"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Tradição Guarani

Os grupos da Tradição Guarani que habitavam o litoral catarinense também são conhecidos como Carijó (denominação dada pelos colonizadores portugueses, a partir do século XVI), cuja última leva migratória chegou à região durante o período pré-colonial. Apesar de autores apontarem que os dados sobre a sua origem são contraditórios e imprecisos, conta-se que eles partiram da Amazônia em direção ao Sul, utilizando para isso os rios Paraná e Uruguai.

Como os grupos da Tradição Itararé, os Guarani também se destacam pela cerâmica, de grande variedade de formas e tamanhos. No entanto, apresentam pelo menos duas diferenças fundamentais. A primeira é que as peças produzidas pelos Guarani, além do uso em afazeres do dia-a-dia, também eram utilizadas em rituais da tribo, como no caso das "urnas funerárias". E a segunda é o fato de que as peças mais elaboradas eram sempre decoradas, com fundo branco ou vermelho e superfície com linhas vermelhas e pretas. Os motivos apresentavam linhas em zigue-zague, onduladas e aspiradas e triângulos.

Além das peças em cerâmica, os Guarani também produziam objetos a partir de outras matérias-primas como madeira, ossos, dentes, conchas, pedras e fibras vegetais. Entre esses objetos, encontram-se lâminas e pontas de flechas, e objetos para adornos como colares.

Apesar de também praticarem a pesca e a caça, os Guarani eram prioritariamente agricultores e cultivaram produtos como mandioca, cará, abóbora, milho, algodão, pimenta, inhame e tabaco (este último deduzido pela presença, em muitos sítios arqueológicos, de pequenos "cachimbos" de cerâmica). Segundo pesquisas, os Guarani foram responsáveis pela dispersão, no Sul do continente, de várias plantas oriundas da região amazônica.

O declínio dos povos da Tradição Guarani não só na Ilha de Santa Catarina, mas em toda a região Sul, teve como ponto crucial a chegada dos colonizadores europeus, sobretudo por volta do século XVII, quando a ocupação passou a ocorrer com maior frequência. Além de indefesos diante da tecnologia bélica dos invasores, os Guarani sucumbiram também diante de doenças como gripe, varíola, sarampo, malária, tuberculose, tifo, entre outras, que foram responsáveis pela morte de muitos índios. Restou aos Guarani a tentativa de sobreviver em pequenos grupos, mudando frequentemente o local de seus assentamentos.

Passado presente: Índia guarani


Ainda hoje, descendentes dos índios Guarani, vivem na região da Grande Florianópolis. Eles estão em pequenas "áreas indígenas", localizadas às margens da rodovia BR-101, nos municípios de Palhoça e Biguaçu, onde produzem e comercializam peças de artesanatos (cestos de vime, arcos e animais talhados em madeira). Parte do que é produzido também é comercializada nas ruas do centro de Florianópolis.

GONÇALVES, Alexandre et alli. Aventura arqueológica na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Lagoa Editora, 2003. p. 12-14.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Tradição Itararé

Apontados como os primeiros habitantes da Ilha de Santa Catarina, os Pescadores, Caçadores e Coletores deixaram como testemunho de seus assentamentos os sambaquis, montes formados por conchas e que serviam para sua moradia e proteção. Para tanto, escolhiam locais próximos do mar, de onde provinha a maior parte de seus alimentos, e de fontes de água doce. Com uma economia baseada na pesca, caça e coleta, estima-se que esses grupos utilizavam instrumentos de pedra polida e/ou lascada, como machados, batedores de alimentos, além de confeccionarem zoólitos (representações de animais em pedra) e outros adereços.

* Tradição Itararé. Não há dados concretos em torno da chegada dos grupos da Tradição Itararé do planalto, sua região de origem, à Ilha de Santa Catarina. Estima-se, porém, que seus primeiros vestígios no litoral tenham surgido por volta de dois mil anos atrás. Nos locais habitados pelos grupos de Tradição Itararé, como a Praia da Tapera, um dos poucos sítios datados, de 1.140 anos atrás, foram detectados os primeiros vestígios de cerâmica, o que se tornou característica principal da presença desse povo.


Tradição Itararé: vasilhame cerâmico

As peças cerâmicas confeccionadas eram, em sua maioria, recipientes para o preparo e consumo de alimentos, com tamanho entre 20 centímetros de diâmetro e 30 centímetros de altura, e paredes de fina espessura com coloração variando do laranja ao cinza-escuro, raramente decoradas. Além disso, os grupos da Tradição Itararé produziram artefatos líticos (lâminas de machados, alisadores, percutores e tembetás), artefatos ósseos (pontas, furadores, anzóis e vértebras perfuradas) e restos faunísticos (ossos de peixes, mamíferos, aves e répteis e conchas marinhas).

O fato de a cerâmica ser uma forte característica do grupo da Tradição Itararé poderia significar que seus membros praticavam a agricultura como forma de subsistência. No entanto, essa hipótese é descartada por arqueólogos, diante do fato de que os esqueletos dessa tradição não apresentavam cáries, o que indica a ausência de carboidrato na dieta alimentar do grupo. Assim, a alimentação da Tradição Itararé baseava-se, principalmente, na exploração de peixes, complementada com mamíferos terrestres e marinhos, aves e répteis. Eles se alimentavam também, mas em menor escala, de moluscos e crustáceos e, por isso, acumulavam menos conchas em seus assentamentos, diferentemente dos Pescadores, Caçadores e Coletores, em cujo local de habitação havia a predominância desse rejeito, elemento marcante na formação dos sambaquis.

Alguns autores, segundo a arqueóloga Maria Madalena do Amaral, tendem a relacionar os grupos de Tradição Itararé aos Jês do Sul. "Os grupos de Tradição Itararé seriam os ascendentes pré-coloniais dos grupos historicamente conhecidos como Kaingang e Xokleng por causa da semelhança da produção cerâmica, tanto no que se refere ao processo de manufatura quanto às formas dos vasilhames", explica a arqueóloga.

GONÇALVES, Alexandre et alli. Aventura arqueológica na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Lagoa Editora, 2003. p. 10 e 12.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Inscrições rupestres nas Ilhas de Santa Catarina

Inscrições rupestres ou petroglifos são expressões gráficas produzidas em superfícies rochosas. Nas ilhas de Santa Catarina, do Campeche, do Arvoredo, das Aranhas e do Coral, as inscrições estão situadas em paredões, penhascos e rochas isoladas ou agrupadas em campos abertos.


De acordo com estudos arqueológicos, duas técnicas foram utilizadas na confecção dos desenhos: percussão (picoteamento) e abrasão (polimento), em geral sobre diabásio, cujas pedras datam de mais ou menos 130 milhões de anos.

Há quem afirme que o uso dessas técnicas sugere que, em determinadas situações, as inscrições eram previamente esboçadas para depois passarem por um processo de acabamento final. [...] Existem, por exemplo, opiniões divergentes quanto aos possíveis significados das inscrições, a partir das formas e da própria localização das mesmas.

Em boa parte das inscrições as formas acabam se repetindo, com predominância de círculos concêntricos, conjunto de retas, conjuntos de linhas onduladas, linhas quebradas ou ziguezagues, além de triângulos, quadriláteros e figuras de homens e animais. O fato de as figuras possuírem traços em comum leva alguns estudiosos a levantar a hipótese de que uma única cultura, das três que habitaram a região - Pescadores, Caçadores e Coletores, Itararé e Guarani -, tenha sido responsável pelas inscrições.

[...]

[...] Muitos moradores de localidades tradicionais da Ilha de Santa Catarina relacionam as inscrições à pesca, principalmente pelo fato de algumas lembrarem o formato de uma rede.

É esse tipo de mistério que acaba por alimentar o imaginário popular em torno da existência ou não de significados nas inscrições rupestres. Fala-se muito que as inscrições conteriam significados de cunho místico, religioso. Segundo a arqueóloga Maria Madalena do Amaral, a dificuldade em apontar com exatidão os significados das inscrições é fruto da própria natureza do trabalho desenvolvido pelos arqueólogos. "Ao estudar os grupos pré-coloniais, a Arqueologia nem sempre pode trabalhar com o nível ideológico, pois é muito difícil deduzir o significado de determinados vestígios somente através da cultura material. Diferentemente do antropólogo, o arqueólogo não trabalha com o simbólico, como é o caso das inscrições rupestres", explica Maria Madalena. [...]

De qualquer forma, como afirma o arqueólogo André Prous [...] as inscrições rupestres são um dos temas mais populares entre os leigos interessados em Arqueologia. E a razão disso, segundo Prous, é "tanto pelo fato de que a civilização moderna ocidental desenvolveu nossa sensibilidade para as formas 'exóticas' de gosto esotérico, quanto pelo impacto que nossa sensibilidade sofre por receber, pelas figuras desenhadas nos paredões, uma mensagem direta de seus primitivos autores". [...]

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Desenhadas em paredões verticais, as inscrições têm no máximo três milímetros de profundidade por 30 milímetros de largura [...]. No total, na Ilha de Santa Catarina e adjacentes, existem 32 sítios, totalizando 564 inscrições rupestres.

Inscrição rupestre na Praia do Santinho. Foto: Orides Maurer Jr., jan/2012


Na Ilha, a Praia do Santinho destaca-se pela quantidade de inscrições que existem nos seus costões. No costão norte, há dois sítios rupestres. [...]

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Por causa do acesso nem sempre facilitado, conhecer de perto as inscrições rupestres pode se transformar numa verdadeira aventura arqueológica. Na Praia da Galheta, por exemplo, antes de chegar ao  costão norte, onde estão as inscrições, é preciso enfrentar uma trilha a pé de 30 minutos. [...]

Trilha Praia da Galheta. Foto: Orides Maurer Jr., jan/2013


No Pântano do Sul, a 300 metros da praia,  na ponta leste, estão duas sinalizações e uma inscrição isolada. [...] Ali perto, na Praia da Armação, o único petroglifo encontrado foi retirado da localidade e levado pelo padre Rohr para o Museu do Homem do Sambaqui, onde permanece até hoje. [...] També há registros de inscrições na Praia dos Ingleses, Barra da Lagoa, Praia Mole, Ponta das Canas, Joaquina e Solidão.

Além das inscrições na Ilha de Santa Catarina, outras se localizam em ilhas próximas, que também possuem sítios rupestres bastante representativos, a começar pela Ilha do Campeche, reconhecida como Patrimônio Arqueológico e Paisagístico Nacional. [...]

Situada a oito quilômetros do extremo sul da Ilha de Santa Catarina, a Ilha do Coral também conta com um importante sítio rupestre e que também foi objeto de estudo por parte do padre Rohr. No local, do total de 132 inscrições, 78 são variações de círculos. O sítio possui um painel com um letreiro com 43 símbolos (que lembram figuras humanas), triângulos, linhas onduladas e em zigue-zague.

Já a Ilha do Arvoredo [...] possui um sítio com um grande painel, que os pescadores chamam de "letreiros", em que as inscrições são facilmente avistadas do mar. [...]

GONÇALVES, Alexandre et alli. Aventura arqueológica na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Lagoa Editora, 2003. p. 37-49.