"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Sociedade matriarcal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sociedade matriarcal. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de abril de 2017

A sociedade primitiva matriarcal

“[...] enquanto caçam, as mulheres cortam as peles dos animais selvagens que elas cozinham com nervos, furam conchas, dentes, seixos, fazem colares e adornos e se tingem de ocre vermelho – a cor mágica que afasta o perigo.

Vênus de Willendorf.
Foto Mathias Kabel

As tarefas que a mulher executa assim junto do fogo lhe dão uma função essencial: ela conserva os objetos da propriedade e assegura, com sua fecundidade, a prosperidade do clã, cuja força depende do número de braços. Esse duplo encargo dá à mulher uma tal autoridade que a sociedade primitiva repousa no matriarcado.

Para venerar a fecundidade da mulher, os homens reproduzem-lhe a imagem em estatuetas de marfim, e nas paredes das cavernas esses caçadores de mamutes traçam, junto a desenhos de animais, mãos humanas – poder secreto das mãos que se assenhoreiam das coisas. [...] Para os ritos dos cultos, que cavam seus templos em profundos subterrâneos, aperfeiçoa-se a pintura mural. Seu realismo vai até à procura do efeito: a magia suscitou o gênio artístico dos homens, ávidos de tornarem a caça frutuosa e suas mulheres fecundas. O gesto e o grito: dança e canto onde sempre se exprimirá, primeiro, a emoção humana, passando do realismo à abstração.”


RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Ediores, 1964. p. 9-10.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios

Tohunga sendo alimentado no tapu (sagrado/proibido), Gottfried Lindauer. 

Os melanésios encontravam-se num estágio de civilização que recordava o período neolítico adiantado. Fisicamente mais evoluídos, de barba rala, o nariz mais reto, as arcadas supraciliares raramente proeminentes, usavam enfeites mais rebuscados: tatuagens para as mulheres, pinturas no corpo para os homens, deformação da cabeça ou da cintura, descoloração dos cabelos, ou pintura com ocre, colares e braceletes feitos de dentes e de conchas, plumas ou flores nos cabelos.

Seus utensílios eram mais aperfeiçoados: achas de pedra polida, facas de conchas, limas em pele de raia, sovelas de ouro, armas variadas, compreendendo arcos e fundas. Eram principalmente excelentes marinheiros que sabiam construir e dirigir grandes pirogas e também hábeis agricultores que, com um simples pau para revolver a terra, cultivavam inhame e taro. Conheciam o sistema monetário, baseado em plumas ou em dentes, eram ávidos de lucro e alguns faziam belas fortunas, emprestando a um juro de 100%.

Sua sociedade era matriarcal. Eram os tios quem mandavam nos filhos da irmã. Os homens comiam e dormiam numa espécie de clube da aldeia e os dois sexos viviam quase sempre separados. O casamento fazia-se por compra e os ricos eram polígamos.

O Estado político era democrático, mas as sociedades secretas desempenhavam grande papel e nestas só os ricos, que podiam despender grandes somas e dar festas, ascendiam aos graus superiores. Estas sociedades aterrorizavam os não-iniciados por meio de agressões, multas e até a morte.

Suas crenças religiosas eram vivas, embora, ao mesmo tempo, de um nível inferior às dos outros povos precedentes, menos civilizados. Acreditavam no mana, virtude sobrenatural transmissível. Um bom pescador possuía o mana. Para triunfar em qualquer coisa era preciso mana, e este podia conseguir-se através da magia. Algumas formas de mana eram perigosas. Nessa altura o tabu (interdição) era lançado sobre as pessoas, os objetos ou os lugares que o possuíam. Todos eram animistas, isto é, acreditavam na existência de espíritos difundidos nas pedras, nas árvores, nas serpentes, em toda parte. Mas não se elevavam ao politeísmo; acreditavam na sobrevivência dos espíritos dos mortos. Entregavam-se a preces, sacrifícios, cantos ritmados e talhavam na madeira a figura do antepassado que participaria na vida de seus descendentes.

Os micronésios assemelhavam-se-lhes muito, embora num grau um pouco mais elevado. Navegadores notáveis, os seus comerciantes realizavam longas viagens em pirogas de balancim, servindo-se de mapas feitos de canos de bambu. Tinham uma nobreza e servos. Os navegadores mais peritos eram recompensados com a concessão de feudos. Certas ilhas haviam atingido o politeísmo e possuíam um rico panteão, dominado por um Deus.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 376-377 (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.