste. [...]


[...]


[...] Sob a regência de Maurício de Nassau, o domínio holandês estendeu-se temporariamente do Maranhão até abaixo do rio São Francisco. Nesse governo, a liberdade religiosa era para todos. Católicos eram livres para exercer seu culto e manter relações com a sede episcopal da Bahia. Sinagogas e escolas hebraicas funcionaram no Recife e foram as primeiras da América. O protestantismo, considerado a verdadeira religião, lutava para instalar-se no Brasil. A chave para sua compreensão era a subordinação de todos os aspectos da vida aos sagrados mandamentos. [...]


Os africanos também trouxeram seus credos para a América portuguesa. Entre eles, cerimônias religiosas como o acotundá, o candomblé e o calundu, além de cultos envolvendo os mortos, corriqueiramente praticados. Em casas humildes, cobertas de capim, de paredes de barro, preferencialmente à beira de um córrego ou de uma fonte, celebrava-se a dança de tunda ou acotundá. Altares com banquetas de ferro, onde se misturavam ordenadamente cabaças, panelas e recipientes variados de barro e imagens antropomorfas, sinalizavam o espaço sagrado. O som de tambores e atabaques, e cantos, no dialeto courá, da Costa da Mina, enchiam a noite. Vindas das camarinhas, mulheres vestidas com panos brancos [...] dançavam e cantavam [...].


Havia ainda outras formas de religiosidade africana. Vindos do Daomé, atual Benin, na costa ocidental da África, rituais de origem jeje conhecidas como calundus eram conduzidos, na Colônia, por um vodunô, líder espiritual [...]; o ritual consistia em danças e cantos na língua jeje, ao som de ferrinhos (agogôs e gans) e atabaques. O centro da cerimônia abrigava ervas, búzios e aguardente. Folhas de diversas plantas serviam na preparação de alimentos oferecidos às divindades, os ebós, mas também em rituais de iniciação e limpeza do corpo. Um sentido para a vida, segurança e proteção contra um mundo hostil, espaço para sensibilidades e solidariedades eram as funções desses rituais religiosos. Dessa maneira, a Colônia crescia à sombra da cruz e de vários credos que ainda hoje hidratam nossa cultura.


PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 36-49.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Rebeliões nas províncias na época da Regência e no Império

Batalha dos Farroupilhas, de José W. Rodrigues.

Texto 1
A proliferação de rebeliões nas províncias na época da Regência refletiu um desejo de autonomia em relação ao governo central. Este nomeava os presidentes de província, cobrava impostos e nem sempre aplicava os recursos financeiros na própria província que havia sido tributada.

Essa questão permite entender especificamente a Revolução Farroupilha, que não foi, sob nenhum aspecto, um movimento popular.

No caso das rebeliões ocorridas no Norte e no Nordeste, outros fatores ainda interferiram: a existência de massas pobres e livres, os deserdados do sistema; a escravidão. o declínio das principais exportações como algodão, fumo e açúcar; a estagnação econômico-social da região.

Nessas regiões, além de reivindicações políticas por mais autonomia provincial, somaram-se os graves problemas sociais. É o caso da Cabanagem e da Balaiada.

Normalmente, as elites locais se mobilizavam contra o governo central em defesa de certos ideais políticos liberais e convocavam as massas populares para participarem dos movimentos. Num segundo momento, perdiam o controle sobre essas camadas populares, pois estas tinham suas próprias reivindicações, como melhor distribuição da terra e abolição da escravidão.

A Cabanagem é bem um exemplo disso. Os liberais que queriam mais autonomia convocavam o povo para a luta contra o governo central e o povo pobre e oprimido (os 'cabanos') deu à luta um caráter social que dividiu o movimento como um todo.

A violência social também marcou a Balaiada, 'pacificada' pelo futuro Duque de Caxias, que comandou as tropas do governo central na violenta repressão ao movimento.

No aspecto social, houve a participação ampla de sertanejos, que o declínio da exportação de algodão atirava na miséria, e de escravos. O papel dos escravos no levante do Maranhão pode ser avaliado pela luta do Quilombo de Cumbe e de vultos como o preto Cosme, o 'Cara Preta', e o negro 'Balaio' (Manuel dos Anjos Ferreira).

Desmentindo a lenda que fala da 'índole pacífica e acomodada' do povo brasileiro, as grandes massas brasileiras de despossuídos lutaram sempre, durante séculos. (LOPEZ, Luiz Roberto. História do Brasil Imperial. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p. 54-56.)

Texto 2
[...] a Revolta dos Malês, organizada por escravos africanos islamizados na cidade de Salvador em 1835 [...] refletiu uma luta histórica e secular dos escravos contra sua indigna situação.

Referindo-se à Revolta dos Malês o historiador João José Reis [...], em entrevista concedida em julho de 2004, "observou que ela foi executada por africanos muçulmanos, os malês, o que a torna única na história da escravidão nas Américas". Houve outras rebeliões como esta na Bahia, mas a de 1835 teve mais visibilidade e provocou uma comoção maior por ocorrer na capital e já no Império.

Ainda segundo o historiador, "foram centenas de rebeldes percorrendo as ruas de Salvador durante mais de três horas brigando com soldados e civis". A repressão foi intensa: morreram cerca de oitenta malês e centenas foram presos, torturados e deportados, sendo que quatro foram executados em praça pública. (BERUTTI, Flávio. Caminhos do Homem. Curitiba: Base, 2010. p. 216-217.)

Texto 3
Em Olinda e Recife, respirava-se o que um autor anônimo, adversário das revoluções, chamara muitos anos antes de 'maligno vapor pernambucano'. O vapor se compunha agora também de crítica social e ideias socialistas.

Um exemplo de crítico social contundente é Antônio Pedro de Figueiredo, apelidado por seus adversários de Cousin Fusco, por ser mulato (fusco) e ter traduzido para o português uma História da Filosofia do escritor francês Victor Cousin. Nas páginas de sua revista O Progresso, publicada entre 1846 e 1848, Figueiredo apontou como grandes males sociais da província a estrutura agrária, com a concentração da terra nas mãos de uns poucos proprietários, e o monopólio do comércio pelos estrangeiros.

A tradição revolucionária em Pernambuco que já havia se manifestado em 1817 e 1824 se fez presente novamente em 1848, com a Praieira, movimento cujo nome está associado à Rua da Praia, na qual ficava a tipografia do jornal O Diário Novo, que divulgava ideias liberais. Na imagem, pode-se ver um detalhe da cidade do Recife no final do século XIX. 
(Caes da Rua do Trapiche, de Luis Schlappriz.)

Não imaginemos, porém, que a Praieira tenha sido uma revolução socialista. Precedida por manifestações contra os portugueses, com várias mortes, no Recife, ela teve como base, no campo, senhores de engenho ligados ao Partido Liberal.

O núcleo urbano dos praieiros sustentou um programa favorável ao federalismo, à abolição do Poder Moderador, à expulsão dos portugueses e à nacionalização do comércio a varejo, controlado em grande parte por eles.

Como novidade, aparece a defesa do sufrágio universal, ou seja, do direito de voto para todos os brasileiros." (FAUSTO, Bóris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. p. 178-179.)

Texto 4
A imposição de um Estado nacional a um conjunto muito heterogêneo de grupos sociais originou uma série de revoltas na primeira metade do século XIX. Além do problema representado pela unidade artificial de regiões distintas, tais grupos tinham seus interesses negligenciados ou diretamente combatidos pelo governo central. As reivindicações e os resultados obtidos variavam conforme os agentes de cada uma dessas revoltas.

Algumas foram realizadas exclusivamente por grandes proprietários e comerciantes, descontentes com sua reduzida participação nas decisões políticas de caráter nacional. Em outras, essencialmente urbanas, a população e as tropas do Exército regular, pressionadas pela miséria, rebelaram-se em torno das bandeiras republicanas. Mas foi a maioria da população livre, constituída de camponeses pobres, índios aldeados, trabalhadores mal pagos e mestiços desempregados, a responsável por grande parte dos movimentos ocorridos no período. Alguns deles foram iniciados por setores da aristocracia regional, que no decorrer dos acontecimentos muitas vezes perdiam o controle do movimento. Um exemplo foi a Balaiada, da qual escravos e trabalhadores livres pobres assumiram a liderança. Violentamente reprimidas por tropas do governo central, essas revoltas acabavam servindo como um argumento para fortalecê-lo ainda mais.

As rebeliões realizadas exclusivamente por grandes proprietários, como a Praieira e a Farroupilha, obtiveram importantes concessões do governo, enquanto, de um modo geral, os movimentos de caráter popular não conseguiram superar sua fragmentação, permanecendo isolados em suas províncias. (CAMPOS, Flávio de; DOLHNIKOFF, Miriam. Atlas História do Brasil. São Paulo: Scipione, 1993. p. 28.)

Texto 5
Não é apenas o gaúcho típico – termo inicialmente pejorativo, designando o descendente de índios, espanhóis ou portugueses – o habitante do Rio Grande do Sul na época da Revolução Farroupilha. Durante todo o século XIX se dirigiram àquela parte do país, em especial sua parte norte, região montanhosa e pouco favorável à criação de gado, os primeiros imigrantes europeus alemães, italianos, eslavos. Eles abandonavam uma Europa convulsionada pela profunda transformação econômica gerada pela Revolução Industrial e por violentos conflitos armados, em especial as lutas pela unificação na Alemanha e na Itália.

Os imigrantes europeus pretendiam, assim, recomeçar a vida em terras brasileiras. Formaram pequenas propriedades no Rio Grande do Sul, introduzindo a criação de suínos, o cultivo do milho, do trigo, da uva. Desenvolveram também alguns tipos de indústria e de manufaturas: móveis, calçados, objetos de utilidade doméstica. [...]


A Revolução Farroupilha atingiu, dentre os imigrantes, principalmente os alemães. Alguns deles aderiram aos farrapos, outros se mantiveram fiéis ao governo imperial. Muitos, porém, preferiram não se envolver, marcados que estavam pelo sofrimento experimentado nas regiões de origem, mergulhadas em sérios problemas sociais e políticos. (SCLIAR, Moacyr. O Rio Grande Farroupilha. São Paulo: Ática, 1995. p. 32)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pizarro: analfabeto, sanguinário e audacioso

Pizarro: analfabeto, sanguinário e audacioso

"A espada, a cruz e a fome iam dizimando
a família selvagem".
(Pablo Neruda, poeta chileno)

Os eurocentristas procuram evitar qualquer tipo de identificação com a América pré-colombiana, apelando para as carnificinas patrocinadas pelos astecas ou pelos incas, à sua impiedade com os inimigos, aos rituais de sangue, colocando a violência dos espanhóis como uma resposta à violência dos americanos.

Os conquistadores passavam o tempo assando prisioneiros em grandes grelhas instaladas em praças públicas, brincavam de tiro ao alvo em crianças, enforcavam os índios nas comemorações religiosas (quanto mais importante era o santo, maior o número de mortos nesse ritual macabro).

Faziam despedaçar mulheres vivas pelos selvagens cães de guerra, mediam o peso e o fio da espada cortando as cabeças dos indígenas, gastavam o ouro e a prata roubados durante os saqueios das populações indígenas apostando quem conseguiria abrir um índio, vivo e de pé, ao meio.

Que tipos de homens eram aqueles que matavam num piscar de olhos, mas eram capazes de penetrar e sobreviver em plena selva amazônica procurando o El Dorado, uma mítica fonte de ouro líquido, protegida supostamente por belas e virgens mulheres guerreiras?

Aqueles homens, famosos por suas perversões sexuais, que faziam com que as mulheres preferissem se suicidar a cair em suas mãos, pois seriam repetidamente violentadas pelas tropas invasoras, suportavam os ventos gelados dos Andes ou o calor sufocante das selvas. Aquelas pessoas venciam a sede, a fome, as flechas dos índios, procurando um metal amarelo, sem muita utilidade para os americanos.

Os conquistadores transportavam a cruz e a espada através da América. A cruz para catequizar pagãos, para afugentar o diabo, para crucificar os índios. A espada para vencê-los. É difícil encontrar uma definição para aqueles homens que, em nome da religião e levados por uma cobiça de aves de rapina, destruíram povos e civilizações em território americano.

O mais sanguinário dos conquistadores espanhóis chamava-se Pizarro. Parte para o Panamá com mais de 50 anos para fazer fortuna, decidindo-se pela conquista do Peru. Será acompanhado por Almagro, que fora abandonado pela mãe na porta de uma igreja. Ignorante como Pizarro, fazem uma dupla perfeita: audaciosos, ambiciosos, valentes, inescrupulosos, dispostos a tudo. O Peru encontra-se numa guerra civil entre dois irmãos que pretendem o trono, o que facilitará a conquista.

Na primeira grande batalha contra o vencedor da guerra civil, Atahualpa, inexplicavelmente, ignominiosamente, tendo tudo a seu favor, rende-se sem lutar, repetindo as atitudes de Montezuma. Pizarro efetua a primeira carnificina. Cento e oitenta homens, com armas de fogo, sacrificam dez mil índios para servir de exemplo. O Império Inca, extremamente centralizado, derruiu quando o poder foi transferido do Inca para Pizarro.

O resto da história é bem conhecido. Primeiro, Pizarro promete ao Inca sua liberdade em troca de uma sala repleta de ouro. Apesar da entrega do metal precioso, o imperador é queimado na fogueira. Seu sucessor, Manco-Capac, se refugia nos Andes e mantém a resistência até 1537. Somente em 1572 a ocupação é garantida com a execução de Tupac-Amaru, sucessor de manco-Capac.

Cortés, dono de grandes minas e latifúndios, morrera na velhice, "multimilionário" como se diria hoje em dia. Cristóvão Colombo terminara velho e esquecido. Pizarro será assassinado por Almagro (que será posteriormente enforcado por esse ato) numa disputa pelo poder e pela repartição de um botim feita irregularmente pelo governador e capitão-geral do Peru.

Ainda que criticando as mortes "desnecessárias" provocadas por "alguns" conquistadores, os eurocentristas continuam insistindo na acidentalidade desses fatos, no saldo positivo, mais que negativo, da colonização europeia.

Defendem que nenhum americano inteligente se identificaria com seres que, supostamente, comiam seus prisioneiros, preferindo carne de crianças inocentes e que, segundo as fantasias de alguns autores, mantinham açougues públicos nos quais vendiam pedaços de carne humana.

Os eurocentristas são incapazes de entender o pensamento pré-colombiano, no qual a natureza devia estar numa perfeita sincronia com os homens e suas instituições. Quando não chovia o suficiente, significava que as autoridades não estavam cumprindo corretamente sua função social, motivo pelo qual deviam ser substituídas. O direito à rebelião contra um governo injusto, defendido na Revolução Francesa, existia desde muito tempo atrás na América.

A ordem jurídica, o movimento do tempo, a fertilidade dos campos, a justiça social, o desempenho do Estado, fazem parte de uma unidade, de uma harmonia geral que devia ser mantida para conseguir paz e prosperidade.

Por que os terceiro-mundistas insistem em identificar a América com esses índios "inertes, indiferentes, sonolentos, tristes, com um claro atraso mental"? Respondem os eurocentristas: por puro populismo demagógico, com claros interesses políticos de ganhar a confiança dessa massa amorfa e tirar seus votos em dias de eleições, ou sustentar através de mitos governos autoritários e corruptos, porque de fato a América teria adquirido consciência de si mesma somente a partir da colonização, quando entrou para a história da civilização abandonando a barbárie.

PEREGALLI, Enrique. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, 2011. p. 80-82.