"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 11 de setembro de 2016

American way of life

A nova posição feminina expressava-se por meio de comportamentos considerados ousados e vistos pelos conservadores como mais uma "prova" de decadência nos padrões de convivência humana: encurtamento das saias até os joelhos, cabelo curto, hábito de frequentar bares e prática de danças como o foxtrote e o charleston. 
Foto: Inspeção de trajes de banho em 1919, Estados Unidos. Se o modelo fosse muito curto, a moça tinha que pagar multa

O milagre americano criou condições para que aflorasse, nas classes médias e na burguesia, um estilo de vida considerado modelo da moderna civilização ocidental: o american way of life (modo de vida americano). Tal como as mercadorias, ele foi exportado para o mundo todo¹.

* Prosperidade e liberdade. O modo de vida americano, tendo como base a riqueza, caracterizava-se pela construção de edifícios grandes e modernos, pela multiplicação de bairros residenciais cujas casas se ligavam por jardins e gramados, pelo aumento do número de carros e de aparelhos domésticos. Cada vez mais gerava-se a necessidade de consumir, alimentada pela propaganda e pelo crediário.

Na década da prosperidade presenciou-se também uma mudança na vida social e nos costumes, principalmente no que se refere à emancipação feminina. A mulher conquistou o direito de coto (1920), condição para a igualdade política. Nas décadas subsequentes, além de votar, as mulheres ocuparam cargos públicos e privados em vários escalões hierárquicos.

Contudo, a discriminação nos salários continuaria por muito tempo. Apesar disso, em 1940 as mulheres constituíam 25% da mão de obra do país, quando, em 1900, não passavam de 17,7%. A saída da mulher do lar e o trabalho ao lado do homem trouxeram mudanças significativas nos costumes e hábitos sociais. Cresceram sobretudo as reivindicações por igualdade de direitos.

A maior utilização do automóvel também provocou mudanças sensíveis no comportamento cotidiano, principalmente dos jovens, que puderam manter relações mais abertas e livres, longe do controle dos pais.

* Intolerância e fanatismo. A década de 1920 também foi marcada por manifestações de crescente intolerância, fanatismo e chauvinismo entre todas as classes e em todos os setores da sociedade norte-americana.

A política do cordão sanitário imposta à Rússia fez aflorar o medo do comunismo. O exacerbado chauvinismo intensificou o anti-semitismo, e a legislação praticamente pôs fim à imigração da Europa Meridional e Oriental. Organizaram-se ainda campanhas contra católicos.

Tomava corpo uma ideologia que reconhecia como 100% norte-americanos apenas os brancos e protestantes abastados, justificando perseguições aos negros, às outras minorias raciais e aos pobres em nome da preservação de um hipotético ideal de vida norte-americano.

Passou-se a investigar o conteúdo de livros didáticos e manuais escolares, para abolir as obras que não contivessem a apropriada glorificação do passado norte-americano. Grupos paramilitares, contando com o apoio de uns e o medo de outros, dominaram virtualmente o panorama de alguns estados, sobretudo os sulinos.

Nesse contexto, surgiu, em vários estados, a temida Ku Klux Klan², organização que fazia violenta pressão em prol do norte-americano 100%. Em 1925, a organização contava com aproximadamente 5 milhões de membros, levando fanatismo, violência e corrupção onde quer que penetrasse.

Outro componente do norte-americano 100% foi a ênfase na moralização dos costumes. Surgiram, então, várias ligas que se arrogavam o direito de defender qualquer aspecto da "civilização norte-americana" considerado em perigo. De 1919 a 1933, por exemplo, proibiu-se a fabricação, venda ou transporte de bebidas alcoólicas. A chamada Lei Seca contribuiu para o aparecimento de contrabandistas de álcool, os gângsteres e suas quadrinhas, cujo representante mais famoso foi Al Capone. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.)

 Agentes de proibição destruindo barris de álcool, Chicago, 1921

¹ Na década de 1920, os Estados Unidos estavam embriagados pelo elixir da prosperidade. O mundo não tinha visto nada parecido até então. [...] A família média americana vivia melhor, comia melhor, vestia-se melhor e usufruía mais da sociedade de consumo do que qualquer família média de outra parte do mundo. Eufóricos, os norte-americanos consumiam freneticamente relógios de pulso, geladeiras, latas de ervilhas, aparelhos de barbear, enceradeiras e tudo mais que o dinheiro e o crediário pudessem comprar. Enquanto na Europa a média era de um carro para 84 pessoas, nos Estados Unidos era de um para cada seis pessoas. (CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.)

² A Klan foi organizada em 1915 pelo professor de história e pregador laico William J. Simmons. Adotou como modelo a organização de encapuzados que aterrorizava o sul do país depois da Guerra Civil. Os adeptos da Klan eram recrutados, principalmente, entre pessoas da classe média. Como só os protestantes brancos e nativos eram considerados capazes de compreender "racialmente" o norte-americanismo, a Klan deliberou a eliminação de católicos, judeus, negros e da maioria dos estrangeiros.

Referências:

CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Portais de todo prazer

Botica, Jean-Baptiste Debret

Desde a mais remota pré-história, o ser humano busca na riqueza da flora plantas que lhe possam ser úteis. Entre elas, descobre algumas que propiciam sensações especiais: seu consumo altera a consciência, o humor, a disposição, o sono. Por isso, em diversas culturas, as plantas psicoativas - como papoula, maconha ou folha de coca - ganharam importância e novos significados sociais. Muitas foram consideradas manifestações de divindades e veículos de poderes mágicos de cura, estímulo, sedação ou êxtase. O vinho, por exemplo, seria associado ao deus greco-romano Dioniso/Baco, e no cristianismo se tornaria a encarnação do sangue de Jesus, cujo primeiro milagre foi justamente a transformação da água em vinho.

Na Antiguidade, quando o que chamamos de medicina não se separava do que denominamos de religião, eram xamãs os responsáveis pelo controle dos recursos vegetais de cura e consolo. Ao longo da época clássica da Grécia e de Roma [...] a medicina tornou-se uma disciplina autônoma, e o uso das drogas um dos seus recursos mais importantes. Autores como Hipócrates e Galeno contribuíram para a teoria que ficou conhecida como medicina humoral, baseada na correspondência entre quatro elementos da natureza - água, terra, ar e fogo - e quatro humores do corpo - fleuma, bílis negra, sangue e bílis amarela. As drogas eram classificadas de acordo com seu potencial de influência sobre esses humores, corrigindo excessos ou compensando carências. Assim foi compilado um saber botânico voltado para a medicina, em , os chamados de "matéria médica" - como a farmacopeia de Dioscórides, que ficou popular na Europa ao ser publicada, no século XV, após a invenção da imprensa.

O contato com outros continentes ao final da Idade Média fez chegar à Europa grande quantidade de plantas desconhecidas, que eram usadas como produtos de luxo, chamadas de especiarias e vistas como possuidoras de virtudes quentes, por virem de regiões banhadas por muito sol. Consideradas estimulantes e até afrodisíacas, serviriam para corrigir os "males de origem fria" existentes no continente europeu. Em 1498, o português Vasco da Gama rodeou o Cabo da Boa Esperança, no sul da África, em busca de especiarias orientais, como a pimenta da Índia, a canela do Ceilão e o cravo das Ilhas Molucas. Essas substâncias foram chamadas de "drogas", uma derivação do termo holandês para produtos secos. Em 1813, o Dicionário da Língua Portuguesa Recopilada, do fluminense Antonio de Moraes Silva, definia droga como "todo o gênero de especiarias aromáticas; tintas, óleos, raízes oficiais de tinturaria, e botica. Mercadorias ligeiras de lã, ou seda". Essa utilização ampla do termo "droga" deu origem a palavras como droguete, um tipo de tecido.

A riqueza do Brasil se devia às suas "drogas e minas", segundo o jesuíta André João Antonil, em 1711. Aguardente, tabaco e depois o café tiveram papel central na história econômica do Brasil e de vários outros países, assim como o açúcar. O comércio triangular entre Europa, África e América articulava o tráfico de escravos com a mercantilização das drogas coloniais. Mas também havia a quina, a ipecacuanha, a copaíba, o guaraná... nos interiores do Brasil e na Amazônia, as drogas do sertão e da selva eram produtos de grande valor mercantil. Na bacia do rio da Prata, a erva guarani (conhecida como mate naquela região e como congonha no sudeste) articulou as missões. o Paraguai e o Paraná numa rede de produção e comércio de "ouro verde" do chimarrão. Café e tabaco tiveram sua importância consagrada ao serem escolhidos como adornos para o brasão imperial brasileiro. As duas drogas foram mantidas como símbolos nacionais no brasão da República e estão lá até hoje: o ramo florido do tabaco, o ramo frutificado do café.

Enquanto isso, a milenar papoula tornava-se o mais importante medicamento do mundo, utilizada na forma de ópio como analgésico, tranquilizante e sonífero, contra tosse e disenteria, além dos usos recreativos e até afrodisíacos. Com a Revolução Industrial, a partir do século XVIII, o chá e o café, por suas propriedades excitantes, passaram a ser associados ao aumento do desempenho dos operários, e o tabaco foi incorporado à vida cotidiana como droga de sociabilidade essencialmente masculina até o século XX, quando as mulheres também passaram a fumar. O álcool destilado, usado antes apenas como remédio, após o século XVII tornou-se a principal droga de uso recreativo no mundo.

A era da indústria farmacêutica teve início no século XIX, quando as plantas tiveram seus princípios ativos extraídos em laboratório. Fármacos puros como morfina, cocaína, cafeína e mescalina foram isolados e começaram a ser produzidos por empresas alemãs, norte-americanas e suíças, entre as mais importantes. A medicina tradicional e o uso de plantas se viram deslocados por um mercado florescente de pílulas e elixires industrializados, muitos deles com "fórmulas secretas", como as bebidas tônicas - que levavam, por exemplo, folha de coca e noz de cola, duas drogas excitantes - ou os vinhos com cocaína, usado por elites políticas, religiosas e militares. Seguiu-se uma disputa pela legalização e o controle desse mercado, com mecanismos de monitoramento, inspeção de qualidade e tributação.

Botica medieval, Magister Faragius

Dois marcos na repressão às drogas foram o controle sobre o ópio na China, realizado a partir de 1729 pela dinastia Qing, de origem manchu, e a campanha pela abstinência e proibição do álcool nos Estados Unidos do século XIX e início do XX. Esses países adotaram leis que se tornariam exemplos para políticas internacionais. Já no século XX, foi criada a distinção entre as drogas de uso médico controlado, as proibidas e aquelas consideradas lícitas, de livre acesso a homens adultos. Esses três percursos de circulação de drogas se tornaram ramos florescentes da economia contemporânea. Tanto a indústria farmacêutica e o comércio de drogas lícitas quanto o tráfico de drogas ilícitas viraram grandes impérios. A diferença é que o mercado de substâncias proibidas se faz por meios clandestinos, aumentando sua renda potencial, privando o Estado de tributos e instaurando um regime de violência e corrupção entre grupos criminosos e aparatos policiais-militares.

Na China, a proibição do ópio na primeira metade do século XIX foi a motivação imediata para duas guerras (1839-42 e 1856-60), através das quais as potências ocidentais exportadoras, especialmente a Inglaterra, impuseram o seu comércio de venda de ópio e compra de chá. O ópio foi mantido à força no comércio, mas continuou formalmente proibido. Nos Estados Unidos, a proibição do álcool começou em 1851, em estados como o Maine. Em 1920, a regra já valia para todo país, incluída na 18ª emenda à Constituição. A medida criou um mercado paralelo dominado por violentas máfias, como a de Chicago. A grave crise econômica de 1929 pressionou o Estado a voltar atrás para recuperar os impostos desse enorme comércio. No lugar do álcool, a repressão voltou-se contra substâncias ligadas a populações imigrantes - como a maconha consumida pelos mexicanos, o ópio dos chineses e a cocaína, associada aos negros.

O farmacêutico, Pietro Longhi

No nível internacional, a primeira tentativa de controle das drogas ilícitas veio em 1912, pelo acordo de Haia. Depois da Segunda Guerra Mundial, foi colocada de pé a Convenção Única de 1961, cuja ratificação foi ampliada em 1971 e 1988. O tratado tornou-se o arcabouço jurídico-institucional mundial para a "guerra contra as drogas", que pressupõe a erradicação de todos os cultivos de cannabis, coca e papoula dormideira. Mais de meio século depois, não é difícil concluir que a finalidade da Convenção continua distante de ser alcançada. O fracasso sucessivo das medidas proibitivas vem abrindo espaço para novas propostas de regulação legal das drogas por parte de diversos setores da política global. Por outro lado, cresce o mercado de antidepressivos, ansiolíticos, soníferos, estimulantes, moduladores e focalizadores psíquicos - que ampliam sua influência cultural em relação à infância, à maturidade e à velhice, consumidoras de drogas psicotrópicas específicas no imenso cardápio hoje disponível e em ampliação na pesquisa científica.

A compulsão, ligada não só às drogas como aos alimentos, às bebidas e outros consumos, é um fenômeno que tem enorme incidência na sociedade contemporânea. A maior parte das drogas é consumida de forma integrada à vida social cotidiana. A ciência psicofarmacológica está em expansão e integra o acervo da civilização humana. Seu uso é uma lição central sobre o aprendizado de nossa autodeterminação e autorregulação.

Henrique Carneio. Portais de todo prazer. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 10 / Nº 110 / Novembro 2014. p. 17-20.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 9 - A lenta urbanização]

O ouro de Minas Gerais escoava pelas trilhas do sertão, chegava à Colônia do Sacramento, nas margens do rio da Prata, e daí seguia para os portos dos dois lados do litoral do Atlântico Sul. Por vezes, ao longo dessas trilhas nasceram povoados ou vilas, articulando regiões distantes.


Vista da Lagoa do Boqueirão e do Aqueduto de Santa Teresa, ca. 1790,  Leandro Joaquim

Em seu livro clássico Evolução urbana do Brasil (1500-1720), o historiador da urbanização e arquiteto Nestor Goulart Reis Filho assim definiu os traços gerais desse início de urbanização, em que as praças das aldeias, vilas e cidades centralizavam a vida social, econômica e religiosa da colônia:

"As praças acolhiam, desde o início, muitas das principais atividades dos núcleos urbanos; realizavam-se nelas reuniões religiosas, cívicas e recreativas e atividades de comércio, como feiras e mercados. As povoações mais humildes, como as aldeias de índios ou paróquias reunidas em torno de modestas igrejas isoladas, desenvolviam grande parte de suas funções nas praças, as quais, por isso mesmo, eram sempre seus locais de maior importância e muitas vezes a origem das próprias povoações. Em princípio, em frente às igrejas, onde a população se reunia após os ofícios religiosos, abriam-se largos, capazes de acomodá-la, e frequentemente se desenvolvia o comércio, que aproveitava dessas reuniões."

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 241-2.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 5 - Lazer e entretenimento]

As vilas e cidades da colônia concentravam os recursos econômicos e humanos, além de sediarem as instituições civis e religiosas, os tribunais, o tesouro, a burocracia civil e militar. Nelas também moravam os comerciantes, advogados, escrivães e artesãos.

A praça desempenhava importante papel na vida cotidiana, pois era local de encontro e servia de mercado. Em seus tabuleiros, mulheres livres e cativas vendiam produtos perecíveis; e escravos de ganho ofereciam seus serviços. Era também o lugar onde se realizavam as cerimônias públicas, as "festas reais", a comemoração de uma coroação ou o nascimento de um herdeiro do trono, e as festas religiosas. Nela se erguiam o pelourinho e a forca, símbolos do poder do Estado.


Uma família brasileira, Henry Chamberlain

As cidades eram divididas em freguesias - jurisdições eclesiais centradas nas igrejas paroquiais, marcos da vida civil e religiosa. A igreja era ponto de encontro, onde se celebrava a missa, procedia-se aos rituais de vida e morte, às festas do santo padroeiro e onde tinham espaço ainda outras atividades. As paróquias também eram encarregadas de serviços sociais, tais como o cuidado dos doentes e dos pobres, além de outros aspectos da vida cotidiana.

O chafariz era outro ponto importante das vilas e cidades. Lá, ao abastecer-se de água, escravos, criados e homens livres pobres encontravam-se para trocar informações de todo tipo. E a população pobre - tanto livre quanto escrava - também se reunia nas tabernas, onde se vendia cachaça. Em 1650, havia mais de duzentas delas em Salvador.

A vida dos colonos era pacata. Não havia grandes diversões, além da chegada de alguma embarcação, trazendo notícias do reino, ou da celebração de festividades religiosas. As missas eram a principal recreação da população urbana. E a Igreja também era responsável pela divulgação de notícias. Naquela época, por causa da inexistência de jornais, as informações eram obtidas por intermédio dos padres ou dos funcionários metropolitanos. Não é de estranhar que os colonizadores dedicassem tanta energia e dinheiro à construção de igrejas. Nas vilas mais prósperas, as igrejas eram ricamente decoradas.

As mulheres dos senhores não participavam da escassa vida social que havia na colônia. Viviam fechadas dentro de casa e só saíam para frequentar a missa. Calcula-se que, nas minas, apenas 5% das mulheres eram chamadas de "donas" ou "senhoras".

"Por mais enfadonha que fosse a vida das senhoras brancas, ainda assim era, sob a maior parte dos aspectos, mais digna de inveja do que a de seus escravos. [...] Um despacho régio de 1º de março de 1700. denunciando a barbaridade com a qual muitos dos senhores e senhoras de escravos os tratavam, declarava que tais atrocidades se tinham iniciado nas plantações do interior, mas ultimamente se estavam espalhando pelas cidades e vilas. A Coroa condenava particularmente a vergonhosa prática de viverem as senhoras dos ganhos imorais de suas escravas, que não só eram encorajadas, mas compelidas a entregar-se à prostituição. Tal prática mostrava-se censurável extensão do hábito mais comum pelo qual as mulheres escravas tinham permissão para trabalhar por sua própria conta como cozinheiras, costureiras ou vendedoras ambulantes, contanto que pagassem aos seus donos uma quantia fixa sobre ganhos diários ou semanais."

Nas camadas inferiores da população, muitas mulheres livres trabalhavam para garantir a sobrevivência e o sustento de suas famílias: eram cabeças da casa. A prostituição era meio de vida comum para as mulheres pobres. O casamento não era comum entre a população livre, pois, entre outras razões, a Igreja cobrava muito para formalizá-lo. As pessoas viviam juntas, mas não casavam. Enfim, a colônia não oferecia outras possibilidades de suprir as necessidades básicas dessa camada da população.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 236-7.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: o modelo burguês de família

O último baile, Aurélio de Figueiredo

A concepção burguesa de família se implantou no Brasil no decorrer do século XIX. Foi durante esse período que a sociedade brasileira assimilou, de alguma maneira, as ideias liberais europeias e os progressos tecnológicos da Revolução Industrial. Esse modelo burguês de família obrigou, pela primeira vez no país, a uma clara delimitação no meio urbano entre o espaço privado e o espaço público. Essa família burguesa tinha como uma das suas características a intimidade.

Enquanto a família patriarcal é numerosa, estendida, a família burguesa se caracteriza por um triângulo básico: a esposa, o marido e os filhos.

Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, Almeida Júnior

Aqui o modelo burguês de família encontrou uma realidade completamente diferente da europeia, na qual nasceu. No Brasil do período imperial, predominava o mundo rural, o escravismo e o latifúndio exportador. Não havia aqui uma aristocracia com hábitos mais modernos, nem uma classe burguesa, nem uma urbanização acentuada.

[...]

Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil e a posterior emancipação política, houve um incremento da vida urbana e uma assimilação de hábitos europeus pelas nossas classes dominantes. O comportamento das elites portuguesas que acompanharam a família real influenciou uma mudança de hábitos dessas classes. As famílias importantes do meio rural passaram a ter sua casa na cidade, particularmente no Rio de Janeiro. Iam para o Rio para que os filhos pudessem estudar, para tratar de negócios, participar da vida social urbana e se aproximar do centro do poder.

Esse comportamento aristocrático trazido pela elite portuguesa pode ser resumido na noção de mundanismo. Vida mundana seria aquela voltada para os prazeres do mundo, frequentando teatros, espetáculos, bailes e saraus. Admirar obras de arte, ter uma vida social intensa, praticando o jogo do amor e da conquista, faziam parte do estilo de vida mundano.


Leitura, Almeida Júnior

O mundanismo rompeu com a moralidade rígida, com o ideal de vida criado pelo cristianismo, marcado pela recusa ao prazer.

Esse novo estilo de vida arrancou esposas e filhas da clausura do lar, permitindo que elas tivessem uma vida mais livre: sair às comprar, seguir a moda europeia, frequentar teatros e cafés, ler romances de folhetim.

Se o mundanismo trouxe a mulher da família patriarcal para fora de casa, a concepção burguesa de família, à medida que tomava força, a conduziu de volta ao lar.

A concepção burguesa de família, que começou a se firmar no Brasil durante o período imperial, teve como um dos seus principais veículos as recomendações e práticas dos médicos higienistas.

[...]

Entre os diferentes temas abordados pelos higienistas, muitos estavam relacionados à mulher e à família: puberdade feminina, menstruação, relações sexuais, prostituição e higiene da primeira infância. Os papéis e os comportamentos da mulher, dentro e fora do cenário familiar, passaram a ser preocupações médicas. A influência desses especialistas aumentava quando eles tinham funções públicas ou políticas importantes, como chefes de sanatórios, diretores de hospitais, deputados e senadores.

Na concepção de família proposta no trabalho desses especialistas, a mulher teria um importante papel. Ela seria um misto de ama, enfermeira, professora e administradora das despesas da casa. Nesse novo papel, ela seria a rainha do lar.

Retrato de Senhora, Henrique Bernardelli

A mãe dedicada e atenciosa era um ideal de mulher que só podia ser plenamente atingido na família burguesa, Os cuidados e a supervisão da mãe passaram a ser muito valorizados. Era louvável que as próprias mães se encarregassem da primeira educação dos filhos, não os deixando sob os cuidados de amas, principalmente de escravas negras.

Dessa forma os médicos, os educadores e a própria imprensa procuraram preparar a mulher para o papel de guardiã do lar e da família. Combatia-se duramente o ócio feminino, sugerindo que as mulheres se dedicassem de corpo e alma aos afazeres domésticos e se desdobrassem nos cuidados para com o marido e os filhos.

Fiel retrato do interior de uma casa brasileira, Joaquim Cândido Guillobel

[...]

Considerada como a base moral da sociedade, a mulher de "boa família", esposa e mãe burguesa, deveria ainda zelar pela sua castidade e pela das suas filhas.

A par dessas recomendações às mulheres das elites, o Estado desencadeou uma série de ações para controlar as camadas populares. Isso era feito em nome da saúde, da segurança e da moralidade. A ordem pública contribuiria para a preservação da honra das mulheres pertencentes às classes médias e altas da população.

Nesse modelo burguês de família, o casamento era usado como um meio de ascensão social. A mulher casada tinha também a função de contribuir para a mobilidade social da sua família. Isso podia ser feito através de um comportamento adequado quando ela aparecia em público ou quando recebia visitas. Nessas ocasiões tinha de desempenhar o papel de esposa e mãe exemplar. Suas filhas, como moças de boa família, poderiam encontrar bons casamentos, contribuindo para a ascensão social da família.

Essa mulher estava, portanto, destinada ao casamento. As que não se casavam melhor seria que fossem para um convento, preservando assim, o "bom nome" da família.

Nesse tipo de casamento, estava presente o interesse de conservar e ampliar o patrimônio econômico da família e mesmo a sua influência política. Tanto que a mulher tinha de ter um dote, o qual se confundia com a própria honra da pretendente ao casamento. Em outras palavras, a moça sem dote não podia ser honrada.

As moças candidatas ao casamento deviam aparecer sempre bem cuidadas e manter a castidade. Isso exigia rigoroso controle sobre o comportamento delas.

Família brasileira a passeio, Joaquim Cândido Guillobel

Conservar a honra da família era também zelar pelos seus interesses políticos e econômicos. A virgindade feminina era requisito fundamental para o casamento nas classes altas, independentemente de ser ou não valorizada por si mesma. Ela servia para manter a condição da noiva como objeto de valor econômico e político. A continuidade da família e a herança dos descendentes dependiam dela.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 248-251.