"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Hábitos e costumes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hábitos e costumes. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de agosto de 2016

O corpo sedento: as bebidas na América pré-colombiana

Festa de beber dos coroados, E. Meyer

Na Europa, as bebidas mais valorizadas foram as fermentadas, consideradas desde a Antiguidade até a época moderna como superiores à água pura, uma vez que esta poderia estar contaminada, e os vinhos ou as cervejas tinham a capacidade de purificá-las, combatendo alguns dos micróbios transmissores de doenças. Além disso, a fermentação sempre foi vista como um processo mágico, um cozimento sem fogo, que produz calor, gases, efervescência, borbulhas. Por isso, certas civilizações, especialmente entre os ameríndios, relacionam-na ao sêmen humano e à formação da própria humanidade, constituindo, assim, o alimento cultural por excelência. [...]

No caso dos indígenas do Brasil, havia diversas substâncias essenciais, entre as quais o tabaco, os rapés alucinógenos (paricá e yopo), as bebidas enteogênicas, como a ayahuasca, mas, antes de tudo, por sua difusão extremamente ampla, os diversos líquidos fermentados (pouquíssimos foram os grupos indígenas amazônicos ou litorâneos que desconheceram-nas, diferentemente dos norte-americanos ou do extremo sul patagônico).

Um grande cientista brasileiro das drogas e bebidas, o pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima, cujo reconhecimento de suas contribuições originais ainda é insuficiente, estudou profundamente todos esses processos de fermentação tanto no Brasil como em outros países, especialmente o México. Escreveu, assim, os trabalhos pioneiros da etnozimologia (estudo das fermentações tradicionais), dando conta das formas antigas e contemporâneas de produção dessas bebidas como resultado da ação de bactérias e leveduras.

No nível mais simples, encontramos os bebedores de seivas de palmeiras, muitas vezes por meio de um buraco diretamente no tronco, em que, em poucas horas, o líquido leitoso e doce fermenta, podendo ser absorvido da própria planta (tal como faziam os guatós, do Pantanal). O mel também servia para essa finalidade, misturado com a cera em água, produzindo um hidromel de fraco teor alcoólico, especialmente utilizado pelos tapuias do sertão, assim como por outros hábeis colhedores de colmeias, como os kaingang do sul.

A fermentação por “salivação e esputo”, ou seja, por mascagem da mandioca, feita em geral por mulheres, é um dos métodos mais conhecidos, mas também se produzem bebidas alcoólicas por meio da fermentação de beijus, como é o caso do pajauaru, especialmente na região do Rio Negro. Nessa técnica, a mandioca é mergulhada por alguns dias na água e lama de um riacho e se torna “puba”, um pouco apodrecida, tornando assim mais fácil a amilase, ou seja, a quebra dos amidos.

Entre os índios brasileiros, o principal fermentado era o cauim. Assim eram chamados nas regiões litorâneas habitadas pelos tupinambás todos os sucos da mandioca e das frutas doces e generosas, como o ananás e o caju, mas também o cacau, a mangaba, a jabuticaba, entre tantas outras. Outro método era de frutas liquefeitas e trituradas com água que fermentavam e precisavam ser rapidamente consumidas antes de se estragar. Fossem fabricadas com mandioca, milho ou frutas, alcançavam um teor alcoólico máximo de 7%, no caso do abacaxi (o mais rico em açúcares), variando de acordo com o teor de açúcares do produto usado, o que é a característica geral de todos os fermentados.

Índios preparando e consumindo o cauim, detalhe da "America" de Jodocus Hondius, ca. 1606


Outros métodos também desenvolvidos, além da insalivação, eram o da fabricação de beijus, que, deixados embolorar, ficavam sacarificados pela ação do mofo e depois, misturados à água, fermentavam, constituindo o caxiri (especialmente nas regiões do Rio Negro, influenciadas pela cultura aruaque), o mucururú, a caiçuma e o pajauaru, ou então a massa da farinha de mandioca ou milho era envolta em folhas de bananeira (a técnica da moqueca ou da pamonha brasileira ou, ainda, da huminta andina) e também deixada embolorar para depois ser transformada em uma bebida fermentada, tal como o masato amazônico.

Essa busca, em todos os produtos da natureza, de matérias-primas transformáveis em bebidas fermentadas, foi uma das características mais amplamente difundida entre os indígenas americanos que, com exceção daqueles dos extremos sul e norte, fabricaram em quase todas as regiões licores alcoólicos, cuja denominação mais geral, além de cauim, foi, a partir das regiões da colonização espanhola, chicha. O mais provável é que o termo seja caribenho, como registrou no século XVI o cronista Gonzalo Fernandez Oviedo. Passou a designar os diversos fermentados americanos, o mais comum sendo o de milho germinado (maltado), mas podendo ser feito também de mandioca, batatas, pinhões, cogumelos e todos os tipos de frutas. Essa propensão a também fazer de todos os produtos comestíveis fontes para a fabricação de bebidas não escapou aos olhos dos primeiros europeus. O próprio Colombo, ao chegar na Ilha de La Hispaniola (atual República Dominicana e Haiti), registrou que “do que fazem pão, fazem vinho”.

No processo de colonização ocorreu uma contaminação dos brancos, africanos e mestiços pelos rituais idolátricos indígenas, em que o consumo sagrado do cauim, do pulque ou da chicha muitas vezes é acompanhado de outras substâncias psicoativas ainda mais fortes, mais desconhecidas e mais inquietantes. Isso tornou-se um pesadelo para as autoridades eclesiásticas, que desencadearam, com seus aparelhos policiais inquisitoriais, inúmeras campanhas de “extirpação de idolatrias” em que o alvo era sempre a embriaguez, especialmente no Peru no século XVII, quando as festas (taquis) e bebidas (chicha) dos índios eram perseguidas como depositárias de antigas tradições sobreviventes que deveriam, para a boa cristianização, ser completamente extintas.

Sempre há embriaguez em seus pecados, diziam dos indígenas as autoridades eclesiásticas. Por isso, buscavam proibir suas festas, rituais e cerimônias em geral e, especialmente, as que eram alimentadas pelo calor dessas poções de ebriedade. A embriaguez indígena passou a ser vista por quase todos os cronistas europeus como a causa principal da idolatria. O padre jesuíta José de Acosta, por exemplo, afirmará, em relação ao Peru, que tal não só é um pecado, como também é a causa principal de todos os outros.

Essa embriaguez descontrolada que atingiu os indígenas americanos, livres dos antigos controles tradicionais, abrangeu ainda os colonizadores europeus, assim como os escravos trazidos da África, que já possuíam o domínio das técnicas da fermentação, produzindo o pombe, cerveja de sorgo, assim como os diversos vinhos da seiva de palmeira, chamados de malafo, mas só tomaram contato com o vinho de uvas e sobretudo com os destilados, a partir do contato com os europeus.

O colapso das grandes civilizações ameríndias se deveu, em grande parte, ao choque biológico com as novas doenças europeias, além da desarticulação dos sistemas sociais existentes. No entanto, contemporâneos dessa que talvez tenha sido a mais grave hecatombe demográfica conhecida (morte de cerca de 90% da população original), buscaram outras explicações para o enorme despovoamento. Generalizada em toda a América pelos colonizadores europeus, uma delas culpava os supostos maus hábitos indígenas por essa catástrofe. No Peru, o padre Lizárraga afirmava que o alcoolismo e a sodomia foram as causas da despovoação das Índias. O demônio teria estabelecido seu império sobre aquela gente e todas as suas crenças e devoções foram identificadas a ele pelos missionários. O próprio conhecimento das plantas inebriantes teria sido transmitido pelo demônio aos povos originários, enquanto as consideradas puramente medicinais teriam outra fonte de saber.

Os usos de bebidas fermentadas e outras drogas foram objeto de grandes discussões teológicas entre vários autores durante o século XVI, com o dominicano Bartolomé de Las Casas defendendo os indígenas e sendo tolerante com suas formas de embriaguez e até com suas “superstições”, enquanto outros teólogos, que predominariam, viam em suas festas, bebedeiras, adivinhações e cultos de lugares, plantas, animais e coisas manifestações demoníacas que deveriam ser extirpadas. [...]

O uso em si das bebidas não era condenado, pois os europeus também o faziam, mas sim a busca deliberada dos “transtornos que afetam a mente”, dos efeitos psicoativos das diversas manifestações e formas das ebriedades, consideradas todas, fossem de bebidas fermentadas, fossem de tabaco, de coca ou de ololiuqui como “borrachez”, sendo assim censuradas como embriaguez no sentido geral de alteração voluntária do estado mental, que era exatamente a marca mais característica das formas de beber indígenas, intensas e extremadas. A perseguição à embriaguez buscada de forma deliberada e sistemática, em rituais de convívio, com significados de devoção e hospitalidade, foi uma das grandes obsessões dos colonizadores das Américas.

No âmbito do mundo luso-brasileiro, João Azevedo Fernandes reuniu boa parte das evidências existentes nas fontes primárias a respeito da perseguição implacável dos colonizadores, especialmente os clérigos, para com os ritos da cauinagem, vistos como a verdadeira religião sem templo dos aborígenes. O antigo “regime etílico” indígena, regrado, ritualizado e servindo de elemento central das culturas nativas, foi praticamente destruído, interditado e substituído pelos derivados da cana-de-açúcar, sobretudo a cachaça.

Henrique Carneiro. O corpo sedento. In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Márcia (Orgs.). História do Corpo no Brasil. São Paulo: UNESP, 2011.

domingo, 4 de outubro de 2015

O mundo bárbaro: os costumes

Breviário de Alarico, compilação de leis romanas do reino de Tolosa sob Alarico II (487-507 d.C.). Manuscrito latino, 803-814. Artista desconhecido

Em sua longa existência, o Estado Romano entrou em contato com os mais diversos povos. Muitos desses povos foram vencidos e passaram a fazer parte do Mundo Romano. Outros, no entanto, continuaram fora das fronteiras do Império Romano. Partindo da ideia de que Roma era sinônimo de Civilização, os romanos consideravam bárbaros todos os povos que deles viviam distantemente e falavam outras línguas que não o latim.

Dentre os povos julgados bárbaros pelos romanos sobressaíram os germanos, que, ao penetrarem em massa no Império Romano, contribuíram decisivamente para a formação da sociedade europeia. [...]

[...] Começavam novos tempos, porque a sociedade, resultante da interpenetração de romanos e germanos, evoluiu lentamente ao sentido do feudalismo. E essa transição do escravismo ao feudalismo processou-se do século V ao século X,

A origem dos germanos é discutida. No século III, viviam em terras situadas entre o Rio Reno, os Mares do Norte e Báltico, os Rios Danúbio e Vístula e os Montes Cárpatos: a chamada Germânia.

Seus costumes eram simples. Viviam em aldeias, sendo a caça importante atividade econômica. [...] Praticavam a agricultura, a criação de gado e a pilhagem, como atividade econômica complementar. Desconheciam a escrita, e o comércio era feito à base de trocas, embora muitos germanos, localizados próximos às fronteiras do Império Romano começassem a utilizar moedas. Seu artesanato era rudimentar.

A união de várias aldeias formava uma tribo. As tribos agrupavam-se em povos, como os visigodos, os ostrogodos, os alanos, os vândalos, os alamanos, os suevos, os saxões, os anglos, os jutos, os francos etc.

Em épocas recuadas, sua principal instituição política era a Assembleia dos Guerreiros, que, uma vez por ano, decidia da necessidade, ou não, de empreender uma expedição de guerra. Geralmente, elegia um chefe guerreiro, o chamado Koenig, que os romanos chamaram Rei. A continuidade das guerras permitiu que se consolidasse a autoridade dos Chefes Guerreiros ou Reis.

Sua religião era politeísta: adoravam inúmeros deuses, os quais se identificavam com as forças da Natureza. Odin ou Wotan era o senhor do Céu e deus da guerra e do fogo; Thor, o deus do trovão; Mon, a deusa Lua; Sunna, a deusa do Sol; Fréia, a deusa da primavera e do amor.

"Nas modernas línguas germânicas, o alemão e o inglês, os nomes de alguns dias originam-se dos nomes daquelas antigas divindades. Assim, domingo, em alemão, é Sunntag, e Sunday, em inglês, palavras que significam dia do Sol (Sunna); segunda-feira é Montag, em alemão, e Monday, em inglês, dia da Lua (Mon); sexta-feira é Freitag, em alemão, e Friday, em inglês, dia de Fréia."

Acreditavam os germanos que os deuses moravam no Valhala, para onde iriam os guerreiros valentes, mortos em combate. Para lá seriam conduzidos pelas Valquírias, deusas guerreiras que montavam cavalos alados.

A propósito, veja o depoimento de Amiano Marcelino (320-390), historiador romano, a respeito dos alanos:

"Os alanos são geralmente belos e garbosos. Seus cabelos puxam para louro; o olhar é antes marcial que selvagem. Na rapidez do ataque, nada ficavam devendo aos hunos [...] O gozo que os espíritos mansos e pacíficos encontram em um lazer espiritual, eles colocam nos perigos e na guerra. A seus olhos, o supremo bem é perder a vida em um campo de batalha. Morrer de velhice ou por um acidente é um opróbrio [vergonha], que eles cobrem de horríveis ultrajes. Matar um homem é um heroísmo para o qual não medem os elogios. O mais glorioso troféu é a cabeleira do inimigo escalpado. Serve de enfeite para o cavalo de guerra. Não se vê junto a eles nem templos nem santuário nem mesmo nicho coberto de palha. Uma espada nua, fincada na terra, segundo o rito bárbaro, torna-se o emblema de Marte. Honram-na devotadamente como a soberana das regiões que percorrem."

Não lhe parece que aquele autor romano se mostra claramente impressionado pelo culto da força e pelo caráter guerreiro dos alanos?

Também as palavras do historiador Tácito (54-130), no seu livro Costumes dos Germanos, revelam como o espírito guerreiro dos germanos impressionava a sociedade romana. Veja, a seguir, como a descrição dos vândalos apresenta este povo como verdadeiros cavaleiros da Morte:

"[...] São selvagens e aumentam sua selvageria natural, emprestando os socorros da arte e do momento. Seus escudos são negros, seus corpos, cobertos de pintura. Para combater, escolhem noites escuras. Só pelo horror e a sombra, que encobrem este exército fúnebre, levam o terror ao inimigo. Ninguém poderia suportar a visita estranha e como que infernal. Pois, em toda a batalha, os olhos são os primeiros vencidos."

Alguns desses povos se haviam convertido ao Arianismo, heresia do Cristianismo [...]. Seria mais um ponto de atrito com as populações que viviam dentro das fronteiras do Império Romano, que desmoronou diante das invasões dos séculos IV e V.

AQUINO, Rubim Santos Leão de. [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 110-11.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O mundo bárbaro: o fim do Império Romano

Invasão dos bárbaros ou Os hunos se aproximando de Roma, Ulpiano Checa

"Repara com que surpresa repentina a morte pesou sobre o mundo inteiro, quando a violência da guerra abateu os povos. Nem o solo rude dos matagais espessos ou das altas montanhas, nem a corrente dos rios, em seus turbilhões rápidos, nem o abrigo que a Natureza proporcionou as cidadelas, os muros, às cidades, nem a barreira formada pelo mar, nem as tristes solidões do deserto, nem as gargantas, nem mesmo as cavernas, sobre os quais pendem sombrios rochedos, puderam escapar às mãos dos bárbaros.

[...] Mas, que aproveita contar a morte de um mundo que desmorona, seguindo a lei ordinária de tudo o que perece? Que aproveita relembrar o número dos que morrem por todo o Universo, quanto tu mesmo vês teu último dia chegar a grandes passos? Quantos males podem causar as espadas, os edifícios que desmoronam, o fogo, o veneno, as torrentes de água? Quanta gente leva a perecer as guerras, a fome, o desencadear das epidemias, a morte, enfim, que, por caminhos diversos se apresenta igual para todos! [...] Em uma corrida [...] nossa vida termina faz precipitarem-se nossos últimos dias."

As palavras anteriores são da autoria de Orêncio, sacerdote e escritor romano, que viveu no século V. Não lhe parece que as palavras estão cheias de angústia e de insegurança? São elas o reflexo da crise, que muitos então viviam. Era o fim de uma época, destruída por forças que não se detiveram diante de nada. Nem obstáculos naturais, nem barreiras levantadas pelos homens do moribundo Mundo Romano conseguiram deter os invasores.

Estes invasores eram os povos bárbaros, como os romanos chamavam os germanos [...].


"As escassas informações existentes sobre os germanos primitivos chegaram até nós através do historiador romano Tácito e de achados arqueológicos, como desenhos em cavernas, gravuras em pedra, utensílios, armas, vestimentas." (HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos [...] Têm um corpo grosso, os membros robustos, a nuca espessa. Suas espáduas largas tornam-nos assustadores [...] Os hunos não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece [...] Entre eles não se usam casa, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana [...] Cobrem-se de um linho ou de peles de ratazanas do mato, cozidas entre si. Não possuem veste interior, nem roupa para visita. Uma vez que enfiaram a túnica de uma cor desbotada, não a deixam mais, até que ela caia de velha. Cobrem a cabeça com chapéus de abas caídas. Envolvem-se em peles de cabra as peludas pernas [...] A cavalo, dia e noite, é de lá que negociam suas compras e vendas. Não põem pé em terra, nem para comer nem para beber. Dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura, onde sonham bem à vontade."

Que sensação lhe provocou a leitura do texto anterior, escrito, em fins do século IV, por Amiano Marcelino, historiador romano? Que sentiria você, se tivesse de enfrentar esse povo que, em seus velozes cavalos, avançava contra sua cidade?

É provável que também fosse tomado pelo mesmo terror vivido pelos romanos, quando souberam da aproximação ameaçadora dos hunos.

De onde vinham esses temíveis cavaleiros? Aos milhares, haviam partido de regiões da Ásia, fronteiriças à China, e iniciado uma caminhada que os levou à Europa. Vivendo da criação de cavalos e da pilhagem, eram nômades bastante primitivos.

Quando chegaram às terras da Europa Oriental, a crueldade dos hunos e a devastação por eles provocada acarretaram um grande deslocamento de povos. Fugindo dos hunos, germanos empurraram-se uns aos outros, acabando por invadir as fronteiras do Império Romano (século IV).

Aos milhares, os visigodos atravessaram o Rio Danúbio, acreditando que estariam protegidos no interior do Império. Com as autoridades romanas fizeram um acordo: protegeriam as fronteiras contra outros invasores, recebendo em troca alimentos, terras e uma elevada soma em dinheiro. Tornaram-se então, federados do Império, prática utilizada, desde o século III, pelos Imperadores romanos: como as legiões romanas eram insuficientes para guarnecer as fronteiras, faziam um tratado (foedus) com um chefe bárbaro, tornando-o aliado ou federado.

Como as autoridades romanas não respeitaram os compromissos assumidos, os visigodos revoltaram-se. Começaram a saquear as cidades dos Bálcãs. O Exército Romano, que tentou contê-los, foi derrotado em Andrinopla (378).

Em 406, vândalos, alanos e servos, em número não calculado, cruzaram o Rio Reno e invadiram a Gália. Também fugiam dos hunos, mas provocaram o pânico e a destruição por onde passaram. Enquanto os suevos e os alanos permaneceram na Península Ibérica como federados, os vândalos deslocaram-se para o Norte da África, onde fundaram seu Reino.

A desagregação do Império Romano acelerou-se com novas invasões:

* os borgúndios também ultrapassaram o Reno e se localizaram a Leste da Gália;
* os saxões e anglos atravessaram o Canal da Mancha e dominaram a Bretanha (atual Inglaterra).

Em meio à crise provocada por tantas devastações, pareceu a muitos habitantes do Império que o fim do mundo estava próximo. E o temor aumentou, quando se espalhou a notícia de que Roma, a antiga capital, fora saqueada pelos visigodos.

O depoimento de São Jerônimo [...] revela o desespero causado pelo ataque a Roma.

"Chega-nos do Ocidente um rumor aterrador, Roma é atacada. Os cidadãos resgatam a vida a preço de ouro [...] Depois de terem perdido seus bens, ainda é preciso que percam a vida. Minha voz se estrangula e as convulsões me interrompem, enquanto dito estas palavras. É conquistada a cidade que conquistou o Universo."

Prosseguindo seu avanço devastador, os visigodos abandonaram a arruinada Península Italiana, invadiram e pilharam a Gália, indo fixar-se na Península Ibérica, onde já viviam alanos e suevos.

Parecia que a paz retornara ao Ocidente.

"A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha de Campos Mauríacos [...] Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea composta de legiões romanas e de contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos."

Obrigados a se retirarem da Gália, os hunos voltaram-se contra a Península Italiana, assaltando, incendiando e destruindo cidades, escravizando e massacrando populações. Chamado de Flagelo de Deus, Átila liderou seus terríveis guerreiros para mais um saque de Roma. Embora sua carroças estivessem carregadas de riquezas pilhadas, a fome e a peste vitimaram os hunos, que renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península; recebendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram ao nomadismo pastoril.

Durante o século V, a desagregação do Império Romano prosseguiu, em meio às destruições causadas pela guerra e pela formação dos Reinos Bárbaros. Na própria Itália, os hérulos, chefiados por Odoacro, depuseram o Imperador Rômulo Augústulo, fato que, no entender de diversos historiadores, marcou o início da Idade Média (476).

Leia o depoimento de Salviano, monge do século V, sobre o fim do Império Romano do Ocidente, atribuindo a queda de Roma a um castigo divino:

"Já que quase todas as nações bárbaras beberam sangue romano e rasgaram nossas entranhas, por que será que nosso Deus entregou o mais poderoso dos Estados e o povo mais rico, que leva nome de romano, ao forte domínio de inimigos, que eram tão fracos? Por quê?

[...] Os acontecimentos provam o julgamento de Deus sobre nós e sobre os godos e os vândalos. Eles aumentam dia a dia; nós descemos cada dia mais. Eles prosperam; nós somos humilhados. Eles florescem; nós fenecemos.

[...] Eu desejaria, se a fraqueza humana permitisse, gritar além de minhas forças, a fim de ser ouvido no mundo inteiro: Ó cidadãos romanos, tende vergonha; tende vergonha de vossas vidas! Poucas cidades estão livres dos antros de perdição, estão totalmente livres de impurezas, exceto as cidades habitadas pelos bárbaros [...] Não é o vigor natural de seus corpos que os capacita a conquistar-nos, nem foi a nossa fraqueza natural a causa de nossa derrota. Que ninguém se convença do contrário. Que ninguém pense de outra maneira. Fomos derrotados, exclusivamente, pelos vícios de nossa vida má."

Os hérulos, no entanto, logo perderam o domínio de Roma e da Itália para novos invasores: os ostrogodos, que organizaram seu Reino na Península Italiana.

Começavam novos tempos...

AQUINO, Rubim Santos Leão de. [et alli]. Fazendo a História: Da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 106-9.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O cotidiano nos centros urbanos no início da colonização portuguesa na América

Para além da fortaleza, matriz do núcleo populacional, outros edifícios eram necessários ao cotidiano dos colonos. Com traçados irregulares, herdados da tradição medieval - ao menos até que o barroco passasse a inspirar a planta das redes urbanas no século XVII -, as vilas e cidades tinham como um de seus principais edifícios as igrejas, os conventos e os colégios jesuítas. A espiritualidade individual, considerada essencial para um bom cristão, precisava ser reforçada através de práticas coletivas, em ambientes apropriados e sob as vistas da Igreja.

Sem contarem com saneamento básico, os portugueses no Brasil optaram por criar seus povoados em locais cujo relevo se dividia entre uma parte alta e outra baixa, para que a gravidade e a chuva dessem conta da limpeza das ruas. Salvador era assim, mas nem todos os locais tinham a mesma sorte com a geografia.

Ao lado dos edifícios públicos e administrativos, conviviam, nas regiões portuárias (a grande maioria das primeiras cidades foram fundadas em regiões litorâneas), armazéns e mercados de escravos. Apenas  as cidades maiores, como Salvador, possuíam hospitais e misericórdias para socorrer os doentes que vinham embarcados nas naus da Coroa.


Uma venda em Recife, Rugendas

A Câmara Municipal era um dos poucos edifícios públicos que realmente expressavam a gestão administrativa local. Depois de breve período em que foram nomeados pelos donatários, os vereadores passaram a ser eleitos localmente entre os súditos de cada cidade, acumulando as atribuições executiva, legislativa e judiciária.

O cargo de prefeito ainda não existia. Era o presidente da Câmara que tomava as decisões, que precisavam depois ser referendadas pelos demais vereadores. Ao redor da Câmara, gravitava uma série de funcionários públicos, ouvidores, membros da junta, escrivães, provedores, fiscais e intendentes, nomeados "por dedicação ao reino" e raramente por capacidade de trabalho.

As casas dos particulares, por sua vez, disputavam espaço com comércios, que, a cada dia, iam se instalando para dar conta da distribuição de produtos importados da Europa e mercadorias da terra.

A rede, Henry Alken

A maioria dos senhores de engenho mantinha uma casa na cidade mais próxima, a despeito de raramente a frequentarem, preferindo ficar a maior parte do tempo na sua casa-grande.

Inicialmente, os edifícios eram construídos com madeira e barro, de maneira muito semelhante à das casas de pau-a-pique existentes ainda hoje no interior do Nordeste, sempre térreas, com linhas rústicas e poucas divisões internas.

Conforme o material foi sendo gradualmente substituído pela alvenaria de pedra, as casas ganhavam pavimento superior e um maior número de cômodos, tentando manter-se sempre o ambiente arejado em meio ao clima quente.

Fossem de barro ou de pedra, a maioria das casas possuía terreiros, quintais e alpendres, os locais prediletos para "ver o dia passar", observando o vai-e-vem de pessoas e mercadorias pelas ruas.

A pouca inclinação ao trabalho duro por parte dos primeiros colonos que chegaram ao Brasil, somada à fartura de mão-de-obra escrava, primeiro indígena e depois africana, e à incorporação do hábito cultural de obtenção do mínimo necessário com a maior facilidade possível, forjou uma sociedade que valorizava o ócio. Aqui, o trabalho era considerado coisa de escravo.


Mulheres escravas, Carlos Julião

A maior parte da população não dispunha de recursos econômicos para mandar fazer móveis de madeira, tampouco sentia necessidade disso. No interior das casas, sendo os móveis escassos, grandes cômodos deixavam amplos espaços livres para que se sentasse no chão, sobre esteiras ou tapetes, um hábito corrente. A rede de dormir fazia as vezes de cama, enquanto caixas e canastras serviam para guardar as roupas, ficando alojadas em suportes e mesas, tipo cavalete. Mesas baixas, condizentes com a posição de sentar-se no chão, eram comuns.


Uma família brasileira no Rio de Janeiro, Jean-Baptiste Debret

Os cupins invadiam constantemente as casas para atacar móveis e madeiramento, estragando tudo pelo caminho, um motivo a mais para que bancos e catres fossem considerados objetos de luxo e distinção, presentes apenas nas casas dos mais ricos, que podiam substituí-los sempre que necessário.

Os colonos portugueses, nos primeiros tempos, comiam como os índios, em vasilhas de barro, usando uma técnica até hoje presente em muitos lugares Brasil afora conhecida como "comer de arremesso", a qual consiste em utilizar quatro dedos para pegar o alimento e levá-lo à boca, com enorme destreza, fazendo inveja aos franceses, que, quando tentavam imitá-los, acabavam sujando rosto, bochechas e barbas.

A mandioca era o principal alimento, por isso mesmo chamada pelos lusos de "pão da terra". A farinha de mandioca era consumida pura ou com carne, legumes e caldos, sendo transformada em pão, biscoito e mingau. Este último especialmente reservado a doentes e crianças. A mistura da mandioca ralada e espremida com um punhado de carimá, uma vez torrada em panelas de ferro, fornecia a chamada "farinha de guerra", mais um hábito da culinária indígena incorporado pelos lusos. Era usada nas viagens e expedições guerreiras, tornando-se, posteriormente, a principal ração dos bandeirantes.

Antes da introdução do feijão e do arroz no Brasil pelos portugueses, outros grãos acompanharam a mandioca à mesa. Um deles era o amendoim, cozido com a casca ou torrado sem ela. Era também aproveitado em doces e confeitos, substituindo as nozes e as castanhas das receitas europeias.

A caça ajudava igualmente a compor uma mesa farta, com capivaras, porcos-do-mato, veados, tatus, cotias e aves silvestres, além, é claro, da apreciada carne de anta. Juntava-se ao banquete a carne de peixe, como em Portugal, um dos alimentos mais populares entre os pobres. Pescados do mar e de água doce eram complementados por siris, mariscos, mexilhões e pelos caranguejos encontrados nos mangues.


Quitandeiras da Lapa, Henry Chamberlain

A enorme variedade de frutas de sabores considerados, então, exóticos também compunha o cardápio dos colonos portugueses: o caju, a banana, o mamão, a jaca, a jabuticaba, a laranja, o limão, o umbu e a predileta da época, o abacaxi, chamado de "ananás" pelos portugueses.

Ricas em vitaminas B e C, cuja carência, em Portugal e a bordo dos navios, fazia-se sentir intensamente, as frutas garantiam uma saúde em muitos aspectos melhor do que aquela observada entre a população do reino e de outras colônias.

Mesmo não possuindo saneamento básico, o fato de os moradores das cidades terem por hábito separar a latrina da casa contribuía para a não-difusão de doenças.

Para além de algumas doenças tropicais, uma das maiores preocupações no quesito saúde entre os lusos era o bicho-de-pé. Classificado pelos colonos como o inseto mais curioso, traiçoeiro e perigoso, o bicho-de-pé era muito temido. Desenvolvia-se nas casas térreas e quintais empoeirados, segundo os cronistas, atacando as pessoas pouco habituadas ao banho e à limpeza, podendo chegar ao extremo de provocar a amputação do pé a partir de sua infecção.

Mas o bicho-de-pé não era o único perigo a rondar os portugueses recém-chegados. Provocavam terror os vários tipos de cobra a rastejarem pelos matos, muitas das quais inadvertidamente invadiam as ruas das vilas. Eram sucuris, boiúnas e jibóias. Um perigo superdimensionado, já que raramente atacavam o homem.

Um foco real de temor eram as diversas espécies de onças negras, ruivas ou pintadas que atacavam desprevenidos, pulando das árvores e invadindo as casas em busca de alimentos. Só se detinham diante de manutenção constante de fogo aceso.

Muito mais perigosas que as formigas convencionais - que também invadiam as casas atrás de açúcar, mordendo as pessoas e causando queimaduras -, as saúvas não estavam presentes nas cidades, mas terminavam interferindo em seu cotidiano ao destruírem as roças de milho e mandioca e as árvores frutíferas que abasteciam as vilas e cidades. Gabriel Soares de Souza chamava as saúvas de "a praga do Brasil".

Quanto ao lazer, no início, as vilas e cidades não possuíam muitas opções, nada que ultrapassasse os festejos dos santos, os jogos de azar, a bebedeira e a fornicação com as indígenas ou negras escravizadas.

O fumo se propagou entre os colonos, a princípio, por seu poder curativo sobre feridas e bicheiras. Tronou-se vício, mas também um lazer, combinado com o espreguiçar em uma rede, ambos hábitos copiados dos indígenas.

Uma outra forma comum de divertimento era a tração exercida pelos gestos e sons dos papagaios, araras e macacos, animais que se tornaram bichos de estimação dos portugueses no Brasil.

Desembarcados em meio a esse ambiente idílico - que contava ainda com a tentação oferecida pela nudez inocente das indígenas -, quando o contrapunham à dura rotina no mar e ao difícil cotidiano no reino, muitos marujos se sentiam tentados a desertar. Queriam se juntar aos colonos e viver no Brasil.

Outros optaram por cumprir seu tempo de serviço e juntar recursos para tentar a sorte nas novas terras, onde se vivia com simplicidade, mas com a possibilidade de ser mais feliz do que na Europa.

A divulgação das pujanças da Terra de Santa Cruz entre os portugueses na África e na Índia contribuiu ativamente para virar o jogo e transformar o Brasil na nova menina-dos-olhos da Coroa e em lugar idealizado para onde se voltavam os sonhos das pessoas comuns.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 202-206.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Costumes e hábitos cariocas do século XIX nas pinturas de Bauch, Wiegandt e Dall'Ara

Após a abertura dos portos pelo príncipe regente D. João VI em 1808, as expedições científicas ao Brasil se multiplicaram e com elas vieram artistas para documentar as descobertas botânicas, zoológicas, os aspectos humanos e sociais do país. Nesse contexto, foram produzidos diversos álbuns de "Viagens pitorescas" que visavam ao público europeu, mas interessava igualmente aos brasileiros. Seus autores eram os "pintores viajantes", artistas europeus que no século XIX andavam pelo mundo registrando a fauna, a flora, as paisagens, os costumes e os tipos humanos de países distantes.

Entre esses estavam Emil Bauch (1823-c.1890), Bernhard Wiegandt (1851-1918), que nasceram em cidades que viriam a fazer parte da Alemanha - Hamburgo e Colônia, respectivamente - e Gustavo Dall'Ara (1865-1923), natural de Rovigo, na Itália. Todos chegaram ao Brasil ainda jovens, tinham 25 anos de idade, mais ou menos. Por aqui estiveram em períodos diferentes e é improvável que tenham se conhecido pessoalmente. As pinturas desses três artistas contam histórias, retratam cenas de um Rio de Janeiro como se observadas de diferentes ângulos. Exemplos disso são "Vista da Rua Direita" (c.1860), de Bauch; "Rua São Clemente" (1884), de Wiegandt; e "Rua Buenos Aires" (1899), de Dall"Ara. Quando pintaram esses quadros, já tinham vivido alguns anos no Brasil. Dos três, apenas Wiegandt retornou à Europa. Bauch e Dall'Ara se integraram à vida artística carioca e aqui se estabeleceram.

Em diversos aspectos essas obras se assemelham, a começar pelo assunto. As ruas do Rio foram tema recorrentes entre os "pintores viajantes" e agradavam a um público europeu ávido por imagens de países remotos. Por suas dimensões, nem muito grandes nem muito pequenas [...], vemos que eram destinadas à decoração de residências particulares. A posição das telas na vertical, escolhida pelos três pintores, favoreceu a representação da perspectiva das ruas que convida o espectador a "entrar" no quadro e a misturar-se à vida urbana. As ruas retratadas são bem movimentadas. Há gente que passa, vendedores ambulantes anunciam mercadorias, moradores param para conversar, veículos circulam.

Os artistas devem ter se esforçado para retratar com fidelidade as cenas que tinham diante dos olhos ou guardadas na memória. Expõem visões pessoais sobre as ruas da cidade. Um intervalo de 15 ou 20 anos separam os quadros. A passagem do tempo parece ter trazido novas formas de ver e sentir o mundo, outros modos de expressar sensações.

Quem hoje enfrenta os engarrafamentos diários da Rua Primeiro de Março (nome atual da antiga Rua Direita), no Centro do Rio, tem dificuldades para imaginá-la há 150 anos. O quadro "Vista da Rua Direita", de Bauch nos aproxima dos tempos áureos da famosa rua cantada pelo povo em versinhos sarcásticos que o escritor João do Rio (1881-1921) registrou  em sua A alma encantadora das ruas (1908): "Vista Alegre é rua morta / A Formosa é feia e brava / A Rua Direita é torta / A do Sabão não se lava..."


"Vista da Rua Direita", Rio de Janeiro, de Bauch. A tela apresenta a arquitetura e o dia a dia da Rua Direita.

Brincadeiras à parte, a Rua Direita, que era curvam era também um caminho direto entre o morro do Castelo e o de São Bento. No século XIX, passou a ser uma das mais importantes da cidade, ladeando o Largo do Paço (atual Praça XV) e vizinha do Paço Imperial. Foi a principal via antes que a Avenida Central (atual Rio Branco) fosse aberta em 1905. No quadro de Emil Bauch, a Rua Direita é vista do alto. Conforme sugere o crítico literário Alexei Bueno, supõe-se que o pintor tenha se posicionado no passadiço que ligava o Paço ao convento dos Carmelitas (hoje Universidade Cândido Mendes) do outro lado da rua, que por sua vez se ligava à Capela Imperial por um segundo passadiço. No quadro, vê-se um pedacinho dessa passagem entre o convento e a Capela, sua torre muito branca que não existe mais, e a fachada da qual só restou intacto o primeiro andar. Ao seu lado, é possível reconhecer a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, de fachada inalterada, assim como as torres da Candelária ao fundo. À direita, está a lateral da igreja da Santa Cruz dos Militares, o alto de sua torre sineira, e a pontinha da cúpula da igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, mais adiante.

Bauch fixou na tela a arquitetura da cidade e deixou um valioso documento de seu passado. Se tivesse feito apenas isso, já teria realizado uma obra de grande interesse. Fez mais. Sua tela é cheia de vida. Na rua misturam-se pedestres e veículos os mais variados, puxados por burros ou cavalos. Uma carruagem faz a curva para entrar no Largo do Paço, onde uma fila de tílburis, os táxis da época, aguardam passageiros. Homens e mulheres, brancos e negros, ocupam as calçadas e caminham pelo meio da rua sem demonstrar preocupação com o movimento dos carros. Vemos casais de mãos dadas, homens de casaca e cartola, mulheres de xale e sombrinha. Os negros vendem quitutes. Uma delas sentou-se no meio-fio em frente a seu tabuleiro.

Já o quadro de Wiegandt, apresenta diferenças da tela "Vista da Rua Direita" de Bauch. Enquanto o traço de Bauch é minucioso ao estremo, a obra de Wiegandt é larga e solta. Isso é evidente em pequenos trechos: Bauch pinta as linhas do contorno de cada uma das pedras do calçamento; Wiegandt sugere as pedras apenas com manchas. Olhando a tela bem de perto, vemos o relevo da tinta em toda a superfície, muito diferente da composição lisa de Bauch que camufla as marcas do pincel. O aspecto geral da cena é também muito diverso. A luz do sol intenso na "Vista da Rua Direita" expõe todos os detalhes da arquitetura e dos personagens os mais distantes. Na elegante "Rua São Clemente", a luz suave é filtrada pela névoa que desce da montanha, o que permite a Wiegandt deixar áreas na sombra e nos envolver na atmosfera úmida. Na representação das figuras humanas, Bauch parece estar no limite entre a pintura erudita e a popular. Seus tipos são como bonequinhos colados à paisagem. Já em Wiegandt, as figuras têm gestos expressivos que nos fazem imaginar o que estão dizendo ou sentindo. Sua pintura é mais sugestiva que descritiva. Ao fundo, o Corcovado imponente com sua natureza imutável se sobrepõe à vida cotidiana e às pequenas alegrias da rua.


"Rua São Celemente", de Wiegandt

A pintura de Gustavo Dall'Ara, "Rua Buenos Aires", por sua vez, é diferente tanto do quadro de Bauch quanto do de Wiegandt. Seus personagens são quase caricaturais. O pintor chegou ao Rio em 1890 para trabalhar como chargista no periódico A Vida Fluminense. É como um cronista que Gustavo Dall'Ara pinta o cotidiano urbano, os tipos que atraíram seu olhar. O vendedor de perus com sua cara engraçada e a baiana vestida a caráter parecem saídos de outros tempos, assim como o bonde puxado a burro. Mas o bonde elétrico já havia sido inaugurado em 1892, sete anos antes de Dall'Ara pintar a Rua Buenos Aires. Nessa tela, o pintor parece se divertir com a mistura de passado e presente no dia a dia da cidade.

"Rua Buenos Aires", de Dall'Ara

Há ainda uma mudança muito clara quanto ao ponto de vista adotado pelos três pintores. A "Vista da Rua Direita" de Bauch é como uma maquete vista do alto, povoada por diminutas figurinhas. Bernhard Wiegandt nos coloca ao nível da "Rua São Clemente", porém um pouco distantes dos personagens que se encontram a alguns passos de nós. Já Gustavo Dall'Ara nos insere no burburinho da Rua Buenos Aires. É como se estivéssemos na calçada da esquerda, e daqui a pouco fôssemos atropelados pela turba de perus que se aproxima.

Essas ruas pintadas nos convidam a percorrer os caminhos da cidade e os caminhos da história da arte. Os pintores europeus que por aqui passaram ou se estabeleceram faziam parte do ambiente artístico carioca, participaram das Exposições da Academia, atuaram como professores particulares de pintura, realizaram trabalhos decorativos nos palacetes. Em suas telas se misturavam arte erudita e popular, pintura e caricatura, em especial nos quadros de Bauch e Dall'Ara. A diversidade de expressões e de obras individuais sugerem diferentes visões de mundo e nos mostram a vitalidade da pintura realizada no Rio de Janeiro do século XIX.

Ana Maria Tavares Cavalcanti. Pintores, viajantes e cronistas. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8, nº 90, março 2013. p. 64-69.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Mulheres trabalhadoras no Ocidente entre 1875 e 1914


Mulheres trabalhando numa fábrica de armamentos durante a Primeira Guerra Mundial

Em suma, essa parte do mundo agora experimentava, nitidamente, a assim chamada "transição demográfica" a partir de alguma variante do antigo padrão moderno do baixo índice de natalidade compensado pela baixa mortalidade. Precisamente como e por que sobreveio esta transição, é um dos maiores enigmas com que se defrontam os historiadores de demografia. Historicamente falando, o acentuado declínio da fertilidade, nos países "desenvolvidos", é absolutamente novo. A propósito, a ausência, em grande parte do mundo, de um declínio conjunto da fertilidade e da mortalidade explica a espetacular explosão da população global, desde as duas guerras mundiais: pois, enquanto a mortalidade tem caído extraordinariamente, em parte devido à melhora do padrão de vida, em parte pela revolução na medicina, o índice de natalidade, na maior parte do Terceiro Mundo, permanece alto e apenas está começando a declinar após o intervalo de uma geração.

No Ocidente, o declínio das taxas de natalidade e o de mortalidade eram melhor coordenados. Ambos, evidentemente, afetavam a vida e os sentimentos das mulheres uma vez que o mais notável desenvolvimento relativo à mortalidade era a queda acentuada da mortalidade dos bebês de menos de um ano, fato que se tornou inequívoco durante as últimas décadas que precederam 1914. [...] Não obstante, é razoável supor que o fato de ter menos filhos foi, na vida das mulheres, uma mudança mais notável do que a de ver sobreviverem mais filhos seus.

[...] mesmo durante o período de rápido crescimento populacional nos séculos XVIII e XIX, a taxa de natalidade europeia, nos países "desenvolvidos" e em desenvolvimento do Ocidente, era mais baixa do que a do Terceiro Mundo no século XX; e a taxa de crescimento, por mais espantosa que seja pelos padrões do passado, era mais modesta. Não obstante, e a despeito de uma tendência geral, embora não universal no sentido de uma proporção maior de mulheres se casarem e de o fazerem mais jovens, o índice de natalidade baixou: ou seja, o controle deliberado da natalidade deve ter-se difundido. [...]

Outrora, decisões tais como estas haviam sempre formado parte da estratégia da manutenção e extensão dos recursos familiares, o que significava - dado serem os europeus, em sua maioria, gente do campo - a salvaguarda da transmissão das terras, de uma geração para que lhe sucedia. Os dois mais surpreendentes exemplos de controle da progênie, a França pós-revolucionária e a Irlanda pós-fome, foram, principalmente devidos à decisão dos camponeses ou dos fazendeiros de impedir a dispersão do patrimônio familiar, reduzindo o número de herdeiros em condições de reivindicar parte dele [...]

As novas formas de controlar a dimensão da família não eram, quase certamente, devidas aos mesmos motivos. Nas cidades, sem dúvida, eram estimuladas pelo desejo de um padrão de vida mais alto, particularmente entre as classes médias baixas que se multiplicavam e cujos membros não se podiam permitir ao mesmo tempo a despesa decorrente de uma grande ninhada de criancinhas e o acesso a uma oferta maior de bens de consumo e serviços, agora disponíveis, pois no século XIX ninguém, exceto os velhos indigentes, era mais pobre que um casal com escassos rendimentos e a casa cheia de crianças. Também eram devidas às mudanças que, a esta altura, tornavam as crianças um fardo cada vez maior para os pais, uma vez que frequentavam a escola ou recebiam treinamento durante um prolongado período, permanecendo, portanto, economicamente dependentes. As proibições relativas ao trabalho de menores e a urbanização do trabalho reduziram ou eliminaram o modesto valor econômico representado pelas crianças para os pais, por exemplo, em fazendas onde podiam se tornar úteis.

Ao mesmo tempo, o controle da natalidade indicava significativas mudanças culturais, seja em relação às crianças quanto ao que homens e mulheres esperavam da vida. Se os filhos deviam ser mais bem-sucedidos que seus pais - e, para a maioria das pessoas, na era pré-industrial, isto não fora possível nem desejável - era preciso que tivessem melhores oportunidades na vida; e famílias menores tornavam possível dedicar mais tempo, mais cuidados e mais recursos a cada um dos filhos. Assim como, sob um aspecto, um mundo de mudança e de progresso abriria oportunidades de melhoria social e profissional de uma geração para a seguinte, poderia, igualmente, ensinar aos homens e às mulheres que sua vida não estava limitada a ser uma réplica da de seus pais. Os moralistas reprovavam os franceses, com suas famílias de apenas um filho ou dois; não pode haver dúvida, porém, de que na privacidade da conversa sobre travesseiros, isso sugeria novas possibilidades aos casais.

O aumento do controle da natalidade indica, portanto, certa penetração de novas estruturas, valores e expectativas na esfera das mulheres trabalhadoras ocidentais. Não obstante, a maioria delas foi afetada apenas marginalmente por esse fato.

HOBSBAWN, Eric J. A era dos impérios: 1875-1914. São Paulo: Paz e Terra, 1992. p. 272-275.

domingo, 29 de julho de 2012

O reino de Cuxe

Rainha Amanitore 

"A palavra Cuxe aparece, pela primeira vez, num texto egípcio, por volta de 2000 a.C. Refere-se a um reino que se entendia ao sul de Semna. Ali, terminava o "Ventre das Pedras" e abria-se a paisagem mais suave e mais propícia do Abri-Delgo, com suas planícies cultiváveis junto ao rio, a anteciparem as terras férteis de Dongola, mais ao sul [...]" ¹


Ao sul do Egito, localizava-se a Núbia. Embora fosse banhada pelo rio Nilo, essa região era bastante árida e seu povo precisou criar sistemas de irrigação que facilitaram a criação de gado e o cultivo da cevada, trigo, sorgo, lentilhas, pepino, melão, tâmaras. Por volta de 2000 a.C. lá se formou o reino de Cuxe, que manteve intensa atividade comercial: caravanas chegavam pelo deserto carregadas de mercadorias da Ásia e das regiões próximas ao mar Mediterrâneo; pelo rio Nilo, os comerciantes cuxitas levavam e traziam produtos do norte e do sul da África, como peles de animais, marfim, madeiras, ouro.


Faraós núbios. 25ª dinastia
"A presença núbia era constante ao longo dos milênios da história do Império Egípcio e é atestada nas pinturas das paredes das pirâmides, nas ilustrações dos papiros e na rica estatuária." [MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 25]

Nas pirâmides onde foram enterrados os soberanos cuxitas, eram feitas oferendas de artigos de luxo, o que demonstra o rico artesanato daquele povo.

As principais cidades do reino de Cuxe foram Querma, Napata e Méroe. Dentre elas, Méroe se destacou por ter se tornado um importante centro urbano e por atrair grande número de pessoas interessadas na agricultura, no comércio e na metalurgia. Foi uma das capitais do reino de Cuxe. Escavações arqueológicas revelam que em Méroe havia uma área cercada por muralha de pedra, onde viviam o rei e a nobreza e ficavam os palácios, os prédios públicos e alguns templos religiosos.

"Tinha essa gente enorme apreço pelos vasos de alabastro, pelas estátuas, estelas e outros objetos egípcios - encontrados em tal abundância nos seus túmulos, que o primeiro arqueólogo que trabalhou em Querma, G. A. Reisner, chegou a considerá-la uma feitoria dos faraós. [...]" ²


Príncipe Arikankharer matando seus inimigos.
Arte meroítica em arenito

Os contatos com diferentes povos favoreceram a criação de uma cultura material rica e diversificada. Confeccionavam peças de cerâmica, jóias e estatuetas de ouro, prata e bronze, faziam instrumentos musicais, criavam objetos de madeira, produziam adornos de vidro, de conchas e de pedras preciosas.


Cerâmica meroítica
"Da Núbia provinha uma série de produtos apreciados em Mênfis ou Tebas, como peles de animais e temperos, mas sobretudo minerais preciosos e cativos que seriam empregados como escravos em serviços domésticos e nos templos. O próprio termo "Núbia" deriva de noub, que significava 'ouro'". [MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 25]

As fontes históricas sobre os cuxitas indicam que a sociedade estava dividida da seguinte forma: rei e nobreza; altos funcionários públicos e chefes militares; sacerdotes, comerciantes, artesãos e soldados; camponeses (também chamados felás).

As pessoas ricas vestiam roupas brancas de linho e algodão com bordados coloridos e usavam jóias. Os mais pobres usavam roupas simples de couro e andavam descalços. Em todas as camadas sociais as pessoas usavam colares, pulseiras, braceletes e tornozeleiras.

"A riqueza de Cuxe permitiu que suas elites copiassem o modelo egípcio. Da mesma forma que o faziam os hicsos. Trabalhadores egípcios serviam em Querma e transmitiam suas técnicas aos artesãos cuxitas. Qualquer objeto egípcio era tido em alta estima e bem cuidado. E também - pode-se supor - os modos de vida, a etiqueta e o protocolo." ³


Estátua meroítica encontrada no “Santuário da Água”, Méroe, Núbia, Sudão

Geralmente as casas eram feitas de tijolos e nelas havia fogão, camas de madeira, potes de barro, cestos e diversos objetos, como enxadas, facas e tesouras de ferro, além de vasos, taças, tigelas, caixas de bronze, prata, vidro ou madeira. Quanto maior fosse a casa e maior a variedade de objetos que ela tivesse, mais alta era a posição social de seu proprietário.

Relevo cuxita

O povo de Cuxe era politeísta e adorava deuses antropozoomórficos, como Marduk e Apedemek. Na cidade de Napata foi construído um templo em homenagem a Amon, deus do sol, também cultuado no Egito.


Pirâmide de Khartoum
"Do esplendor e prosperidade da civilização de Meroé restaram diversos monumentos, entre os quais pirâmides de pequena proporção, templos em homenagens aos deuses, túmulos e sarcófagos de granito [...]" [MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 26]

Os túmulos dos reis e da nobreza tinham formas de pirâmides. Mulheres e escravos eram enterrados com o morto para servi-lo na vida após a morte. Além disso, eram colocados junto ao corpo jóias, objetos e oferendas variadas. Nas demais camadas sociais, os mortos eram mumificados e enterrados em cemitérios.


Esta lâmpada representa um prisioneiro nu cativo, as mãos amarradas aos tornozelos. 

Para facilitar as atividades comerciais, os cuxitas utilizaram a escrita hieroglífica egípcia e, posteriormente, a alfabética, por influência dos fenícios e dos gregos.


Escrita cursiva meroítica

Cuxe tinha uma monarquia teocrática. Os estudos revelam que essa forma de governo foi comum em grande parte dos antigos reinos africanos que praticavam a agricultura como uma das principais atividades.

O reino de Cuxe começou a se enfraquecer por volta do século IV, devido a uma série de razões: o empobrecimento do Egito, que passou a comprar menos mercadorias cuxitas, a insegurança nas rotas comerciais, que dificultava a travessia do deserto. Além disso, Méroe, principal cidade na época, foi por diversas vezes atacada por tribos nômades e também por outro reino africano, Axum. Nesses ataques, os invasores saqueavam os estoques de alimentos e mercadorias, empobrecendo a cidade e dificultando ainda mais a prática do comércio naquele reino.

MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 25-26.
PANAZZO, Silvia; VAZ, Maria Luísa. Navegando pela história. São Paulo: Quinteto Editorial, 2009. p. 78-81.
SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 109 (citações ¹ e ²) e p. 111 (citação ³)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A vida na Europa e nos Estados Unidos no fim do século XIX: a ideologia do "progresso"

Uma das grandes novidades do final do século XIX: o cinema. Cartaz de 1896, desenhado por Henri Brispot

Lentamente, o cotidiano das pessoas, sobretudo das que moravam nas cidades, começou a sofrer a imposição de uma espécie de colonização microscópica e diária:

* a vida ganhou novos ritmos, baseados na rapidez, na tensão do dia a dia e na necessidade de deslocamento constante;

* as pessoas modificaram seus hábitos culturais - começaram a frequentar os cinemas, a escutar os fonógrafos, a falar ao telefone e a participar de manifestações públicas;

* foram criados vários padrões de consumo, como tomar café, trocar constantemente o vestuário, adquirir móveis modernos;

* hábitos de higiene e saúde ganharam importância no cotidiano - as pessoas passaram a ter banheiro interno nas residências, a estabelecer rituais de limpeza pessoal, a tomar remédios, a frequentar médicos, etc.;

* diferentes atividades esportivas conquistaram adeptos, desenvolvendo-se as regatas, o futebol e outros esportes coletivos.

"[...] os veículos automotores, os transatlânticos, os aviões, o telégrafo, o telefone, a iluminação elétrica e ampla gama de utensílios eletrodomésticos, a fotografia, o cinema, a radiodifusão, a televisão, os arranha-céus e seus elevadores, as escadas rolantes e os sistemas metroviários, os parques de diversões elétricas, as rodas-gigantes, as montanhas russas, a seringa hipodérmica, a anestesia, a penicilina, o estetoscópio, o medidor de pressão arterial, os processos de pasteurização e esterilização, os adubos artificiais, os vasos sanitários com descarga automática e o papel higiênico, o sabão em pó, os refrigerantes gasosos, o fogão a gás, o aquecedor elétrico, o refrigerador e os sorvetes, as comidas enlatadas, as cervejas engarrafadas, a Coca-Cola, a aspirina, o Sonrisal e, mencionada por último mas não menos importante, a caixa registradora". (Nicolau Sevcenko. Introdução. In: _____ (org.). História da vida privada no Brasil: da Belle Époque à era do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3. p. 9-10.)

Os centros urbanos, nos quais se moldava toda essa modernidade, irradiavam para as demais regiões os valores e símbolos de rapidez, educação, cultura, saúde, abastecimento, trabalho e serviços. A transformação foi tão marcante que as ideias de progresso, modernidade e civilização se associaram intimamente às cidades, ao passo que as ideias de tradição, conservadorismo e rusticidade permaneceram associadas ao campo. As pessoas passaram a procurar ainda mais as médias e grandes cidades, impulsionando o crescimento urbano e populacional desmedido e a formação de grandes metrópoles.

Essas transformações científicas e tecnológicas, de acordo com o historiador Geoffrey Barraclough, atuaram ao mesmo tempo como "solventes da velha ordem" e "catalisadores de um novo mundo". Nesse período criou-se a ilusão de que a humanidade vivia um processo de avanço científico sem interrupções, sempre alcançando graus mais elevados de complexidade.

Argumentos como esse foram muito utilizados para justificar a escalada de ocupação territorial realizada pelos países europeus no restante do mundo: o "fardo do homem branco" seria levar a civilização e o progresso a todos os cantos do planeta. Porém, nem sempre o que se chama de "civilização" e de "progresso" significa um salto positivo compartilhado por todas as pessoas e por todas as sociedades.

No fim do século XIX havia sociedades - e ainda existem muitas - que partiam de princípios e de uma lógica de funcionamento distintos dos da sociedade europeia, para as quais a tecnologia e as máquinas tinham significado distinto ou nem mesmo representavam algo. As sociedades que, naquele período, não viviam de acordo com os princípios da "civilização" e do "progresso" acabaram sendo dizimadas (como ocorreu com os povos indígenas nos Estados Unidos) ou profundamente transformadas (como ocorreu na Índia e no Japão). Mas nada disso aconteceu sem resistência ou muita luta.

MORAES, José Geraldo Vinci de. História: Geral e Brasil. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 195-197.