"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Akenaton

Akenaton e Nefertiti fazendo oferendas a Aton. 
Detalhe de relevo, 18ª dinastia.

O início do declínio do Novo Império pode ser atribuído ao reinado de Amenotep IV (1353-1335 a.C.). Amenotep era devoto de um obscuro deus do Sol chamado Aton. No quarto ano do seu reinado, ele elevou Aton à posição de deidade suprema. No ano seguinte, construiu uma nova capital, Aketaton, e mudou o seu nome para Akenaton. A princípio, o faraó apresentou Aton como deus composto de outros dois, Amon e Ra, mas, em 1344 a.C., ele insistiu que, na verdade, Aton era um deus único e que ele, Akenaton, era o único intermediário entre Aton e o povo. Ele ordenou a desfiguração dos templos dos outros deuses em todo o Egito. A reforma religiosa de Akenaton foi extremamente controvertida e provocou profundas divisões políticas em todo o país. Pouco tempo depois da morte do faraó, a antiga religião politeísta foi restaurada, os templos de Aton demolidos e Aketaton, abandonada. Os faraós subsequentes chegaram a ponto de riscar Akenaton da história.

WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2015. p. 39.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A arte micênica

Afresco: "A dama de Micenas", ca. 1300-1200 a.C., Acrópole de Micenas. Artistas desconhecidos

Com base no testemunho das únicas provas arqueológicas, a religião parece diferir pouco da religião cretense. Porém, uma vez mais, a leitura das preciosas tabuinhas veio ressaltar as ideias recebidas. Elas permitem identificar os nomes dos principais deuses da Grécia do primeiro milênio: Zeus e Hera, Poseidon, Hermes, Atenas, Artemis, Dioniso talvez, e um Paiawon (Paian, epíteto que será encontrado associado ao Apolo clássico) recebem suas oferendas com regularidade. Também é verdade, uma Potnia, a mestra, em que muitos são tentados a ver a continuação da Grande Mãe cretense, que divide seu poder com as divindades celestes, e a Demeter clássica.

Fragmento de um mural de Orcomeno, retratando a deusa guerreira com capacete de dentes de javali, no centro do culto em Micenas, século XIII a.C. Artistas desconhecidos

Outra diferença atestada, ao contrário, pela arqueologia: uma atenção mais viva ao culto dos mortos, pelo menos com relação aos das famílias principescas. Essa mudança desencadeou o desenvolvimento de uma arquitetura funerária, em grande parte nova.

Houve, a princípio, as "tumbas de poço", cujo agrupamento em círculos de pedras eretas [...] constitui a originalidade de Micenas.

Por volta de 1500 a.C., surgem as "tumbas com câmara" e, por fim, "com cúpula". Perpendicularmente ao flanco de uma colina, entalhavam um corredor de acesso e, depois, uma escavação de forma circular, leitos de pedra, notavelmente dispostos, reforçavam as paredes e, estreitando-se, formavam o teto da escavação; em seguida, era tudo fechado, não se deixando ao ar livre senão o corredor que terminava numa porta. Bastaria, para dar uma ideia da amplitude dos trabalhos realizados mencionar que o corredor alcança 25 metros de comprimento, e a cúpula, 15 metros de diâmetro, bem como de altura.

Era nessas "colméias" ou em sepulturas laterais que depositavam os cadáveres, por vezes em grande número. Tratar-se-ia de sacrifícios humanos celebrados durante as exéquias? Em alguns casos, nada nos autoriza a excluir essa hipótese. De qualquer forma, o morto continuava a viver. Fossas sacrificais, no solo dos corredores, fornecem-nos ossadas de animais e oferendas feitas ao defunto. Numa das tumbas de poço, descobriram-se máscaras de ouro que reproduzem, incluindo, os traços do falecido. Esses túmulos proporcionaram-nos armas, jóias, peças de ourivesaria, facas, navalhas, objetos dos mais variados. Em fins do século XIX, as descobertas de Schliemann provocaram a estupefação universal. Mais tarde verificaram-se novas descobertas, algumas célebres, como a das taças de ouro de Váfio, no sul do Peloponeso, outras que mereciam esta celebridade, como as de Dendra, na Argólida [...].

Em toda essa ourivesaria, nem as matérias-primas, nem a técnica, nem o sentido ornamental, nada revela mudanças reais em relação à arte cretense. O mesmo acontece com a maioria das outras artes, principalmente a pintura, cujos afrescos ornavam as paredes dos palácios. Acentuavam-se certos temas. como o da guerra - no começo, pelo menos - e da caça. Mas as tendências estéticas permaneciam as mesmas. Constatamos, sem surpresa. que elas continuaram a inspirar os artistas cretenses, cuja produção se escoava para a Grécia, e que, por bem ou por mal, lá foram trabalhar; formaram aí discípulos que lhes permaneceram fiéis.

Ao contrário, os micênicos introduziram inovações na arquitetura civil, muito importantes por si mesmos e de eficácia mais duradoura do que as que vemos na arquitetura funerária.

Concernem elas sobretudo à casa, adaptada a um clima menos meridional. Enquanto em Creta o teto era construído sob a forma de terraço, aqui edificavam-no em duplo declive, a fim de permitir o escoamento mais rápido das águas pluviais, menos raras. Além disso, o lar podia ser móvel em Creta, onde o frio era menos intenso. Mas devia ser fixo para os homens vindos de outras latitudes e dotados de outros costumes. Sua fixação deu origem ao elemento essencial da casa, o mégaro. Esse não esperou os Aqueus para surgir no mundo mediterrânico. Encontramo-lo nas ruínas de "Troia II", que data do III milênio, e na Tessália e Beócia, no início do II milênio; talvez se originasse no norte da Ásia Menor, tendo chegado à Europa pelo norte do Egeu. Mas foram os micênios que estabeleceram o seu tipo definitivo e generalizaram a sua adoção: apareceu nas Cíclades por volta de 1500 a.C. e, em seguida, em Creta.

Constitui um corpo de edifício retangular. Para o exterior, depois das colunas que suportam a parte avançada do telhado, há um vestíbulo que recebe ar e luz. Uma parede atravessada por uma porta separa-o de uma grande sala, o mégaro propriamente dito, compartimento aquecido por lareira fixa, redonda, instalada no centro. Não existe chaminé (para a fumaça), mas há uma abertura no telhado, em sentido vertical, sustentada por quatro colunas que enquadram a lareira. Assim aquecido, esse cômodo se torna, naturalmente, o compartimento nobre, o mais decorado, aberto aos hóspedes. É nele que os poemas homéricos situam os banquetes, e será no mégaro do palácio de Ítaca que Ulisses brandirá seu arco contra os pretendentes. Será também do mégaro que derivará o templo grego.

Assim, tendo a casa doravante um centro, os outros elementos organizavam-se como seus anexos. O mesmo de verificou nos palácios que, devido à sua importância, comportavam dois ou até três cômodos com lareira. Apresentaram, pois, um aspecto de desordem menos inextricável. O pátio central regularizou-se, com pórticos e vestíbulos enquadrando as portas. Mesmo sem as fortificações, as ruínas de Tirinto são as de uma nobre vivenda.

De resto, o espírito geral era certamente outro. Menos fantasia: essa apenas tinha livre curso na decoração. Fazendo um esforço no sentido da majestade exterior, que fora negligenciada pelos cretenses, os reis micênicos revelavam novamente que não eram avessos à exibição da força.

Pintura mural no Palácio de Tirinto, representando um homem dançando em cima de um touro, ca. 1890. Ilustração do arqueólogo Heinrich Schliemann

No mesmo espírito, compraziam-se em executar obras grandiosas, que pareciam ultrapassar a escala humana. A fim de construírem suas fortalezas e "colméias", os engenheiros conseguiam manejar enormes blocos de pedra. Por mais canhestra que seja a tentativa de escultura na pedra e da escultura monumental - antes desconhecidas dos cretenses, mas que, também nesse caso, abordavam temas cretenses - por mais disformes, frouxos e pesados que sejam os corpos das duas feras da "Porta das Leoas", em Micenas, tratava-se, não obstante, de uma inovação que se ligava ao gosto dos Aqueus por um estilo grandioso, deliberadamente ostentatório. Pela primeira vez fora do continente asiático e do Egito, concebiam-se obras tão grandiosas, com intuito ao mesmo tempo ornamental e religioso. Do ponto de vista estético, esse esforço abortou. Do ponto de vista técnico, teve êxito, e, com certeza, não foi fácil a tarefa de elevar esse bloco, e a formidável padieira que o sustém sobre os pés-direitos.
Afresco: "Mulher de Micenas", ca. 1300 a.C., Micenas. Artistas desconhecidos

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 49-52. (História geral das civilizações, v. 2)

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Fundação religiosa do racismo

Bebedeira de Noé, Giovanni Bellini

Noé embebedou-se celebrando a chegada da arca ao monte Ararat.

Despertou incompleto. Segundo uma das diversas versões da Bíblia, seu filho Cam o havia castrado enquanto ele dormia. E essa versão diz que Deus amaldiçoou Cam e seus filhos e os filhos de seus filhos, condenando-os à escravidão pelos séculos dos séculos.

Mas nenhuma das diversas versões da Bíblia disse que Cam era negro. A África não vendia escravos quando a Bíblia nasceu, e Cam escureceu sua pele muito tempo depois. Talvez sua negritude tenha começado a aparecer lá pelos séculos XI ou XII, quando os árabes iniciaram o tráfico de escravos do sul do deserto, mas certamente Cam passou a ser totalmente negro lá pelos séculos XVI ou XVII, quando a escravidão se transformou no grande negócio europeu.

A partir de então, outorgou-se prestígio divino e vida eterna ao tráfico negreiro. A razão a serviço da religião, a religião a serviço da opressão: como os escravos eram negros, Cam devia ser negro. E seus filhos, também negros, nasciam para ser escravos, porque Deus não se enganava nunca.

E Cam e seus filhos e os filhos de seus filhos teriam cabelo crespo, olhos vermelhos e lábios inchados, andariam nus exibindo seus pênis escandalosos, seriam praticantes do roubo, odiariam seus amos, jamais diriam a verdade e dedicariam às coisas sujas seu tempo de dormir.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 39-40.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Religião na Grécia Antiga

A carruagem de Zeus. Projeto Gutenberg

A religião grega foi politeísta. Através dos tempos, o povo grego criou estórias e lendas a respeito de vários deuses e de sua origem. A essas estórias e lendas, cheias de imaginação e de fantasia, chamamos mitos, e ao conjunto de mitos, mitologia.

Interpretando os mitos, poetas e artistas foram sucessivamente esboçando características peculiares a cada um dos deuses, fixando sua imagem em pinturas e esculturas.

Os deuses gregos, comparados aos deuses de outros povos da Antiguidade que os precederam, não eram distantes, misteriosos; assemelhavam-se aos homens e viviam entre eles. Como os homens, tinham virtudes e defeitos, franquezas e paixões; eram, porém, mais fortes, e imortais; embora invisíveis, podiam aparecer aos mortais sob forma humana. Por isso a mitologia grega não pode ser considerada religião no sentido que nós lhe emprestamos.

Os deuses estavam por toda parte: no céu, no mar, sobre a terra e nas profundezas do solo.

No céu os deuses se agrupavam em torno de Zeus, principal deus, soberano do mundo, que reinava no monte Olimpo, a mais alta montanha da Grécia. Senhor dos fenômenos atmosféricos, dos rios, da chuva, tudo via, tudo sabia, controlando as ações humanas e vigiando as dos demais deuses. Era protetor de toda a Grécia, embora cada cidade tivesse seu deus especial.

Zeus. Pintura romana em Pompeia, Casa dei Dioscuri. Artistas desconhecidos

Junto a Zeus encontrava-se Hera, sua esposa, deusa do casamento, da maternidade, das crianças e dos lares; seus filhos: Apolo - também chamado Febo - deus da luz solar, das profecias e das artes; Ártemis, inicialmente deusa da claridade lunar, mais tarde protetora das florestas e da caça; Hermes, mensageiro dos deuses, protetor dos pastores, dos viajantes, dos comerciantes, dos ladrões, oradores e atletas; e Héstia, que zelava pela chama sagrada que devia arder em todas as casas, em todas as cidades.

No mar reinava todo-poderoso um irmão de Zeus, Posseidon, a quem os navegantes temiam e pediam proteção.

Posseidon segurando um tridente. Placa coríntia. Artistas desconhecidos

Na terra a natureza obedecia à deusa Deméter, protetora dos agricultores, das colheitas de cereais e frutas; zelava pelos vinhedos outro filho de Zeus, o alegre e expansivo Dionísio.

Nas profundezas subterrâneas dominava, como senhor absoluto e sempre invisível, Hades (também chamado Plutão), que atendia ao misterioso reino dos mortos.

Outros deuses do Olimpo, filhos de Zeus, davam especial atenção a certas atividades humanas: Afrodite, deusa do amor; Palas Atena (nascida da própria cabeça de Zeus), deusa da inteligência, da razão, da sabedoria e da paz; Hefésto, deus do fogo, das forjas e dos ferreiros.

Palas Atena. Detalhe de cerâmica grega. Onésimos

Havia ainda divindades menores: as Musas, acompanhantes de Apolo, inspiravam as diferentes criações artísticas e a investigação científica: Clio, a história; Euterpe, a música; Talia, a comédia; Melpômene, a tragédia; Terpsícore, a dança; Érato, a poesia lírica; Polímnia, a mímica; Urânia, a astronomia; Calíope, a poesia épica e a eloquência. As Horas assistiam o desenrolar das quatro estações; as Graças (Cáritas em grego) - auxiliares de Afrodite - dispensavam cuidados especiais ao reino vegetal; as Parcas (Moiras em grego) fiavam, teciam e cortavam o destino dos homens.

Entre os deuses e os homens os gregos criaram ainda os semideuses, os heróis, tidos como seus antepassados, realizadores de proezas e feitos maravilhosos: Héracles (Hércules em latim), Perseu, Jasão, Teseu, Édipo, Orfeu, inspiraram desde a Antiguidade até os dias de hoje a obra de poetas, escritores, pintores, escultores, compositores.


Perseu transformando Fineu e seus seguidores em pedra, Luca Giordano

A religião era o elo da família, dos habitantes de uma cidade, de todos os gregos, pois o culto religioso desenvolvia-se nas casas, nos templos e nos santuários pan-helênicos, isto é, comuns a todos os helenos. Os gregos pediam favores aos deuses ofertando-lhes alimentos e bebidas (leite, mel, vinho) ou sacrifícios de animais. O sacrifício mais solene era a hecatombe (de hecatón = cem, e bous = boi).

Os gregos buscavam sempre conhecer a vontade dos deuses e, para isso, ora interpretavam sinais vários da natureza (presságios), ora consultavam nos santuários os próprios deuses, que por vezes davam sua resposta (oráculo) por meio de uma sacerdotisa. Um dos mais famosos centros de oráculos foi Delfos, onde uma sacerdotisa do deus Apolo, a Pítia (de Pythón = serpente), transmitia aos homens a resposta divina.

Havia grandes festas religiosas que abrangiam jogos e competições artísticas, procissões, espetáculos musicais e teatrais. Algumas eram anuais, características de certas regiões, como as Panatenéias (em honra de Atena) e as Dionisíacas (em honra de Dionísio), celebradas em Atenas. Outras festas, organizadas em certos santuários pan-helênicos, realizavam-se de dois em dois anos (Neméia, Jogos nemeus; Corinto, Jogos ístmicos), ou de quatro em quatro anos (Delfos, Jogos píticos; Olímpia (Jogos olímpicos). Desses jogos os mais famosos foram os olímpicos, em honra de Zeus, e marcavam o início do calendário grego.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 67-69.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Os primeiros tempos do Cristianismo

Ecce homo!, Antonio Ciseri. 
[Pôncio Pilatos apresentando Jesus ao público]

Na Judéia um simples procurador de Roma mantinha a ordem e controlava os impostos, enquanto a administração era exercida pelos próprios judeus através do Grande Conselho, chefiado pela autoridade máxima civil e religiosa do povo hebreu, o sumo sacerdote do Templo de Jerusalém.

Em todos os portos do Mediterrâneo os judeus dispersados pelos romanos continuavam a pregar a religião hebraica, a reunir seus adeptos em sinagogas, a esperar a vinda de um messias que, segundo os profetas, libertaria o povo judeu do jugo estrangeiro, vingaria as humilhações sofridas e imporia ao universo o verdadeiro deus. Muitos falsos messias, no entanto, já haviam surgido, levando assim o Grande Conselho a desconfiar de quantos aparecessem.

Por outro lado, os romanos consideravam estranho e mesmo perigoso esse povo que teimava em não reconhecer os deuses oficiais de Roma.

Jesus Cristo. De acordo com as narrativas dos Evangelhos, no Novo Testamento, nasceu em Belém durante o reino de Augusto, na Galiléia (região da Palestina), o homem que, por seus ensinamentos e por seu exemplo, exerceria uma das mais significativas influências sobre a história e a religião: Jesus.

Com a idade de 30 anos, acompanhado de doze apóstolos (= enviados), começou a percorrer as terras da Galiléia e da Judéia, aí difundindo sua mensagem pelo espaço de três anos. A pregação de Jesus prometia aos homens vida eterna, liberação moral e espiritual. Muitos viram nele o verdadeiro messias (em grego, Cristo); outros, porém, o combateram como inimigo, embora Cristo houvesse declarado que não viera para abolir a lei e sim para mantê-la, além de pregar a não-violência, a caridade, o amor ao próximo, o perdão, a justiça, a misericórdia divina.

O Grande Conselho o acusou de blasfêmia contra Jeová e exigiu do procurador romano Pôncio Pilatos que Jesus fosse condenado à morte. Pilatos não quis indispor-se com o Conselho e tolerou a crucificação de Jesus, pena infligida pelos romanos a bandidos, ladrões e traidores.

Nesse mesmo tempo, na época do procurador romano Pilatos, apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome. (Flávio Josefo, História dos hebreus, v. 5)

Após a morte de Jesus, a despeito da oposição das autoridades judaicas, alguns dos apóstolos continuaram a difundir os ensinamentos de Cristo, congregaram seus seguidores, chamados cristãos, em núcleos organizados na Palestina, sobretudo em Jerusalém. Outros apóstolos, ajudados por novos adeptos, pregaram o cristianismo nas sinagogas das principais cidades do Mediterrâneo. Dois livros do Novo Testamento - Atos dos Apóstolos e Epístolas de São Paulo - nos revelam qual foi a atividade que se desenvolveu para difundir a nova religião.

Os esforços dos apóstolos alcançaram resultados surpreendentes, tanto assim que, no fim do século I, além dos núcleos ao longo do Mediterrâneo, já existiam também em Roma importantes comunidades cristãs, constituídas principalmente de gente das classes pobres, de artesãos e de escravos. E no século II o cristianismo já estava instalado na península ibérica, na Gália, na África, e penetrara em todas as classes sociais, inclusive nos círculos ligados ao imperador e sua família.

Surgiu a assembléia cristã (eclésia, daí Igreja). As várias assembléias reuniam-se ora em residências particulares, ora em seus cemitérios subterrâneos, chamados catacumbas, onde os fiéis, em lembrança da última ceia de Jesus em companhia dos apóstolos, participavam da cerimônia da comunhão. dividindo, entre todos, o pão e o vinho.

Como a religião cristã se contrapunha à religião do Estado romano, provocou um período de perseguições que se estendeu, ora mais, ora menos violento, do século I (desde Nero) até o século III. Essas perseguições, suportadas pelos cristãos com extraordinária coragem, ao invés de enfraquecer o cristianismo, só contribuíram para fortalecê-lo e difundi-lo ainda mais, provocando grande crise religiosa no Império Romano e contribuindo para abalar-lhe os alicerces.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 105-7.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os mitos dos povos primitivos

Pajé, E. Goodall

Os mitos, a religião, foram, em princípio, a forma que o homem encontrou para tentar explicar a origem da terra, sua própria origem. É através das crenças e mitos que o homem primitivo passa a sua cultura para seus descendentes, além de utilizá-los como uma forma de manter o grupo unido, fiel a suas tradições. [...] na medida em que todos os membros de uma sociedade se sentiam fiéis ao mesmo ancestral, entendiam que todos tinham uma origem comum, aumentava seu sentimento de unidade.

Além disso, o respeito às tradições deixadas pelos antepassados permitem que a tribo organize o comportamento do grupo, fazendo com que todos respeitem as regras básicas, para que a tribo possa sobreviver. Por exemplo: para o homem Tonga (tribo africana do sul de Moçambique), alguma coisa de ruim pode lhe acontecer, caso não tenha cumprido devidamente os ritos determinados pela tradição com relação aos seus antepassados. Se procurar um feiticeiro para aconselhá-lo, este certamente dirá: "Teu antepassado reclama o rito que não foi cumprido". Para este homem, a importância do seu antepassado é tão grande, é tão presente em sua mente, que muito provavelmente o rito cumprido solucionará o seu problema. Ele se sentirá melhor, pois seu antepassado o perdoou. Ele agora está integrado ao seu grupo novamente.

Os mitos dos povos primitivos estão cheios de sabedoria.

Alguns deles nos dão hoje a explicação correta sobre o tipo de plantas que podem ser usadas para a alimentação, quais podem ser usadas na medicina, além de nos relatar a origem de vários grupos, suas tradições e sua história.

Durante muito tempo, os homens modernos desprezaram os mitos e as religiões do povo primitivo. Achavam que todo homem que não vivesse dentro de uma sociedade moderna não devia ser levado "a sério".

Entendiam sua religião, seus ritos, apenas como uma maneira primitiva de "botar para fora" as suas angústias e medos diante de uma natureza desconhecida e, por isso, ameaçadora.

Demorou muito para que os historiadores e outros pesquisadores de nossa época percebessem que o homem primitivo, associando os seus conhecimentos práticos, culto aos antepassados e magia, exprimiam um conhecimento sobre a sua realidade, os homens e a natureza.

Foi muito difícil para o homem moderno entender que podia aprender muito com as crenças e mitos do homem primitivo. Foi difícil perceber que, para entender como viviam, era preciso entender a fundo sua religião. Esta tarefa foi muito dificultada pelos países que exploravam os povos que viviam em uma organização social igualitária, seja na América, seja na África. Estes justificavam sua dominação, dizendo que todas as manifestações destes grupos eram selvagens, primitivos, ignorantes, incapazes de construírem por si só o seu caminho. Por outro lado, os pesquisadores e outros cientistas, que não aceitavam a dominação e exploração exercida contra estes grupos, na tentativa de denunciar os "civilizados" e mostrar que estes não passavam de exploradores, e que seu único interesse em relação a estas comunidades era utilizá-las para se enriquecer cada vez mais, acabavam por cair em outro extremo: analisavam a vida social e política destes grupos como sendo um verdadeiro paraíso! Sem problemas, conflitos ou injustiças, e que tudo de errado, que quebrava a harmonia perfeita dos povos primitivos, tinha sido trazido pelo invasor.

Ora, jamais existiu uma sociedade assim, sem conflitos!

É importante lembrar que se, por um lado, as crenças representavam conhecimentos sobre a realidade que permitiam ao homem relacionar-se com a natureza e entre, por outro lado, algumas crenças e ritos, por estarem ligados a contradições sociais profundas, ou a alguns fenômenos naturais que atemorizavam aos homens, ao invés de permitir que o homem cada vez mais ultrapassasse os desafios que surgiam, o impediam, colocando regras respeitadas muitas vezes pelo medo, que o homem aceitava sem jamais questioná-las.

Os mitos e crenças de que falamos, são formas que o homem primitivo encontrou para explicar, regular e manter o seu mundo. O mundo do homem primitivo. Neste tipo de sociedade, onde não há a exploração do homem pelo homem, e a divisão do trabalho está pouco desenvolvida, as explicações que os homens fazem do seu mundo estão ligadas à sua vida. Não há separação entre o trabalho e a cultura, o trabalho e o prazer etc. Mas todos os homens procuram explicar o mundo em que vivem. E a maneira pela qual constroem esta explicação vai variar de época para época. As ideias que os homens produzem, as explicações do mundo que elaboram, estão ligadas à sua atividade material, à sua maneira pela qual o homem se organiza para sobreviver na sua relação com outros homens.

Com o surgimento da sociedade de classes, e a divisão entre os que produzem e os que não produzem, a unidade entre o pensar/saber e fazer vai aos poucos desaparecendo.

"A produção de ideias, de representações e da consciência está em primeiro lugar, direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real".

"As ideias da classe dominante são ideias dominantes em cada época; em outros termos, a classe que exerce o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe com isso, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual".

A classe dominante tem de "representar" os seus interesses como os interesses de todos os membros da sociedade - tem de dar às suas ideias a forma de universalidade e representá-las como as únicas racionais e válidas.

Às ideias, à moral, à religião, aos costumes etc chamamos de ideologia.

A ideologia faz com que as ideias expliquem as relações sociais e políticas, tornando impossível perceber que tais ideias só são explicáveis pela própria forma de sociedade e da política.

BARBOSA, Leila Maria Alvarenga; MANGABEIRA, Wilma Colonia. A incrível história dos homens e suas relações sociais. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 52-5.

sábado, 1 de agosto de 2015

A religião no Egito Antigo

Sacerdotes vestidos com pele de leopardo realizam rituais de purificação. Túmulo de Userhat, XIXª  Dinastia. Artista desconhecido.

Os egípcios eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses, alguns representados por cabeças de animais. Cada cidade tinha seus deuses particulares e, quando se tornava capital do império, esses deuses passavam a ser adorados em todo o Egito.

No Antigo Império adorava-se , deus-sol, e seus descendentes Osíris, deus da morte, com a esposa Ísis e seu filho Hórus. Os faraós intitulavam-se filhos de Rá. Durante o Médio e o Novo Império adorou-se Amon, protetor da cidade de Tebas, que passou a chamar-se Amon-Rá.

Em honra aos deuses foram construídos templos gigantescos, magnificamente decorados com esculturas, baixos-relevos e inscrições hieroglíficas, destacando-se, na região de Tebas, os templos de Lúxor e de Carnac.

Os egípcios acreditavam na imortalidade e, por isso, era necessário conservar o corpo depois da morte. Aqueles que podiam sustentar as elevadas despesas dos ritos funerários dispensavam cuidados especiais aos mortos, embalsamando-os, transformando-os em múmias, protegidas por máscaras mortuárias, guardadas em sarcófagos. A múmia teria na vida do além-túmulo as mesmas necessidades terrenas e, assim, junto a ela eram colocados alimentos, roupas, móveis, perfumes, seus pertences de valor, tudo enfim de que ela poderia precisar.

Os túmulos dos faraós, dos nobres e dos ricos eram construídos e decorados como casas. Durante as duas primeiras dinastias os túmulos eram retos em cima, com paredes inclinadas, com várias câmaras, às vezes subterrâneas, chamadas mastabas. Essa forma evoluiu para a de pirâmide, sendo usada durante todo o resto do Antigo Império e no Médio Império. Durante o Novo Império, para evitar a pilhagem, construíram-se túmulos subterrâneos, chamados hipogeus.

HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 18-19.

domingo, 3 de maio de 2015

Averróis: Ponte entre culturas

Debate imaginário entre Averróis e Porfirio. Ilustração. Manfredo de Monte Imperiati, Liber de Herbis, séc. XIV.

Seu nome é citado com frequência quando se defende a ideia, absolutamente moderna, de um "Islã das Luzes". A exemplo de Avicena (980-1037), ele encarna a imagem do sábio árabe, tolerante e aberto às trocas culturais, em contraste com aquela de uma expansão muçulmana guerreira e fanatizada. Se a sua notoriedade ultrapassa a de seu equivalente persa na Europa é porque ele contribuiu para a afirmação intelectual do Ocidente cristão.

Filósofo, teólogo, jurista, matemático e médico, Averróis (nome latinizado de Abu al-Wald Ibn Ruchd) nasceu em 1126, em Córdoba. Ele descendia de uma família de juristas que ocupavam a função de cadi, quer dizer, de juiz de paz e de notário. Seu avô tornou-se célebre por importantes trabalhos sobre a jurisprudência islâmica. A juventude de Averróis foi marcada pelo estudo rigoroso do Corão, ao qual se acrescentaram diferentes ciências, entre as quais a medicina, que ele exerceria paralelamente a seu cargo de cadi. Ele interessou-se igualmente pelo saber dos antigos. Abu Yaquib Yusuf, o segundo califa da dinastia dos almóadas (do Marrocos), encomendou-lhe um estudo das obras de Aristóteles. Como não dominava o grego, Averróis trabalhou com traduções que comparou exaustivamente, com o intuito de obter a fonte mais autêntica. Seus comentários de Aristóteles forjaram seu renome, que ultrapassou as fronteiras da Espanha muçulmana (Djazirat al-Andaluz) depois da sua morte. Eles atingiram a Universidade de Paris, onde foram debatidos com ardor. Falou-se até mesmo em uma "querela de Aristóteles", tão áspero foi o debate entre os partidários de Averróis e seus adversários. Tratava-se de determinar se a faculdade de pensar no homem era algo individual ou, como sugeria o andaluz, o reflexo de uma lógica universal. Refutando metodicamente os argumentos de Averróis, Tomás de Aquino lançou-se na batalha metafísica e, aos olhos da Santa Sé, levou a melhor. A partir desse momento, foi o pensamento tomista que animou a doutrina da Igreja.

Em cada um dos três monoteísmos em plena efervescência intelectual no século XIII, distingue-se uma grande figura: santo Tomás de Aquino (1228-1274) para o cristianismo, Moisés Maimônides (1135-1204) para o judaísmo e Averróis para o Islã. Entre todos os teólogos muçulmanos desse período, foi ele o que mais se dedicou a integrar a razão à religião, numa busca de equilíbrio entre o poder espiritual e o poder temporal. Ele distingue a verdade revelada e aquela que se pode atingir por meio da razão. Mas não para opor uma à outra e, sim, uni-las numa busca pela verdade. Em seu Discurso decisivo, ele chega a atribuir um papel indispensável nesse processo ao filósofo, mas reconhece seu caráter elitista.

Evoca-se Averróis para reavivar as cores do brasão do Islã em uma hora na qual as questões de identidade nacional, de laicidade e de integração se tornam outra vez temas ardentes. Sua obra ergue-se como um baluarte contra os fanáticos e abre uma porta ao diálogo entre religiões. Uma árvore que esconde a floresta? Os últimos anos do sábio mostram o quanto seria absurdo idealizar a idade de ouro de al-Andaluz. Se manteve boas relações com Abu Yaquib Yusuf, soberano apaixonado pela cultura, Averróis teve sérias diferenças com seu filho e sucessor, que adotou o integrismo - tendência que põe os princípios religiosos como modelo de vida política e fonte das leis do Estado - e chegou a proibir a filosofia. Ele foi condenado ao exílio em 1197, e seus livros queimados em praça pública. Colocada sob suspeita de heresia, sua obra encontrou melhor ressonância no mundo cristão. Os humanistas do Renascimento, tais como Giovanni Pico della Mirandola, lhe asseguraram um lugar no panteão dos pesquisadores da verdade, ainda que o pensador andaluz fosse condenado pelo papa em 1513.

Averróis continua a alimentar ardentes debates. Em 2008, sua influência esteve no cerne da polêmica suscitada pelo livro de Sylvain Gouguenheim, Aristote au mont Saint-Michel, que discute a forma como a cultura grega se transmitiu ao Ocidente, combatendo a tese da centralidade do papel do Islã nesse processo. A questão posta então era a seguinte: celebrar o papel de Averróis e Avicena significa admitir uma influência do Islã na matriz heleno-cristã que foi transmitida à Europa? É uma questão bastante atual diante dos conflitos políticos e culturais com que nos defrontamos.

Vincent Mottez. Ilustre desconhecido. Averróis. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 127. p. 62-63.

domingo, 10 de agosto de 2014

Idade Média: O mundo do medo

A fome trazia consigo sérias consequências. A ingestão de alimentos deteriorados ou impróprios para o consumo provocava doenças que se agravavam pelo estado de subnutrição. Há relatos de populações que, esfaimadas, chegavam a comer terra. Existem também registros de atos de canibalismo, praticados em meio a pragas de ratos e gafanhotos que frequentemente assolavam os campos. Em tempos de crise, os rebanhos eram dizimados por doenças ou pela falta de alimentos. Desesperadas, as pessoas consumiam também as rações reservadas aos animais como, por exemplo, a aveia armazenada. E os poucos animais que restavam eram abatidos para suprir a carência de alimentos.

Além disso, as populações subalimentadas e sem a mínima resistência física ainda sofriam o flagelo das epidemias, muito comum em toda a Idade Média. Os surtos mais freqüentes eram de cólera, peste bubônica e ergotismo (doença provocada pela ingestão de centeio contaminado por fungos). A célebre Peste Negra – epidemia de peste bubônica iniciada em 1347 – dizimou cerca de um terço da população européia. Na Toscana, a mortalidade atingiu 80% da população e, certas regiões da Inglaterra, chegou a 60%.


Miniatura da Bíblia de Toggenburg, Suíça, 1411, sobre a "Peste Negra".

Ao relatar uma dessas crises, ocorrida entre os anos de 1032 e 1034, o cronista francês Raoul Glaber, monge de Cluny, escreveu: “A fome estendeu de tal forma sua destruição, que se podia acreditar no desaparecimento de quase todo o gênero humano. As condições climáticas se fizeram tão desfavoráveis, que não se encontrava tempo propício para nenhuma sementeira, e as inundações impediam a realização de colheitas. As chuvas incessantes embeberam a terra de tal modo que, durante três anos, não foi possível abrir sulcos capazes de receber sementes. E, no tempo da colheita, toda a superfície dos campos fora recoberta por ervas daninhas. Durante esse período, depois de consumirem pássaros e animais selvagens, os homens passaram a recolher, transtornados pela fome, toda espécie de carniça e de coisas terríveis de se dizer. Para escapar à morte, alguns recorreram às raízes da floresta e às ervas dos rios. Coisa raramente ouvida no curso das épocas, uma fome raivosa fez com que os homens devorassem carne humana. Viajantes incautos eram assaltados por homens mais robustos, que lhes utilizavam os membros, coziam-nos e os devoravam. Muitas pessoas que migravam a fim de fugir do flagelo, ao encontrar hospitalidade, eram assassinadas e serviam de alimentos aos que as haviam acolhido”.

Num mundo tão terrível, a expectativa de vida não ultrapassava os 30 anos de idade. Até mesmo as camadas mais altas sofriam as consequências dos precários recursos da medicina da época, pois as doenças fatais e a mortalidade infantil não poupavam as famílias aristocráticas. Mas, sem dúvida, era entre os camponeses que as deficiências de vida se faziam sentir mais fortemente.

São numerosos os relatos e as miniaturas da época que testemunham o deplorável estado de saúde dos homens da Idade Média. Tuberculoses e dermatoses, especialmente a lepra, eram flagelos constantes, aos quais se somavam deformações de todo tipo (cegueira, paralisia, defeitos físicos) dramaticamente representados na obra de pintores como Peter Bruegel, o Velho e Hieronimus Bosch.

Para todos esses males, receitava-se um só remédio: a expiação. Em épocas de epidemia, organizavam-se procissões, romarias e atos públicos de penitência. E para cada dor ou moléstia recorria-se a um padroeiro específico: Santo Agapito para dor de dente; São Brás para dor de garganta; São Firmino para o raquitismo; São Ciro para cólicas; São Cornélio para convulsões, e assim por diante.

O mundo medieval era o mundo do medo. Temiam-se as más colheitas, a fome, as doenças. E, segundo as crenças populares, só a religião poderia oferecer a segurança almejada, fazendo milagres inimagináveis, e até mesmo ressuscitando os mortos. Bastava invocar o santo do dia para que o pedreiro, por exemplo, se mantivesse miraculosamente sustentado no ar, quando lhe despencasse o andaime. E, embora houvesse a esperança de uma vida eterna destituída de surpresas e de morte, havia ainda o pavor da condenação ao inferno, que dava a essa outra vida o mesmo cunho de insegurança e tornava ainda mais penosa a vida terrena.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 180-182. Volume 2.

NOTA: O texto "Idade Média: O mundo do medo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 8 de junho de 2014

A herança mística e extraterrena da Pérsia

Emblema solar de Ahura Mazda. 
Ca. VI século a.C. Susa, Pérsia

A religião dos persas, tal como foi ensinada por Zoroastro, não permaneceu por muito tempo em seu estado original. Foi corrompida principalmente pela persistência de superstições primitivas, pela magia e pela ambição do clero. Quanto mais a religião se estendia, tanto mais nela se enxertavam essas relíquias do barbarismo. Com o passar dos anos, a influência de crenças de outras terras, particularmente as dos caldeus, determinou novas modificações. O resultado final foi o desenvolvimento de uma poderosa síntese na qual o primitivo sacerdotalismo, o messianismo e o dualismo dos persas se combinavam com o pessimismo e o fatalismo dos neobabilônios.

Dessa síntese emergiu, aos poucos, uma profusão de cultos, semelhantes em seus dogmas básicos, mas concedendo a eles valores diferentes. O mais antigo dos cultos era o mitraísmo, nome que se deriva de Mitra, o principal lugar-tenente de Mazda na luta contra as forças do mal. Mitra, a princípio apenas uma divindade menor da religião zoroástrica, encontrou finalmente agasalhado no coração de muitos persas como deus mais merecedor de adoração. A razão dessa mudança foi, provavelmente, a auréola emocional que cercava os acidentes de sua vida. Acreditava-se que nascera num rochedo, em presença de um pequeno grupo de pastores, que lhe trouxeram presentes em sinal de reverência pela sua grande missão na terra. Passou então a sujeitar todos os seres vivos que encontrava, conquistando e tornando úteis ao homem muitos deles. Para melhor desempenhar essa missão, fez um pacto com o sol, obtendo calor e luz para que as plantações pudessem florescer. O mais importante de seus feitos foi, contudo, a captura do touro divino. Agarrando o animal pelos chifres, lutou desesperadamente até forçá-lo a entrar numa caverna, onde, em obediência a uma ordem do sol, o matou. Da carne e do sangue do touro provieram todas as espécies de ervas, grãos e outras plantas valiosas para o homem. Mal esses feitos foram realizados, Ahriman provocou uma seca na terra, mas Mitra enfiou a sua lança numa rocha e as águas dela borbulharam. Em seguida o deus do mal mandou um dilúvio, mas Mitra mandou construir uma arca para permitir a salvação de um homem com os seus rebanhos. Depois de terminados os seus trabalhos, Mitra participou de um festim sagrado com o sol e subiu aos céus. No devido tempo voltará e dará a todos os crentes a imortalidade.


Mitra e o touro. Afresco do Templo de Mitra, Marino, Itália, século II d.C. Artista desconhecido

O ritual do mitraísmo era complicado e significativo. Incluía uma complexa cerimônia de iniciação em sete estágios ou graus, o último dos quais firmava uma amizade mística com o deus. Longas provas de abnegação e mortificação da carne constituíam complementos necessários ao processo de iniciação. A admissão à completa participação no culto habilitava uma pessoa a participar dos sacramentos, sendo o mais importante o batismo e uma refeição sagrado de pão, água e, possivelmente, vinho. Outras observâncias incluíam a purificação lustral (ablução cerimonial com água santificada), a queima de incenso, os cânticos sagrados e a guarda dos dias santos. Destes últimos, eram exemplos típicos o domingo e o dia vinte e cinco de dezembro. Imitando a religião astral dos caldeus, cada dia da semana era dedicado a um corpo celeste. Uma vez que o sol, como fonte de luz e fiel aliado de Mitra, era o mais importante desses corpos, seu dia era, naturalmente, o mais sagrado. O dia vinte e cinco de dezembro possuía, também, significação solar: sendo a data aproximada do solstício do inverno, marcava a volta do sol de sua longa viagem ao sul do Equador. Era, em certo sentido, o "dia do nascimento do sol", uma vez que assinalava a renovação de suas forças vivificadoras para benefício do homem.

Não se sabe exatamente quando a adoração de Mitra se transformou num culto definido, mas sem dúvida não foi depois do século IV a.C. Seus característicos se estabeleceram firmemente durante o período de fermentação social que se seguiu ao colapso do império de Alexandre, e sua expansão nessa época foi muitíssimo rápida. No último século a.C. foi introduzido em Roma, embora tivesse pequena importância na própria Itália até o ano 100 d.C. Fazia conversos principalmente nas classes mais baixas - soldados, estrangeiros e escravos. Finalmente, atingiu a situação de uma das mais populares religiões do Império, tornando-se o principal concorrente do cristianismo e do próprio velho paganismo romano. Depois de 275, no entanto, sua força decaiu rapidamente. É impossível avaliar a influência que esse extraordinário culto exerceu. Não é difícil perceber sua semelhança superficial com o cristianismo, mas certamente isso não quer dizer que os dois fossem idênticos, ou que um fosse derivação do outro. Não obstante, é provável que o cristianismo, o mais jovem dos dois rivais, tenha tomado de empréstimo um bom número dos aspectos externos do mitraísmo, conservando, ao mesmo tempo, virtualmente intata a sua filosofia essencial.


Folha de um maniqueísta. Khocho, ca. VIII-IX século d.C. Artista desconhecido

Um dos principais sucessores do mitraísmo na transmissão da herança persa foi o maniqueísmo, fundado por Mani, um sacerdote de origem ilustre de Ecbátana, aproximadamente em 250 d.C. Como Zoroastro, achava que sua missão na terra era reformar a religião dominante, mas obteve pequena simpatia em seu próprio país e teve que se contentar com aventuras missionárias na Índia e na China Ocidental. Mais ou menos em 276, foi condenado e crucificado pelos seus próprios rivais persas. Depois da morte de Mani, os ensinamentos deste foram levados por seus discípulos praticamente a todos os países da Ásia Ocidental e, por fim, à Itália, mais ou menos em 330. Grande número de maniqueus ocidentais, inclusive o grande Agostinho, acabaram por se tornar cristãos.

De todos os ensinamentos do zoroastrismo, o que causara a mais profunda impressão na mente de Mani fora o dualismo. Era, por conseguinte, natural que se tornasse a doutrina central da nova fé. Mas Mani deu a essa doutrina interpretação mais larga do que tivera nas religiões precedentes. Concebeu não simplesmente duas divindades empenhadas numa luta inexorável pela supremacia, mas todo um universo dividido em dois reinos, sendo um a antítese do outro: um, o reino do espírito dominado por um Deus eternamente bom; outro, o reino da matéria sob o domínio de Satã. Somente substâncias "espirituais" como o fogo, a luz e as almas dos homens eram criadas por Deus. Tinham sua origem em Satã a escuridão, o pecado, o desejo e todas as coisas corporais e materiais. A própria natureza humana era má, pois os primeiros pais da raça receberam seus corpos físicos do rei das trevas.

As inferências morais desse dualismo rigoroso eram demasiado evidentes. Uma vez que tudo quanto se relacionasse com a sensualidade e o desejo era trabalho de Satã, o homem devia esforçar-se por se libertar o mais completamente possível da escravidão de sua natureza física. Devia refrear todos os prazeres dos sentidos, abster-se de comer carne, de beber vinho e de satisfazer o desejo sexual. Até o casamento era proibido, pois levaria à geração de novos corpos físicos para povoar o reino de Satã. Além disso, o homem dominaria a carne por meio de jejuns prolongados e penitências corporais. Reconhecendo que essa norma de austeridade seria muito dura para mortais comuns, Mani dividiu a raça humana em "perfeitos" e "seculares". Somente os primeiros eram obrigados a submeter-se à norma completa como um ideal que todos deviam almejar. À segunda categoria cumpria somente evitar a idolatria, a avareza, a fornicação, a falsidade e a ingestão de carne. A fim de ajudar os filhos dos homens na luta contra o poder das trevas, Deus enviava, de tempos em tempos, profetas e redentores a fim de confortá-los e inspirá-los. Noé, Abraão, Zoroastro e Paulo eram enumerados entre esses emissários divinos, mas o último e maior de todos era Mani.

É muito difícil estimar a influência do maniqueísmo, mas sem dúvida ela foi considerável. Pessoas de todas as classes do império romano, incluindo alguns membros do clero católico, adotaram suas doutrinas. Na sua forma cristianizada, tornou-se uma das seitas principais da igreja primitiva e forneceu a base essencial da heresia albigense, ainda nos séculos XII e XIII. Inspirou extravagantes especulações cristãs em torno do dualismo entre Deus e o diabo e entre o espírito e a matéria. Não somente contribuiu para o ascetismo cristão mas também fortaleceu as doutrinas do pecado original e da depravação do homem, tais como as ensinaram alguns teólogos. Foi, finalmente, a grande fonte da famosa dicotomia dos padrões éticos estabelecida por Santo Agostinho e outros Padres da Igreja: 1) um padrão de perfeição para poucos (os monges e as freiras), que se retirariam do mundo e levariam vida santa para exemplo dos demais; e 2) um padrão socialmente viável para os cristãos comuns.

O terceiro culto mais importante, que se desenvolveu como legado da religião persa, foi o gnosticismo (do grego gnosis, que significa conhecimento). O nome do seu fundador é desconhecido, bem assim como a data da sua origem, mas certamente existia já no primeiro século da nossa era. Atingiu o auge da popularidade na última metade do segundo século. Ainda que granjeasse alguns seguidores na Itália, sua influência se limitou sobretudo ao Oriente Próximo.

O misticismo era o característico que mais distinguia dos outros este culto. Os gnósticos negavam que as verdades da religião pudessem ser descobertas pela razão ou que se pudessem tornar inteligíveis. Consideravam-se como os detentores exclusivos de uma secreta sabedoria espiritual revelada por Deus, sabedoria essa de absoluta importância como guia da fé e da conduta. Suas observâncias religiosas eram também altamente esotéricas, isto é, tinham um significado oculto conhecido unicamente pelos iniciados. Os sacramentos em grande profusão, batismos inumeráveis, ritos místicos e o uso de fórmulas e números sagrados são os melhores exemplos desses ritos.

Foi enorme a influência conjunta desses vários tipos de religião persa. Muitos deles foram lançados numa época de condições sociais e políticas particularmente favoráveis à sua expansão. O fim do império de Alexandre, mais ou menos em 300 a.C., inaugurou na história do mundo antigo um período singular. Foram derrubadas as barreiras internacionais, houve uma extensa migração e caldeamento de povos, e o colapso da antiga ordem social despertou profunda desilusão e um vago anseio de salvação individual. A atenção dos homens se centralizou, como nunca mais acontecera desde a queda do Egito, nas compensações da vida futura. Em tal terreno as religiões do tipo descrito estavam destinadas a medrar como erva nova. Sendo sobrenaturais, místicas e messiânicas, ofereciam na irrealidade que buscavam os homens o verdadeiro refúgio de um mundo de ansiedade e confusão.

A herança deixada pelos persas, ainda que não tenha sido exclusivamente religiosa, continha poucos elementos de natureza secular. A forma de governo característica desse povo foi adotada pelos monarcas romanos de época avançada, não no seu aspecto puramente político, mas no seu caráter de despotismo de direito divino. Quando imperadores como Diocleciano e Constantino I invocaram a autoridade divina como base do seu absolutismo e exigiam que os súditos se prostrassem na sua presença, estavam, em realidade, identificando o estado com a religião como os persas tinham feito na época de Dario. São também discerníveis traços da influência persa em certos filósofos helenistas, mas ainda aqui essa influência foi essencialmente religiosa, pois se limitou quase inteiramente às teorias místicas dos neoplatônicos e dos seus aliados filosóficos.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental: Do homem das cavernas até a bomba atômica. V. 1. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 106-110.

NOTA: O texto "A herança mística e extraterrena da Pérsia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 23 de março de 2014

Os quakers e os católicos nas colônias inglesas da América do Norte

Em 1682, Lord Baltimore obteve da Coroa inglesa a concessão de um território na América do Norte, situado ao sul das possessões holandesas e ao norte da Virgínia, ao qual deu o nome de Maryland. Tendo recebido amplos poderes para governar e legislar, Baltimore instaurou nessa colônia - a única católica - um regime de liberdade religiosa, expressa no Ato de Tolerância de 1649. Essa medida levou muitos puritanos  que não haviam se adaptado à rigidez das leis em outras colônias a se transferirem para Maryland. A economia da colônia baseava-se no cultivo do tabaco, e os agricultores locais - a exemplo do que ocorrera na Virgína - logo recorreram ao trabalho escravo. Para isso muito contribuiu o sistema de distribuição da terra que, ao contrário do que ocorria nas colônias do norte, se caracterizava pelo predomínio da grande propriedade.

Nessa mesma região, surgiu por volta de 1680 a primeira comunidade de colonos quakers, fundada por William Penn (1644-1718), que deu origem à colônia da Pensilvânia. Ao seu principal núcleo povoador foi dado o nome de Filadélfia, cujo significado - amizade e fraternidade - constituía dois pontos básicos do pensamento religioso dos quakers. Membros de uma antiga seita protestante, a chamada "Sociedade dos Amigos", eles não possuíam dogmas, nem uma estrutura eclesiástica, acreditando na livre interpretação da Bíblia e em um relacionamento direto entre Deus e o homem. Sua doutrina religiosa baseava-se na total recusa à violência e à submissão às leis da Igreja e do Estado. Assim, os fiéis orientavam-se nas questões religiosas de acordo com sua consciência e, no plano civil, recusavam-se a pagar impostos.

William Penn negocia um tratado de paz com os índios, Benjamin West

Como consideravam o território americano uma espécie de Terra Prometida, os quakers nele fundaram comunidades abertas a todos os que sofriam perseguições por motivos religiosos, criando uma sociedade relativamente democrática e estabelecendo relações amistosas com os indígenas. Com a chegada de outros grupos de colonos, porém, começaram a ocorrer conflitos que abalaram a primitiva organização social e política dos quakers. Mesmo assim a experiência realizada por esse grupo deixou marcas profundas no processo de colonização da América do Norte, pois suas características essenciais foram herdadas por minorias inspiradas nos mesmos ideais religiosos.

História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 72 e 74. Volume 4.


NOTA: O texto "Os quakers e os católicos nas colônias inglesas da América do Norte" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O universo mental e a cultura popular na Idade Média

A Igreja medieval tentou tornar o mundo o mais simbólico possível, somente decifrável pelos homens de fé. Somente os clérigos sabiam interpretar o mundo dos homens porque ele, segundo a pregação religiosa, havia sido criado como reflexo do mundo celestial. Uma vez que nosso mundo foi criado à semelhança da Cidade de Deus, somente aqueles que conheciam o mundo celestial podiam entender este em que vivemos. Dessa forma os clérigos definiam como deveria ser o comportamento humano, criavam regras de comportamento moral e social e valores culturais.

Assolados por um Demônio sempre à espreita do erro, obrigados a viver entre as muitas tentações condenadas pela Igreja - por exemplo, não pagar suas obrigações -, os pobres não podiam partir para a vida contemplativa, voltada apenas para as orações, para se livrarem dos pecados. Também não dispunham de recursos para fazer grandes doações à Igreja e assim livrarem-se do castigo do inferno. Era um cenário de terror.

Devemos nos perguntar, porém, em que medida as pessoas realmente se envolviam nessa pregação religiosa, ou apenas toleravam essa doutrinação, uma vez que ela era feita pela classe dominante; em que medida ainda preservavam suas tradições pagãs ou passaram de fato a acreditar somente nos valores católicos. Alguns aspectos da cultura popular nos indicam que havia reação a essa imposição cultural.

Uma das características da cultura oficial era o seu tom de seriedade. A crença numa providência divina sinistra; o papel dominante ocupado pela ideia de pecado; a necessidade do sofrimento para a redenção humana eram fatores que criavam um ambiente de preocupação constante. A opressão e a intimidação sofridas pelos pobres consagravam a seriedade. O tom sério afirmou-se como a única forma de expressar a verdade e tudo o que era importante e bom.

O riso, por sua vez, acabou sendo visto como o oposto: a expressão do que era mau. O riso foi declarado como uma emanação do diabo. O cristão deveria conservar a seriedade sempre, para demonstrar seu arrependimento e a dor que sentia na expiação dos seus pecados. É interessante notar que nas histórias infantis medievais essa articulação entre bem e seriedade, mal e riso é fortemente representada. A mocinha que é boa sofre sempre e é tristonha; a bruxa ou feiticeira que é má está sempre dando gargalhadas. Certamente que, seguindo o raciocínio moral da Idade Média, no final da história o sofrimento será recompensado e o riso castigado.

Por ter sido proibido, condenado como um pecado, o riso tornou-se uma forma de reação contra a opressão. Fora da ideologia oficial, o culto ao riso, à alegria, aos prazeres acontecia em, pelo menos, duas festas populares: a festa dos loucos e a festa do asno. Eram festividades realizadas nas ruas nas quais as pessoas se permitiam todas as transgressões possíveis: excessos na comida, embriaguez, gestos obscenos, nudez e, logicamente, muito riso.


A luta entre o carnaval e a quaresma (detalhe), Pieter Bruegel

A Igreja tentava combater esses rituais fazendo coincidir as festas religiosas com as festas pagãs, com o objetivo de cristianizar os cultos cômicos. A princípio a festa dos loucos era realizada dentro das igrejas. Quando foi proibida, passou a se realizar nas tavernas e nas ruas.

A tradição mais antiga permitia o riso e as brincadeiras no interior das igrejas durante a celebração da Páscoa. O padre, do púlpito, fazia brincadeiras e contava histórias divertidas para provocar o riso nos fiéis, depois do período de abstinência que precedia a Páscoa. Esse riso era entendido como uma forma de renascimento feliz após o longo tempo de jejum. As brincadeiras e as histórias usadas pelo padre para fazer os paroquianos rir fazem referência essencialmente à vida material e corporal. Assim como o riso, estavam autorizadas a ingestão de carne e a vida sexual, também proibidas durante o jejum.

Ao que parece, facções do clero organizavam festas exclusivas, sem a participação de leigos, onde os excessos de alimentos e de bebidas não eram condenados. Realizavam-se festas por ocasião da consagração de uma igreja, quando era rezada a primeira missa. Organizavam-se banquetes em honra dos protetores ou doadores enterrados na igreja, quando se bebia à saúde do morto. "Os dominicanos espanhóis bebiam à saúde de seus santos protetores sepultados nas igrejas, pronunciando o voto ambivalente típico: viva el muerto." (BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento.São Paulo: Hucitec/EUB, 1987. p. 69.)

Muitas festas católicas acabaram ganhando feições pagãs. Por exemplo, São Martim e São Miguel eram vestidos com roupas inspiradas no deus grego Baco, pois eram considerados protetores dos produtores de vinho. Na festa de São Lázaro vários costumes pagãos eram retomados: procissão de animais, o uso de fantasias, danças em praça pública. Todos esses são exemplos que comprovam que a cultura católica não sufocou traços de outras culturas, tendo havido contaminação da cultura pagã até mesmo nas festividades da própria Igreja.

Durante a festa dos loucos vigorava uma inversão social. As pessoas invertiam seus hábitos comuns: abusavam da bebida e da comida, perdiam o pudor, travestiam-se, riam abandonando a atitude geralmente série. Usavam as roupas do avesso e colocavam as calças na cabeça.


Dois tolos do carnaval, Pieter Bruegel

Mas, o que é mais sério, havia uma inversão do papel que os estamentos sociais representavam. Era feita a eleição de um abade, de um bispo, de um arcebispo e de um papa para provocar o riso nas pessoas. Esses clérigos cômicos realizavam missas solenes. Escolhiam-se reis e rainhas, que também deveriam rir. A ordem social, defendida como natural pelos poderosos, era subvertida nos dias de festa. Se na maior parte do ano os camponeses aceitavam com submissão o reinado de terror imposto pelos senhores, durante as festas eles revelavam seu descontentamento, sua indignação com a exploração a que eram submetidos. É como se, durante esses pandemônios públicos, os servos revelassem a consciência que tinham da injustiça social em que viviam.

As festas populares se opunham ao imobilismo social que definia o lugar de cada um na sociedade de acordo com o seu nascimento, sem oferecer a possibilidade de mudança. Também se opunham à rígidez conservadora do regime e das concepções estabelecidas, que não podiam ser contestadas.


A literatura oficial era sacra, de louvor a Deus. Contava a vida dos santos, escrevia e reescrevia os textos bíblicos, traduzia as regras de comportamento a ser seguidas pelos católicos. Os textos filosóficos tentavam entender e explicar os mistérios divinos. A literatura greco-romana ficava devidamente enclausurada nos mosteiros, acessível a membros do alto clero.

Bem diferente era a literatura difundida entre os populares. Acompanhando o sentido das festas populares, a literatura paródica subvertia o caráter dos textos sagrados, criava paródias para serem usadas na festa dos loucos, ou simplesmente para criar oportunidades de riso. [...]

A literatura paródica tinha um objetivo de recreação, era para ser lida em momentos de festa, nos quais predominava um clima de liberdade e de possibilidade de mudança da ordem estabelecida. Para os parodistas, em tudo havia comédia: na religião, na sociedade, no universo, na história. A exaltação do lado cômico funcionava, mais uma vez, como a negação e a repulsa à seriedade imposta pela cultura oficial. Nada mais lógico do que o fato de que a grande maioria das paródias se fazia sobre textos sagrados.

[...]

As versões cômicas das orações católicas mais conhecidas, como o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo, são numerosas. A partir do século XI todas as características da doutrina e dos cultos oficiais são parodiados. São conhecidas a Liturgia dos bêbados, a Liturgia dos jogadores, a Liturgia do dinheiro, o Evangelho do marco de prata, o Evangelho dos beberrões. Enfim, nada escapava dos parodistas.

[...]

Como reagia o poder diante de tanta irreverência? Ao que parece havia a necessidade de fazer concessões a esses deboches. Permitir essas transgressões periódicas, devidamente circunscritas nos dias de festa, era um pequeno preço a ser pago pelos longos dias da maior parte do ano, em que os populares se submetiam ao controle e, o mais importante, aos interesses da classe dominante.

No final do Império Romano o clero católico havia condenado as apresentações teatrais por considerá-las imorais e violentas. Dessa forma o teatro romano deixou de ser encenado. Todavia, foram os próprios clérigos que trouxeram o teatro de volta, aproveitando-se das festas religiosas para encenar peças que retratavam cenas bíblicas.

Na Alta Idade Média as encenações eram feitas dentro das igrejas. O aumento de público levou as apresentações para a praça pública [...]. De um lado do palco ficava o Paraíso e do outro a boca de um dragão representava o Inferno. Reproduzia-se, assim, o destino do ser humano segundo a visão cristã [...].

As encenações em praça pública eram feitas nos dias de festa, sobretudo no Natal e na Páscoa, e a mesma história era repetida várias vezes. Eram apresentadas cenas bíblicas misturadas a referências da vida cotidiana, para que os espectadores pudessem entender o simbolismo das ideias religiosas.

Mas, ao ser levado para as ruas, o teatro sofreu mudanças. Na praça, ao ar livre, foram aparecendo outros temas, além dos religiosos. Na Baixa Idade Média, representações que falavam do cotidiano, que faziam críticas às autoridades, que satirizavam os valores sociais foram se tornando cada vez mais populares, enquanto o clero perdia o controle sob a produção teatral. Os padres afastaram-se e as apresentações teatrais acabaram proibidas novamente.

PETTA, Nicolina Luiza de; OJEDA, Eduardo Aparício Baez. História: uma abordagem integrada. São Paulo: Moderna, 2001. p. 41-43.

NOTA: O texto "O universo mental e a cultura popular na Idade Média" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mundos imaginados: utopias e distopias

Procurando na história mundial os mundos imaginados, encontraremos as previsões de sociedades ideais tão antigas quanto as primeiras expressões do pensamento humano em tradições escritas e orais e nas artes. Os desenhos mitológicos das origens dos mundos natural e humano eram explicações, provenientes da experiência do mundo e da imaginação. Incorporadas nesses mitos estavam ideias de família e vida comunitária: como as pessoas deveriam viver juntas, compartilhar recursos e escolher líderes entre si. A religião inspirou a imaginação de mundos além do reino da experiência humana, e esses mundos incorporaram a completa realização do que significava ser humano, bem como as mais terríveis provações que um ser humano podia sofrer. Seja no budismo, no cristianismo ou no islamismo, a percepção de um paraíso e de um inferno encorajou as pessoas a acreditar e praticar suas crenças como indivíduos e como membros de uma comunidade.


A idade de ouro, Lucas Cranach

Visões religiosas também inspiraram movimentos milenares que projetaram esperança em uma nova era – a chegada do milênio que conduziria a um novo mundo – e exortava os seguidores a agir para chamar a nova era. Os movimentos milenares são encontrados ao redor do mundo em muitos contextos religiosos diferentes, incluindo budistas e cristãos, assim como em numerosas tradições sincréticas. Eles surgem das diferentes condições históricas e frequentemente tornam-se violentos, como resposta à opressão social, política e econômica. Houve movimentos milenares cristãos na Europa medieval e alguns movimentos budistas na China medieval. A grande Rebelião de Taiping, na metade do século XIX, na China – resultou na morte de, talvez, 20 milhões de pessoas – aglutinou-se sob a liderança de Hong Xiuquan (1811-1854), que teve uma visão de que ele seria o irmão mais novo de Jesus Cristo, enviado por seu pai para trazer o povo chinês de volta à sua crença original em Deus e para criar um “Reino Divino da Grande Paz (Taiping)”. Índios Arawakan, do noroeste da Amazônia, seguiram um xamã indígena e líder milenar, Venancio Kamiko, durante os anos de 1850, para resistir contra o controle colonial sobre seu mundo. No Congo, um movimento milenar originou-se com as reivindicações de uma jovem garota congolesa de que ela seria Santo Antônio, na primeira década do século XVIII. Beatriz Kimpa Vita anunciou que ela veio para ensinar a verdadeira religião: os padres eram impostores, Deus e seus anjos eram negros, e o reino dos céus era próximo da pátria congolesa, onde Cristo realmente havia vivido e morrido. Sugerir uma alternativa tão radical em meio ao confronto de culturas era algo perigoso, e o fundador do movimento foi executado. Contudo, o movimento sobreviveu e tornou-se a primeira Igreja sionista africana; o nome “Sião” refere-se à cidade bíblica que era um símbolo de esperança.

Juntos, visionários religiosos, filósofos, artistas, historiadores e escritores de todo o mundo produziram visões seculares de sociedades perfeitas. Em sua obra República, o filósofo grego Platão (427-347 a.C.) descreveu o Estado ideal como uma nação governada por um rei-filósofo. O mundo material dos fenômenos, acreditava Platão, é um mundo de sombras vagamente refletidas a partir do mundo real das ideias. É esse mundo das ideias que os reis-filósofos compreendiam e no qual estavam qualificados para governar. Além do mundo das coisas e das experiências, compreendido pelos sentidos, há outro, um mundo fundamental das formas e tipos eternos. Para tudo que experimentamos por meio dos sentidos há uma essência dessa realidade imutável, independente dos “acidentes” materiais que as cercam. Os “acidentes” da vida cotidiana são transcendidos por essências e formas eternas, as quais são objetivos de conhecimento. O rei-filósofo é, por educação, senão por desejo, capaz de guiar o Estado para sair desse caos e das ilusões do mundo externo dos fenômenos sentidos para a ordem e os modelos eternos.

O filósofo chinês Confúcio, no sexto século a.C., ensinou que a sociedade ideal existiu no passado, sob o governo dos reis sábios da antiguidade. A noção do Mandato Divino, que se desenvolveu como a sansão para governar na China imperial, significava que a responsabilidade do governante era de manter a ordem do Paraíso na sociedade humana; se e quando um governante falhasse, então o Mandato era declinado para um novo imperador. O essencial para a harmonia da sociedade, para Confúcio e seus seguidores, era a realização adequada do ritual e das práticas cerimoniais elaboradas em uma compilação de textos do final do primeiro século a.C. e do século I d.C. Nesse texto, o Livro dos Ritos, a sociedade sob os reis sábios da antiguidade é retratada como uma era de “Grande Harmonia”, na qual todos tinham suas próprias tarefas e seu lugar, todos eram cuidados de acordo com suas necessidades. Esse ideal foi ressuscitado, no final do século XIX, pelo reformador chinês Kang Youwei (1858-1927), que promoveu a sociedade ideal da Grande Harmonia como algo central ao pensamento confucionista. Ele argumentou que Confúcio teria dado apoio às reformas modernas de Kang, defendendo que eles teriam vivido na mesma época.

O termo “utopia”, usado para descrever uma sociedade ideal, foi cunhado, a partir do grego, por Sir Thomas Morus, ao escrever sobre um mundo imaginário em uma ilha, Utopia (1516), onde a propriedade privada não existia e a tolerância religiosa reinava. Como muitas utopias, essa foi inspirada pelas observações do escritor sobre seu mundo contemporâneo, mas também por relatórios do “Novo Mundo”. Escrito quase um século depois da Utopia de Morus, a peça de William Shakespeare, A tempestade (1611), ocorreu em uma ilha, referida como o “bravo novo mundo”, onde “não havia necessidade de trabalho, de ricos ou de pobreza”. Para os europeus, esse Novo Mundo era um espaço virgem, um paraíso preenchido pela promessa da possibilidade humana; para os povos indígenas do Novo Mundo, a presença europeia trouxe a morte e a destruição.


Mapa: ilha de Utopia

Fazendo par com o conceito de utopia está o de distopia, o mundo imaginado oposto, de total privação e miséria. Durante muito tempo sob o domínio de escritores de ficção científica, uma das mais conhecidas distopias é a de George Orwell, em sua obra 1984 (1949), na qual o personagem principal é gradualmente privado de sua humanidade individual para ser absorvido pelo “grande irmão (Big Brother)” do Estado totalitário do século XX. O romance distópico de Aldous Huxley, Admirável mundo novo (1932), retirou seu nome da frase utilizada por Shakespeare em A tempestade, e retratou um mundo onde todas as necessidades humanas são satisfeitas e não há guerra ou pobreza, mas também não há religião, filosofia, família ou diferença cultural para enriquecer a vida humana. Drogados em soma, as pessoas da obra de Huxley escapam de qualquer coisa desagradável, incluindo emoções e memórias dolorosas. Conforme o romance de Huxley Admirável mundo novo vai sendo esclarecido por meio da retração de um mundo utópico que, na verdade, é distópico, visões de sociedades ideais – libertação do desejo, da fome e do medo – nem sempre produzem resultados desejáveis. Os avanços tecnológicos que tornaram possíveis os mundos descritos por Orwell e Huxley foram um produto da Revolução Industrial, que gerou suas próprias visões paralelas de utopia e distopia.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 340-342.

NOTA: O texto "Mundos imaginados: utopias e distopias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.