"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 21 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio X

Déjoces quisera fazer dos medos uma nação. Seu filho Fraorte, ao mesmo tempo que pagava à Assíria tributo de vassalagem, continuava aquela obra submetendo as tribos persas. Com paciência, preparava a luta contra a Assíria.

Deve-se ligar a esse impulso nacional de um povo ariano a prédica de um filósofo medo que, reformando a religião oficial, o masdeísmo, fez dela uma religião de salvação?

Decoração em tumba da religião zoroastrista. 
Província de Sulaymanyah

Zaratustra nascera entre os magos. Após dez anos de solitária meditação, teve a revelação de uma fé depurada cuja doutrina emanava tanto das misérias populares quanto do desejo de unidade que animava o Irã: Zaratustra pedia ao deus Masda que pusesse fim à anarquia feudal tão nefasta ao povo. Pensando ser chegado o momento de agir, o Rei Fraorte lançara-se contra a Assíria - tentativa prematura, pois os medos foram esmagados.

Seu sucessor, o General Ciaxares, foi por seu turno forçado a se dobrar numa prudente vassalagem.

Mas desde -633 esse esforço nacional possuía para os medos o valor de uma tradição. Zaratustra traduzia a confiança deles no futuro. Enquanto o mundo oriental vivia na angústia e nos cemitérios medos, os abutres retalhavam os corpos expostos nas torres, um pensamento se elevava do Irã, como as chamas que no alto das colinas glorificavam o deus ariano da luz - os clarões do petróleo em fogo iluminavam muitas vezes as noites desse país onde sobeja a nafta.

Zaratustra reduzia o ritual à beberagem sagrada que o sacerdote tomava, à água benta e à oferenda dos pães. Suas tendências monoteístas aproximavam-se das do Egito: como este, ele pesava os valores morais na balança das ações que seriam creditadas à alma imortal no curso de suas futuras etapas, inferno, purgatório e paraíso. Zaratustra exaltava o esforço indispensável ao triunfo do bem na luta contra o mal, celebrava o reinado de Deus, o julgamento final que o realizaria e anunciaria um Messias libertador.

Em torno dessa fé, um povo inteiro cobrava esperança: no planalto iraniano, Ciaxares forjava o instrumento do revide, seu exército.

Nesse momento, em eco longínquo para o trágico Oriente assírio, piratas malaios haviam atacado os ainos no Japão e o chefe do clã malaio vencedor fora feito imperador por seus homens após a batalha. Djimon fundara assim a "divina" dinastia japonesa. Esses piratas eram selvagens. Mongóis juntaram-se a eles.

Mas acabavam de se organizar duas forças que desfeririam na barbárie golpes sucessivos: a cavalaria meda e o gênio grego.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 84-5.

sábado, 20 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio IX

O cartaginês Hanão foi, com sessenta navios, até a Guiné, à ilha Fernando Pó, depois de haver contemplado as eurpções vulcânicas do Camerum. Sobre o Atlântico, as trocas entre celtas e cartagineses se intensificavam. As cidades da Jônia enxamearam. Mégara fundou Bizâncio e controla no Mar Negro a importação de trigo. Mileto cria Cízico no Helesponto e regulariza o tráfico com os citas.

Há ali todo um mundo que as cobiças sanguinárias do imperador assírio não atingem. Quando muito ouve ele contar as riquezas pelos mercadores da Lídia que formam na Ásia Menor, na encruzilahada das rotas, entre a Jônia, o Egito e o Eufrates, um ativo Estado comercial.

Assurbanípal entrou em relações com o rei da Lídia, Giges, capitão audacioso que soube fazer de seu país a artéria principal do tráfico de Nínive e Éfeso, por Sardes, sua capital. A Lídia possuía as mais ricas jazidas de ouro, pelo que se tornou um importante centro econômico. Apoiava-se na atividade marítima da Jônia e suas relações com Mileto lhe abriam o mercado egípcio. O Rei Giges enviava colonos ao Mar do Norte e presentes ao Apolo de Delfos: jactava-se de agir e pensar como grego.

Candaules, rei da Lídia, mostra sua esposa escondendo de Giges um dos seus ministros, enquanto vai para a cama. 
William Etty

Foi sob seu reinado que a moeda apareceu em Sardes - estáteres de ouro e de prata - cujo manuseio facilitou singularmente os pagamentos e acelerou as transações. A inovação contribuiu para a prosperidade da Lídia.

Se a posição desse Estado era vantajosa para sua economia, suas vizinhanças imediatas o eram menos. Suas fronteiras estavam à mercê das incursões bárbaras e os bandidos da Capadócia espreitavam as ocasiões que para tal se oferecessem. Giges se aliaria de bom grado à Assíria para resistir a eles. Negociou: a aliança com os assírios assegurou-lhe ao mesmo tempo a saída no Eufrates.

Essa política entretanto não salvou a Lídia: os bárbaros a invadiram pelo Bósforo. Assurbanípal não interveio, pois nesse meio tempo Giges pensara dever tratar com o Egito e formar com ele uma liga dirigida contra a Assíria. Devido a tal erro diplomático, os sucessores de Giges levaram anos para recobrar sua prosperidade.

Assurbanípal mantinha pois a supremacia no Oriente.

Não obstante, semelhante poderio, baseado unicamente na violência, não podia pretender durar. A revolta era alentada em todo o império, inclusive entre os árabes, cujo rei acabava de ser arrastado a Nínive, preso pela mandíbula a uma corrente de cão. Antes de morrer, Assurbanípal calculou sem dúvida o que seria a vingança dos povos: pelo planalto do Irã ela se levantava.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahra Editores, 1964. V. 1. p. 82-4.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio VIII

Em certo momento, os medos tentam aliar-se aos citas e levantar contra a Assíria uma espécie de coalizão ariana; os clãs iranianos não estão unificados e sua aristocracia está em guerra permanente; sua unidade religiosa é fraca, embora todos eles sacrifiquem nas alturas em grandes fogos a seu deus Masda. Seus magos, confraria análoga às dos druidas ou dos brâmanes, não formam um grupamento organizado; além disso, a rivalidade dos medos, instalados ao norte do Irã, e dos persas, fixados ao sul, estraçalha as tribos. Os assírios não terão dificuldade em submetê-los.

Entretanto, um dos chefes medos, Déjoces, teve a habilidade de aceitar a derrota para trabalhar no sentido de estabelecê-los num Estado que seria vassalo da Assíria enquanto os medos não tomassem consciência de sua unidade.

Déjoces, escolhido por sua correção, foi eleito rei. Reuniu as tribos em torno de uma cidade que construiu: Ecbátana, protegendo por trás de sete muralhas concêntricas de ameias coloridas um palácio real de arquitetura militar. Então, lentamente, malgrado a servidão, os medos se revelaram, frente à Assíria, uma nação.

Senaqueribe, após uma insurreição, destruíra a Babilônia a ferro e água e, dessa Babilônia devastada a que chamamos Caldéia, leva suas conquistas à Arábia, até as fronteiras do Egito. Senaqueribe pode bem passar por um rei faustoso, o rei que o protocolo assírio não permite se veja em pessoa. Nínive pode resplender por seus palácios e sem templos de largos afrescos, por suas salas de marfim, de sândalo, de mármore e basalto - mas a guerra é que fez tal riqueza. A guerra é o único tema dessa arte e aí tudo é emprestado pelos países vencidos. O fausto assírio não deve nada a seu trabalho - tudo ao crime e à pilhagem.

Assurbanípal durante uma caçada. Relevo no palácio de Nínive.

Em -666, é sobre o Egito que se lança o exército assírio. Seu rei Assurbanípal, mais educado que seus antecessores, mais indulgente mesmo, não fez senão saquear o Egito; Tebas foi por ele arruinada para sempre.

Assurbanípal reinava sobre o maior império que até então existira, império continental que, apesar de algumas breves improvisações marítimas, não conheceria nada do mar.

Nesse tempo, seus horizontes recuaram bastante.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 82.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio VII

Se seus vizinhos imediatos na Sibéria não tivessem sido os hunos, os mais bárbaros dos mongóis, a China teria aí sem dúvida mais influência.

É certo que a confederação chinesa se mudava agora numa vintena de principados cujos conflitos exauriam a classe camponesa. Mas desde a dinastia dos Tchéus a China conhecia certo progresso intelectual. Em suas cortes feudais, recitavam-se cantos populares, as pesquisas astronômicas eram ativas, estudavam-se os eclipses, a Geometria dominava os fatos essenciais. Quando esse esforço racional se interrompera, a Filosofia se declarara protegida por uma ordem universal ligada à ordem humana e o camponês, sem se perder em especulações sobre o além, pedia a seu labor e ao respeito dos ancestrais a felicidade desta terra que ele conquistava pacientemente às searas.

Os citas não estavam pois totalmente isolados e, se seu nível técnico era ainda rudimentar, os assírios não estavam absolutamente em condições de lhes condenar a barbárie: quando o Rei Sargão II, um general vencedor, franqueou aos assírios o Oriente com que seus predecessores haviam sonhado, esses conquistadores semitas apareceram como o pior povo que já se conheceu.

Ora, desde cerca de dois mil anos, eles tinham vivido em relações constantes com a Suméria e Babilônia. Se Nínive é célebre por suas construções e seus astrólogos, quando Sargão II cria uma biblioteca, se seu palácio de Corsabad é suntoso, é porque da Babilônia e dos hititias lhes vieram os conhecimentos necessários. Eles se mostraram mesmo herdeiros inferiores: não só não realizaram em relação à ciência sumeriana nenhum progresso, como regrediram bem longe em relação à Babilônia: esta prossegue seus trabalhos astronômicos em que se descobre que o movimento dos planetas obedece a leis e se constrói um sistema divino do universo.

A despeito de tais ensinamentos, os assírios têm grandeza ou originalidade apenas na violência; se na arte são excelentes figuradores de animais é porque estes lhes exaltam a brutalidade. Os assírios apenas sabem fazer a guerra. Aperfeiçoaram os instrumentos próprios: suas cotas de malhas, seus aríetes e os capacetes serão modelos.

Quanto a seus crimes, são eles lendários - verdadeira técnica de devastação. Suas cruezas não são uma política de exceção ou um paroxismo de selvageria. São o aspecto essencial da mentalidade assíria, voltada inteiramente para o aniquilamento dos vencidos.

O saque das cidades e os impostos esmagadores eram apenas o prelúdio disso. O rei assírio daz decapitar com método: cabeças e peles humanas atapetam as muralhas de seus palácios. Milhares de prisioneiros são lançados ao fogo ou emparedados vivos, empalados, esfolados vivos. Cortam-se os punhos, os lábios, as línguas dos camponeses e deportam-se os sobreviventes por dezenas de milhas para arrancar às nacionalidades as raízes e eliminar pelo exílio em massa qualquer possibilidade de vingança. Incendeiam-se e arrasam-se as aldeias, abatem-se as árvores e, como a revolta rebente continuamente, o rei assírio ordena que se aniquile uma região.

Foram esses processos que em -722 Sargão II aplicou aos israelitas.

Judeus sendo deportados para o exílio no Império Assírio. 
Relevo do palácio de Nínive.
Museu Britânico. Foto: Osama Shukir Muhammed Amin

Anexou-lhes o país e os deportou para o Leste. Os judeus mergulharam no desespero. Evocando as ideias egípcias a respeito da salvação pelo arrependimento, os judeus imploraram a misericórdia divina. A angústia desse povo expulso da terra prometida onde não havia chegado a durar como Estado e a tradição religiosa do Egito ensinaram-lhe a concepção de um Deus de justiça e de esperança que os profetas Amós, Oséias, Miquéias e Isaías o conjuravam a adorar.

Depois de Damasco e Gaza, Sargão II acometeu o Urartu e os frígios, depois os filisteus. Foi sempre vencedor.

A desgraça de Israel veio a ser a de seus vizinhos. A morte de Sargão não interrompeu essas empresas. Da Mesopotâmia a Tiro, de Jerusalém ao lago de Van, seu filho Senaqueribe devasta o Oriente em meio às convulsões dos povos vencidos. Nenhum parece capaz de resistir a ele mediante uma política coerente, nem mesmo o Egito.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 80-1.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio VI

Os colonos gregos haviam passado dos estabelecimentos agrícolas à fundação das cidades marítimas onde escoavam para entre os bárbaros os produtos da indústria helênica.

O templo de Apolo em Cumes era já célebre. Na Itália, essa irradiação era ainda mais fácil porquanto a emigração asiática lhes mostrava o caminho.

Dançarinos e músicos etruscos. 
Pintura mural na Tumba dos Leopardos. Tarquínia.

Os etruscos haviam fixado seus acampamentos perto das aldeias da Úmbria. Depois a aristocracia etrusca reduzira os camponeses úmbrios à servidão e os fazia desbravar no interior as terras incultas. Pelo vale do Tibre os etruscos internavam-se na Itália, fundando cidades sob o emblema de seu poder, a dupla acha num feixe de madeira. O povoamento ainda insuficiente não permitia a essa confederação urbana organizar todo o país. Mas graças a suas origens, ela dispunha de uma forte indústria do cobre e do bronze, de arquitetos e engenheiros que souberam criar uma rede de caminhos e drenar o solo por meio de galerias curvas subterrâneas. As oficinas de cerâmica mantinham relações com os negociantes de Corinto. Os ritos religiosos dos etruscos evocavam a astrologia do Eufrates, cujos segredos, como a observação do fígado dos animais, eram apanágio de sua aristocracia.

Ideias e técnicas da Ásia iam portanto integrar a Itália na história mediterrânica. Pastores latinos se haviam estabelecido com seus rebanhos sobre uma colina escarpada das bordas do Tibre, o Palatino, e populações vizinhas se haviam juntado a eles: desde sua fundação, em -753, Roma esteve em contato com os etruscos e os gregos, numa região francamente civilizada; recebeu dos mercadores de Cumes e dos artesãos etruscos indústrias e alfabetos, misturando com uma religião e uma língua de origem ariana costumes da Ásia. Esta forneceu assim à Itália suas primeiras artes, suas culturas - a vinha e a oliveira - e transformou a paisagem da península dando-lhe um rosto mediterrânico cujos traços o espírito grego animará. Em -735, Corinto funda Siracusa. Os colonos gregos se talham domínios nas admiráveis terras de trigo da Sicília.

A Europa, essa terra melhor dotada de costas do globo, tornava-se definitivamente marítima e oriental enriquecendo-se com o Mediterrâneo.

O Oriente também corria o risco de se fechar aos fenícios: com a peste, a guerra se fazia até mais dura do que nunca. Os exércitos assírios, após invadirem a Palestina e a Galiléia, ameaçavam os árabes que os cumulavam de presentes. De um momento para outro, Tiro e Sídon podiam ser cortadas de suas caravanas.

Somente a concentração dos citas nas fronteiras do norte retardava a pressão assíria. Os citas eram os mais bem organizados dos criadores nômades que, da Sibéria meridional ao Mar Negro, percorriam as estepes do Turquestão ocidental e da Rússia do sul, com seus cavalos, seus bois e seus carros.

Haviam submetido tribos arianas, os cimérios. O emprego dos estribos tornava-os prestigiosos cavaleiros, ébrios muitas vezes de carnagem e de sua bebida de leite de jumenta fermentado. A ourivesaria de seu arreamento era de um realismo brutal e essa arte se estendia largamente pela estepe até a Sibéria central, entre os ferreiros de bronze, e Minusinsk, no Altai.

Na Ucrânia, os citas se haviam tornado lavradores: os escravos lavraram terra, e vasavam-se os olhos daqueles que se empregavam em trazer o leite. Abastecendo os gregos de peixe salgado, de trigo, de metais preciosos e de âmbar do Báltico, seus chefes participavam do movimento comercial que atingia o Cáucaso por mar e por terra.

Por mar, as expedições helênicas haviam feito entrar na história essas regiões fabulosas, ricas em ouro, aonde, dizia-se, haviam outrora chegado os Argonautas, e a arte geométrica dos gregos já experimentara ali, em suas cores e seus ritmos, o gosto oriental. Por terra, os citas mantinham relações com o Irã, a Mesopotâmia e as tribos mongóis, relações mais violentas, muitas vezes, do que de simples negócio, mas que lhes levavam rudimentos de civilização.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 78-80.

domingo, 14 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio V

Ela detinha já tão bem a bacia oriental do Mediterrâneo que, abandonando as rotas do Norte, cujo segredo lhes havia definitivamente escapado, os fenícios dirigiam seus esforços para o longínquo Ocidente. Para reforçar aí suas bases, os navios de Tiro fundaram Cartago em -814 e dali, alongando suas escalas, ganharam os Açores, a Cornualha e o Báltico. Os cretenses não haviam jamais conhecido esse universo que a chegada dos celtas à Espanha iria aumentar.

Depois de haverem atravessado os Pirineus, esses se fixavam entre os iberos, construíam fortes e traficavam com os fenícios. Um dia, o Império celta encontrou o Mediterrâneo. Esse encontro apressará sua evolução e preicipitará seu avanço sobre os germanos. Os fenícios tinham feito de Cartago o entreposto das riquezas do Sudão e da África central - escravos, peles de animais, penas de avestruz, ouro e marfim; da floresta cerrada, algumas tribos traziam às vezes madeiras preciosas.

Cartago ensinava a equitação aos negros do Sudão, ensinava-lhes a tecer o algodão e a trabalhar o ouro. Encontrava, aliás, na África negra as influências de civilização vindas da Núbia até a Nigéria e reconhecíveis nas línguas, na organização social, na cosmogonia e no número de tradições.

Busto da deusa púnicaTanit. Necrópole de Puig des Molins.

Apesar de os fenícios se empenharem em despistar seus rivais e em fazer mistério de suas carreiras, o monopólio do Mediterrâneo continuava a fugir-lhes: a migração helênica atingia agora a bacia ocidental e aí criava não somente uma concorrência comercial, mas um povoamento estável.

Asiáticos de Anatólia, os estruscos, instalavam-se na Itália; provinham da Cilícia como piratas, embora civilizados pelo contato com Babilônia e os hititas, ao passo que os próprios gregos fundavam cidades no golfo de Taranto, passavam o estreito de Messina e criavam Cumes na costa ocidental da Itália.

Os fenícios não se haviam equivocado a respeito: tratava-se mesmo de um povo inteiro de homens ousados expulsos de sua terra pelo regime da propriedade familial ou pelas rivalidades políticas e que, à procura de terras férteis, ali erguiam templos às divindades agrárias: seu contato ganharia a substância mesma das populações indígenas, modificá-las-ia em seus costumes e segundo um ideal de que Tiro nada sabia.

Era a herança cretense transfigurada pela vitalidade ariana que um clima afortunado levava à plenitude. As lições de harmonia recolhidas de Creta ordenavam na procura do equilíbrio físico a espontaneidade dos jovens que se enfrentavam nos jogos olímpicos. Olímpia era um antigo santuário onde festas fúnebres reuniam os gregos. Desde que estas se tornaram periódicas e acompanhadas de jogos ginásticos, constituíram uma trégua entre os povos gregos, congregando-os em torno de sua paixão comum pelos concursos atléticos.

Em -776 registraram-se oficialmente os nomes dos vencedores e a lista dos atletas foi desde então fielmente conservada.

Esses jogos olímpicos bem cedo pareceram exprimir suficientemente o ideal do mundo grego para que deles se datasse a era das olímpiadas - verdadeira metamorfose do mundo mediterrânico. Os fenícios o viam transformar-se debaixo de seus olhos.

Com razão não haviam eles se preocupado com a confederação militar que Esparta criava no Peloponeso: Esparta não tinha comércio nem marinha, não cuidava de arte nem de pensamento e seu lirismo coral não era mais do que espírito do acampamento. Estes árias em estado bruto que eram os dórios não pareciam nada temíveis a neociantes internacionais.

Mas já ao contrário, eles, misturados por toda parte aos aqueus e formados pelas influências orientais, insuflavam um vigor novo à civilização em que se exaltava a Grécia da Ásia. Corinto, por exemplo, beneficiava-se dessa renovação de tradições que havia outrora recebido diretamente. Se uma casta dória exercia ali o poder, não era como soldados, mas como mercadores enriquecidos pelo tráfico de seus dois portos e pelas relações com a costa asiática. Aquela rivalidade era perigosa; por todas as margens do Mediterrâneo ouviam-se os ecos das rapsódias maravilhosas que recitavam na Jônia a Corporação dos Cantores Homéricos.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1.  p. 76-8.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio IV

A evolução precipitou-se da direção de Atenas por volta de -820. Os proprietários de bens de raiz, depois de terem reduzido a realeza a funções religiosas, substituíram-na por um arconte escolhido por toda a vida dentre eles. O velho palácio micenense da Acrópole real não sobreviveu à monarquia: foi desde então um lugar sagrado onde as famílias nobres conservaram suas residências e fixaram seu governo. A seus pés desenvolveu-se uma cidade de artesãos: o quarteirão dos oleiros, que modelavam uma bela cerâmica de desenhos geométricos, tornou-se uma cidade laboriosa a que chegavam os mercadores da Grécia e da Ásia.

A evolução social teve por sua vez outros efeitos. O regime aristocrático avivava as lutas de partidos. Os vencidos dos conflitos anteriores não tinham outro recurso senão a expatriação, e como o direito de velhice igualmente expulsava os moços da terra familiar, a emigração recomeçou com intensidade, acelerada pela atração da viagem, tão viva entre os gregos.

As cidades gregas da Ásia Menor continuaram assim a ser abastecidas de homens empreendedores; depressa foram belas capitais.

Os dórios batalhavam ainda para submeter a Grécia continental e já seus vizinhos asiáticos, com Mileto, Éfeso, Focéia e tantos outros, estavam em plena criação - cidades industriosas que enxameavam suas oficinas nas ilhas do mármore, Naxos e Paros, nos centros metalúrgicos das Cíclades, ricas em ferro, Samos e Creta, povoavam o Oriente Próximo de seus bronzes e baixos-relevos, e imprimiam em tudo o espírito de aventura e de heroísmo que em Esmirna os poemas homéricos celebravam - por isso, bem cedo sua epopéia foi cara aos corações dos gregos.

Héracles e Atena. Vaso ático. Python e Douris.

Formava-se assim entre essas cidades, tomadas da mesma necessidade de vida, uma solidariedade intelectual cujas zonas de influência eram marcadas pelos progressos da língua grega. As costas da Ásia Menor eram a ardente forja onde, de dialetos diversos, se moldava uma língua homogênea.

Como Creta, os gregos da Ásia trocavam a guerra pelo laço dos intercâmbios entre os homens e o fascínio de uma civilização.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 75-6.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio III

Os reis da Assíria dominavam na Babilônia, e sua capital, Nínive, recebia os presentes de todo o vale do Eufrates. Já a Assíria sufocava deles: recomeçara a luta pela posse dos mercados  da Síria, marcada por alternativas de guerras e alianças.

Os soberanos assírios humilhavam os povos vizinhos, rompiam as coalizões, destruíam as aldeias hostis. Em -877, um deles, renovando nas águas do Mediterrâneo o gesto tradicional que simbolizava sua vitória, molhou nelas suas armas ao sul do Oronte. Os tributos de Israel, de Tiro e Sídon afluíram para a escolta real.


Arqueiros assírios. Palácio de Nimrud

Seu sucessor, Salmanazar III, levou a guerra de Damasco ao lago de Van e se atirou contra os medos, clãs arianos que no Irã haviam ficado tão atrasados a ponto de cortarem ainda as rodas de suas carroças em troncos de árvores. Os medos por sua vez pagavam tributo e enviavam ao rei da Assíria seus belos cães amestrados. A guerra se transformava na indústria nacional dos assírios.

Somente a guerra manteve o contato entre esse Oriente convulso e o mundo mediterrânico em que pequenos Estados se organizavam, demasiado frágeis para tentarem restringir as ambições do novo déspota oriental.

Um conflito permanente, aliás, retardava a evolução da Grécia: os dórios haviam-na conquistado aldeia por aldeia e formado nela, por vários sítios, comunidades militares mais ou menos fortes segundo o grau de resistência dos aqueus. Para os dórios, governar limitava-se a submeter.

Em Esparta é que três tribos dórias melhor conseguiram concentrar seus efetivos pela expulsão dos indígenas da cidade e pela construção de uma sociedade à feição de um acampamento, acessível tão-somente aos dórios, sob a autoridade de dois reis, de um senado de vinte e oito membros e de uma assembleia mensal dos espartanos.

Escultura de um hoplita espartano. Museu arqueológico de Esparta.

Dedicada à guerra por suas origens e pela vontade de se manter, essa elite dória se dispensava de qualquer outra tarefa, lançando a da produção aos ombros dos vencidos, que reduziam à escravidão: a estes se chamou hilotas. Viviam sob o temor de uma repressão atroz. Essa organização codificou-a o tio de um rei, Licurgo, que, inspirando-se nas leis cretenses, fixou no rigor delas os princípios dessa aristocracia militar. Quando ela aumentou em número, os espartanos recomeçaram as invasões dórias - diante deles, os habitantes emigravam.

Para o Norte, seu impulso foi menos vigoroso. O militarismo espartano carecia de amplitude; a Tessália e a Beócia jamais lhe sentiram a ameaça. Por isso, o poeta Hesíodo, filho de um grego da Ásia que regressara à terra beócia, podia ali meditar sobre a justiça, celebrar as paciências do labor campesino e exigir da força a obediência a uma regra moral.

A guerra teve igualmente consequências de ordem social.

Diante da invasão dória, desmoronou-se a monarquia absoluta por ter sido impotente para salvar a sociedade micenense. Viram-se então famílias nobres se apossarem das terras, monopolizarem o direito de cidadania e organizarem as magistraturas das cidades. Os camponeses sofreram em toda parte pela avidez dessas famílias: na Ática eles cultivavam-lhes os domínios mediante um sexto da colheita.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964.  V. 1. p. 74-5.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio II

A Europa do Norte continua inóspita, com seu nevoeiro e suas chuvas. Os celtas encontram-se aí em eternos combates com os germanos, contra os quais se fortificaram em Turíngia. Às vezes os rechaçam, sem jamais atravessar o Elba.

Os germanos permaneceram bem primitivos: os landes pobres e as sombrias florestas que eles ocupam predispõem-nos a uma instabilidade perigosda - o movimento do sol orienta suas cobiças e a conquista se tornará a obsessão da sociedade germânica.

Mas por muito violentos que sejam seus contatos com os celtas, os germanos se familiarizam pouco a pouco com a civilização. Os celtas traficam com os mais evoluídos dentre eles, os cimbros e os teutônicos, mercadores de âmbar na costa oriental do Báltico. Os celtas é que lhes ensinaram o governo monárquico, o montar a cavalo e lhes enriqueceram o vocabulário. Em troca, os druidas adotaram o culto solar oriundo da Escandinávia: constroem templos redondos em homenagem ao Sol.

Reconstrução de uma carruagem celta. 
Museu Celta em Hallein. Foto Wolfgang Sauber

No Oriente e no Meio-Dia sobretudo, se produzem os mais largos impulsos. Continuamente os celtas fazem recuar os lígures e nas costas do Atlântico entram em relações com os marinheiros do Mediterrâneo que regressam à Grã-Bretanha. Em pouco se ligaram a essas costas do Oeste. Em seus percursos, cidades se levantaram. Depois distinguiram os Pirineus. Infiltrações de tribos inteiras fundiram-se na direção do Sul.

De século em século, os celtas se aproximavam do Mediterrâneo - progressão lenta como a de sua civilização: têm a Europa por descobrir e ocupar; somente um rude esforço a torna habitável; é necessário que aí tomem pé solidamente; mas essa terra não é ingrata e, após algumas gerações, seu povoamento fará da Europa um enorme reservatório.

Ao lado desses maciços coletivos, o esforço que entre os judeus continua o Rei Salomão está fora de proporção com os meios de que dispõe. Soube reforçar as posições de Israel, enriqueceu como intermediário entre a Índia e os fenícios, fornece a Tiro azeite e trigo e depois de constituir uma cavalaria, mediante a proibição, aos judeus, de cortar os jarrêtes dos cavalos de que se apossavam, organizou o comércio desses animais. Para aumentar seu crédito, procurou ofuscar pelo luxo.

Mas Israel não dispõe nem dos homens nem das possibilidades econômicas para participar verdadeiramente dos intercâmbios do Mediterrâneo.

O Rei Salomão é forçado a aumentar os encargos de seu jovem Estado: multiplica impostos e corvéias. Os ricos pressionam os camponeses, emprestam-lhes e os arruínam para lhes tomar as terras; a pequena propriedade diminui. Salomão, cujo amor às artes custa caro a seu povo, tem de debelar movimentos de revolta. Quando de sua morte, em -935, o antagonismo das tribos se assenhoreia das cóleras populares e o reino de Israel se dissolve: durou sessenta anos, único lampejo de uma unidade nacional em meio às borrascas da anarquia judaica.

Esgotadas, as tribos israelitas se mostram incapazes de fazer obra política e de recriar um Estado judeu. No tumulto de suas intrigas intestinas, veio assaltá-las o perigo assírio: era tarde demais para conjurá-lo.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1.  p. 72-4.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio I

Imagem: Guerreiro celta. Escultor desconhecido.

Um Império Celta dominava agora a Europa, dos Cárpatos ao Reno, do Danúbio ao Maciço Central.

A exploração do ferro de Halstat, na Áustria, depois a dos minérios da Lorena e de Borgonha forneceram aos celtas um aparelhamento e um armamento tais que, tão logo se estabelecem numa região, eles procedem a amplos roçados e cortam em todos os sentidos na floresta europeia.

Os celtas tomaram gosto pelos trabalhos agrícolas e a terra prospera nos vales onde um clima menos duro os reuniu. Removem o solo com uma charrua de duas rodas puxadas por bois, praticam a agrimensura, recobrem de argila as paredes de suas casas de madeira cobertas de palha, constroem torres de pedras, monumentos megalíticos e salas abobadadas.

A tribo celta possui ainda coletivamente a terra, mas a propriedade tende a se tornar individual e num solo há pouco desbastado não faltam as ocasiões de individualizar os bens: apanágios de chefes, dramas da vingança, fecundidade do rebanho - eis algumas circunstâncias que aumentam a fortuna de uns poucos em detrimento da propriedade coletiva. Os mais ricos guerreiros se juntam em assembleia em volta do chefe militar. Esse elo teria sido bem fraco numa sociedade dispersa por imensos espaços se não houvesse entre seus elementos mais disseminados uma unidade de pensamento muito forte, a do druidismo.

Os druidas formam uma confraria que se recruta por cooptação, resultante do totemismo primitivo que sobrevive na aliança pelo sangue. Sacerdotes, juízes e sábios a um tempo, eles estão isentos de impostos e de serviço militar. Presidem aos sacrifícios religiosos, emitem opinião em justiça, possuem todos os conhecimentos do mundo celta e educam a juventude dos ricos. Vem das regiões mais distantes para se reunirem em concílios junto aos dolmens ou menires, venerados antes deles pelos povos que os celtas submeteram. Conversam sem receio sobre a morte, pois crêem na imortalidade da alma [...] Respeitam a honra individual e seu respeito humano se estende à mulher. O celta é monógamo e admite o divórcio por consentimento mútuo.

As influências da terra penetraram tão bem a sociedade celta que seu culto é agrário. Os santuários são campos de feira. As festas terminam por corridas de cavalos: os celtas são apaixonados por elas. É o cavalo - a principal riqueza - que lhes conserva a mobilidade. Atrelam-nos a ligeiros cabriolés de duas rodas que descem as pitas e penetram por qualquer lugar em que o lenhador tenha aberto uma passagem.

Os roçados asseguram definitivamente ao Império celta seu progresso. Por se mostrarem tão bons pioneiros quanto intrépidos soldados, os celtas avançam de todos os pontos sobre esse continente desconhecido, essa Europa que quanto mais eles possuem, tanto mais os seduz.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 71-2.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 4

Em 1492, a  civilização mais complexa na América do Norte se encontrava no vale do México. Essas pessoas se autodenominavam mexicas, mas, em anos posteriores, os espanhóis se referiam a elas como astecas. Sua capital, Tenochtitlán, foi construída em uma ilha do lago Texcoco e era maior do que qualquer cidade europeia. Canoas deslizavam por canais em toda parte. Mercadores traziam produtos de milhares de quilômetros de distância. Havia papagaios à venda, mantos de algodão e chocolate quente, tortillas, peru, coelho, peles de animais, penas bonitas de todos os tipos e ouro em pó, cuidadosamente embalado dentro de bicos de penas de ganso. Tenochititlán ostentava zoológicos e jardins de museus cheios de plantas exóticas. Aquedutos traziam água potável à cidade, de montanhas a quilômetros de distância. A religião e a cultura astecas eram tão avançadas e únicas quanto as de qualquer civilização na Ásia ou na Europa.

Buffalo hunt, Karl Ferdinand Wimar

Por trás da cultura de todo grupo, há uma história - isto é, um relato de como um costume começou. Na América moderna, por exemplo, muitas pessoas usam calça jeans azul unida por rebites. Esse é um costume, e tem uma história. Na verdade, dois norte-americanos, Levi-Strauss e David Jacobs, tiveram a ideia em 1873. De maneira similar, alguém, ou talvez um grupo de índios, deve ter pensado em como confeccionar roupas melhores com pele ou uma lança mais afiada - ou teve a ideia de configurar um sistema político em que as pessoas "honoráveis" recebiam reconhecimento especial. Mas nenhum dos povos originários da América do Norte inventou a escrita. Por isso, não temos histórias contando de que modo os indivíduos contribuíram para a maneira como as pessoas viviam, ou sobre os vilarejos que construíram ou as guerras que travaram.

Indian canoe, Albert Bierstadt

Os arqueólogos assumiram a tarefa de descobrir o que aconteceu antes de haver uma história escrita. Seu trabalho de detetive é realmente impressionante, com novos conhecimentos adquiridos a cada ano. Ainda assim, restam muitos enigmas. O que aconteceu com o povo hohocan, que construiu canais? Antes de 1492, a região desértica do Arizona provavelmente abrigou mais índios do que qualquer outro lugar ao norte do império mexica. Por que os canais foram abandonados? O clima se tornou mais quente ou mais seco, dificultando a sobrevivência? Passou a haver pessoas demais vivendo em uma área pequena? Os índios vindos do norte atacaram esses povos? Não sabemos essa história.

Chippewas à la chasse au caribou, Cornelius Krieghoff

Há um enigma similar em torno da única cidade nos Estados Unidos de nossos dias a ter sido construída antes de 1492. Cahokia cresceu à margem do rio Mississíppi onde hoje fica St. Louis. Por volta de 1050, uma praça central, maior do que dez campos de futebol, foi construída à sombra de uma colina de quarenta metros de altura feita pelo homem. Milhares de pessoas viveram lá e ergueram mais de 120 colinas similares. Alguns arqueólogos acreditam que a cidade foi construída, em parte, do assombro religioso depois que uma luz resplandescente iluminou o céu noturno: uma supernova, a explosão de uma estrela morrendo, que foi vista pelos astrônomos chineses em 1054. Mas esta é apenas uma teoria. Tampouco sabemos por que os habitantes da cidade se mudaram, deixando-a deserta na época em que Colombo chegou à América do Norte. Não havia registros escritos.

The War Bonnet, Joseph Henry Sharp

Depois de outubro de 1492, os registros escritos chegaram à América do Norte. Os pássaros voando perto da ilha de São Salvador olharam para baixo e viram algo que nunca tinham visto antes. Sim, como sempre, havia fumaça subindo ao céu, e homens pescando em canoas de tronco. Mas, agora, três embarcações maiores apareceram no vasto oceano azul, com suas velas, gastas pela intempérie, bem estiradas nos mastros. Barcos estranhos com humanos ainda mais estranhos a bordo. As pessoas observando Colombo e seus marinheiros de baixo das árvores da ilha devem ter ficado perplexas. Que roupas estranhas eles usavam! Meias compridas e calças até os joelhos. Casacos acolchoados, quentes e pesados. Quem eram eles? O que sua chegada significava?

A história escrita estava chegando à América do Norte - história escrita, rabiscada em jornais, impressa em livros, armazenada em baús pesados ou enfiada em bolsos. Nada voltaria a ser como antes.

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 13-5.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Cuecas e calcinhas

Qual é a primeira peça de roupa que você veste todos os dias? Com certeza a calcinha. Ou a cueca. Peças íntimas são tão comuns hoje que é quase impossível imaginar que há pouco tempo mulheres saíam de casa sem nada por baixo da saia. Quando vestiam alguma coisa, eram peças largas, feitas de um tecido fino e que, no Brasil, ficaram conhecidas como anáguas.

Mosaico romano mostrando duas mulheres vestindo "calcinha" e "sutiã". Artistas desconhecidos

As roupas femininas íntimas ajustadas ao corpo, como conhecemos hoje, são um invento bastante recente e, mesmo depois de terem sido inventadas, não eram usadas por todo mundo. Nos anos 1700, por exemplo, calcinhas eram consideradas vestes de prostitutas e atrizes (palavras que, na época, eram quase sinônimos). O máximo que mulheres de bem usavam era uma espécie de calça que ficou conhecida como culote - era como uma calça cigarrete, só que larga na parte de cima e justa apenas nas pernas.

Já a cueca é um costume bastante antigo. Os homens do tempo das cavernas já usavam uma espécie de fralda, feita de tecido ou couro, para proteger as partes íntimas. Tribos africanas ou indígenas tinham uma outra maneira de esconder o pênis: enrolavam-no com um pedaço de tecido, até que ele tivesse completamente coberto. Até hoje, algumas tribos usam enfeites penianos como cueca. É o caso dos zo'és, uma tribo de índios da Amazônia que não aparece em público de jeito nenhum se não estiver usando o seu adereço.

São Domingos presidindo um Auto de fé (detalhe), Pedro Berruguette. Sacristia da Igreja de Santo Tomás, Ávila, ca. 1495

No ano 1300, os cavaleiros tiveram de abusar das cuecas. É que o uniforme da época eram as armaduras de metal e só um bom pedaço de linho amarrado entre as pernas e na cintura salvava-os da dor de ter o pênis encostando naquela armação de ferro durante uma batalha. Nessa época, cuecas eram tão importantes que muitas vezes apareciam por cima da roupa, demarcando a genitália. Nesse caso, elas incluíam até mesmo algum tipo de sistema abre e fecha. Assim, quando batia a vontade de ir ao banheiro, os homens não precisavam tirar toda a roupa para se aliviar. Bastava abrir o botãozinho da cueca exterior.

Com o tempo, tanto exibicionismo saiu de moda e os homens (principalmente os que viviam em países frios) trocaram os pequenos pedaços de pano pelos "macacões de meia", um macacão feito com um algodão fininho, que cobria todo o corpo.

No Brasil, que era bastante quente, a moda era a ceroula, uma cueca que ia da cintura até o tornozelo. Tanto o macacão quanto a ceroula ajudavam a esquentar e impediam que o suor do corpo chegasse às roupas - que não eram lavadas com tanta frequência. Essas peças íntimas também serviam para proteger a pele, já que os tecidos das roupas não eram tão macios quanto os de hoje.

Ou seja, até 1930 mais ou menos, qualquer roupa íntima tinha apenas um propósito: ser útil. Hoje, isso mudou. Calcinhas e cuecas passaram a ser vistas como um item de moda e procuram mostrar um pouco a personalidade da pessoa que as escolhe. Opção é o que não falta.

SOALHEIRO, Bárbara. Como fazíamos sem... São Paulo: Panda Books, 2010. p. 72, 74-75.

domingo, 3 de maio de 2015

Averróis: Ponte entre culturas

Debate imaginário entre Averróis e Porfirio. Ilustração. Manfredo de Monte Imperiati, Liber de Herbis, séc. XIV.

Seu nome é citado com frequência quando se defende a ideia, absolutamente moderna, de um "Islã das Luzes". A exemplo de Avicena (980-1037), ele encarna a imagem do sábio árabe, tolerante e aberto às trocas culturais, em contraste com aquela de uma expansão muçulmana guerreira e fanatizada. Se a sua notoriedade ultrapassa a de seu equivalente persa na Europa é porque ele contribuiu para a afirmação intelectual do Ocidente cristão.

Filósofo, teólogo, jurista, matemático e médico, Averróis (nome latinizado de Abu al-Wald Ibn Ruchd) nasceu em 1126, em Córdoba. Ele descendia de uma família de juristas que ocupavam a função de cadi, quer dizer, de juiz de paz e de notário. Seu avô tornou-se célebre por importantes trabalhos sobre a jurisprudência islâmica. A juventude de Averróis foi marcada pelo estudo rigoroso do Corão, ao qual se acrescentaram diferentes ciências, entre as quais a medicina, que ele exerceria paralelamente a seu cargo de cadi. Ele interessou-se igualmente pelo saber dos antigos. Abu Yaquib Yusuf, o segundo califa da dinastia dos almóadas (do Marrocos), encomendou-lhe um estudo das obras de Aristóteles. Como não dominava o grego, Averróis trabalhou com traduções que comparou exaustivamente, com o intuito de obter a fonte mais autêntica. Seus comentários de Aristóteles forjaram seu renome, que ultrapassou as fronteiras da Espanha muçulmana (Djazirat al-Andaluz) depois da sua morte. Eles atingiram a Universidade de Paris, onde foram debatidos com ardor. Falou-se até mesmo em uma "querela de Aristóteles", tão áspero foi o debate entre os partidários de Averróis e seus adversários. Tratava-se de determinar se a faculdade de pensar no homem era algo individual ou, como sugeria o andaluz, o reflexo de uma lógica universal. Refutando metodicamente os argumentos de Averróis, Tomás de Aquino lançou-se na batalha metafísica e, aos olhos da Santa Sé, levou a melhor. A partir desse momento, foi o pensamento tomista que animou a doutrina da Igreja.

Em cada um dos três monoteísmos em plena efervescência intelectual no século XIII, distingue-se uma grande figura: santo Tomás de Aquino (1228-1274) para o cristianismo, Moisés Maimônides (1135-1204) para o judaísmo e Averróis para o Islã. Entre todos os teólogos muçulmanos desse período, foi ele o que mais se dedicou a integrar a razão à religião, numa busca de equilíbrio entre o poder espiritual e o poder temporal. Ele distingue a verdade revelada e aquela que se pode atingir por meio da razão. Mas não para opor uma à outra e, sim, uni-las numa busca pela verdade. Em seu Discurso decisivo, ele chega a atribuir um papel indispensável nesse processo ao filósofo, mas reconhece seu caráter elitista.

Evoca-se Averróis para reavivar as cores do brasão do Islã em uma hora na qual as questões de identidade nacional, de laicidade e de integração se tornam outra vez temas ardentes. Sua obra ergue-se como um baluarte contra os fanáticos e abre uma porta ao diálogo entre religiões. Uma árvore que esconde a floresta? Os últimos anos do sábio mostram o quanto seria absurdo idealizar a idade de ouro de al-Andaluz. Se manteve boas relações com Abu Yaquib Yusuf, soberano apaixonado pela cultura, Averróis teve sérias diferenças com seu filho e sucessor, que adotou o integrismo - tendência que põe os princípios religiosos como modelo de vida política e fonte das leis do Estado - e chegou a proibir a filosofia. Ele foi condenado ao exílio em 1197, e seus livros queimados em praça pública. Colocada sob suspeita de heresia, sua obra encontrou melhor ressonância no mundo cristão. Os humanistas do Renascimento, tais como Giovanni Pico della Mirandola, lhe asseguraram um lugar no panteão dos pesquisadores da verdade, ainda que o pensador andaluz fosse condenado pelo papa em 1513.

Averróis continua a alimentar ardentes debates. Em 2008, sua influência esteve no cerne da polêmica suscitada pelo livro de Sylvain Gouguenheim, Aristote au mont Saint-Michel, que discute a forma como a cultura grega se transmitiu ao Ocidente, combatendo a tese da centralidade do papel do Islã nesse processo. A questão posta então era a seguinte: celebrar o papel de Averróis e Avicena significa admitir uma influência do Islã na matriz heleno-cristã que foi transmitida à Europa? É uma questão bastante atual diante dos conflitos políticos e culturais com que nos defrontamos.

Vincent Mottez. Ilustre desconhecido. Averróis. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 127. p. 62-63.

domingo, 14 de setembro de 2014

Os celtas

Gauleses avistam Roma, Évariste Vital Luminais

Os celtas eram um grupo diversificado de povos da antiga Europa, ligados pela mesma língua, religião e cultura. Guerreiros ferozes e artistas talentosos, foram a primeira e maior civilização da Idade do Ferro. A história celta ocorreu em três estágios. Os primeiros celtas surgiram a partir da cultura dos campos de urnas do norte dos Alpes, no meio do segundo milênio a.C. Entre 1000 e 600 a.C., grupos desses celtas começaram a migrar e levar a cultura dos campos de urnas pela Europa ocidental até o norte da Espanha.


Costume celta, Paolo Boncomagni.
Arquivo Pietra Pensa

- Cultura de Hallstatt. O segundo estágio da cultura celta, batizado com o nome da aldeia de Hallstatt, na Áustria, onde se encontraram muitos túmulos e artefatos, começou por volta de 1200 a.C. Hallstatt foi uma das primeiras culturas da Europa a usar o ferro e se caracterizou pelas fortalezas em morros e pelos funerais elaborados da elite. Entre os anos 700 e 500 a.C., espalhou-se por França, Espanha, Portugal, Alemanha, Países Baixos e o sul da Grã-Bretanha.


Costume celta. Paolo Boncomagni. 
Arquivo Pietra Pensa

- Cultura de La Tène. O terceiro e último estágio da histórica celta, conhecido como cultura de La Tène, desenvolveu-se a partir da cultura de Hallstatt na França e na Alemanha por volta de 450 a.C. A cultura de La Tène é famosa pelo estilo artístico chamado curvilíneo, usado para decorar armas, joias e outros artefatos cuja superfície era gravada com curvas, espirais e círculos abstratos e simétricos. Por meio de comércio e migrações, a cultura de La Tène se espalhou pela Europa ocidental e central (além da Espanha) e chegou à Grã-Bretanha e à Irlanda por volta do ano 400 a.C. Na Espanha, formou-se a cultura “celtibérica” distinta.


Costume celta. Paolo Boncomagni.
 Arquivo Pietra Pensa

- Invasões. Por volta de 400 a.C., os celtas invadiram o norte da Itália e a região do baixo Danúbio. No norte da Itália, seus ataques enfraqueceram muito a civilização etrusca. Os celtas se estabeleceram no fértil vale do Pó, região que, a partir daí, passou a ser chamada de Gália Cisalpina (Gália sendo o nome romano da terra dos celtas). Depois, eles marcharam para o sul e sitiaram Roma até que os romanos pagaram um resgate para que fossem embora.

Os celtas do baixo Danúbio começaram a avançar para o sul e entraram nos Bálcãs e na Grécia no início do século III a.C. Atacaram Delfos e conquistaram o reino helenístico da Trácia. Daí, três tribos celtas migraram para leste e se instalaram no centro da Anatólia, de onde partiram invasões aos reinos vizinhos.


Costume celta. Paolo Boncomagni. 
Arquivo Pietra Pensa

- Declínio. O ponto alto da cultura celta ocorreu do início a meados do século III a.C. A partir daí, eles começaram a sofrer pressões dos romanos, gregos e cartagineses e passaram firmemente à defensiva.

Na década de 230, os cartagineses começaram o processo de expulsar da Espanha os celtibéricos, processo continuado pelos romanos depois de derrotarem os cartagineses em 206. Os celtibéricos se agüentaram no noroeste da Espanha até caírem sob o domínio romano em 19 a.C. Os gregos expulsaram os celtas da Anatólia central em 230 e da Trácia por volta de 220.

A partir de 225, Roma começou a atacar a Gália Cisalpina. Os celtas resistiram até 192, quando foi esmagada a sua última base em Bonomia (a moderna Bolonha). Entre 58 e 51 a.C., o general romano Júlio César venceu os celtas da Gália. Os celtas da Panônia (a Hungria moderna) foram derrotados em 9 a.C. Só restava, então, um pequeno enclave de celtas independentes na Europa continental, situado na Alemanha, ao norte do Danúbio.


Costume celta. Paolo Boncomagni. 
Arquivo Pietra Pensa

- Grã-Bretanha e Irlanda. Aos poucos, os celtas da Europa continental se romanizaram e sua identidade começou a desaparecer. No entanto, a cultura celta continuou a prosperar na Grã-Bretanha até a invasão romana, em 43 d.C. Embora dominassem boa parte da Grã-Bretanha, os romanos nunca conseguiram subjugar as extremidades norte e oeste – Cornalha, País de Gales e Escócia -, onde as tradições celtas sobreviveram e sua língua continuou a ser falada. Depois que o domínio romano terminou em 410, a arte La Tène reviveu na Grã-Bretanha, agora sob forte influência dos estilos artísticos anglo-saxão e romano tardio.

Os romanos nunca chegaram à Irlanda e os celtas irlandeses ficaram relativamente tranquilos durante o período romano. No século V, um cristão chamado Patrício levou um grupo de celtas à Irlanda e lá criou uma igreja, Em 600, a Irlanda era o centro cultural do cristianismo celta e mandava missionários para a Grã-Bretanha e Europa.


Costume celta. Paolo Boncomagni. 
Arquivo Pietra Pensa

- Sociedade. Os celtas eram um povo tribal e algumas tribos se organizavam em federações. As tribos eram governadas por um chefe com o apoio de uma elite guerreira e uma classe sacerdotal, os druidas. Os druidas realizavam os ritos religiosos, julgavam criminosos e aconselhavam o chefe. A maioria vivia em pequenos povoados cercados de terra agrícola. No século II a.C., os celtas passaram a construir povoados maiores e fortificados chamados oppida que serviam de centros comerciais e às vezes administrativos. Pareciam estar à beira de criar uma civilização complexa própria, com o desenvolvimento de grandes cidades, cunhagem de moedas e escrita, quando foram conquistados pelos romanos.

WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2014. p. 76-77.

NOTA: O texto "Os celtas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Características da civilização mongólica

Nenhuma civilização, talvez, submeteu-se, tanto como a dos mongóis aos imperativos da geografia e do clima. Seu habitat estépico sofre variações extremas de temperatura: uma breve primavera, um vento tórrido e dessecante, um inverno rigoroso e glacial; ventos furiosos varrem estas extensões onde não encontram qualquer obstáculo. Este clima brutal forja uma saúde inquebrantável e veda a sobrevivência dos fracos. Assim, a raça mongólica, quer a da estepe, quer a dos contrafortes florestais, é extremamente robusta. A rude existência dos caçadores, à horda da taiga, ou a dos pastores, em pleno coração das estepes, exige uma adaptação do físico: torso maciço e tórax desenvolvido sobre as pernas arqueadas pelo constante uso do cavalo; visão penetrante e grande agilidade. Todos são grandes devoradores de carne e consumidores de laticínios, e embebedam-se de bom grado. Joviais e bravos, mas capazes de inusitada crueldade, são amiúde inteligentes, astuciosos, suscetíveis mesmo de policiarem-se.


Arqueiro mongol, artista desconhecido. Miniatura chinesa da dinastia Ming, séculos XV-XVI.

A maioria das tribos são formadas de pastores. Ainda menos civilizados, e menosprezando também os pastores, os caçadores das florestas não possuem gado ou cavalos: vivem exclusivamente da caça e de alguns ofícios artesanais - carpinteiros, ferreiros. No inverno, calçam raquetas (tchana) de tábuas, apoiando-se em altos bastões a fim de caminhar os deslizar sobre a neve; outros, dotados de patins de osso polido, lançam-se sobre a neve endurecida ou sobre o gelo e capturam os animais na corrida. Suas cabanas de ramagem, recobertas de casca de bétula, são transportáveis, inteiramente montadas, em carros.

As tribos pastoris, conforme as variações do clima estépico e o estado das pastagens, são obrigados a periódicas transumâncias e à vida nômade. No inverno, os rebanhos descem para as estepes, onde faz menos frio, e aí permanecem durante a primavera, estação em que o pasto é melhor; no verão, tornam a subir os flancos das montanhas, onde os homens encontram um pouco de frescor e entram em contato com os habitantes das florestas. Em vista destes longos percursos, tudo, no acampamento, é concebido a fim de permitir fácil transporte. Os carros dispostos em círculo formam uma espécie de cercado. Permanecendo o mais das vezes totalmente armadas sobre os carros, as casas são de dois tipos: umas (ger) - impropriamente denominadas iurtas - feitas de feltro negro, em forma redonda, acham-se montadas sobre uma estrutura móvel de perchas e ripas, em torno de uma percha central, considerada sagrada; um pequeno tubo, fixo ao feltro, serve ao escapamento da fumaça e à ventilação. As outras (maican), largas e baixas, apresentam-se cobertas de lã, enquanto a tenda do chefe se distingue por sua cor branca ou "toda dourada".


Cavalaria mongol, artista desconhecido. Ilustração de manuscrito, século XV.

Os carros, de madeira, munidos de dois varais, transportam, além das provisões, um instrumental rudimentar de celhas de madeira, panelas, baldes de couro, odres e foles para o fogo. Cobrem-nos um berço estanque em feltro negro e, puxados por bois, rangem e solavancam ao longo das trilhas. Neles amontoam-se as famílias e os animais novos, demasiado débeis para que possam caminhar muito tempo. Atrás vêm os rebanhos, enquadrados por homens montados nos pequenos cavalos desgrenhados, munidos de uma sela de couro e tão vivos quanto os seus cavaleiros. Nos rebanhos, importunados pelas varejeiras, misturam-se cavalos de remonta e éguas, touros, bois e vacas, bodes domésticos, carneiros e ovelhas, e às vezes até camelos.

Como todos os nômades, os mongóis passam sem transição da fome à comezaina. Cada festa, cada acontecimento jubiloso é ocasião para um banquete. Nutrem-se de carne de cavalo e de carneiro, cozida ou assada, de leite coalhado (tarac), de alho e cebola, e de uma espécie de manteiga batida nas celhas com um pau parcialmente guarnecido de couro; em caso de escassez, cingem-se às sorvas, às bagas silvestres, às raízes comestíveis. Embriagam-se com leite de égua fermentado (cumiz), do qual sempre levam uma provisão, caso se distanciem por alguns dias. Para alimentar as fogueiras de acampamento, acesas com fuzil e mantidas com foles, usam esterco seco, espinheiras e raízes. À aproximação do inverno, abatem carneiros e constituem reservas de carne congelada; do mesmo modo, conservam o leite seco e reduzido a pó. Só as tribos que, como os markites, erram nas rotas das caravanas, conseguem farinha.


Um príncipe mongol estudando o Corão, ilustração de Rashid-ad-Din's Gami' at-tawarih. Tabriz. Século XIV.

Guerreiros, caçadores e pescadores, bem como pastores, manejam com destreza o arco e as flechas contidos num só envoltório de couro, análogo aos goritus dos citas, o sabre curvo, a lança de ferro. Desde a infância, fabricam arcos e flechas com madeira de pessegueiro ou zimbro e armam-se de pontas de osso ou madeira de cipreste. As mais temíveis são guarnecidas de uma ponta de ferro, que arranjam com os ferreiros das tribos das florestas e que untam às vezes de veneno. A caça é feita por meio de batidas em que se encurrala a presa antes de matá-la, ou de açores, gerifaltes e falcões, para caça de aves, ou de laço, para os cavalos selvagens, os hemionos (culan), os carneiros e os argalis, ou ainda mediante a perseguição a cavalo e com o arco, para os cervos, alces, antílopes e gamos. Sabem também desenterrar as marmotas (gerbos) com um instrumento de ferro, prender em armadilha os animais de pêlo, desencovar os ursos, pescar com rede os peixes dos lagos e dos rios; são auxiliados na caça como na guerra por cães famosos pela sua ferocidade. Acima do acampamento voam nuvens de pequenas gralhas; e em volta, durante a noite, rondam os lobos, os chacais e até os tigres.

Instalado o acampamento para o pouso noturno, a vigia organiza-se em torno de fogos de bivaque; os que velam jogam ganizes ou escutam os relatos que se transmitem oralmente ao longo das estepes. Quando da estação do estabelecimento, o acampamento transforma-se em "cidade"; constituem-no uma multidão de círculos de carros; as tendas são erguidas ao sol e orientadas para o sul; as do chefe e de suas mulheres, à parte das outras, compõem um palácio rudimentar ao qual são vinculados, além de numerosos servidores e escravos, um rebanho e pastagens próprias. Durante o repouso, os mongóis calandram o feltro, fabricam correias e cordas, selas e arreios, carcases e armas, vigamentos de madeira para as tendas e os carros, preparam enfim as peles e peliças.


Gengis Cã recebe embaixadores chineses, Jami' al-tawarikh, Rashid al-Din. Século XV

"O povo mongol cheira mal com suas roupas enegrecidas", confessa a História Secreta dos luan: é porque se cobre de peles e peliças, forrando os mais ricos, os seus casacos de inverno com zibelina, arminho, petit-gris ou raposa: e só depois da conquista da China vestem, na estação quente, a seda e o brocado. Os jovens de ambos os sexos conservam os cabelos longos, tapando os ouvidos. Tonsurados entre as duas orelhas, a parte frontal da cabeça rapada numa largura de três dedos, com uma franja de ambos os lados, os homens trançam seus cabelos e os prendem atrás da orelha, conservando sempre um topete que desce até os sobrolhos. As mulheres casadas embiocam-se com uma coifa de casca de árvore, da altura de dois pés chineses, que recobrem às vezes de um pano de lã ou, como sinal de opulência, de seda. O conjunto termina por uma longa cauda, que K'ieu ang-tch'uen (1221), compara a um ganso ou pato.

Sempre em estado de alerta para se defenderem dos animais selvagens ou das tribos vizinhas, estes audaciosos e ardilosos guerreiros espreitam a aproximação do vizinho que descobrem por uma nuvem de poeira no horizonte ou colando o ouvido ao solo. Agrupados em redor de seu estandarte de guerra (tuc), ao qual rendem culto e que os acompanha em todos os combates, são admiráveis cavaleiros, formando um todo com suas montarias, tão robustas como eles - contentam-se com a erva da estepe - , montarias que sabem poupar, mas às quais, no chicote, podem exigir o máximo esforço: o cavalo é o companheiro do homem, e os relatos mongólicos conferem-lhe uma verdadeira personalidade. Cobertos, em pé de guerra, de uma armadura de couro cozido, caindo como raio sobre os seus inimigos, não poupando a vida humana, os mongóis são também temíveis arqueiros, "os melhores que se conhece no mundo", nas palavras de Marco Polo. Suas tropas, perdidas na imensidão do deserto, são capazes de resistência invulgar, satisfazendo-se com leite de égua que bebem dos odres suspensos na sela, com bagos silvestres e caça abatida ao acaso no caminho, dormindo e velando a cavalo, cobrindo as rédeas soltas enormes distâncias. Se faltam os víveres, podem subsistir durante 10 dias, sugando o sangue de seus cavalos, nos quais abrem uma veia, tapada em seguida com estopa, ou diluindo e remexendo o pó de leite seco em um pouco de água.

Em caso de ataque de surpresa, entrincheiram-se atrás de seus carros dissimulados por moitas, ou fogem disparando sempre suas flechas, pois sabem voltar-se para a garupa de seus cavalos lançados a galope: tática terrificante que os citas e os partos já empregavam. Utilizam de bom grado os serviços de trânsfugas e espiões e vêem na guerra apenas uma oportunidade de matanças, raptos e rapinas. Os cativos sofrem bárbaros suplícios: só os que eles apreciam têm direito à morte por asfixia, sem efusão de sangue, pois acreditam que a alma reside no sangue. Salteadores, rapinantes e bandidos, como todos os nômades, travam entre si inexplicáveis vendetas, exterminando sem dó toda uma família, apoderando-se do gado, saqueando o material e queimando mesmo para sempre as pastagens dos clãs vizinhos. Como a presa da caça, o espólio de guerra é repartido entre os chefes, os oficiais e os guerreiros.

PERROY, Édouard. A Idade Média: o período da Europa feudal, do Islã turco e da Ásia Mongólica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. (História geral das civilizações, 7)

NOTA: O texto "Características da civilização mongólica" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.