"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 15 de março de 2014

As primeiras populações na Amazônia

Houve na Amazônia uma fase bastante seca, entre 18.000 e 12.000 anos atrás. Por isso, chegou-se a pensar que a mata tinha quase desaparecido, substituída por uma grande extensão de cerrados, no interior da qual teriam resistido "ilhas" florestais. De fato, acredita-se hoje que o recuo das matas tenha sido moderado, embora um "corredor" de vegetação mais aberta talvez tenha existido no meio da hileia, facilitando uma passagem terrestre no sentido norte-sul para os primeiros colonos.

Em todo caso, parece que a mata atual estava estabelecida no início do Holoceno, período durante o qual algumas flutuações climáticas menores, causadas por episódios do tipo El Niño, causaram em vários momentos um déficit em água. Isso determinou ou facilitou a propagação de incêndios catastróficos. Alguns arqueólogos acreditam que eles poderiam justificar êxodos de populações e sua posterior substituição por outros grupos, explicando a sucessão das tradições ceramistas na Amazônia. No entanto, trata-se de uma hipótese ainda não comprovada.

As mais antigas datações vêm de escavações realizadas no abrigo da Pedra Pintada de Monte Alegre, no Pará. Entre 10.000 e 11.200 anos atrás, encontram-se vestígios de uma densa ocupação de caçadores, pescadores e coletores que deixaram instrumentos de pedra lascada: milhares de lascas e várias pontas de dardo bifaciais, bem como lesmas unifaciais, lembrando a Tradição Itaparica do Brasil central. Pigmentos minerais preparados indicam que parte das pinturas rupestres do abrigo pode ter sido elaborada nessa época. Os restos alimentares incluem muitas espécies vegetais, inclusive a castanha-do-pará e numerosos coquinhos.


Pintura rupestre, Pedra Pintada, Pará

Na bacia do rio Guaporé, o abrigo do Sol também forneceu evidências de ocupação até cerca de 12.000 anos atrás, mas os dados sobre elas ainda não foram publicados.

Sabemos pouco sobre os milênios seguintes, por falta de prospecções e escavações sistemáticas. Mas, contrariando uma opinião tradicional de que não haveria indústrias de pedra lascada na Amazônia, as escavações recentes realizadas em Roraima e na região de Manaus mostram que, onde existiam afloramentos de rocha adequados, os homens pré-históricos produziram lascas cortantes, pontas de projétil com aletas e pedúnculo, e lâminas de machado lascadas. Dessa forma, a presença de caçadores está bem-comprovada entre 8.000 e 3.000 anos atrás em várias partes da bacia Amazônica.

Em sítios de coleta de moluscos - modestos sambaquis do baixo Amazonas e do litoral norte-maranhense - aparece uma cerâmica muito antiga, talvez a mais antiga das Américas, datada de pelo menos 5.500 anos, possivelmente 7.000 anos. As condições climáticas não permitiram a preservação dos vegetais nos sítios a céu aberto, e não se sabe quando teve início o cultivo de plantas. Deve ter sido há mais de 4.000 anos, pois nessa data a mandioca apareceu no Peru, muito provavelmente trazida da bacia Amazônica, de onde seria originária. De qualquer forma, foi preciso esperar o início da Era Cristã para que os sítios arqueológicos (reconhecidos sobretudo pela presença em superfície de vestígios cerâmicos) se multiplicassem. A maioria deles foi agrupada em duas grandes tradições, ambas reconhecíveis a partir do século IV ou V da nossa era.

A primeira, cujas mais antigas manifestações encontram-se na ilha de Marajó, é caracterizada por uma cerâmica decorada com padrões pintados complexos. Sendo por isso chamada Tradição Policroma, apresenta uma versão oriental (Subtradição Marajoara); e outra, ocidental (Subtradição Guarita). Esta parece ter-se desenvolvido no sentido leste-oeste, ao longo do rio Amazonas, a partir de sua foz, até alcançar os primeiros contrafortes dos Andes.

A segunda tradição parece oriunda das Guianas e da Venezuela, também no século IV. Ela penetra posteriormente a Amazônia brasileira, seguindo um eixo norte-sul. Chamada Tradição Incisa-Ponteada, em razão de uma decoração típica, inclui as famosas cerâmicas chamadas de Santarém ou dos Tapajós.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. p. 110-2.

NOTA: O texto "As primeiras populações na Amazônia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os habitantes das costas e os sambaquis


Na atualidade, os litorais do sudeste e sul do Brasil, com maior concentração de vestígios, apresenta em suas paisagens costeiras numerosos montões de conchas, restos de cozinha e esqueletos, às vezes com dezenas de metros de altura e centenas de metros de extensão, que sobressaem e chamam a atenção: são os sambaquis. Seu nome deriva de uma expressão tupi, tamba (marisco) e ki (amontoamento) são conhecidos também como concheiros, por serem um acúmulo artificial, humano, de conchas de moluscos, vestígios alimentares de grupos indígenas. Os sambaquis apresentam uma grande quantidade de vestígios pré-históricos e constituem, portanto, uma importante fonte de informações sobre o nosso passado. Por isso, alguns deles foram tombados como patrimônio cultural e são, pelo menos teoricamente, protegidos da destruição por lei federal. Contudo, desde o início da colonização portuguesa muitos sítios desse tipo têm sido destruídos para a obtenção de cal. Essa depredação acentuou-se a partir da década de 1940, em virtude do uso de suas conchas como material para pavimentação de ruas e estradas durante a expansão urbana para litoral, nas praias de veraneio, assim como para outros fins industriais. A motorização crescente do país acelerou o ritmo de destruição dos sambaquis, mas, ainda assim, eles constituem uma presença constante em regiões do litoral, como grandes baías e ao longo dos mangues, como em Iguape e Cananéia, Itanhaém, em São Paulo, nas baías de Guaratuba, Paranaguá (PR) e São Francisco do Sul (SC), na região de Joinville (SC) até mais ao sul, entre Torres e Tramandaí (RS). Também existem sambaquis menores ao sul de Tramandaí, até a região de Montevidéo, no Uruguai.


Oficina lítica na ilha do Francês (Florianópolis - SC)


Acredita-se que os sambaquis sejam bastante antigos, presentes talvez já há 8 mil anos, tendo atingido sua maior difusão entre 5 e 3 mil anos atrás, declinando em seguida e desaparecido com a chegada dos povos jê e tupi à costa.


Como viviam os seus construtores e por que formavam esses imensos montes artificiais? Essas são questões que há muitas décadas têm gerado controvérsia entre os estudiosos. Em parte, isso se deve à falta de publicações e à escassez de pesquisas, que só recentemente tiveram novo impulso a partir de projetos inter-universitários e internacionais dirigidos por pesquisadores do eixo Rio-São Paulo. [...]


Escavação no sambaqui Tamarina (São Francisco do Sul - SC)


Encontraram-se, em sambaquis, estruturas de habitação, culinária, combustão e funerárias, assim como artefatos líticos os mais variados, desde machados e polidores até objetos em forma de animais, chamados de zoólitos, cuja beleza não nos deixa de encantar, milhares de anos depois de sua confecção. Embora fiquemos admirados com sua suavidade plástica, seriam artísticos do ponto de vista daqueles que os fizeram? O grande estudioso francês André Prous, em um livro dedicado a essas representações, considera pouco provável que se possa tratar de obras de arte sem outra finalidade, mas sim com um caráter simbólico. Então, qual seria o simbolismo? O que se queria com essas figuras? Desde o século XIX, considera-se que as representações podem possuir um caráter mágico, religioso, como se a representação de um animal, por exemplo, favorecesse a caça. Algumas figuras, como a de uma cópula de pombas ou amuletos em forma de falos (pênis eretos), parecem confirmar que, ao menos nesses casos, esses objetos tinham uma forte conotação simbólica, propiciatória, ligada à fertilidade e à reprodução ainda que Prous não considere que tampouco isso se possa inferir desses objetos. Prous afirma que poderiam se referir a uma estrutura social ou mesmo ser o sinal da existência de uma hierarquia social... não fosse o fato, lembra o pesquisador, que pouco sabemos sobre como funcionava aquela sociedade!


Zoólito representando dois pássaros acasalados, de sambaqui do Linguado (São Francisco do Sul - SC)


Essas observações levam-nos às hipóteses mais recorrentes sobre as sociedades dos sambaquieiros. Já no século XIX se faziam propostas sobre o tema, quando de um lado estavam os estudiosos majoritários, que consideravam os sambaquis artificiais, feitos pelo homem, e de outro os que defendiam que os sambaquis eram um fenômeno natural. Entre os que aceitavam a ação humana, começaram a surgir teorias que tentavam explicar os concheiros afirmando serem esses acampamentos de inverno de povos que vinham do interior para viver dos recursos marítimos no período frio. No século XX, as discussões sobre o caráter natural ou artificial dos sambaquis tomaram novos caminhos, até prevalecer a noção de que formações de conchas naturais e sambaquis não se confundem. As décadas de 1950 a 1970 testemunharam um número crescente de pesquisas de campo e coleta de dados sobre os sambaquis, preocupados com a descrição dos achados e com a apresentação de propostas de tipologia e cronologia dos sítios. A partir desse ponto, os estudos sobre os restos da fauna e de seres humanos encontrados no local mostraram que a quantidade de dados provenientes de sambaquis poderia servir para conhecer melhor os habitantes da costa.


Inscrição rupestre no Costão do Santinho (Florianópolis - SC) 

Na última década, alguns estudos têm proposto que a ocupação humana do litoral brasileiro deu-se num processo de crescente aumento das hierarquias e da geração de excedentes. Assim, um sistema de subsistência fundado nos recursos marinhos favoreceu a sedentarização, o crescimento populacional e permitiu, com a geração de excedentes, a mobilização da população para a realização de grandes obras como a construção dos sambaquis, grandes monumentos comparáveis, em outro contexto histórico, a pirâmides egípcias. Esses grandes monumentos exigem, para sua construção, um trabalho de equipe, coordenado por lideranças e, por isso, pode-se supor que tenham sido o resultado de uma crescente estratificação e hierarquização social, necessárias para que a população fosse mobilizada. Assim como em outras épocas e lugares, as desigualdades sociais levaram à produção de objetos de arte, como os zoólitos, belas esculturas em pedra ou osso de animais, com grande rebuscamento artístico. Para que se possa ter arte elaborada é necessária a especialização da mão-de-obra, com o surgimento de artesãos especializados, com status diferenciado. Pode-se concluir que uma elite dominava essas sociedades litorâneas e, mesmo sem a agricultura, mostravam uma complexidade notável.


Nem todos concordam com essa interpretação, hoje bastante difundida, sobre os antigos habitantes da costa brasileira.[...]


Ainda há muito que compreender sobre os construtores dos sambaquis e, também por isso, é importante a preservação desses vestígios. Em muitos lugares da atualidade, os sambaquis estão em áreas marginais, como mangues, que atraem populações pobres em ocupações precárias. Raras vezes há uma política de integração desse patrimônio arqueológico à comunidade local, por meio de programas educativos e participativos o contexto de exclusão social, em que a população não tem acesso aos meios mínimos de saúde, educação e lazer, torna a preservação desses sambaquis uma tarefa muito árdua. Além disso, à medida que os concheiros referem-se à população indígena, sempre considerada de forma depreciativa pela cultura dominante, preservar sambaquis parece ser... "programa de índio"! Em outros termos, a destruição dos restos materiais dos antigos ocupantes acaba parecendo "normal" e, até mesmo, "desejável". Para que os sambaquieiros façam sentido para as populações locais, é necessária uma inserção desses bens na comunidade, ao mostrar que a humanidade ali presente não é estranha ou inferior, pois tampouco esses excluídos devem aceitar que sejam despidos de sua humanidade. O resgate dos sambaquis como história de homens como nós passa, necessariamente, pelo reconhecimento da importância de todos os seres humanos.


FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2002. p. 89-93.