"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador História das crianças e dos jovens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História das crianças e dos jovens. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Condições de vida do operário industrial

Engels via os trabalhadores amontoados como ratos em suas moradas apertadas, famílias inteiras - e às vezes mais de uma família - socadas num único cômodo, os sãos junto aos doentes, adultos junto às crianças, parentes próximos dormindo juntos, às vezes sem camas, por terem sido obrigados a vender todos os móveis para serem queimados como lenha, às vezes em porões úmidos de onde se tirava água aos baldes quando chovia, às vezes vivendo no mesmo cômodo que os porcos comendo farinha misturada com gesso e chocolate misturado com terra, intoxicados por carne impregnada de ptomaína, drogando a si próprios e a seus filhos doentios com láudano: vivendo sem esgotos, em meio a seus próprios excrementos e lixo, vitimados por epidemias de tifo e cólera, que por vezes chegavam até os bairros mais prósperos.

Mulheres e crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Inglaterra, 1830. Artista desconhecido.

A demanda crescente de mulheres e crianças nas fábricas fazia com que muitos chefes de família se tornassem desempregados crônicos, prejudicava o crescimento das meninas, facilitava o nascimento de filhos de mães solteiras e ao mesmo tempo obrigava as jovens mães a trabalharem grávidas ou antes de se recuperarem plenamente do parto, terminando por encaminhar muitas delas à prostituição. As crianças, que começavam a trabalhar nas fábricas aos 5 ou 6 anos de idade, recebiam pouca atenção das mães, que também passavam o dia inteiro na fábrica, e nenhuma instrução de uma sociedade que só queria delas que executassem operações mecânicas. Quando as deixavam sair das verdadeiras prisões que eram as fábricas, as crianças caíam exaustas, cansadas demais para lavar-se ou comer, quanto mais estudar ou brincar - às vezes cansadas demais até para ir para casa. Também nas minas de ferro e carvão, mulheres e crianças, juntamente com os homens, passavam a maior parte de suas vidas rastejando em túneis estreitos debaixo da terra, e, fora deles, viam-se presas nos alojamentos da companhia, à mercê da loja da companhia, sofrendo atrasos no pagamento do salário de até duas semanas. Cerca de mil e quatrocentos mineiros morriam por ano quando se partiam cordas apodrecidas, quando desabavam túneis devido à escavação excessiva dos veios, quando ocorriam explosões devido à ventilação deficiente ou à negligência de uma criança exausta: e os que escapavam de acidentes catastróficos morriam de doenças dos pulmões. Por sua vez, os habitantes do interior, que com a industrialização perderam sua antiga condição de artesãos, pequenos proprietários e arrendatários de quem, mal ou bem, os grandes proprietários cuidavam - esses haviam sido transformados em diaristas sem eira nem beira, por quem ninguém era responsável, e que eram castigados com a prisão ou a deportação se, em épocas de necessidade, roubavam e comiam a caça das terras dos grandes proprietários.

Crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Artista desconhecido

Para Engels, parecia que o servo medieval, que ao menos estava fixo à terra e ocupava uma posição definida na sociedade, estivera em melhor situação que o operário industrial. Naquela época em que as leis de proteção aos trabalhadores praticamente ainda não existiam, os antigos camponeses e trabalhadores braçais da Inglaterra, e até mesmo a antiga pequena burguesia, estavam sendo levados para as minas e as fábricas, tratados como matéria-prima para os produtos a serem fabricados, sem que ninguém se importasse nem mesmo com o problema do que fazer com o refugo humano gerado pelo processo. Nos anos de depressão, o superávit de mão-de-obra, que era tão útil nos anos em que a economia ia bem, era despejado nas cidades: estas pessoas tornavam-se mascates, varredores, lixeiros ou simplesmente mendigos - viam-se às vezes famílias inteiras mendigando nas ruas - e, o que era quase igualmente comum, prostitutas e ladrões. Thomas Malthus - dizia Engels - afirmara que o aumento de população estava sempre pressionado os meios de subsistência, de modo que era necessário que grande número de pessoas fossem exterminadas pela miséria e pelo vício; e a nova legislação referente aos pobres havia posto em prática essa doutrina, transformando os asilos de indigentes em prisões tão desumanas que os pobres preferiam morrer de fome pelas ruas.

WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 132-133.

sábado, 7 de maio de 2016

Rebeldes jovens

Batalha Soufflot.  
Barricadas na Rua Soufflot em 24 de junho de 1848. 
Horace Vernet

Além dos grandes fatores intelectuais e socioeconômicos que se combinam para produzir um levante revolucionário, forças mais intangíveis geralmente também participam. Por exemplo, a juventude da maioria dos revolucionários é notável. Assumir riscos, seja como manifestante nas ruas, seja como dissidente desafiando um sistema, apesar das altas possibilidades de prisão, tortura, ou mesmo morte, raramente é uma atitude tomada pelos mais velhos, aos quais a vida ensinou a cautela nascida de anos de desapontamento.

Mas se as revoluções raramente são feitas pelos mais velhos, muitos revolucionários que tiveram êxito na tomada do poder envelheceram eles próprios no poder. Às vezes as revoluções são a consequência de um bloqueio de geração causado por gerontocratas que sobem ao poder e frustam ambições normais. A Europa Central em 1848 e de novo em 1989 vivenciou revoluções que tiveram aspectos de um rompimento dramático de uma barreira causada por uma geração agarrando-se ao poder por tempo demasiado.

Tais revoluções geracionais não se referem somente a ambições frustradas, do contrário as multidões nunca se reuniriam. Os mais velhos, que bloqueiam a reforma e os reformadores do poder dentro de um sistema, alimentam fora dele as causas mais profundas de revolução. O apego obstinado ao poder simboliza o bloqueio do regime ao progresso e à esperança.

ALMOND, Mark. O livro de ouro das revoluções: movimentos políticos que mudaram o mundo. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016. p. 14.

sábado, 28 de novembro de 2015

O diário de Anne Frank

Desenho feito por um jovem judeu num campo de concentração. “Tocar a cerca significava morte imediata, ainda assim, as pessoas compartilhavam pão, um sorriso… uma lágrima”, Alfred Kantor, 17 anos.

"Sexta-feira, 9 de outubro de 1942.


Hoje só tenho notícias tristes e deprimentes para lhe contar. Nossos amigos judeus estão sendo levados embora às dúzias. Essa gente está sendo tratada pela Gestapo sem um mínimo de decência. São amontoados em vagões de gado e enviados para Westerbork, o grande campo de concentração para judeus, em Drente. Westerbork parece ser terrível: um único lavatório para centenas de pessoas e muito poucas privadas. Não há acomodações separadas para homens e mulheres e todos têm de dormir juntos. [...]

Fugir é impossível; os internados ficam marcados pela sua cabeça raspada ou pela sua aparência judia.

Se é tão ruim na Holanda, imagine o que não será nas regiões bárbaras e distantes para onde são enviados. Sabemos que a maioria é assassinada. A rádio inglesa fala de morte na câmara de gás.

[...] Boa gente, os alemães! E pensar que eu já fui alemã! Não, Hitler tirou a nossa nacionalidade há muito tempo. Na verdade, alemães e judeus são os maiores inimigos do mundo.

Judeu na janela, Felix Nussbaum

 Quarta-feira, 3 de maio de 1944.

[...] Você bem pode imaginar que não são poucas as vezes que nos perguntamos, desesperados: 'De que adianta esta guerra? Por que não se pode viver em comum e em paz? Para que esta destruição?'

A pergunta é compreensível, mas ainda não encontramos resposta que satisfaça. Sim, para que fabricar aviões cada vez mais gigantescos, bombas ainda mais poderosas e, ao mesmo tempo, casas pré-fabricadas, para reconstrução? Por que gastar milhões diariamente, na guerra, enquanto ninguém dispõe de um centavo para serviços médicos, para auxiliar artistas e gente pobre?

[...] Não acredito que somente os grandes, os políticos e os capitalistas sejam responsáveis pela guerra. Oh, não! O homem comum é tão culpado quanto eles, senão os povos do mundo já se teriam insurgido, revoltados.

Jovem judeu na rua, Felix Nussbaum

 Sábado, 15 de julho de 1944.

[...] É muito mais duro para nós, jovens, manter a firmeza e as opiniões em tempos como estes, em que os ideais são destruídos e despedaçados, as pessoas, põem à mostra seu lado pior e ninguém sabe mais se deve crer na verdade, no direito e em Deus. [...] Esta é a maior dificuldade destes tempos: surgem dentro de nós ideais, sonhos e esperanças, só para encontrarem a horrível verdade e serem despedaçados.

Realmente, é de admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideais, tão absurdos e impossíveis eles são de se realizar. Conservo-os, no entanto, porque apesar de tudo ainda acredito que as pessoas, no fundo, são realmente boas. Simplesmente não posso construir minhas esperanças sobre alicerces formados na confusão, miséria e morte. Vejo o mundo transformar-se gradualmente em uma selva. Sinto que estamos cada vez mais próximos da destruição. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus sei que tudo acabará bem, toda esta crueldade desaparecerá, voltando a paz e a tranquilidade.

Enquanto isso, é necessário que mantenha firme meus ideais, pois talvez chegue o dia em que os possa realizar.

Sua Anne."

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Rio de Janeiro: Record, s.d. p. 43-4, 187, 217-8.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A atuação dos jovens e das mulheres nos movimentos revolucionários do século XVIII

A prisão da Bastilha, Henry Singleton

"Foi lá [em Spa] que tive notícias, pela primeira vez, dos acontecimentos que anunciavam o aproximar-se de uma grande Revolução na América [...] O troar do primeiro canhão, disparado nesse novo hemisfério em defesa da bandeira da liberdade, repercutiu em toda a Europa com a rapidez de um raio. Recordo-me que os americanos insurgidos eram chamados bostonianos; sua corajosa audácia eletrizou todos os espíritos, provocou admiração geral, sobretudo entre os jovens, partidários das inovações e ávidos por lutas [...]. Esse movimento, embora parecendo pouco consistente, era notável prenúncio das grandes convulsões que, dentro em breve, abalaram o mundo inteiro, e eu estava longe de ser o único cujo coração palpitava ao rumor do despertar da liberdade, procurando derrubar o jugo do poder arbitrário". (Testemunho do Conde de Ségur sobre a Guerra de Independência americana)

A juventude participou com afinco da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas. Os jovens (das cidades, principalmente) representavam a geração renovadora e liberal, desejosa de destruir tudo o que significasse o Antigo Regime. Foram eles que pegaram em armas para lutar contra os exércitos estrangeiros que ameaçavam invadir a França em 1789.

Os jacobinos perceberam a força política da juventude e procuraram utilizá-la na Revolução. Durante a ditadura jacobina (1793-1794), milhares de rapazes de toda a França, entre 16 e 17 anos, foram enviados a Paris, onde, durante algumas semanas, receberam treinamento militar e lições de patriotismo para se tornarem republicanos autênticos. Os que não atenderam ao chamado dos jacobinos sofreram perseguições e humilhações, como a de serem chamados de hermafroditas. Após a queda de Robespierre, grupos de rapazes favoráveis aos girondinos foram à desforra e espancaram os jacobinos.

A convocação de jovens foi ainda maior nas guerras napoleônicas. Só na França. quase 4 milhões foram chamados às armas. O exemplo estendeu-se ao continente. A partir do início do século XIX, com o argumento de amor à pátria, o recrutamento obrigatório passou a ser adotado em todos os países europeus (exceto na Inglaterra). Difundiu-se a ideia de que todos os cidadãos aptos tinham o direito e o dever de defender a pátria. Nascia uma nova e poderosa arma: o nacionalismo.


Carnot na Batalha de Wattignies, Georges Moreau de Tours

Servir o exército também significava prova de virilidade e porta de entrada no mundo adulto. Vestir o uniforme militar era atingir a maturidade, deixar de ser criança, mostrar coragem e potência sexual. Após o serviço militar, os rapazes estavam prontos para o casamento.

Nem todos, porém queriam servir o exército e usavam de vários meios para fugir dele. Alguns casavam com mulheres velhas, para logo depois abandoná-las em troca de alguma ajuda material. Outros fingiam-se doentes, feridos ou inventavam deficiências físicas, como surdez e dificuldade de visão. Havia ainda os que simplesmente fugiam.

A Revolução Francesa contou também com a atuação das mulheres no papel de agitadoras, ou de "bota-fogo", como se dizia na época. Muitas vezes, foram elas as iniciadoras das manifestações populares. Tocavam os sinos chamando a população, rufavam os tambores nas ruas da cidade, zombava, das autoridades e dos soldados, arrastavam os transeuntes, entravam nas lojas, oficinas e casas forçando os indecisos, incitavam os homens à ação, chamando-os de covardes. Um deputado jacobino chegou a afirmar, em 1793: "As mulheres iniciarão o movimento, [...] os homens virão em apoio às mulheres".


Clube Patriótico das Mulheres, Jean-Baptiste Lesueur e Pierre-Etienne Lesueur

Mas a Declaração de Direitos de 1789 não levou em consideração a luta feminina. Em seu título e artigos, aparece o termo "homens", que na época não se referia à humanidade em geral, mas ao ser humano do sexo masculino. As mulheres foram deixadas de lado. Isso não passou despercebido. Em setembro de 1791, a escritora francesa Olympe de Gouges redigiu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã exigindo o direito das mulheres à participação política. Pregava a libertação feminina contra a tirania dos homens. Afirmava que a exploração da mulher pelo homem é a origem de todas as formas de desigualdade.

Olympe de Gouges acabou guilhotinada em 1793, e suas ideias foram rejeitadas pelo governo revolucionário. As mulheres estavam excluídas das decisões das assembleias, das milícias armadas e das comissões locais. Mesmo assim, não ficaram caladas nem ausentes dos acontecimentos políticos. Como cidadãs sem cidadania assistiam às discussões nas tribunas abertas ao público. E como espectadoras continuaram participando: seus gritos, aplausos ou vaias influenciavam os deputados reunidos. Dessa forma controlavam também a atuação política deles.

Na independência dos Estados Unidos, as mulheres americanas atuaram diferentemente das francesas. Elas não foram às ruas e nem assistiram às assembleias políticas. Como mães e donas-de-casa, participaram dos acontecimentos declarando boicote geral aos ingleses. Pararam de comprar os produtos oferecidos pelos comerciantes da Metrópole, desconsiderando até suas ofertas tentadoras de vestidos e chapéus. Deixaram de usar e consumir até os produtos ingleses que tinham estocado em casa e convenceram seus filhos e maridos a fazerem o mesmo. Ofereceram-se como cozinheiras ou lavadeiras para as tropas americanas. Organizaram-se para recolher fundos em favor da causa da independência.

A brutalidade da guerra de independência afetou profundamente as famílias americanas. As mulheres se viram sozinhas para garantir a sobrevivência dos filhos. Tomaram consciência de sua força, de seu valor e capacidade individual. No após-guerra, criaram associações, frequentemente ligadas às Igrejas, destinadas a socorrer as viúvas e os órfãos. Esses grupos consolidaram uma nova forma de atuação social: o trabalho coletivo em benefício da comunidade.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 98-100.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cortiços e favelas no fim do século XIX: o abrigo dos pobres

Morro de Santo Antônio, ca. 1816, Nicolas-Antoine Taunay; [Acredita-se que nesse morro tenha surgido, por volta de 1897 a primeira favela brasileira]

As casas de tijolo e alvenaria são escassas, insuficientes para abrigar boa parte da população, obrigada a habitar as favelas ou os cortiços. Dos dois o pior é a favela: um conjunto de barracos toscos construídos pelos moradores nos morros ou em terrenos abandonados e íngremes. Não há esgoto, nem água [que o mais das vezes só se encontra muito distante].


Mulata quitandeira, Antonio Ferrigno

Seus habitantes masculinos são malandros [boêmios, ladrões, valentes] ou aqueles que a idade avançada ou as doenças [como a tuberculose] incapacitaram para o trabalho. As mulheres lavam e costuram "para fora", e as crianças vendem pela cidade doces, balas e jornais. Predominam os negros, que já se reuniam em favelas antes da abolição, pois o Governo Imperial havia alforriado multidões de escravos para enviá-los à Guerra do Paraguai (1864-1870). Os que retornaram, muitos mutilados, alojaram-se nessas habitações.

Um pouco melhor é a situação dos cortiços, galpões de madeira subdivididos internamente e alugados por seu proprietário, geralmente um português dono de armazém próximo ou até um membro da aristocracia. Ainda no final do século XIX, o conde D'Eu, marido da princesa Isabel, por exemplo, era dono de um imenso cortiço, conhecido como "Cabeça de Porco", onde moravam mais de 4 mil pessoas. Os homens do cortiço quase sempre trabalham fora [serventes, carregadores, funcionários públicos humildes], salvo os adolescentes malandros e os doentes. E, durante o dia, o cortiço é das crianças, inúmeras, que povoam o pátio comum, e das mulheres, sempre às voltas com as tinas de roupa.

Nosso Século. São Paulo: Abril Cultural, 1980. Vol. 1: 1900-1910. p. 24.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: a roda dos emjeitados

Recado difícil, Almeida Júnior

Expostos e enjeitados eram termos que se referiam às crianças abandonadas. Era um problema que afligia principalmente as mulheres, levadas pelas circunstâncias a abandonarem filhos recém-nascidos, tanto legítimos como ilegítimos.

Embora [...] a miséria não fosse o único motivo do abandono de crianças, o fenômeno atingia principalmente as camadas sociais populares.

Ao longo do século XVIII, houve um significativo aumento da população urbana no Brasil. Isso agravou o problema do abandono de crianças.

No campo, o abandono quase não acontecia. Se uma família ou mãe solteira, por qualquer razão, não se dispusesse a criar o filho, ele era acolhido por outra família. Por isso eram comuns os chamados "filhos de criação", que podiam ou não ser colocados em pé de igualdade com os filhos legítimos.

Os trabalhadores do campo pobres e que não possuíam escravos dependiam da mão-de-obra dos filhos. As crianças ajudavam os pais nas tarefas diárias: preparação de alimentos, trabalho na roça, transporte de água, alimentação e demais cuidados com os animais domésticos, lavagem de roupa, costura etc. Para os pequenos proprietários rurais, abandonar um recém-nascido era se privar, a curto prazo, de uma ajuda no trabalho.

Assim, o problema do abandono de crianças era urbano, manifestando-se principalmente nas cidades portuárias.

Nas cidades o trabalho infantil tinha pouco valor. O trabalho artesanal urbano exigia especialização profissional, e as atividades portuárias, força física.

[...] no meio rural dos pobres, que viviam de uma economia de subsistência, baseada na pequena lavoura, não havia a situação de miséria absoluta que levava ao abandono dos filhos, como ocorria nas cidades.

Tanto no século XVIII, com o Brasil ainda na condição de colônia, como na época imperial, depois da independência política, a cidade era um espaço de grandes desequilíbrios sociais. A falta de um mercado de trabalho para os pobres livres, agravada ainda pela depreciação do trabalho manual em uma sociedade escravista, tornava precária a vida das pessoas pertencentes às camadas populares. A cidade atraía os pobres do campo, mas não oferecia a eles condições estáveis de existência.

Por essa razão, a partir do século XVIII, o abandono de crianças se tornou endêmico. Elas eram deixadas nas calçadas, praias, terrenos baldios, portas de igrejas e residências.

O crescente abandono e a mortandade de crianças abalava a consciência católica. Causava indignação o número de inocentes que morriam sem ser batizados. Segundo a tradição religiosa, sem batismo eles não iam para o reino dos céus. Nessa tradição, a morte era uma fatalidade que se devia aceitar com resignação, mas não sem o sacramento do batismo.

As elites religiosas e civis se mobilizaram para resolver o problema. A criação da Casa dos Expostos, ou Casa da Roda, foi uma das soluções encontradas. Essa instituição surgiu no século XVIII.


Abandono de criança na roda dos expostos.
Ilustração do século XIX

Uma Carta Régia de 1693 determinava que as crianças abandonadas fossem criadas às custas dos cofres públicos. Mas essa determinação permaneceu letra morta até 1738, quando se fundou - não com dinheiro público, mas particular - um estabelecimento no Rio de Janeiro, ligado à Santa Casa de Misericórdia. O modelo acabou sendo copiado em outras cidades brasileiras.

A Casa dos Expostos era dotada de um equipamento composto por uma roda colocada na parede na posição horizontal. Metade da roda ficava do lado de fora do prédio e a outra metade do lado de dentro. Desse modo, era possível colocar a criança do lado de fora e, girando a roda, passá-la para o lado de dentro. Esse sistema permitia manter o anonimato, escondendo a identidade da pessoa que abandonava o recém-nascido. A roda dos enjeitados, ou roda dos expostos, funcionava dia e noite.

A Casa dos Expostos caracterizava bem o tipo de cuidado que as elites tinham com as populações pobres. Era um cuidado orientado pelo espírito da caridade e da solidariedade cristãs.

Era esse espírito, e também muito provavelmente o remorso cristão, que levava as pessoas a fazerem doações, muitas através de testamentos. Isso permitia que as Casas dos Enjeitados funcionassem, visto que o dinheiro destinado pelo Estado para essa finalidade era pouco e irregular.

A existência dessas casas de recolhimento de crianças tranquilizava as consciências cristãs, mas não garantia a sobrevivência delas. A mortandade das crianças nessas casas era altíssima.

Outra solução tentada para resolver o problema da criança abandonada foi o incentivo do Estado às famílias criadeiras. A família recebia uma ajuda do Estado para criar a criança abandonada. O valor pago sempre foi muito baixo, mal dando para a compra de um pouco de farinha de mandioca e de carne-seca.

Puxão de orelha, Almeida Júnior

Além de receber a ajuda do Estado, a família que tomava a seu encargo a criação de uma criança abandonada dava provas de caridade cristã. A mortandade dessas crianças entregues às famílias criadoras também era muito alta.

As Casas dos Enjeitados não eram uma solução apenas para as camadas populares que tinham dificuldades em criar os filhos. Elas serviam também para encobrir desvios morais e preservar as famílias das elites. Era um lugar para filhos ilegítimos. Livrando-se do filho indesejado, a mulher, solteira ou casada, se livrava também da condenação moral aos amores proibidos.

Consciente ou inconscientemente, as autoridades reconheciam que a roda dos enjeitados contribuía para a conservação da moralidade das elites. Tanto que essas autoridades não se preocupavam em esclarecer a origem da criança. Portanto, a roda também tinha por finalidade evitar situações embaraçosas para as "boas famílias". Salvavam-se a criança e a moral dessas famílias.

Em relação às camadas pobres e miseráveis da população, a roda significava a solução de um problema público. No que se refere à elite, era a solução para problemas privados.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 253-6.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Os limites do totalitarismo: resistência na Alemanha nazista

A literatura produziu dois clássicos de ficção política na primeira metade do século XX: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (1932), e 1984, de George Orwell (1949), ambos com várias edições em diversas línguas. O primeiro mostra um mundo onde a vida das pessoas é controlada por meio da ciência e da técnica. No segundo, a dominação política total é obtida pela repressão e pelo controle de toda e qualquer comunicação.

Mas, mesmo nessas histórias de ficção, existe uma falha do poder. Alguém, mesmo só por um momento, escapa do controle absoluto.

No caso do regime nazista, que não pertence ao mundo da ficção mas ao da realidade histórica, o controle da comunicação e do pensamento também não foi total e absoluto. Existem muitas evidências da capacidade de resistência a esse poder avassalador do Estado nazista. [...]

A juventude de classe média alta alemã tomou gosto pelo swing, música popular de raízes negras dos Estados Unidos. Essa juventude achava muito entediante a música volkish, ou seja, do povo, da raça alemã. Os nazistas defendiam esse tipo de música, ao mesmo tempo que condenavam as músicas estrangeiras, particularmente o swing e o jazz, ambos de origem negra e considerados imorais e destruidores da tradição alemã.

O Café Sing Sing, em Berlim, fotografado em 1934. Os garçons e a banda de jazz vestiam-se como prisioneiros, e mesmo o cenário lembrava a prisão de Sing Sing, nos Estados Unidos. Mesmo em meio à rígida disciplina nazista, as pessoas abriam espaços de crítica e resistência. 
[1934, Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Stock Photos]

Essa juventude desafiava as autoridades, promovendo reuniões para ouvir jazz e dançar swing e também organizando shows com grupos musicais alemães que imitavam as orquestras dos Estados Unidos.

Tais manifestações de inconformismo com a cultura oficial eram duramente reprimidas. Mesmo assim continuaram acontecendo clandestinamente. Um relatório da Juventude Hitlerista fala de um desses "festivais", ocorrido em fevereiro de 1940 em Hamburgo, com a presença de quinhentos a seiscentos jovens.

Outro exemplo de resistência foram as pichações. Os muros e paredes eram pichados com dizeres contra o nazismo e seus líderes. Isso era feito nas horas em que as cidades eram bombardeadas pelos aliados.

A queda na tiragem dos jornais logo depois que os nazistas submeteram todas as publicações de jornais e livros à censura do Estado também pode ser interpretada como uma reação à doutrinação nazista: muitos deixaram de ler jornais.

Outra forma de driblar a censura era escrevendo romances que se passavam em outras épocas, criando histórias e personagens medievais com características dos líderes nazistas, criticando-os indiretamente.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 36-7.

domingo, 31 de maio de 2015

A vida cotidiana dos astecas: O ciclo da vida

Uma mãe asteca ensina sua filha de 13 anos a fazer tortillas. Artistas desconhecidos, Codez Mendoza

O destino de cada um era considerado como rigorosamente predeterminado na data de seu nascimento, esta mesma decidida pelas duas divindades supremas: Ometecuhtli e Omeciuatl, "o senhor e a senhora da dualidade". Assim, um homem nascido sob o signo 2-tochtli se entregaria à embriaguez; uma mulher nascida em 7-xochtli seria pródiga em seus favores; o signo 4-itzcuintli prometia honrarias e prosperidade.

Era possível, contudo, corrigir uma predestinação nefasta, escolhendo um dia mais favorável para dar nome a um recém-nascido. Em princípio, não seria necessário esperar mais do que quatro dias após o nascimento de uma criança para batizá-la. O sacerdote-adivinho consultava os livros e fixava a data. Se, por exemplo, a criança tivesse nascido sob um signo designado pelo número 9 (nefasto), o nome lhe seria dado três ou quatro dias mais tarde, visto serem benéficos os números 12 e 13. A parteira que houvesse feito o parto procedia à lavagem ritual do bebê, pondo-lhe água sobre os lábios, cabeça e peito e, finalmente, sobre todo o corpo. Invocava a deusa da água e depois apresentava a criança ao Sol e à Terra. Essa cerimônia tinha lugar em presença de parentes e amigos da família. Quando se tratava de um menino, preparavam-se um escudo, um arco e quatro flechas, que eram presenteados aos deuses para invocar sua proteção ao futuro guerreiro. Para uma filha, preparavam-se fusos, uma lançadeira, um cofre, e se dirigiam preces à personificação da primeira infância, Yoalticitl, "a curandeira noturna". A festa terminava com um banquete, ao fim do qual velhos e velhas bebiam inúmeras taças de octli.

Durante os primeiros anos, a educação da criança estava a cargo da família. O menino aprendia a trazer água e lenha, ajudava nos trabalhos agrícolas ou no comércio, pescava e remava sob a direção do pai. A menina varria, iniciava-se na cozinha, fiação e tecelagem. Assim que a criança atingia a idade de seis a nove anos, porém, seus pais a confiavam a um dos dois sistemas de educação pública então existentes no México: o colégio do bairro, onde os "mestres de rapazes" e "mestras de moças" preparavam seus alunos para a vida prática; ou então o calmecac, colégio-monastério, onde a educação era ministrada pelos sacerdotes. Em princípio. somente os filhos de dignitários (pilli) tinham acesso ao calmeca. Os filhos de negociantes, porém, também podiam ser admitidos, bem como crianças das camadas populares, caso se destinassem ao sacerdócio.

Não se pode deixar de observar as profundas diferenças [...] que separavam esses dois sistemas educacionais. [...] os colégios de bairro visavam antes de tudo formar cidadãos dedicados ao cumprimento de seus deveres, principalmente de seus deveres militares. Os mestres eram escolhidos entre guerreiros reconhecidos. Os rapazes aprendiam o ofício das armas, participavam de trabalhos de interesse público e o cultivo das terras coletivas, sendo durante o dia submetidos a uma severa disciplina. À noite, porém, iam cantar e dançar, e os mais velhos mantinham ligações com as auianime. Ao contrário, os jovens admitidos no calmecac, sob a direção dos sacerdotes e a proteção de Quetzalcoatl, antigo rival de Tezcatlipoca, levavam uma vida austera, feita de trabalhos manuais e intelectuais, de jejuns e penitências. Ensinavam-lhe "boas maneiras", os rituais e a leitura de manuscritos hieroglíficos. Deviam aprender de cor os poemas mitológicos e históricos e iniciar-se nas funções para as quais estavam destinados: o sacerdócio ou altos cargos do Estado.

As "boas maneiras" revestiam-se de importância primordial perante a classe dirigente. Eram objeto de toda uma literatura didática, os ueuetlatolli ("preceitos dos antigos"). Neles se evidencia o ideal de autodomínio, de resistência às paixões, de moderação e de abnegação. A conduta a ser mantida em presença dos superiores ou dos inferiores à mesa, na rua, enfim, as atitudes a serem observadas em todas as circunstâncias da vida estão aí minuciosamente determinadas. Também os alunos dos colégios de bairro eram considerados vulgares e grosseiros porque "falavam com soberba e audácia".

O antagonismo entre esses colégios e os calmecac manifestava-se abertamente durante o sexto mês do ano, Atemoztli. Os alunos de bairros e monastérios entregavam-se então a combates sem complacência, invadiam os lugares uns dos outros, carregavam e destruíam móveis e utensílios e se infligiam trotes recíprocos.

Ao chegar à idade adulta, ou seja, 21 anos, o rapaz deixava o colégio ou o monastério, a menos que decidisse dedicar-se ao celibato e aos deuses. Da mesma forma, as moças podiam consagrar-se ao sacerdócio. A maioria dos jovens se casava. As famílias arranjavam as uniões por intermédio das "casamenteiras", mulheres idosas que conduziam as negociações. Quando se concluía o acordo, começavam os preparativos. Convidavam-se os parentes e amigos, e acumulavam-se as provisões. O sacerdote-adivinho indicava um dia favorável. A cerimônia do casamento tinha lugar na casa do noivo. A jovem, vestida e paramentada, se apresentava à noite na casa de seu futuro marido, acompanhada de um cortejo alegre conduzindo chamas. Sentados juntos diante do fogo, os jovens recebiam os presentes; em seguida, as "casamenteiras" enlaçavam o traje da noiva e o manto do jovem, após o que eles compartilhavam um prato de tamalli. Os dois jovens estavam casados a partir desse momento. Deviam, porém, permanecer orando durante quatro dias, não se consumando o casamento senão ao fim desse período. Daí a instituição da festa do quinto dia, que tendia a igualar ou superar em importância e luxo a cerimônia de casamento descrita acima, particularmente entre nobres e comerciantes. Essas festividades incluíam, segundo os recursos das famílias, repastos faustosos, acarretando grandes despesas. Também se viam jovens coabitarem, adiando a cerimônia oficial. Esses ritos celebravam o casamento de um homem com sua esposa principal. Mas a poligamia era frequente, sobretudo nas classes abastadas [...].

Quando uma mulher percebia estar grávida, todas as pessoas da casa, e frequentemente todo o bairro, manifestavam sua alegria por meio de repastos cerimoniais e "seções" de discursos pomposos e imaginosos. Uma parteira tomava firmemente aos seus cuidados a futura mãe, velava por sua higiene e também pelo respeito a certos "tabus" - por exemplo: não olhar para o céu durante um eclipse nem olhar para objetos vermelhos - e preparava tudo em relação ao parto. A mulher grávida era colocada sob a proteção das divindades femininas, da "Mãe dos Deuses", da "avó do banho a vapor" [...].

Os casamentos eram geralmente duráveis, embora homens e mulheres pudessem divorciar-se. Os tribunais proferiam decisões quanto à guarda das crianças e à partilha dos bens do casal. A mulher divorciada casava-se livremente. [...]

Ao chegar a certa idade, velhos e velhas tomavam seu lugar no grupo dos "anciãos", cujas advertências eram ouvidas com atenção; consagravam-se às devoções, frequentavam os banquetes e bebiam livremente o octli, sem temer sanções. [...]

A maioria dos mortos era incinerada. Envolvia-se o corpo, sentado, de joelhos flexionados em direção ao queixo, com muitas camadas de tecido, de maneira a formar uma "múmia" ou fardo funerário. As mulheres mortas no parto, entretanto, eram enterradas, assim como os que morriam afogados, atingidos por um raio ou em consequência de uma doença como a gota ou a hidropsia, afecções que se atribuíam a Tlaloc, deus da água e da chuva.

O destino de cada um no outro mundo dependia, acreditava-se, de sua morte. Os guerreiros mortos em combate ou sobre a pedra dos sacrifícios iam para o céu oriental, fazer companhia ao Sol desde a aurora até o zênite; ao fim de quatro anos retornavam à Terra sob a forma de colibris. Os que Tlaloc havia chamado conheciam eternamente a tranquila felicidade do paraíso chamado Tlalocan, maravilhoso jardim tropical. A maioria dos defuntos, porém, ficava "debaixo da terra divina", na obscura morada de Mictlan. Durante quatro anos, sofriam as provações de uma tenebrosa viagem ao mundo subterrâneo; depois, atravessando os Nove Rios, entravam na Nona Morada dos Mortos, e lá, totalmente aniquilados, desapareciam de modo definitivo. [...]

Para ajudar o morto durante a sua peregrinação, queimavam-se alimentos junto com ele; matava-se e incinerava-se um cão, pois não havia Xolotl, o deus com a cabeça de cão, irmão gêmeo de Quetzalcoatl, triunfado em um passado fabuloso das armadilhas de um mundo infernal? A família ainda queimava oferendas 80 dias (quatro meses) após os funerais, e depois, ao fim de um ano, dois, três e quatro anos. [...] Quando um personagem importante morria afogado [...] era enterrado em uma câmara sepulcral, sentado sobre um icpalli, cercado de suas armas e coberto de joias. Os homens - mesmo os mais humildes - que se afogavam no lago, eram tidos como tendo perecido entre as garras do monstro aquático Auitzotl. Seus cadáveres eram cercados de intensa veneração e enterrados solenemente em um santuário dos deuses da água.

SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. p. 57-62. (As civilizações pré-colombianas)

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Europa depois de Roma

Guerreiros germânicos, Philipp Clüver

Na Europa, os séculos anteriores e posteriores à queda do império ocidental formaram um período tumultuado, à medida que onda após onda de invasores, eles próprios empurrados por outros ciclos de povos entrando na Europa pela Ásia, abria caminho através do continente procurando uma residência permanente.

Uma consequência da fragmentação do império ocidental, e do povoamento das regiões setentrionais pelos recém-chegados, foi o surgimento de novos idiomas. [...] o latim falado nos anos de decadência do império era reconhecivelmente a mesma língua. À medida que o império cedia terreno para uma variedade de chefetes independentes, a língua se libertava. [...] Ao longo dos oito ou nove séculos seguintes, eles se transformaram nas línguas românicas, como o italiano, o espanhol, o português, o francês e o romeno. [...] Mais ao norte, contudo, onde os invasores se viram em territórios esparsamente povoados, não houve pressão para adotar os hábitos de fala da população local e seus descendentes, separados por rios, mares e montanhas, gradualmente desenvolveram dialetos que mais tarde se tornariam o holandês, o alemão e o sueco.

Nas terras baixas da Bretanha, onde uma cultura romana floresceu por séculos, seria de se esperar que os recém-chegados adotassem p latim [...]. Mas isso não aconteceu. Eles mantiveram sua língua germânica, que acabaria se tornando o que conhecemos com inglês. [...].

Ambos os grupos linguísticos - o germânico e o latim - eram membros da família indo-europeia, que se originava de algum lugar nas regiões da estepe onde a Europa se encontra com a Ásia. A leste das terras ocupadas por povos falantes de germânico, os eslavos praticavam um terceiro grupo de dialetos indo-europeus, os predecessores do tcheco, servo-croata e russo. [...]

Uma sucessão de epidemias, que provavelmente incluía varíola, sarampo, gripe e peste, atacou as terras densamente povoadas em torno do Mediterrâneo do século II ao VII. Elas sem dúvida desempenharam um proeminente papel no enfraquecimento do império ocidental. Durante esses séculos, ondas de povoamento desembocaram nas regiões esparsamente povoadas ao norte. Como em toda parte, povoamento significava agricultura. [...] Esses povos contavam com o conhecimento acumulado das populações existentes no norte e dos povos civilizados do sul, e suas novas terras tinham solo fértil e chuva abundante. O clima frio favorecia trigo, cevada, aveia e centeio. Além disso, a chuva constante significava pasto vistoso, que significava vacas felizes. [...] À medida que derrubavam florestas e preparavam novas terras para cultivar, a produção de alimento cresceu e sua população aumentou ainda mais. [...]

[...]

A nova tecnologia mais importante foi o pesado arado de duas rodas, com uma lâmina de ferro que cortava a camada superior de grama e solo, uma relha de ferro e uma aiveca que abria a leira. Com ela era possível trabalhar o terreno mais duro. E, o mais importante, enterrava e matava as ervas daninhas. Ao criar leiras, formava canais para que a água da superfície fosse drenada. [...]

Mas as consequências da introdução do arado pesado foram muito além. Em solos pesados, ele requeria mais de oito bois, comparado com a simples parelha que até então fora suficiente. [...] esse novo arranjo significava que tarefas como semear, gradar e colher também necessitavam de uma organização cooperativa, o que só podia ser feito sob os auspícios de um conselho aldeão. [...] Ele introduziu entre as pessoas a ideia de que os costumes e as instituições não eram imutáveis; acostumou-se ao pensamento, e à prática, do autogoverno, e forneceu uma drástica ilustração da mudança tecnológica. [...]

O número de inovações importantes ocorridas na chamada Idade das Trevas europeia é grande [...]:

1. A implementação da rotação de culturas com três áreas em lugar da rotação precedente, com duas. [...]
2. A introdução do arreio em colar inventado na China, que tornou possível pela primeira vez aos cavalos da Europa puxar cargas pesadas. [...]
3. A introdução da ferradura e do balancim [...] que respectivamente protegia a pata do animal e possibilitava puxar grandes carros.

Mas não foi apenas na agricultura que esses séculos mostraram entusiasmo pela inovação. Em 1044, encontramos o primeiro moinho de marés de Veneza. O Domesday Book, levantamento feito sob as ordens de William I, rei da Inglaterra em 1086, revelou que havia 5 mil moinhos d'água só na Inglaterra. [...]

Enquanto a tecnologia transformava a vida das pessoas, mudanças ocorriam na estrutura social. Nas caóticas condições criadas com o fim da soberania romana e as ondas migratórias, as pessoas procuravam proteção para suas vidas e propriedades. Ao mesmo tempo, indivíduos ambiciosos tiravam vantagem dessas condições para aumentar sua riqueza e influência. A partir desse encontro do desejo por segurança com a avidez pelo poder, brotou gradualmente um novo quadro de composições sociais: a instituição conhecida como feudalismo. Em sua forma mais desenvolvida, consistiu em uma hierarquia de garantias e obrigações mútuas. No nível mais baixo estava o camponês, que tinha o direito de trabalhar, manter e legar sua terra em troca da obrigação de prestar serviço ao seu superior, que podia ser o senhor de uma propriedade ou o abade de um mosteiro. [...] O direito à proteção do camponês por parte de seu senhor criava uma obrigação recíproca sobre esse mesmo senhor de lhe assegurar proteção.

Enquanto o sistema do feudalismo tomava forma, uma batalha pelo poder de um tipo diferente tinha lugar: a luta pelo domínio entre a Igreja e o Estado. [...]

[...]

Os papas não estavam apenas engajados em uma luta contínua pela supremacia com os soberanos seculares do continente; viviam em conflito pela supremacia com a Igreja oriental baseada em Constantinopla [...]. O ano de 1054 testemunhou uma ruptura entre os dois, após prolongada disputa teológica. A partir daí, Roma ficou esperando por uma chance de subjugar a rival oriental.

Quarenta anos depois, a oportunidade se apresentou. Os seldjúcidas - um grupo de tribos turcas muçulmanas sunitas - haviam surgido antes vindos da Ásia e tomando controle da Pérsia (Irã), Mesopotâmia (Iraque) e Síria setentrional. Teoricamente, estavam sujeitos à soberania espiritual do califa de Bagdá, mas seu imperador, o sultão, era o efetivo soberano de toda a região. Após conquistar a Armênia, eles haviam se voltado para o império bizantino, e infligido uma sangrenta derrota sobre seus exércitos [...]. No ano seguinte, eles varreram a Palestina e a Jerusalém ocupada. Aí massacraram milhares de muçulmanos xiitas. Menos tolerantes que seus predecessores árabes, eles também fecharam a cidade para as peregrinações cristãs. Por volta de 1092, postaram-se às margens do Bósforo, em posição para atacar Constantinopla. [...]

O papa Urbano II, sabia aproveitar oportunidade quando surgia. [...] Havia outros benefícios de uma campanha militar contra os turcos. A crescente prosperidade e o aumento populacional na Europa ocidental e setentrional haviam criado uma classe de jovens inquietos de boa estirpe, com tempo de sobra, que precisavam de escape para a agressividade juvenil. Sua inquietação encontrara expressão em mesquinhas guerras e rusgas que se tornaram uma grave preocupação para as autoridades eclesiásticas. Se em vez disso pudessem ser persuadidos a combater os turcos, o povo que ficava para trás podia alimentar esperanças de uma existência mais pacífica. Isso funcionara com o islã, quatrocentos anos antes. A primeira onda de guerra santa sob a liderança Maomé fora parcialmente inspirada na necessidade de encontrar alívio para os instintos belicosos dos jovens membros tribais cujos feudos haviam tornado a vida do povo árabe miserável.

Para os jovens em questão, a oportunidade de matar com consciência limpa, e conquistar butins no processo, não precisou de grande promoção. E uma agora próspera cristandade ocidental dispunha dos recursos para montar o tipo de expedição que o papa tinha em mente.

Em 18 de novembro de 1095, Urbano convocou um conselho na cidade de Clermont, no sul da França. Em uma apinhada assembleia ao ar livre, proferiu um dos discursos mais graves da história europeia, Ele conclamou seu público a decretar uma trégua em suas disputas, a voltar as energias belicosas contra os turcos, a acorrer em auxílio de seus companheiros cristãos no leste e a reabrir a cidade santa de Jerusalém para as peregrinações cristãs. A reação ao seu discurso foi entusiástica. Quatrocentos anos após Maomé, a jihad - conflito sagrado - voltava a ser apregoada. Mas dessa vez os guerreiros marchavam ao som de um hino diferente.

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 139-146.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Crianças e jovens pobres na obra do artista Augustus Edwin Mulready

Descuidado, Augustus Edwin Mulready

A menina das flores, Augustus Edwin Mulready

Sorte em um momento, Augustus Edwin Mulready

Menéstreis errantes, Augustus Edwin Mulready

A pequena vendedora de violeta, Augustus Edwin Mulready

Uma vendedora de flores na rua, Augustus Edwin Mulready

Menéstreis fatigados, Augustus Edwin Muready

O fim do dia, Augustus Edwin Mulready

Meninas vendendo flores numa noite de verão, Augustus Edwin Mulready

Pequenas vendedoras de flores, Augustus Edwin Mulready

Um vendedor de jornais de Londres, Augustus Edwin Mulready

Venda para fora, Augustus Edwin Mulready

Nosso primo de boa índole, Augustus Edwin Mulready

Um vendedor de jornais de Londres, Augustus Edwin Mulready

Um olho para um esperado comprador, Augustus Edwin Mulready

Venda para fora, Augustus Edwin Mulready

O fim do dia, Augustus Edwin Mulready

sábado, 28 de junho de 2014

Escolas, estudantes e professores em obras de arte


Alegoria do ensino, Artista desconhecido

No caminho para a escola, Emile Claus

Escola infantil em Amsterdã, Max Liebermann

Escola primária, Magnus Enckell

Menino escrevendo, Albert Anker

Menino escrevendo, Albert Anker

Na sala de aula, Paul Louis Martin des Amoignes

O exame escolar, Albert Anker

A escola da vila, Albert Anker

As filhas do artista a caminho da escola, Gustav Adolph Hennig

Saída da escola, Honoré Daumier

Cálculo mental em uma escola pública de S.A. Rachinsky, Nikolay Bogdanov-Belsky

Após a escola, Jakob Emanuel Gaisser

A vingança, Jakob Emanuel Gaisser

No caminho para a escola em Edam, Max Liebermann 

A sorte do Liceu Condorcet, Jean Béraud

Pupila do monastério, Gustav Adolph Spangenberg

Cena na neve: crianças saindo da escola, Benjamin Vautier

Freiras e alunas nos jardins das Tulherias, Paris, Stanislas Lépine

Más notas, Leon Fortunski

Recém chegada ao ginásio, Emily Shanks

A escola rural, Winslow Homer

O erro do professor, Artista desconhecido

O pequeno Schulshwänzer, Anton Ebert

Preparando-se para a lição, Hugo Löffler

O novo pupilo, Thomas Brooks

Mantidos dentro da sala, Erskine Nicol 

Lição de escrita, Albert Anker

Despesa para a certificação, Leopold Till

A caminhada para a escola, Albert Anker

Interior de uma sala de aula de Zlatá Koruna, Artista desconhecido

Tarefa de casa, Simon Glücklich

Maneira de educar as crianças, E. von Heimburg

Estudante com placa de ardósia em uma paisagem na neve, Albert Anker

Estudante, Albert Anker

Estudante, Albert Anker

Estudantes, James Guthrie

Depois da escola, Ferdinand Georg Waldmüller

Menina fazendo a tarefa de casa, Albert Anker

No orfanato, Gotthardt Kuehl

Gire a hora para dentro, Albert Anker

Uniformes do Colégio Pedro II em 1855, Artista desconhecido

Retrato de um menino com uniforme escolar, Olga Boznańska

O escolar, Vincent van Gogh

A palavra aos surdos-mudos, Oscar Pereira da Silva

A lição de anatomia, Rembrandt

A lição de geografia, Alfredo Valenzuela Puelma

A lição de música, Vermeer

A classe de desenho, Michiel Sweerts

Aula de canto na escola primária da Holanda, Max Silbert

O modelo (Estudantes no Salão de indicação), Artista desconhecido

Retrato de Fra Luca Pacioli e um jovem desconhecido, Jacopo di Barbari

Educação do amor, Artista desconhecido