"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

O "chef" e o médico

O rápido aumento das viagens para o exterior, impulsionado por tarifas aéreas baratas e férias anuais mais longas, estimulou o apetite pelo exótico. Em Bonn, Toronto e outras 50 cidades ocidentais, o número de restaurantes finos cresceu - na França e na Itália, já havia vários. O banqueiro e a mulher, o advogado e a família, a diretora de escola e o marido, bem como todas as pessoas do mesmo estrato social, que na década de 1930 entravam em restaurantes somente para festas de casamento, passaram a sair para comer fora com estilo. Os almoços de negócios tornavam-se mais frequentes e mais longos.

A moda de comer fora se popularizou graças à prosperidade crescente e às famílias menores, auxiliada também pelo enfraquecimento dos movimentos pela austeridade e abstinência, vigorosos até mesmo durante a década de 1930 em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e em alguns outros. No ápice da cruzada pela moderação, grupos de protestantes evitavam entrar em restaurantes ou hotéis que servissem refeições, para não verem sobre a mesa a imagem da tentação em forma de uma garrafa de vinho alemão ou francês.

Jovem mulher na cozinha, Andrea Commodi

No fim do século, essa mudança profunda na maneira de as pessoas cozinharem e comerem, bem como em outros aspectos do dia a dia, encontrava-se em estágio avançado. No início do século, a cozinha era o centro de uma casa típica. Farinha, açúcar e alimentos básicos ficavam guardados em latas e tijelas, e das vigas pendiam réstias de cebola, ervas e carne defumada. Em fogões a lenha ou a carvão, praticamente todas as refeições eram preparadas e também se fervia a água para beber e lavar roupas. Grande parte da vida das mulheres se passava na cozinha, onde preparavam comida e faziam inúmeras outras tarefas. Em 2001, esse modo de vida tornava-se raro na Europa e em boa parte das Américas. A comida pronta, enlatada e congelada tomava conta das despensas. Fogões a gás ou elétricos e fornos de micro-ondas substituíam os antigos fogões e os estoques de carvão ou lenha. Vários equipamentos, como torradeiras, cafeteiras e lavadoras de louça, confinavam-se em espaços minúsculos, chamados de quitenetes. Como resultado, o tempo gasto todos os dias no preparo das refeições foi drasticamente reduzido.

As fábricas de enlatados e de alimentos processados alteraram a importância da cozinha dos velhos tempos. Foram mudanças extraordinárias, ocorridas rapidamente e experimentadas por cerca de metade dos lares em todo o mundo.


O doutor, Luke Fildes

A Segunda Guerra Mundial foi um grande estímulo para as descobertas médicas. A atmosfera de urgência parecia incentivar as pesquisas. A capacidade de salvar vidas humanas nas décadas de 1940 e 1950 superou a de todas as décadas anteriores. O número de mortes durante a Segunda Guerra Mundial foi significativo, porém baixo em comparação com o aumento das técnicas de salvamento.

A habilidade em combater a malária nos trópicos aumentou graças à guerra. Os pântanos de onde vinham os mosquitos portadores da doença foram tratados com um novo produto químico suíço chamado DDT. [...]

A descoberta da penicilina deveu muito a experiências anteriores, sendo fruto de uma longa pesquisa em busca de um medicamento capaz de combater uma doença específica, sem afetar o organismo todo. Em 1910 o alemão Paul Ehrlich, sabendo que as bactérias causavam doenças, inventou uma dose de preparado arsênico que atacava a sífilis sem diminuir a resistência do corpo. Outra nova substância combatia a doença do sono, uma maldição na África Central. Em 1932, os laboratórios alemães da gigante química IG Farben desenvolveram os primeiros tipos de droga à base de sulfonamida que, nos dez anos posteriores, começariam a combater a pneumonia e a desinteria.

Uma descoberta ainda mais importante, na mesma linha de pesquisa, foi feita durante a Segunda Guerra Mundial. Howard Florey, um jovem estudante, tinha viajado da Austrália para Oxford à procura de um modo de combater as infecções microbianas. Lá, fez experiências com um intrigante fungo que inibia o desenvolvimento da bactéria resistente, já observado por Alexander Fleming, bacteriologista londrino que, no entanto, não deu continuidade às pesquisas. Auxiliado pelo dr. Ernst Chain, um químico que havia fugido de Berlim, Florey obteve resultados animadores relacionados a um tipo de droga, a qual chamou de penicilina. Experiências com ratos em maio de 1940 - exatamente quando as tropas de Hitler avançavam em direção ao Canal da Mancha - indicaram que a penicilina tinha potencial para salvar vidas. Após testes clínicos efetivos, o novo antibiótico foi produzido em massa na América, dada a urgência com que era necessário.

Levado para os hospitais de campanha, o medicamento começou a operar milagres, sobretudo em pacientes que haviam sido submetidos a cirurgias graves ou que estivessem sofrendo de doenças venéreas. A penicilina salvou dezenas de milhões de vidas durante os primeiros cinquenta anos de uso e seu sucesso possibilitou a descoberta de drogas contra outras doenças infecciosas.

A tuberculose era bastante comum. Transmitida por tosse e saliva e também pela ingestão de leite contaminado, foi alvo de investigações médicas. Em 1921, a França adotou uma vacina - não tão efetiva quanto se esperava - contra a doença. A Alemanha obrigou seus soldados a fazerem exames de raios X na d[ecada de 1930. Em 1944, na Rutgers University, perto de Nova York, um cientista nascido na Ucrânia, cuja especialidade era microbiologia do solo, fez importantes descobertas. Analisando os micróbios que surgiam nos solos, o professor Selman Walksman e seu auxiliar identificaram um inimigo dessas criaturas: a estreptomicina, que se tornou a base do novo remédio. Após descobertas na Suécia, na Alemanha e nos Estados Unidos ao longo dos dez anos seguintes, a campanha contra a tuberculose parecia encaminhar-se para a vitória. Como tantas outras conquistas, entretanto, dependeria muito de melhorias nas questões de higiene e nutrição.

As doenças infantis eram minimizadas e curadas graças à pesquisa diligente, muitas vezes realizada por cientistas de pouco renome, cujos méritos nem sempre eram facilmente reconhecidos. Entre os anos de 1930 e 1950, muitas crianças foram vítimas de epidemias severas de poliomielite. Mantidas em um "pulmão de ferro" ou deitadas imóveis em camas onde suas pernas ficavam presas por talas, compunham um cenário triste. Depois que Jonas Salk, de Pittsburgh, desenvolveu, em 1955, uma vacina injetável segura, a poliomielite recuou. A febre remáutica, diagnosticada com frequência na primeira metade do século, também perdia força, mas não tão rapidamente.

Os cirurgiões realizavam experiências corajosas, fazendo surgir esperanças, por exemplo, para problemas cardíacos tidos como insolúveis até então. Os que sofriam de certas incapacidades podiam ser curados graças a um aparelho chamado marca-passo. Uma vez que tal instrumento ainda não tinha uma forma miniaturizada, após o procedimento cirúrgico os pacientes tinham de carregar os equipamentos eletrônicos necessários em uma maleta ou no bolso. Para crianças vítimas de males cardíacos congênitos - então a maior causa de morte de bebês norte-americanos -, a cirurgia do coração era arriscada e precisava ser feita de modo cauteloso, mas logo a taxa de intervenções bem-sucedidas cresceria. Para o público em geral, um dos assombrosos eventos da história da Medicina foi o transplante de coração, feito pela primeira vez pelo dr. Christian Barnard, na Cidade do Cabo.

Outra descoberta avançada das pesquisas médicas, uma minúscula unidade chamada gene, despertou pouco interesse no início da década de 1950. Semelhante a um grão de areia microscópico, foi considerado a menor parte do bloco de construção da vida. O gene é capaz de se reproduzir e carregar informações que são transmitidas de pais para filhos e codificadas em moléculas de DNA, abreviação de deoxyribonucleic acid (ácido desoxirribonucleico).

O DNA foi descoberto por dois pesquisadores que não possuíam muita experiência: Francis Crick, um inglês na casa dos 30 anos, e James Watson, um norte-americano ainda mais jovem. Como Watson declarou mais tarde, o caminho mais simples para as descobertas científicas é "permanecer distanciado das teses por demais discutidas", o que se provou uma vantagem. Eles começaram a trabalhar juntos em 1951 na Cambridge University, no laboratório que uma geração antes servira como local para o surgimento do inovador processo chamado de cristalografia de raios X. Com poucos equipamentos e recursos financeiros, ambos foram abençoados com intuição e olho clínico para as pistas oferecidas pelos que ocupavam a vanguarda da teoria química e de cristalografia. Entre eles, estava a cientista Rosalind Franklyn, que generosamente compartilhou suas descobertas, estimulando a teoria experimental então desenvolvida por Crick e Watson. [...]

O sucesso de Crick e Watson chegou em 1953, apenas dezoito meses depois do início de seu trabalho em equipe. A teoria que desenvolveram sobre o DNA, exposta de maneira resumida na revista Nature, não produziu inicialmente nenhuma grande comoção. Meio século mais tarde, perguntaram a James Watson que reação sua descoberta tinha causado. "Silêncio quase absoluto", ele respondeu. Foi somente a partir da década de 1960 que as revistas especializadas passaram a discutir a sério a teoria dele. Uma grande quantidade de investigações e cálculos foi necessária para que a teoria se tornasse uma ferramenta prática.

Nos últimos vinte anos do século, o estudo dos genes se tornou uma chave para várias portas. Descobriu-se que um defeito genético causa a diabete, que determinado gene está ligado ao retardo mental e que outro pode ser a causa da surdez hereditária. A genética se tornou uma aliada das autoridades. Em tribunais, amostras de sêmen, pele ou cabelo colhidas de prisioneiros são cada vez mais consideradas como equivalentes a impressões digitais. A partir de exames semelhantes, descobriu-se, em 1985, que uma campeã espanhola de corrida com obstáculos era na verdade um homem, o que resultou em desqualificação. Boa parte da compreensão sobre plantas, animais e seres humanos vem das teorias de Crick e Watson e das pesquisas subsequentes.

[...]

Outras facetas do conhecimento médico e das técnicas de cirurgia consideradas triviais hoje em dia tiveram sua origem ou atingiram seu auge durante esse espantoso período de vitalidade científica. Uma pílula de controle da natalidade foi desenvolvida. A palavra colesterol passou a fazer parte do vocabulário dos bem-informados. O laser, uma invenção de 1960, começou a modificar alguns tipos de cirurgia.

[...]

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 236-242.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A viagem das religiões e dos saberes

Cultura maia. Calcário com traços de tinta. Ca. 785 A.D.

Durante milhares de anos, a escrita foi apenas conhecida por um pequeno número de homens nas cidades-estados e nos impérios do Médio Oriente, no Egipto, na Índia e na China.

Depois, o facto de aprenderem a escrever mudou a maneira de pensar e de compreender o mundo. Os que tinham ideias novas puderam dá-las a conhecer, não apenas aos que lhes estavam próximos, mas, graças aos rolos ou aos livros manuscritos, às pessoas que poderiam estar mais afastadas. Sobretudo, graças à escrita, os seus conhecimentos e maneiras de ver puderam ser transmitidos àqueles que viveram depois deles e passaram de uma geração a outra.

Então, apareceram novas religiões e algumas espalharam-se por todo o mundo. Do mesmo modo, nasceram novos saberes, como a ciência e a filosofia. A poesia, até aí apenas oral e cantada, começou a ser escrita, tal como peças de teatro, narrativas e histórias. Aparecera finalmente o que hoje chamamos de literatura.

As religiões das tribos e dos grupos de homens sem escrita tinham pontos em comum. Para essas religiões muito antigas, o mundo era animado por forças misteriosas. O mundo de baixo, aquele em que se vivia, era penetrado pela acção de um outro mundo, o dos deuses, dos génios e dos demónios. Esse outro mundo era também o mundo dos antepassados, o dos "totens" e do clã. A morte e a vida misturavam-se e penetravam-se uma à outra. As potências divinas estavam presentes na natureza, nas nascentes, nas montanhas e nas árvores através das suas raízes que penetravam na terra...

[Feiticeiros, adivinhos e videntes...] O grupo reconhecia que certos homens tinham o poder de comunicar com essas forças divinas. Tratava-se dos adivinhos, dos videntes e dos feiticeiros. Entre os celtas, os druidas eram adivinhos e videntes. Entre os mongóis, ou em certas tribos de índios da América, o xamã era não só um adivinho mas também um curandeiro, um médico. Os gregos antigos tinham os seus magos que eram igualmente poetas e adivinhos. Os videntes falavam dos tempos antigos, das origens do grupo, e transmitiam os seus segredos àqueles que achavam dignos de os substituir.

Em muitas religiões antigas, havia o hábito de se fazer "sacrifícios" aos deuses. Durante certas festividades, matavam-se e queimavam-se animais. O fogo, o fumo e os odores estabeleciam uma relação mágica entre o mundo dos deuses, o dos vivos e dos mortos. [...]

[Os textos de Homero popularizaram os antigos deuses gregos] A escrita desempenhou um papel importante no que respeita às crenças dos povos e modificou religiões antigas, como a religião dos gregos.

Os primeiros helenos que chegaram à Grécia veneravam os deuses particulares das suas tribos. Os poetas, os aedos, acompanhados por um instrumento de música, a lira, cantavam e recitavam poemas e hinos sobre os deuses. Quando a escrita alfabética foi introduzida na Grécia, esses poemas foram recolhidos e escritos, formando um conjunto de "cantos": A Ilíada e A Odisseia. Os gregos chamaram então Homero ao homem que os tinha escrito sem nunca saberem bem quem era realmente esse poeta. Talvez que vários aedos tivessem composto esses poemas.

Esses poemas relatam a guerra dos aqueus (os helenos da Grécia) contra Tróia, cidade grega da Ásia Menor, e o regresso cheio de aventuras de um grego, Ulisses, à sua ilha de Ítaca. Os doze deuses dos gregos apareciam aí como seres com figuras e temperamentos humanos. [...]

Outros poetas descreveram o modo como a terra, o céu e o mar foram criados.

A Ilíada e A Odisseia foram os manuais básicos de todos os alunos gregos que então andavam na escola. Depois da conquista romana, os jovens romanos das grandes famílias tinham uma educação "grega". [...]

[Na Índia, os textos sagrados modificaram a antiga religião dos arianos] Tal como os invasores helenos na Grécia, os invasores arianos tinham trazido com eles os seus cultos e os seus deuses. Divinizavam a floresta, as árvores, o sol, o fogo...

A partir dessas crenças, foram redigidos textos na antiga língua dos arianos, o sânscrito. Estes foram coligidos sob o título de Vedas. Com base nesses livros sagrados, uma mesma religião, que os europeus chamaram de hinduísmo, espalhou-se lentamente ao longo dos séculos por toda a Índia. [...]

Os hinduístas têm toda uma série de deuses que variam segundo as regiões, mas têm como base uma mesma crença. O mundo no seu conjunto é, para eles, animado por uma força invisível, o brahman, e cada ser humano faz parte dessa força. Depois da morte, a alma viaja indefinidamente para outros seres vivos, homens ou animais, até se dissolver no brahman.

[Um só Deus, três religiões] Para o judaísmo, para o cristianismo e para o islamismo, a palavra de Deus é transmitida através de um livro santo. Sem a Bíblia não teria havido religião judaica nem cristã nem muçulmana. E o islamismo, a religião dos muçulmanos, é inseparável de um outro livro, o Corão, que reconhece as grandes personagens da Bíblia, Abraão, Moisés e Jesus.

Quer para uns quer para outros, Deus falou a homens privilegiados e as suas palavras foram em seguida transmitidas através de um Livro. Essas três religiões são, deste modo, inseparáveis da escrita que nos conta o modo como Deus, um deus único, invisível e eterno, se fez conhecer ou se "revelou" aos homens.

A ideia de que Deus é invisível, mas que está presente na história do homem através dos seus "eleitos", ou seja, que transmite a sua "palavra" a pessoas escolhidas por elem estabelece uma diferença em relação a outras religiões.

Para os judeus, tal como para os cristãos e para os muçulmanos, o primeiro homem escolhido por Deus para essa Revelação foi Abraão. Esse homem pertencia a um clã nómada, o dos hebreus, que circulava pela Mesopotâmia cerca de 1750 a.C. Mas o desenvolvimento dessa Revelação não é o mesmo para as três religiões.

Os judeus são os descendentes de Abraão, do seu filho Isaac e do seu neto Jacob, cognonimado Israel. Formam assim o povo de Israel testemunhando a aliança de Deus com os homens.

A história desse povo é contada nos cinco primeiros livros da Bíblia, para os judeus a Torah [...]. 

Na Bíblia, os Profetas de Israel anunciavam a vinda de um Salvador, o Messias.

Na Palestina, no tempo do Império Romano, um judeu, Jesus, pôs-se a pregar e a ensinar. Declarava-se enviado de Deus para curar os doentes e salvar os pecadores, ou seja, os que tinham agido mal. Era seguido por uma multidão de mulheres e homens judeus. Mas os sacerdotes do templo de Jerusalém e os seus escribas pensavam que se tratava de um agitador perigoso. Prenderam-no e entregaram-no ao governador romano para que ele fosse condenado à morte. Foi pregado numa cruz entre dois ladrões. Depois da morte de Jesus, alguns dos seus discípulos afirmaram que ele tinha ressuscitado de entre os mortos e que era o Messias, em grego, o "Cristo", anunciado pelos Profetas. Eram os primeiros cristãos.

Os Apóstolos, todos judeus e discípulos de Jesus anunciaram a Boa Nova, o Evangelho da Salvação dos homens. Os novos crentes agrupavam-se para formarem uma comunidade, uma Igreja [...].

[...] Os Apóstolos redigiram em grego alguns testemunhos sobre a vida de Jesus, os Evangelhos. e Cartas ou Epístolas. A Igreja cristã chamou a esses textos de "Novo Testamento" [...].

Durante algum tempo, os imperadores romanos não fizeram diferença entre cristãos e judeus e começaram a persegui-los.

Depois da destruição do templo de Jerusalém pelo imperador Tito, em 70 d.C., os judeus revoltaram-se. Pouco a pouco, o destino dos judeus e dos cristãos separou-se. Os judeus dispersaram-se fora da Palestina. [...]

O cristianismo espalhou-se, primeiramente entre os pobres e os escravos. Pouco a pouco trouxe a si as grandes famílias do Império Romano. A liberdade de ser cristão acabou por ser reconhecida em 313 pelo imperador Constantino. Em seguida, o cristianismo foi proclamado religião oficial do império.

Os não-cristãos tornaram-se suspeitos e certos bispos começaram a acusar os judeus de terem condenado Jesus à morte.

Para os muçulmanos, o Corão é o último dos livros revelados e o único perfeito.

O Islão, que em árabe quer dizer "submissão a Deus por amor a Ele", é a religião ensinada por Moamede (Maomé). Este apresentou-se como o último dos profetas depois de Abraão, Moisés, os profetas judeus e Jesus. Com ele, dizia-se, a Revelação, que tinha começado com Abraão, estava terminada.

Moamede tinha nascido em 570 d.C. num grande centro de caravanas da Arábia, em Meca. Os nómadas beduínos misturavam-se com os cidadãos. Encontravam-se aí também judeus e cristãos. Moamede ouviu o Anjo Gabriel que lhe comunicava mensagens de Deus. Mas, perseguido pelas pessoas da sua cidade, foi com alguns dos seus companheiros para Medina.

Era em 622, e essa data, Hijra, a Hégira, a "migração", marca o começo da era muçulmana.

Em Medina os clãs e as tribos estavam em luta. Moamede impôs a sua autoridade. Até à sua morte em 632, continuou a transmitir as mensagens de Alá, o Deus único, e ditou algumas regras para restabelecer a ordem em Medina e em toda a Arábia conquistada sob a sua direcção e convertida ao islamismo.

[...] da Espanha até à Índia, os califas conquistaram um imenso império em menos de um século [...].

[...] os muçulmanos ficaram presos à ideia de uma unidade que repousava sobre os cinco "pilares" do Islão: a crença em Deus e no seu profeta, a oração quotidiana, o jejum anual do ramadão, a esmola aos pobres, e se possível, ao menos uma vez na vida, a peregrinação a Meca.

[Como foram escritos a Bíblia e o Corão] Na Bíblia encontramos os traços da poesia das antigas tribos nómadas de antes e depois de Abraão. O Dilúvio já tinha sido contado nas lendas da Mesopotâmia, o país de onde vinham os hebreus. Os textos da Torah foram redigidos de um modo muito complicado quando as tribos de Israel se fixaram em Canaã (a Palestina). Houve vários redactores, e o trabalho durou vários séculos. Moisés não foi quem escreveu os "Dez Mandamentos".

Jesus, cuja língua era o aramaico [...] lia em hebraico. Mas também nunca escreveu nada, salvo com o seu dedo na areia, uma única vez. O Novo Testamento foi redigido pelos Apóstolos depois da morte de Jesus.

Maomé contava as revelações do Anjo Gabriel acerca de Deus, Alá, aos seus discípulos. Estes anotavam esta informação em folhas de palma, em pedaços de cerâmica ou de osso. O Corão, redigido em árabe e dividido em capítulos ou "suratas", é o conjunto dessas "recitações". O Livro foi redigido após a morte do Profeta.

Deste modo, nunca saberemos, verdadeiramente, o que disseram Moisés, Jesus ou Maomé pois não possuímos nenhum texto escrito directamente por eles. Mas os Livros que comunicam as suas mensagens transformaram a história dos homens afirmando que Deus falava através deles. Milhões de homens e mulheres acreditaram e ainda hoje acreditam.

[Uma ideia nova: compreender o mundo sem os deuses] O céu, o sol, as estrelas, a mudança dos dias e das noites há muito eram um mistério para os homens. Eles explicavam tudo isso através da religião. A primeira ciência, a Astronomia, nasceu da observação dos astros. Onde as pessoas conheciam a escrita, estas observações podiam ser anotadas e transmitidas a outras pessoas. Nas cidades-estados do Médio Oriente, tal como na América central, encontrávamos personagens junto dos reis que eram ao mesmo tempo sacerdotes e astrónomos. Talvez descendessem de antigos feiticeiros ou xamãs. Para eles a religião e o conhecimento do mundo não se podiam conceber como coisas separadas.

Na Grécia, na China, na Índia, houve homens que tentaram reflectir sobre o mundo e sobre eles mesmos sem o auxílio da religião. Foram, por isso mesmo, os inventores de conhecimentos novos, aquilo a que chamamos a ciência e a filosofia.

É evidente que esses pensadores chineses, gregos e indianos não se conheciam. Mas, e é estranho, alguns dos seus achados, em tudo inseparáveis da escrita, ocorreram em momentos muito próximos da história do homem que, no entanto, era já tão longa.

Hoje em dia, algumas pessoas são "cientistas" e outras "filósofos". Mas, em tempos, os pensadores eram ao mesmo tempo filósofos, físicos e matemáticos. Ou seja, eles reflectiam ao mesmo tempo sobre o mundo, sobre a natureza [...] e sobre a maneira como o homem se deverá comportar na vida para ser um bom conhecedor [...].

Entre 600 e 300 a.C., grandes pensadores, letrados e "sábios" viveram em todos os continentes onde a escrita era já antiga. Deste modo, os seus pensamentos puderam ser transmitidos até aos nossos dias.

* Os primeiros físicos e os primeiros filósofos gregos da Ásia Menor reflectiram sobre o movimento da vida e sobre a origem do mundo;
* O matemático greco-italiano Pitágoras afirmou que os números e a aritmética estavam na base de todas as coisas;
* Sidarta Gautama, o Buda, ensinou na Índia uma filosofia da "sabedoria" sem deuses;
* Os Olmecas no México tinham elaborado um calendário solar;
* Na China, o mestre Kong, mais tarde chamado Confúcio, trouxe-nos regras práticas sobre a vida e sobre a moral [...];
* Na Grécia, Sócrates, um "sábio", e os filósofos atenienses Platão e Aristóteles foram pensadores que influenciaram bastante os países europeus, dado que ainda falamos deles e ainda os lemos hoje em dia;
* Na China, os astrónomos puderam descobrir que o ano tinha 365 dias e um quarto, e filósofos taoístas propuseram a busca de uma verdade em si mesma. Segundo estes, é necessário procurar o equilíbrio e a calma em relação com o Tao, o movimento secreto da natureza.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 103, 105-114, 117-119.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Matemática, astronomia e medicina na Mesopotâmia

Placa cuneiforme com inscrição matemática

O homem da Mesopotâmia fez avanços impressionantes na matemática. Criou as tábuas de multiplicação e divisão, inclusive de raízes cúbicas e cubos. Determinou a área de triângulos retângulos e dos quadriláteros regulares, dividiu o círculo em 360 graus e chegou a ter alguma compreensão dos princípios que, séculos mais tarde, viriam a se desenvolver no teorema de Pitágoras e nas equações de segundo grau. Porém, apesar de suas contribuições fundamentais à matemática, os babilônios fizeram poucos progressos no âmbito da formulação de teorias; não deduziram princípios gerais nem procuraram demonstrar as suas operações matemáticas.

Observando com cuidado e exatidão as posições dos planetas e das constelações, os babilônios deram os primeiros passos para a criação da ciência da astronomia e desenvolveram um calendário baseado nos ciclos da lua. Como na matemática, porém, não formularam teorias para coordenar e esclarecer seus dados. E como poderiam fazê-lo, se acreditavam que a posição das estrelas e dos planetas revelava a vontade dos deuses? Os astrônomos não observavam os céus para encontrar as chamadas relações de causa e efeito entre os fenômenos, mas sim para descobrir o que desejavam os deuses. Com esse conhecimento, os babilônios podiam organizar suas vidas política, social e moral de acordo com os mandamentos divinos e, assim, fugir às terríveis consequências que, segundo acreditavam, resultavam do desconhecimento da vontade dos deuses.

Coerentes com a sua visão religiosa do mundo, os homens da Mesopotâmia achavam que as doenças eram causadas pelos deuses ou pelos demônios. Para curar um paciente, os sacerdotes-médicos recorriam à magia; por meio de orações e sacrifícios, procuravam apaziguar os deuses e expulsar os demônios do corpo enfermo. Não obstante, as identificar as enfermidades e prescrever remédios adequados, os babilônios demonstraram algum conhecimento exato da medicina e da farmacologia.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 13.