"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 30 de abril de 2017

A reportagem mais prestigiosa

Vercingetórix joga suas armas aos pés de Júlio César, Lionel Royer

Júlio César foi correspondente de guerra de suas próprias campanhas.

Ele mesmo se encarregou de escrever, para a posteridade, o muito meticuloso relato de suas façanhas.

Sua obra mais famosa se chama Comentários sobre a Guerra Gálica. O tempo transformou em clássico essa exaltação dos méritos militares do autor, que não prestou atenção alguma aos sacrifícios de seus soldados, que jamais se queixavam nem se cansavam.

Júlio César, imperador e deus, repórter de si mesmo, consagrou todo o seu talento literário à homenagem dessa invasão que matou um milhão de gauleses e condenou os sobreviventes à escravidão.

GALEANO, Eduardo. O caçador de histórias. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 123.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As consequências da grande guerra 2: os efeitos sobre os espíritos

Soldados mortos, László Mednyánszky

A guerra, seus problemas e suas conseqüências também produziram efeitos sobre o espírito público, conseqüências de ordem intelectual, moral, psicológica e ideológica. Talvez sejam até as mais profundas e duradouras; algumas ainda se fazem sentir na véspera do segundo conflito mundial. [...]

A guerra abalou o respeito aos valores tradicionais. A Europa liberal, a Europa democrática, repousava num pequeno número de postulados fundamentais, admitidos universalmente, que foram, de repente, reexaminados. O espetáculo da matança prolongada e generalizada projeta uma sombra sobre o otimismo do século XIX, sobre a confiança das gerações precedentes na próxima instauração de uma sociedade melhor, mais livre e mais justa.

Em segundo lugar, os sacrifícios suportados, a tensão imposta e o esforço de guerra provocam uma reação de compensação, o desejo de recuperar os anos perdidos, de tomar uma desforra contra tantos sofrimentos. É o apetite de gozo que os escritores concordam em descrever como característico da década de 1920. Não nos deixemos, contudo, iludir por testemunhos parciais e não generalizemos indevidamente. Tendemos amiúde a extrapolar a partir de situações muito localizadas: o mesmo erro nos apresenta toda a França do Diretório entregue aos prazeres das “merveilleuses” e dos “muscadins”, ou a Europa depois de 1945 adotando o existencialismo de Saint-Germain-des-Prés. A descrição não se aplica às aldeias nem aos burgos. Em compensação, o apetite de gozo, a busca do prazer e do luxo, que se estadeiam nas capitais, contribuíram para a desmoralização do país.

A provação da guerra desenvolve efeitos de sentidos contrários. É o que se constata em dois exemplos: a religião e o patriotismo.

No tocante à religião, a provação despertou com freqüência o sentimento religioso ou a inquietação metafísica sobre o sentido do destino humano; a guerra provocou inúmeros retornos à prática, foi causa de uma onda de conversões. Ao mesmo tempo, porém, pelo escândalo que representa, pelo desmedido permanente da fraternidade do Evangelho e por se haverem deixado as Igrejas, em todos os países, envolver no esforço da guerra, esta divorciou da fé um sem-número de espíritos.

No tocante à ideia nacional, idêntica dualidade de conseqüências psicológicas e ideológicas. De um lado, a guerra e seus malefícios estimularam o pacifismo: parte da opinião pública consagra-lhe um horror instintivo, insuperável; a literatura do após-guerra é pacifista, numa reação contra a publicidade mentirosa e a propaganda bélica, e descreve os horrores, as atrocidades ou a monotonia das trincheiras. A guerra estimulou o internacionalismo: para impedir-lhe o retorno, todos estão prontos para todas as experiências, para todas as soluções. O exemplo dado pelos bolchevistas e o derrotismo revolucionário comunicam ao antimilitarismo, ao pacifismo e ao internacionalismo tradicional uma intensidade sem precedentes. A aspiração à paz, talvez a aspiração fundamental da Europa do após-guerra, explica as negociações para o desarmamento, a confiança nas instituições internacionais, a simpatia pela Sociedade das Nações, o Pacto Briand-Kellog, que, em 1928, colocará a guerra fora da lei, e o que o nome de Briand simbolizará para a opinião pública francesa.

Por outro lado, todavia, as lembranças de guerra, a decepção gerada pela derrota ou, entre os vencedores, por resultados considerados inferiores aos sacrifícios aceitos, exasperam o amor próprio e o orgulho nacional. É um dos componentes do espírito do “ex-combatente”: dele procederão os regimes totalitários. Uma das razões de queixa articuladas contra a democracia pelo fascismo na Itália, pelo nacionalismo na Alemanha e pelos regimes congêneres é que ela sacrificou a honra e o interesse nacionais, permitiu que se dilapidassem as conquistas do esforço de guerra ou até, no caso da Alemanha, apunhalou o exército pelas costas.

Em toda a parte, a guerra engendra reações contraditórias: aspiração à ultrapassagem dos particularismos nacionais e exasperação desses mesmos particularismos. Em 1920, nos Estados Unidos, o redespertar do isolacionismo leva os republicanos à Casa Branca. O Congresso põe em vigor uma legislação neutralista e adota leis que restringem a imigração.

RÉMOND, René. O Século XX. De 1914 aos nossos dias. São Paulo: Cultrix, 1993. p. 42-43. (Introdução à história de nosso tempo 3).

domingo, 1 de janeiro de 2017

As consequências da grande guerra 1: as subversões sociais

Campo de mortos, Albin Egger-Lienz


"Nós, as civilizações, sabemos agora que somos mortais...”
(Valery)

A guerra teve sobre a ordem social e as relações entre grupos sociais conseqüências incalculáveis, que não se terão exaurido em 1939.

Em primeiro lugar, a guerra criou um tipo social novo: o do ex-combatente. Dezenas de milhões de homens voltam aos lares, marcados por quatro anos de guerra; e, entre eles, estabelece-se uma solidariedade de sentimentos e interesses. Há, doravante, uma mentalidade de “ex-combatente”, feita de altivez, fidelidade à lembrança dos mortos, apego à unidade (unidos como no front) e hostilidade instintiva às divisões partidárias, aos políticos e às instituições parlamentares. É também um poderoso grupo de pressão e até mesmo, em certos casos, uma força política, quando o mal-entendido entre o regime e os antigos combatentes atinge certo grau de gravidade.

Do social passamos então ao político. Na França, várias ligas recrutam partidários entre os ex-combatentes: é o caso, por exemplo, das Cruzes-de-Fogo (Croix-de-feu). Na Alemanha, o Capacete de Aço, os ex-combatentes das tropas irregulares, que depois de 1919 prosseguiram numa luta sem esperanças contra os poloneses ou nos países bálticos, e o partido nacional-socialista jogam com a solidariedade dos ex-combatentes. Na Itália, o fascismo também buscará inúmeros adeptos entre os antigos combatentes.

Ao lado dessa conseqüência direta, a guerra e a inflação conjugadas precipitaram evoluções, acentuaram desigualdades ou disparidades na escala social, beneficiaram grupos, prejudicaram outros, acusaram discordâncias e envenenaram relações.

A guerra enriqueceu produtores e intermediários, fabricantes de guerra, comerciantes. É o fenômeno dos novos-ricos, que ocupa um lugar tão proeminente na imprensa e na literatura do após-guerra; toda uma fauna de aproveitadores, muitas vezes improvisados fornecedores de guerra, embora nada os tivesse preparado para fabricar granadas ou sapatões para o exército, e que são os descendentes dos municionários de antanho. Não tem melhor reputação do que seus antepassados: toda a gente embirrava com eles por haverem ganho dinheiro em detrimento dos que se deixavam matar. O sucesso material dessa categoria de industriais de guerra, mercadores que especularam e traficaram, obriga ao reexame das crenças tradicionais na superioridade do trabalho, na virtude da poupança, e abala a estabilidade dos valores que constituíam o decálogo da moral liberal e burguesa do século XIX.

No outro campo, no campo dos empobrecidos, das vítimas da guerra e da inflação, figuram todos os que, tendo rendas fixas, não as puderam reavaliar e sofreram o contragolpe da depreciação monetária. É o caso dos rendeiros, tão numerosos na França, na Bélgica e na Inglaterra no século XIX: muitas pessoas viviam apenas do que lhes rendiam suas parcas propriedades. A mobilização da poupança pelo mecanismo da obrigação bolsista e dos fundos do Estado multiplicara os rendeiros. Atingidos pelos efeitos da depreciação monetária, são vítimas também da bancarrota dos Estados em que tinham confiado e aos quais haviam emprestado suas economias. A Revolução Russa engole os bilhões que a França entregou à Rússia desde 1890 e que eram a contrapartida da aliança militar franco-russa. A caixa otomana já não está em condições de garantir os pagamentos. Na Hungria, na Bulgária, o desmembramento dos Estados e a queda dos regimes arruínam milhões de pequenos poupadores. Calcula-se que há na França cerca de dois milhões de portadores de fundos estrangeiros. Os que, no princípio da guerra, num rasgo de patriotismo, também haviam levado seu ouro ao Estado para garantir os empréstimos e tinham recebido, em troca, simples pedaços de papel, estão agora sem recursos.

Nos países vencidos, a situação dessas categorias sociais é ainda agravada pela revolução política: o caso extremo é o da Rússia, em que elas se acham juridicamente despojadas do seu emprego e das suas rendas. Grande número delas vê-se reduzido a emigrar: o fenômeno da emigração social e política assume certa amplitude. Os russos brancos, às dezenas de milhares, vêm fixar-se nos países da Europa ocidental, que acolhe uma população flutuante de apátridas, desapossados de sua nacionalidade, que não têm nem solicitam a do país que os acolheu, e para os quais é preciso imaginar uma fórmula jurídica nova: a do passaporte Nansen, que lhes dá um estado civil.

Tampouco se poupou o mundo rural: em conjunto, a agricultura foi uma das vítimas da guerra e da inflação. Ao contrário do que acontecerá na Segunda Guerra Mundial, caracterizada pela penúria e pelo mercado negro, os preços dos produtos agrícolas não seguem o ritmo da inflação; os preços dos cereais e dos outros produtos da terra permanecem bem aquém dos preços dos produtos industriais. A guerra acelerou o êxodo rural. As necessidades da indústria de guerra, das manufaturas de armamentos, criaram uma convocação de mão-de-obra; toda uma população desarraigada, arrancada ao seu gênero de vida habitual, à sua aldeia, procura trabalho e alojamento.

A Europa do após-guerra conhece uma grave crise de habitação, mormente nos países em que a derrota acentua o fenômeno; o caso mais típico é o da Áustria, cuja capital, Viena, abriga, sozinha, uma quarta parte da população total do país.

A guerra dissociou as estruturas tradicionais. Acarretou a extensão do trabalho das mulheres, ou melhor, já que a proporção não mudou tanto, a modificação dos setores: a mão-de-obra feminina, até então empregada nas tarefas domésticas, começa a trabalhar nas fábricas.

Todas essas subversões explicam que o fim da guerra tenha dado novo impulso a uma intensa pressão de agitação social. Os anos de 1919 a 1921, ou 1922, conforme os países, são marcados, até entre os vencedores, por uma efervescência de caráter revolucionário. O descontentamento social é atiçado pelo exemplo da revolução russa, revezada, por sua vez, pelas revoluções que afetam a Europa Central, a Hungria, a investida espartacista na Alemanha, as jornadas de insurreição de Berlim e de Munique. A onda de greves que avassala a Europa não poupa país algum; a França vive em 1920 uma situação de greve quase geral, que paralisa os transportes e os grandes setores industriais; a Itália conhece, além disso, uma agitação agrária.

Mercê dessa agitação, a classe operária obtém, de início, algumas conquistas sociais, como o dia de oito horas na França (1919). Mas o movimento, que provoca a profunda inquietação dos ricos e das classes médias, temerosos da bolchevização da Europa, não tarda a abortar. Em toda a parte se teme que os países venham a cair nas mãos do comunismo. Por isso mesmo, a agitação acaba deflagrando um fenômeno de reação contrária.


RÉMOND, René. O Século XX. De 1914 aos nossos dias. São Paulo: Cultrix, 1993. p. 37-40. (Introdução à história de nosso tempo 3).

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Diabo é vermelho

Destruição em Granollers após a incursão 
alemã em 31 de maio de 1938. 
Foto de Winifred Bates

Melilla, verão de 1936: desata-se o golpe de estado contra a república espanhola.

O pano de fundo ideológico será explicado, depois, pelo ministro de Informação, Gabriel Arias Salgado:

- O Diabo mora num poço de petróleo, em Baku, e de lá manda instruções aos comunistas.

O incenso contra o enxofre, o Bem contra o Mal, os cruzados da Cristandade contra os netos de Caim. É preciso acabar com os comunistas, antes que os comunistas acabem com a Espanha: os presos têm um vidão, os professores expulsam os padres das escolas, as mulheres votam como se fossem varões, o divórcio profana o matrimônio sagrado, a reforma agrária ameaça o poder da Igreja sobre as terras...

O golpe nasce matando, e desde o começo é muito expressivo,

Generalíssimo Francisco Franco:

- Salvarei a Espanha do marxismo ao preço que for.
- E se isso significa fuzilar meia Espanha?
- Custe o que custar.

General José Millán-Astray:

- Viva a morte!

General Emilio Mola:

- Qualquer um que seja, aberta ou secretamente, defensor da Frente Popular, deve ser fuzilado.

General Gonzaço Queipo de Llano:

- Preparai as sepulturas!

Guerra Civil é o nome do banho de sangue que o golpe de Estado desata. A linguagem põe, assim, o signo da igualdade entre a democracia que se defende e o golpe militar que a ataca, entre os milicianos e os militares, entre o governo eleito pelo voto popular e o caudilho eleito pela mercê de Deus.


GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 270-1.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Miséria e destruição: a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648)

O cerco (defesa do pátio da Igreja durante a Guerra dos Trinta Anos), Karl Friedrich Lessing

A Guerra dos Trinta Anos foi um dos mais terríveis conflitos de toda a História. Milhões de pessoas morreram ou ficaram para sempre doentes. Por toda a Europa, a guerra tornou ainda mais difícil a vida dos pobres: suas plantações foram destruídas, suas casas e aldeias arrasadas, seus bens saqueados.

Soldados saqueando uma fazenda durante a Guerra dos Trinta Anos, Sebastian Vrancx

Os soldados não tinham nenhum interesse nacional, lutavam por aqueles que lhes pagavam melhor e não hesitavam em mudar de lado, dependendo da oportunidade.

Paisagem com um assalto, Sebastian Vrancx

O pagamento dos exércitos era irregular e não havia administração para organizar o abastecimento dos combatentes. As tropas, portanto, viviam à custa da população da área que ocupavam, e não havia muita diferença quando se tratava de seu próprio país ou do inimigo: os soldados saqueavam o que podiam.

Uma paisagem com viajantes emboscados do lado de fora da cidade, Sebastian Vrancx

Os camponeses fugiam para as florestas, carregando seus animais e tudo o que conseguiam levar. Na volta, encontravam apenas casas queimadas e colheitas incendiadas. Sem sementes para refazer as lavouras e com a produção desorganizada pela ocupação militar, trabalhavam longos anos para refazer sua vida. As aldeias se despovoavam, os sobreviventes morriam de fome, os campos transformavam-se em matagais. Aldeias inteiras foram apagadas do mapa. Em algumas regiões, foi necessário um século para recuperar as áreas devastadas.

Soldados emboscam uma carroça e passageiros, Sebastian Vrancx

Quando as tropas se dispersavam e a indisciplina arriscava comprometer a união do exército, os oficiais procuravam os desertores e saqueadores e os enforcavam às dezenas, para servir de exemplo.

Uma cena da Guerra dos Trinta Anos, Ernest Crofts

Enfim, quando chegou a época de assinar o tratado de paz, os príncipes negociaram, trocaram territórios, impuseram seu poder e domínio sem nenhuma consulta, com o mais profundo desrespeito aos direitos do povo.

DUPÂQUIER, Jacques; LACHIVER, Marcel. Les temps modernes. Paris: Bordas, 1971. p. 104.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A bomba de Hiroxima

Mulher e criança estátua, Yasuko Yamagata

 Às 8 h 15 min da manhã de 6 de agosto de 1945. um relâmpago de luz tão brilhante como o sol explodindo cruzou o céu de Hiroxima. Numa flama branca de calor e fogo, milhares de seres vivos vaporizaram-se na morte; muitos outros milhares ficaram sofrendo e morrendo lentamente; a mais horrorosa era humana havia começado.

Até mesmo a 3,5 quilômetros de distância do centro da explosão, todos os edifícios foram reduzidos a destroços, e os soldados de um destacamento japonês que estivera trabalhando numa colina cavando um abrigo subterrâneo, saíram do interior da terra, feridos e estonteados, com sangue a correr dos rostos, costas e peitos. A manhã estivera muito límpida, mas o sol fora subitamente encoberto por uma imensa nuvem negra em forma de cogumelo, que se elevava da infeliz Hiroxima e pairava no céu, tapando tudo num espaço de vários quilômetros. A manhã fora calma e agradável, porém agora grandes rajadas de vento começaram a soprar, rodopiando loucamente em todas as direções, aumentando e espalhando-se cada vez mais, atiçando os incêndios e destruindo tudo com indomável fúria. Uma simples centelha era suficiente para incendiar um edifício inteiro, envolvendo-o num lençol de chamas, um redemoinho de ar escaldante apoderara-se da subitamente esquelética cidade; e, mesmo a quilômetros de distância, a explosão abalara profundamente os sobreviventes, cobrindo-os de cinzas.

Criança queimada, Yamashita Masato

Os refugiados, os mais afortunados e os moribundos foram saindo de Hiroxima, cambaleando e até de rastos, e procuraram abrigo num parque dos arredores. As suas roupas haviam-se convertido em farrapos, e a pele de suas mãos e rostos, horrivelmente queimada, deixara-os em carne viva, quase todos eles estavam mortalmente enfermos, não parando de vomitar ou de soltar queixumes angustiosos. No parque, cerca de vinte soldados, talvez membros de uma unidade antiaérea, estavam deitados no chão, num grupo imóvel, símbolo do horror. Haviam olhado para o céu, no momento em que a bomba explodira e, agora, caídos por terra, continuavam olhando para cima com os olhos esvaziados e mortos.

O último drinque, Ono Kiaki

Os inválidos e os feridos arrastavam-se lentamente pelo parque, como animais letalmente atingidos, morrendo em grupos compactos entre os arbustos. Começou então a chover pesadamente, e um vento terrível soprou assustadoramente por toda a região uma tempestade de força devastadora. Assaltou o parque, árvores enormes foram arrancadas do solo e as mais frágeis voaram pelos ares como se fossem folhas de papel. O cataclismo era horrendo e total.

Brilho da noite sobre Hiroxima, Asai Kiyoshi

O horror durou todo o dia e toda a noite, e ainda todo o dia seguinte. Hiroxima, que às 8 h 14 min da manhã fora uma cidade de 245 000 pessoas, convertera-se às 8 h 15 min num intolerável e negro necrotério para os 100 000 mortos, desaparecidos e moribundos; e das suas fumigantes e prostradas ruínas outros 100 000 haviam fugido; muitos deles levando consigo as sementes da morte prematura da radiação, do câncer e da leucemia. A era atômica nascera à custa de toda a humanidade.

Essa foi a sua origem, no mais verdadeiro dos sentidos, pois a bomba atômica que explodimos sobre Hiroxima foi a mais rudimentar e elementar de todas as armas da nova era da ciência nuclear. As bombas da Segunda Guerra Mundial  - que haviam causado tanta devastação em Londres, Roterdã, Hamburgo e Berlim - tinham apenas 2 000 libras de poder explosivo. A bomba atômica de Hiroxima explodiu com a tremenda força de 20 000 toneladas de TNT. Mas atualmente a bomba de Hiroxima já é antiquada e insignificante no arsenal da guerra, tal como tornara antiquada as bombas da Segunda Guerra Mundial.

COOK, Fred J. O Estado Militarista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 296-297.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A era do absolutismo: A supremacia da Espanha no século XVI

A formação dos Estados Modernos e as monarquias nacionais que neles se instalaram, simbolizando a unidade geográfica, política e cultural de uma região, favoreceram a afirmação do poder ilimitado dos reis, o absolutismo.

O poder soberano reside exclusivamente na minha pessoa [...] os direitos e os interesses da nação acham-se necessariamente vinculados aos meus e encontram-se em minhas mãos unicamente. (Luís XV)

Como sistema de governo o absolutismo tem raízes profundas no passado, podendo ser reconhecido na maneira de governar dos faraós egípcios ou dos imperadores romanos. Para a afirmação do absolutismo nos séculos XVII e XVIII tiveram importância lutas religiosas que se transformaram frequentemente em conflitos pela hegemonia política e econômica.

Essas lutas desencadearam-se em monarquias europeias que viam sua unidade religiosa seriamente ameaçada pela divisão da Igreja cristã. Ao lado disso, as monarquias empenharam-se em desenvolver, nos séculos XVI e XVII, uma política econômica (o mercantilismo) destinada a levar o poderio do Estado ao apogeu. Responsável em parte pelos conflitos em torno da hegemonia europeia e colonial, essa política econômica requeria um governo forte.


Navios ingleses e a Armada espanhola, Artista desconhecido

* A supremacia da Espanha no século XVI. No século XVI, no reinado de Filipe II, a Espanha foi a maior potência da Europa. Possuía um vasto império, o qual incluía os Países Baixos, o Ducado de Milão, os reinos de Nápoles, Sardenha e Sicília, vastos territórios nas Américas, as Filipinas, bem como, a partir de 1580, Portugal e suas colônias.

Do ponto de vista político o rei Filipe II mantinha rígido controle do governo, raramente convocando as Cortes (Parlamento) e quando o fazia era só mesmo para referendar suas decisões.

Do ponto de vista econômico, a Espanha de Filipe II monopolizava todo o comércio de seu império, dispunha de enormes quantidades de metal precioso obtido em suas terras nas Américas; descuidava-se, porém, do desenvolvimento agrícola e industrial do próprio país. Assim, quando sobreveio a crise do ouro, devido ao excesso de metal precioso, fazendo baixar o valor da moeda e subir os preços de gêneros alimentícios e produtos manufaturados, as nações europeias encontraram-se em dificuldades, sobretudo a Espanha, cuja produção interna não podia suprir às necessidades do povo, empobrecendo também em virtude de pesados impostos exigidos pela coroa.

Do ponto de vista religioso, Filipe II era um católico exacerbado e perseguiu violentamente, não só os protestantes, como os muçulmanos e os judeus convertidos ao catolicismo.

Os elevados impostos e as perseguições religiosas acabaram provocando a revolta dos Países Baixos. Após vários anos de lutas as províncias protestantes no norte, auxiliadas pela Inglaterra, conseguiram tornar-se independentes da Espanha (1579), com o nome de Províncias Unidas, a atual Holanda, que se transformou em uma nação próspera, logo iniciando uma expansão colonial na Ásia e na América.

Por ter ajudado a Holanda a tornar-se independente e por ser uma nação protestante, Felipe II via a Inglaterra como sua grande inimiga. A fim de esmagar o protestantismo e fortalecer seu poderio, concebeu um plano de ataque à Inglaterra, enviando contra esse país uma frota poderosa, a Invencível Armada. A esquadra espanhola, porém, foi vencida no Canal da Mancha pela esquadra inglesa constituída de navios menores e mais rápidos. Essa batalha naval marcou o fim da supremacia espanhola na Europa e o início da supremacia inglesa nos mares.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de [Org.]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 194-5.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A guerra total

O senador estadunidense Alben W. Barkley, membro do comitê que investigava os crimes nazistas, ao lado de corpos de prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha. 24 de abril de 1945. Fotógrafo desconhecido.

Mais ainda que a Grande Guerra, a Segunda Guerra Mundial foi travada até o fim, sem ideias sérias de acordo em nenhum dos lados [...]. Era, de ambos os lados, uma guerra de religião, ou, em termos modernos, de ideologias. Foi também, e demonstravelmente, uma luta de vida ou morte para a maioria dos países envolvidos. O preço da derrota frente ao regime nacional-socialista alemão, como foi demonstrado na Polônia e nas partes ocupadas da URSS, e pelo extermínio dos judeus [...] era a escravização e a morte. Daí a guerra ser travada sem limites. A Segunda Guerra Mundial ampliou a guerra maciça em guerra total.

Suas perdas são literalmente incalculáveis, e mesmo estimativas aproximadas se mostram impossíveis, pois a guerra matou tão prontamente civis quanto pessoas de uniforme, e grande parte da pior matança se deu em regiões, ou momentos, em que não havia ninguém a postos para contar, ou se importar. [...] De qualquer modo, que significa exatidão estatística com ordens de grandeza tão astronômicas? Seria menor o horror do holocausto se os historiadores concluíssem que exterminou não 6 milhões mas 5 ou mesmo 4 milhões? [...] Que significa para o leitor médio desta página que, de 5,7 milhões de prisioneiros de guerra russos na Alemanha, 3,3 milhões morreram? A única coisa certa sobre as baixas da guerra é que levaram mais homens que mulheres. [...] Os prédios podiam ser mais facilmente reconstruídos após essa guerra do que as vidas dos sobreviventes. [...]

Tanto a totalidade dos esforços de guerra quanto a determinação de ambos os lados de travá-la sem limites e a qualquer custo deixaram a sua marca. Sem isso, é difícil explicar a crescente brutalidade e desumanidade do século XX. [...] O aumento da brutalização deveu-se não tanto à liberação do potencial latente de crueldade e violência do ser humano, que a guerra naturalmente legitima [...]. Outro motivo era a nova impessoalidade da guerra [...] A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis, diferente de guerras anteriores com as pessoas evisceradas por baionetas ou vistas pelas miras das armas de fogo. Diante dos canhões permanentemente fixos da Frente Ocidental estavam não homens, mas estatísticas. [...] Lá embaixo dos bombardeios aéreos estavam não as pessoas que iam ser queimadas e evisceradas, mas somente alvos. Rapazes educados, que certamente não teriam desejado enfiar uma baioneta na barriga de uma jovem aldeã grávida, podiam com muito mais facilidade jogar altos explosivos sobre Londres ou Berlim ou bombas atômicas em Nagasaki. [...] As maiores crueldades de nosso século foram as crueldades impessoais decididas a distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais.

Assim o mundo acostumou-se à expulsão e matança compulsórias sem escala astronômica. [...] Em resumo, a catástrofe humana desencadeada pela Segunda Guerra Mundial é quase certamente a maior da história humana. O aspecto não menos importante dessa catástrofe é que a humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matança, a tortura e o exílio em massa se tornaram experiências do dia-a-dia que não mais notamos.

HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos. O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 50, 56-8.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Entre a cruz (religião) e a espada (guerra): a conquista da América pelos europeus

Funeral de Atahualpa, Luis Montero

DOCUMENTO 1
A cruz realizou um trabalho complementar à espada. Um conjunto de circunstâncias de ordem religiosa entre algumas nações indígenas facilitou a tarefa dos dominadores, já que tanto no México como no Peru uma série de profecias e sinais asseguravam a chegada iminente de novos deuses. E os europeus, manipulando o imaginário destes povos, não tiveram dúvidas em se apresentar como tais. O domínio do sagrado sobre o profano se materializou até nas construções das igrejas católicas, ao se aproveitar algumas pirâmides e templos como alicerces para a edificação de suas catedrais. [...]

Juan de Zumáraga, primeiro arcebispo do México, se orgulhava, em uma carta de 1547, de que seus sacerdotes haviam destruído até então mais de 500 templos indígenas e queimado cerca de 2 mil ídolos. Ele próprio ajudou a incinerar os arquivos existentes em Texcoco. O mesmo fez o bispo de Yacatán, Diego de Landa, ao atirar ao fogo purificador os manuscritos maias - único povo da América pré-colombiana que havia criado uma escrita -, fazendo com que se destruíssem os principais documentos históricos e literários. [RAMPINELLI, Waldir José. A falácia do V Centenário. In: ________. OURIQUES, Nildo Domingos (Org.). Os 500 anos: a conquista interminável. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 30-31.]

A tortura de Cuauhtémoc, Leandro Izaguirre

DOCUMENTO 2
O Almirante Colombo encontrou, quando descobriu esta ilha Hispaniola, um milhão de índios e índias [...] dos quais, e dos quais nasceram desde então, não creio que estejam vivos, no presente ano de 1535, 500, incluindo tanto crianças como adultos, que sejam naturais, legítimos e da raça dos primeiros índios [...]. Alguns fizeram esses índios trabalhar excessivamente. Outros não lhes deram nada para comer como bem lhes convinha. Além disso, as pessoas desta região são naturalmente inúteis, corruptas, de pouco trabalho, melancólicas, covardes, sujas, de má condição, mentirosas, sem constância e firmeza [...]. Vários índios, por prazer e passatempo, deixaram-se morrer com veneno para não trabalhar. Outros se enforcaram pelas próprias mãos. E quanto aos outros, tais doenças os atingiram que em pouco tempo morreram [...]. Quanto a mim, eu acreditaria que Nosso Senhor permitiu, devido aos grandes, enormes e abomináveis pecados dessas pessoas selvagens, rústicas e animalescas, que fossem eliminadas e banidas da superfície terrestre [...]. [OVIEDO, Gonzalo Fernandes de. In: ROMANO, Ruggiero. Mecanismos da conquista colonial. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 76.]

Cortez e seus soldados lutando contra os astecas em Tenochtitlán, Emanuel Leutze

DOCUMENTO 3
O relato desse primeiro encontro com Atahualpa foi feito por diversas testemunhas oculares [...]. Por meio de seu testemunho, a cena aparece para nós, hoje, como um confronto entre duas visões incompatíveis do mundo: de um lado, a de um soberano para quem a própria natureza do poder que encarna proíbe a comunicação direta com seus súditos e o recurso a mediadores; do outro, a de dois hidalgos espanhóis, Soto e Hernando Pizarro, para os quais os reis são interlocutores diretos a despeito de sua majestade. Quebrando sistematicamente as barreiras rituais que os separam do Inca, apagando os códigos de polidez e de hierarquia, os conquistadores vão marcar uma primeira vitória sobre um homem fechado em sua dignidade solar. Pois, mais do que as armas, são os gestos e as palavras que vão solapar a solenidade do Filho do Deus Sol, anunciando o fim de império do qual o Inca era a chave-mestra. [...] [BERNAND, Carmem; GRUZINSKY, Serge. História do Novo Mundo: da descoberta à conquista, uma experiência europeia (1492-1550). São Paulo: Edusp, 1997. p. 499-500.]

Entrada dos espanhóis em Guadalajara, Jalisco. Forças tlalcaxtecas acompanham os espanhóis liderados por Cristóbal de Olid, 1522. Escriba asteca desconhecido.

DOCUMENTO 4
A atitude de Colombo para com os índios decorre da percepção que tem deles. Podemos distinguir, nesta última, duas componentes, que continuarão presentes até o século seguinte e, praticamente, até os nossos dias, em todo o colonizador diante do colonizado. Estas duas atitudes já tinham sido observadas na relação de Colombo com a língua do outro. Ou ele pensa que os índios (apesar de não utilizar estes termos) são seres completamente humanos com os mesmos direitos que ele, e aí considera-os não somente iguais, mas idênticos e este comportamento desemboca no assimilacionismo, na projeção de seus próprios valores sobre os outros ou então parte da diferença, que é imediatamente traduzida em termos de superioridade e inferioridade (no caso, obviamente, são os índios inferiores): recusa a existência de uma substância humana realmente outra, que possa não ser meramente um estado imperfeito de si mesmo. Estas duas figuras básicas da experiência da alteridade baseiam-se no egocentrismo, na identificação de seus próprios valores com os valores em geral, de seu eu como o universo; na convicção de que o mundo é um. [TODOROV, Tzvetan. A conquista da América. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 51.]

A batalha de Otumba, Artista desconhecido

DOCUMENTO 5
Essa trilogia - doenças, desunião dos indígenas e o aço espanhol - responde por boa parte do resultado da Conquista. Basta remover um de seus elementos para que a probabilidade de fracasso das expedições lideradas por Cortés, Pizarro e outros fique muito alta [...].

Um quarto fator também desempenhou um papel importante: a cultura bélica. Por exemplo, os astecas foram prejudicados por certas convenções de batalha ignoradas pelos hispânicos. Os métodos de guerra astecas salientavam a observação de cerimônias que antecediam as batalhas - que eliminavam a possibilidade de ataques de surpresa - e a captura de inimigos para posterior execução ritual, em vez de matá-los no ato [...]. Por fim, a Conquista espanhola só pode ser plenamente compreendida se situada no contexto histórico mais amplo da expansão ultramarina. Essa história mais ampla não fala de uma superioridade espanhola, ou mesmo da Europa Ocidental, mas aborda, ao contrário, um complexo fenômeno da história mundial que transcende as peculiaridades da Conquista espanhola das Américas [...]. [RESTALL, Mattew. Sete mitos da conquista espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 240-242.]

A captura de Atahualpa, Juan Lepiani


DOCUMENTO 6
[...] Vieram os Dzules* que transformaram tudo. Eles ensinaram o terror, eles secaram as flores, sugando até ferir a flor dos outros para poderem fazer sobreviver a própria... Não havia entre eles nem grande sabedoria, nem palavras, nem ensinamentos. Os Dzules não vieram senão para mutilar o sol! E os filhos de seus filhos permaneceram entre nós, que deles não recebemos senão amargura. [ANÔNIMO. Chilam Balam de Chumayel. In: GENOROP, Paul. A civilização maia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 103.]

* Conquistadores espanhóis.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Conflitos no Prata

Combate de cavalaria na época de Rosas, Carlos Morel

Desde o início, em 1810, das lutas pela independência das colônias espanholas, Portugal (posteriormente também o Brasil) e Argentina disputaram o domínio sobre a Banda Oriental. Quando José Artigas iniciou, em 1811, as lutas pela independência do futuro Uruguai, o Império Português entendeu que era o momento apropriado para atingir seus antigos objetivos, mobilizando suas forças para intervir na região. A movimentação e as propostas de Artigas eram consideradas perigosas aos olhos da Coroa portuguesa, porque estavam voltadas para as aspirações populares. Isso levou à primeira (e frustrada) intervenção portuguesa, na Banda Oriental, em 1811. Mas, do outro lado do estuário, Buenos Aires comandava as lutas para se tornar independente da Espanha. Conquistando rapidamente seguidas vitórias, projetava manter sua hegemonia sobre os mesmos territórios que haviam composto o antigo Vice-reinado do Rio da Prata. Deste modo, tanto a Banda Oriental, quanto o Paraguai "deveriam" fazer parte das nascentes Províncias Unidas do Rio da Prata. Assim, as ambições portuguesas e portenhas se enfrentaram em torno do território do futuro Uruguai. Em 1816, quando Artigas lutava contra os Unitários portenhos e desagradava, com suas propostas radicais de confisco de terras, à elite mercantil e proprietária da Banda Oriental, os portugueses novamente mandaram tropas por terra e por mar para a região, culminando suas ações com o cerco a Montevidéu. Receberam apoio dos proprietários rurais e de comerciantes, descontentes com Artigas. Este acabou derrotado em 1820, deixando o território da Banda Oriental para sempre. Aproveitando-se da debilidade dos portenhos - provocada pelas lutas políticas locais que os dividiam -, os portugueses, temporariamente vitoriosos, incorporaram, em 1821, a Banda Oriental a seu Império, com o nome de Província Cisplatina. Com a independência brasileira, em 1822, o imperador D. Pedro I seguiu a política externa já estabelecida. A província Cisplatina "pertencia" ao novo país.

Passagem de Tonelero durante a Guerra do Prata (1851-52), Eduardo de Martino

No entanto, as ambições brasileiras sobre o território da Banda Oriental começaram a ser soterradas em 1825. A luta dos uruguaios pela reconquista anulou os compromissos políticos com o Brasil e a reintegrou a Banda Oriental ao território das Províncias Unidas do Rio da Prata. A guerra desencadeada entre Brasil e Argentina terminou sem vitoriosos. Com a arbitragem da Grã-Bretanha, o Estado Oriental do Uruguai, como país soberano, nascia em 1828.

Quadro de Manuel Oribe, presidente do Uruguai, Manuel Rose

Com a abdicação de D. Pedro I, em 1831, abriu-se com a menoridade do sucessor ao trono brasileiro, o período conhecido como o das Regências. Nesses anos, o Brasil foi sacudido por uma série de rebeliões de forte cunho regionalista, muitas delas propondo a separação do resto do país, constituindo-se em ameaçador perigo da dissolução "da ordem e da unidade" do Império. A mais longa dessas rebeliões foi a Farroupilha (1835-1845), no Rio Grande do Sul, que pôs em risco a manutenção das "fronteiras naturais" do sul do país. A tentativa de separação se alicerçava em propostas republicanas de governo, concretizada na criação da República do Piratini. O fantasma da perda da Província Cisplatina rondava a corte imperial, e o envolvimento de grupos uruguaios nas lutas indicava a permanência de interesses econômicos e políticos comuns, assim como de fronteiras bastante flexíveis.

Soldados de Juan Manuel de Rosas, Artista desconhecido

No final da década de 1840, o Brasil trabalhava pela derrubada de Oribe, líder dos Blancos uruguaios, e do poderoso governador federalista de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas. Para tanto, aliou-se a seus inimigos internos, como o governador de Entre Rios, Justo José de Urquiza, e aos Colorados uruguaios e buscou (em vão) também aliados no Paraguai. Os resultados dessas intervenções foram muito positivas para o Brasil. Em 1851, Oribe era derrubado no Uruguai, refugiando-se temporariamente em Buenos Aires. Em 1852, na impressionante Batalha de Caseros, em que que confrontaram 50 mil homens, Rosas caiu derrotado pelo conjunto de forças nacionais e estrangeiras. Finalmente foi assinada uma série de tratados com a república uruguaia, de interesse para o Brasil.

PRADO, Maria Ligia; PELLEGRINO, Gabriela. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2014. p. 48-49.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A guerra dos Bôeres

Na história do Império Britânico, a Colônia do Cabo desempenhou um papel semelhante ao da Argélia no processo de expansão colonialista da França, caracterizado pela imposição do domínio europeu a populações nativas violentamente hostis ao “homem branco”. Por outro lado, da mesma forma que a França pretendia que suas colônias africanas formassem um bloco contínuo da Argélia até o vale do Níger, o objetivo da Inglaterra era formar um grande eixo desde o Egito até a Colônia do Cabo.


A Guerra dos Bôeres. Richard Caton Woodville

No fim do século XVIII, os ingleses haviam penetrado no sul da África, onde já estavam instalados os bôeres, colonos descendentes de holandeses que se tornaram inimigos dos ingleses a partir de 1795, quando foram obrigados a lhes ceder a Colônia do Cabo. Os conflitos que se sucederam entre os ingleses e os bôeres forçaram estes últimos a emigrar para as regiões do interior, onde haviam fundado em 1830 as repúblicas de Natal, do Transvaal e de Orange, depois de expulsarem as tribos bantu que viviam na região. Esse deslocamento em massa dos colonos bôeres ocorreu no período compreendido entre os anos de 1834 a 1839, e tornou-se conhecido como great trek (“grande imigração”).


Mulheres e crianças bôeres num campo de concentração britânico durante a Guerra dos Bôeres

Em 1843, a Inglaterra anexou a república de Natal às suas colônias e, em 1881, tentou fazer o mesmo com a do Transvaal. Desta vez, porém, encontrou forte resistência por parte dos bôeres, que se rebelaram e derrotaram as forças inglesas na batalha de Majuba Hill. Diante disso, o governo britânico preferiu ceder e reconhecer a autonomia das repúblicas bôeres.

As principais companhias mineradoras da África do Sul – a Beers e a Goldfields of South África – eram dirigidas pelo inglês Cecil Rhodes, que governou a Colônia do Cabo como primeiro-ministro de 1890 a 1895 e cujo grande projeto político era consolidar a dominação branca no sul da África a partir de uma aliança com os bôeres. Tal projeto, porém, fracassou em virtude da descoberta de ricas jazidas de ouro no Transvaal, que atraiu para a região capitais estrangeiros e milhares de imigrantes – os chamados uitlanders -, que eram, em sua maior parte, súditos britânicos.

Em pouco tempo o número desses estrangeiros superou por longa margem o dos bôeres, e isso fez com que o governo do Transvaal, chefiado por Paul Kruger, adotasse uma série de medidas preventivas no sentido de limitar os direitos dos imigrantes e, sobretudo, de resistir às crescentes pressões por parte de Cecil Rhodes e do governo da Colônia do Cabo. Conseguindo apoio externo, principalmente da Alemanha, os bôeres prepararam-se para a resistência, movimento ao qual se uniu a república de Orange. Em uma tentativa desesperada, Cecil Rhodes tentou promover uma rebelião dos uitlanders, mas não foi bem sucedido, o que representou o fim de sua carreira política.

Depois de resolver o problema do Sudão egípcio, o governo britânico, chefiado por Chamberlain, procurou negociar com os bôeres. As tentativas realizadas nesse sentido pelo alto-comissário da Colônia do Cabo – Lorde Alfred Milner – não tinham, entretanto, o resultado desejado. Em 9 de outubro de 1899, Paul Kruger exigiu a retirada das tropas inglesas das fronteiras bôeres, fato que equivalia a u a declaração de guerra. Teve início então o conflito, que durou três anos e terminou com a derrota dos bôeres. Esses assinaram com os ingleses o Tratado de Verceniging (31 de maio de 1902), o qual lhes assegurava, entre outras coisas, a futura autonomia administrativa para suas repúblicas, a abolição dos direitos políticos das tribos nativas a eles submetidas e o uso do holandês como língua oficial. Dirigida por Lorde Milner, a reconstrução da Colônia do Cabo – devastada durante a guerra – foi rapidamente realizada e, a partir de 1907, concedeu-se a prometida autonomia dos bôeres. Em 1910 foi fundada a União Sul-Africana (formada pela Colônia do Cabo e as repúblicas de Natal, Transvaal e Orange), com base em um acordo que favorecia os bôeres e continha os fundamentos do apartheid, política de segregação racial cujo princípio era a superioridade dos brancos.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 183-184. Volume 5.

NOTA: O texto "A guerra dos Bôeres" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A Guerra do Ópio

Desde o século XVIII os mercadores ocidentais dedicavam-se ao rendoso comércio de ópio com a China. O consumo dessa droga tornara-se tão generalizado no país, que ela vinha sendo utilizada como moeda no pagamento das exportações chinesas. Se tal substituição constituía uma excelente forma de favorecer a balança comercial dos países ocidentais, seus efeitos sobre a população chinesa eram, ao contrário, extremamente desastrosos. O uso do ópio afetava sobretudo as camadas mais pobres da população, sujeitas a um violento processo de desgaste moral e de debilitação orgânica. Em 1800, um edito imperial proibia a entrada de ópio no país, mas essa medida não impediu que os navios ocidentais continuassem a introduzir, clandestinamente, grandes quantidades da droga na China. A parcela mais significativa desse tráfico era realizada pela Inglaterra, por meio da Companhia das Índias, proprietária de extensas plantações de ópio na Índia.

Século XVIII (Royal Irish). Regimento de infantaria no assalto dos fortes de Amoy, 26 de agosto de 1841. Michael Angelo Hayes (artista) e James Henry Lynch (litografia).

Em 1839, o governo de Pequim enviou o emissário imperial Lin Tse-hsu a Cantão com a missão de pôr fim ao nefasto contrabando de ópio. Apoiado pelas tropas locais, esse funcionário confiscou o ópio que os comerciantes ocidentais transportavam em seus navios, apreendendo e queimando mais de 20.000 caixas de droga. Refugiando-se em Macau e, depois, em Hong-Kong, os comerciantes ocidentais protestaram energicamente contra a ação do governo chinês e anunciaram sua intenção de não retornar a Cantão enquanto o governo britânico não tomasse medidas que assegurassem tanto a sua proteção pessoal como a de seus bens. A Inglaterra não poderia desejar melhor oportunidade para concretizar tão almejada invasão da China; e, usando como pretexto a necessidade de garantir os comerciantes britânicos, desencadeou a chamada “guerra do ópio”.


Chineses fumando ópio. Arnold Wright

Em 1840, tropas inglesas, comandadas pelo coronel Henry Pottinger, desembarcaram na China e venceram facilmente a fraca resistência oferecida pelo seu exército, que não dispunha de armas modernas. Depois de tomarem Shangai, as forças invasoras prosseguiram sem maiores problemas até Nanquim, onde, em 29 de agosto de 1842, forçaram o governo imperial a assinar um tratado com a Inglaterra. Por esse acordo estabelecia-se a abertura de mais quatro portos chineses ao comércio internacional – Shangai, Amoi, Fuchow e Ning-po – além do de Cantão. Nesses portos, os ingleses poderiam instalar suas residências e representações consulares, tendo permissão também para negociar diretamente com os comerciantes chineses, o que abolia o monopólio comercial da Co Hong. Além disso, a Inglaterra adquiriu a ilha de Hong-Kong, sobre a qual passou a ter plena soberania.

Outros acordos, complementares ao tratado de Nanquim, impuseram aos chineses a criação de tribunais consulares nos Portos do Tratado (denominação dada aos novos postos que haviam sido abertos ao comércio com a Inglaterra), com competência para julgar, segundo as leis inglesas, todos os cidadãos britânicos acusados de crimes cometidos em território chinês. Reconhecia-se, assim, de fato, a extraterritorialidade dos centros comerciais ingleses na China, embora tal cláusula não estivesse contida explicitamente nos contratos.

Seguindo o caminho aberto pela Inglaterra, penetraram na China outras potências ocidentais, uma vez que o governo britânico não manifestara a intenção de garantir para si o monopólio do Celeste Império. Nesse sentido, o Lorde Robert Salisbury – político conservador inglês que, durante a segunda metade do século XIX, ocupou por várias vezes os cargos de ministro das Relações Exteriores e de primeiro-ministro – expressou com clareza a posição britânica em relação ao Extremo Oriente: “Na Ásia há lugar para todos”. Assim, não houve qualquer problema internacional quando, em 1844, emissários franceses e norte-americanos obtiveram do governo chinês tratados semelhantes ao de Nanquim.

O emissário francês obteve também do imperador um edito de tolerância em favor dos católicos, que dois anos depois foi estendido aos protestantes. Por esses tratados, os missionários ficavam proibidos de sair dos limites das cinco cidades portuárias abertas ao comércio com o Ocidente. Mas, aproveitando-se de sua condição de estrangeiros, que os punha a salvo da jurisdição chinesa, os missionários penetraram no interior do país. E, quando as autoridades chinesas os aprisionavam, eram conduzidos à mais próxima legação diplomática de um país ocidental, onde nunca sofriam qualquer punição porque não podiam ser considerados criminosos pelas leis de seus países. Dessa forma, os religiosos ficavam livres para retomar suas atividades no interior do país.

Quebrou-se assim o secular isolamento do Império Chinês que, incapaz de enfrentar a superioridade militar dos países ocidentais e de não aceitar suas imposições, teve de ceder até mesmo ante os que não recorreram à força. Tais acontecimentos refletiram-se em alguns setores do governo chinês, que passaram a propor, entre outras coisas, a assimilação da técnica militar das potências ocidentais, a fim de poder enfrentá-las em pé de igualdade, argumentando que a força era a única linguagem compreendida pelos europeus. Os defensores dessa teoria, que estavam em franca minoria nos meios governamentais, foram derrotados pelo conservadorismo dos membros da dinastia Manchu e dos mandarins. Presos à velha tradição de não manter contato com estrangeiros, esses elementos conservadores pretendiam controlar a penetração dos ocidentais fazendo-lhes algumas concessões e, ao mesmo tempo, manipulando-os por meio da mentira ou da astúcia, conforme a situação o exigisse. Tal estratégia, no entanto, revelou-se demasiadamente ingênua ante a firme determinação das potências ocidentais no sentido de intensificar a exploração do comércio com a China, sobretudo considerando-se que esta se apoiava no poder das armas.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 146-148. Volume V.

NOTA: O texto "A Guerra do Ópio" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 11 de maio de 2014

A 1ª Guerra Mundial: As batalhas nas negociações de paz [Parte VIII]

A chegada dos alemães, George Wesley Bellows

A paz havia chegado, mas o que isso significava Todas as nações a desejavam, cada uma em seus termos. Mais de um ano antes do fim da guerra, os planos de paz começaram a surgir. Em agosto de 1917, o papa Bento XV esperava que as fronteiras voltassem a ser as mesmas que existiam antes dos conflitos. Em janeiro de 1918, o presidente Wilson apresentou em Washington seus Catorze Pontos (e uma piadinha da época dizia que só um professor exigiria tantos pontos assim). Wilson queria um parlamento mundial permanente e uma Liga das Nações que pacificasse e sanasse problemas. A ideia não era originalmente sua, mas ele lhe deu força. Queria uma paz branda, para o perdedor.

Oito meses mais tarde, na casa de ópera de Nova York, com milhares de rostos ansiosos diante de si e o fim da guerra quase à vista, Wilson apresentou sua opinião que certamente não impressionou os franceses. Deixando implícito que a França, em especial, deveria perdoar e esquecer, defendeu um tratado de paz em que houvesse clemência. Conclamou as grandes nações vitoriosas a, uma vez terminada a guerra, oferecer “justiça imparcial” e rejeitar o egoísmo econômico. Por alguns meses, aos olhos de centenas de milhões de pessoas, ele pareceu falar em nome de quase todos os povos do mundo e até mesmo dos muitos soldados que jaziam silenciosos em seus túmulos.

Um mês após o fim da guerra, o presidente partiu para a Europa. Louvado como o estadista que distribuía remédio para um mundo doente, foi bem recebido na França e depois na Inglaterra, mesmo por aqueles que não entendiam perfeitamente o conflito entre aquela mensagem e suas próprias atitudes. Ao chegar a Roma e Milão, Wilson viu cartazes que diziam “Boas-vindas ao deus da paz”. Quando, por fim, o poderoso líder chegou à conferência de Paris, era como se um halo brilhasse em torno de sua cabeça. Esse halo, no entanto, não era visível para outros grandes estadistas. Clemenceau, a voz da França, então com 77 anos de idade, apesar de tratar o visitante de maneira cortês e mesmo afetuosa, achava que a mensagem de Wilson nada tinha a dizer ao povo sofrido da França.

Líderes das nações vencedoras, reunidos em Paris para longas discussões, estavam menos interessados do que Wilson em sua ideia de uma paz justa e boa. Tendo carregado o fardo e sofrido as dores de uma guerra longa, queriam uma compensação consistente da Alemanha e da Áustria. Em Paris, os vencedores queriam dividir a área central da Alemanha, o que acabaram fazendo. E desejavam tomar todas as suas colônias, o que também fizeram. Tendo confiscado sua marinha e dispersado seu exército, impuseram uma imensa multa à Alemanha, chamada de reparação, como reembolso de parte dos custos da guerra. Como, em 1871, a Alemanha tinha imposto uma paz cruel à derrotada França, esse novo tratado de paz assinado em Versalhes em 1919 repetia o mesmo espírito punitivo. A pena de 1919, no entanto, foi ainda mais severa.

O tratado de paz insistia – de maneira não muito lógica nem justa – em que a Alemanha e o imperador Wilhelm II eram os únicos culpados pela guerra. Muitos alemães sentiram-se traídos, e como razão. Lembravam-se vivamente de que, antes da assinatura do armistício, o próprio Wilson lhes havia prometido uma paz justa. Essencialmente, em sua fala expressiva, o presidente havia feito uma série de promessas sinceras, mas irresponsáveis, as quais suas mãos atadas não poderiam cumprir.


A assinatura da paz no Salão dos Espelhos, Versalhes, 28 de junho de 1919. William Orpen

A Europa se alegrava com a paz, mas esta era diferente da que havia antes de 1914. A guerra tinha desfeito as ligações de comércio, destruído milhares de vilarejos rurais, devastado extensas áreas de pasto e plantações, matado milhões de cabeças de gado, avariado centenas de ferrovias e pontes e afundado mais navios cargueiros do que existiam no mundo em 1900. Os problemas se manifestavam em todas as facetas do dia a dia, especialmente no Leste Europeu. Em 1919, o leite era tão escasso nas cidades que crianças pequenas morriam e a alimentação da maior parte das pessoas não continha gordura. Em muitos distritos, não se semeava. No primeiro inverno pós-guerra, muitas pessoas não possuíam botas nem sapatos e não conseguiam comprar carvão para seus fogões, uma vez que pouco transporte era feito nas ferrovias danificadas. Essas foram observações extensivamente registradas pelo diretor britânico de auxílio humanitário, sir William Goode, que trabalhou no Leste Europeu em 1919. Ele percebeu o contraste entre "os ricos nervosos e os pobres esfomeados", especialmente em Viena.

Ao mesmo tempo, outro mal ainda mais devastador ocorria. Um novo surto de gripe, iniciado nos campos de batalha da França em 1918, espalhou-se pelo mundo. Atingiu até mesmo grupos de aborígenes, em lugares remotos da Austrália, e assentamentos nas selvas africanas e sul-americanas. Matou milhares de pessoas na Índia. Apareceu em navios em alto-mar. Chamada de gripe espanhola, fez mais vítimas do que a Primeira Guerra Mundial.

Um tratado de paz desenhado a muitas mãos - e punhos também - é inevitavelmente um labirinto de meios-termos e um conflito de princípios. Uma vez assinado o tratado em Versalhes, Wilson teve de convencer os próprios compatriotas a acatá-lo. Teve de persuadir a população de que a Liga das Nações, prestes a ser constituída, seria benéfica para os Estados Unidos tanto quanto para a Europa e o resto do mundo. Aos olhos de uma nação com forte tradição de isolacionismo, orgulhosa de haver crescido graças principalmente aos próprios esforços e desejosa de permanecer dona de seu nariz, a liga parecia um tanto ameaçadora.

Wilson voltou para casa confiante de que seu país seria o mais influente na Liga das Nações. A opinião pública em geral estava com ele, e 33 governadores o apoiavam, mas os céticos se multiplicavam. Ele não era mais o rei em sua terra, tendo perdido o controle do senado e do congresso. Viajando de trem pelo país, apertando mãos estendidas desde as cidades atlânticas até o porto de San Diego, no Pacífico, dirigindo-se inflamadamente às milhares de pessoas que se reuniam em seus discursos ao ar livre, Wilson se esgotou. Os músculos de seu rosto começaram a se contrair em espasmos. Em 2 de outubro de 1919, de volta a Washington, sofreu um derrame que lhe deixou o lado esquerdo do corpo paralisado. Sua segunda mulher, Edith, assumiu muitas das responsabilidades cívicas do marido, até que, cerca de um ano mais tarde, o mandato chegou ao fim. O legado de Wilson foi uma Liga das Nações da qual seu país se recusou a participar.

A liga, cujo primeiro encontro se deu em 1920, parecia ser o farol do mundo. Seu objetivo era prevenir guerras e impor a justiça social. Pretendia proteger os povos que viviam sob o domínio europeu, acabar com os resquícios da escravidão e suavizar o fardo dos que trabalhavam duro todos os dias. Era como um parlamento com duas câmaras: uma pequena e poderosa, que se reunia com mais frequência, e uma assembleia geral de todas as nações participantes, que se encontrava anualmente.

O conselho inaugural era composto de quatro membros regulares - Grã-Bretanha, França, Itália e Japão -, complementado pelos representantes eleitos dentre os componentes da assembleia. A ausência de Estados Unidos, China, União Soviética e Alemanha foi um rude golpe no prestígio e na influência do conselho. Dois desses quatro países estavam ausentes simplesmente porque os derrotados na guerra não tinham o direito de participar da nova liga. Além disso, os participantes da assembleia não representavam o mundo todo, sendo esta composta predominantemente por países europeus e suas antigas colônias de além-mar. O Império Britânico se destacava particularmente, pois os 29 membros iniciais da liga incluíam Grã-Bretanha, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e a Índia britânica.

A liga tinha como objetivo solucionar desavenças que, do contrário, poderiam resultar em guerra. Inicialmente, essa meta parecia atingível. Os finlandeses e os suecos, que disputavam algumas ilhas bálticas, concordaram que a liga deveria resolver o problema e, consequentemente, aceitaram que tais ilhas fossem anexadas à Finlândia. A questão mais preocupante era se as potências aceitariam tais decisões. A Itália de Mussolini deu a resposta esclarecedora: em uma disputa pela ilha grega de Corfu, em 1923, o país inicialmente desconsiderou a sentença da liga.

BALINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 71-75.

NOTA: O texto "A 1ª Guerra Mundial: As batalhas nas negociações de paz [Parte VIII]" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.