"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

1492: Memória e trocas culturais

O ano de 1492 tornou-se um marco histórico, entre outras coisas, porque deu início a uma série de transformações. Tanto na Europa, de onde vieram os pretensos descobridores, como na América, a terra descoberta. Uma e outra nunca mais seriam as mesmas. Nós, habitantes da América, somos resultantes desse fato histórico.

A América foi descoberta ou conquistada? Essa pergunta é relativamente recente. Do ponto de vista europeu, a América foi descoberta pela expedição comandada por Cristóvão Colombo, em 12 de outubro de 1492, a serviço do rei da Espanha. A partir dessa data os europeus passaram a conhecer uma terra antes desconhecida por eles, portanto, descobriram-na. Mas, do ponto de vista dos povos indígenas que aqui viviam, essa terra, denominada América pelos europeus, foi invadida e conquistada.

Se antes se falava em descoberta e hoje, em conquista, não é, obviamente, porque se ignorava que essa terra já era habitada. Isso decorria do fato de que a história era escrita e contada do ponto de vista europeu, ou seja, dos vencedores. Mais recentemente tenta-se recuperar o ponto de vista dos vencidos, das vítimas da descoberta e da conquista europeia.

Mas esse ponto de vista novo não é fácil de ser estabelecido. Os testemunhos chegaram até nós de maneira indireta, muitas vezes por meio de textos escritos pelos próprios conquistadores, ou por indígenas que já haviam assimilado muito da cultura do conquistador, principalmente a escrita. Assim, as vozes dos vencidos estão na boca dos vencedores.

Além disso, não temos apenas um povo vencido, pois havia, e há, na América uma variedade de povos, com diferenças muito grandes entre si. O termo "índios" é inadequado. Criado pelo europeu, esse termo refere-se a povos muito diferentes um do outro. Mesmo assim, continuamos a usá-lo.

A experiência de cada um desses povos no contato com os europeus invasores também não foi a mesma. A conquista não se fez apenas pela força das armas, ela se deu também pela colonização e pela catequese.


Imagem do Códice Florentino em que indígenas são acometidos pela rubéola


Se as vozes dos vencidos são muitas, as dos vencedores também são variadas e, não raro, discordantes. Um dos textos mais citados para denunciar a violência dos espanhóis contra os povos indígenas foi o escrito pelo padre dominicano espanhol Bartolomé de Las Casas, em 1552. Uns praticavam a violência e a escravização, outros as denunciavam.

"É temerária, injusta e cruel a guerra que aos infiéis, ou seja, àqueles que nunca souberam nada acerca da fé ou da igreja, nem de nenhum outro modo ofenderam esta mesma Igreja, lhes é declarada, com o único objetivo de que submetidos ao império dos cristãos se preparem para receber a fé ou a religião cristã, ou também para retirar os impedimentos para a catequese.

[...] É contra o direito natural esta guerra que lhes causa inúmeros e irreparáveis danos, como mortes, selvagerias, estragos, roubos, servidão e outras calamidades semelhantes, a pessoas que vivem em suas terras e reinos, separadas do império dos cristãos e sem ter, de sua parte, nenhuma culpa;

[...] É também contrária ao direito divino, que proíbe matar nossos semelhantes, principalmente os inocentes, despojá-los de seus bens, tais como seus servos e servas, bois, burros, ou qualquer outra coisa que lhes pertença, caluniá-los, oprimi-los, dar falso testemunho contra sua vida, tomar o que lhes pertence com violência, e outras proibições semelhantes, inclusive os entristece. [...] LAS CASAS, Frei Bartolomé de. Del único modo de atraer a todos los pueblos a la verdadera religión. In: Coletânea de documentos para a História da América. São Paulo: CENP, 1983. p. 35-36.

Todavia, para além da oposição entre conquistadores e conquistados, invasores e invadidos, vencedores e vencidos, senhores e escravos, existiram as trocas culturais [...].

Quando dois ou mais povos entram em contato entre si, seja por meio da guerra, do comércio ou por outra forma qualquer, sempre vai haver uma troca cultural. Ao nos defrontarmos com o novo e o diferente, tentamos incorporá-lo ao nosso esquema de pensamento. Essa incorporação está condicionada pelos nossos conhecimentos e valores anteriores. O desconhecido é incorporado ao conhecido e, ao mesmo tempo, altera esse conhecimento anterior. Mesmo quando há uma rejeição ao novo, essa rejeição já passa a ser uma experiência nova para quem o rejeitou.

PEDRO, Antonio; SOUZA LIMA, Lizânias de. História sempre presente. São Paulo: FTD, 2010. p. 121-122.