"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Elementos árabes no léxico português

A profunda influência árabe deixou claros vestígios nos vocabulários de diversos idiomas europeus. Esses termos de origem árabe referem-se em sua maioria, à indústria, ao comércio, agricultura, administração, bem como às ciências ensinadas nas grandes Universidades muçulmanas (Córdova, Sevilha, Granada).

Eis alguns exemplos - do vocabulário português:

termos militares: alcácer, alferes, almirante, alfange, alarido, ameia, arsenal, azaguaia, tambor;

agricultura: açafrão, acelga, acéquia, açúcar, açucena, açude, alfafa, alfazema, algodão, alecrim, ameixa, arroz, azeitona, benjoim, café, cânfora, ceifa, gergelim, jasmim, laranja, limão, romã, tâmara;

ciências, indústria e comércio: açougue, alfaiate, alambique, álcool, alcatrão, alquimia, algarismo, álgebra, alicerce, aluguel (ou aluguer), almofada, almofariz, alvaiade, âmbar, argola, azeite, azougue, bazar, cifra, elixir, enxofre, enxoval, giz, marroquim, musselina, magazine, marfim, talco, tabique, tráfico, tarifa, saguão, zero;


Açougue medieval.
Tacuíno Sanitatis.

pesos e medidas: quilate, quintal, arrátel, arrôba;

diversos: assassino, ataúde, auge, azul, beduíno, enxovia, fulano, carmesim, oxalá, papagaio, paxá, mesquinho, sorvete, talismã, tufão, zênite.

BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1971. p. 243.

sexta-feira, 31 de março de 2017

A poesia lírica na Grécia Antiga

Safo e Alceu, Lawrence Alma-Tadema

A poesia épica definhou rapidamente, Mas outra nasceu, marcada ao mesmo tempo pela influência da música oriental e do individualismo dos gregos: a lírica. No que tange à música, tanto aos instrumentos quanto à melodia, o contato com a Lídia, por sua vez herdeira da Frígia, foi por certo determinante. O fato de os gregos atribuírem esta ou aquela inovação técnica a alguns de seus compatriotas não pode dissimular a realidade dos empréstimos que, sem dúvida, foram tomados aos legados da civilização cretense. Tudo isso lançou profundas raízes no patrimônio grego, penetrando o ritual das cerimônias religiosas. O lirismo coral, acompanhado das danças e evoluções ritmadas de grupos de homens, moças e crianças, em parte alguma recebeu maiores homenagens do que em Esparta. A música tornou-se elemento integrante da educação dos jovens gregos, por vezes até a idade de trinta anos.

Mas, além de terem inventado para sua poesia lírica metros de infinita variedade, os gregos ousaram utilizá-la a fim de exprimir sentimentos pessoais, defender-se de seus acusadores e passar à acusação, colocar-se em cena, por vezes despudoradamente, cantar seus ódios e seus amores, dores e alegrias. A partir do século VII a.C. foram inventados a elegia, o iambo e a ode, incessantemente aperfeiçoados e flexibilizados com uma riqueza inesgotável de ágeis combinações. Foram praticados por numerosos poetas, dos quais, infelizmente, nenhuma obra inteira nos resta. O legislador Sólon serviu-se da poesia para apoiar sua ação política e social. Teognis de Mégara derramou nela a sua cólera; Esparta encontrou nos estrangeiros os melhores de seus poetas cívicos. Mas a maioria dos líricos, nascidos ou tendo vivido nas cidades da Ásia Menor ou das ilhas, cantou, ora as alegrias, ora os ardores da vida sensual que a riqueza e a proximidade do Oriente aí faziam eclodir. Os dois maiores nomes são os de dois mitilênios do começo do século VI a.C., cujos fragmentos nos permitem conhecê-los de forma bastante precisa: Alceu e a poetisa Safo. Neles não se nota constrangimento algum; seu frenesi é indiferente às conveniências banais. Safo ostenta uma paixão que já parece escandalosa à Antiguidade, e Alceu celebra, por um apelo à embriaguez, a morte de um tirano detestado.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 119-120. (História geral das civilizações, v. 2)

quarta-feira, 29 de março de 2017

A herança dos micênios

Afresco micênico representando uma deusa ou sacerdotisa. 
C. 1250-1180 a.C. Artista desconhecido

Embora guerreira e forte, a civilização micênica defrontou-se com uma que era mais guerreira e mais forte: outros gregos, os Dórios, como se pensou por muito tempo, ou outros invasores, ou revoltas internas, ou, o que não é contraditório com as explicações anteriores, uma catástrofe natural provocam, por volta de 1 200, a destruição de todos os palácios, o abandono da maioria dos sítios habitados, o desaparecimento definitivo de uma sociedade e de sua escrita. Mas pode uma civilização desaparecer, legando aos seus sucessores apenas vestígios de ordem material?

Essa recolhera e mantivera grande parte da herança cretense. Nem tudo se desvaneceu na tormenta das novas invasões. A língua grega adotou certas palavras que não são indo-europeias nem semíticas; provém de um idioma talvez mais antigo do que o cretense; em todo caso, foram utilizadas por cretenses e micênicos. A religião grega não perdeu a divinização do princípio da fecundidade, a prática dos jogos esportivos. E os Aqueus asseguraram a transmissão de tudo isso.

Eles próprios não se limitavam ao papel de intermediários. Não lhes podemos atribuir tudo o que mais tarde se tornou helênico: pois devemos levar em conta os demais elementos constitutivos do futuro povo grego. Mas a lembrança de sua guerra contra Troia, de suas incursões pelo Mediterrâneo de suas riquezas, de suas armas e de seus enfeites, alimentou os poemas homéricos. Alguns chegaram mesmo a pensar que tais poemas, no tocante à métrica e estilística, sofrem a influência direta de precedentes micênicos; isso já é um avanço por demais ousado. Limitemo-nos, numa escala mais ampla, a uma observação. Os cretenses haviam aberto a rota transversal do Mediterrâneo oriental; mas isso redundava em proveito do Egeu e suas ilhas. Os micênios conservaram essa rota, mas em proveito da Grécia continental. Os gregos serão assaz numerosos, hábeis e ativos para permanecer etnicamente e, depois, se tornar economicamente, os senhores dessa rota: durante muito tempo ela apenas existirá em virtude deles e em seu favor, como nas eras dos reis de Micenas e Tirinto.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 52-3. (História geral das civilizações, v. 2)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A herança negada

No Alhambra, Rudolf Ernst


Uma noite, em Madri, perguntei ao taxista:

- O que os mouros trouxeram para a Espanha?

- Problemas - respondeu ele, sem um instante de dúvida ou de vacilação.

Os chamados mouros eram espanhóis de cultura islâmica, que na Espanha tinham vivido durante oito séculos, trinta e duas gerações, e ali haviam brilhado como em nenhum outro lugar.

Muitos espanhóis ignoram, até hoje, os resplendores que aquelas luzes deixaram. A herança muçulmana inclui, entre outras coisas:

* a tolerância religiosa, que sucumbiu nas mãos dos reis católicos;
* os moinhos de vento, os jardins e os canais que até hoje dão de beber a várias cidades e irrigam seus campos;
* o serviço público de correios;
* o vinagre, a mostarda, o açafrão, a canela, o cominho, o açúcar de cana, os churros, as almôndegas, as frutas secas;
* o jogo de xadrez;
* a cifra zero e os números que usamos;
* a álgebra e a trigonometria;
* as obras clássicas de Anaxágoras, Ptolomeu, Platão, Aristóteles, Euclides, Arquimedes, Hipócrates, Galeno e outros autores, que graças às suas versões árabes foram difundidas na Espanha e na Europa;
* as quatro mil palavras árabes que integram a língua castelhana;
* e várias cidades de prodigiosa beleza, como Granada, que uma quadrinha anônima cantou assim:

Dá-lhe esmola, mulher,
que na vida não há nada
como a dor de ser
cego em Granada.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 110.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A herança medieval no Brasil

Bumba meu boi, Portinari

Mesmo no Brasil, que vivia na Pré-história enquanto a Europa estava na chamada Idade Média, muitos elementos medievais continuam presentes. A colonização portuguesa introduziu práticas que, apesar de já então superadas na metrópole, foram aqui aplicadas com vigor, inaugurando o clima de arcaísmo que marca muitos séculos e muitos aspectos da história brasileira. Luis Weckmann detectou com pertinência a existência de uma herança medieval no Brasil, porém limitou sua presença apenas até o século XVII. E, na realidade, ela continua viva ainda hoje nos nossos traços essenciais.

Os dois elementos culturais que enquadram a consciência de nacionalidade são de origem medieval. O nome de nosso país vem da "ilha afortunada" O'Brazil, identificada nos séculos XIV-XV com as Canárias, antes de sê-lo com a América. A tradicional associação da terra descoberta por Cabral com a madeira tintorial aí encontrada (o pau-brasil) desconsidera que a própria madeira tirara seu nome da mítica ilha medieval. O idioma, obviamente, é aquele introduzido e imposto pelos colonizadores, idioma que, como todos os do mundo ocidental, nascera na Idade Média.

Na vida política, a duplicidade de um poder central teoricamente forte e a realidade dos poderes locais atuantes permanece. O ponto de partida, que deixou fundas raízes, foi o sistema de capitanias. Isto é, o sistema usado pelas comunas italianas medievais nas suas colônias do Oriente Médio e das ilhas mediterrâneas, mais especificamente por Gênova, que nos séculos XIV-XV mantinha estreitas relações com Portugal. As primeiras capitanias portuguesas, nas Ilhas Canárias, foram entregues em 1370 a um "capitão" genovês. O funcionamento do sistema foi o mesmo na Idade Média e nos séculos XVI-XVII: cada donatário tinha o usufruto das terras e nelas poderes regalianos como arrecadar impostos, aplicar justiça, convocar milícias. Intermediária privilegiada entre o poder monárquico e os colonos, a figura do donatário gerou no Brasil o personalismo típico das relações medievais, responsável pela fraqueza das instituições políticas brasileiras dos séculos seguintes.

Na vida social, por muito tempo, e ainda hoje em certas regiões, prevaleceu a família patriarcal, que dificulta a transformação do indivíduo em cidadão, dos interesses particulares em interesses gerais e, por consequência, a consolidação do Estado. O patriarca - termo correspondente linguística e funcionalmente ao senior ("o mais velho") feudal - constituía-se em suas amplas terras uma espécie de micro-Estado que produzia quase todo o necessário para a vida de sua população. O patriarca detinha ali poder de vida e morte sobre seus familiares. Dependentes das riquezas e da proteção fornecidas pelo patriarca, os demais habitantes daquela terra também estavam submetidos ao seu poder. Essa organização colonial e imperial transferiu-se para a República, por longo tempo dominada por aqueles aristocracias regionais. Mesmo a democratização recente do país não eliminou ainda o clientelismo e seu pressuposto, a prática do "dando é que se recebe".

No plano jurídico. as normas formalmente derivadas do Direito Romano não escondem a força de um direito consuetudinário informal, paralelo, de um conjunto de ilegalidades socialmente aceitas. Estas quase sempre são praticadas em detrimento do Estado, cotidianamente assaltado nas suas prerrogativas, muitas vezes por dentro, por parte de altos funcionários e dos próprios governantes. Como na época feudal, o Estado brasileiro não é uma "coisa pública" (res publica), é propriedade dos mais fortes e espertos. Ao longo de nossa história pouco se distinguiram as noções de público e privado, da mesma forma que ocorria na sociedade feudal, na qual tudo é privado e ao mesmo tempo tudo se torna público.

No plano econômico, a situação brasileira, fundamentalmente agrária até meados do século XX, denuncia o passado medieval transplantado pelos portugueses e prolongado pelo sistema colonial mercantilista e pelo neocolonialismo industrial. Da mesma forma que o sistema de valores medieval exaltava a aventura do cavaleiro andante, o destemor religioso do cruzado, o espírito de risco do mercador que partia para locais distantes, por muito se desprezou no Brasil o trabalho cotidiano e rotineiro. A ocupação do solo e a exploração das riquezas naturais deram-se, no Brasil "moderno" e "contemporâneo", de forma predatória semelhante à praticada na Europa "medieval". Associada ao caráter agrário da sociedade, a urbanização europeia fora fraca até o século XI, a brasileira até fins do século XIX.

No plano cultural, apesar da globalização neste início de milênio, alguns elementos medievais ainda são visíveis. Artur e Carlos Magno estão presentes com frequência na literatura nordestina de cordel, cujo espírito, temática, transmissão e recepção essencialmente orais prolongam a poesia europeia da Idade Média no Brasil do século XX. Mesmo certas criações eruditas do Nordeste, como os textos de Ariano Suassuna e as músicas de Elomar,, bebem fundamentalmente de fontes medievais. O calendário brasileiro atual tem 14 feriados oficiais, dos quais 11 são de origem medieval. Festas como o Carnaval, no Rio de Janeiro e no Nordeste, o Bumba meu boi, em São Luís do Maranhão, a Procissão de Círio, em Belém do Pará. têm inegáveis raízes medievais.

A religiosidade nacional, sincrética, exacerbada, informal, traz em si diversos traços medievais: as irmandades. o culto a santos não canonizados (caso de Padinho, o padre Cícero), a visão mágica de sacramentos (roubar hóstias consagradas para fazer amuletos foi comum na Europa medieval e no Brasil colonial), o sentimento messiânico-milenarista (como mostram o sebastianismo, Canudos, certos eventos políticos recentes), várias superstições (espelho quebrado, saliva cura e mata, pé direito etc.). O processo de formação do catolicismo brasileiro também lembra o fenômeno na Idade Média. Nesta ocorreu uma cristianização do paganismo e uma paganização do cristianismo, no Brasil uma cristianização do culto africano e uma africanização do cristianismo. A sensibilidade coletiva brasileira é de forte instabilidade emocional, oscilando do pessimismo mais negro ao otimismo mais eufórico, semelhante ao constatado por Marc Bloch na Europa feudal.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 168-170.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Saberes milenares: o peso da herança indígena na sociedade brasileira

Cabeça de índio, Henrique Bernardelli

O português que veio ao Brasil era um lavrador desvinculado de suas raízes. Deixara na aldeia europeia seus campos de cultura e seus rebanhos, a família e a comunidade, cujo consenso lhe pautava a vida. Nenhuma lealdade o ligava  à nova terra. Vivia como um estranho junto a um povo com que não se identificava e diante do qual não se sentia moralmente obrigado, senão quando compelido por uma força externa, como a Igreja ou o Estado. A distância cultural que separava o colonizador do habitante nativo era imensa. No Brasil não encontrou nenhum dos frutos que conhecia, nenhum animal doméstico a que estava habituado. As técnicas de cultivo da terra a que estava afeito não se aplicavam à floresta tropical.

A superioridade numérica do índio em relação aos minguados contingentes que vinham nas caravelas era avassaladora. Assim, apesar de toda a sua potência guerreira e técnica, os colonialistas tiveram de aprender com eles a viver nos trópicos, a cultivar seus frutos, a comer suas raízes e paulatinamente a criar nichos que começaram a atuar sobre os índios em torno. A esse processo de chamou a tupinização do português no Brasil, por ser a etnia Tupi a prevalecente no litoral, à época da descoberta.

Meio século depois, já se tinham formado na costa alguns núcleos de população que representavam uma primeira combinação, ainda que desordenada, de uma cultura europeia com uma cultura tribal. Na concepção de Darcy Ribeiro, seriam a “protocélula da etnia brasileira”, que conformariam o que se chama hoje “a cultura rústica brasileira”.

As aldeias da costa, que serviam de feitorias para dirigir o comércio do pau-brasil, tiravam sua subsistência por métodos antes desconhecidos ao europeu, falavam uma língua indígena, o Tupi, e viam o mundo com olhos diversos. Estes núcleos que se uniram primeiro pelo mar, como se fossem ilhas, depois por terra, é que viriam a constituir o Brasil. Já continham os traços essenciais que caracterizariam o perfil do povo brasileiro: não eram europeus e não eram índios. Aquelas protocélulas tinham a solução de sobrevivência do europeu no trópico: produziam um produto de exportação, o pau-brasil, que lhes garantiria as mercadorias europeias de que necessitavam e da própria terra retiravam as fontes de subsistência.

Já nessa fase, o índio era compelido, cada vez mais, a servir como mão de obra escrava à sociedade de cujos ideais não participava. Até que se tornou obstáculo, porque reteve terras que eram cobiçadas, porque sua hostilidade punha em perigo a vida do invasor e porque a necessidade crescente do escravo e do guerreiro levava o colono a um depoimento cada vez mais exacerbado. A inadaptação do índio ao regime de vida e de trabalho do engenho canavieiro obrigou ao afluxo do escravo negro, dando nova dimensão às “protocélulas” iniciais. Segundo Darcy Ribeiro:

“Os conformadores fundamentais destes núcleos foram a escravidão, como forma de contingenciamento da mão de obra e o sistema de fazendas, em que cada novo núcleo foi estruturado.”

A história do Brasil será daí por diante a aventura desses núcleos pioneiros da Bahia, de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de São Paulo em sua luta para não indianizar-se ao mesmo tempo em que se armavam de preconceitos contra os índios.

Dentre os muitos legados indígenas à sociedade que foi constituída em seu território, o mais importante foi, sem dúvida, o do seu sangue e genes. Desde a primeira hora, a mulher indígena foi o ventre em que se gerou a população que ocuparia o imenso território conquistado. Diogo Álvares, ou Caramuru, na Bahia, João Ramalho, em São Vicente, mais tarde, Jerônimo de Albuquerque, ele próprio um “meio-sangue”, em Pernambuco, passaram à história como alguns dos muitos exemplos de uniões poligâmicas de que resultaram os primeiros mamelucos, filhos de pais portugueses e índias. Mamelucos esses que, embora falando a língua materna, alimentando-se da mesma forma que seus antepassados aborígenes, identificavam-se ideologicamente com o pai.

Sinal de batalha de índios Botocudos (Bororos), Jean-Baptiste Debret

As expedições de caça ao índio e de procura do ouro, empreendidos pelos paulistas, eram compostas, em sua maioria, por mamelucos e índios recrutados nas aldeias missionárias. Durante muito tempo, paulista foi sinônimo de mameluco. Mamelucos foram os mais notáveis bandeirantes, como Domingos Jorge Velho, destruidor de Palmares que, para parlamentar com o bispo de Pernambuco, em 1697, precisou levar intérprete. Sérgio Buarque de Holanda, a quem devemos essa informação, menciona alcunhas de paulistas ilustres de origem Tupi, sustentando que

“Sinal, talvez, de que ainda em pleno Setecentos persistia, ao menos em determinadas camadas do povo, o uso da chamada língua da terra.”

Até o século XVIII, segundo o mesmo autor, nas capitanias onde atuaram os jesuítas (São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará, Amazonas), a língua da terra predominava sobre o português, principalmente no âmbito familiar, na proporção de três falantes para um. Em São Paulo, os velhos ainda se expressavam em língua geral no começo do século XIX, como notou Hércules Florence, e no rio Negro isso ocorre até hoje.

Mais tarde, a composição da população se modificou. Chegaram mulheres brancas, acirrando-se o preconceito contra a nativa. As uniões regulares, antes incentivadas pela legislação colonial, foram sendo desmerecidas, estancando a entrada de genes indígenas. Já então o português podia prescindir do índio porque tirara dele o fundamental: a fórmula de sobreviver nos trópicos, a aprendizagem de seu método de plantio e as próprias plantas que cultivava, bem como a forma de prepará-las e consumi-las. Também obtivera dele a força de trabalho como escravo, substituído pelo negro nos empreendimentos mais lucrativos; sua combatividade de guerreiro para defendê-lo contra grupos hostis e o invasor estrangeiro; os seus conhecimentos da terra, como guia e como geógrafo. E da mulher indígena, a sensualidade, a servilidade e a fecundidade.

Em razão da ampla extensão territorial em que se implantou a tradição cultural Tupi-guarani – que aproximadamente corresponde ao traçado do mapa do Brasil – foi possível imprimir um perfil uniforme à sociedade brasileira.

Sinal de retirada de índios Botocudos (Bororos), Jean-Baptiste Debret

De então até nossos dias, esse, lastro aborígene da cultura brasileira, sobretudo de base Tupi-guarani, conserva-se em grande parte do Brasil interiorano. Isso pode ser observado pela facilidade com que o sertanejo nordestino, o caiçara paulista, ou, mais propriamente, o caboclo amazônico encontram elementos culturais que lhes são familiares num contexto tribal. Para todos, a base da alimentação é a farinha de mandioca, cultivada e preparada pelos mesmos processos. Na casa indígena encontram vários utensílios domésticos que lhes são familiares, chamados pelos mesmos nomes: o tipiti para espremer o sumo da mandioca brava, o pilão, o ralador, a peneira, os balaios, os abanos, as esteiras trançadas de palha; os jacás, samburás, jamaxis, aturas, para trazer peixe, castanha ou produtos da roça. Reconhecem inúmeros implementos de pesca: o pari, que é a barragem para fechar o igarapé e atrapar o peixe; o juquiá ou covo, que é a armadilha crônica; cacuri, curral para peixe, tracajá ou tartaruga; o puçá, a tarrafa e o jererê, espécies de redes; a pesca com linha e anzol (hoje de aço, antes de fisga de osso) e pelo envenenamento dos peixes com certas folhas saporáceas, como o timbó. Do mesmo modo, são familiares ao caboclo e ao sertanejo certos tipos de embarcação como a ubá escavada em tronco de árvore a fogo; instrumentos de música, como o berimbau; armadilhas de caça, como o mundéu ou o alçapão para quadrúpedes e a arapuca para a caça de passarinhos; utensílios de mesa e de cozinha, como o porongo, a cuia, a gamela, o pote e a panela de barro. E, ainda, inúmeros pratos e quitutes como o mingau, o beiju, o chibé (farinha de mandioca misturada com água e às vezes temperada com fruta), a papa, a tapioca, a paçoca de peixe ou de carne com farinha, carne ou peixe assados no moquém, a muqueca, a quinhapira (molho de carne ou peixe com pimenta-da-terra), a mujeca (pirão de caldo de peixe, com farinha), a saúva ou içá moqueada, o tucupi (molho do sumo da mandioca-brava cozido), a bebida de guaraná, no Norte, a de erva-mate no Sul, o caxixi, “vinho” de mandioca fermentada e de frutas e tantos outros.

Uns e outros utilizam os mesmos produtos da indústria extrativa, como o breu, a almecega, a imburana e outras gomas; plantas tintoriais, como o pau-brasil, o jenipapo, o urucum; diversas fibras têxteis, entre as quais o caroá, o caraguatá, o tucum, o algodão; materiais de construção, como o sapé, o cipó, as folhas e os troncos de palmeiras; e um sem-número de ervas medicinais para pajelança e “mezinhas”.

Além desses elementos, o caboclo identificará vários outros, como a rede de dormir, os bancos, o fumo. Verificará que são comuns a índios e caboclos certos hábitos, como o de tomar banho diário de rio, andar descalço, descansar de cócoras. Chamará pelos mesmos nomes várias plantas, animais, acidentes geográficos e topônimos; temerá os mesmos duendes, utilizando fórmulas comuns para controlar aqueles seres sobrenaturais. Desse modo, índios e interioranos encontram formas de entendimento que vêm do início de nossa formação.

O peso da herança indígena pode ser aquilatado no retrato que faz José Veríssimo dos modos de vida e do sistema adaptativo do caboclo amazônico:

“A casa em que vive aquela gente é pouco mais que a palhoça do antigo bárbaro. Fincam no solo alguns esteios brutos (sem falquejo); os dois da frente ou do meio mais altos de modo a que o teto fique inclinado; apóiam sobre esses esteios algumas varas e sobre estas vão estendendo folhas de palmeiras atadas com cipós. Em regra, tais cabanas só têm duas portas, a da frente e a do fundo. Cercam o exíguo recinto com tapumes de jissaras partidas, cobertas às vezes de barro. Quase sempre há uma única divisão: a que serve de dormitório para o chefe da família. O mais é aberto, tendo no centro a lareira, onde nunca se deixa apagar o fogo. Por cima, chegado ao teto, está o jirau, como nas tendas do índio é a despensa da família. No interior destas cabanas, um ou outro móvel se encontrará mais que aqueles mesmo de que usava o antigo selvagem: balaios, esteira de piri, cuias, vasos de argila, redes ou macas de cipó etc. – tudo refletindo muito mal disfarçada a vida do aborígene. Nessas palhoças, o modo de viver, as relações de família, a economia, o regime doméstico – tudo pouco difere do que se observava na taba do selvagem. O homem come de cócoras como o índio ainda comia; cura-se dos males que o assaltam pelos mesmos primitivos processos; anda sempre descalço; quando viaja com a família, vai sempre adiante; caça, pesca como pescava e caçava o silvícola há quatrocentos anos, tendo demais apenas os petrechos e artifícios que a conquista introduziu; as embarcações de que se serve, nos rios e nas baías; o modo de preparar o roçado e de fazer o plantio; o fabrico de farinha, a moqueação de peixe, etc. – tudo acusa de modo flagrante que no homem simples do sítio, mais ou menos isolado da civilização, subsiste mais ou menos fielmente o que havia de mais ponderoso nas raças nativas.”

Do indígena aproveitou a colonização europeia a técnica de coivara (clarear os campos a fogo), que até hoje não foi substituída por processos mais modernos, constituindo-se numa prática sumamente nociva à economia agrícola. Enquanto o indígena utilizava essa técnica para limpar um pequeno trato de terra, extinguindo, pelo fogo, as pragas, os insetos daninhos e a vegetação rasteira, que à falta de enxada e outros instrumentos de ferro não poderia extirpar, o latifundiário aplica a mesma técnica para fazer extensas plantações agrícolas ou pecuárias. As grandes queimadas inutilizam madeiras preciosas e a terra desprotegida de vegetação é lavada por chuvas e enxurradas, carreando todo o húmus vegetal para o fundo dos rios e lagos. Na Amazônia, as consequências desse desmatamento são muito mais graves. O solo fica exposto à forte insolação e ao peso das chuvas. A superfície endurece, anulando sua permeabilidade. Destrói-se toda matéria orgânica, deslizando os minerais solúveis para as camadas mais profundas da terra, onde não penetram as raízes.

A queima em pequena escala praticada pelo indígena e o apodrecimento de galhos e troncos, deixados sem queimar, devolvem ao solo nutrientes necessários para alimentar os brotos. O revolvimento da terra com arado e trator a danifica irremediavelmente, ao contrário do que ocorre quando o índio usa simplesmente uma estaca de cavar para a semeadura. O cultivo de espécies diversas favorece a recaptura parcial dos nutrientes e evita a propagação de pragas, como acontece nas plantações monoculturas.

Examinados todos os fatores que presidem a adaptação do índio ao ecossistema da Amazônia, a arqueóloga Betty Meggers, numa passagem de seu livro Amazônia, a ilusão de um paraíso, afirma:

“O ponto a ser acentuado aqui é que a agricultura itinerante não constitui um método de cultivo primitivo e incipiente, tratando-se, ao contrário, de uma técnica especializada que se desenvolveu em resposta às condições específicas de clima e solo tropicais”.

Como se vê, desconhecendo embora o uso de instrumentos de ferro, as técnicas agrícolas indígenas eram bastante eficientes e perfeitamente ajustadas às condições de seu meio ambiente. Baseavam-se, como ainda hoje, num saber milenar – o conhecimento objetivo da natureza e suas leis – advindo da observação e da experimentação.

RIBEIRO, Berta. O índio na história do Brasil. São Paulo: Global, 2011. p. 101-5.

domingo, 8 de junho de 2014

A herança mística e extraterrena da Pérsia

Emblema solar de Ahura Mazda. 
Ca. VI século a.C. Susa, Pérsia

A religião dos persas, tal como foi ensinada por Zoroastro, não permaneceu por muito tempo em seu estado original. Foi corrompida principalmente pela persistência de superstições primitivas, pela magia e pela ambição do clero. Quanto mais a religião se estendia, tanto mais nela se enxertavam essas relíquias do barbarismo. Com o passar dos anos, a influência de crenças de outras terras, particularmente as dos caldeus, determinou novas modificações. O resultado final foi o desenvolvimento de uma poderosa síntese na qual o primitivo sacerdotalismo, o messianismo e o dualismo dos persas se combinavam com o pessimismo e o fatalismo dos neobabilônios.

Dessa síntese emergiu, aos poucos, uma profusão de cultos, semelhantes em seus dogmas básicos, mas concedendo a eles valores diferentes. O mais antigo dos cultos era o mitraísmo, nome que se deriva de Mitra, o principal lugar-tenente de Mazda na luta contra as forças do mal. Mitra, a princípio apenas uma divindade menor da religião zoroástrica, encontrou finalmente agasalhado no coração de muitos persas como deus mais merecedor de adoração. A razão dessa mudança foi, provavelmente, a auréola emocional que cercava os acidentes de sua vida. Acreditava-se que nascera num rochedo, em presença de um pequeno grupo de pastores, que lhe trouxeram presentes em sinal de reverência pela sua grande missão na terra. Passou então a sujeitar todos os seres vivos que encontrava, conquistando e tornando úteis ao homem muitos deles. Para melhor desempenhar essa missão, fez um pacto com o sol, obtendo calor e luz para que as plantações pudessem florescer. O mais importante de seus feitos foi, contudo, a captura do touro divino. Agarrando o animal pelos chifres, lutou desesperadamente até forçá-lo a entrar numa caverna, onde, em obediência a uma ordem do sol, o matou. Da carne e do sangue do touro provieram todas as espécies de ervas, grãos e outras plantas valiosas para o homem. Mal esses feitos foram realizados, Ahriman provocou uma seca na terra, mas Mitra enfiou a sua lança numa rocha e as águas dela borbulharam. Em seguida o deus do mal mandou um dilúvio, mas Mitra mandou construir uma arca para permitir a salvação de um homem com os seus rebanhos. Depois de terminados os seus trabalhos, Mitra participou de um festim sagrado com o sol e subiu aos céus. No devido tempo voltará e dará a todos os crentes a imortalidade.


Mitra e o touro. Afresco do Templo de Mitra, Marino, Itália, século II d.C. Artista desconhecido

O ritual do mitraísmo era complicado e significativo. Incluía uma complexa cerimônia de iniciação em sete estágios ou graus, o último dos quais firmava uma amizade mística com o deus. Longas provas de abnegação e mortificação da carne constituíam complementos necessários ao processo de iniciação. A admissão à completa participação no culto habilitava uma pessoa a participar dos sacramentos, sendo o mais importante o batismo e uma refeição sagrado de pão, água e, possivelmente, vinho. Outras observâncias incluíam a purificação lustral (ablução cerimonial com água santificada), a queima de incenso, os cânticos sagrados e a guarda dos dias santos. Destes últimos, eram exemplos típicos o domingo e o dia vinte e cinco de dezembro. Imitando a religião astral dos caldeus, cada dia da semana era dedicado a um corpo celeste. Uma vez que o sol, como fonte de luz e fiel aliado de Mitra, era o mais importante desses corpos, seu dia era, naturalmente, o mais sagrado. O dia vinte e cinco de dezembro possuía, também, significação solar: sendo a data aproximada do solstício do inverno, marcava a volta do sol de sua longa viagem ao sul do Equador. Era, em certo sentido, o "dia do nascimento do sol", uma vez que assinalava a renovação de suas forças vivificadoras para benefício do homem.

Não se sabe exatamente quando a adoração de Mitra se transformou num culto definido, mas sem dúvida não foi depois do século IV a.C. Seus característicos se estabeleceram firmemente durante o período de fermentação social que se seguiu ao colapso do império de Alexandre, e sua expansão nessa época foi muitíssimo rápida. No último século a.C. foi introduzido em Roma, embora tivesse pequena importância na própria Itália até o ano 100 d.C. Fazia conversos principalmente nas classes mais baixas - soldados, estrangeiros e escravos. Finalmente, atingiu a situação de uma das mais populares religiões do Império, tornando-se o principal concorrente do cristianismo e do próprio velho paganismo romano. Depois de 275, no entanto, sua força decaiu rapidamente. É impossível avaliar a influência que esse extraordinário culto exerceu. Não é difícil perceber sua semelhança superficial com o cristianismo, mas certamente isso não quer dizer que os dois fossem idênticos, ou que um fosse derivação do outro. Não obstante, é provável que o cristianismo, o mais jovem dos dois rivais, tenha tomado de empréstimo um bom número dos aspectos externos do mitraísmo, conservando, ao mesmo tempo, virtualmente intata a sua filosofia essencial.


Folha de um maniqueísta. Khocho, ca. VIII-IX século d.C. Artista desconhecido

Um dos principais sucessores do mitraísmo na transmissão da herança persa foi o maniqueísmo, fundado por Mani, um sacerdote de origem ilustre de Ecbátana, aproximadamente em 250 d.C. Como Zoroastro, achava que sua missão na terra era reformar a religião dominante, mas obteve pequena simpatia em seu próprio país e teve que se contentar com aventuras missionárias na Índia e na China Ocidental. Mais ou menos em 276, foi condenado e crucificado pelos seus próprios rivais persas. Depois da morte de Mani, os ensinamentos deste foram levados por seus discípulos praticamente a todos os países da Ásia Ocidental e, por fim, à Itália, mais ou menos em 330. Grande número de maniqueus ocidentais, inclusive o grande Agostinho, acabaram por se tornar cristãos.

De todos os ensinamentos do zoroastrismo, o que causara a mais profunda impressão na mente de Mani fora o dualismo. Era, por conseguinte, natural que se tornasse a doutrina central da nova fé. Mas Mani deu a essa doutrina interpretação mais larga do que tivera nas religiões precedentes. Concebeu não simplesmente duas divindades empenhadas numa luta inexorável pela supremacia, mas todo um universo dividido em dois reinos, sendo um a antítese do outro: um, o reino do espírito dominado por um Deus eternamente bom; outro, o reino da matéria sob o domínio de Satã. Somente substâncias "espirituais" como o fogo, a luz e as almas dos homens eram criadas por Deus. Tinham sua origem em Satã a escuridão, o pecado, o desejo e todas as coisas corporais e materiais. A própria natureza humana era má, pois os primeiros pais da raça receberam seus corpos físicos do rei das trevas.

As inferências morais desse dualismo rigoroso eram demasiado evidentes. Uma vez que tudo quanto se relacionasse com a sensualidade e o desejo era trabalho de Satã, o homem devia esforçar-se por se libertar o mais completamente possível da escravidão de sua natureza física. Devia refrear todos os prazeres dos sentidos, abster-se de comer carne, de beber vinho e de satisfazer o desejo sexual. Até o casamento era proibido, pois levaria à geração de novos corpos físicos para povoar o reino de Satã. Além disso, o homem dominaria a carne por meio de jejuns prolongados e penitências corporais. Reconhecendo que essa norma de austeridade seria muito dura para mortais comuns, Mani dividiu a raça humana em "perfeitos" e "seculares". Somente os primeiros eram obrigados a submeter-se à norma completa como um ideal que todos deviam almejar. À segunda categoria cumpria somente evitar a idolatria, a avareza, a fornicação, a falsidade e a ingestão de carne. A fim de ajudar os filhos dos homens na luta contra o poder das trevas, Deus enviava, de tempos em tempos, profetas e redentores a fim de confortá-los e inspirá-los. Noé, Abraão, Zoroastro e Paulo eram enumerados entre esses emissários divinos, mas o último e maior de todos era Mani.

É muito difícil estimar a influência do maniqueísmo, mas sem dúvida ela foi considerável. Pessoas de todas as classes do império romano, incluindo alguns membros do clero católico, adotaram suas doutrinas. Na sua forma cristianizada, tornou-se uma das seitas principais da igreja primitiva e forneceu a base essencial da heresia albigense, ainda nos séculos XII e XIII. Inspirou extravagantes especulações cristãs em torno do dualismo entre Deus e o diabo e entre o espírito e a matéria. Não somente contribuiu para o ascetismo cristão mas também fortaleceu as doutrinas do pecado original e da depravação do homem, tais como as ensinaram alguns teólogos. Foi, finalmente, a grande fonte da famosa dicotomia dos padrões éticos estabelecida por Santo Agostinho e outros Padres da Igreja: 1) um padrão de perfeição para poucos (os monges e as freiras), que se retirariam do mundo e levariam vida santa para exemplo dos demais; e 2) um padrão socialmente viável para os cristãos comuns.

O terceiro culto mais importante, que se desenvolveu como legado da religião persa, foi o gnosticismo (do grego gnosis, que significa conhecimento). O nome do seu fundador é desconhecido, bem assim como a data da sua origem, mas certamente existia já no primeiro século da nossa era. Atingiu o auge da popularidade na última metade do segundo século. Ainda que granjeasse alguns seguidores na Itália, sua influência se limitou sobretudo ao Oriente Próximo.

O misticismo era o característico que mais distinguia dos outros este culto. Os gnósticos negavam que as verdades da religião pudessem ser descobertas pela razão ou que se pudessem tornar inteligíveis. Consideravam-se como os detentores exclusivos de uma secreta sabedoria espiritual revelada por Deus, sabedoria essa de absoluta importância como guia da fé e da conduta. Suas observâncias religiosas eram também altamente esotéricas, isto é, tinham um significado oculto conhecido unicamente pelos iniciados. Os sacramentos em grande profusão, batismos inumeráveis, ritos místicos e o uso de fórmulas e números sagrados são os melhores exemplos desses ritos.

Foi enorme a influência conjunta desses vários tipos de religião persa. Muitos deles foram lançados numa época de condições sociais e políticas particularmente favoráveis à sua expansão. O fim do império de Alexandre, mais ou menos em 300 a.C., inaugurou na história do mundo antigo um período singular. Foram derrubadas as barreiras internacionais, houve uma extensa migração e caldeamento de povos, e o colapso da antiga ordem social despertou profunda desilusão e um vago anseio de salvação individual. A atenção dos homens se centralizou, como nunca mais acontecera desde a queda do Egito, nas compensações da vida futura. Em tal terreno as religiões do tipo descrito estavam destinadas a medrar como erva nova. Sendo sobrenaturais, místicas e messiânicas, ofereciam na irrealidade que buscavam os homens o verdadeiro refúgio de um mundo de ansiedade e confusão.

A herança deixada pelos persas, ainda que não tenha sido exclusivamente religiosa, continha poucos elementos de natureza secular. A forma de governo característica desse povo foi adotada pelos monarcas romanos de época avançada, não no seu aspecto puramente político, mas no seu caráter de despotismo de direito divino. Quando imperadores como Diocleciano e Constantino I invocaram a autoridade divina como base do seu absolutismo e exigiam que os súditos se prostrassem na sua presença, estavam, em realidade, identificando o estado com a religião como os persas tinham feito na época de Dario. São também discerníveis traços da influência persa em certos filósofos helenistas, mas ainda aqui essa influência foi essencialmente religiosa, pois se limitou quase inteiramente às teorias místicas dos neoplatônicos e dos seus aliados filosóficos.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: Do homem das cavernas até a bomba atômica. V. 1. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 106-110.

NOTA: O texto "A herança mística e extraterrena da Pérsia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 21 de setembro de 2013

Exemplos de palavras de origem africana usadas no português do Brasil

Baloeiros, Heitor dos Prazeres

abóbora, angu,


bagunça, balangandã, banguela, batucada, beleléu, berimbau, biboca, borocoxó, brucutu, bunda,

cabaça, cabala, caçamba, cachaça, cachimbo, caçula, cafua, cafuné, cafundó, cafungar, cafuzo, calango, calombo, cambada, camburão, camundongo, canga, cangaço, canjica, cantiga, capanga, capenga, capote, carimbo, catinga, caxinguelê, cochilo, cotoco, curinga,

dendê, dengo, dengosa, desbundar,

embalo, encabulado, encafifado, enxerido, esmolambado,

forró, fubá, fuçar, fungar, futrica, fuxico, fuzarca, fuzuê,

galalau, gangorra, garapa, ginga,

iaiá, inhaca,

jabaculê, jagunço, jegue, jiló, jurema,

lambada, lelé, lengalenga, lundu,

macaco, maconha, macumba, mafuá, mambembe, mandinga, mandraque, mangar, maracutaia, marimba, marimbondo, marombeiro, maxixe, meganha, miçanga, milonga, minhoca, mocambo, mocotó, molambo, moleque, mondrongo, monjolo, moqueca, moringa, muamba, mucama, murundu, muvuca, muxibento, muxoxo,

orixá,

perrengue,

quengo, quiabo, quibebe, quilombo, quindim, quitanda, quitute, quizomba,

sacana, samba, senzala, songamonga, sunga,

tanga, tipóia, tiritar, titica, tribufu,

urucubaca,

vatapá,

xaxado, xingar, xodó,

zabumba, zangar, zonzo, zumbi.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 129.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

As realizações gregas: razão, liberdade, humanismo

Como os outros povos antigos, os gregos guerreavam, massacravam e escravizavam; foram muitas vezes cruéis, arrogantes, litigiosos e supersticiosos e, com frequência, violaram seus próprios ideais. Mas suas realizações tiveram, sem dúvida, um profundo significado histórico. O pensamento ocidental tem início com os gregos, que foram os primeiros a definir o indivíduo por sua capacidade de raciocínio. A grande realização do espírito grego foi ultrapassar a magia, os milagres, o mistério, a autoridade e o costume e descobrir um modo de conferir uma ordem racional à natureza e à sociedade. Cada aspecto da civilização grega - ciência, filosofia, arte, drama, literatura, política, história - mostrou uma confiança crescente na razão humana e uma dependência declinante em relação aos deuses e ao pensamento mítico.

Cena de simpósio: convivas jogando kottabos enquanto uma moça toca aulos. Nikias, cerca de 420 a.C.


Na Mesopotâmia e no Egito, as pessoas não tinham uma concepção nítida do seu valor individual e nenhuma compreensão da liberdade política. Elas não eram cidadãos, mas súditos que obedeciam às ordens de um governante cujo poder tinha origem nos deuses; tal poder real não era imposto a uma população descontente, mas religiosamente aceito e obedecido.

Os gregos, ao contrário, criaram a liberdade política. Viram o Estado como uma comunidade de cidadãos livres que decretavam leis em seu próprio interesse. Para eles, o Estado era um agente civilizador que permitia ao povo desfrutar a vida feliz. Os pensadores políticos gregos chegaram à concepção do Estado racional ou legal em que a lei era uma expressão da razão, não de caprichos ou mandamentos divinos; de justiça e não de poder; do bem-estar geral da comunidade, não de interesses egoístas.

Os gregos também legaram à civilização ocidental uma concepção de liberdade interior, ou ética. As pessoas eram livres para escolher entre a vergonha e a honra, a covardia e o dever, a temperança e o descomedimento. Os heróis da tragédia grega sofriam não porque fossem fantoches manipulados por poderes mais altos, mas porque possuíam a liberdade de decisão. A ideia de liberdade ética atinge seu ápice com Sócrates. Conformar-se aos ideais apreendidos pela razão e tornar-se um indivíduo autônomo e dotado de arbítrio, tal era para os gregos a mais alta forma de liberdade.

Durante a idade helenística, os gregos, tal como os hebreus anteriormente, chegaram a ideia de universalismo, de uma humanidade una. Os filósofos estóicos ensinavam que todos os povos, graças à capacidade de raciocinar, eram fundamentalmente iguais e podiam ser governados pelas mesmas leis. Essa ideia encontra-se na raiz dos modernos princípios de direitos naturais ou humanos, que são prerrogativa de cada indivíduo.

Subjacente a todas as realizações gregas, havia uma atitude humanista para com a vida. Os gregos expressavam uma crença no valor, na significação e na dignidade do indivíduo; tinham em vista o aperfeiçoamento máximo do talento humano, o completo desenvolvimento da personalidade e a busca consciente da excelência. Ainda que valorizassem a personalidade humana, os humanistas gregos não aprovavam uma vida sem restrições; visavam à criação de um tipo mais nobre de homem. Esse homem deveria conformar-se a modelos condignos; deveria tornar sua vida tão harmoniosa e perfeita como uma obra de arte. Essa aspiração exigia esforço, disciplina e inteligência. Fundamental para a visão humanista grega era a crença de que o homem podia dominar-se. Embora as pessoas pudessem alterar o curso da natureza, pois havia uma ordem no universo sobre a qual nem os seres humanos nem os deuses tinham controle, o humanista acreditava que as pessoas podiam dirigir suas próprias vidas.

Ao descobrir o raciocínio teórico, definir a liberdade política e conformar o valor e o potencial da personalidade humana, os gregos romperam com o passado e criaram a tradição racional e humanista do Ocidente. "Se não houvesse existido a civilização grega", diz o poeta W. H. Auden, "nunca nos teríamos tornado plenamente conscientes, o que equivale a dizer que nunca nos teríamos tornado, para bem ou para mal, plenamente humanos".

MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 83=84.

sábado, 12 de maio de 2012

Um Brasil, muitas Áfricas

De que África teria saudades um africano no Brasil? De sua aldeia, certamente, ou do bairro da cidade onde passou sua infância. No Brasil, deixaria de ser conhecido por sua terra natal, pelo seu clã, pelo nome que o seu povo dava a si mesmo ou recebia dos vizinhos. Exceto para ele e para os conterrâneos ou vizinhos que encontrava no exílio, não era mais um iaca, auri ou gun, passara a ser chamado de angola, nagô ou mina, e africano, e negro. Na fazenda ou na cidade onde penava, podia haver quem falasse o seu idioma ou outro próximo, e até quem fosse de seu vilarejo e seu malungo, ou companheiro de barco na travessia do Atlântico. Por toda parte, porém, encontramos gente estranha, de outras Áfricas que não a sua, com tradições, crenças, valores, costumes, saberes e técnicas diferentes. Este, em sua terra, andava de camisolão até os pés e gorro na cabeça, aquele não tinha mais do que um pano entre as pernas, amarrado na cintura. Aqui, as mulheres entrançavam os cabelos com contas e conchas; ali, cobriam a cabeça com véu ou turbante; acolá, raspavam o crânio. Umas vestiam-se apenas com miçangas; outras, com bubus, ou envolviam o corpo com panos coloridos, e todas exibiam muitos colares e argolas nos braços e nos tornozelos.

O tráfico transatlântico trouxe para o Brasil escravos provenientes de mais de uma centena de povos africanos. Gravuras de Grasset de Saint-Sauveur

                                   


Cada um de nós não domina mais do que uma parcela de sua cultura. Nem todos os sossos da Guiné e outros africanos que produziam ferro de alta qualidade sabiam operar um forno ou uma forja, mas alguns poucos, sim. No Brasil, os que já eram ferreiros ou apenas conheciam rudimentos do ofício construíram fornos conforme o modelo predominante em sua terra. [...]

Os africanos não se restringiram a ser os pioneiros da metalurgia de ferro no Brasil. Desde muito acostumados à cata do ouro [...] trouxeram com eles as técnicas da bateia e de escavação de minas. Alguns eram bons ourives, que criavam, na África, joias de grande beleza, como as dos axantes, e passaram a fazê-las com novos modelos no Brasil.

Sabiam como criar o gado fora dos estábulos, solto no campo, e o foram multiplicando e espalhando savanas afora, savanas muito semelhantes às que haviam deixado na África. [...] Como as práticas agrícolas portuguesas lhes foram impostas, só puderam plantar do modo a que estavam acostumados em suas pequenas roças e nos quilombos. Apesar disso, aqui e ali aplicaram os seus saberes [...]. E trouxeram para o país muitos vegetais, como o dendê, a malagueta, o maxixe e o quiabo, básicos na cozinha brasileira, que enriqueceram com novas comidas. Assim como na África, as mulheres iam vendê-las nas ruas. E continuam a fazê-lo até hoje, em Salvador como em Lagos, e a fritar o acarajé num fogareiro, diante do freguês.

Aos africanos deve-se também que se tenham produzido, sobretudo nas grandes propriedades rurais, e ao arrepio das proibições régias, tecidos para uso dos escravos, em teares extremamente simples [...]. 

A cabana em que vivia esse tecelão era construída como na África: as paredes de sopapo e o teto de folhas de palmeira ou de capim. Ainda que competindo como o mocambo de palha de tradição ameríndia, a morada do pobre no Brasil seria, durante muito tempo, de sopapo, à africana, e não de taipa de pilão ou de pedra, como em Portugal. Não prosperavam aqui as cabanas cônicas; impôs-se a de planta quadrada, com teto em duas águas, que no Brasil ganhou janela. Já a casa dos ricos, trazida de Portugal, recebeu da África do Oeste, e talvez também da Índia, o alpendre na frente ou nos fundos, e nele, lá como cá, passava-se boa parte da vida.

Nessas varandas, as crianças ouviam os relatos fantásticos de diferentes nações africanas, cujos personagens e enredos se mesclavam entre si e com os ameríndios e europeus, de tal modo que se tornava difícil separar o Curupira dos tupis do moatia dos axantes, pois ambos, do tamanho de anões, tinham os pés virados para trás e eram os senhores dos animais selvagens. Vindos da África, bichos-papões, jogos e brinquedos desembarcaram no Brasil. E lembranças de desfiles de reis, com seus enormes guarda-sóis coloridos, que no Brasil se reproduziram nos maracatus, nas congadas e nos reisados.

Nesses desfiles reais, ouviam-se tambores, agogôs, pífanos e numerosos outros instrumentos que eram deles e são nossos. Esses instrumentos animavam as festas nos dois lados do Atlântico, com ritmos e melodias que se foram transformando, ao se entrelaçarem com os europeus, na nossa música.

Não se dançava na África apenas pela alegria do convívio. Dançava-se também para reverenciar os deuses e recebê-los na alma. Foram muitas as religiões que atravessaram o oceano, pois cada povo tinha a sua. Algumas absorveram outras crenças ou foram por elas absorvidas, gerando novos sistemas religiosos, como a umbanda. [...]

[...]

Para o Brasil foram trazidos africanos de mais de uma centena de povos diferentes. Muitos deles já se conheciam na África, por serem vizinhos ou terem comércio entre si. [...] E as diferenças eram compensadas pelas semelhanças, em processos contínuos de mestiçagem física e cultural. Algumas vezes, dois ou mais povos se entrelaçavam e criavam um novo, como fizeram os africanos que foram coformadores do Brasil.

Alberto da Costa e Silva. Um Brasil, muitas Áfricas. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, nº 78, Março 2012. p. 17-21.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Impérios de bronze

Cena de caça em um punhal. Túmulo em Micenas, século XVI a.C.

Bronze é uma liga de cobre e estanho, feita pelo aquecimento de metais combinados. É mais duro que o cobre, mas tem um ponto de fusão mais baixo, e é mais fácil de moldar. O cobre é obtido de minérios como a calcopirita (uma combinação de cobre, ferro e enxofre), mas é ocasionalmente encontrado em estado puro - por exemplo, em meteoritos. Muitas sociedades da Idade da Pedra estavam familiarizadas com ele, e o metal era muito procurado para a confecção de ornamentos e joias. Mas sua raridade e maleabilidade eram desvantajosas quando se tratava de fazer ferramentas e armas. No terceiro milênio a.C., as pessoas descobriram como produzir cobre aquecendo minérios de cobre além do ponto de fusão do metal. Aprenderam também a combinar cobre com estanho para aumentar a dureza. A liga resultante - o bronze - revolucionou a manufatura de ferramentas. E levou a uma revolução ainda maior na confecção de armas.

Ponta de dardo de bronze gravada, Lagash, 3º milênio a.C.

O bronze foi produzido pela primeira vez por volta de 3000 a.C., mas por centenas de anos permaneceu escasso, pois era difícil obter estanho. Não foi senão com a descoberta de ricas reservas de estanho, como as da Espanha e da Anatólia, que o bronze pôde ser utilizado em larga escala. Quando isso ocorreu, as armas de bronze transformaram as práticas de guerra. Uma lança de bronze era mais forte que uma pedra. Era feita de uma única peça, ao passo que uma lança de pedra tinha a força somente de sua haste e das amarras que a prendiam à haste. O mesmo pode ser dito da adaga de bronze. A espada de bronze não tinha equivalente na Idade da Pedra. A arma que mais se aproximava de sua eficiência era a clava de pedra.

Capacete de bronze

Armas e ferramentas de bronze não só eram mais eficazes como também mais fáceis de fazer. Ferramentas de pedra produzidas a mão, demandavam tempo e exigiam habilidade considerável. Objetos de metal podiam ser produzidos em massa. Um único modelo feito a mão podia ser usado para fazer centenas de moldes, cujas fornadas podiam ser enchidas com uma concha de metal. Quando o metal esfriava, o trabalho envolvido em desbastar as aparas do molde bruto levava uma fração do tempo envolvido na produção de uma ferramenta ou uma arma de pedra.

Essa mudança na tecnologia da paz e da guerra teve lugar no cenário das transformações da sociedade humana. Uma das consequências de guerras recorrentes foi a redução no número de cidades-Estado, à medida que as derrotadas eram absorvidas pelas fronteiras de suas rivais vitoriosas. Algumas das vitoriosas, por sua vez, eram conquistadas posteriormente, abrindo caminho para Estados ainda maiores. Em 2334 a.C., os exércitos de Sargon da Acádia, na Mesopotâmia setentrional, conquistaram o reino da Suméria, que somava apenas 16 anos de existência mas já possuía mais de um milhão de pessoas. Ao fazê-lo, ele criou o primeiro império do mundo. Mas não estava destinado a durar muito. Os mil anos seguintes na Mesopotâmia testemunharam um processo de ascensão e queda de impérios sucessivos, conforme os povos nas regiões circundantes se deslocavam, e cada um, respectivamente, cobiçava a abundância e as amenidades do rico território.

Essa longa competição entre impérios rivais originou uma melhoria continua na tecnologia de guerra. A eficácia das armas de bronze, e sua facilidade de manufatura, constitui apenas parte da história. O que de fato mudou a guerra foi o uso de armas e armaduras de bronze combinado com outra invenção que surgira na mesma região: o cavalo de batalha.

Cavalos haviam sido domesticados por volta de 4000 a.C. por nômades do leste da Europa e da Ásia Central, mas por muito tempo permaneceram apenas como fonte de alimento. Eles forneciam carne e leite, mas seus donos mais antigos os consideravam montaria tanto quanto teriam pensado em montar uma vaca. Não foi senão por volta de 2000 a.C. que os cavalos foram montados com um propósito sério, e o lugar onde a prática se originou parece ter sido o norte do atual Irã. Assim que a habilidade foi dominada, sua utilidade para o combate logo se tornou aparente, e a tradicional prática de procriação para obter docilidade foi invertida, na medida em que a ênfase recaiu sobre a força e a velocidade. Por volta de 1500 a.C., tropas montadas eram um componente padrão dos exércitos por todo o Crescente Fértil, e a cavalaria nômade instilava o terror nas comunidades de fazendeiros do leste da Europa ao oeste da China. Desse modo, tiveram início recorrentes incursões a cavalo aos territórios povoados da Europa e da Ásia, que continuariam pelos 3 mil anos seguintes. Nesses conflitos, os nômades errantes do leste da Europa e da Ásia Central  contavam com uma arma secreta imbatível: grama. Era algo que os cavaleiros das estepes tinham em abundância, e isso facilitou aos povos nômades manter grandes bandos de cavalos e, mais do que tudo, criá-los visando aprimorar a velocidade e o vigor físico. Uma vida sobre a sela também significava que todo homem e rapaz eram potenciais cavaleiros, capazes de ser mobilizados de um momento para outro.

A combinação de cavalo e metal tornou possível o carro de batalha. Essa invenção foi um avanço comparável à introdução do tanque de guerra no século XX. Assim que os construtores de carros passaram a contar com um material duro e fácil de trabalhar como o bronze, as vantagens do metal sobre a madeira na construção de veículos militares tornaram-se óbvias. Entre 2000 a.C. e 1500 a.C., muitos povos do sudoeste da Ásia desenvolveram algum tipo de carro de batalha. Mas a versão leve dois-homens-duas-rodas criada pelos nômades das estepes foi uma arma de guerra muito mais eficaz do que os desajeitados carros de quatro rodas usados pelos povos das planícies. Esse carro leve e os arqueiros a cavalo, capazes de disparar flechas cavalgando em alta velocidade, criaram um novo tipo de guerra. Exércitos agora podiam deslocar-se por grandes distâncias, e ataques podiam ser lançados contra cidades desprovidas de defesa por forças que nem sequer imaginavam encontrar pelas redondezas.

Essas mudanças na tecnologia de guerra foram acompanhadas por outras igualmente drásticas nos assuntos da vida cotidiana. A rede de comércio agora se estendia por milhares de quilômetros. O transporte fluvial fora transformado com a invenção da vela. [...] Em nenhum lugar isso teve mais importância do que no Egito, um país erguido às margens de um rio. Os egípcios já usavam botes feitos de tábuas, que lhes possibilitaram transportar pesadas cargas a jusante. Mas depois que inventaram a vela, por volta de 3500 a.C., puderam explorar os ventos do norte para viajar a montante com a mesma facilidade com que desciam o rio. [...]

A invenção da vela não só transformou o transporte fluvial: também tornou possível a travessia de oceanos. Em vez de remar ao longo da costa, os marinheiros tornaram-se aptos a enfrentar o desafio do mar adentro. Os primeiros veleiros egípcios contavam com velas longas e estreitas presas a dois mastros. À medida que se aventuravam pelo Mediterrâneo, desenvolveram a vela grande e quadrada, que mais tarde se tornaria o padrão de navegação marítima por toda parte. Essas naus oceânicas [...] ampliaram enormemente o alcance do comércio egípcio e inauguraram uma era de supremacia naval do Egito que durou quase 2 mil anos. Eles traziam cobre de Chipre, estanho da Ásia Menor e, o mais importante, em um país sem florestas, madeira do Líbano.

O desenvolvimento da navegação de alto-mar foi um fator crucial na aceleração da mudança que caracterizou a transição da Idade da Pedra para a Idade do Bronze. O transporte marítimo era muito mais fácil que o terrestre. Isso gerou imensa vantagem para qualquer sociedade com acesso a águas navegáveis; vantagem que perduraria até a invenção da locomotiva a vapor, no século XIX. Em nenhum lugar essa vantagem foi mais importante do que para as sociedades que cresciam em torno do Mediterrâneo. [...] À medida que povoamentos e portos se instalaram às suas margens, ele assumiu cada vez mais o caráter de um grande lago interior, ao redor do qual se estabeleceram diversos Estados [...].

O Egito, com sua localização privilegiada para se beneficiar do comércio oceânico tanto no Mediterrâneo quanto no golfo Pérsico, foi a mais brilhante e poderosa dessas civilizações marítimas. Mas, durante o segundo milênio a.C., outras surgiram em cena. Uma delas, a minóica, estabeleceu-se na ilha rochosa de Creta. Ali, no que à primeira vista era uma paisagem inóspita, uma estirpe de resistentes agricultores cultivava trigo, plantava oliveiras e videiras e criava ovelhas. Por quinhentos anos, eles conduziram um comércio de exportação de lã, vinho e azeite com outros países e com suas próprias colônias em torno do Egeu. os vestígios de seus palácios dão testemunho da prosperidade resultante. Nas ruínas de um deles, um tabuleiro de jogo foi encontrado, incrustado de marfim e lindas pedras de lápis-lazúli de sua única fonte disponível na época, as minas acima de Faizabad, no Afeganistão. Era um achado que condensava tanto o luxo usufruído pelas classes dominantes nas civilizações da Idade do Bronze como as redes mercantis em que esse luxo estava baseado.

Em 1628 a.C., os povoamentos costeiros minóicos foram inundados por um tsunami, e seus campos soterrados pelas cinzas de uma erupção vulcânica da ilha de Thera (Santorini), 160 quilômetros ao norte. A civilização sobreviveu, a despeito da fome e da desordem social, mas em 1450 a.C. finalmente sucumbiu a um ataque de invasores vindos de Micenas, no continente grego, durante o qual a maioria de seus palácios e vilas foram arrasados.

A queda da civilização minóica coincidiu com o surgimento de uma nova cultura marítima no Mediterrâneo oriental - a dos fenícios. Eles falavam uma língua aparentada com o hebraico e viviam em áreas litorâneas onde hoje estão situados os atuais Síria e Líbano. Essa região é abençoada com alguns dos melhores portos naturais do mundo. Em 1500 a.C., já existia um agitado comércio transoceânico com o Egito e a Mesopotâmia. Três produtos em particular formavam sua base: madeira de pinheiro e cedro; tecidos tingidos com o famoso púrpura de Tiro, também conhecido como púrpura "real" ou "imperial", obtido do molusco Murex; e marfim de elefantes africanos, que era destinado à Mesopotâmia e a toda parte.

No início, os fenícios haviam se sujeitado à soberania do Egito, mas este império estava se desmanchando diante dos ataques tanto do norte quanto do sul. Por volta de 1000 a.C., com o enfraquecimento da influência egípcia na região, as principais cidades fenícias - Tiro, Sídon, Biblos, Berytus (Beirute) e Ugarite - evoluíram para cidades-Estado independentes. Elas abrigavam milhares de artífices, que produziam artigos de grande procura, como obras de metal, tecidos finos e bordados. À medida que o mercado marítimo prosperava, os fenícios estabeleceram postos de comércio por toda a extensão e amplitude do Mediterrâneo. Um desses, Cartago, na Tunísia moderna, se tornaria mais tarde a maior cidade fenícia.

Um retrato vívido das atividades comerciais dos fenícios nessa época é fornecido pelo relato de um mercador egípcio chamado Weinamun, que foi enviado a Biblos pelo faraó governante em 1075 a.C. para obter madeira de navio. Ele foi despachado furiosamente por Zeker Ba'l, soberano de Biblos, irritado com a sugestão de que deveria entregar a madeira como um tributo, de acordo com o que se esperava que seus ancestrais fizessem. Quando Weinamum voltou com cinco jarras de prata, quatro jarras de ouro, quinhentas peles de boi, grande quantidade de cordas e tecidos e trinta cestos de peixe, Zeker Ba'l amoleceu, e trezentos homens e 3 mil bois foram convocados para derrubar enormes cedros e transportá-los até o porto.

O império comercial dos fenícios deixou um supremo legado na forma do alfabeto, o mais econômico sistema de escrita de todos. [...] Foi o uso desse alfabeto norte-semítico pelos fenícios, por volta de 1100 a.C., que levou a uma versão posteriormente adotada pelos gregos e, por intermédio deles, por todos os povos da Europa. O alfabeto fenício tinha apenas consoantes e compreendia 22 letras. Foram os gregos que acrescentaram cinco sinais para representar as vogais e deram para os europeus, e as pessoas que falavam línguas de origem europeia, os alfabetos em uso atualmente.

A invenção do alfabeto foi um marco. As escritas cuneiforme, hieroglífica e pictográfica chinesa foram cruciais para o desenvolvimento de suas respectivas civilizações. Mas todos esses antigos sistemas de escrita envolviam um longo aprendizado, que só podia estar ao alcance de uma pequena elite ociosa. A escrita alfabética ofereceu a perspectiva de aprendizado para um número de pessoas muito maior, e o papel que ela desempenharia mais tarde, possibilitando a impressão de livros baratos com o tipo móvel, a situa firmemente nesse supertime de invenções que incluem os veículos com rodas, a máquina a vapor e o computador.

O grande volume de material escrito que herdamos das civilizações da Idade do Bronze no Mediterrâneo e no Crescente Fértil desempenhou um marco na escrita da História. [...]

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 71-78.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O que devemos à Idade Média?

O cardeal Ugo de Provença, com os óculos bem apertados no nariz, em afresco de 1352.

O que devemos à Idade Média? Tento enumerar alguns itens: os óculos, o papel, a filigrana, o livro, a prensa com caracteres móveis, a universidade, os algarismos arábicos, o zero, a data de nascimento de Cristo, bancos, notários e montepios, a árvore genealógica, a escala e os nomes das notas musicais.

Mulheres jogando xadrez. Iluminura medieval.

A Idade Média nos dá os botões, as cuecas e as calças; nos diverte com o baralho, o tarô, o xadrez e o Carnaval; nos adormece a dor com a anestesia; nos ilude com os amuletos - e o coral, que protege as crianças e nos defende dos raios, ajuda também a desfiar o rosário. Para a casa, trouxe o gato, os vidros nas janelas e a chaminé; nos fez sentar à mesa (os romanos comiam recostados) e comer com garfo a tão amada massa, mais precisamente o macarrão e o cabelinho-de-anjo, cuja farinha era incansavelmente triturada em moinhos de água e de vento. Soube explorar a força da água para movimentar lagares e serrarias, pisões para tecidos, moinhos para papel e para farinha. Descobriu uma outra força motriz extraordinária: o cavalo, que dotou de ferraduras, estribo e coelheira rígida, para que o animal pudesse puxar sem sufocar com o peso. Aliviou a lida humana com o carrinho de mão, e tornou mais seguro o caminho dos navegantes com a bússola e o timão. Nas batalhas, tremulavam as bandeiras com insígnias coloridas e soava o estrondo da pólvora disparada por fuzis e canhões. Mudou a nossa percepção do tempo nessa terra, com o relógio a escapamento e a introdução das horas de igual duração e independentes das estações; mudou nossa percepção do tempo também no além, fazendo emergir um terceiro reino, o Purgatório, que rompia com os destinos imutáveis da eternidade. Por fim, com o Papai Noel, fez sonharem as crianças.

FRUGONI, Chiara. Invenções da Idade Média: óculos, livros, bancos, botões e outras inovações geniais. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. p. 7-8.