"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Inglaterra, século XVIII: Céus e chãos

Humores de uma eleição, cena 3: A sondagem. William Hogarth

Inglaterra, século XVII: tudo subia.

Subia a fumaça das chaminés das fábricas,
subia a fumaça dos canhões vitoriosos, 
subia a maré dos sete mares dominados pelos cem mil marinheiros do rei inglês,
subia o interesse dos mercados por tudo o que a Inglaterra vendia e subiam os juros do dinheiro que a Inglaterra emprestava.

Qualquer inglês, por mais ignorante que fosse, sabia que ao redor de Londres giravam o mundo e o sol e as estrelas.

Mas William Hogarth, o artista inglês do século, não se tinha distraído contemplando os esplendores de Londres no alto do universo. As baixuras o atraíam mais que as alturas. Em suas pinturas e gravuras, tudo caía. Arrastavam-se pelo chão os bêbados e as garrafas,
as máscaras rasgadas,
as espadas quebradas,
os contratos rasgados,
as perucas,
os espartilhos,
a roupa íntima das damas,
a honra dos cavaleiros,
os votos comprados pelos políticos,
os títulos de nobreza comprados pelos burgueses,
os baralhos das fortunas perdidas,
as cartas do amor mentido
e o lixo da cidade.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 146-7.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Queremos outro tempo

Cenas de julho de 1830, Léon Cogniet

Ao longo de três dias, em 1830, seis mil barricadas transformaram a cidade de Paris em campo de batalha, e derrotaram os soldados do rei.

E quando esse dia virou noite, a multidão crivou, a pedradas e a bala, os relógios: os grandes relógios das igrejas e de outros templos do poder.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 241. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As consequências da grande guerra 2: os efeitos sobre os espíritos

Soldados mortos, László Mednyánszky

A guerra, seus problemas e suas conseqüências também produziram efeitos sobre o espírito público, conseqüências de ordem intelectual, moral, psicológica e ideológica. Talvez sejam até as mais profundas e duradouras; algumas ainda se fazem sentir na véspera do segundo conflito mundial. [...]

A guerra abalou o respeito aos valores tradicionais. A Europa liberal, a Europa democrática, repousava num pequeno número de postulados fundamentais, admitidos universalmente, que foram, de repente, reexaminados. O espetáculo da matança prolongada e generalizada projeta uma sombra sobre o otimismo do século XIX, sobre a confiança das gerações precedentes na próxima instauração de uma sociedade melhor, mais livre e mais justa.

Em segundo lugar, os sacrifícios suportados, a tensão imposta e o esforço de guerra provocam uma reação de compensação, o desejo de recuperar os anos perdidos, de tomar uma desforra contra tantos sofrimentos. É o apetite de gozo que os escritores concordam em descrever como característico da década de 1920. Não nos deixemos, contudo, iludir por testemunhos parciais e não generalizemos indevidamente. Tendemos amiúde a extrapolar a partir de situações muito localizadas: o mesmo erro nos apresenta toda a França do Diretório entregue aos prazeres das “merveilleuses” e dos “muscadins”, ou a Europa depois de 1945 adotando o existencialismo de Saint-Germain-des-Prés. A descrição não se aplica às aldeias nem aos burgos. Em compensação, o apetite de gozo, a busca do prazer e do luxo, que se estadeiam nas capitais, contribuíram para a desmoralização do país.

A provação da guerra desenvolve efeitos de sentidos contrários. É o que se constata em dois exemplos: a religião e o patriotismo.

No tocante à religião, a provação despertou com freqüência o sentimento religioso ou a inquietação metafísica sobre o sentido do destino humano; a guerra provocou inúmeros retornos à prática, foi causa de uma onda de conversões. Ao mesmo tempo, porém, pelo escândalo que representa, pelo desmedido permanente da fraternidade do Evangelho e por se haverem deixado as Igrejas, em todos os países, envolver no esforço da guerra, esta divorciou da fé um sem-número de espíritos.

No tocante à ideia nacional, idêntica dualidade de conseqüências psicológicas e ideológicas. De um lado, a guerra e seus malefícios estimularam o pacifismo: parte da opinião pública consagra-lhe um horror instintivo, insuperável; a literatura do após-guerra é pacifista, numa reação contra a publicidade mentirosa e a propaganda bélica, e descreve os horrores, as atrocidades ou a monotonia das trincheiras. A guerra estimulou o internacionalismo: para impedir-lhe o retorno, todos estão prontos para todas as experiências, para todas as soluções. O exemplo dado pelos bolchevistas e o derrotismo revolucionário comunicam ao antimilitarismo, ao pacifismo e ao internacionalismo tradicional uma intensidade sem precedentes. A aspiração à paz, talvez a aspiração fundamental da Europa do após-guerra, explica as negociações para o desarmamento, a confiança nas instituições internacionais, a simpatia pela Sociedade das Nações, o Pacto Briand-Kellog, que, em 1928, colocará a guerra fora da lei, e o que o nome de Briand simbolizará para a opinião pública francesa.

Por outro lado, todavia, as lembranças de guerra, a decepção gerada pela derrota ou, entre os vencedores, por resultados considerados inferiores aos sacrifícios aceitos, exasperam o amor próprio e o orgulho nacional. É um dos componentes do espírito do “ex-combatente”: dele procederão os regimes totalitários. Uma das razões de queixa articuladas contra a democracia pelo fascismo na Itália, pelo nacionalismo na Alemanha e pelos regimes congêneres é que ela sacrificou a honra e o interesse nacionais, permitiu que se dilapidassem as conquistas do esforço de guerra ou até, no caso da Alemanha, apunhalou o exército pelas costas.

Em toda a parte, a guerra engendra reações contraditórias: aspiração à ultrapassagem dos particularismos nacionais e exasperação desses mesmos particularismos. Em 1920, nos Estados Unidos, o redespertar do isolacionismo leva os republicanos à Casa Branca. O Congresso põe em vigor uma legislação neutralista e adota leis que restringem a imigração.

RÉMOND, René. O Século XX. De 1914 aos nossos dias. São Paulo: Cultrix, 1993. p. 42-43. (Introdução à história de nosso tempo 3).

domingo, 1 de janeiro de 2017

As consequências da grande guerra 1: as subversões sociais

Campo de mortos, Albin Egger-Lienz


"Nós, as civilizações, sabemos agora que somos mortais...”
(Valery)

A guerra teve sobre a ordem social e as relações entre grupos sociais conseqüências incalculáveis, que não se terão exaurido em 1939.

Em primeiro lugar, a guerra criou um tipo social novo: o do ex-combatente. Dezenas de milhões de homens voltam aos lares, marcados por quatro anos de guerra; e, entre eles, estabelece-se uma solidariedade de sentimentos e interesses. Há, doravante, uma mentalidade de “ex-combatente”, feita de altivez, fidelidade à lembrança dos mortos, apego à unidade (unidos como no front) e hostilidade instintiva às divisões partidárias, aos políticos e às instituições parlamentares. É também um poderoso grupo de pressão e até mesmo, em certos casos, uma força política, quando o mal-entendido entre o regime e os antigos combatentes atinge certo grau de gravidade.

Do social passamos então ao político. Na França, várias ligas recrutam partidários entre os ex-combatentes: é o caso, por exemplo, das Cruzes-de-Fogo (Croix-de-feu). Na Alemanha, o Capacete de Aço, os ex-combatentes das tropas irregulares, que depois de 1919 prosseguiram numa luta sem esperanças contra os poloneses ou nos países bálticos, e o partido nacional-socialista jogam com a solidariedade dos ex-combatentes. Na Itália, o fascismo também buscará inúmeros adeptos entre os antigos combatentes.

Ao lado dessa conseqüência direta, a guerra e a inflação conjugadas precipitaram evoluções, acentuaram desigualdades ou disparidades na escala social, beneficiaram grupos, prejudicaram outros, acusaram discordâncias e envenenaram relações.

A guerra enriqueceu produtores e intermediários, fabricantes de guerra, comerciantes. É o fenômeno dos novos-ricos, que ocupa um lugar tão proeminente na imprensa e na literatura do após-guerra; toda uma fauna de aproveitadores, muitas vezes improvisados fornecedores de guerra, embora nada os tivesse preparado para fabricar granadas ou sapatões para o exército, e que são os descendentes dos municionários de antanho. Não tem melhor reputação do que seus antepassados: toda a gente embirrava com eles por haverem ganho dinheiro em detrimento dos que se deixavam matar. O sucesso material dessa categoria de industriais de guerra, mercadores que especularam e traficaram, obriga ao reexame das crenças tradicionais na superioridade do trabalho, na virtude da poupança, e abala a estabilidade dos valores que constituíam o decálogo da moral liberal e burguesa do século XIX.

No outro campo, no campo dos empobrecidos, das vítimas da guerra e da inflação, figuram todos os que, tendo rendas fixas, não as puderam reavaliar e sofreram o contragolpe da depreciação monetária. É o caso dos rendeiros, tão numerosos na França, na Bélgica e na Inglaterra no século XIX: muitas pessoas viviam apenas do que lhes rendiam suas parcas propriedades. A mobilização da poupança pelo mecanismo da obrigação bolsista e dos fundos do Estado multiplicara os rendeiros. Atingidos pelos efeitos da depreciação monetária, são vítimas também da bancarrota dos Estados em que tinham confiado e aos quais haviam emprestado suas economias. A Revolução Russa engole os bilhões que a França entregou à Rússia desde 1890 e que eram a contrapartida da aliança militar franco-russa. A caixa otomana já não está em condições de garantir os pagamentos. Na Hungria, na Bulgária, o desmembramento dos Estados e a queda dos regimes arruínam milhões de pequenos poupadores. Calcula-se que há na França cerca de dois milhões de portadores de fundos estrangeiros. Os que, no princípio da guerra, num rasgo de patriotismo, também haviam levado seu ouro ao Estado para garantir os empréstimos e tinham recebido, em troca, simples pedaços de papel, estão agora sem recursos.

Nos países vencidos, a situação dessas categorias sociais é ainda agravada pela revolução política: o caso extremo é o da Rússia, em que elas se acham juridicamente despojadas do seu emprego e das suas rendas. Grande número delas vê-se reduzido a emigrar: o fenômeno da emigração social e política assume certa amplitude. Os russos brancos, às dezenas de milhares, vêm fixar-se nos países da Europa ocidental, que acolhe uma população flutuante de apátridas, desapossados de sua nacionalidade, que não têm nem solicitam a do país que os acolheu, e para os quais é preciso imaginar uma fórmula jurídica nova: a do passaporte Nansen, que lhes dá um estado civil.

Tampouco se poupou o mundo rural: em conjunto, a agricultura foi uma das vítimas da guerra e da inflação. Ao contrário do que acontecerá na Segunda Guerra Mundial, caracterizada pela penúria e pelo mercado negro, os preços dos produtos agrícolas não seguem o ritmo da inflação; os preços dos cereais e dos outros produtos da terra permanecem bem aquém dos preços dos produtos industriais. A guerra acelerou o êxodo rural. As necessidades da indústria de guerra, das manufaturas de armamentos, criaram uma convocação de mão-de-obra; toda uma população desarraigada, arrancada ao seu gênero de vida habitual, à sua aldeia, procura trabalho e alojamento.

A Europa do após-guerra conhece uma grave crise de habitação, mormente nos países em que a derrota acentua o fenômeno; o caso mais típico é o da Áustria, cuja capital, Viena, abriga, sozinha, uma quarta parte da população total do país.

A guerra dissociou as estruturas tradicionais. Acarretou a extensão do trabalho das mulheres, ou melhor, já que a proporção não mudou tanto, a modificação dos setores: a mão-de-obra feminina, até então empregada nas tarefas domésticas, começa a trabalhar nas fábricas.

Todas essas subversões explicam que o fim da guerra tenha dado novo impulso a uma intensa pressão de agitação social. Os anos de 1919 a 1921, ou 1922, conforme os países, são marcados, até entre os vencedores, por uma efervescência de caráter revolucionário. O descontentamento social é atiçado pelo exemplo da revolução russa, revezada, por sua vez, pelas revoluções que afetam a Europa Central, a Hungria, a investida espartacista na Alemanha, as jornadas de insurreição de Berlim e de Munique. A onda de greves que avassala a Europa não poupa país algum; a França vive em 1920 uma situação de greve quase geral, que paralisa os transportes e os grandes setores industriais; a Itália conhece, além disso, uma agitação agrária.

Mercê dessa agitação, a classe operária obtém, de início, algumas conquistas sociais, como o dia de oito horas na França (1919). Mas o movimento, que provoca a profunda inquietação dos ricos e das classes médias, temerosos da bolchevização da Europa, não tarda a abortar. Em toda a parte se teme que os países venham a cair nas mãos do comunismo. Por isso mesmo, a agitação acaba deflagrando um fenômeno de reação contrária.


RÉMOND, René. O Século XX. De 1914 aos nossos dias. São Paulo: Cultrix, 1993. p. 37-40. (Introdução à história de nosso tempo 3).

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Diabo é vermelho

Destruição em Granollers após a incursão 
alemã em 31 de maio de 1938. 
Foto de Winifred Bates

Melilla, verão de 1936: desata-se o golpe de estado contra a república espanhola.

O pano de fundo ideológico será explicado, depois, pelo ministro de Informação, Gabriel Arias Salgado:

- O Diabo mora num poço de petróleo, em Baku, e de lá manda instruções aos comunistas.

O incenso contra o enxofre, o Bem contra o Mal, os cruzados da Cristandade contra os netos de Caim. É preciso acabar com os comunistas, antes que os comunistas acabem com a Espanha: os presos têm um vidão, os professores expulsam os padres das escolas, as mulheres votam como se fossem varões, o divórcio profana o matrimônio sagrado, a reforma agrária ameaça o poder da Igreja sobre as terras...

O golpe nasce matando, e desde o começo é muito expressivo,

Generalíssimo Francisco Franco:

- Salvarei a Espanha do marxismo ao preço que for.
- E se isso significa fuzilar meia Espanha?
- Custe o que custar.

General José Millán-Astray:

- Viva a morte!

General Emilio Mola:

- Qualquer um que seja, aberta ou secretamente, defensor da Frente Popular, deve ser fuzilado.

General Gonzaço Queipo de Llano:

- Preparai as sepulturas!

Guerra Civil é o nome do banho de sangue que o golpe de Estado desata. A linguagem põe, assim, o signo da igualdade entre a democracia que se defende e o golpe militar que a ataca, entre os milicianos e os militares, entre o governo eleito pelo voto popular e o caudilho eleito pela mercê de Deus.


GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 270-1.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Condições de vida do operário industrial

Engels via os trabalhadores amontoados como ratos em suas moradas apertadas, famílias inteiras - e às vezes mais de uma família - socadas num único cômodo, os sãos junto aos doentes, adultos junto às crianças, parentes próximos dormindo juntos, às vezes sem camas, por terem sido obrigados a vender todos os móveis para serem queimados como lenha, às vezes em porões úmidos de onde se tirava água aos baldes quando chovia, às vezes vivendo no mesmo cômodo que os porcos comendo farinha misturada com gesso e chocolate misturado com terra, intoxicados por carne impregnada de ptomaína, drogando a si próprios e a seus filhos doentios com láudano: vivendo sem esgotos, em meio a seus próprios excrementos e lixo, vitimados por epidemias de tifo e cólera, que por vezes chegavam até os bairros mais prósperos.

Mulheres e crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Inglaterra, 1830. Artista desconhecido.

A demanda crescente de mulheres e crianças nas fábricas fazia com que muitos chefes de família se tornassem desempregados crônicos, prejudicava o crescimento das meninas, facilitava o nascimento de filhos de mães solteiras e ao mesmo tempo obrigava as jovens mães a trabalharem grávidas ou antes de se recuperarem plenamente do parto, terminando por encaminhar muitas delas à prostituição. As crianças, que começavam a trabalhar nas fábricas aos 5 ou 6 anos de idade, recebiam pouca atenção das mães, que também passavam o dia inteiro na fábrica, e nenhuma instrução de uma sociedade que só queria delas que executassem operações mecânicas. Quando as deixavam sair das verdadeiras prisões que eram as fábricas, as crianças caíam exaustas, cansadas demais para lavar-se ou comer, quanto mais estudar ou brincar - às vezes cansadas demais até para ir para casa. Também nas minas de ferro e carvão, mulheres e crianças, juntamente com os homens, passavam a maior parte de suas vidas rastejando em túneis estreitos debaixo da terra, e, fora deles, viam-se presas nos alojamentos da companhia, à mercê da loja da companhia, sofrendo atrasos no pagamento do salário de até duas semanas. Cerca de mil e quatrocentos mineiros morriam por ano quando se partiam cordas apodrecidas, quando desabavam túneis devido à escavação excessiva dos veios, quando ocorriam explosões devido à ventilação deficiente ou à negligência de uma criança exausta: e os que escapavam de acidentes catastróficos morriam de doenças dos pulmões. Por sua vez, os habitantes do interior, que com a industrialização perderam sua antiga condição de artesãos, pequenos proprietários e arrendatários de quem, mal ou bem, os grandes proprietários cuidavam - esses haviam sido transformados em diaristas sem eira nem beira, por quem ninguém era responsável, e que eram castigados com a prisão ou a deportação se, em épocas de necessidade, roubavam e comiam a caça das terras dos grandes proprietários.

Crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Artista desconhecido

Para Engels, parecia que o servo medieval, que ao menos estava fixo à terra e ocupava uma posição definida na sociedade, estivera em melhor situação que o operário industrial. Naquela época em que as leis de proteção aos trabalhadores praticamente ainda não existiam, os antigos camponeses e trabalhadores braçais da Inglaterra, e até mesmo a antiga pequena burguesia, estavam sendo levados para as minas e as fábricas, tratados como matéria-prima para os produtos a serem fabricados, sem que ninguém se importasse nem mesmo com o problema do que fazer com o refugo humano gerado pelo processo. Nos anos de depressão, o superávit de mão-de-obra, que era tão útil nos anos em que a economia ia bem, era despejado nas cidades: estas pessoas tornavam-se mascates, varredores, lixeiros ou simplesmente mendigos - viam-se às vezes famílias inteiras mendigando nas ruas - e, o que era quase igualmente comum, prostitutas e ladrões. Thomas Malthus - dizia Engels - afirmara que o aumento de população estava sempre pressionado os meios de subsistência, de modo que era necessário que grande número de pessoas fossem exterminadas pela miséria e pelo vício; e a nova legislação referente aos pobres havia posto em prática essa doutrina, transformando os asilos de indigentes em prisões tão desumanas que os pobres preferiam morrer de fome pelas ruas.

WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 132-133.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A bomba de Hiroxima

Mulher e criança estátua, Yasuko Yamagata

 Às 8 h 15 min da manhã de 6 de agosto de 1945. um relâmpago de luz tão brilhante como o sol explodindo cruzou o céu de Hiroxima. Numa flama branca de calor e fogo, milhares de seres vivos vaporizaram-se na morte; muitos outros milhares ficaram sofrendo e morrendo lentamente; a mais horrorosa era humana havia começado.

Até mesmo a 3,5 quilômetros de distância do centro da explosão, todos os edifícios foram reduzidos a destroços, e os soldados de um destacamento japonês que estivera trabalhando numa colina cavando um abrigo subterrâneo, saíram do interior da terra, feridos e estonteados, com sangue a correr dos rostos, costas e peitos. A manhã estivera muito límpida, mas o sol fora subitamente encoberto por uma imensa nuvem negra em forma de cogumelo, que se elevava da infeliz Hiroxima e pairava no céu, tapando tudo num espaço de vários quilômetros. A manhã fora calma e agradável, porém agora grandes rajadas de vento começaram a soprar, rodopiando loucamente em todas as direções, aumentando e espalhando-se cada vez mais, atiçando os incêndios e destruindo tudo com indomável fúria. Uma simples centelha era suficiente para incendiar um edifício inteiro, envolvendo-o num lençol de chamas, um redemoinho de ar escaldante apoderara-se da subitamente esquelética cidade; e, mesmo a quilômetros de distância, a explosão abalara profundamente os sobreviventes, cobrindo-os de cinzas.

Criança queimada, Yamashita Masato

Os refugiados, os mais afortunados e os moribundos foram saindo de Hiroxima, cambaleando e até de rastos, e procuraram abrigo num parque dos arredores. As suas roupas haviam-se convertido em farrapos, e a pele de suas mãos e rostos, horrivelmente queimada, deixara-os em carne viva, quase todos eles estavam mortalmente enfermos, não parando de vomitar ou de soltar queixumes angustiosos. No parque, cerca de vinte soldados, talvez membros de uma unidade antiaérea, estavam deitados no chão, num grupo imóvel, símbolo do horror. Haviam olhado para o céu, no momento em que a bomba explodira e, agora, caídos por terra, continuavam olhando para cima com os olhos esvaziados e mortos.

O último drinque, Ono Kiaki

Os inválidos e os feridos arrastavam-se lentamente pelo parque, como animais letalmente atingidos, morrendo em grupos compactos entre os arbustos. Começou então a chover pesadamente, e um vento terrível soprou assustadoramente por toda a região uma tempestade de força devastadora. Assaltou o parque, árvores enormes foram arrancadas do solo e as mais frágeis voaram pelos ares como se fossem folhas de papel. O cataclismo era horrendo e total.

Brilho da noite sobre Hiroxima, Asai Kiyoshi

O horror durou todo o dia e toda a noite, e ainda todo o dia seguinte. Hiroxima, que às 8 h 14 min da manhã fora uma cidade de 245 000 pessoas, convertera-se às 8 h 15 min num intolerável e negro necrotério para os 100 000 mortos, desaparecidos e moribundos; e das suas fumigantes e prostradas ruínas outros 100 000 haviam fugido; muitos deles levando consigo as sementes da morte prematura da radiação, do câncer e da leucemia. A era atômica nascera à custa de toda a humanidade.

Essa foi a sua origem, no mais verdadeiro dos sentidos, pois a bomba atômica que explodimos sobre Hiroxima foi a mais rudimentar e elementar de todas as armas da nova era da ciência nuclear. As bombas da Segunda Guerra Mundial  - que haviam causado tanta devastação em Londres, Roterdã, Hamburgo e Berlim - tinham apenas 2 000 libras de poder explosivo. A bomba atômica de Hiroxima explodiu com a tremenda força de 20 000 toneladas de TNT. Mas atualmente a bomba de Hiroxima já é antiquada e insignificante no arsenal da guerra, tal como tornara antiquada as bombas da Segunda Guerra Mundial.

COOK, Fred J. O Estado Militarista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 296-297.

domingo, 1 de maio de 2016

A arte como arma de guerra

"O que vocês pensam que seja um artista? Um imbecil feito só de olhos, se é pintor, ou de ouvidos, se é músico, ou de coração em forma de lira, se é poeta, ou mesmo feito só de músculos, se se trata de um pugilista? Muito ao contrário, ele é ao mesmo tempo um ser político, sempre alerta aos acontecimentos tristes, alegres, violentos, aos quais reage de todas as maneiras. Não: a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra para operações de defesa e ataque contra o inimigo".

Essas foram as palavras de Pablo Picasso (1881-1973), que pintou, em 1937, a obra de nome Guernica. Ela refere-se aos horrores da guerra e à brutalidade do bombardeio aéreo realizado por aviões alemães sobre a capital basca de mesmo nome.

A obra cumpre um duplo papel: o de representar um acontecimento histórico e o de ser um acontecimento histórico, pois é uma intervenção da cultura na luta política.

Guernica, em 26 de abril de 1937, tinha sido severamente bombardeada por aviões alemães, postos à disposição de Franco, ditador líder do governo espanhol, aliado de Hitler. Dos 7 mil habitantes da cidade, 1.654 morreram e 889 ficaram feridos. O massacre teve como objetivos a submissão do País Basco e a demonstração da nova técnica bélica alemã, o bombardeamento de saturação, que seria depois usado em larga escala na Segunda Guerra Mundial. Este consistia em usar técnicas modernas e científicas para maximizar os danos e o número de vítimas nos bombardeios e para facilitar o avanço das unidades de infantaria. Os motivos do bombardeio eram claros: serviriam de exemplo para os bascos e para todos aqueles que se opusessem aos alemães e a seus aliados.

Picasso assume uma posição ofensiva. Por meio da pintura de Guernica, não pretende apenas mostrar os horrores da guerra, mas, com uma nova estética, obrigar a humanidade a sentir-se co-responsável - se não por participação direta, por submissão - pela carnificina realizada contra o povo basco.

Pintada no estilo cubista, em uma tela de 3,50 m x 7,28 m, Guernica impressiona pelas figuras fragmentadas, em tons de cinza, branco e preto.

O que mais se destaca no quadro é a ausência de cores ou de relevo, duas das principais qualidades sensíveis com as quais percebemos a natureza. Não perceber a natureza é cortar as relações que se tem com ela e com a vida. Com isso só resta a morte.

Outra característica da obra é uma crise na forma, que é a representação máxima de uma civilização. A forma que reconhecemos e admiramos é produto da cultura de nossa civilização; quando esta entra em crise, representa uma crise na própria civilização.

Estas características mostram como o autor entende a sociedade em que vive e suas transformações em seus aspectos mais gerais. Já o conteúdo representa as especificidades do acontecimento, pelos símbolos presentes na obra. Símbolos como o touro, clara referência à Espanha, impassível diante do massacre ocorrido; o desespero do homem e da mulher em lados opostos do quadro, sendo que o primeiro vê sua casa destruída pelas chamas¹ e a segunda chora pelo filho morto².

¹ Guernica (detalhe), Pablo Picasso

² Guernica (detalhe), Pablo Picasso

PEDRO, Antônio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 396-7.

terça-feira, 5 de abril de 2016

A resistência dos operários ingleses no século XIX: a luta pelos direitos

Uma noite de greve / Bandeira vermelha, Eugène Laermans

Os trabalhadores não aceitavam passivamente as condições de trabalho que lhes eram impostas e, com o apoio de alguns intelectuais, lutaram para obter melhorias que consideravam justas - como, por exemplo, uma jornada mais curta. Organizando-se em associações e sociedades, tentaram levar suas reivindicações ao Parlamento.

O sapateiro Thomas Hardy, um dos fundadores da Sociedade Londrina de Correspondência inaugurada em 1792, assim rememora uma das reuniões de seus membros:

"Após terem jantado pão, queijo e cerveja, como de hábito, e fumado seus cachimbos, com um pouco de conversa sobre a dureza dos tempos e o alto preço de todas as coisas necessárias à vida [...] veio à tona o assunto que ali os reunia - a Reforma Parlamentar -, um tema importante a ser tratado e liberado por tal tipo de gente." (Apud E. P. Thompson, op. cit., p. 16.)

A participação no Parlamento era importante para garantir direitos de cidadania aos trabalhadores. Diferentemente da ação das turbas, cuja atuação era ocasional, essas organizações promoviam discussões regulares dos temas políticos e econômicos da época. Apesar da constante repressão do governo sobre os reformadores, que se reuniam na clandestinidade, até 1824 as associações de trabalhadores cresceram de maneira expressiva.

Na primeira década do século XIX, a Inglaterra não era ainda uma democracia, tal como a entendemos hoje. Apesar do desenvolvimento econômico que alcançara, os direitos políticos continuavam restritos a uma minoria. A maior parte das pessoas não podia votar, e muitas das cidades que se haviam formado com o processo de industrialização não tinham o direito de ser representadas no Parlamento. Os trabalhadores também não podiam eleger representantes - por isso frequentemente recorriam aos motins e protestos de rua para expressar suas reivindicações. E, por fim, o Parlamento, composto pela Câmara dos Lordes e pela Câmara dos Comuns, defendia somente os interesses dos aristocratas e dos ricos comerciantes.

[...]

Diversas pessoas, na época, acreditavam que as máquinas fossem a causa do desemprego e dos baixos salários. Em 1812, trabalhadores liderados por Ludd, um aprendiz de Midland, destruíram a maquinaria têxtil e revoltaram-se contra os patrões e o sistema de trabalho na fábrica, dando início a um movimento de luta contra as mudanças nas técnicas produtivas. Apavorados com os atentados à propriedade, os membros do Parlamento impuseram medidas repressivas contra as organizações de trabalhadores, tentando vencê-los com a ameaça da força. Como a destruição das máquinas não resolvia seus problemas, os trabalhadores, por sua vez, partiram em busca de outras estratégias.

A greve dos mineiros de Pas de Calais, 1906, Le Petit Journal

Inúmeras petições foram sendo enviadas ao Parlamento, contendo reivindicações de melhores salários e jornadas mais curtas. Algumas concessões foram feitas, mas como nem sempre eram postas em prática os trabalhadores passaram a organizar-se em favor do direito de voto, a fim de eleger seus próprios representantes.

Ao final das guerras napoleônicas, os ingleses que haviam lutado retornavam ao seu país e não encontravam emprego nas indústrias, o que aumentou ainda mais a tensão social. Em Saint Peters Fields, perto de Manchester, reformistas radicais se reuniram em 1819 para discutir mudanças na legislação eleitoral. A polícia interrompeu a reunião e muitos dos participantes sofreram dura repressão; alguns foram mortos, outros, feridos.

Em 1832 o Parlamento ampliou o sufrágio para 200 mil votos, dobrando o número de eleitores. Os trabalhadores, entretanto, continuaram excluídos do processo eleitoral, o que os levou a unirem-se às camadas médias da sociedade inglesa, iniciando revoltas para exigir representação parlamentar. Esse movimento de rebeldia, conhecido como cartismo (1830-1840), reivindicava sufrágio universal para os homens, votação secreta, remuneração dos membros eleitos para a Câmara dos Comuns a fim de que os deputados pobres pudessem se manter, renovação anual do Parlamento, igualdade entre os distritos eleitorais e fim da exigência de propriedade para os candidatos. Exceto a renovação anual do Parlamento, todas as outras exigências aos poucos foram sendo atendidas, e o movimento cartista extinguiu-se.

Greve, Stanislaw Lentz

A via eleitoral não assegurava, em absoluto, melhores condições de vida para os trabalhadores. Na segunda metade do século XIX, o movimento dos trabalhadores tomara outros rumos. O sindicalismo surgiu como força de organização da classe trabalhadora, possibilitando a formulação de novas estratégias na luta pela conquista de direitos. Em 1824, foi votada uma lei que dava aos operários o direito de livre associação, favorecendo a legalização das associações clandestinas.

As organizações de trabalhadores se espalharam pela Inglaterra, dotando os operários de um grande poder de negociação. Engels afirma, em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, que "os seus fins eram fixar o salário, negociar em massa, enquanto potência, com os patrões, regulamentar salários em função do lucro do patrão, aumentá-lo na altura propícia e mantê-lo ao mesmo nível para cada ramo do trabalho".

As reivindicações incluíam também uma escala de salário que deveria ser respeitada em toda a Inglaterra e um limite à admissão de aprendizes, a fim de evitar concorrência com os operários qualificados e, assim, a redução dos salários.

Fazia parte da elite inglesa a chamada burguesia evangélica, que tentava difundir seu ideal de vida familiar estável tanto entre os aristocratas quanto entre os operários. Nessa família burguesa idealizada, o espaço de atuação da mulher restringia-se à esfera doméstica, conforme se depreende da análise da historiadora Catherine Hall:

"Os evangélicos e utilitaristas empreenderam um enorme esforço de moralização dos pobres através da família. Em todo o país, instituições do ensino, escolas dominicais, sociedades filantrópicas difundiam as concepções burguesas da separação entre os sexos." (Sweet home. In: Phillippe Ariès, Georges Duby, dirs. História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 71.)

Alguns setores sindicais, como o de mineração, também não viam com bons olhos o trabalho feminino, que eles consideravam depreciador do salário. Dessa maneira, operários e burgueses evangélicos, por motivos diferentes, concordavam em que era necessário manter as mulheres no universo doméstico.

Na década de 1840, ainda segundo Catherine Hall:

"[...] a comissão nomeada para investigar o trabalho infantil nas minas ficou assombrada e horrorizada ao ver as condições de trabalho das mulheres. Além do mais, elas trabalhavam ao lado de homens, sem estarem inteiramente vestidas como deveriam. Era uma afronta à moral pública, que ameaçava de ruína a família operária. Lançou-se uma campanha inspirada pelos evangélicos, para proibir que as mulheres trabalhassem nas minas." (Op. cit., p. 81.)

Segundo os preceitos dessa moral burguesa, as mulheres deveriam limitar-se a exercer as funções femininas "naturais": cozinhar, costurar, limpar e cuidar de crianças. Até mesmo alguns líderes operários, que supostamente deveriam defender melhores condições de trabalho para ambos os sexos, reivindicavam o chamado salário familiar, com o intuito de evitar que as mulheres trabalhassem.

A greve na região de Charleroi, Robert Koehler

A condição dos trabalhadores chegou a sensibilizar até mesmo aqueles que não compartilhavam a mesma situação econômica. Na Inglaterra, o evangelismo religioso difundiu-se e entrou em choque com o pensamento liberal, contribuindo para que parte das classes média e alta refletisse sobre as péssimas condições de vida da época industrial.

As informações e dados estatísticos publicados pelo governo britânico davam conta da gravidade da situação. Os debates que encaminhavam a abolição da escravidão nas colônias do Império, em 1830, possibilitaram comparações com as condições de trabalho na própria Grã-Bretanha. Assim, embora de maneira limitada, algumas reformas foram introduzidas nas áreas de saúde pública, higiene, moradia, educação, legislação criminal e fabril.

Alguns capitalistas, como Robert Owen, aceitavam e incentivavam as reformas parlamentares. Por iniciativa própria, tentaram formar dentro de suas fábricas uma organização com base na cooperação. Outros se opunham às reformas parlamentares, defendendo o liberalismo e afirmando que a interferência da legislação nos negócios particulares prejudicava o comércio e a indústria. Entretanto, os dados da produção industrial não confirmam tal argumentação: na segunda metade do século XIX, a Grã-Bretanha produziu oito vezes mais algodão do que nas duas primeiras décadas do século; no mesmo período, a produção de carvão mineral teve um aumento significativo, e a produção de ferro-gusa chegou a corresponder à metade da produção mundial.

Mas, se ao longo do século a situação dos trabalhadores melhorou sensivelmente, é certo que as contradições trazidas pelo sistema industrial jamais desapareceriam, O pensador inglês Thomas Carlyle afirmou:

"Temos mais riquezas do que qualquer nação teve antes e temos menos bem-estar do que qualquer nação teve antes [...] em meio à abundância pletórica, o povo perece." (Apud John Linch et alli. A força da iniciativa. Rio de Janeiro: Time-Life/Abril Livros, 1992. p. 72.)

A riqueza continuava concentrada, e a grande maioria da população permanecia excluída dos privilégios sociais e políticos.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 315-18.

sábado, 2 de abril de 2016

A resistência dos operários ingleses no século XIX: as condições de vida e trabalho

Emigrantes (detalhe), Eugène Laermans

A produção agrícola na Inglaterra, antes destinada apenas à subsistência, transformou-se numa produção voltada para o mercado. Segundo o historiador E. P. Thompson, a lei de mercado da oferta e da procura, não fazia parte da mentalidade popular. Tanto nas comunidades rurais como nas urbanas, a principal referência de preço era o pão, e quando este subia gerava descontentamento popular.

"O século XVIII e o início do século XIX são pontuados por motins ocasionados pelos preços do pão, pelos pedágios e portagens, impostos de consumo, resgates, greves, nova maquinaria, fechamento das terras comunais, recrutamentos e uma série de outras injustiças." (A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. v. 1. p. 64.)


Emigrantes (detalhe), Eugène Laermans

A população mais pobre resistia ao aumento dos preços. Os trabalhadores combatiam os açambarcadores e monopolistas que especulavam sobre os preços dos cereais e de outros alimentos básicos. Um panfleto que circulou na região de Retford em 1795 anunciava o conflito:

"Aqueles vilões cruéis, os moleiros, padeiros, etc. vendedores de farinha, sobem a farinha em combinação entre eles ao preço que querem para provocar Fome Artificial numa terra de Fartura." (Apud E. P. Thompson, op. cit., p. 70.)

Os levantes do povo amotinado tentavam preservar uma antiga moralidade segundo a qual açambarcamento e monopólio eram considerados atos criminosos. O descontentamento com as mudanças decorrentes da industrialização levou a uma ação que, embora de maneira assistemática, originou as primeiras formas de organizações reivindicatórias dos trabalhadores.

O avanço tecnológico e o aumento na produção de riquezas acentuaram a diferença entre ricos e pobres. As cidades cresciam desordenadamente, e os serviços públicos básicos, como saneamento e abastecimento de água, não acompanhavam o crescimento da população. O resultado eram epidemias frequentes. Até o final do século XVIII, apenas Edimburgo e Londres tinham população acima de 50 mil habitantes, mas nos primeiros anos do século seguinte oito cidades já haviam alcançado esse número. Na segunda metade do século XIX, a maioria dos ingleses morava em áreas urbanas.

As cidades iam adquirindo contornos definidos pelo fascínio do lucro. Praças públicas, passeios e parques surgiam sem planejamento, na construção de um espaço onde o tempo era direcionado prioritariamente para se ganhar dinheiro. Manchester, Leeds, Liverpool, a despeito da riqueza industrial, seriam lembradas pelos seus cortiços lúgubres e superlotados, pelos seus becos infectos e pela pobreza. Escritores como Charles Dickens mencionaram essa miséria em suas obras, revelando a outra face do lucro e da industrialização. Essa contradição também é assinalada por Tocqueville, ao escrever sobre Manchester: "Desse pútrido escoadouro flui a maior corrente de energia humana para fertilizar o mundo todo. Dessa cloaca imunda, o puro ouro flui".


Emigrantes (detalhe), Eugène Laermans

O depoimento de F. Engels, economista e teórico do socialismo, é bastante interessante:

"Um dia andei por Manchester com um desses cavaleiros da classe média. Falei-lhe das desgraçadas favelas insalubres e chamei-lhe a atenção para a repulsiva condição daquela parte da cidade em que moravam trabalhadores fabris. Declarei nunca ter visto uma cidade tão mal construída em minha vida. Ele ouviu-me pacientemente e na esquina da rua onde nos separamos comentou: 'E ainda assim, ganham-se fortunas aqui. Bom dia, senhor.'" (A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Porto: Afrontamento, 1975.)

A promiscuidade descrita pelos contemporâneos não se limitava às condições de moradia dos pobres; também existia nas fábricas, geradoras de riquezas, onde mulheres, homens e crianças trabalhavam até dezesseis horas por dia. O depoimento do garoto Thomas Clark, num documento de 1883, também revela a crueldade do sistema fabril:

"Sempre nos batiam se adormecíamos [...] O capataz costumava pegar uma corda da grossura de meu polegar, dobrá-la, e dar-lhe nós [...] Eu costumava ir para a fábrica um pouco antes das 6, por vezes às 5, e trabalhar até às 9 da noite." (Apud Leo Huberman. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. p. 151.)




Trabalho árduo: pesados vagonetes cheios de carvão eram arrastados nas galerias estreitas e escuras das minas. Gravuras do século XIX

As pausas para descanso eram raras. Os trabalhadores tinham que se adaptar e seguir o ritmo das máquinas, sob pena de receberem multas. No caso das crianças, se houvesse atrasos, a punição podia se dar na forma de espancamento. A disciplina do sistema fabril e sua divisão "racional" do trabalho exigiam movimentos monótonos e repetitivos.

Segundo Engels, algumas crianças que trabalhavam no setor metalúrgico de Birmingham ficavam sem se alimentar das 8 horas da manhã até as 7 da noite. Em Sheffield, onde se encontrava o setor de cutelaria, um médico observou:

"A melhor maneira de mostrar com clareza a nocividade deste ofício é afirmar que são os bebedores que vivem mais tempo, porque são os que mais faltam ao trabalho. Ao todo, há 2 500 amoladores em Sheffield. Cerca de 150 (80 homens e 70 rapazes) são amoladores de garfos, que morrem entre os 28 e os 32 anos. Os amoladores de navalhas, que tanto trabalham a seco como na pedra úmida, morrem entre os 40 e os 50 anos, e os amoladores de facas de mesa, que trabalham na pedra úmida, morrem entre os 40 e os 50 anos." (Apud F. Engels, op, cit., p. 255-6.)


Ludistas quebrando máquinas, Cris Sunde

Segundo o historiador Eric Hobsbawn, como os trabalhadores "não assimilavam espontaneamente esses novos costumes, tinham de ser forçados por disciplinas e multas [...] e por salários tão baixos que somente a labuta incessante e ininterrupta os fazia ganhar o suficiente para sobreviver, sem prover o dinheiro que os afastasse do trabalho por mais tempo que o necessário para comer, dormir e - como se tratava de um país cristão - orar no Dia do Senhor."

Como a economia industrial oscilava entre períodos de crescimento e de recessão, nem mesmo os trabalhadores das fábricas tinham estabilidade no emprego. Ao lado disso, as inovações tecnológicas acarretavam aumento da pobreza para os trabalhadores que estavam fora do sistema fabril. Diz Hobsbawn:

"Os 50 mil tecelões manuais constituem o exemplo mais conhecido, mas não foram eles os únicos. Tornavam-se cada vez mais famintos e, numa tentativa vã de competir com as novas máquinas, trabalhavam cada vez mais barato." (Da Revolução Industrial ao imperialismo. Rio de Janeiro: Forense - Universitária, 1986. p. 87.)

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 313-15.

terça-feira, 8 de março de 2016

Nagasáqui, 9 de agosto de 1945

Um relatório japonês sobre as bombas caracterizou Nagasaki "como um cemitério sem uma única lápide de pé". Cpl. Lynn P. Walker, Jr.

Às 11h02 min do dia 9 de agosto de 1945, explodiu sobre Nagasáqui a segunda bomba atômica lançada sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial (a primeira fora lançada antes sobre Hiroshima). Paulo Nagai, médico japonês que estava em Nagasáqui na hora da explosão, ficou ferido, mas ainda assim prestou os primeiros socorros aos sobreviventes. O relato a seguir é de sua autoria:

"Todos me chamavam ao mesmo tempo: eram doentes do hospital que tinham sobrevivido, ou melhor, não tinham ainda morrido... Como a explosão se dera na hora de maior movimento, na hora que funcionava o ambulatório para doentes externos, os corredores, as salas de espera, os laboratórios, eram um amontoado de corpos, corpos nus de feridas expostas, corpos nus com a pele em tiras, corpos nus que pareciam de argila pela cinza que aderira a eles. Espetáculo tão tremendo, que não se podia imaginar que se tratasse de seres humanos, nem que semelhante quadro pudesse jamais existir... Dessa alucinante massa de carne, arrastavam-se lentamente aqueles em que existia ainda um sopro de vida; cercavam-me, agarravam-me as pernas: 'Salve-me, doutor' - gemiam eles. Alguns, impossibilitados de falar, exibiam apenas as suas chagas.

[...] Vinte minutos tinham se passado depois da explosão. Toda a região de Urakami ardia em grandes labaredas. O próprio centro do hospital já pegara fogo. Somente a ala direita, ao longo da colina, permanecia intacta. Mas não tínhamos mais material ou ajudantes; era deixar se propagar o incêndio e contemplar o espetáculo medonho: corpos nus cambaleando, tropeçando, continuavam a escalar a colina para fugir da fornalha. Duas crianças passaram, arrastando o pai morto. Uma mulher jovem corria, apertando contra o peito o filho decapitado. Um casal de velhos, mãos dadas, subiam juntos, lentamente. Outra mulher, com as vestes repentinamente ateadas, rolou pela colina abaixo como uma bola de fogo. Um homem enlouquecera e dançava em cima de um telhado, envolto em chamas. Alguns fugitivos voltavam-se a cada passo, enquanto outros caminhavam firme para a frente, apavorados demais para voltar. [...] Por detrás desta gente, as labaredas avolumadas aproximavam-se cada vez mais. Felizes ainda eram esses 10% que escaparam do inferno; os outros, presos e soterrados sob escombros, morriam queimados vivos.

[...] A pressão imediata foi tamanha que, no raio de um quilômetro, todo ser humano que se encontrava do lado de fora, ou num local aberto, morreu instantaneamente ou dentro de poucos minutos. A quinhentos metros da explosão, uma jovem mãe foi encontrada com o ventre aberto, seu futuro bebê entre as pernas. Muitos cadáveres perderam suas entranhas. A setecentos metros, cabeças foram arrancadas e, por vezes, os olhos saltaram das órbitas. Alguns, em consequência de hemorragias internas, estavam brancos como folhas de papel, os crânios fraturados deixavam destilar o sangue pelos ouvidos. O calor chegou a tal violência que, a quinhentos metros, os rostos foram atingidos a ponto de ficarem irreconhecíveis. A um quilômetro, as queimaduras atômicas tinham dilacerado a pele, fazendo-a cair em tiras, dando-lhe um tom marrom avermelhado e deixando à vista a carne sangrenta. A primeira impressão não foi, segundo parece, a de calor, mas a de dor intensa, seguida de frio excessivo. A pele levantada era frágil e saía facilmente. A maioria das vítimas morria com rapidez."

NAGAI, Paulo. Os sinos de Nagasáqui. São Paulo: Flamboyant, 1956. In: DIAS JÚNIOR, José Augusto; ROUBICEK, Rafael. O brilho de mil sóis: história da bomba atômica. São Paulo: Ática, 1994. p. 48-9.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Paris, primavera de 1832

Barricadas na rua Soufflot em 24 de junho de 1848, Horace Vernet

"[...] O que vamos contar, podemos dizer: vimo-lo. Mudaremos alguns nomes porque a História conta e não denuncia; mas pintaremos coisas verdadeiras.

[...] Paris, na primavera de 1832 [...] estava havia muito preparada para uma comoção. Como já temos dito, a grande cidade assemelha-se a uma peça de artilharia; quando está carregada, basta que de qualquer parte caia uma faísca para que ela dispare. Em julho de 1832, a faísca foi a morte do general Lamarque.

A sua morte, já esperada, era temida pelo povo como uma perda e pelo governo como uma ocasião propícia. Aquela morte foi um luto. O luto, como tudo o que é amargo, pode tornar-se revolta. Foi o que sucedeu.

[...] A 5 de junho, pois, dia entremeado de chuva e de sol, atravessou Paris o cortejo fúnebre do general Lamarque, com a pompa militar oficial, um tanto aumentada por precaução. Dois batalhões [...], dez mil homens da guarda nacional e as suas baterias de artilharia escoltavam o funeral. O coche ia puxado por moços. Logo atrás, iam os oficiais [...]. Depois ia a multidão inumerável, agitada, desconhecida [...], as escolas de direito e de medicina, os refugiados de todas as nações [...], rapazes agitando ramos verdes, canteiros e carpinteiros que não tinham trabalho, impressores [...] soltando gritos, quase todos agitando paus e alguns brandindo espadas. [...] Nas janelas, em cima dos telhados, era prodigiosa a quantidade de cabeças de homens, de mulheres e de crianças, com a aflição nos olhos. Era uma multidão assustada, vendo passar uma multidão armada.

O governo pela sua parte observava tudo. [...] O poder, inquieto, tinha suspensos sobre a multidão ameaçadora vinte e quatro mil soldados na cidade e trinta mil nos arredores.

[...] Os dragões avançavam passo a passo, silenciosos com as pistolas nos coldres, as espadas nas bainhas, as carabinas nos arções e com ar de sombria expectativa. A duzentos passos da ponte pequena fizeram alto. [...] Neste momento tocavam-se os dragões e a multidão. As mulheres fugiam cheias de terror.

O que ocorreria naquele minuto fatal? Ninguém poderia dizê-lo. Era o momento tenebroso do encontro de duas nuvens. [...] Foram inesperadamente disparados três tiros. [...] E de repente viu-se um esquadrão de dragões desembocar, a galope e de espadas em punho, varrendo o que achava no caminho.

Então acabaram-se as hesitações, a tempestade desencadeia-se, chovem as pedras, sucedem-se as descargas de fuzilaria, muita gente precipita-se para a base da encosta [...]. Os carabineiros avançam, os dragões acutilam, a multidão dispersa-se em todas as direções, o rumor de guerra repercute nos quatro ângulos de Paris. Todos gritam: Às armas! Correm, caem, fogem, resistem. [...]

Não há coisa alguma mais extraordinária do que o primeiro movimento de uma revolta. Tudo explode ao mesmo tempo e em toda a parte. Era coisa prevista? Era. Estava preparada? Não. De onde saiu aquilo? Das ruas. [...]

Não tinha ainda passado um quarto de hora e repetia-se ao mesmo tempo, em vinte pontos de Paris. [...] Nas margens direita e esquerda, nos cais, nas ruas e avenidas viam-se homens, afogueados, operários, estudantes, lendo proclamações e gritando às armas, quebrando lampiões, desaparelhando os veículos, descalçando as ruas, arrombando as portas das casas, arrancando as árvores, entrando nas adegas e rolando para fora as pipas, amontoando as pedras da calçada, lajes, tábuas e fazendo barricadas."

HUGO, Victor (1802-1885). Os miseráveis. 1862. São Paulo: Edigraf, 1957. 4ª parte, livro 10º , cap. II-IV. p. 673-8.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Os anglo-saxões e os "outros" povos no fim do século XIX

Por toda a parte, o preconceito racial impede a união dos anglo-saxões com os homens de cor; raramente notamos a superação do preconceito e o tratamento na base de igualdade.

Na América do Norte havia homens de alta estatura, nariz aquilino, cabelos negros e lisos, pele amarela, denominados impropriamente peles-vermelhas ou índios pelos imigrantes. Pescadores de salmão e caçadores de caribu no nordeste, caçadores de bisão e agricultores no centro (a civilização do milho surge entre os Grandes Lagos e as Rochosas centrais), sedentários no sudeste: uma grande variedade de organizações políticas, desde a tribo isolada até as grandes confederações guerreiras. Talvez um milhão de "selvagens" no início.

A velha trilha do búfalo, 1900. Henry F. Farny

A alternativa é o transplante ou o morticínio. O colono não terá descanso enquanto não for resolvida esta dificuldade da fronteira. Em seguida, intervém a lei de 1897, objetivando a participação mediante concessões definitivas de terras, pela melhoria das condições higiênicas e pela instrução: a última revolta é de 1890; o último "território índio" desaparece em 1905. Os sobreviventes - menos de meio milhão - curvam-se à lei comum ou confinam-se nas "reservas".

Os emigrantes, 1902-1906. Frederic Remington

Polinésio de origem, feroz e artista, o Maori também só se submeteu à autoridade neozelandesa após lutas encarniçadas. Cultiva o milho e a batata em terras indivisas, adota de bom grado os trajes europeus, converte-se ao cristianismo e aprende a falar o inglês.

Povos aborígenes pescando e acampando em Merri Creek, 1864. Charles Troedel

De natureza suave mas miserabilíssimos, os primitivos australianos viram-se repelidos para os desertos, longe das zonas abundantes em caça. Verdadeiras caçadas com matilhas foram contra eles organizadas pelos brancos, com o auxílio de uma polícia negra. Não constituem, atualmente, mais do que uma minoria, insignificante pelo número, mas digna de interesse para o cientista.

Família aborígene viajando, 1925. W.A. Cawthorne

Os europeus haviam chegado à África Austral, enquanto as migrações das tribos bantos continuavam, fora da zona intertropical, do lado das montanhas e dos altos planaltos, livres da mosca tsé-tsé, próprios à criação de gado e ricos em caça. As longas e mortíferas guerras cafres testemunham a resistência à ocupação branca. Mas, à medida que se enfraquece esta resistência armada, mais numerosos são os negros que se submetem às condições impostas pelos brancos; a exploração das minas aumenta ainda o contingente dos proletários de cor. Os mais penosos ofícios atraem, aliás, os hindus e os malaios, tratados da mesma maneira e considerados intrusos pelos outros elementos. O receio das raças, por eles exploradas e consideradas inferiores, não contribui pouco para, finalmente, aproximar bôeres e britânicos.

Uma inquietude da mesma natureza brota entre os australianos frente aos asiáticos, chineses na maioria, pouco numerosos, sem dúvida, mas hábeis no comércio, nos pequenos ofícios e mesmo na agricultura. Já em 1855, esta inquietude suscita as primeiras restrições à entrada de amarelos; um homem público neozelandês qualifica sua concorrência como "suja, contrária à natureza, injusta".

Encontra-se idêntica preocupação entre os americanos do oeste, relativamente ao afluxo dos chineses. Estes surgiram por ocasião do rush aurífero: agências recrutavam-nos em Macau e Hong-Kong, empregavam-se nas oficinas das estradas de ferro. Mas eram afamados cozinheiros e domésticos, procurados para limpeza da roupa branca, aptos para a criação do bicho-da-seda e perspicazes comerciantes. Violando um acordo com a China, a Califórnia não hesita, em 1882, em proibir sua imigração, medida que foi aprovada pela Corte Suprema. Mais tarde a legislação ocupar-se-á dos japoneses.

Livre desde a Guerra de Secessão, o negro americano tornou-se em princípio, um cidadão como os outros. Mas a escravatura e a sangrenta discórdia deixam traços e lembranças tenazes. Durante a era da "reconstrução" vingadora, os homens da Secessão reorganizam-se, respondem com a violência e a intimidação a algumas violências cometidas pelos antigos escravos (trata-se da época do Ku-Klux-Klan), reconquistam suas legislaturas e limitam o mais possível os direitos concedidos aos homens de cor pelas emendas à Constituição. Assim vivem as duas raças lado a lado, uma sempre imbuída de sua superioridade e hostil à qualquer mistura, submetendo a outra a humilhante segregação. Embora o número de negros diminua relativamente à população total (12% em 1890, contra 14% em 1860 e perto de 20% em 1790), seu total eleva-se ainda, trinta anos após a guerra civil, a 6 milhões e meio, aos quais devemos acrescentar cerca de um milhão de mulatos. E esta minoria tende, inicialmente, a agrupar-se na região do Golfo do México: segregação geográfica que agrava a outra.

Vida de negro no sul, ca. 1870. Eastman Johnson

Os negros, em sua maioria, voltaram a trabalhar nas explorações, como locatários ou como jornaleiros. [...]

Niggers plant de cotton
Niggers pick it out
White man pocket money
Niggers go without.

Missus in de big manse
Mammy in de yard
Missus holding her white hands
Mammy workin' hard.

White man in starched shin
Setten in de shade
Laziest man God ever made.

As catadoras de algodão, 1876. Winslow Homer 

Delineia-se um movimento, é verdade, tendo por fim permitir aos negros uma melhor defesa de suas possibilidades na batalha social. Uma elite pode, graças à instrução, dedicar-se a profissões liberais. Em 1882, o homem de cor é admitido no corpo médico, em 1889 na advocacia. Por vezes baja-se o êxito nos negócios, torna-se comprador de imóveis e de bens de raiz, que aluga, por sua vez. O apostolado de educadores, dos quais o mais célebre, Bugre Washington, funda a universidade negra de Tuskegee, principia a dar frutos por volta de 1900. Mais numerosos, porém, são os que deixam a terra para tentar fortuna entre os brancos de outras regiões; e o racismo, longe de perder sua virulência, expande-se com eles. Seja como for, o mundo americano está todo penetrado desta presença ao mesmo tempo indesejável e inevitável; não poderá evitar, no jazz, a dívida ao folclore africano e a exibição de boxadores da raça desprezada.

SCHNERB, Robert. O Século XIX: as civilizações não-eruopeias. o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 30-32 e 35.