"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 16 de outubro de 2016

Harém: a vida entre prazeres e intrigas (Parte 2)

Odalisca reclinada, Hermann Fenner-Behmer


A aprendizagem da etiqueta da corte, do savoir-faire mais refinado, o aperfeiçoamento nos domínios da música, da dança, da poesia lapidavam aquela que até então tinha apenas a beleza como atributo. Sua formação era contínua, assegurada pelo pessoal feminino do harém. Cada jovem era encaminhada a um serviço particular pelo mordomo do harém - servir à mesa, cuidar da roupa branca ou dos banhos - e recebia por aquela tarefa um salário diário. Ali se decidia o seu destino. Ao ter um desempenho superior em sua função, a mais bela, a mais inteligente, a mais hábil conseguia fazer-se notar. Assim nasciam rivalidades que formavam o pano de fundo da vida cotidiana do serralho.

A mais estrita hierarquia reinava entre as escravas. O escalão mais baixo era ocupado pelas cariye (pronuncia-se djanê), as iniciantes, das quais algumas poderiam vir a atrair a atenção do sultão. Nesse caso, eram chamadas de gözde (literalmente, "no olho"), companhias passageiras. O senhor conservava entre elas aquelas que dominavam as mais refinadas artes da atração - e as artes eróticas não eram as menos importantes.


No harém, Adolphe Yvon

Essas damas de companhia que o vestiam, o banhavam, serviam suas refeições e seu café, cuidavam de suas vestimentas, entre outras atribuições, eram chamadas de odalik - as famosas odaliscas -, termo vindo de oda, que significa "para o quarto".

A fortuna começava a sorrir àquelas que partilhavam mais regularmente a cama do sultão. Essas ikbâl, ou concubinas, dispunham no palácio de apartamentos privados e de servidores. A atribuição de um número de ordem (favorita nº 1, nº 2...) as hierarquizava. Mas todos os favores recaíam sobre aquela que dava à luz um filho. Ela tornava-se cadine (mulher nobre) e obtinha o status de esposa. O número dessas privilegiadas oscilava entre quatro e oito, a mais honrada sendo aquela que havia gerado o primeiro filho do sultão. Suntuosos aposentos lhe eram atribuídos, bem como rendimentos substanciais que lhe permitiam financiar hospitais, mesquitas, fontes ou banhos públicos em Istambul ou nas províncias.

Os efetivos femininos do harém variaram ao infinito, segundo a época e os desejos de cada senhor. Quase 200 no tempo de Solimão, o Magnífico, mais de 900 em meados do século XVII, entre 400 e 800 no século seguinte, 809 em 1870. Por ocasião da morte de um sultão, suas favoritas em geral eram encaminhadas ao Velho Palácio, situado no centro da capital, um "palácio das lágrimas", onde as mais idosas e as que haviam caído em desgraça definhavam aos poucos. No entanto, o costume permitia a algumas contrair novas núpcias com altos dignitários, com a concordância do novo soberano. Aquelas que jamais haviam merecido as atenções do sultão podiam, depois de nove anos de serviços, deixar o palácio e se casar; sua educação esmerada fazia delas parceiras cobiçadas.

Jean-François Solnon. Harém, a vida entre prazeres e intrigas. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 123 / p. 48-49.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 3)

Catarina II da Rússia, Dmitry Grigoryevich Levitsky

Naquele outono, porém, Catarina viu e sentiu o lado negro da personalidade de Elizabeth. A vaidade da imperatriz exigia que ela fosse não somente a mais poderosa mulher do império, mas também a mais bela. Não tolerava ouvir elogios à beleza de outra mulher. Os triunfos de Catarina não lhe passaram despercebidos, e sua irritação encontrou um escape. Numa noite, na Ópera, a imperatriz estava com Lestocq no camarote real, oposto ao camarote de Catarina, Joana e Pedro. No intervalo, a imperatriz notou Catarina conversando alegremente com Pedro. Como poderia essa jovem, a radiante saúde e confiança em pessoa, agora tão popular na corte, ser a mesma menina tímida que chegara à Rússia um ano antes? De repente, o ciúme da imperatriz flamejou. Olhando para a mulher mais jovem, ela pegou o primeiro agravo que lhe veio à mente. Como se o assunto não pudesse esperar, despachou Lestocq para o camarote de Catarina para lhe dizer que a imperatriz estava furiosa com ela porque tinha contraído débitos inaceitáveis. Elizabeth lhe dera 30 mil rublos para onde tinham ido? Ao dar o recado, Lestocq fez questão de que Pedro e todos à volta pudessem ouvir. As lágrimas jorraram dos olhos de Catarina e, mesmo chorando, recebeu nova humilhação. Pedro, em vez de consolá-la, disse que concordava com a tia e achava apropriado que a noiva fosse repreendida, Joana então declarou que, como Catarina não mais a consultava sobre como sua filha deveria se comportar, "lavava as mãos" daquela história.

A queda foi súbita, abrupta. O que tinha acontecido? Que crime tinha cometido a menina de 15 anos, que só pensava em agradar a todo mundo, especialmente à imperatriz? Catarina foi verificar e viu que tinha um débito de 2 mil rublos. A quantia era irrisória em vista da extravagância e generosidade da própria Elizabeth, e a reprimenda era obviamente uma desculpa para encobrir outra queixa. É verdade que Catarina gastava sem restrições. Tinha mandado dinheiro para o pai pagar as despesas de seu irmão. Tinha gastado consigo mesma. Ao chegar à Rússia com apenas quatro vestidos e uma dúzia de roupas de baixo em seu baú, e assumindo seu lugar numa corte em que as mulheres trocavam de roupa três vezes por dia, ela usou parte de sua mesada para montar um guarda-roupa. Mas a maior parte havia sido gasta em numerosos presentes para sua mãe, suas damas de companhia e para o próprio Pedro. Ela descobrira que o meio mais eficaz de pacificar o temperamento da mãe e parar com as constantes implicâncias entre Joana e Pedro era dar presentes para ambos. Percebeu que, naquela corte, presentes conquistavam amizades. Percebeu também que a maioria das pessoas a sua volta não fazia objeção a receber presentes. Portanto, ansiosa por conquistar boa vontade, não viu motivo para desprezar esse método simples e poderoso. Em poucos meses, tinha aprendido não só a língua, mas também os costumes da Rússia.

Era difícil entender e aceitar esse repentino ataque da imperatriz. Revelava as duas faces de Elizabeth, uma mulher que, alternadamente e sem aviso, encantava e intimidava. Depois, quando Catarina se lembrava da lição aprendida ao lidar com um ego inflado como o de Elizabeth, todas as mulheres da corte deviam evitar ter muito sucesso. Ela se esforçou para se reintegrar com sua protetora. E Elizabeth, quando o ataque de ciúmes cedeu, se abrandou e acabou por esquecer o incidente.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 87-88.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 2)

Catarina II da Rússia, Fyodor Rokotov

"Sabendo como minha mãe se exaltava facilmente e que seu primeiro impulso era sempre muito violento, temi que ela me desse um tapa se eu discordasse dela. Sem querer mentir para ela nem ofender o grão-duque, fiquei calada. Contudo, acabei dizendo a minha mãe que eu não achava que o grão-duque tinha feito de propósito."

Joana então se voltou contra Catarina.

Quando minha mãe estava com raiva, tinha de achar alguém com quem brigar. Permaneci em silêncio e depois explodi em lágrimas. A princípio, meu silêncio enraiveceu a ambos. Então o grão-duque, vendo que toda a raiva de minha mãe se dirigiu para mim porque eu tinha tomado o partido dele e que eu estava chorando, acusou minha mãe de ser uma megera arrogante e injusta. Ela contra-atacou, dizendo que ele era "um menininho mal-educado". Seria impossível brigar com mais violência sem chegar aos tapas.

A partir de então, o grão-duque tomou grande antipatia por minha mãe e nunca esqueceu aquela briga. Minha mãe, por sua vez, guardou por ele um irremediável rancor. Aquele relacionamento tenso se tornou cada vez mais cheio de amargor e suspeita, passível de azedar a qualquer momento. Nenhum dos dois conseguia esconder de mim seus sentimentos. E por mais que me esforçasse para obedecer a uma e agradar ao outro - e de algum modo promover a reconciliação -, conseguia isso apenas por curtos períodos. Cada um tinha sempre uma farpa de sarcasmo ou malícia pronta a ser arremessada. Minha posição ficava mais difícil a cada dia.

Catarina estava angustiada, mas o mau gênio da mãe e a simpatia de catarina pelo grão-duque surtiram um efeito: "Na verdade, naquela época, o grão-duque abriu seu coração para mim mais que para qualquer outra pessoa. Ele via que minha mãe sempre me atacava e me repreendia quando não conseguia encontrar alguma falta nele. Isso me colocou numa alta posição em sua estima; ele acreditava poder confiar em mim."

No clímax da peregrinação, a imperatriz e a corte passaram dez dias em Kiev. catarina teve uma visão inicial panorâmica da magnífica cidade, com seus domos dourados se erguendo de uma encosta na margem oeste do rio Dnieper. Elizabeth, Pedro e Catarina entraram a pé na cidade, andando com uma multidão de padres e monges atrás de uma grande cruz. Em toda parte da mais sagrada de todas as cidades russas, numa época em que a Igreja era imensamente rica e o povo devotamente piedoso, a imperatriz foi recebida com uma pompa extravagante. Na famosa igreja de Assunção no monastério Pecharsky, Catarina ficou admirada com o fausto das procissões, a beleza das cerimônias religiosas, o incomparável esplendor das próprias igrejas. "Nunca, em toda a minha vida", ela escreveu mais tarde, "algo me deixou tão impressionada quanto a extraordinária magnificência daquela igreja. Todos os ícones eram recobertos de ouro maciço, prata, pérolas e incrustados de pedras preciosas."

Embora tão impressionada por esse espetáculo visual, nunca em sua vida Catarina foi muito devotada à religião. Nem a austera crença luterana de seu pai, nem a apaixonada fé ortodoxa da imperatriz Elizabeth jamais tomaram posse de sua mente. O que ela via e admirava na igreja russa era a majestade da arquitetura, da arte e da música, mescladas numa esplêndida unidade de inspirada - embora feita pela mão do homem - beleza.

Tão logo Elizabeth e a corte retornassem de Kiev, começou nova temporada de óperas, festas e bailes de máscaras em Moscou. Cada noite Catarina aparecia com um vestido novo e lhe diziam que estava muito bonita. Ela era astuta o bastante para reconhecer que a lisonja era o óleo lubrificante da vida na corte, e estava também ciente de que algumas pessoas ainda a desaprovavam. Bestuzhev e seus seguidores, damas ciumentas que invejavam a estrela em ascensão, parasitas que mantinham minuciosa contabilidade da distribuição de favores. Catarina tentava de todas as maneiras desarmar seus críticos. "Eu tinha medo de não ser querida e fazia tudo em meu poder para conquistar aqueles com quem iria passar minha vida", ela escreveu mais tarde. Acima de tudo, ela nunca esqueceu a quem devia maior lealdade. "Meu respeito pela imperatriz e minha gratidão a ela eram extremos", ela disse. "E ela costumava dizer que me amava tanto ou mais que ao grão-duque."

Um modo certo de agradar a imperatriz era dançar. Para Catarina era fácil: assim como Elizabeth, ela gostava apaixonadamente de dançar. Diariamente, às sete horas da manhã, monsieur Lande, o mestre francês de balé na corte, chegava com seu violino e, durante duas horas, ensinava-lhe os passos da última moda em Paris. De quatro a seis da tarde, ele voltava para outra aula. E assim, à noite, Catarina impressionava a corte com sua dança graciosa.

Alguns desses bailes noturnos eram bizarros. Toda terça-feira, por decreto da imperatriz, os homens vinham vestidos de mulher e as mulheres vestidas de homem. Catarina, aos 15 anos, se deliciava com essa mudança de trajes. "Devo dizer que não havia nada mais horrendo e ao mesmo tempo mais cômico do que ver quase todos os homens vestidos desse jeito e nada mais triste do que ver as mulheres em roupas de homem." A grande maioria da corte detestava profundamente essas noites, mas Elizabeth tinha um motivo para esse capricho: ela ficava esplêndida em roupas de homem. Embora longe de ser esguia, sua silhueta de busto farto ficava realçada pelo par de pernas esbeltas, maravilhosamente bem torneadas. Sua vaidade exigia que aquelas pernas elegantes não permanecessem escondidas, e a única maneira de exibi-las era em calças justas masculinas.

Catarina descreveu o perigo com que se defrontou numa dessas noites:

Monsieur Sievers, muito alto, usando um vestido com ampla anágua armada que a imperatriz lhe emprestara, estava dançando uma polonaise comigo. A condessa Hendrikova, que dançava atrás de mim, tropeçou na anágua armada de monsieur Sievers no momento em que ela dava um rodopio segurando minha mão. Ao cair, ela esbarrou em mim com tanta força que caí debaixo da anágua, que tinha saltado como uma mola bem ao meu lado. Sievers, por sua vez, se embaraçou nas próprias saias longas, que estavam em grande desordem, e acabamos nós três estatelados no chão, eu inteiramente coberta pela anágua dele. Eu estava morrendo de rir, tentando me levantar, mas foi preciso que viessem nos ajudar porque estávamos tão embrulhados na roupa de monsieur Sievers que nenhum dos três conseguia se levantar sem fazer com que os outros dois tornassem a cair.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 84-87.

sábado, 1 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 1)

Catarina com o seu marido, o czar Pedro III e o filho, o futuro czar Paulo I, em 1760, Anna Rosina Lisiewska

A noiva chegara à Rússia, era jovem, sua saúde fora recuperada e as dificuldades envolvendo sua conversão à religião ortodoxa tinham sido superadas. Agora que ela e Pedro estavam noivos, o que impedia um casamento imediato? Um obstáculo difícil de ser vencido até mesmo por uma imperatriz, era a cautelosa opinião dos médicos quanto a Pedro. Aos 16 anos, o grão-duque mais parecia ter 14, e os doutores ainda não conseguiam detectar nele qualquer sinal convincente de puberdade. Achavam que levaria pelo menos um ano até que ele pudesse gerar um filho. Ainda que ocorresse uma gravidez, restariam nove meses até o nascimento da criança. Para Elizabeth, esse tempo - 21 meses - parecia uma eternidade. E como o casamento precisava ser adiado, a imperatriz precisava adiar também a partida de Joana.

Aceitando com relutância esses desapontamentos, Elizabeth decidiu tomar outras medidas em peregrinação a Kiev, a mais antiga e sagrada cidade da Rússia, onde a cristandade fora introduzida pelo grão-príncipe Vladimir no ano 800 d.C. A viagem de Moscou a Kiev, de quase 900 quilômetros, foi sugerida a Elizabeth por seu amante ucraniano, Razumovsky, e inclua Pedro, Catarina e Joana, com suas respectivas comitivas, além de 230 cortesãos e centenas de servos. A caminho, as fileiras de carruagens e carroças com bagagens sacolejavam dia após dia nas estradas infindáveis, infligindo cansaço, tédio, fome e sede aos passageiros. Os cavalos eram trocados frequentemente. A cada posto de muda, oitocentos animais descansados aguardavam a chegada da caravana imperial.

Enquanto os eminentes da corte russa viajavam em carruagens forradas com almofadas de veludo, uma pessoa seguia a maior parte do trajeto a pé. Elizabeth levava muito a sério a penitência e a peregrinação. Caminhando pelas estradas russas quentes e sem sombras, suando com o calor e murmurando orações, Elizabeth parava para rezar em cada igreja de cada aldeia e em cada santuário do caminho. Enquanto isso, Razumovsky, prático e modesto, tanto nas perspectivas terrenas como nas celestiais, preferia acompanhá-la em sua confortável carruagem.

Catarina e Joana começaram a viagem numa carruagem com duas damas de companhia. Pedro seguia em outra carruagem, com Brümmer e dois tutores. Um dia, cansado de seus "pedagogos", como Catarina os chamava, Pedro resolveu se reunir às duas princesas germânicas, cuja companhia ele julgou ser mais animada. Saindo de sua carruagem, ele "entrou na nossa e se recusou a sair", trazendo com ele um dos alegres jovens de sua comitiva. Não demorou para que Joana, irritada com a presença dos jovens, quisesse fazer outra arrumação. Joana tinha uma carroça equipada com pranchões e almofadas de modo a acomodar dez pessoas. Para seu aborrecimento, Pedro e Catarina insistiram em encher essa carroça com outros jovens. "Só deixamos ficar conosco os mais engraçados e divertidos da nossa comitiva", Catarina disse. "De manhã à noite, só fazíamos rir, brincar e ter alegria." Brümmer, os tutores e as damas de companhia de Joana ficaram insultados com essa troca, que ignorava a precedência da corte. "Enquanto nos divertimos, eles ficaram numa carruagem, todos os quatro, mal humorados, repreendendo, condenando, fazendo comentários azedos à nossa custa. Em nossa carruagem, sabíamos disso, e ríamos deles."

Para Catarina, Pedro e seus amigos a viagem não foi uma peregrinação religiosa, mas uma excursão, uma grande brincadeira. Não havia pressa. Elizabeth só caminhava poucas horas por dia. Ao fim de três semanas, a comitiva principal chegou à grande mansão de Alexis Razumovsky em Koseletz, onde esperaram mais três semanas até que a imperatriz aparecesse. Quando finalmente ela chegou, em 15 de agosto, o aspecto religioso da peregrinação foi suspenso temporariamente. Durante duas semanas, os "peregrinos" se reuniam numa sucessão de bailes, concertos e, de manhã à noite, em jogos de cartas tão febricitantes que às vezes 40 ou 50 mil rublos se amontoavam nas mesas.

Enquanto estavam em Koseletz, houve um incidente que gerou uma rusga permanente entre Joana e Pedro. Começou quando o grão-duque entrou numa sala em que Joana estava escrevendo. Num banquinho ao lado dela, estava sua caixa de joias, onde guardava as pequenas coisas que lhe eram caras, inclusive suas cartas. Pedro, de brincadeira, para fazer catarina rir, fingiu remexer na caixa e pegar as cartas. Joana lhe disse severamente que não tocasse naquilo. O grão-duque, ainda se exibindo, saiu correndo pela sala, mas, ao fazer piruetas para se afastar de Joana, seu casaco se prendeu na tampa aberta, jogando a caixa e todo o conteúdo no chão. Joana, pensando que ele tinha feito isso intencionalmente, teve um acesso de fúria. Pedro ainda tentou se desculpar, mas, quando ela se recusou a acreditar que havia sido por acidente, ele também se zangou. Os dois começaram a gritar um com o outro, e Pedro, apelando para Catarina, pediu que atestasse a inocência dele.

Catarina ficou no meio da briga.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 82-84.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sexo e casamento na Idade Média (Parte 1)

Coito, Giovannino de' Grassi

Em uma sociedade tão fortemente penetrada pelos valores da Igreja, quer dizer, da comunidade cristã, muitas atividades anteriormente consideradas de foro pessoal passaram, pelo menos até o século XIII, a ser vistas como de interesse comunitário. Nesse processo de levar para a esfera pública as coisas privadas, o sexo foi talvez o mais atingido. Essa mudança de comportamento começara na verdade antes do cristianismo, com certas correntes filosóficas pagãs defendendo uma vida mais regrada, mais afastada dos prazeres materiais considerados animalizadores do ser humano. Como em vários outros aspectos, o surgimento do cristianismo respondia a essa demanda psicológica e comportamental da sociedade romana, daí seu sucesso. Tornado religião oficial em 392 e cada vez mais institucionalizado pela Igreja, já na primeira Idade Média o cristianismo pôde impor seus valores.

A vida sexual ideal passou a ser a inexistente. A virgindade tornou-se um grande valor, seguindo os modelos de Cristo e sua mãe. Vinha depois a castidade: quem já havia pecado podia em parte compensar essa falta abstendo-se de sexo pelo restante da vida. Os relatos hagiográficos de toda a Idade Média, sobretudo de suas duas primeiras fases, abundam em exemplos de santas que morreram para defender sua virgindade e de santos e santas que ao se converter ao cristianismo abandonaram a vida conjugal. No entanto, esse desprendimento não podia ser adotado pela maioria das pessoas. Era mesmo perigoso que gente sem o suficiente autocontrole tentasse levar uma vida de abstinência sexual. São Paulo já definira a questão no século I: "É melhor casar do que abrasar" (1 Coríntios 7,9). A vida sexual era possível para o cristão médio, desde que ocorresse nos quadros de uma relação definida e supervisionada pela Igreja, o matrimônio.

Contudo essa interferência eclesiástica na vida íntima dos fiéis não foi aceita com facilidade. Quanto mais recuados no tempo e mais afastados dos grandes centros clericais (sedes de bispado, mosteiros), mais os medievos puderam viver de forma "pagã", no dizer da Igreja. Os camponeses, em especial, superficialmente cristianizados até fins da Idade Média em várias regiões, quase sempre escapavam aquele controle. Os aristocratas, interessados em casamentos que garantissem bons dotes e grande prole para dar continuidade à linhagem e herdar o patrimônio fundiário da família, resistiram por muito tempo ao modelo de união sexual que a Igreja determinava. Mesmo os clérigos não aderiram de bom gosto ao celibato obrigatório imposto pela Reforma Gregoriana.

Assim, apenas ao longo do século XII, a Igreja pôde, com dificuldade, completar a definição da única modalidade aceitável de vida sexual cristã - o matrimônio, tornado um dos sacramentos. Ou seja, em primeiro lugar, uma relação heterossexual. Combatia-se. assim, a prática da bestialidade (sexo entre humano e animal), frequente no mundo antigo e no campesinato medieval. Uma tradição mítica interpretava o versículo bíblico no qual Adão, ao ver Eva, diz "desta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gênesis, 2, 23), como prova de que ele anteriormente fazia sexo com animais. as únicas companhias que tivera até então no Éden. O casamento cristão combatia especialmente a homossexualidade, o pior pecado sexual possível, por visar apenas ao prazer e não à procriação, como Deus determinara ao primeiro casal: "Sejam fecundos e multipliquem-se" (Gênesis, 1, 28). Outra passagem bíblica, muito citada pelo clero medieval, comprovava o horror ao homossexualismo, difundido em Sodoma e Gomorra, cidades por essa razão destruídas por Deus com enxofre e fogo (Gênesis, 18, 20-21; 19, 1-29).

Em segundo lugar, o matrimônio é uma relação monogâmica. Por um lado, isso atendia a um dado da mentalidade medieval, fascinada pela Unidade cosmológica, talvez como forma compensatória à grande diversidade da realidade concreta do Ocidente, dividido em vários reinos, milhares de feudos, dezenas de línguas e dialetos, diferentes liturgias (apenas com a Reforma Gregoriana tentou-se impor o rito galicano-romano a todas as regiões, o que demoraria a se concretizar). Assim, idealmente, ao Deus único deveria corresponder uma só Igreja, uma só fé, um Só governante secular. Por outro lado, a monogamia respondia a uma lenta, mas inegável transformação na sensibilidade coletiva - que a Igreja soube reconhecer e tornar lei - pela qual se passava a ver a essência do casamento no consentimento mútuo dos noivos. Isto é, a união deveria ser construída a partir do afeto recíproco, e não apenas de interesses políticos ou patrimoniais. Ora, com base no afeto conjugal, que é único (como o dirigido aos pais e a Deus), concluiu-se pela exigência de um único parceiro.

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 126-128.

domingo, 31 de julho de 2016

Cotidiano das mulheres camponesas [Europa, final do século XIX]

Camponesas com silvado, Jean-François Millet

A vida das camponesas era regrada pela da família e dos ritmos dos campos. Numa rígida divisão de papéis, tarefas e espaços. Para o homem, o trabalho da terra e as transações do mercado. Para a mulher, a casa, a criação de animais, o galinheiro e a horta, cujos produtos [...] ela vendia na feira. De acordo com a idade e com a posição na família, elas trabalhavam no campo por ocasião das colheitas de todos os tipos, de batatas a vindimas, curvadas sobre a terra ou sob o peso de cargas. A velha camponesa é uma mulher recurvada. Elas cuidavam do rebanho, das vacas, que vigiavam e ordenhavam, das cabras, cujo leite servia para fabricação artesanal de queijo, que também era serviço delas. [...] A camponesa é uma mulher ocupada, preocupada em vestir (ela fia) e em alimentar os seus (autossubsistência e confecção das refeições) e, se possível, trazer para casa um suplemento monetário a partir do momento em que o campo se abriu para o mercado: mercado alimentar, mercado têxtil. Muito cedo ela fia para fora ou faz rendas [...] que são buscadas nas aldeias por estafetas. O luxo, na corte e na cidade, principalmente a partir do século XVII, aumentou a demanda com relação às mulheres, que assim entraram no circuito monetário.

A fiadeira, Jean-François Millet


Esse mundo rural, cujo pilar é o casal, é muito hierarquizado: entre os sexos (ele é o senhor); entre as mulheres. A dona de casa reina sobre a família e os agregados. Ela toma conta das filhas, preocupada com seus namorados e seu enxoval, modo de transmissão privilegiado entre mãe e filha. Cuida da roupa branca, cujas lavagens constituem verdadeiras cerimônias. Cuida dos parentes idosos, reclamando quando tem de trazê-los para morar em sua casa. Vigia as criadas, muitas vezes às voltas com as inconveniências dos cavalariços, ou do patrão, para ver se não estão engordando além do normal por baixo de seus blusões ou aventais. Essas criadas, filhas de famílias numerosas, que não podem sustentá-las nem empregá-las, pertencem à camada mais pobre e mais exposta do mundo rural.

As lavadeiras, Jean-François Millet


Essa vida rude tem seus ritos e seus prazeres para as mulheres, cujo poder oculto é, com freqüência, muito forte. Ele se exerce pelo olhar e pela palavra. Na igreja, onde elas são as mais fervorosas. Nas feiras, onde gerenciam o comércio a varejo. Na lavanderia, as mulheres falam entre si e lavar roupa branca é atividade propícia à confidência. Os homens temem o burburinho das lavanderias, que operam uma espécie de censura, desfazem uma reputação. À noite, nos momentos de vigília, as mulheres mais velhas contam histórias e transmitem as lendas e os acontecimentos da vizinhança. Mas logo os jovens forasteiros lhes furtam essa vantagem com seus relatos em que predominam os rumores da cidade. [...]

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 111-2.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 6 - A alimentação na colônia / O mar e as "veredas"]

* A alimentação na colônia. No litoral, o peixe e os mariscos entravam na dieta dos moradores. A carne-seca também era um dos principais alimentos da dieta colonial. Mas o alimento básico da grande maioria da população colonial era a mandioca, o "pão da terra". Introduzida na dieta dos europeus pelos índios, ela era consumida em toda a colônia. No Sul, entretanto, o consumo de milho era maior: sua produção nessas regiões visava suprir também a alimentação dos animais de carga destinados às minas.


Engenho de mandioca, Modesto Brocos

Depois da mandioca e do milho. as principais culturas de subsistência da população colonial eram o arroz e o feijão. Já o trigo era cultivado no Sul. Outra fonte de sustento ingerida por grande parte da população colonial eram frutas, mas essas e as hortaliças, em geral, consistiam artigos de luxo na colônia, exceto as bananas (algumas, como a pacoba e uma espécie de "banana-prata", já existentes no Brasil antes do descobrimento) e as laranjas, de cultivo amplamente disseminado no litoral brasileiro na época colonial, iniciado com mudas ou sementes trazidas de outros continentes.

Por problemas alimentares ou, provavelmente, de higiene, brancos, negros e mestiços eram frequentemente vitimados pelas disenterias; aliás, as doenças faziam sofrer a população colonial de forma indiscriminada. O "mal do bicho" - cuja prevenção incluía uma dose de cachaça tomada logo de manhã - atacava em toda a extensão do território. Os vermes e as doenças venéreas acometiam ricos e pobres em igual proporção.

* O mar e as "veredas". O principal meio de comunicação da colônia era o mar. A via marítima articulava os principais centros comerciais do território. No Nordeste, as estradas seguiam as rotas traçadas pelas boiadas e pelos rios. No Centro-Sul, as comunicações com as minas faziam-se a partir de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia. As distâncias eram imensas e as comunicações por terra eram difíceis, lentas e perigosas. Bandidos, quilombolas e indígenas hostis atacavam com frequência os viajantes.

O desenvolvimento de alguma atividade lucrativa de exportação determinava a abertura de estradas. Não havia uma rede de conexões que integrasse a população das várias regiões. No período colonial, o que se poderia chamar de "rede" era muito fragmentado e favorecia a criação de sistemas de comunicação isolados e antônomos.

A lentidão nas comunicações ditava o ritmo do tempo na colônia. Às vezes um comunicado ou uma condenação demorava meses, se não anos, até chegar ao destinatário. Isso trazia prejuízos enormes para os colonos, que muitas vezes dependiam de ordens vindas de Portugal.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 237-8.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 5 - Lazer e entretenimento]

As vilas e cidades da colônia concentravam os recursos econômicos e humanos, além de sediarem as instituições civis e religiosas, os tribunais, o tesouro, a burocracia civil e militar. Nelas também moravam os comerciantes, advogados, escrivães e artesãos.

A praça desempenhava importante papel na vida cotidiana, pois era local de encontro e servia de mercado. Em seus tabuleiros, mulheres livres e cativas vendiam produtos perecíveis; e escravos de ganho ofereciam seus serviços. Era também o lugar onde se realizavam as cerimônias públicas, as "festas reais", a comemoração de uma coroação ou o nascimento de um herdeiro do trono, e as festas religiosas. Nela se erguiam o pelourinho e a forca, símbolos do poder do Estado.


Uma família brasileira, Henry Chamberlain

As cidades eram divididas em freguesias - jurisdições eclesiais centradas nas igrejas paroquiais, marcos da vida civil e religiosa. A igreja era ponto de encontro, onde se celebrava a missa, procedia-se aos rituais de vida e morte, às festas do santo padroeiro e onde tinham espaço ainda outras atividades. As paróquias também eram encarregadas de serviços sociais, tais como o cuidado dos doentes e dos pobres, além de outros aspectos da vida cotidiana.

O chafariz era outro ponto importante das vilas e cidades. Lá, ao abastecer-se de água, escravos, criados e homens livres pobres encontravam-se para trocar informações de todo tipo. E a população pobre - tanto livre quanto escrava - também se reunia nas tabernas, onde se vendia cachaça. Em 1650, havia mais de duzentas delas em Salvador.

A vida dos colonos era pacata. Não havia grandes diversões, além da chegada de alguma embarcação, trazendo notícias do reino, ou da celebração de festividades religiosas. As missas eram a principal recreação da população urbana. E a Igreja também era responsável pela divulgação de notícias. Naquela época, por causa da inexistência de jornais, as informações eram obtidas por intermédio dos padres ou dos funcionários metropolitanos. Não é de estranhar que os colonizadores dedicassem tanta energia e dinheiro à construção de igrejas. Nas vilas mais prósperas, as igrejas eram ricamente decoradas.

As mulheres dos senhores não participavam da escassa vida social que havia na colônia. Viviam fechadas dentro de casa e só saíam para frequentar a missa. Calcula-se que, nas minas, apenas 5% das mulheres eram chamadas de "donas" ou "senhoras".

"Por mais enfadonha que fosse a vida das senhoras brancas, ainda assim era, sob a maior parte dos aspectos, mais digna de inveja do que a de seus escravos. [...] Um despacho régio de 1º de março de 1700. denunciando a barbaridade com a qual muitos dos senhores e senhoras de escravos os tratavam, declarava que tais atrocidades se tinham iniciado nas plantações do interior, mas ultimamente se estavam espalhando pelas cidades e vilas. A Coroa condenava particularmente a vergonhosa prática de viverem as senhoras dos ganhos imorais de suas escravas, que não só eram encorajadas, mas compelidas a entregar-se à prostituição. Tal prática mostrava-se censurável extensão do hábito mais comum pelo qual as mulheres escravas tinham permissão para trabalhar por sua própria conta como cozinheiras, costureiras ou vendedoras ambulantes, contanto que pagassem aos seus donos uma quantia fixa sobre ganhos diários ou semanais."

Nas camadas inferiores da população, muitas mulheres livres trabalhavam para garantir a sobrevivência e o sustento de suas famílias: eram cabeças da casa. A prostituição era meio de vida comum para as mulheres pobres. O casamento não era comum entre a população livre, pois, entre outras razões, a Igreja cobrava muito para formalizá-lo. As pessoas viviam juntas, mas não casavam. Enfim, a colônia não oferecia outras possibilidades de suprir as necessidades básicas dessa camada da população.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 236-7.

terça-feira, 5 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 4 - Vilas e cidades]

Nas vilas e nas cidades, a vida era igualmente violenta. Era perigoso andar à noite pelas te ruas das grandes aglomerações urbanas da colônia. "Todas as manhãs cadáveres de vinte e cinco a trinta pessoas recentemente assassinadas eram encontrados pelas ruas, apesar da vigilância dos soldados que as patrulhavam durante a noite", conforme afirma o historiador inglês Charles Boxer, citando o depoimento de um viajante italiano que esteve em Salvador no ano de 1699.


Uma venda em Recife, Johann Moritz Rugendas

Em Pernambuco, a violência chegou a tal ponto que, em várias ocasiões, os governadores proibiram os moradores de entrar armados nas vilas e cidades. Nessa capitania, desde a ocupação holandesa, no século XVII, a vida era de uma insegurança crônica. Os homens livres andavam pesadamente armados a toda hora. Afirmava-se que mais pessoas tinham sido mortas no início do século XVIII do que durante toda a guerra contra os holandeses. Além disso, entre a população livre, era voz corrente que "matar não é assassinar". Cometiam-se crimes brutais por motivos fúteis, tais como vingança pessoal, adultério feminino e outras ofensas menores.

Nas regiões onde a principal atividade era a mineração, a violência era ainda maior. Os roubos e assassinatos eram mais frequentes, e a ação de quilombolas atormentava os habitantes das vilas e os tropeiros. A exploração das minas e a expansão da vida urbana facilitavam as fugas e a compra da própria liberdade, motivo pelo qual havia nessas áreas uma proporção maior de negros livres.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 235.

sábado, 2 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 2 - O cotidiano na colônia: tensão permanente]

No final do século, o núcleo colonial luso-brasileiro contava com aproximadamente 4 milhões de habitantes espalhados numa rede extensa de vilas e cidades - pois, afinal, os portugueses e espanhóis eram seres essencialmente urbanos - dispersas no imenso território que corresponde ao Brasil atual. Os mais importantes desses polos urbanos eram, geralmente, os portos dos principais centros de exportação de produtos agropecuários, minerais e pedras preciosas.

Até os últimos anos do século XVIII, a maioria dos habitantes da colônia vivia no Nordeste, em torno dos núcleos açucareiros da Bahia e de Pernambuco. A descoberta de ouro em Minas Gerais alterou o equilíbrio demográfico da colônia, ao atrair um grande contingente de colonos para o interior das capitanias "de baixo". A mineração foi a grande responsável pela fixação de núcleos populacionais estáveis nas capitanias de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.

A partir da segunda metade do século XVIII, o Rio de Janeiro polarizou a vasta hinterlândia das Gerais e dos campos de São Pedro. No Norte, o algodão deu impulso significativo ao Maranhão, principal produtor dessa matéria-prima. Nessa região, negros e mestiços formavam a maioria da população, subnutrida e analfabeta.


Mulheres escravas, Carlos Julião

A violência registrada no cotidiano da vida colonial deve-se, em grande parte, à presença da escravidão em todas as atividades. Era comum os escravos serem brutalizados por seus donos e tratados como animais, podendo ser vendidos a qualquer momento ou punidos por mero capricho do senhor ou do capataz. A vida de um escravo era, quase sempre, sórdida, desumana e curta. As fugas, levantes e castigos eram frequentes. A tensão entre senhores e escravos era permanente, sobretudo no mundo rural, que concentrava o grosso da escravaria africana ou ameríndia. Nessa situação, senhores e escravos, homens e mulheres, brancos, negros e mulatos enfrentavam o dia a dia da casa-grande e das senzalas.

Feitas de pedra e tijolo, cobertas de telhas, as casas-grandes procuravam reproduzir os valores da nobreza europeia - daí a pretensão dos senhores de autointitular-se "nobreza da terra". Os numerosos cômodos da casa-grande eram habitados pela família e os agregados do senhor. Os escravos moravam nas senzalas, habitações precárias e insalubres. As condições de vida nas senzalas eram penosas, a falta de higiene e a promiscuidade faziam parte do "inferno" dos escravos no insuficiente repouso que lhes era permitido. Nos raros momentos de lazer, cantava-se e batucava-se. Rezava-se nos calundus. O trabalho era árduo durante quase todo o ano. Não havia fim de semana, nem feriados religiosos.

Nos meses de entressafra, verificava-se

"uma época de ócio e, para alguns, de volutuosidade, desde que a monocultura, em parte nenhuma da América, facilitou pequenas culturas úteis, pequenas culturas e indústrias ancilares ao lado da imperial, de cana-de-açúcar. Só as que se podem chamar de entorpecentes, de gozo, quase de evasão, favoráveis àquele ócio, àquela volutuosidade: o tabaco, para os senhores; a maconha - plantada nem sempre clandestinamente perto dos canaviais - para os trabalhadores, para os negros, para a gente de cor; a cachaça, a aguardente, a branquinha."

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 232-4.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Os ideais renascentistas e a brutalidade da vida cotidiana

A expulsão do jardim do Éden, Masaccio

[...] os velhos sistemas de valores foram destronados, os novos valores ainda possuíam um caráter rudimentar e inseguro do ponto de vista do conjunto da sociedade. A procura de uma vida verdadeira e bela, com base em modelos judaico-cristãos, gregos e romanos, se confrontava com a brutalidade da vida cotidiana, que marcou a realidade da época do Renascimento.

Essa brutalidade era expressão da crise feudal. Os poderes tradicionais da Igreja e da nobreza feudal estavam abalados pelas transformações econômicas e sociais, mas os novos poderes ainda não tinham se firmado.

O aparecimento das relações burguesas de produção, ou seja, da produção para o mercado, da competição econômica e do trabalho assalariado nas cidades, não podia pôr fim à brutalidade. Ao contrário, tendia a torná-la mais aguda. A vida cotidiana era dominada pela brutalidade da acumulação primitiva.

A expansão da manufatura, por exemplo, ao mesmo tempo que valorizou o trabalho especializado do artesão, exigiu o uso do trabalho não-especializado, que não necessitava de um longo período de treino. Era preciso aumentar a produção e atender as novas necessidades do mercado. A inovação passou a ter um papel muito importante na produção, e isso entrava em contradição com o trabalho do artesão tradicional, que aprendia lentamente uma técnica antiga.

O nascimento da moda era um sinal dos tempos e obrigava a produção a se adequar a ela.

Outro fator de brutalidade era a instabilidade política, principalmente em várias cidades italianas, onde grupos e famílias, muitas de origens plebeia e obscura, conquistavam ou perdiam o poder sucessivamente. O assassinato, a traição, o envenenamento, o golpe de audácia eram comuns na luta pelo poder.

Essa realidade política brutal, por outro lado, evidenciava as potencialidades individuais, a capacidade de o indivíduo construir o seu próprio destino por meio das oportunidades aproveitadas ou perdidas, dos cálculos bem feitos ou malfeitos.

Por outro lado, a democracia relativa de muitas cidades italianas criou, pelo menos por um curto período, um otimismo em relação à possibilidade de realização dos ideais renascentistas. O sucesso individual e o reconhecimento público eram procurados com afinco. A inveja e a competição eram consideradas normais.

O sucesso individual significava dinheiro e fama. Aos homens que viveram em Florença, por exemplo, no auge do Renascimento, esse sucesso parecia depender exclusivamente da capacidade individual. Esse sentimento era justificado pela realidade. O êxito era uma confirmação da humanidade do indivíduo, do valor do seu trabalho.

No auge do Renascimento, os artistas já tinham prestígio social, seu trabalho era valorizado, embora menos do que o dos literatos.

A sociedade, os poderes estabelecidos e o público não eram obstáculos para a realização pessoal. O Renascimento, no seu apogeu, não produziu gênios incompreendidos. Por isso ninguém tinha medo de ser ele mesmo, de parecer diferente, de seguir o seu rumo na vida e de fazer o que achasse melhor.

A extroversão foi, portanto, uma característica do homem renascentista. Por isso não devemos confundir o individualismo renascentista com o atual. O homem renascentista não era egocêntrico, mas voltado para o exterior. Os cidadãos das cidades italianas procuraram servi-las conscientemente. Eles desejavam servir por meio do conteúdo humano das suas obras e das suas ações, isto é, da sua individualidade.

Tudo isso não significa que a sociedade e os poderes estabelecidos tendiam a aceitar os novos valores e a nova convicção de homem? Parece que sim!

Mas esse momento de aceitação foi relativamente breve. À medida que as normas e a ética do mundo iam mostrando a incapacidade de realização dos ideais do Renascimento, estes passaram para a intimidade. A brutalidade da vida cotidiana, no aspecto político ou econômico, não foi resolvida pela eliminação das contradições de interesses entre grupos e classes. O Estado unificado absoluto se firmou exatamente estabelecendo uma ordem social mais estável. Com isso tirou do indivíduo a possibilidade de ele construir o seu destino. O prêmio e o castigo passaram a depender do Estado.

A Igreja Católica e as novas igrejas cristãs surgidas com a Reforma também colocaram freios à liberdade individual. A extroversão e a sinceridade se tornaram não só perigosas, mas anti-cristãs.

Isso desenvolveu a hipocrisia como atitude social necessária. Alcançar um lugar no mundo contra os outros exige disfarces.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 139-141.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vida cotidiana em Constantinopla

Texto 1. Nas ruas de Constantinopla conviviam ricos e pobres, sem que houvesse diferenciação de locais para a construção de moradias. Era comum existirem quarteirões residenciais  elegantes rodeados por sobrados de madeira, ocupados por grupos médios ou ainda por pequenos casebres, pertencentes aos trabalhadores pobres. Contudo, a existência de muros altos em torno das moradias dos grupos privilegiados impedia o convívio entre pessoas de diferentes status sociais.


Mapa de Constantinopla. Desenhado pelo cartógrafo florentino Cristoforo Buondelmonti,1422.

Em Constantinopla, a vida urbana concentrava-se praticamente em torno de três grandes construções: a Igreja de Santa Sofia, o Hipódromo e o Palácio Imperial, que representavam respectivamente a religião, o povo e o poder do governo. Os prédios ficavam numa praça pública, bem próximos uns dos outros.

A Igreja de Santa Sofia, projetada e construída durante o reinado de Justiniano, entre 532 e 537, é uma das expressões máximas da arquitetura do Império Bizantino. Assim como grande parte das construções da civilização bizantina, as paredes internas de Santa Sofia apresentam ricas decorações de murais cobertos por mosaicos feitos com pedaços de vidro e pedra. Eles representam imagens de ícones religiosos e dos governantes. Há também mosaicos que trazem cenas da vida cotidiana e elementos naturais.

O Hipódromo era o local privilegiado de encontro entre os bizantinos. Nesse local aconteciam as corridas de biga, disputadas entre os partidos Verde e Azul. O primeiro representava as camadas populares, enquanto o último estava ligado à aristocracia. As roupas utilizadas durante os espetáculos no Hipódromo estavam entre os principais indicativos da condição social dos bizantinos.


O Palácio do Hipódromo. Século X, artista desconhecido.

Na maioria das vezes, o casamento dos nobres constituía um ato diplomático. Damas da sociedade eram enviadas a reinos estrangeiros distantes para desposar e "civilizar" nobres ricos e poderosos, ou seja, levar até eles a cultura helenística.

Alguns autores relatam que para o casamento de um imperador o processo era diferente. Era tradição que um grupo de funcionários reais saísse à procura de uma noiva por todo o território do império. As candidatas deveriam ser muito bonitas, discretas e possuir as medidas do busto, da cintura e dos pés de acordo com o gosto do rei.

A Igreja desempenhava um importante papel na educação das crianças. Tanto as famílias mais abastadas como as parcelas mais empobrecidas da sociedade tinham a oportunidade de mandar seus filhos para as escolas. O ensino religioso processava-se paralelamente ao laico. Nas escolas religiosas - com raras exceções - era permitido o estudo de escritores e filósofos pagãos. As crianças começavam a frequentar as escolas aos 6 anos de idade, e os filhos dos aristocratas faziam estudos mais aprofundados, equivalentes ao nível superior, por volta dos 18 ou 20 anos. Esses estudos incluíam a filosofia e conhecimentos gerais de matemática, geometria, música e astronomia.

Os segmentos mais pobres, no Império Bizantino, viviam melhor que os de outras sociedades cristãs da época. O desenvolvimento comercial, urbano e manufatureiro dos bizantinos propiciou maior estabilidade econômica para a população, aumentando a oferta de empregos.

Mesmo as camadas mais humildes de Constantinopla eram servidas por água abundante e canalizada. Esta era transportada por aquedutos e armazenada em muitas cisternas abertas e cobertas. Das cisternas, era encanada para fontes localizadas em esquinas de ruas e nas praças públicas, onde todos podiam servir-se gratuitamente. O esgoto era desviado para o mar por meio de um sofisticado sistema de drenagem subterrânea. A cidade dispunha de banhos públicos, acessíveis para homens e mulheres em horários diferentes, e o governo e a Igreja proporcionavam cuidados médicos e hospitalares para aqueles que não podiam pagar. BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 171-2.

Parábola dos trabalhadores da vinha. Evangelho bizantino, século XI, artista desconhecido.

Texto 2. O vestuário dos bizantinos era derivado ao mesmo tempo dos gregos, romanos e asiáticos. Durante oito séculos, o feitio quase não mudou. Homens e mulheres usavam túnicas com mangas e capas, tendo sido adotadas as calças (braccae) dos soldados romanos que atuaram no norte da Europa. O feitio característico, para ambos os sexos, mantinha um corte folgado para ocultar as formas do corpo. A moda bizantina reinou no mundo feudal da Idade Média Românica, pois Constantinopla era a Paris de então! O ouro dominou a escala de cores, ao lado do nobre púrpura, do vermelho, do marrom, do preto e do branco - cores observadas nos mosaicos bem conservados de Ravena que, aliás, não retratavam a classe popular. Os motivos de decoração eram formas diversas de animais e vegetais, além de símbolos cristãos como a cruz, o cordeiro e a vinha. Os tecidos nos circos eram brocados enriquecidos com bordados de prata, ouro e pedras preciosas. [...] Podem-se definir as ricas roupas da corte imperial como vestimentas hierárquicas, com um certo ar eclesiástico, nada de sedução nem muito menos de utilidade, demonstrando as influências do Oriente, com seu colorido forte, bem diferente da simplicidade dos velhos trajes romanos. A partir do século XIII. ocorreu uma orientalização maior nas roupas bizantinas. A vestimenta do clero continuava a ser ainda composta da dalmática, da stola e da paenula. [...] Capas, a paenula circular e a paladamentum semicircular, cobriam as túnicas compridas femininas. Um véu retangular tinha que cobrir sempre as cabeças das mulheres. Os decotes eram geralmente altos para os dois sexos. NERY, Marie Louise. A evolução da indumentária - subsídios para criação de figurinos. São Paulo: Senac, 2003. p. 55-6.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O consumismo, a propaganda e a mulher na década de 1920

Na década de 1920 firmou-se não só um "estilo de vida americano", mas também a cultura de massas americana, graças à conjugação da produção em série, da propaganda e das vendas a crédito. O rádio, o cinema, os jornais e as revistas foram os grandes divulgadores do american way of life. O número de aparelhos de rádio nos lares americanos saltou de 100.000, em 1922, para 2 milhões, em 1925. A frequência semanal aos cinemas duplicou, atingindo no final da década 100 a 115 milhões de espectadores. As estrelas de cinema tornaram-se os grandes símbolos de sucesso e passaram a ditar moda e costumes.

[...]

Já no início do século XX, as cadeias de lojas e os catálogos de vendas pelo correio popularizaram os artigos fabricados em série (roupa pronta, comida enlatada, móveis, eletrodomésticos etc.) e difundiram informações e valores para muito além dos grandes centros metropolitanos. Contribuíram para um novo nível de estandardização da vida cotidiana e de homogeneização das das diferenças entre o campo e a cidade.



O sistema de pagamento a prestações encorajava as pessoas a consumir além das suas possibilidades. Em 1925, os consumidores americanos utilizaram a venda a prestações para comprar mais de dois terços dos móveis e eletrodomésticos e pelo menos três quartos dos automóveis, pianos, máquinas de lavar, máquinas de costura, geladeiras, gramofones etc.

[...]

Industriais e publicitários norte-americanos da década de 1920 usaram todos os meios para estimular no público o desejo de possuir bens. Anunciavam os aparelhos eletrodomésticos como equipamentos que poupavam trabalho e tempo à mulher. Seduziam o público com imagens de aspiradores, máquinas de lavar roupa e ferros elétricos associadas a figuras de mulheres modernas e elegantes, que mesmo na cozinha usavam salto alto e maquiagem. Os publicitários tornaram-se verdadeiros manipuladores do comportamento humano. Souberam explorar as descobertas da Psicologia sobre a motivação das ações, utilizando imagens e associações de ideias que despertavam emoções no consumidor, incitando-o a comprar. Aos poucos, a propaganda foi deixando de fornecer informações objetivas sobre um produto para transformá-lo em "necessidade que melhorava o nível de vida da família". Inventando necessidades, a propaganda impelia o consumidor a comprar.

Os publicitários logo perceberam que o mercado consumidor era predominantemente feminino, Na década de 1920, as pesquisas mostravam que 80% das compras nas grandes cidades dos Estados Unidos eram feitas por mulheres, Por isso, a maior parte dos anúncios passou a ser dirigida às mulheres, em especial às donas-de-casa. Criou-se a ideia de que o consumo era a tarefa primordial da dona-de-casa. "Ir às compras" era moderno, elegante e "importante" - dizia a mensagem subliminar dos anúncios nas revistas femininas. A nova imagem da mulher substituía a figura tímida, delicada e submissa de antes pela da mulher decidida e sociável. A mulher moderna ideal gostava de se divertir, mostrava-se atraente para os homens e sabia o que queria. A publicidade deu uma nova concepção consumista às propostas feministas, isto é, a mulher moderna "sabe o que quer" porque decide o que comprar. Um anúncio de produtos domésticos publicado no Chicago Times em 1930 proclamava: "A mulher de hoje obtém tudo o que quer. O voto. Finos forros de seda para substituir volumosos saiotes. Objetos de vidro em safira azul ou em âmbar resplandescente. O direito a uma carreira. Sabonetes combinando com as cores de seu banheiro".

[...]

Não se pode pensar a cultura de massas da década de 1920 como se fosse o padrão de toda a sociedade americana. O crescimento econômico e seus resultados materiais estavam distribuídos de forma desigual nos Estados Unidos. Até a década de 1930, as mulheres negras que trabalhavam nas plantações de tabaco em Durham, Carolina do Norte, por exemplo, lavavam a roupa de suas famílias em bacias no quintal, utilizavam latrinas fora de casa e cozinhavam em fogões a lenha. Além da diferença do poder de compra, havia outros elementos que mantinham as desigualdades: enquanto a maior parte das casas urbanas podia contar com energia elétrica, água canalizada e fornecimento municipal de gás, grande parte das áreas rurais não possuía esses serviços.

No Brasil, as revistas femininas da época já anunciavam as maravilhas domésticas para a mulher moderna. No entanto, mesmo nas residências de famílias ricas, o trabalho pesado era deixado à mão-de-obra barata de arrumadeiras e faxineiras, conforme lembra uma empregada doméstica: "Para limpar o assoalho eu espalhava areia nas tábuas e esfregava de joelhos, com um tijolo. Depois, varria, jogava água e puxava com um pano torcido, rodo não existia. Imagina como ficava o rim de quem esfregava o tijolo!". (Citado em BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.)

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002, p. 102-4.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mudanças na paisagem urbana e no cotidiano de São Paulo na década de 1920

São Paulo, 1924, Tarsila do Amaral

São Paulo dos primeiros anos da década de 1920 guardava inúmeras manifestações características de uma cidade onde os homens ainda podiam reconhecer-se, isto é, a metropolização que carrega a ideia de um espaço quantitativo e diluidor do indivíduo não havia se imposto totalmente. Um bairro, por exemplo, era sentido como um microlugar de uma cidade com história relativamente descentralizada, onde o tempo era marcado pelos ritos, pelos desfiles de uma banda como a de "Ettore Fieramosca (que) dá uma volta triunfal pelo Bom Retiro com a gurizada atrás". Uma cidade que permitia a existência de espaços para a prática do footing...

[...]

A Ponte Grande [...] estava situada sobre o rio Tietê, na região do próprio bairro do Bom Retiro, próximo ao local onde hoje está localizada a Ponte das Bandeiras. Quase embaixo da velha Ponte Grande existia um porto onde barcos vindos de Mogi das Cruzes ancoravam para descarregar telhas e tijolos.

Os barqueiros descarregavam produtos que chegavam a São Paulo através de um meio de transporte relativamente lento, se for comparado com o trem, cujos trilhos corriam quase paralelamente ao rio. A navegação e os produtos (telhas e tijolos) eram resultados de uma atividade mais criadora, típica de uma cidade menor com um espaço qualitativo que sobrevivia a pressões do espaço quantitativo típico da metrópole que começava a crescer.

Os bairros possuíam restos de uma vida própria resistindo à tendência centralizadora da metrópole.

[...]

Uma profissão arcaica como a de um vendedor de tripas, atividades lúdicas como o balanço do Parque Antártica, as retretas do Jardim da Luz parecem reforçar os contornos de uma cidade descentralizada, com os bairros mantendo uma relativa vida própria. Autonomia que imprimia uma divisão entre espaço e classes sociais: se em Higienópolis podiam viver os enriquecidos de fresca data, formados de uma plutocracia imigrante que sugeria o trabalho como via de ascensão, os imigrantes pobres que exerciam profissões de tripeiro ou condutor da Light só poderiam viver no Bom Retiro [...] ou no Brás, Bixiga e Barra Funda [...]

Os espaços físicos intermediários entre os bairros pobres e o centro da cidade chegaram a ser ocupados por camadas médias ligadas ao comércio e burocracia.

O lazer de parte considerável da população paulista era desfrutar as grandes áreas da mata da Cantareira para fazer piqueniques e namorar. Ou ainda, organizar pescarias com a família e amigos na represa próxima da serra do Mar no caminho para Santos. A atividade lúdica urbana, que havia sido, até um determinado momento, bastante valorizada, sofre um processo de reversão: o espaço urbano encolhe-se diante do crescimento populacional, daí a procura do bucólico e da quietude dos arredores da cidade. [...]

[...]

Confirma-se [...] a tendência à metropolização a organização do lazer, da "felicidade" dominical e da paisagem idílica, em outras palavras, a organização do ócio aumenta na mesma medida em que a cidade perde suas características descentralizadoras e crescem as tendências centralizadoras de um espaço quantitativo. Neste momento é que se dá a liquidação das referências individuais, as mutações são bruscas e as mudanças são eternas. Este era o paradoxo de São Paulo na década de 1920.

A cidade via seu espaço se transformar para que a economia de mercado pudesse escoar seus produtos mais facilmente. O próprio rio Tietê de se falou foi, em parte, canalizado para dar lugar a ruas, por onde passavam caminhões, automóveis, bondes. Viadutos e túneis tornavam as comunicações mais fáceis, anunciando um novo tempo. Os tentáculos viários da metrópole centralizadora avançavam vorazmente sobre os bairros, retirando-lhes o que restava de vida própria.

Os anos 20 conheceram um crescimento nas exportações de café, e entre 1922 e 1923 o produto valorizou. O peso político e econômico do Estado de São Paulo era cada vez maior. Os impostos provindos das exportações produziam uma situação financeira relativamente estável. Esta estabilidade impulsionava a cidade, dinamizando-a. O aparecimento da radiodifusão era parte desde impulso modernizador.

TOTA, Antonio Pedro. A locomotiva no ar. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura/PW, 1990. p. 24-26.

sábado, 10 de outubro de 2015

Aspectos da vida feudal

Ilustração do manuscrito das Cantigas de Santa Maria, escritos em galego-português durante o reinado de Alfonso X, o sábio (1221-1284). Artista desconhecido.

Texto 1. Em suas propriedades os nobres dedicavam grande parte de seu tempo a divertimentos ao ar livre; organizavam torneios, combates violentos entre numerosos cavaleiros armados, destinados a mantê-los em forma para as frequentes expedições guerreiras; justas, concursos de habilidade e destreza entre poucos concorrentes e caçadas, uma das suas distrações preferidas. Modalidade de caça muito em voga na Idade Média foi a caça auxiliada por cães ou por falcões adestrados para a captura de aves. Nos jardins ou no interior do castelo realizavam-se leituras, danças, banquetes, jogos, espetáculos proporcionados por artistas ambulantes, saltimbancos e menestréis, que divertiam a corte com proezas e agilidades, músicas e cantos celebrando façanhas heróicas ou aventuras cavalheirescas em busca de amor e de glórias. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. [Org.]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 135-6.

Texto 2. Os grandes senhores feudais eram [...] os homens mais ricos e poderosos de sua região e, com isso, cresceu o desejo de manifestar essa posição mediante o esplendor de suas cortes. [...] Na concorrência entre os governantes de territórios, elas se tornaram os locais para exibir o poder e a riqueza de seus senhores. Estes, por isso mesmo, reuniam escribas não só para finalidades administrativas mas também para redigir a crônica de suas façanhas e destino. [...] No contexto da sociedade secular, no caso daqueles que se haviam especializado na escrita [...] e tinham de viver disso, fossem ou não amanuenses, o patrocínio da corte constituía o único meio de sustento.

Artistas viajavam de um castelo para outro. Se alguns eram cantores, a maioria trabalhava simplesmente como palhaços ou bufões [...]. Nessa qualidade, eram encontrados também nos castelos dos cavaleiros mais simples e menos importantes. Mas só os visitavam de passagem, pois não havia alojamento, nem interesse, e, não raro, tampouco meios de alimentá-los e remunerá-los por um longo período. Tais condições só as poucas cortes maiores podiam fornecer. [...] Os senhores mais importantes, mais ricos - o que vale dizer, os de graduação mais alta -, podiam atrair os melhores artistas para suas cortes. ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formação do Estado e civilização. v. 2. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 72-73.

Texto 3.  [...] uns rezavam, outros combatiam e a maioria trabalhava.

Era uma sociedade bem agradável para a minoria [...], onde cavaleiros e damas viviam em castelos, distraindo-se em festas e refeições, em que os criados serviam comidas saborosas e constantemente enchiam os grandes copos de vinho de seus poderosos senhores. Por vezes, músicos e artistas tornavam o ambiente mais alegre e agradável.

Estes senhores possuíam extensas propriedades, frequentemente reunindo-se em torneios. Então, em meio à fanfarra dos tambores e aos toques dos clarins, os turbulentos cavaleiros enfrentavam-se em combates singulares, exibindo suas qualidades guerreiras para uma platéia, onde todos trajavam ricas vestimentas. Ainda que alguns caíssem feridos, com frequência mortalmente, era visível a alegria geral.

Por vezes, muitos saíam em loucas cavalgadas, acompanhados por suas matilhas de cães e dezenas de servidores, para caçar raposas e outros animais. Em meio à algazarra geral, não hesitavam em atropelar, com seus cavalos, quem cruzasse seu caminho, ou, por simples distração, conduzir seus corcéis pelos campos cultivados...

E o duro e estafante trabalho diário dos camponeses, que sustentavam a ociosidade divertida e alegre da minoria, acabava sendo parcialmente perdido.

E os campos cultivados, por aqueles que trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol, viviam em pobres cabanas e se vestiam de roupas grosseiras, ainda estavam sujeitos a ser pilhados e incendiados quando ocorriam guerras entre os senhores feudais. AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]; Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 150.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A vida na corte do reino de Daomé no século XVIII

Gezo, rei do Daomé, Frederick E. Forbes

Diversos mercadores europeus que realizaram negócios nos portos da Guiné deixaram relatos detalhados de suas experiências pessoais e dos povos com que mantiveram contatos. O comerciante inglês de escravos, Robert Norris, descreveu em detalhes a magnitude da corte do rei Tegbessu, sucessor de Agadjá, e os sinais de obediência demonstrados por seus súditos, durante a visita ao Daomé em 1772:

"Preparei-me para a visita ao rei, mandando desembrulhar uma bela liteira e um órgão portátil que mandara vir de Juda (Uidá): enviei esses dois presentes ao palácio do rei [...].

[...] Ao chegar diante do rei, expliquei-lhe a maneira de utilizar a liteira, que disse ser mais cômoda que aquela espécie de padiola de que ele se servia habitualmente. Nessa altura, ele mandou chamar uma dúzia de servidores encarregados de o transportar, que se aproximaram caminhando de quatro; em obediência aos desejos do rei, entrei na liteira, ensinei-lhes como deviam proceder e eles foram experimentando, um a um. Nesta altura, o rei manifestou a vontade de passear também na liteira e deu várias voltas à corte, em meio aos gritos e aclamações dos ministros e de sua esposa. O coche era muito elegante: tinha assentos de marroquim vermelho e era forrado de seda branca. Ele ficou encantado e divertia-se muito a abrir e fechar as cortinas, que lhes pareceram uma invenção muito engenhosa; finalmente, no meio de uma grande euforia, mandou eunucos para substituir os homens que transportavam a padiola; a porta que dava para os seus aposentos foi aberta e ele mandou que o levassem até junto das suas mulheres, para que elas vissem o belo presente que acabou de receber.

[...] O rei sentou-se em meio aos gritos e aclamação do povo, debaixo da tenda, numa cadeira de braços muito bonita, coberta de veludo carmesim, e enfeitada com esculturas e dourados.

Vi desfilar uma guarda de cento e vinte homens armados de grandes mosquetes e marchando aos pares; seguiam-lhe quinze filhas do rei, muito belas, acompanhadas de cinquenta escravos; depois delas, vinham, em ordem regular, umas atrás das outras, setecentas e trinta das suas esposas, transportando provisões e licores para um festim que iria realizar-se na praça do mercado. Eram seguidas de uma escolta de oitenta mulheres armadas, batendo em tambores. Nessa altura, foi posta uma mesa onde almocei enquanto a procissão continuava a passar. Vi aparecer seis batalhões de setenta mulheres cada um, à cabeça dos quais marchava, abrigada por um guarda-sol, uma favorita: impediram-me de vê-la tapando-a com o guarda-sol e com uma espécie de grandes escudos de couro, cobertos de seda vermelha e azul. Todas aquelas mulheres divertiam o rei com suas canções e danças, à medida que passavam. Nunca esperei ver tamanha variedade e tão grande profusão de tecidos de seda, de pulseiras de prata, de joias e corais, de colares valiosos e de ricos enfeites." Fonte: NORRIS, Robert. Memoirs of the Reign of Bossa-Abadce; with an Account of a Journey to Abomey in 1772. Apud COQUERY-VIDROVICH, Catherine. A descoberta da África. Lisboa: Edições 70, 2004, p. 148. (Lugar da História)

MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 75-76.