"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A sexualidade a bordo das naus lusitanas

Nu deitado, Amedeo Modigliani


Em meio a um ambiente conturbado, repleto de privações, a sexualidade a bordo das naus lusitanas era encarada como um tabu e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, com uma liberdade quase nunca observada no reino.

Enquanto em terra havia um tabu com relação à nudez do corpo, entre os homens do mar, habituados à nudez dos nativos das terras descobertas e à sua forma de encarar o sexo mais livremente, a sexualidade era quase libertina.

Nos navios. o ato sexual era quase sempre uma prática coletiva, com a ausência de parceiros fixos e o compartilhamento de objetos sexuais. Práticas consideradas mesmo em nossos dias promíscuas eram corriqueiras nas embarcações. Por vezes, as mulheres disponíveis eram duplamente penetradas, enquanto forçadas a praticar sexo oral e a manusearem, em cada uma das mãos, as genitálias de outros homens, servindo, sexualmente, cinco deles, ao mesmo tempo. Ao redor, outros se masturbavam ou praticavam sexo entre si, aguardando sua vez de participar da bacanal.

Quando não havia mulheres a bordo, os pobres grumetes terminavam servindo sexualmente à marujada, integrados ao sexo grupal. Se a Inquisição caçava os adeptos do homossexualismo em terra, no mar procurava ser mais branda, uma vez que a falta de mulheres a bordo justificava, a seus olhos, os atos de sodomia.

Em terra firme, a Inquisição em Portugal queimava os implicados em atos homossexuais, mas apenas quando reincidentes. Assim, estrangeiros diziam que a Inquisição em Portugal era muito branda se comparada com a atuante na França, na Suíça e na Alemanha, onde se queimavam sodomitas sem remissão.

De fato, muitos eclesiásticos portugueses defendiam a isenção de penas para os praticantes de sodomia, ou pelo menos, que eles não tivessem castigo tão severo. A motivação da defesa era conhecida de todos e tema de piada entre os estrangeiros: os religiosos lusitanos, mesmo os inquisidores, tinham fama de homossexuais ativos. Em certas casas eclesiásticas, onde os jovens aprendiam as ciências e a piedade, eram também iniciados em práticas sexuais homoeróticas, chamadas "relaxações", inspiradas pelo modelo grego que pregava que o verdadeiro amor só podia ser desenvolvido entre pessoas do mesmo sexo, com um homem mais velho conduzindo um jovem pelos prazeres da carne.

Parece que, atendendo aos apelos dos religiosos, sob o disfarce de benevolência que procurava ocultar a natureza homossexual da motivação da piedade, no além-mar os estatutos da Inquisição portuguesa eram mais brandos, embora não se possa negar que atendessem a uma necessidade social, ou seja, viabilizar a aventura marítima portuguesa num contexto de grande disparidade numérica entre homens e mulheres a bordo.

A Inquisição de Goa, por exemplo, recomendava que se evitasse a pena pública para a sodomia, imputando apenas uma penitência oculta, condenando secretamente os praticantes reincidentes, quando pegos em flagrante, ou degredo.

A raridade de mulheres nos navios levava a maioria dos embarcados a satisfazer seu desejo sexual com outros homens. Tais relações, muitas vezes, realizavam-se pela força bruta (posse forçada do corpo dos mais fracos) ou pelo peso das hierarquias, que obrigava os mais humildes a satisfazer as vontades dos seus superiores.

Dentro desse contexto, os grumetes, na hierarquia abaixo dos marinheiros, eram muito visados, a despeito de serem crianças entre 9 e 16 anos. Dada a fragilidade infantil, incapaz de conter os assédios, ou em troca de proteção de um adulto ou de um grupo de adultos, os grumetes eram obrigados a abandonar precocemente, a inocência infantil, entregando-se à sodomia. Quando tentavam resistir, eram estuprados com violência, e, por medo ou vergonha, dificilmente se queixavam aos oficiais, até porque, muitas vezes, eram os próprios oficiais que permitiam ou praticavam tal violência.

Em suma, imperava a lei e a moral do mais forte.

Os marujos eram gente de má fama, tidos como adúlteros, alcoviteiros, amantes de prostitutas e ladrões, capazes de acutilar e matar por dinheiro. A reputação dos soldados não era muito melhor, acrescida da impressão de que não guardavam grande respeito ou obediência com relação aos oficiais superiores. Já os passageiros eram em sua maioria miseráveis, descalços, famintos e desarmados, tendo, portanto, muito pouco a perder. Esse conjunto, nas condições precárias de vida das naus, era capaz de dar origem a criminosos da pior espécie, elementos responsáveis por inúmeras violências a bordo.

O próprio cotidiano, repetitivo, empurrava os tripulantes e passageiros de má índole para a caça de parceiros sexuais como um meio de ver o tempo passar rápido.

O mesmo tipo de sexualidade observada na Idade Média entre as corporações de ofício, quando dividir um parceiro sexual entre os companheiros simbolizava o estreitamento dos laços de amizade e camaradagem, terminou sendo adotado a bordo das embarcações portuguesas do início da Idade Moderna.

A prática sexual do estupro coletivo de uma mulher ou de um garoto por grupos de marinheiros ou soldados não era execrável na época sendo dificilmente punida pela autoridades de dentro e mesmo de fora dos navios.

[...] era comum os marinheiros embarcarem prostitutas clandestinas, enganando-as ou forçando-as a subir a bordo com ameaças e violência. A presença de meretrizes nos navios, muitas vezes, servia para acalmar os ânimos dos homens. Sabendo disso, alguns capitães optavam por fazer com que essas clandestinas pagassem sua passagem com trabalho sexual.

Entretanto, embora as prostitutas a bordo desviassem um pouco a atenção dos homens dos garotos, não impediam o assédio constante às escassas "mulheres de bem", pois, além de o número de mulheres para cada homem estar sempre longe do suficiente, o risco de contrair doenças venéreas, como em terra, criava uma certa aversão às profissionais do sexo. De fato, o contato com essas mulheres representava um grande perigo, já que raramente deixava de premiar os incautos com "lembranças de Vênus", suficientes para amargurar e causar forte arrependimento.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 104-106.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O sexo das mulheres: desejo e homossexualidade (Parte 4)

O sono, Gustave Courbet

A descoberta do prazer feminino é antiga. Os cavaleiros da Idade Média temem o leito e a mulher insaciável que não estão certos de poder satisfazer, segundo Georges Duby. O Renascimento favorece esse reconhecimento do desejo. Os médicos detectam um líquido feminino, que seria sinal de gozo e que ajuda a reprodução. A corte dos Valois era propícia às experiências de todos os tipos e mesmo às palavras para dizê-los.

O desejo das mulheres se expressa em certos textos da Idade Média e mais ainda do Renascimento, como as poesias eróticas de Pernette du Guillet. As mulheres galantes, cuja vida é evocada por Brantôme, sabem gozar do sexo. Segundo Pierre Camporesi, Catherine Sforza vangloriava-se de tomar posições favoráveis ao orgasmo, palavra não utilizada, embora não se ignorasse a coisa, que é preciso buscar no eufemismo e nas expressões da linguagem poética.

O século XVII da Contrarreforma e do jansenismo é cheio de pudores. A libertinagem do século XVIII é sobretudo masculina, como o erotismo do século XIX. [...]

Fala-se ainda menos da homossexualidade feminina, em razão dos tabus que a dissimulam. A tal ponto que Marie-Jo Bonnet, uma de suas primeiras historiadoras, quase renunciou à tarefa de estudá-la, tendo encontrado tão somente raros testemunhos literários (como Lélia de George Sand, que causou escândalo ao ser publicado), recorrendo mais tarde à imagem para decifrá-la. As meninas, entretanto, não ignoram a excitação do coração e do corpo, sobretudo nos pensionatos ingleses, mais livres, que foram estudados por Caroll Smith-Rosenberg.

O beijo, Henri de Toulose-Lautrec

Tudo muda por volta de 1900. "Naquele tempo, Safo ressucitou em Paris", escreve Arsêne Houssaye. As "Amazonas de Paris" - Natalie Clifford Barney, Renée Vivien, Colette e muitas outras - reencontram os caminhos de Lesbos e animam, na rive gauche, círculos literários livres e refinados. É o tempo das "raparigas em flor", que atormentam o narrador proustiano.

A guerra separa e fere os casais. Ela autoriza inúmeras descobertas sexuais, não raro dramáticas. Radclyfe Hall evoca esses sofrimentos identitários em The Well of Loneliness (1928). Os "Anos Loucos" marcam, nas grandes capitais europeias, a explosão de uma homossexualidade muito mais alegre e liberada, na qual as lésbicas estão muito presentes. Virgínia Woolf, Violette Trefusis e seus amigos do grupo de Bloomsburry, Gertrude Stein, Romaine Brooks, Adrienne Monnier e Sylvia Beach são as personalidades mais conhecidas. Sabemos que elas se amavam, que tinham prazer em estar juntas, que aliavam gozo e criação. Não muito mais que isso.

Na cama, Henri de Toulose-Lautrec

A expressão de um erotismo feminino, ou mesmo de uma pornografia, é, em suma, um fenômeno recente, que atingiu o romance (Virginie Despentes, Catherine Millet) e principalmente o cinema (Catherine Breillat).

Rosa ou negro, rosa e negro, o continente da sexualidade feminina continua uma terra desconhecida, um universo por explorar.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 67-8.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Sexo e casamento na Idade Média (Parte 2)

Casamento de D. João I e Filipa de Lencastre. Chronique de France et d' Angleterre, Jean Wavrin, século XV

Em terceiro lugar, trata-se de união indissolúvel. Ao contrário dos vários tipos de aliança conjugal na Roma antiga, onde a separação do casal podia ocorrer sem maiores formalidades, o casamento cristão em tese só se desfaz com a morte de uma das partes ("não separe o homem o que Deus uniu", Mateus 19, 6). A Igreja medieval aceitava, no entanto, a anulação do casamento quando ele não era fisicamente consumado por incapacidade de um dos cônjuges. Ou quando ele unira pessoas aparentadas (por sangue ou por afinidade, como padrinhos e madrinhas), o que feria o grande tabu do incesto, já presente no Antigo Testamento e que ganharia peso ainda maior na Idade Média. A literatura expressou esse forte sentimento contrário ao incesto, por exemplo, no relato de Filipe de Beaumanoir, por volta de 1230, La manekine, cuja heroína amputa a própria mão para afastar o desejo proibido de seu pai. Um casamento podia ainda ser desfeito por outros motivos (bigamia, traição feminina etc), dependendo da influência da parte interessada nisso.

Em quarto lugar, o casamento é exogâmico. Na tentativa de dificultar o incesto e de estimular a circulação das riquezas, impedindo sua excessiva concentração em poucas famílias, a Igreja determinou que os noivos não tivessem parentesco abaixo do sétimo grau. De fato, na aristocracia o casamento era um importante negócio, que afetava não apenas as pessoas diretamente envolvidas, mas todo o clã. Se a mulher era a herdeira dos bens patrimoniais de sua família, precisava de um marido para administrar o senhorio e ser responsável pelas relações feudo-vassálicas relativas àquela terra. Se ela não era a herdeira principal, ao se casar (geralmente aos 13 ou 14 anos) entrava para a família do marido e levava um dote que era uma antecipação de sua parte na herança. Na burguesia, muitos empreendimentos comerciais ou artesanais eram ampliados por meio de alianças matrimoniais entre duas famílias. No campesinato, um servo que se casava com mulher de outro senhorio devia determinada taxa por tirar mão de obra de seu senhor.

Qualquer que fosse a categoria social das pessoas, desde fins do século XI ou princípios do XII surgiu o ritual eclesiástico do casamento. Ele tornou-se obrigatório apenas no século XVI, com o Concílio de Trento, porém difundia-se cada vez mais desde a Idade Média Central. Seus componentes já então estavam bastante uniformizados. Sob o pórtico da igreja ocorriam os esponsais, uma troca de juramentos assistida pelo padre. Vinha a seguir o período dos banhos (geralmente de 40 dias), isto é, da publicação da intenção de casamento para que se verificassem eventuais impedimentos.

A cerimônia que selava o casamento dava-se no pórtico da igreja, com os noivos quase sempre vestidos de vermelho, coroados de flores, a moça com os cabelos soltos em sinal de virgindade ou com um véu ligeiro. Novamente se trocavam juramentos - prática presente em todos os aspectos da vida social medieval -, seguia-se a bênção do casal e a troca de anéis. Entrava-se depois na igreja para a bênção nupcial e a missa, a que os esposos assistiam cobertos por um mesmo véu. Iam depois até o altar da Virgem, ao qual ofereciam uma vela e onde, em algumas regiões, a noiva fiava por alguns instantes. Tudo era acompanhado por muitos padrinhos e madrinhas, testemunhos indispensáveis para uma época pouco ou nada acostumada ao registro escrito e oficial de atos importantes da vida social.

Saindo da igreja, os recém-casados e seus parentes iam até o cemitério rezar sobre os túmulos dos antepassados, que não podiam ficar excluídos de uma cerimônia central para a solidariedade familiar e o espírito do clã. Finalmente, os novos esposos iam para casa, onde os amigos jogavam sobre eles punhados de trigo, rito propiciatório que deveria estimular a fertilidade material e física do casal. Começava então a festa. No caso dos nobres, ela era suntuosa. mesmo porque o casamento da filha mais velha de um senhor feudal era um dos quatro momentos em que os vassalos deviam ajudá-la financeiramente. No caso dos burgueses, sempre desejosos de imitar o padrão de vida nobiliárquico, a festa também tendia a ser farta, dependendo, é claro, dos recursos das famílias. No caso dos camponeses, toda a aldeia, inclusive o senhor, participava das bodas.

O reconhecimento social de que aquelas duas pessoas formavam um casal e poderiam manter relações sexuais não lhes dava, porém, liberdade total para tanto. Determinados dias da semana (em especial o sagrado domingo) e certos períodos do ano (festas religiosas, sobretudo a Quaresma) estavam interditados ao sexo. Jean Louis Flandrin calculou que na Alta Idade Média cerca de 180 dias por ano eram liturgicamente proibidos para relações sexuais, sem contar os dias de menstruação, gravidez e amamentação, igualmente de abstinência. A transgressão era punida de forma variável conforme os locais e as épocas. mas a média girava em torno de 20 a 40 dias de penitência, jejum alimentar e/ou continência sexual. Ademais, o sexo deveria ser apenas vaginal, visando à procriação, a mulher colocada debaixo do homem e no escuro, para se evitar a visão da nudez. O sexo oral e sodomita, a magia para atrair o desejo de alguém, as práticas anticoncepcionais e abortivas, as relações incestuosas e adúlteras eram pecados duramente castigados: de seis a 15 anos de jejum e de excomunhão, geralmente acompanhados de interdição perpétua de qualquer relação sexual e de casamento.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 128-130.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Os manicuros de Sakara

A imagem mais antiga de um casal homossexual encontrada no túmulo de dois manicuros da V dinastia: Niankh-Khnum e Khnum-Hotep. Pintura mural numa mastaba de Sakara, datada de cerca de 2450 a.C.

Segundo parece, o incesto não era o único tabu ancestral que se desprezava nos palácios reais de Tebas ou de Mênfis. É provável que certos serviços cortesãos, como o de cabeleireiro, maquilhador ou manicuro fossem exercidos por homens homossexuais (o que explicaria o seu [...] vínculo aos ritos funerários, na delicada função de limpar os cadáveres embalsamados). Em 1964, houve um achado nas ruínas da necrópole de Sakara que contribuiu decisivamente para reforçar esta hipótese. O arqueólogo egípcio Ahmed Moussa dirigia uns trabalhos nas proximidades da pirâmide de Unas, quando descobriu uma série de passagens funerárias escavadas numa encosta escarpada. Informou da descoberta o seu superior, o professor Mounir Basta, que entrou de gatas por uma das estreitas passagens. Quase à beira de desfalecer, foi dar a uma câmara mortuária com um fresco pintado no único muro não desmoronado. A pintura mostrava dois homens jovens olhando-se de perfil, com os narizes a tocar-se, as bocas muito próximas. Um deles apoiava afectuosamente uma mão no ombro do outro, que por sua vez lhe pegava no pulso oposto. O arqueólogo-chefe decidiu chamar "Os irmãos" a tão valiosa descoberta.

Mas, quando reparavam o caminho que levava à pirâmide, os trabalhadores desenterraram uma série de placas murais com inscrições e desenhos de estilo semelhante ao de "Os irmãos". Ao terminar os trabalhos, Basta e Moussa contavam com material suficiente para reconstruir quase por completo o que era uma mastaba, um túmulo em forma de pirâmide truncada. As numerosas pinturas estavam em relativo bom estado e os frisos com hieróglifos quase intactos. Os arqueólogos puderam, assim, concluir que o sepulcro tinha sido construído por volta do ano 2450 a.C., durante a V dinastia, por ordem de um servidor do faraó Niuserré chamado Niankh-Khnum que, conforme explicava uma inscrição por baixo do revelador fresco, era "chefe dos manicuros no palácio real". A construção estava destinada a ser o seu próprio túmulo, repartido com o seu colega e amigo íntimo Khnum-Hotep, que era o outro rapaz que o olhava de perfil. Além disso, a inscrição do frontispício reunia os nomes de ambos em Niankh-Khnum-Hotep, que significa algo como "unidos na vida e na morte".

O professor Basta começou a pensar que talvez se tivesse equivocado ao atribuir o abraço dos jovens ao afecto fraternal. Confirmou a sua suspeita comparando o desenho com as figuras que apareciam no próprio túmulo e com outras da mesma época. Em todas elas, a atitude carinhosa que os manicuros demonstravam correspondia à dos casais unidos pelo casamento, cujos membros eram também os únicos que se olhavam tão próximos um do outro. As figuras masculinas que representavam irmãos ou companheiros nem sequer se tocavam e mantinham o estilo hierático próprio da arte egípcia: o tronco de frente e a cabeça e as pernas de perfil, orientadas no mesmo sentido.

A imagem de Niankh-Khnum e Khnum-Hotep percorreu o mundo como a mais antiga representação artística de um casal homossexual e, desde então, a mastaba de Sakara tem sido visitada por milhares de turistas das mais variadas procedências e tendências.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 27-8.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nas origens dos tabus


"O Tribunal da Inquisição", Pedro Berruguette. Destinada a julgar casos de heresia, a Inquisição foi ativada pelo movimento da Contrarreforma, resposta nos países de tradição católica (principalmente em Portugal e Espanha) às doutrinas expressas pela Reforma Protestante.


Está claro que na Política e na História muitos tabus incidem sobre a origem das instituições que exercem uma autoridade sobre a sociedade, em conveniência ou não com a própria sociedade.

Assim, emana da cristandade um certo número de tabus, e um dos mais antigos e mais duráveis, relativos à autoridade, que foi atribuído ao papado.

De uma parte, o papado auto-rotula sua origem como divina, tendo Jesus Cristo, depois de sua ressurreição, confirmado a Pedro seu encargo de vigário de Deus sobre a Terra, dando assim ao primeiro bispo de Roma uma proeminência sobre os outros papas, título este atribuído, à época, a todos os bispos.

A essa origem foi agregada uma primazia, apoiada na Doação de Constantino, segundo a qual este imperador, quando de sua conversão ao cristianismo, teria conferido ao papa de Roma, Silvestre I (314-335), a primazia sobre os metropolitanos de Jerusalém, Antioquia, Constantinopla e Alexandria, assim como a posse de Roma e da Itália. O papado inserirá esse texto nos Decretos - regulamentos eclesiásticos -, destinados a afirmar os direitos dos papas sobre os soberanos.

Ora, por volta de 1436, ao definir as regras e os métodos da crítica histórica, Lorenzo Valla demonstra que esta doação era falsa. O diagnóstico foi público e Lorenzo Valla viu-se obrigado a buscar refúgio em Nápoles, sob a proteção do rei de Aragão.

Desde essa data, denunciar a ilegitimidade dos poderes atribuídos aos papas é tabu, e o povo cristão não sabe disso; a historiografia laica, ela própria, só evoca esses fatos furtivamente, por ocasião de progressos feitos pelo conhecimento, e da crítica dos textos, na época do Humanismo e do Renascimento.

Por outro lado, esse povo ignora que, segundo pesquisas mais recentes, a famosa doação não foi uma maquinação desonesta comandada pelo papado - como vem acreditando, embora não o diga há cinco séculos -, e sim uma espécie de tratado ou de manifesto redigido em meados do século VIII, que enumerava as vantagens e os direitos já adquiridos pelo papado. O texto tinha certamente uma origem clerical romana, e constituía o relato hagiográfico da figura de Pedro, o magnificente, como o papa Silvestre I, e valorizava a basílica de Latran, dedicada a São Salvador. O todo estava apresentado sob forma jurídica - e sua origem era atribuída ao imperador Constantino, quando na verdade esse texto emanava de um clérigo de nível inferior que queria glorificar sua própria Igreja.

Hoje, o papado é uma força moral e política considerável, e seria levantar um tabu lembrar aos papas de nosso tempo que uma parte de seu poder, ou de sua autoridade, repousa sobre um erro grosseiro.

Uma espécie de tabu reina igualmente sobre as origens míticas do Estado e da realeza na França. Redigidas a partir do século XIII, as Grandes Croniques de France [Grandes crônicas de França] evocam as origens troianas e cristãs do povo francês, recorrendo a dois acontecimentos lendários: a queda de Tróia e a conversão de Clóvis. Por ter demonstrado que os reis de França não descendiam dos príncipes de Tróia, mas que eram herdeiros de simples guerreiros francos a que Roma dava o nome de bárbaros, Nicolas Freret, um erudito, foi encarcerado por Luís XIV na Bastilha: o que prova que este historiador não tinha o senso da História...

Sobre as origens do poder bolchevique, em outubro de 1917, reina igualmente um verdadeiro tabu, que não se refere, na verdade, à base de dados que relatam o levante, mas que não é menos revelador, simultaneamente, do comportamento de Lenin e do comportamento ulterior dos historiadores soviéticos, ou mesmo dos comunistas de outros países.

E onde se aninha esse silêncio opaco?

Ninguém duvida que, considerada globalmente, a insurreição de outubro de 1917 foi um movimento de massa insuflado pelas organizações revolucionárias e por outros soviéticos, majoritários em Petrogrado e na maior parte das grandes cidades russas. Em sua liderança estava, com frequência, o partido bolchevique que, desse modo, colocou fim a uma situação onde um governo sem Estado - Kerensky - deixava uma prova de força para um Estado sem governo - os comitês e os sovietes. Foi a ação de Lenin que levou o partido bolchevique a sustentar o princípio de uma insurreição, da qual aparentemente não tinha necessidade, visto que no II Congresso dos Sovietes seria majoritário; mas esse movimento permitiu prevenir uma ação que poderia impedir a reunião do congresso. Aí é que reside o primeiro silêncio da História tradicional, esse pequeno golpe de Estado cometido por Lenin, que escreveu de próprio punho, sem consultar ninguém, uma proclamação que anunciava, antes do Congresso, a derrubada do governo provisório pelo comitê revolucionário provisório, uma instituição controlada pelo partido que constituía o braço militar do soviete de Petrogrado. Esse comitê não fora minimamente legitimado para substituir o soviete de Petrogrado e, menos ainda, o Congresso dos Sovietes. Sua função era a de "proteger o Congresso", não a de tomar o poder, em seu lugar. Além disso, Lenin, em uma primeira versão manuscrita da proclamação que figura nos arquivos oficiais, havia escrito: "O comitê convoca nesse dia, para as doze horas, o soviete de Petrogrado. Medidas imediatas são necessárias para a constituição de um poder soviético". Em seguida, Lenin rasurou sua frase. Este ato falho é significativo: Lenin desconfia da legalidade revolucionária do soviete de Petrogrado - quer dizer, de Trotski - e do espírito democrático de alguns de seus amigos bolcheviques do soviete, tal como Kamenev [...]. Lenin [...] desautoriza o soviete de Petrogrado e o Congresso que não tem mais nada a homologar. [...]

[...] nenhum historiador soviético, de Trotski a Mints, as comentou. É bem compreensível o incômodo que teriam sentido os edis do regime soviético com o reconhecimento de que o poder atribuído ao partido repousava em parte sobre um erro.

No tempo da cristandade, o exemplo do cemitério de Auvezines, no Tarn, era edificante. Tal exemplo comprova que negar as crenças da fé é um tabu, e que o tabu, nesse caso, se junta ao mito.

Em Auvezines, então, há alguns anos, figurava na porta do cemitério uma placa onde estava escrito: "Em 1211, aqui, foram massacrados 600 cavaleiros teutônicos". Este grande fato, ligado à cruzada dos Albigenses, faz evidentemente alusão à batalha de Montgey, mas o cemitério em questão é minúsculo. Encontra-se ali a síndrome histórica do cerco de Alésia, cujas plantas mostram bem que a praça forte não podia certamente abrigar 80 mil gauleses. Em Auvezines, se o termo "teutônico" faz referência aos exércitos do rei Luís VIII, esta denominação representa bem o abismo que separa os occitânicos dos "bárbaros do norte"; assim o número de mortos revela um desses milagres que contam os relatos sobre as cruzadas: por exemplo, na estrada de Jerusalém, o corpo de Castelnau, morto por numerosos golpes de espada, é reencontrado intacto; na estrada daqueles que vão para Albi, o pão é semeado, também milagrosamente. Desse modo, apenas os homens de Deus não morrem!

Em um país comunista, os crentes também julgam sacrilégio todo questionamento sobre um deus. Uma crença quirguiz, curiosa e irônica, pergunta ao professor de fé inabalável que anunciava aos alunos que o capitalismo iria morrer logo:

- E Lenin, vai morrer também?

O mestre a fuzila com o olhar: a criança havia quebrado um tabu.

O tabu exerce muitas vezes uma função de autodefesa. Sempre, na tradição cristã, essa função aparece na ocasião das guerras religiosas. A História tradicional evocou essas guerras sob essa denominação, omitindo o fato de que na época não eram chamadas assim. [...] Porque a tradição quer fazer crer que os protestantes se sublevaram somente pela liberdade de sua fé, em nome de um princípio sagrado - o da livre leitura da Bíblia - e de uma melhor prática religiosa. Os católicos creditam ao rei a ordem de deflagração da noite de São Bartolomeu - até onde podem provar -, mas não acham que foi verdadeiramente sua responsabilidade e que ele agira sob a influência de sua mãe, uma "estrangeira", italiana, ou de um grupo de fanáticos [...]. Tentam deixar passar a ideia de que, certamente, o rei cometera o gesto que acelerou ou aprofundou o processo dos massacres, mas que, pessoalmente, ele era inocente. E sua defesa, assim, é assegurada.

Esses dois modos de apresentação são ilusórios. Na verdade, embora sem dizê-lo, os protestantes desejavam instaurar uma república à la Calvino: eles não podem admiti-lo porque supostamente se batem pela liberdade da fé. [...] Os protestantes esconderam suas aspirações por trás da exigência de uma pureza religiosa que não era necessariamente o caso deles. No século XVI, o corpo protestante se compõe em geral de pessoas instruídas ou de nobres e, mesmo nessa época, eles não representavam os grupos sociais mais inclinados a querer, de fato, ler a Bíblia textualmente. Até mesmo alguns se manifestaram sinceramente hostis à Igreja por múltiplas razões, entre elas a de que esta não merecia mais ser o guia dos cristãos. [...] E, quanto aos católicos, estes criticavam a monarquia, fingindo defender o rei. Na tradição histórica, eles dizem que o rei não era verdadeiramente culpado das violências cometidas durante essas guerras, mas, na realidade, eles censuravam sim, há algum tempo, a monarquia por não ser mais subordinada à Igreja e ao papado [...]. Existe ainda uma espécie de combinação involuntária entre católicos que glorificam  o rei, enquanto querem diminuir sua autoridade, e protestantes que, em nome de diversas liberdades, sonham com uma república à moda de  Genebra, quando não há regime mais autoritário do que aquele instaurado por Calvino. Eis aí o exemplo de um duplo tabu, sutil, do qual a tradição histórica não se deu conta. É verdade que a plebe, em sua maioria católica, luta em nome da religião.

Ao lado dos tabus de origem cristã ou monárquica, a república segrega igualmente os seus. [...]

A tradição histórica faz da Revolução de 1789 a mãe e a matriz do projeto republicano. Mas omite a existência dessas repúblicas "aristocráticas", como a de Veneza, ou "patrícias", como a de Genebra. E também relega a revolução americana, facilmente definida como uma guerra de independência.

[...]

Na França, a tradição republicana faz do país a encarnação da revolução, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, dos direitos do homem e da civilização no quadro expansionista colonial. [...] Os diferentes países da Europa deveriam, por isso, olhar a França com inveja - e o regime republicano constituiria para os franceses uma espécie de modelo no qual deveriam necessariamente se inspirar os outros povos. [...]

[...]

Diferente por sua formulação, mas exercendo igualmente uma função de exorcismo, também há o tabu da historiografia negra no Caribe anglófono. Não querem saber que o tráfico e a escravatura tiveram por vítimas essencialmente os negros. No livro Our Heritage [Nossa herança], destinado aos estudantes, é lembrado que, na cidade de Alger, no século XVIII, havia escravos brancos e negros, o que é verdade. E que, em algum momento de suas histórias, todos os povos tiveram de ser escravos, o que poderia ser verdade. Mas o que há de mais bonito, enunciado a seguir, é que os ingleses foram, evidentemente, escravos dos romanos, e que de lá vem seu nome: dos anges. E, além disso, a única ilustração do capítulo sobre escravidão mostra duas crianças inglesas sendo levadas por um centurião romano.

Dizer que os negros foram as principais vítimas do tráfico e da escravidão é humilhante, por isso o silêncio, e por isso também é que, na conferência de Durban (2001), que tratava da questão da indenização dos descendentes de africanos vítimas do tráfico nos séculos XVII e XVIII - como foi feito com os judeus no século XX -, houve delegações que se recusaram a comparecer e associar-se a tal reivindicação.

Entre os armênios, o tabu funciona de modo diverso. Sua tradição histórica é polarizada pela ideia de que são um povo mártir. Há trinta anos, eles tomaram o lugar dos judeus, antes que os curdos lhe fizessem concorrência, assim como os bósnios etc. Hoje, quando a ideologia dos direitos do homem tomou conta dos estados-nações, cada povo inventaria os crimes de que foi vítima. Assim, a memória armênia atual faz da história desse povo um longo martírio do qual o "genocídio" de 1915 foi o apogeu. Lembra, no entanto, que os armênios constituíram o primeiro estado cristão da História, antes do Império romano: desse modo, glorificação e martírio fazem dos armênios um povo maravilhoso.

Os historiadores armênios não insistem, entretanto, na surpreendente prosperidade das comunidades armênias nos séculos X e XVIII: Fernand Braudel descreveu-a em seu livro Méditerranée, mas os armênios se recusam a lembrá-la. Mártires, sim; ricos, não. Esses historiadores não gostam de lembrar tampouco que no final do século XIX, com os búlgaros, eles inauguraram a prática do terrorismo, sobretudo contra as instituições do Estado otomano, como o Banco de Istambul. [...]

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Outro tabu dentro do mundo dos comunistas [...], dos anticomunistas do Ocidente e dos anti-semitas é a importância do número de não-russos e de judeus - todos agnósticos, apesar de reconhecidos como judeus - no movimento revolucionário: dos 264 bolcheviques mais notórios, recenseados por Granat em 1920-1924, 119 são alógenos, e perto de um sexto deles é originário do gueto. Mas Zinoniev, Radek, Kamenev ou mesmo o menchevique Martov não são tidos como judeus. [...]

Quanto a Lenin, um tabu reinava sobre as origens de sua família, mas havia uma anedota no fim do regime comunista: "Seus ancestrais? Alemães, judeus, tártaros...". Os três inimigos da Rússia.

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FERRO, Marc. Os tabus da história. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. p. 25-40.