"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 3 de março de 2015

O Magreb: As dependências turcas da Argélia e da Tunísia

Escrava nua com tamborim, Frank Buchser

No fim do século XV, por razões análogas às que mais tarde causariam o declínio do Império Otomano, o reino muçulmano do Magreb estava em plena decomposição. [...] Os portos correspondiam a outras tantas Repúblicas organizadas para o corso [...]. Os corsários, soldados da guerra santa contra os cristãos, pilhavam as costas, atacavam os navios, reabasteciam os mouros. Os espanhóis temiam uma coligação entre o Sultão egípcio e os soberanos do Magreb para auxiliar os mouros da Espanha. Os de Granada já haviam sublevado em 1501.

Para suprimir a ameaça que pesava sobre suas comunicações na bacia ocidental do Mediterrâneo, bem como os riscos de desembarque, para garantir a posse das bases necessárias às suas galeras ou a cabotagem que lhes é imposta, os espanhóis lançaram uma cruzada. Sucessivamente, tomaram Mers-el-Quebir (1505), Orã (1509), Bugia (1510), o Penon (Argel) e vários chefes passaram a pagar-lhes tributo. Mas os negócios da Espanha obrigavam-nos a contentar-se com uma ocupação restrita. [...]

Os muçulmanos solicitaram a ajuda de corsários instalados em Djidjeli, os quatro irmãos Barba-Ruiva. Em 1516, Arrudji Barba-Ruiva assenhoreou-se de Argel e encetou a submissão do interior. [...] seu irmão Khair-ed-Din Barba-Ruiva continuou sua obra e fundou a Regência de Argel. Para triunfar dos espanhóis e dos vencidos muçulmanos que procuravam a libertação, prestou homenagem ao sultão Selim [...].

Sufocou uma conspiração dos argelinos e das tribos, tomou Collo, Bona (1522), logo depois o Penon, constituiu em Argel, onde os corsários até então puxavam suas barcas para a areia, um porto que se transformou na principal base dos turcos, cômodo bastante para vigiar e interceptar as rotas do estreito de Gibraltar ao Mediterrâneo oriental, da Espanha do Sul para a Itália meridional e da Sicília. [...]

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 189-90. (História geral das civilizações, v. 10.)

domingo, 1 de março de 2015

O Magreb: A maré dos nômades

Loja de ferreiro em Tânger, Edwin Lord Weeks

Durante os séculos XVI e XVII em todo o Magreb, desde o golfo de Gabes até o Atlântico, espalham-se, ao que parece, os nômades da fé. Foi, certamente, o progresso dos cristãos que provocou esta reação do Islã. Os nômades estariam sendo prejudicados pelo declínio do tráfico das caravanas saarianas, pois os portugueses, e em seguida seus sucessores holandeses, ingleses e franceses, haviam desviado para as costas da África negra o ouro e os escravos. Os nômades são atingidos pelas incursões de pilhagem das guarnições europeias lançadas sobre as costas e, talvez, pelas culturas de cereais destinadas ao comércio com os cristãos. Todo o mal provém dos detestados Rumis. O ódio religioso é atiçado nos centros religiosos dos oásis do sul, longe da corrupção das cidades costeiras, pelos santos marabus secundados por milhares de mouros espanhóis refugiados. E o ódio religioso dirige-se primeiramente contra os citadinos, os sultões e os corsários, cuja prosperidade é uma injúria ao empobrecimento dos nômades e que, em certo sentido, poderiam ser acusados de pactuar com o infiel, pois concordam em entregar os cativos mediante resgate, em comerciar com os cristãos, em lançar mão de seus serviços. Na Argélia e na Tunísia, os nômades fracassam na luta contra a artilharia dos turcos. No Marrocos, periodicamente, uma dinastia do sul apodera-se do governo, sedentariza-o, é forçada, por sua vez, a pactuar com o cristão, resvala pelo harém e é seguida por outra que toma igual caminho.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 188-9. (História geral das civilizações, v. 10).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Piratas, corsários e bucaneiros nos mundos do Mediterrâneo, do Oceano Índico e do Atlântico

Piratas, Max Slevogt

[...] Todos os grandes corpos d’água – o Mediterrâneo, os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico – foram palco de pirataria, que algumas vezes apoiou e em outras desafiou os interesses políticos e econômicos dos Estados, impérios e nações. A pirataria ao redor do mundo revelou a permeabilidade das fronteiras e também o desafio das autoridades.

Abandonado, Howard Pyle

A pirataria pode ser vista como uma forma de comércio, na qual os indivíduos retiram o lucro agindo como intermediários entre os mercadores ou pelo confisco forçado das mercadorias para venda ou troca. A pirataria, em vários lugares, assinalou a existência das fronteiras – zonas de interação – que surgiram quando o controle político enfraqueceu. Fronteiras vulneráveis estavam, frequentemente, nas extremidades ou nos pontos de encontro de grandes políticas. A pirataria fazia parte de um sistema econômico maior; refletia a instabilidade, a desordem e o caos das fronteiras tanto quanto os criava. Às vezes, a pirataria também podia ser patrocinada pelos governantes ou rebeldes que buscavam utilizar os piratas como mercenários, para a obtenção de fins políticos. A pirataria dependia dos olhos de quem a viam e, se algo era pirataria ou comércio, dependia inteiramente da perspectiva do observador. Encontrada no Mediterrâneo, no Oceano Índico, no Atlântico e no Pacífico, a pirataria era uma extensão das experiências dos limites, dos encontros e das fronteiras terrestres.

Ilha dos Piratas, David Cox

[...] a pirataria [...] floresceu nas zonas limítrofes e de fronteira entre culturas. Durante os séculos XVI e XVII, a pirataria atingiu seu auge no Mediterrâneo, onde nem todos os piratas se opuseram ao controle estatal. Os corsários eram piratas licenciados pelo Estado. Sob o pretexto do corso, dois grupos igualmente apoiados, os Corsários Bárbaros e os Cavaleiros da Ordem de São João, agiram como guerreiros em uma extensão da guerra santa entre os turcos otomanos e a Espanha católica. Na verdade, essas duas forças corsárias realizaram um intercâmbio de mercadorias entre muçulmanos e cristãos que, de outra forma, teria sido impossível. Esses piratas estavam tão integrados na economia do Mediterrâneo que o sultão otomano de Constantinopla concordou com seu comércio ao apontar, pela primeira vez, um líder bárbaro ao posto de governador-geral de Argel, em 1518, e mais tarde ao o tornar almirante das frotas otomanas, em 1535.

O retorno dos corsários, Maurice Orange

Da mesma forma que, a colaboração íntima entre piratas e governos no Mediterrâneo, as elites que viviam ao longo da linha costeira do Canal da Mancha deram suporte em longa escala à pirataria durante a Era Elisabetana (nomeada em homenagem à Elisabeth I, aproximadamente 1588-1603). Por todo o século XVI, a gentry britânico ao longo da costa sul obteve lucros rápidos ao comercializar os espólios dos saqueadores locais. Essas condições se adequaram bem às aspirações das monarquias da época: a guerra com a Espanha era a maior preocupação internacional da soberana Tudor, mas travar a guerra era um problema, pois a monarquia ainda era dependente de forças voluntárias. Ao sancionar os piratas e os transformar em corsários – navios cujos capitães, durante o período de guerra, recebiam a autorização governamental para atacar portos e navios inimigos – Elisabeth obteve uma marinha sem custos em uma época em que a monarquia inglesa era incapaz de sustentar-se.

Captura do pirata Barba Negra, 1718. Jean Leon Gerome Ferris

A ambigüidade das identidades piratas e a constante transformação da natureza do ambiente em que a pirataria floresceu ocorreram igualmente no Oceano Índico. No começo do século XVIII, um marinheiro independente, chamado Kanhoji Angre, aliou-se à confederação de Marayha, que havia se formado na resistência ao Império Mughal. Ele também se aliou aos portugueses em Goa, que estavam interessados em desafiar os britânicos e holandeses, aliados dos Mughal. Contudo, Kanhoji atuou como um agente independente, apesar de sua aliança com os portugueses, de quem ele capturou um dos navios. Ele também capturou um navio inglês levando um agente da Companhia das Índias Orientais Britânica, cuja esposa foi mantida em troca de um resgate (Patrícia Risso). Kanhoji e suas contrapartes, no Oceano Índico, agiram de forma muito semelhante aos piratas de outros lugares. Eles eram como agentes com extrema independência, que eram utilizados por forças políticas terrestres quando necessário. Por sua vez, os piratas mudavam de aliados quando lhes convinha e buscavam enriquecer quando e onde fosse possível.

Espanhóis e corsários bárbaros, Cornelis Hendriksz

A hegemonia europeia e a feroz competição durante o século XVIII cruzaram o Atlântico até o Caribe, onde tudo ocorria em um pano de fundo de constante pirataria e corso. Nem toda pirataria é lucrativa. Um dos primeiros piratas a atravessar o Atlântico foi Paulmier de Gonneville, que tomou, de forma bem sucedida, mercadorias dos espanhóis, mas não foi capaz de recuperar os custos de sua expedição. Mercadores e navios tinham de se defender contra os piratas e corsários. O status de corsário também significava que, se eles fossem pegos por um inimigo, teriam os mesmos direitos dos soldados. Se capturados, eles seriam feitos prisioneiros em vez de serem enforcados como criminosos.

Bucaneiro, Howard Pyle

Os criminosos e os bucaneiros, ou servos fugidos escapando de seus contratos de servidão, encontraram segurança da exploração de seus senhores, lucrando ao se tornarem piratas no Caribe. Os bucaneiros começaram como caçadores de gado fugido em Santo Domingo (onde receberam o nome de boucan, um grill de madeira para carne defumada), e logo começaram a combinar a caça com a pirataria. Os bucaneiros atravessaram o Caribe e o Atlântico e atingiram lugares tão distantes quando Madagascar, no Oceano Índico, onde estabeleceram a República Pirata de Libertalia.

Uma ação entre um navio inglês e vassalos dos corsários bárbaros, Willem van de Velde the Younger

Como suas contrapartes das águas da Ásia e do Mediterrâneo, os piratas do Caribe se juntaram ao patrocínio político. Na verdade, foi difícil distinguir o contrabando do comércio legítimo, de tão pouco ortodoxas e inescrupulosas que eram, igualmente, as negociações dos mercadores e dos piratas. O famoso bucaneiro do final do século XVII, Henry Morgan, velejou sob as ordens do governador da Jamaica, uma colônia britânica. Sua última expedição foi uma tentativa de capturar e pilhar a Cidade do Panamá, apesar dos acordos entre a Espanha e a Inglaterra de cessar essas ilegalidades. Mais devastador para a pirataria do que as leis Britânicas de Navegação, que limitaram o comércio aos navios britânicos, foi o terremoto de Port Royal, em 1692, na Jamaica. O terremoto e as ondas altas subseqüentes açoitaram esse centro costeiro de pirataria, conhecido como “a cidade mais perversa da terra”, até ser coberta pelo mar.

Anne Bonny e Mary Read, Benjamin Cole

Como no mundo das águas cantonês, mulheres piratas não foram alto tão incomum nas fronteiras do Caribe. Duas dessas mulheres foram Mary Read e Anne Bonny, trazidas perante o governador da Jamaica, em 1720, e sentenciadas ao enforcamento. As mulheres foram ao mar como passageiras, serventes, esposas, prostitutas, lavadeiras, cozinheiras e, como menos freqüência, como marinheiras. Para evitar controvérsias e usurpar aquilo que era considerado como uma liberdade masculina, as piratas femininas frequentemente se vestiam como homens, utilizando calças e jaquetas masculinas e carregando pistolas ou machados, se não ambos. Read e Bonny também xingavam e diziam palavrões como qualquer homem. Ambas foram criadas em ambientes familiares não convencionais e se sobressaíram em suas presas escolhidas, sendo reconhecidas como líderes em seus navios piratas. Essas “mulheres guerreiras” foram celebradas ao redor do mundo atlântico em cantigas populares, sugerindo que seu impacto foi tanto econômico quanto cultural.


Piratas dividindo seus despojos, Howard Pyle

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 324, 326-328.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Piratas, bandidos nada simpáticos

Sir Francis Drake, o maior corsário da história. Marcus Gheeraerts


Na região do Caribe dos séculos XVI-XVIII, o flibusteiro era um pirata, um irmão da costa, um saqueador dos mares, produto de um conglomerado humano cosmopolita. Voltaire, em seu ensaio “Essai sur les moeurs”, escreve: A França só entrou nessa partilha [de Santo Domingo] com a Espanha pela audácia [...] de um povo novo que o acaso compôs de ingleses, bretões e, sobretudo, normandos. Eles foram denominados bucaneiros, flibusteiros. Esses marinheiros, revoltosos e desertores, seduzidos pelo clima das Antilhas, decidiram expulsar os bandos selvagens da parte norte de Santo Domingo, em vez de voltar às brumas do norte. Eles passaram a comer carne assada em fogo de lenha, cantando ao redor do fogo, e fazendo barulho à maneira dos caribenhos, isto é, fazendo boucan (barulho). No fim da primavera, os flibusteiros do mar das Antilhas caçavam os galeões espanhóis carregados de ouro e prata. A bordo de navios pequenos e rápidos, armados com poucos canhões lançadores de pedras, esperavam suas presas fumando tabaco. De surpresa, faziam a abordagem, geralmente em pares de amigos íntimos, donde veio o nome irmãos da costa. A arma branca era a preferida, a se acreditar na imagem do pirata com a faca entre os dentes. O canhão era supérfluo. Em 1696, um flibusteiro confiou ao padre Labat, um missionário francês que reuniu suas observações sobre a vida dos bucaneiros em Voyage aux îles de l'Amérique, que sua artilharia de seis minúsculos canhões era mais por cerimônia que por necessidade, já que eles só empregavam as duas peças de caça quando combatiam um barco pela frente ou por trás; seus fuzis bastavam para importunar o adversário até que seu capitão julgasse conveniente fazer a abordagem.

A tática do pirata do mar das Antilhas se resumia a uma única palavra: abordagem. O êxito dependia da determinação, ou melhor, da temeridade dos homens do navio. Numerosos, eles manejavam o sabre de abordagem e o punhal. Combatiam aos pares, porque sempre se juntavam em duplas e se chamavam, um ao outro, de matelot [marinheiros], sendo mattenoot aquele que compartilhava alternadamente a mesma rede que seu irmão. Vitoriosos, esses celibatários sem família faziam a festa, embebedavam-se à vontade de rum da Jamaica e partilhavam amigavelmente as mulheres indígenas ou pilhadas.

A pirataria é uma mitologia composta de ganhos espetaculares, de liberdade absoluta em locais insulares e encantadores. Por isso a perenidade da pirataria ou, melhor, das piratarias ao longo das eras, porque cada época engendrou seus candidatos a piratas: marinheiros e revoltosos, clandestinos e renegados, apátridas e flibusteiros, marginais e rebeldes. O fato de o pirata travar uma guerrilha sangrenta era quase ignorado. Embora a literatura celebre a pirataria desde a Antigüidade romana – o pirata é um dos personagens dos romances da época imperial: erigido, muitas vezes, em modelo, uma espécie de Robin Hood do mar, ele era mais facilmente encontrado nos livros de aventura do que na realidade. O pirata era uma pessoa má, um bandido, um marginal associado por razões pouco confessáveis a outros marginais – indisciplina, deserção, motim, crime, assassinato, rapina, a avidez de ganho. Com os outros marginais, formava uma sociedade, cuja hierarquia repousava na força, qualidade reconhecida por todos, por ser a única fonte do butim. Ele era astuto, feroz e carregava a inteligência do mal. Entretanto, essa sociedade, como os bandos e o meio social, possuía regras próprias, disciplina interna, chefe (como Olonnais, Morgan, Grammont) reconhecido por sua coragem, intrepidez e faro. O chefe era temido por sua ferocidade, e respeitado por seu senso de justiça, porque sabia repartir eqüitativamente as presas (Labat). Tudo isso em teoria, naturalmente, porque são numerosos os exemplos discordantes. Foi o que aconteceu depois do saque do Panamá. Os flibusteiros ficaram literalmente a ver navios quando Morgan fugiu com a maior parte do butim. Sem nenhum escrúpulo ou constrangimento, Morgan abandonou seus homens sem víveres e sem navio!

As mulheres faziam parte do butim conforme revela Oexmelin, cirurgião dos flibusteiros, autor de uma Histoire des aventuriers et des boucaniers d'Amérique (1686): Quando dois bucaneiros encontram uma bela mulher, para evitar a disputa decidem quem casará com ela lançando uma moeda. Casará aquele que for favorecido pela sorte, mas seu camarada era recebido na casa: a isso se chamava a matelotage... Outro costume: o sobrevivente dos dois era o herdeiro de fato de seu companheiro. O capitão e seus homens firmavam um contrato ou chasse-partie, no qual tudo era previsto para a duração de uma campanha: cada homem levava seus víveres, suas armas, suas munições. O soldo de cada mercenário saía do butim. Sem butim, sem soldo. O capitão retinha uma parte para amortizar as despesas do navio, além do soldo do carpinteiro (100 a 150 piastras) e do cirurgião (200 a 250 piastras), e recebia até seis vezes a parte de um marinheiro (a piastra era uma antiga moeda de prata, de valor variável de acordo com o país e a época). O imediato tinha direito a duas partes. O marinheiro a apenas uma. O grumete, a meia. Os feridos e estropiados recebiam 600 piastras pelo braço direito; 500 pelo esquerdo ou a perna direita; 400 pela esquerda; 100 por um olho ou um dedo. Ao final da campanha, cada membro da tripulação ganhava a liberdade levando sua parte. Naquele momento, cessava a autoridade do capitão.


O pirata, seja qual for a época considerada, o teatro de operações escolhido ou o butim alcançado, era um bandido voraz. Ele atacava outro navio no mar, se possível ricamente carregado, que pilhava depois de eliminar a tripulação, vencida pela abordagem e morta, porque não havia quartel. Nessa característica, o pirata se parecia com os ladrões de estrada, que assaltavam carruagens e diligências em terra. Em outros casos, o bucaneiro desembarcava numa terra ocupada, transformando, então, a imagem clássica do pirata dos mares em outra, a de bárbaro ou de barba-ruiva. No primeiro caso, trata-se do frisão (natural da Frísia, região que hoje faz parte dos Países Baixos) que arrasava as costas do mar do Norte e do Canal da Mancha; do bárbaro que pilhava as costas do mar Negro e devastava o Egeu; do franco embarcado nas costas do Ponto Euxino (antigo nome do mar Negro) para devastar as da Sicília e da África. O barbaresco, vindo da África do Norte, arrasava os grupos nas costas cristãs da Provença e do Languedoc (na antiga França) ou da península italiana. O flibusteiro das Antilhas evoluiu muitas vezes para esse tipo de pirataria quando, em vez de atacar navios, passou a atacar as ricas cidades hispano-americanas: Vera Cruz e Campeche (no México), Panamá, Cartagena-das-Índias (Colômbia).

Os piratas faziam o reconhecimento da costa na proximidade de um estreito, numa rota marítima freqüentada. Tendo necessidade de uma base logística – água potável, víveres, madeira para lenha e reparos navais, minicanteiro de reparos ou construção –, davam preferência às ilhas. Situadas em encruzilhadas, a ilhas permitiam vigiar as rotas marítimas. Os piratas gostavam de ficar ao largo da Citera antiga (ilha grega do mar Egeu, entre o Peloponeso e Creta, também conhecida como Cérigo), da Sicília, da Sardenha, das Baleares ou da Córsega. Malta, Creta, Tinos foram ninhos de piratas. Os Grimaldi enriqueceram como piratas a partir de seu rochedo em Mônaco. [...]

Em La Tortue, a principal base pirata nas Antilhas durante o século XVIII, os bucaneiros esperavam o navio mercante que passava, isolado ou em comboio, com guarda ou desprotegido, e se lançavam sobre a presa com um navio veloz: hemolia, dos gregos; lemboi, dos bucaneiros da Ilíria (região balcânica próxima ao Adriático), bergatins (escuna de velas quadradas de dois mastros) dos barbarescos, flibots (pequena embarcação com dois mastros, com fundo chato) dos flibusteiros. Na ponta do mastro, um crânio e duas tíbias embranquecidas pelo sol se destacavam sobre um pavilhão negro ondulando ao vento. Todos os navios-piratas se pareciam: lastro leve e velocidade aumentada pelos cascos untados com sebo para diminuir a resistência da água. Pequenas, rápidas, fáceis de manobrar, repletas de homens e munidas de pouca artilharia, essas embarcações precisavam correr os mares para alcançar suas presas, ultrapassá-las e forçá-las a parar. Uma vez pilhado o adversário, era preciso repartir depressa o butim e procurar refúgio em águas inacessíveis para os grandes navios oficiais, no meio de recifes, de rochedos e em locais de grande profundidade.

O pirata era, sobretudo, aquele que perseguia e atacava qualquer navio no mar, sem nenhuma consideração por pavilhão. Para o flibusteiro, não existiam amigos ou aliados. Assim pensava o velho Abraham Duquesne (1570–1635), pirata normando que capturava navios mercantes bretões sob pretexto de serem estrangeiros. Richelieu teve a maior dificuldade de se fazer obedecer por esse mundo tão matizado do mar, tão distante das leis e das regras de terra.

O pirata era um perigo para todos aqueles que cruzavam seu caminho – foram responsáveis pelo nascimento do seguro marítimo –, mas era também um perigo para a civilização, porque se colocava fora da norma. Sem pertencer a um Estado ou a uma estrutura, o pirata era, enfim, o único homem livre das sociedades pré-revolucionárias. Políticos de todos os tempos combateram esses marginais armados, perigosos para os marinheiros, perigosos para os Estados, perigosos para as trocas, para os comércios longínquos e para o grande negócio marítimo. Corinto moveu guerra aos piratas. Pompéia também, assim como Luís XIV, mais tarde, no Mediterrâneo, porque no Atlântico, o Très Chrétien se aliou aos flibusteiros para atacar o rico entreposto espanhol de Cartagena-das-Índias em 1697. Os Estados tiveram, enfim, uma atitude excessivamente ambígua para com os piratas: em época de paz, quiseram erradicar a pirataria e comerciar livremente, assegurando a liberdade dos mares; mas, se viesse a guerra, procuravam seduzir os excelentes soldados que mantinham tal ou qual base de apoio (Santo Domingo ou a Ilha de la Tortue). Essas bases eram, então, cedidas aos piratas e, com isso, a pirataria está na origem de numerosas colônias inglesas e francesas na região do Caribe.

Uma das principais causas do desenvolvimento das frotas de guerra permanentes dos Estados, quaisquer que fossem, foi a eliminação da pirataria. Tucídides fala de expedições atenienses contra ninhos de bucaneiros. Plutarco evoca a luta contra os dolopes (antigos habitantes da Tessália) que se tornaram corsários por falta de recursos agrícolas. Otaviano lutou ferozmente contra os ilirianos em 35 da nossa era. Rodes chegou a criar um tipo de embarcação especial para dar combate aos piratas, a trihemolia, mais rápida que a trirreme (galera grega com três fileiras de remadores sobrepostos), e Luis XIV mandou construir galeotas (pequena galé movida a remos e a vela) com bombas específicas, em 1678, para bombardear Argel e Trípoli. A hansa (associação comercial da Idade Média) jamais se cansou de tentar libertar o mar Báltico e o mar do Norte de toda pirataria desde 1168.

A pirataria não foi, pois, um tema de romance. Foi um caso militar, que exigiu despesas dos Estados para combatê-la. Ela exigia uma resposta: navios, guerras, leis. Todos os litorais, todas as ilhas, foram obrigados a fazer pesados sacrifícios financeiros para construir fortins e torres (na Córsega), para pagar torregiani (os guardas de torres) e organizar milícias. É verdade que a pirataria foi um reflexo da fraqueza dos Estados, mas também pôde se tornar – fato menos conhecido – pirataria de Estado. Foi assentada na pirataria que a Inglaterra dos Tudor fundou seu poderio, a partir do século XVI, atacando os ricos galeões espanhóis nas costas americanas. Foi atacando navios franceses, em plena paz, que os ingleses asseguraram a vitória na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), privando a armada francesa dos marinheiros capturados em mais de 250 navios mercantes desde 1755. Entre 1740 e 1744, franceses e ingleses já haviam começado as hostilidades. Antes da guerra, portanto, que foi declarada apenas em 15 de março de 1744. Feito prisioneiro nessas condições, em 11 de novembro de 1755, no golfo da Gasconha, o visconde Joubert de Bouville, bisneto de Demarets e da irmã de Colbert, recusou-se a ser libertado pelos ingleses na qualidade de prisioneiro de guerra, e preferiu pagar seu resgate!

A pirataria é um tema difícil, tratado muitas vezes como mera epopéia caribenha. O pirata viril e bronzeado, de camisa rasgada, olho de vidro e perna de pau, com o sabre de abordagem na mão, de pé diante dos cofres de ouro e pedrarias, é quase inteiramente uma imagem de Epinal.

A pirataria não tem idade de ouro, nem idade simplesmente: é um fenômeno inscrito nos tempos. Se os habitantes da Etólia, na Grécia antiga, fizeram dela um instrumento de política exterior, chegando a firmar tratados de garantias contra suas próprias ações mediante indenizações com suas futuras presas, a pirataria existe ainda hoje. Está presente nos mares da China, e a espoliação fraudulenta de companhias de seguro continua sendo praticada sob o nome de “barataria”, um tipo de pirataria, pois a carga é roubada, o navio destruído, rebatizado ou escamoteado, e o prêmio do seguro recebido!

Todo aquele que acumulasse muitas capturas e butins tornava-se herói rapidamente aos olhos de seus camaradas; aos olhos das pessoas honestas, um terror. Desses heróis aterrorizantes, as fontes medievais conservaram os nomes, ou melhor, as façanhas: Henri le Pêcheur, conde de Malta em 1218; Benedetto Zaccaria, pirata, comerciante e, depois, almirante genovês; Roger de Lauria, pirata aragonês que saqueou o litoral do Languedoc à Sicília no século XIII; Roger de Flor, templário catalão, almirante da Sicília, que devastou o Egeu no século XIV.

A época moderna, dos séculos XVI a XVIII atlânticos, não teve, porém, o monopólio da pirataria. O pirata das plagas caribenhas do período elisabetano ou colbertiano não era um homem novo: era herdeiro de uma multidão de aventureiros, produto dos invasores de antanho, porque toda invasão (normanda, saxônia ou sarracena) já fora uma empresa de pirataria. Como ocorrera antes, a época moderna procurou se defender do pirata, fosse armando com canhões seus navios mercantes, fosse escoltando-os com navios de guerra. Por conta dos piratas, o direito internacional foi endurecido, e todo capitão que conseguisse capturar corsários no mar tinha o direito de enforcá-los no ato, na verga mais alta do navio apresado. Mas quando as nações se tornaram piratas, como a Inglaterra de Elizabeth I, os sucessos obtidos sobre os galeões espanhóis pelos Drakes e Raleighs foram tais que já não se podia limitar a pirataria à noção de empresa privada.

A pirataria de Estado caracterizou a Inglaterra dos Tudor, que associava capitais públicos a capitais privados para apresar sua parte dos metais preciosos na rota transatlântica do império espanhol.

Entre 1560 e 1620, da morte de Maria Tudor (1558) à de Elisabeth (1603), essa pirataria conheceu um de seus períodos de glória e de lucro. Nos anos 1550-1570, franceses e, sobretudo, ingleses se atiraram sobre o comércio espanhol, prejudicando suas rotas e limitando seus lucros, mas a porcentagem de perdas resultantes disso não foi comparável às causadas pelas tempestades. O impacto foi mais psicológico do que econômico, ainda que Dürer tenha se demorado em Anvers apreciando os tesouros saqueados por franceses de um navio espanhol que transportava uma parte dos tesouros do imperador asteca Montezuma.

Como essa pirataria parecia mais lucrativa do que na realidade, as grandes potências não pararam de engajar esses guerreiros dos mares para transforma-los em corsários. Foi o caso dos marinheiros de Dieppe, de La Rochelle, de Saint Malo, mas também de Argel, de Túnis, de Trípoli, de Salé, pilares de regências magrebinas. São comuns as objeções, injustas, aos marinheiros, e a sua classificação arbitrária em três categorias: os piratas, os corsários, os oficiais de marinha. Nada é mais falso: o pirata era certamente um bandido, mas tão logo o rei reconhecia suas competências, o admitia ao seu serviço, concedia-lhe autorização para perseguir o inimigo – eis, então, o nosso pirata transformado em corsário. Se o antigo bandido usando o mesmo sabre de abordagem obtivesse êxito em sua nova carreira de corsário, era promovido a capitão dos navios do rei, como Abraham Duquesne, o Velho, pirata temível, corsário talentoso e, depois, respeitável oficial de Luis XIII! Ao longo da vida, Ducasse, nascido huguenote, pôde ser o chefe dos flibusteiros de La Tortue, tenente-general das armadas navais e o velho calvinista que morreu condecorado com o Tosão de Ouro pelo Rei Católico! Ducasse é o exemplo típico do flibusteiro oficial-general. Graças ao dinheiro cobiçado, apresado e confiscado na região do Caribe, ele pôde dar um dote de 400 mil libras a sua filha única, e fazer dela a duquesa de La Rochefoucauld! Esplêndida promoção conseguida com o aporte fornecido pelos 1.600 flibusteiros de Santo Domingo, apanhados de passagem pelo barão de Pointis, em 1697, em sua excursão para saquear Cartagena-das-Índias. Os flibusteiros participaram da campanha navegando ao lado da frota do rei. Ali, além de nove milhões em prata ou em barra, o que foi tomado em pedrarias e prataria é inconcebível, escreveu Saint-Simon. Cartagena-das-Índias era o entreposto mais rico de toda a América Latina.

Os piratas formavam uma sociedade cosmopolita. Vindos da Holanda, da Zelândia, da Frísia, de Flessingue, de Dunkerque, de Honfleur, de Saint-Malo, do País Basco, da Provença ou da Bretanha, se associaram por toda parte em barbarescos, tratantes do mar, flibusteiros da região antilhana, irmãos da costa, piratas de Formosa sob as ordens do rei Koxinga, estabelecido na ilha em 1661. Piratas, eram também contrabandistas, porque era preciso escoar as cargas capturadas, no mais das vezes bens comestíveis, madeira, conservas salgadas, peixe seco – mais do que pérolas, esmeraldas e rubis. É fato que no meio do triângulo das Bermudas, as “ilhas do tesouro” fascinavam, as minas de cobre de Cartier foram tomadas por minas de ouro, a mica por diamantes, e a Louisiana de Law (John Law foi o criador da Companhia Francesa das Índias) prometia rochedos de diamantes, mas a realidade foi bem outra. A pirataria se transformou, muitas vezes, num comércio na ponta da lança (isto é, em contrabando) que se fazia com as colônias ibéricas da América do Sul e Central. Daí a sedentarização dos piratas, o que contribuiu para o povoamento das Antilhas.

As nações civilizadas acabaram sendo mais ladras que os piratas. Em 1697, os flibusteiros tiveram uma grande discussão com Pointis exigindo seu quinhão, cuja maior parte pretendiam contrabandear. Percebendo que o barão, oficial-general de Luís XIV, zombava deles, retornaram a Cartagena, pilharam-na de novo, e fizeram um rico butim, encontrando muita prata, diz ainda Saint-Simon.

A pirataria desapareceu da região do Caribe ao fim da Regência, devido à onipresença da armada real. Os flibusteiros abandonaram esse ofício que se tornara perigoso demais, para investir, graças a seus butins, nas vastas propriedades dedicadas à grande plantação açucareira.

Michel Vergé-Franceschi é professor de História Moderna da Universidade de Savóia e publicou grande número de obras, entre as quais Histoire de Toulon, PortRoyal. Ele dirigiu o Dictionnaire d'Histoire Maritime e é laureado pela Academia Francesa e pela Academia da Marinha. In: Revista História Viva.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os grandes descobrimentos geográficos

O "Theatrum Orbis Terrarum" ("Teatro do Globo Terrestre") de Abraham Ortelius, publicado em 1570 em Antuérpia

"Já não tínhamos mais nem pão para comer, mas apenas polvo impregnado de morcegos, que tinham lhe devorado toda a substância, e que tinha um fedor insuportável por estar empapado em urina de rato. A água que nos víamos forçados a tomar era igualmente pútrida e fedorenta. Para não morrer de fome, chegamos ao ponto crítico de comer pedaços de couro com que se havia coberto no mastro maior, para impedir que a madeira roçasse as cordas. Este couro, sempre ao sol, à água e ao vento, estava tão duro que tínhamos que deixá-lo de molho no mar durante quatro ou cinco dias para amolecer um pouco. Frequentemente nossa alimentação ficou reduzida à serragem de madeira como única comida, posto que até os ratos, tão repugnantes ao homem, chegaram a ser um manjar tão caro, que se pagava meio ducado por cada um. [...] PIGAFETTA, Antonio. Diário da expedição de Fernão de Magalhães, 1512-1522. (Relato das dificuldades enfrentadas pelos navegantes europeus durante as viagens marítimas)

Disputa entre cosmógrafos (Alegoria ao Novo Mundo), José Antônio da Cunha Couto

Após as crises do século XIV e a nova estrutura do Estado Moderno, a Europa do século XV sentiu crescente necessidade de capitais para ampliar seu comércio que enfrentava sérias dificuldades. Em razão do monopólio comercial exercido pelos turcos no Oriente, pelos árabes na África e pelos venezianos no Mediterrâneo, haviam-se tornado muito caras as mercadorias africanas e asiáticas: perfume, sedas, tapetes, pedras preciosas, marfim e, sobretudo, as especiarias, largamente usadas para conservação e tempero de alimentos e no preparo de remédios.

Decididos a vencer essas dificuldades, a burguesia europeia e o Estado Moderno deram início à expansão marítima ao longo de rotas ainda não exploradas.

Nau de Pedro Álvares Cabral

"Alguns temores europeus em relação a mares e terras desconhecidos tinham bases reais, como as dificuldades de orientação e o desconhecimento das correntes marítimas. Mas havia os produtos da imaginação, criados e/ou fomentados pela mística religiosa em relação ao Mar Tenebroso - o Atlântico. Dizia-se que, quando se chegasse ao fim do mar, também se alcançaria o fim do mundo; falava-se de monstros marinhos que habitavam as regiões ao sul do equador e de povos estranhos, dispostos a massacrar os incautos que se aventurassem em suas terras. Mas nem tudo era assustador. Também se aventurava a possibilidade de reencontrar o paraíso, o Éden bíblico ou, o que até seria melhor, o El Dorado, um lugar todo feito de ouro." (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 260)

Livro das Maravilhas. Entre 1420 e 1422. Autor desconhecido


* As viagens portuguesas. Portugal, após ter firmado sua independência e se estruturado como Estado Moderno, não tendo como expandir-se por terra, voltou-se para a navegação do Atlântico, estimulado pela própria casa real de Avis, na qual se destacou o Infante Dom Henrique, filho de D. João I. Cercando-se de astrônomos, pilotos, construtores de navios, coletando obras sobre viagens e navegação, D. Henrique fundou em Sagres um grande centro de estudos e pesquisas náuticas.


Descoberta do Brasil, Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo

Durante o reinado de D. João I iniciou-se a expansão portuguesa visando alcançar a Ásia contornando a África; atingiram gradativamente pontos geográficos que se transformaram em importantes escalas marítimas:

1415 - Ceuta
1420 - Ilha da Madeira
1434 - Cabo Bojador
1441 - Cabo Branco
1446 - Cabo Verde
1456 - Golfo da Guiné

A morte do Infante D. Henrique (1460) e dificuldades técnicas para a navegação no hemisfério sul, sobretudo as calmarias da zona equatorial, sustaram por 30 anos o périplo africano, que só foi retomado no fim do século XV:

1485 - Estuário do Congo
1487 - Bartolomeu Dias atinge e ultrapassa o Cabo das Tormentas (depois Cabo da Boa Esperança)
1498 - Vasco da Gama chega a Calicute (Índia)
1500 - Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil; segue para a Índia onde impõe a soberania portuguesa
1502/1503 - Vasco da Gama impõe a soberania portuguesa na costa do Malabar
1507 - Ceilão
1511 - Málaca
1516 - China (Cantão)
1520 - China (Pequim)
1530 - Portugal obtém a concessão de Macau (China)
1542 - Japão

A chegada de Vasco da Gama a Calicute, Alfredo Roque Gameiro

Outro mundo encoberto
vimos então descobrir,
que se tenha por incerto:
pasma homem de ouvir
o que sabe muito certo.
que coisas tão grandes são
os da Índia e Iucatão,
e quão na China espantosas,
que façanhas façanhosas
no Brasil e Peru vão?
(Garcia de Rezende, Miscelânea e variedade..., 50)

A penetração de Portugal no Oriente foi conseguida através de lutas contra os árabes, senhores até então do comércio no oceano Índico. A expulsão dos árabes e acordos com chefes locais permitiram a Portugal dominar o comércio do Extremo Oriente por meio do estabelecimento de feitorias. Em 1512 Afonso de Albuquerque ampliou a conquista das Índias.

Lisboa, nas três primeiras décadas do século XVI, tornou-se uma das mais ricas e movimentadas praças do mundo. Para lá convergiam todos os produtos orientais, podendo ser obtidos por preços até cinco vezes menores do que o preço das mesmas mercadorias trazidas por Veneza através do Mediterrâneo: prata, do Japão; sedas, porcelanas, lacas, cânfora, essências aromáticas, da China; ouro, pedras preciosas, especiarias, das ilhas da Indonésia e da Índia; seda, pérolas, prata, perfumes, tapetes, coral, café, do Golfo Pérsico e da Arábia; ouro, marfim, âmbar, ébano, escravos, da África.

* As viagens espanholas. Antes da unificação das terras espanholas, o reino de Aragão lançou-se à conquista de vários pontos de apoio no Mediterrâneo, que lhe permitisse participar do comércio europeu:

séc. XIII - Ilhas Baleares, Ilha da Sicília
séc. XIV - Ilha da Sardenha
séc. XV - Nápoles

Em 1492 os reis espanhóis Fernando e Isabel apoiaram o projeto do navegador genovês Cristóvão Colombo, que tencionava atingir a Ásia navegando pelo Atlântico rumo a ocidente. Partindo, com três caravelas (Pinta, Niña, Santa Maria), do porto espanhol de Palos (agosto de 1492), Colombo aportou dois meses depois (12.10) em uma ilha do Mar das Antilhas. Contornou em seguida as atuais ilhas de Cuba e de São Domingos (por ele batizada La Espaniola) e retornou à Espanha certo de ter encontrado as Índias, razão pela qual deu a seus habitantes a denominação de índios.

Colombo e a índia virgem, Constantino Brumidi

Os reis espanhóis apressaram-se em garantir a posse das terras recém-descobertas, temendo a expansão marítima portuguesa. Conseguiram do papa espanhol Alexandre VI a bula Inter Coetera (1493) que assegurava a Castela o domínio exclusivo das terras situadas a oeste de um meridiano imaginário traçado a 100 léguas a ocidente dos arquipélagos de Cabo Verde e dos Açores. Em virtude dos protestos de Portugal que, através de bulas anteriores, havia obtido garantias de posse das terras por ele ocupadas, em 1494 Espanha e Portugal assinaram o conhecido Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo em dois hemisférios por meio de outro meridiano imaginário, desta vez traçado a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. O hemisfério do Ocidente tocava à Espanha, o do Oriente a Portugal.

Página do Tratado de Tordesilhas

As viagens de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama e de Cristóvão Colombo despertaram a curiosidade dos europeus, levando-os a explorações posteriores. Um dos primeiros a afirmar que as novas terras ao oeste não faziam parte da Ásia foi Américo Vespucci, navegador florentino, a serviço ora de Portugal ora de Castela, onde se tornou Almirante, que, empreendendo quatro viagens (1497-1503), explorou a costa leste da América do Sul. Foi em sua homenagem que o novo continente se chamou América.


Representação alegórica que mostra o navegador florentino Américo Vespúcio "despertando" a América de seu "sono", aqui representada por uma índia tupinambá. Ao fundo, uma cena de antropofagia frequente nas imagens que os europeus faziam do Novo Mundo. Vespúcio esteve no Brasil duas vezes, entre 1501 e 1504. A gravura é de Theodor Galle (1589).

As explorações dos espanhóis continuaram sucedendo-se:

1510 - Vasco de Balboa funda, no Istmo do Panamá, o primeiro núcleo espanhol.
1513 - Juan Ponce de León explora a península da Flórida.
1519 a 1522 - Fernando de Magalhães, navegador português a serviço da coroa espanhola, efetua a primeira viagem de circunavegação da terra. Partindo de Sevilha contorna a Patagônia e, pelo estreito que hoje leva seu nome, chega ao Oceano Pacífico. Apesar da morte de Magalhães em viagem, a expedição alcança seu objetivo, o de atingir a Ásia pelo Ocidente, retornando a Sevilha através da rota do Cabo da Boa Esperança.
1521 - Fernando Cortés subjuga os povos astecas e maias que habitavam o atual México.
1535 - Francisco Pizarro conquista o atual Peru, dominando seus habitantes, os quechuas.
1539 a 1542 - Hernando de Soto explora o sudeste do atual território dos Estados Unidos da América, próximo às terras do rio Mississipi.
1540 - Francisco de Coronado explora o sudoeste dos Estados Unidos atuais, descobre o Grand Canyon. Maravilha-se com as manadas de búfalos que percorrem as planícies.
1542 - Ruy Lopes de Villalobos estabelece o primeiro núcleo espanhol do Oriente, nas ilhas Filipinas.

Mapa da cidade asteca de Tenochtitlán e do Golfo do México, feito por um membro da expedição de Cortés, 1524

* As viagens inglesas e francesas. A partilha do globo entre espanhóis e portugueses, estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, não foi aceita pela França e pela Inglaterra, que também se lançaram a explorações marítimas em busca do caminho para as Índias pelo ocidente. Como as expedições portuguesas e espanholas se dirigiam predominantemente para as regiões do sul do continente americano, franceses e ingleses concentraram-se nas regiões norte da América, procurando sem cessar uma passagem setentrional para a Ásia, a passagem do noroeste; a busca não teve êxito, mas permitiu importante ocupação de terras.

"[...] Os reis Francisco I, da França, e Elizabeth I, da Inglaterra, concediam cartas de corso aos súditos e a navegadores que se dispusessem a realizar viagens formalmente, por conta própria, mas, de fato, a serviço dos monarcas.

Os corsários agiam como os piratas: atacavam as frotas e os portos ibéricos, assaltando-os e saqueando-os, desrespeitavam a proibição de percorrer as águas navegáveis e de alcançar as terras descobertas ou a descobrir, de um e de outro lado do meridiano de Tordesilhas. Os monarcas que os protegiam, sem se comprometer legalmente, partilhavam dos lucros obtidos." (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 263)

1497 - Giovanni Caboto, navegador italiano a serviço da Inglaterra,  aporta em regiões do atual Canadá, reivindicando-as para a coroa inglesa.
1524 - Giovanni de Verazzano, italiano a serviço da França, explora a costa leste dos territórios norte-americanos desde a Carolina do Norte até a Terranova.
1534 - Jacques Cartier, explorador francês, sobe o rio São Lourenço, no atual Canadá, reivindicando para a França a posse da região.
1577 - Sir Francis Drake, navegador inglês, combina objetivos de exploração com atos de pirataria. Atravessa o Estreito de Magalhães, costeia o continente sul-americano pelo Pacífico, atacando navios espanhóis carregados de metais preciosos. Atinge as costas da atual Califórnia, possivelmente chegando, mais ao norte, até a ilha de Vancouver.
1609 - Henry Hudson, inglês, a serviço dos holandeses, descobre o rio e canal que levam seu nome. Passando a serviço dos ingleses explora toda a área da Baía de Hudson.

Após essas grandes viagens de descobrimentos as nações europeias principiaram a consolidar suas posições nos territórios por elas reivindicados. Teve início uma fase de rivalidades entre os vários países à medida que estes foram fundando núcleos colonizadores, explorando recursos naturais, comerciando produtos das novas terras. As rivalidades eram também motivadas pelas reivindicações vagas e imprecisas, pois os territórios eram extensos e ainda pouco e mal conhecidos.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 174-177.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 260 e 263.