"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Mundurucus: os grandes guerreiros da Amazônia

Índios mundurucus, Hércules Florence

Os mundurucus, como seus antepassados por centenas de anos, se pintaram para a guerra. Esses índios de porte altivo, considerados outrora como os mais belicosos dentre os que habitavam a Amazônia e que muito trabalho deram para os brancos que os tentaram subjugar, têm orgulho de seu passado guerreiro. "Se eles insistirem na construção de hidrelétricas nas nossas terras, vamos atacar", garantiu Josias Manhuary, um de seus líderes, à repórter Aline Ribeiro, da revista Época. O guerreiro das margens do Tapajós, revoltado com os planos de aproveitamento do potencial hídrico do rio que dá ao seu povo o peixe diário e a possível inundação das terras em que estão enterrados os seus antepassados, afirmou: "Somos cortadores de cabeças!".

E é fato. A captura de cabeças humanas era o motivo que levava os mundurucus, que, provavelmente, já habitavam a região do Tapajós mil anos antes da chegada dos europeus, a organizar sua sociedade em função da guerra, "Ainda hoje eles têm essa tradição de povos guerreiros, apesar dos constrangimentos da colonização, da catequese e da relação com o Estado", explica o antropólogo [...] Florêncio Almeida Vaz. Como ativista indígena da etnia maitapu e frade franciscano, frei Florêncio, como é mais conhecido, estuda o encontro dos povos indígenas no baixo e médio Tapajós com os colonos portugueses e como se deu o acordo que selou a paz entre índios e lusos no final do século XVII, mudando a história da região.

Uma rica fonte documental sobre os mundurucus foi deixada por cronistas e viajantes do século XIX, como os naturalistas alemães Spix e Von Martius, que visitaram a região do Tapajós entre 1817 e 1820. Em seus relatos, eles descrevem que os "mundurucus, mundrucus ou muturicus, antes do ano de 1720, mal eram conhecidos no Brasil pelo nome; mas, daí em diante, irromperam em numerosas hordas, ao longo do rio Tapajós, destruíram as colônias e tornaram-se tão temíveis que foi necessário mandar contra eles tropas, às quais se opuseram com grande audácia."


Guerreiro mundurucu com cabeça como troféu, Johann Spix and Carl Martius

Chamados pelos indígenas de tribos rivais de paiquicé, ou corta-cabeças, o povo mundurucu atribuía grande significado ritual às cabeças capturadas e cuidadosamente preservadas por um meticuloso processo de mumificação. Todos os inimigos homens adultos de uma tribo atacada eram mortos e suas cabeças, mantidas como troféus de grande valia. Os guerreiros acreditavam que, com isso, adquiriam poderes mágicos que garantiam a fartura e a sobrevivência de seu povo.

A cosmologia desse povo - pertencente ao tronco linguístico tupi -, responsável por sua atitude belicosa, levou à perseguição e ao extermínio de povos como os jumas e os jacarés, tendo influenciado também no deslocamento dos parintintins e dos kawahivas em direção aos rios Juruena e Teles Pires. Os mundurucus perseguiram ainda os muras e lutaram contra os maués, araras e apiacás. "A guerra fazia parte do cotidiano. Eles tiveram de adaptar esse valor para outras formas rituais, como o xamanismo e outras crenças que continuam associadas à guerra", diz frei Florêncio.

O primeiro relato que se tem acerca da existência do povo mundurucu remonta a 1542 e é do cronista e padre espanhol Gaspar de Carvajal, que integrou a expedição de Gonçalo Pizarro (irmão de Francisco Pizarro), de Quito à foz do rio Amazonas, passando pelo baixo Tapajós. "Ele já fala da característica de pintar o rosto de preto", conta frei Florêncio. "Guerrear, para esse povo, era afirmar-se como gente. Além de lutar contra outros povos indígenas, o inimigo passou a ser também os portugueses", diz Almeida Vaz.


Criança e mulher mundurucu, Auguste François Biard

Por volta de 1770, os mundurucus fizeram uma série de ataques aos povoados localizados à beira do Tapajós, ponto de exploração de colonos luso-brasileiros e aldeias missionárias que haviam sido estabelecidas pelos jesuítas. Em 1773, foram responsáveis pelo assalto à fortaleza do Tapajós, em Santarém.

"As incursões pela floresta em busca das cabeças-troféu eram longas. Há registros de que estes índios tenham chegado até o Xingu", destaca o historiador e indigenista André Ramos. [...] Ramos viveu uma década na aldeia Waro Apompo, no rio Cururu, um dos afluentes do Tapajós, na parte alta. "A guerra tem uma função de renovação de vida, as cabeças tinham um papel importante nessa organização", explica o pesquisador.

O padre português Manuel Aires de Casal, em 1819, chamava a área ocupada por esse povo de Mundurucânia, um território que comprrendia os rios Jurena, Amazonas, Madeira e Tapajós. Em razão da ocupação portuguesa dos brancos, os mundurucus acabaram se refugiando no alto Tapajós, onde permanecem até os dias atuais.

Os jesuítas cumpriram importante papel na ocupação do Tapajós. Para expandir a catequese, instalaram-se em aldeias como a de São José ou Maitapus, em 1772; a de Santo Inácio ou Tupinambaranas, em 1737; e, em 1738, as de Borani e Arapiuns, que se destacaram pelo desenvolvimento, todas localizadas no baixo e médio Tapajós.


Mundurucus, Auguste François Biard

Vendo o avanço do inimigo, os mundurucus passaram a atacar sem descanso os assentamentos dos colonos a partir da última década do século XVIII. Na tentativa de conter a ameaça indígena, o poder colonial enviou, em 1794, uma força com cerca de 500 soldados com a missão de atacar os mundurucus até em suas aldeias do alto Tapajós, no atual rio das Tropas.

Nesse momento, acontece a reviravolta. Índios e colonos passam a conviver em paz, no processo que ficou conhecido como a "pacificação dos mundurucus". Não existem ainda versões conclusivas sobre como isso se deu. André Ramos acredita que o contra-ataque perpetrado por tropas portuguesas no alto Tapajós tenha sido decisivo. "Os portugueses sobem o Tapajós, adentram o Jurupari e vencem a batalha. A partir de então, se estabelece uma relação apaziguada", diz.

Frei Florêncio defende a tese de que os próprios indígenas tomaram a iniciativa de estabelecer relações pacíficas com os colonos da região. Uma visita à Vila de Pinhel, em 1795, para encontrar-se com o tuxáua (chefe), quando foram acompanhados até a fortaleza de Santarém, teria selado um pacto de paz.

Em 1795, o governador Manuel da Gama lobo d'Almada adotou a estratégia de pôr fim às hostilidades. Uma vez que o poder colonial não contava com um contingente de homens suficientes para confrontar os termos indígenas, o mandatário enviou um grupo de soldados que capturou dois índios mundurucus, que ficaram por quatro meses na fortaleza da Barra do Rio Negro, na atual cidade de Manaus.

Cerca de 140 índios mudurucus se reúnem em Brasília com o ministro da Secretaria Geral da República, Gilberto Carvalho e representantes de outros órgãos do governo para discutir a suspensão de empreendimentos energéticos na Amazônia e outras reivindicações indígenas, em 4 de junho de 2013. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Ali, os índios teriam sido bem tratados e receberam inúmeros presentes. Reconhecendo a boa vontade dos raptores, os dois índios teriam se comprometido a retornar e avisar aos outros que os brancos não eram seus inimigos. A partir de então, os conflitos teriam cessado e os mundurucus tornaram-se aliados dos brancos, passando até mesmo a operar como força militar para "pacificar" outros grupos indígenas. "A primeira vila onde os mundurucus se voltaram para a vida colonial foi Pinhel, comunidade de onde venho. Eles estavam ficando enfraquecidos, era uma estratégia. Mas grupos isolados continuaram guerreando no alto Tapajós", comenta frei Florêncio.

Após selada a paz, os mundurucus começam a manter um estilo de vida sedentário nas vilas. "Eles passaram pelo processo de caboclização, que fez com que praticamente desaparecessem como etnia. Foram se tornando cada vez mais ligados e defendendo os interesses dos portugueses. Lutaram, inclusive, ao lado dos portugueses contra os cabanos (entre 1835 e 1840)", ressalta o antropólogo.

Os mundurucus são uma etnia que conseguiu preservar de alguma maneira a sua cultura, até mesmo pela dificuldade de acesso e pela própria belicosidade. Ramos diz que, para além da versão oficial construída pelas missões evangelizadoras ou pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), primeiro órgão indigenista brasileiro, fundado em 1910 sob uma ótica positivista, uma história indígena ainda está por se fazer. "O que predomina é a visão de que os mundurucus teriam sido atraídos para as margens dos rios pelas mercadorias dos brancos e benesses que chegariam com o contato. A versão dos mundurucus não é essa", argumentou. Frei Florêncio também segue nessa linha, ao salientar uma mudança de perspectiva. "Os indígenas deixam de ser vítimas que foram quase exterminadas. Hoje, eles se veem como povos florescendo", destacou.

Fabíola Ortiz. Os grandes guerreiros da Amazônia. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 127 / p. 40-43.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A viagem das religiões e dos saberes

Cultura maia. Calcário com traços de tinta. Ca. 785 A.D.

Durante milhares de anos, a escrita foi apenas conhecida por um pequeno número de homens nas cidades-estados e nos impérios do Médio Oriente, no Egipto, na Índia e na China.

Depois, o facto de aprenderem a escrever mudou a maneira de pensar e de compreender o mundo. Os que tinham ideias novas puderam dá-las a conhecer, não apenas aos que lhes estavam próximos, mas, graças aos rolos ou aos livros manuscritos, às pessoas que poderiam estar mais afastadas. Sobretudo, graças à escrita, os seus conhecimentos e maneiras de ver puderam ser transmitidos àqueles que viveram depois deles e passaram de uma geração a outra.

Então, apareceram novas religiões e algumas espalharam-se por todo o mundo. Do mesmo modo, nasceram novos saberes, como a ciência e a filosofia. A poesia, até aí apenas oral e cantada, começou a ser escrita, tal como peças de teatro, narrativas e histórias. Aparecera finalmente o que hoje chamamos de literatura.

As religiões das tribos e dos grupos de homens sem escrita tinham pontos em comum. Para essas religiões muito antigas, o mundo era animado por forças misteriosas. O mundo de baixo, aquele em que se vivia, era penetrado pela acção de um outro mundo, o dos deuses, dos génios e dos demónios. Esse outro mundo era também o mundo dos antepassados, o dos "totens" e do clã. A morte e a vida misturavam-se e penetravam-se uma à outra. As potências divinas estavam presentes na natureza, nas nascentes, nas montanhas e nas árvores através das suas raízes que penetravam na terra...

[Feiticeiros, adivinhos e videntes...] O grupo reconhecia que certos homens tinham o poder de comunicar com essas forças divinas. Tratava-se dos adivinhos, dos videntes e dos feiticeiros. Entre os celtas, os druidas eram adivinhos e videntes. Entre os mongóis, ou em certas tribos de índios da América, o xamã era não só um adivinho mas também um curandeiro, um médico. Os gregos antigos tinham os seus magos que eram igualmente poetas e adivinhos. Os videntes falavam dos tempos antigos, das origens do grupo, e transmitiam os seus segredos àqueles que achavam dignos de os substituir.

Em muitas religiões antigas, havia o hábito de se fazer "sacrifícios" aos deuses. Durante certas festividades, matavam-se e queimavam-se animais. O fogo, o fumo e os odores estabeleciam uma relação mágica entre o mundo dos deuses, o dos vivos e dos mortos. [...]

[Os textos de Homero popularizaram os antigos deuses gregos] A escrita desempenhou um papel importante no que respeita às crenças dos povos e modificou religiões antigas, como a religião dos gregos.

Os primeiros helenos que chegaram à Grécia veneravam os deuses particulares das suas tribos. Os poetas, os aedos, acompanhados por um instrumento de música, a lira, cantavam e recitavam poemas e hinos sobre os deuses. Quando a escrita alfabética foi introduzida na Grécia, esses poemas foram recolhidos e escritos, formando um conjunto de "cantos": A Ilíada e A Odisseia. Os gregos chamaram então Homero ao homem que os tinha escrito sem nunca saberem bem quem era realmente esse poeta. Talvez que vários aedos tivessem composto esses poemas.

Esses poemas relatam a guerra dos aqueus (os helenos da Grécia) contra Tróia, cidade grega da Ásia Menor, e o regresso cheio de aventuras de um grego, Ulisses, à sua ilha de Ítaca. Os doze deuses dos gregos apareciam aí como seres com figuras e temperamentos humanos. [...]

Outros poetas descreveram o modo como a terra, o céu e o mar foram criados.

A Ilíada e A Odisseia foram os manuais básicos de todos os alunos gregos que então andavam na escola. Depois da conquista romana, os jovens romanos das grandes famílias tinham uma educação "grega". [...]

[Na Índia, os textos sagrados modificaram a antiga religião dos arianos] Tal como os invasores helenos na Grécia, os invasores arianos tinham trazido com eles os seus cultos e os seus deuses. Divinizavam a floresta, as árvores, o sol, o fogo...

A partir dessas crenças, foram redigidos textos na antiga língua dos arianos, o sânscrito. Estes foram coligidos sob o título de Vedas. Com base nesses livros sagrados, uma mesma religião, que os europeus chamaram de hinduísmo, espalhou-se lentamente ao longo dos séculos por toda a Índia. [...]

Os hinduístas têm toda uma série de deuses que variam segundo as regiões, mas têm como base uma mesma crença. O mundo no seu conjunto é, para eles, animado por uma força invisível, o brahman, e cada ser humano faz parte dessa força. Depois da morte, a alma viaja indefinidamente para outros seres vivos, homens ou animais, até se dissolver no brahman.

[Um só Deus, três religiões] Para o judaísmo, para o cristianismo e para o islamismo, a palavra de Deus é transmitida através de um livro santo. Sem a Bíblia não teria havido religião judaica nem cristã nem muçulmana. E o islamismo, a religião dos muçulmanos, é inseparável de um outro livro, o Corão, que reconhece as grandes personagens da Bíblia, Abraão, Moisés e Jesus.

Quer para uns quer para outros, Deus falou a homens privilegiados e as suas palavras foram em seguida transmitidas através de um Livro. Essas três religiões são, deste modo, inseparáveis da escrita que nos conta o modo como Deus, um deus único, invisível e eterno, se fez conhecer ou se "revelou" aos homens.

A ideia de que Deus é invisível, mas que está presente na história do homem através dos seus "eleitos", ou seja, que transmite a sua "palavra" a pessoas escolhidas por elem estabelece uma diferença em relação a outras religiões.

Para os judeus, tal como para os cristãos e para os muçulmanos, o primeiro homem escolhido por Deus para essa Revelação foi Abraão. Esse homem pertencia a um clã nómada, o dos hebreus, que circulava pela Mesopotâmia cerca de 1750 a.C. Mas o desenvolvimento dessa Revelação não é o mesmo para as três religiões.

Os judeus são os descendentes de Abraão, do seu filho Isaac e do seu neto Jacob, cognonimado Israel. Formam assim o povo de Israel testemunhando a aliança de Deus com os homens.

A história desse povo é contada nos cinco primeiros livros da Bíblia, para os judeus a Torah [...]. 

Na Bíblia, os Profetas de Israel anunciavam a vinda de um Salvador, o Messias.

Na Palestina, no tempo do Império Romano, um judeu, Jesus, pôs-se a pregar e a ensinar. Declarava-se enviado de Deus para curar os doentes e salvar os pecadores, ou seja, os que tinham agido mal. Era seguido por uma multidão de mulheres e homens judeus. Mas os sacerdotes do templo de Jerusalém e os seus escribas pensavam que se tratava de um agitador perigoso. Prenderam-no e entregaram-no ao governador romano para que ele fosse condenado à morte. Foi pregado numa cruz entre dois ladrões. Depois da morte de Jesus, alguns dos seus discípulos afirmaram que ele tinha ressuscitado de entre os mortos e que era o Messias, em grego, o "Cristo", anunciado pelos Profetas. Eram os primeiros cristãos.

Os Apóstolos, todos judeus e discípulos de Jesus anunciaram a Boa Nova, o Evangelho da Salvação dos homens. Os novos crentes agrupavam-se para formarem uma comunidade, uma Igreja [...].

[...] Os Apóstolos redigiram em grego alguns testemunhos sobre a vida de Jesus, os Evangelhos. e Cartas ou Epístolas. A Igreja cristã chamou a esses textos de "Novo Testamento" [...].

Durante algum tempo, os imperadores romanos não fizeram diferença entre cristãos e judeus e começaram a persegui-los.

Depois da destruição do templo de Jerusalém pelo imperador Tito, em 70 d.C., os judeus revoltaram-se. Pouco a pouco, o destino dos judeus e dos cristãos separou-se. Os judeus dispersaram-se fora da Palestina. [...]

O cristianismo espalhou-se, primeiramente entre os pobres e os escravos. Pouco a pouco trouxe a si as grandes famílias do Império Romano. A liberdade de ser cristão acabou por ser reconhecida em 313 pelo imperador Constantino. Em seguida, o cristianismo foi proclamado religião oficial do império.

Os não-cristãos tornaram-se suspeitos e certos bispos começaram a acusar os judeus de terem condenado Jesus à morte.

Para os muçulmanos, o Corão é o último dos livros revelados e o único perfeito.

O Islão, que em árabe quer dizer "submissão a Deus por amor a Ele", é a religião ensinada por Moamede (Maomé). Este apresentou-se como o último dos profetas depois de Abraão, Moisés, os profetas judeus e Jesus. Com ele, dizia-se, a Revelação, que tinha começado com Abraão, estava terminada.

Moamede tinha nascido em 570 d.C. num grande centro de caravanas da Arábia, em Meca. Os nómadas beduínos misturavam-se com os cidadãos. Encontravam-se aí também judeus e cristãos. Moamede ouviu o Anjo Gabriel que lhe comunicava mensagens de Deus. Mas, perseguido pelas pessoas da sua cidade, foi com alguns dos seus companheiros para Medina.

Era em 622, e essa data, Hijra, a Hégira, a "migração", marca o começo da era muçulmana.

Em Medina os clãs e as tribos estavam em luta. Moamede impôs a sua autoridade. Até à sua morte em 632, continuou a transmitir as mensagens de Alá, o Deus único, e ditou algumas regras para restabelecer a ordem em Medina e em toda a Arábia conquistada sob a sua direcção e convertida ao islamismo.

[...] da Espanha até à Índia, os califas conquistaram um imenso império em menos de um século [...].

[...] os muçulmanos ficaram presos à ideia de uma unidade que repousava sobre os cinco "pilares" do Islão: a crença em Deus e no seu profeta, a oração quotidiana, o jejum anual do ramadão, a esmola aos pobres, e se possível, ao menos uma vez na vida, a peregrinação a Meca.

[Como foram escritos a Bíblia e o Corão] Na Bíblia encontramos os traços da poesia das antigas tribos nómadas de antes e depois de Abraão. O Dilúvio já tinha sido contado nas lendas da Mesopotâmia, o país de onde vinham os hebreus. Os textos da Torah foram redigidos de um modo muito complicado quando as tribos de Israel se fixaram em Canaã (a Palestina). Houve vários redactores, e o trabalho durou vários séculos. Moisés não foi quem escreveu os "Dez Mandamentos".

Jesus, cuja língua era o aramaico [...] lia em hebraico. Mas também nunca escreveu nada, salvo com o seu dedo na areia, uma única vez. O Novo Testamento foi redigido pelos Apóstolos depois da morte de Jesus.

Maomé contava as revelações do Anjo Gabriel acerca de Deus, Alá, aos seus discípulos. Estes anotavam esta informação em folhas de palma, em pedaços de cerâmica ou de osso. O Corão, redigido em árabe e dividido em capítulos ou "suratas", é o conjunto dessas "recitações". O Livro foi redigido após a morte do Profeta.

Deste modo, nunca saberemos, verdadeiramente, o que disseram Moisés, Jesus ou Maomé pois não possuímos nenhum texto escrito directamente por eles. Mas os Livros que comunicam as suas mensagens transformaram a história dos homens afirmando que Deus falava através deles. Milhões de homens e mulheres acreditaram e ainda hoje acreditam.

[Uma ideia nova: compreender o mundo sem os deuses] O céu, o sol, as estrelas, a mudança dos dias e das noites há muito eram um mistério para os homens. Eles explicavam tudo isso através da religião. A primeira ciência, a Astronomia, nasceu da observação dos astros. Onde as pessoas conheciam a escrita, estas observações podiam ser anotadas e transmitidas a outras pessoas. Nas cidades-estados do Médio Oriente, tal como na América central, encontrávamos personagens junto dos reis que eram ao mesmo tempo sacerdotes e astrónomos. Talvez descendessem de antigos feiticeiros ou xamãs. Para eles a religião e o conhecimento do mundo não se podiam conceber como coisas separadas.

Na Grécia, na China, na Índia, houve homens que tentaram reflectir sobre o mundo e sobre eles mesmos sem o auxílio da religião. Foram, por isso mesmo, os inventores de conhecimentos novos, aquilo a que chamamos a ciência e a filosofia.

É evidente que esses pensadores chineses, gregos e indianos não se conheciam. Mas, e é estranho, alguns dos seus achados, em tudo inseparáveis da escrita, ocorreram em momentos muito próximos da história do homem que, no entanto, era já tão longa.

Hoje em dia, algumas pessoas são "cientistas" e outras "filósofos". Mas, em tempos, os pensadores eram ao mesmo tempo filósofos, físicos e matemáticos. Ou seja, eles reflectiam ao mesmo tempo sobre o mundo, sobre a natureza [...] e sobre a maneira como o homem se deverá comportar na vida para ser um bom conhecedor [...].

Entre 600 e 300 a.C., grandes pensadores, letrados e "sábios" viveram em todos os continentes onde a escrita era já antiga. Deste modo, os seus pensamentos puderam ser transmitidos até aos nossos dias.

* Os primeiros físicos e os primeiros filósofos gregos da Ásia Menor reflectiram sobre o movimento da vida e sobre a origem do mundo;
* O matemático greco-italiano Pitágoras afirmou que os números e a aritmética estavam na base de todas as coisas;
* Sidarta Gautama, o Buda, ensinou na Índia uma filosofia da "sabedoria" sem deuses;
* Os Olmecas no México tinham elaborado um calendário solar;
* Na China, o mestre Kong, mais tarde chamado Confúcio, trouxe-nos regras práticas sobre a vida e sobre a moral [...];
* Na Grécia, Sócrates, um "sábio", e os filósofos atenienses Platão e Aristóteles foram pensadores que influenciaram bastante os países europeus, dado que ainda falamos deles e ainda os lemos hoje em dia;
* Na China, os astrónomos puderam descobrir que o ano tinha 365 dias e um quarto, e filósofos taoístas propuseram a busca de uma verdade em si mesma. Segundo estes, é necessário procurar o equilíbrio e a calma em relação com o Tao, o movimento secreto da natureza.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 103, 105-114, 117-119.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O mundo dos espíritos: animismo e xamanismo

Reconhecendo as forças naturais e sua habilidade de afetar vidas humanas, muitas comunidades humanas primitivas desenvolveram sistemas de crenças baseados na ideia de que os mundos natural e animal eram favorecidos pelo poder espiritual (animismo). No xintoísmo essas forças são chamadas de kami, e podem ter incluído de tudo, desde cachoeiras e montanhas até divindades com características humanas como a Deusa do Sol. Entre muitos povos mesoamericanos, incluindo os zapotecas (cerca de 500 a.C. - 500 d.C.) e os maias, a noção do sopro, a brisa ou espírito animístico incorporado em forças naturais e no mundo natural foi fundamental à sua cosmologia: tudo aquilo que se move deveria ser respeitado como  o reflexo de um criador único, incorpóreo. Essas forças eram, então, personificadas como deuses ou deusas.

Xamã de uma tribo indígena da Amazônia venezuelana.

Comunidades humanas antigas também praticavam o xamanismo, crenças e práticas focadas em indivíduos com habilidades especiais que permitem a comunicação com espíritos. O xamanismo persiste no mundo contemporâneo, em lugares como a Coréia e até mesmo nos Estados Unidos e na África. Xamãs, que podem ser mulheres ou homens, que se pensava que poderiam se comunicar com outros seres antropomórficos ou espirituais em favor da comunidade por meio de transes cerimoniais. Na sociedade coreana moderna, refletindo práticas que podem ser originárias dos primeiros habitantes da península coreana, xamãs femininos realizam cerimônias para dar assistência a seus clientes que buscam ajuda com uma onda de azar ou para garantir um futuro benéfico.

Jorge Nopaltzin Guaderrama. Tradição asteca. Nopaltzin ensina as pessoas a viverem diretamente do coração, incondicionalmente.

Algumas artes rupestres têm sido interpretadas como representações das experiências xamânicas, notavelmente nos exemplos do sul da África, oeste da América do Norte e na Austrália. Entre os povos san do sul da África, acreditava-se que os xamãs influenciavam os rebanhos de elandes, um tipo de antílope que eles caçavam. Imagens de figuras antropomórficas (parte humana, parte elandes) em artes rupestres recentes e antigas podem ser referência às experiências de transes, nas quais os xamãs tornavam-se um elande. De forma semelhante, utilizando evidências etnográficas e arqueológicas, acadêmicos interpretaram artes nas pedras de 4 mil anos, da região do baixo curso do Rio Pecos no sudoeste do Texas e no norte do México, que retratavam figuras antropomórficas atravessando uma abertura em forma de um arco sinuoso que eram a representação pictográfica de uma jornada xamânica dentro do mundo espiritual.

Curandeiro Nez Perce, George Catlin.

Junto à arte rupestre, os artefatos mais antigos que oferecem uma dica sobre as ideias e práticas religiosas da América do Norte são cachimbos com figuras humanas que pareciam estar em transe, esculpidas na parte saliente. Esses cachimbos, datando de 3 mil anos atrás, provavelmente eram usados em cerimônias xamânicas nas quais fumar uma substância produzia um estado de transe que permitia que o xamã entrasse em contato com o mundo espiritual. Os cachimbos surgiram quando os construtores de altares norte-americanos começaram a erguer plataformas nas quais as cerimônias - que presumivelmente deveriam utilizar esses cachimbos - podiam acontecer no alto de grandes montes de terra.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 100-101.