"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 16 de abril de 2017

Masculinidade no século XVIII

Luís XIV, Hyacinthe Rigaud

Masculinidade no século XVIII: um retrato oficial do rei Luís XIV, da França. Observe a peruca longa, a meia-calça, os sapatos de salto alto, a postura de bailarina - e a enorme espada. Na América contemporânea, todas essas coisas (com exceção da espada) seriam consideradas marcas de caráter efeminado. Mas em seu tempo Luís era um paradigma europeu de masculinidade e virilidade.

HARARI, Yuval Noah. Sapiens - Uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 159.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A era do absolutismo: O desafio da Inglaterra ao absolutismo no século XVII

Carlos II dançando em um baile na Corte, Hieronymus Janssens

Tal como na França, o absolutismo na Inglaterra evoluiu do Estado Moderno a partir da dinastia Tudor (Henrique VII, Henrique VIII, Maria Tudor, Elisabete I) e se impôs na dinastia Stuart (Jaime I, Carlos I, Carlos II, Jaime II).

Com a morte da rainha Elisabete I a coroa inglesa passou ao rei da Escócia, Jaime I, e pela primeira vez os reinos da Inglaterra e da Escócia se uniram para formar a Grã-Bretanha. Durante o reinado de Jaime I, mas sobretudo no reinado de seu sucessor Carlos I, a Inglaterra voltou a ser agitada pelas questões religiosas às quais se juntaram questões sociais e econômicas. Essas agitações acabaram conduzindo a uma guerra civil entre duas facções: de um lado o rei (decidido a governar com amplos poderes, ignorando o Parlamento), a Igreja Anglicana (fiel ao soberano), a aristocracia (desejosa de manter seus privilégios); do outro lado, os chamados puritanos, protestantes calvinistas, defensores de um Parlamento ativo e dos direitos da burguesia.

As forças dos puritanos, chefiadas por Oliver Cromwell, infligiram pesadas derrotas aos exércitos de Carlos I que, tomado prisioneiro, foi acusado de ter sido omisso em seus deveres, submetido a processo e decapitado (1649). A execução de um monarca, fato até então inédito na Europa moderna, mostrava claramente a intolerância do povo em face do regime absolutista.

Após a morte do rei, a Inglaterra tornou-se uma república, dirigida com poderes plenos por Cromwell, que se intitulou Lorde Protetor. Cromwell, graças ao apoio que deu à marinha e ao comércio ingleses, através do Ato de Navegação, assegurou o domínio dos mares e o controle de vasta rede mercantil que permitirão à Inglaterra ser a grande potência do século XVIII.

Após a morte de Oliver Cromwell (1658) seguiu-se durante mais de um ano uma fase de agitações militares que não puderam ser contidas pelo novo Protetor Richard Cromwell, filho de Oliver. Em 1660, por decisão do Parlamento, a monarquia foi restaurada na Inglaterra, ocupando o trono Carlos II (1660) que casando com a princesa portuguesa D. Catarina de Bragança, recebeu um dote, para seu país, Tânger e Bombaim. Sua tentativa de restabelecer o catolicismo e o absolutismo foram prosseguidas, à sua morte, por Jaime II seu irmão e sucessor (1685-1688) que, depois de levar muitos ingleses a exilar-se, acabou provocando a chamada Revolução Gloriosa (1688-1689).

Depondo o rei, o Parlamento ofereceu a coroa da Inglaterra a Guilherme de Orange, príncipe holandês, genro de Jaime II, e que subiu ao trono com o nome de Guilherme III. O Parlamento, porém, exigiu garantias não só religiosas como civis, as quais foram concedidas por Guilherme III através da Declaração de Direitos. Por essa declaração foram confirmados os direitos pessoais dos cidadãos e ficou estabelecido que o poder das leis é superior ao poder dos reis, dando assim ampla autonomia ao Parlamento. À Declaração de Direitos seguiu-se um edito de tolerância garantindo liberdade de culto à nação inglesa, restringindo, porém, os direitos políticos de católicos e judeus que não podiam ocupar cargos públicos.

Guilherme III, desenvolvendo as liberdades democráticas através de um governo orientado por um parlamento, permitiu à Inglaterra surgir, no cenário mundial da época, como a nação politicamente mais avançada.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 199-200.

sábado, 29 de agosto de 2015

A era do absolutismo: A ascensão da França nos séculos XVI e XVII

Rei Luís XIV, Nicolas-René Jollain

No século XVI a França foi cenário de violentas lutas religiosas entre católicos e protestantes calvinistas - chamados huguenotes -, as quais culminaram com o massacre da Noite de São Bartolomeu (1572) quando milhares de huguenotes foram eliminados, por ordem de Catarina de Médicis, regente do trono francês. A paz religiosa só pôde estabelecer-se no reinado de Henrique IV que, através do Edito de Nantes (1598), concedeu liberdade de culto aos protestantes [...].

O Edito de Nantes favoreceu o crescente prestígio político da França, a renovação de seu comércio e de sua indústria, responsável por um grande desenvolvimento econômico nos séculos seguintes.

O poder da França acentuou-se após a última das guerras de religião, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).

Esta guerra desenrolou-se na Alemanha, dividida em vários reinos e principados, uns protestantes outros católicos. Começando como uma luta religiosa terminou, entretanto, como conflito armado pela hegemonia na Europa; envolveu diversas nações, mas foi particularmente uma luta na qual a França se empenhou para cercear o poderio da casa real dos Habsburgo, herdeira do império de Carlos V. O conflito irrompeu na Boêmia quando o rei Fernando II de Habsburgo, católico, tentou impor sua religião em um território onde havia agrupamentos de protestantes. Os príncipes alemães católicos entraram em choque com os príncipes alemães protestantes; estes foram derrotados e a dominação dos Habsburgo afirmou-se na Boêmia. No entanto, o conflito alastrou-se gradativamente sobre boa parte da Europa provocando a guerra entre nações protestantes - Dinamarca, Suécia, Províncias Unidas - e nações católicas em poder dos Habsburgo - Áustria e Espanha. A França, embora católica, entrou na guerra ao lado das nações protestantes para refrear o prestígio dos Habsburgo. Assim, o longo conflito, durante o qual se alternaram vitórias e derrotas de ambos os lados, terminou com a intervenção decisiva da França que forçou a Áustria e a Espanha a renderem-se. Foram assinadas a Paz de Mestfália (1648), entre França e Áustria, e mais tarde (1659) a Paz dos Pirineus, entre França e Espanha.

A Paz de Westfália assinalou o fim das guerras de religião. assegurando tolerância de fé; politicamente, acabou com o predomínio e a força dos Habsburgo. [...]

[...]

Internamente, desde o reinado de Henrique IV, a França vinha passando por importantes transformações políticas, que levaram o rei a concentrar em suas mãos todos os poderes do Estado. Contribuíram para essa centralização do poder medidas tomadas por dois ministros, o Cardeal Richilieu (na regência de Maria de Médicis e no reinado de Luís XIII) e o Cardeal Mazzarino (na regência de Ana d'Áustria e no início do reinado de Luís XIV): ambos afastaram sistematicamente nobres dos corpos administrativos, confiando-os a funcionários de origem burguesa. Tais medidas contra a aristocracia, e que não deixaram de provocar agitações sociais e guerras civis, foram ainda mais reforçadas por Luís XIV, ao assumir o trono (1661).

O monarca afastou os nobres dos cargos administrativos que ainda ocupavam, em compensação atraiu-os para a sua corte e manteve-os isentos de impostos, que eles, todavia, continuaram cobrando dos lavradores de suas terras. Os postos administrativos foram ocupados por elementos da classe burguesa, ministros e funcionários diretamente nomeados e controlados pelo rei, o qual ainda favoreceu a rica burguesia dando grande impulso à indústria (manufatureira, construção civil, naval e de armamentos) e ao comércio (importação e exportação de matérias-primas e gêneros de primeira necessidade).

Concentrando todos os poderes do Estado em suas mãos, Luís XIV passou a encarnar o próprio reino da França e tornou-se assim símbolo vivo do absolutismo, sintetizado na frase a ele atribuída: L'état c'est moi (O Estado sou eu). Luís XIV deu à França o máximo de esplendor e projeção, tanto assim que sua época passou à história como o século de Luís XIV. Mereceu o nome de rei-sol, pois sua corte foi uma das mais brilhantes e luxuosas de que temos notícia, dela recebendo homenagens como se fora um deus.

O período de projeção que a França conheceu no século XVII foi resultado de importantes iniciativas do monarca, auxiliado por homens de visão, diplomatas, chefes militares e ministros, dentre os quais destacou-se o ministro da economia e das finanças, Colbert.

Colbert desenvolveu a política do mercantilismo, doutrina econômica fundamentada na pequena importação e na grande exportação. Mas, para exportar, era necessário produzir em larga escala objetos manufaturados de alta qualidade, transportá-los por mar e encontrar no estrangeiro matérias-primas e bons mercados. Colbert, pois, regulamentou a produção de mercadorias. exigiu o emprego de mão-de-obra qualificada e especializada, modernizou os estaleiros para a construção de navios, estimulou a exploração sistemática e a expansão das colônias francesas nas Américas (Canadá, Luisiana, Antilhas). A fim de a França poder competir com as poderosas companhias das Índias, holandesa e inglesa, fundou-se a Companhia Francesa das Índias Orientais. Reorganizando sua marinha, a França passou a concorrer comercialmente com a Holanda.

[...]

A França alcançara enorme prestígio internacional, mas internamente começara a delinear-se uma situação social bastante crítica. Na cidade, a nobreza ligada à corte de Luís XIV vivia ociosa e luxuosamente, enquanto a burguesia detinha influência considerável na administração e no comércio. No campo, os nobres empobreceram cada vez mais, pois os lavradores pagavam-lhes os impostos devidos não mais em dinheiro e sim em gêneros. Assim muitos nobres viram-se obrigados a vender parte de suas terras a burgueses da cidade. A situação dos camponeses agravava-se dia a dia, devido à falta de progresso sensível nas técnicas agrícolas, aos rendimentos diminutos, às elevadas taxas, aos caprichos da natureza, fortes geadas, prolongadas secas, trazendo fome, doenças e miséria.

Além disso, tendo Luíz XIV revogado o Edito de Nantes, recomeçaram as perseguições contra os protestantes que, obrigados a abandonar a França, emigraram em grande número para o exterior, levando consigo seus haveres e sua capacidade de trabalho, o que prejudicava seriamente o país. Prejuízos maiores sobrevieram quando outras nações europeias se coligaram para refrear as ambições desmedidas de Luíz XIV. Nos últimos anos de seu reinado a França enfrentou uma coligação europeia na Guerra de Sucessão da Espanha, à qual o Tratado de Utrecht (1713) pôs fim, pondo fim também à supremacia francesa.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 195-8.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A era do absolutismo: A supremacia da Espanha no século XVI

A formação dos Estados Modernos e as monarquias nacionais que neles se instalaram, simbolizando a unidade geográfica, política e cultural de uma região, favoreceram a afirmação do poder ilimitado dos reis, o absolutismo.

O poder soberano reside exclusivamente na minha pessoa [...] os direitos e os interesses da nação acham-se necessariamente vinculados aos meus e encontram-se em minhas mãos unicamente. (Luís XV)

Como sistema de governo o absolutismo tem raízes profundas no passado, podendo ser reconhecido na maneira de governar dos faraós egípcios ou dos imperadores romanos. Para a afirmação do absolutismo nos séculos XVII e XVIII tiveram importância lutas religiosas que se transformaram frequentemente em conflitos pela hegemonia política e econômica.

Essas lutas desencadearam-se em monarquias europeias que viam sua unidade religiosa seriamente ameaçada pela divisão da Igreja cristã. Ao lado disso, as monarquias empenharam-se em desenvolver, nos séculos XVI e XVII, uma política econômica (o mercantilismo) destinada a levar o poderio do Estado ao apogeu. Responsável em parte pelos conflitos em torno da hegemonia europeia e colonial, essa política econômica requeria um governo forte.


Navios ingleses e a Armada espanhola, Artista desconhecido

* A supremacia da Espanha no século XVI. No século XVI, no reinado de Filipe II, a Espanha foi a maior potência da Europa. Possuía um vasto império, o qual incluía os Países Baixos, o Ducado de Milão, os reinos de Nápoles, Sardenha e Sicília, vastos territórios nas Américas, as Filipinas, bem como, a partir de 1580, Portugal e suas colônias.

Do ponto de vista político o rei Filipe II mantinha rígido controle do governo, raramente convocando as Cortes (Parlamento) e quando o fazia era só mesmo para referendar suas decisões.

Do ponto de vista econômico, a Espanha de Filipe II monopolizava todo o comércio de seu império, dispunha de enormes quantidades de metal precioso obtido em suas terras nas Américas; descuidava-se, porém, do desenvolvimento agrícola e industrial do próprio país. Assim, quando sobreveio a crise do ouro, devido ao excesso de metal precioso, fazendo baixar o valor da moeda e subir os preços de gêneros alimentícios e produtos manufaturados, as nações europeias encontraram-se em dificuldades, sobretudo a Espanha, cuja produção interna não podia suprir às necessidades do povo, empobrecendo também em virtude de pesados impostos exigidos pela coroa.

Do ponto de vista religioso, Filipe II era um católico exacerbado e perseguiu violentamente, não só os protestantes, como os muçulmanos e os judeus convertidos ao catolicismo.

Os elevados impostos e as perseguições religiosas acabaram provocando a revolta dos Países Baixos. Após vários anos de lutas as províncias protestantes no norte, auxiliadas pela Inglaterra, conseguiram tornar-se independentes da Espanha (1579), com o nome de Províncias Unidas, a atual Holanda, que se transformou em uma nação próspera, logo iniciando uma expansão colonial na Ásia e na América.

Por ter ajudado a Holanda a tornar-se independente e por ser uma nação protestante, Felipe II via a Inglaterra como sua grande inimiga. A fim de esmagar o protestantismo e fortalecer seu poderio, concebeu um plano de ataque à Inglaterra, enviando contra esse país uma frota poderosa, a Invencível Armada. A esquadra espanhola, porém, foi vencida no Canal da Mancha pela esquadra inglesa constituída de navios menores e mais rápidos. Essa batalha naval marcou o fim da supremacia espanhola na Europa e o início da supremacia inglesa nos mares.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de [Org.]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 194-5.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Visita ao Vaticano

A Criação de Adão (detalhe), Capela Sistina, Michelangelo

Perguntas que faço a Michelangelo, para ver se me responde:

- Por que a estátua de Moisés tem chifres?

- No afresco da Criação do Homem, na Capela Sistina, todos cravamos os olhos no dedo que dá vida a Adão, mas quem é essa moça nua que Deus aperta amorosamente, como num descuido, com o outro braço?

- No afresco da Criação da Fé, o que fazem esses galhos quebrados no Paraíso? Quem os cortou? A derrubada de bosques estava autorizada?

- No afresco do Juízo Final, quem é o papa que se precipita ao inferno, expulso a porrada por um anjo, e na sua queda leva as chaves pontificais e uma bolsa cheia?

- O Vaticano tapou quarenta e um pintos que o senhor havia pintado nesse afresco. O senhor ficou sabendo que seu amigo e colega Daniele da Volterra foi quem cobriu as entre-pernas com pudorosos panos, por ordem do papa, e que por isso foi chamado Ill Braghettone?

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 100.

sábado, 15 de agosto de 2015

A Idade da Razão: a Ilustração ou Era das Luzes

O Renascimento trouxera a afirmação do homem, do seu espírito de iniciativa, de suas possibilidades intelectuais. No século XVII começou a ganhar força a ideia de que o homem poderia chegar à verdade e a dominar a natureza através da razão e da experiência. Razão e experiência passaram a ser aplicadas sistematicamente pelos estudiosos nos vários campos do saber humano.

Os primeiros estudiosos que investigaram e analisaram fenômenos naturais à luz da razão e buscaram definir um método científico ressaltando o valor da experiência, foram os filósofos Francis Bacon e René Descartes.

Coube aos cientistas aplicar esse método experimental dando origem à ciência moderna. O iniciador da pesquisa sistemática, baseada na formulação de uma hipótese cuja validade as experiências comprovam, foi Galileu. Segundo o mesmo método científico, Newton pôde estruturar a teoria correspondente às experiências realizadas em um período de 150 anos pelos físicos e astrônomos Copernico, Kepler e Galileu.

Neste século e no século seguinte sucederam-se importantes inovações e descobertas científicas que provaram ser o universo um eficiente mecanismo operando segundo leis exatas da natureza.

De acordo com este princípio, vários pensadores do século XVIII acreditaram ser também possível encontrar leis naturais aplicáveis ao homem e à sociedade. O movimento intelectual daí resultante chamou-se Ilustração ou Iluminismo, movimento de ideias inovadoras, propondo-se resolver, pela razão, problemas sociais, políticos, econômicos, culturais, sonhando-se com um mundo perfeito onde haveria paz, justiça e colaboração entre todos os homens.

Uma das figuras mais importantes do século XVIII foi o filósofo inglês John Locke que formulou a teoria dos direitos naturais do homem: vida, liberdade, propriedade, direitos que o governo escolhido pelo povo tinha o dever de assegurar-lhe. Se não o fizesse, o povo tinha o dever de escolher outro governo. As ideias de Locke, largamente difundidas e estudadas, desempenharam papel preponderante na revolução pela independência das treze colônias inglesas na América.

Os homens sendo, como tem sido dito, todos por Natureza livres, iguais e independentes, ninguém pode ser alijado deste Estado e submetido ao Poder Político de outrem, sem seu próprio consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa renuncia à Liberdade Natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela. Qualquer número de homens pode fazê-lo, porque não prejudica a liberdade dos demais; ficam como estavam na liberdade do estado de natureza. Quando qualquer número de homens consentiu desse modo em constituir uma comunidade ou governo, ficam, de fato, a ela incorporados e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e resolver por todos. (John Locke, Segundo tratado sobre o governo, cap. VIII)

Leitura no salão de madame Geoffrin, Anicet-Charles-Gabriel Lemonnier 

Mais um passo na conquista das liberdades individuais foi dado por Voltaire (François-Marie Arouet), filósofo e escritor francês que lutou contra toda limitação à liberdade de pensamento, reconhecendo a todos o direito de manifestar suas ideias: "Não concordo com nenhuma de tuas palavras, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las."

Denis Diderot, Louis-Michel van Loo

A ideia de que a cultura devia ser acessível a todos e não privilégio de poucos, conduziu alguns "filósofos" franceses (Diderot, D'Alembert), com a colaboração de outros escritores, a compilar uma obra em 35 volumes, a Enciclopédia, síntese do conhecimento humano. A Enciclopédia, circulando em toda a Europa, teve grande importância na difusão das novas ideias.

Enciclopédia ou Dicionário sistemático das Ciências, Artes e Ofícios, editado por Diderot e D'Alembert, ca. 1751-72. 

Tolerância: O homem, tão grande por sua inteligência, é ao mesmo tempo tão limitado por seus erros e suas paixões que dificilmente nele saberíamos inspirar a ter, para com os demais, essa tolerância, esse esteio de que ele próprio tanto necessita, e sem o qual somente teríamos sobre a terra lutas e dissensões. (Encyclopédie, verbete "Tolerância")

Os ideais dos ilustrados refletiram-se ainda no setor da política. Reconhecendo a crescente importância da burguesia na sociedade, reconheceram-lhe também o direito a uma participação efetiva na vida pública e administrativa de um país. Empenhados em cercear a exagerada influência dos nobres junto à monarquia, destacaram-se as obras de dois escritores franceses, Montesquieu e Rousseau.

Montesquieu, em seu livro O espírito das leis, bateu-se pela abolição de antigos privilégios da aristocracia e sublinhou a necessidade de o rei reconhecer, através de um documento oficial - a Constituição - o direito de os cidadãos participarem do governo por intermédio de representantes.

Rousseau, em seu livro O contrato social, negando que o poder do rei proviesse de Deus, afirmou que esse poder devia ser outorgado ao monarca pelo povo, a fim de representá-lo na direção do governo.

Evidentemente os ideais da Ilustração estenderam-se também à economia, setor no qual o dinamismo da classe burguesa esbarrava contra as tendências conservadoras, estáticas, da classe nobre. Teve grande repercussão a teoria do economista inglês Adam Smith, preconizando a necessidade de a economia poder desenvolver-se livremente sem quaisquer restrições ou controle da parte do Estado. Nasceu assim o liberalismo econômico vindo a favorecer a livre iniciativa de banqueiros, comerciantes e industriais.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de [Org.]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 200-1.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Piratas, corsários e bucaneiros nos mundos do Mediterrâneo, do Oceano Índico e do Atlântico

Piratas, Max Slevogt

[...] Todos os grandes corpos d’água – o Mediterrâneo, os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico – foram palco de pirataria, que algumas vezes apoiou e em outras desafiou os interesses políticos e econômicos dos Estados, impérios e nações. A pirataria ao redor do mundo revelou a permeabilidade das fronteiras e também o desafio das autoridades.

Abandonado, Howard Pyle

A pirataria pode ser vista como uma forma de comércio, na qual os indivíduos retiram o lucro agindo como intermediários entre os mercadores ou pelo confisco forçado das mercadorias para venda ou troca. A pirataria, em vários lugares, assinalou a existência das fronteiras – zonas de interação – que surgiram quando o controle político enfraqueceu. Fronteiras vulneráveis estavam, frequentemente, nas extremidades ou nos pontos de encontro de grandes políticas. A pirataria fazia parte de um sistema econômico maior; refletia a instabilidade, a desordem e o caos das fronteiras tanto quanto os criava. Às vezes, a pirataria também podia ser patrocinada pelos governantes ou rebeldes que buscavam utilizar os piratas como mercenários, para a obtenção de fins políticos. A pirataria dependia dos olhos de quem a viam e, se algo era pirataria ou comércio, dependia inteiramente da perspectiva do observador. Encontrada no Mediterrâneo, no Oceano Índico, no Atlântico e no Pacífico, a pirataria era uma extensão das experiências dos limites, dos encontros e das fronteiras terrestres.

Ilha dos Piratas, David Cox

[...] a pirataria [...] floresceu nas zonas limítrofes e de fronteira entre culturas. Durante os séculos XVI e XVII, a pirataria atingiu seu auge no Mediterrâneo, onde nem todos os piratas se opuseram ao controle estatal. Os corsários eram piratas licenciados pelo Estado. Sob o pretexto do corso, dois grupos igualmente apoiados, os Corsários Bárbaros e os Cavaleiros da Ordem de São João, agiram como guerreiros em uma extensão da guerra santa entre os turcos otomanos e a Espanha católica. Na verdade, essas duas forças corsárias realizaram um intercâmbio de mercadorias entre muçulmanos e cristãos que, de outra forma, teria sido impossível. Esses piratas estavam tão integrados na economia do Mediterrâneo que o sultão otomano de Constantinopla concordou com seu comércio ao apontar, pela primeira vez, um líder bárbaro ao posto de governador-geral de Argel, em 1518, e mais tarde ao o tornar almirante das frotas otomanas, em 1535.

O retorno dos corsários, Maurice Orange

Da mesma forma que, a colaboração íntima entre piratas e governos no Mediterrâneo, as elites que viviam ao longo da linha costeira do Canal da Mancha deram suporte em longa escala à pirataria durante a Era Elisabetana (nomeada em homenagem à Elisabeth I, aproximadamente 1588-1603). Por todo o século XVI, a gentry britânico ao longo da costa sul obteve lucros rápidos ao comercializar os espólios dos saqueadores locais. Essas condições se adequaram bem às aspirações das monarquias da época: a guerra com a Espanha era a maior preocupação internacional da soberana Tudor, mas travar a guerra era um problema, pois a monarquia ainda era dependente de forças voluntárias. Ao sancionar os piratas e os transformar em corsários – navios cujos capitães, durante o período de guerra, recebiam a autorização governamental para atacar portos e navios inimigos – Elisabeth obteve uma marinha sem custos em uma época em que a monarquia inglesa era incapaz de sustentar-se.

Captura do pirata Barba Negra, 1718. Jean Leon Gerome Ferris

A ambigüidade das identidades piratas e a constante transformação da natureza do ambiente em que a pirataria floresceu ocorreram igualmente no Oceano Índico. No começo do século XVIII, um marinheiro independente, chamado Kanhoji Angre, aliou-se à confederação de Marayha, que havia se formado na resistência ao Império Mughal. Ele também se aliou aos portugueses em Goa, que estavam interessados em desafiar os britânicos e holandeses, aliados dos Mughal. Contudo, Kanhoji atuou como um agente independente, apesar de sua aliança com os portugueses, de quem ele capturou um dos navios. Ele também capturou um navio inglês levando um agente da Companhia das Índias Orientais Britânica, cuja esposa foi mantida em troca de um resgate (Patrícia Risso). Kanhoji e suas contrapartes, no Oceano Índico, agiram de forma muito semelhante aos piratas de outros lugares. Eles eram como agentes com extrema independência, que eram utilizados por forças políticas terrestres quando necessário. Por sua vez, os piratas mudavam de aliados quando lhes convinha e buscavam enriquecer quando e onde fosse possível.

Espanhóis e corsários bárbaros, Cornelis Hendriksz

A hegemonia europeia e a feroz competição durante o século XVIII cruzaram o Atlântico até o Caribe, onde tudo ocorria em um pano de fundo de constante pirataria e corso. Nem toda pirataria é lucrativa. Um dos primeiros piratas a atravessar o Atlântico foi Paulmier de Gonneville, que tomou, de forma bem sucedida, mercadorias dos espanhóis, mas não foi capaz de recuperar os custos de sua expedição. Mercadores e navios tinham de se defender contra os piratas e corsários. O status de corsário também significava que, se eles fossem pegos por um inimigo, teriam os mesmos direitos dos soldados. Se capturados, eles seriam feitos prisioneiros em vez de serem enforcados como criminosos.

Bucaneiro, Howard Pyle

Os criminosos e os bucaneiros, ou servos fugidos escapando de seus contratos de servidão, encontraram segurança da exploração de seus senhores, lucrando ao se tornarem piratas no Caribe. Os bucaneiros começaram como caçadores de gado fugido em Santo Domingo (onde receberam o nome de boucan, um grill de madeira para carne defumada), e logo começaram a combinar a caça com a pirataria. Os bucaneiros atravessaram o Caribe e o Atlântico e atingiram lugares tão distantes quando Madagascar, no Oceano Índico, onde estabeleceram a República Pirata de Libertalia.

Uma ação entre um navio inglês e vassalos dos corsários bárbaros, Willem van de Velde the Younger

Como suas contrapartes das águas da Ásia e do Mediterrâneo, os piratas do Caribe se juntaram ao patrocínio político. Na verdade, foi difícil distinguir o contrabando do comércio legítimo, de tão pouco ortodoxas e inescrupulosas que eram, igualmente, as negociações dos mercadores e dos piratas. O famoso bucaneiro do final do século XVII, Henry Morgan, velejou sob as ordens do governador da Jamaica, uma colônia britânica. Sua última expedição foi uma tentativa de capturar e pilhar a Cidade do Panamá, apesar dos acordos entre a Espanha e a Inglaterra de cessar essas ilegalidades. Mais devastador para a pirataria do que as leis Britânicas de Navegação, que limitaram o comércio aos navios britânicos, foi o terremoto de Port Royal, em 1692, na Jamaica. O terremoto e as ondas altas subseqüentes açoitaram esse centro costeiro de pirataria, conhecido como “a cidade mais perversa da terra”, até ser coberta pelo mar.

Anne Bonny e Mary Read, Benjamin Cole

Como no mundo das águas cantonês, mulheres piratas não foram alto tão incomum nas fronteiras do Caribe. Duas dessas mulheres foram Mary Read e Anne Bonny, trazidas perante o governador da Jamaica, em 1720, e sentenciadas ao enforcamento. As mulheres foram ao mar como passageiras, serventes, esposas, prostitutas, lavadeiras, cozinheiras e, como menos freqüência, como marinheiras. Para evitar controvérsias e usurpar aquilo que era considerado como uma liberdade masculina, as piratas femininas frequentemente se vestiam como homens, utilizando calças e jaquetas masculinas e carregando pistolas ou machados, se não ambos. Read e Bonny também xingavam e diziam palavrões como qualquer homem. Ambas foram criadas em ambientes familiares não convencionais e se sobressaíram em suas presas escolhidas, sendo reconhecidas como líderes em seus navios piratas. Essas “mulheres guerreiras” foram celebradas ao redor do mundo atlântico em cantigas populares, sugerindo que seu impacto foi tanto econômico quanto cultural.


Piratas dividindo seus despojos, Howard Pyle

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 324, 326-328.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cotidiano das mulheres e sexualidade lisboeta na época dos Descobrimentos

Grupo de mulheres, Lovis Corinth

As mulheres portuguesas eram tidas pelos estrangeiros como as mais belas da Europa. Isso, é claro, para os padrões da época, nada semelhantes àqueles seguidos pelas esqueléticas top models de nossos dias. As mais bonitas eram aquelas mais “cheias”, de belos olhos castanhos, grandes e vivazes. Tinham a pele muito branca, pois andavam com o corpo todo coberto, inclusive a cabeça, protegida por um lenço, compondo um manto que ocultava o rosto sob sombras. Era considerado sinal de paquera uma mulher mostrar a face para um transeunte.

As damas da sociedade nunca andavam desacompanhadas pelas ruas. Saíam, comumente, em liteira, seguidas por um escudeiro e um cortejo de criadas e filhas, a pé. Apenas os homens, e de posição, podiam andar a cavalo pela cidade, algo regulamentado por decreto régio. Alguns fidalgos optavam por se deslocar sentados, em cadeiras carregadas por escravos.

A despeito de as mulheres casadas portuguesas serem tidas como extremamente fiéis no matrimônio, conseguir a companhia de uma senhora casada não era difícil, num país em que os esposos estavam, constantemente, viajando. Porém, havia o risco de o casal “em pecado” ser pego de surpresa pelo confessor da senhora, ou pelo próprio marido traído, já que o retorno do cônjuge era sempre imprevisível. Aqueles que não arriscavam levar a esposa consigo entregavam-na à vigilância de um pároco de confiança. Também não faltavam padrecos a se aproveitar da ocasião para liberar a libido com suas protegidas.

Em qualquer caso, o risco maior era assumido pela mulher, pois, em se tratando de adultério ou estupro, a legislação impedia a punição dos implicados se eles fossem fidalgos. Quanto aos marujos, no máximo, levariam algumas chicotadas em praça pública. Já a esposa podia sofrer os maiores abusos, sem que o marido fosse penalizado.

O medo da traição e os constantes casos, em que estiveram implicados nobres, fizeram com que o homem português se tornasse muito possessivo, deflagrando cenas de ciúmes contra as mais castas senhoras. Tornaram-se célebres vários casos de violência doméstica, ocorridos em Portugal entre os séculos XVI e XVII. Em certa ocasião, uma mulher teve a cabeça pregada ao assoalho, só por ter acenado ao cumprimento de um estrangeiro que passava, em uma procissão, defronte à janela de sua casa.

Justamente para evitar constrangimentos e a possibilidade de a amante ser martirizada pelo marido traído, muitos homens optavam por visitar os conventos, onde o trânsito era facilitado por um título de nobreza. Belas jovens esperavam ansiosas por um amante que pudesse lhes ensinar os prazeres da carne, pois haviam sido confinadas pelas famílias em ordens religiosas, contra sua vontade, como forma de evitar a divisão de bens da família, por ocasião do pagamento do dote devido a um futuro marido, ou para dar prestígio político a seus pais.

Rapto de mulheres, Lovis Corinth

Impedidos de participar do festim proporcionado pelos conventos, os marujos, em Lisboa, tinham poucas oportunidades de praticar os estupros coletivos que estavam acostumados a infligir, a bordo dos navios, a mulheres e garotos embarcados. Não obstante, em noites escuras, quando a lua estava oculta, as sombras lhes permitiam raptar e violentar mulheres humildes, principalmente ciganas. Algumas chegavam a ser carregadas à força para dentro dos navios, a fim de satisfazer o apetite sexual da marujada. Raptadas, não tinham escolha a não ser acompanhar seus carrascos em sua jornada pelos mares.


PESTANA, Fábio Ramos. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 46-48.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Hospitais, igrejas e prostíbulos na capital lisboeta na época dos Descobrimentos

As padeiras, José Malhoa

Havia vários hospitais na cidade, uma vez que eram mais do que necessários para abrigar, entre outros enfermos, alguns dos debilitados passageiros e tripulantes que chegavam nos 1.500 navios que demandavam, mensalmente, o porto lisboeta. O maior era o de Todos os Santos, construído no Rossio, em 1492, próximo à principal artéria da cidade, a rua Nova dos Mercadores, onde estavam instaladas as mais importantes casas de comércio de especiarias.

O fado, José Malhoa

A vida espiritual da população era orquestrada por várias igrejas, espalhadas pelas partes alta e baixa da cidade. A mais importante era sede do bispado, a sé de Lisboa, uma catedral gótica, construída em 1150, por ordem de D. Afonso Henriques, sob as ruínas de uma mesquita. Ela seria danificada por dois tremores de terra, no século XIV, e, finalmente, devastada pelo terremoto de 1755, que destruiria boa parte de Lisboa e obrigaria o marquês de Pombal a reconstruir suas ruas, no traçado reto que obedecem ainda hoje.

A religiosidade do povo português, expressa pela imensa quantidade de igrejas, tornava habitual cruzar pelas ruas com procissões ou festejos de santos, ao passo que comemorações profanas estavam terminantemente proibidas.

Os bêbados ou Festejando o S. Martinho, José Malhoa

Entretanto, a principal diversão dos fidalgos era freqüentar bordéis e tavernas. Recusar um convite de um nobre para ter com prostitutas era considerado uma ofensa grave. Outro público que freqüentava com assiduidade o ambiente eram os marujos, sempre famintos de companhia feminina, após meses no mar. A ampla demanda pelo serviço era acompanhada, igualmente, de uma numerosa oferta. Existiam bordéis em número igual ou superior ao de igrejas, enquanto as tavernas talvez somassem o dobro da quantia.

Cena de bordel, Brunswick Monogrammist

Sendo freqüente o vai-e-vem de forasteiros, existiam em Lisboa inúmeras hospedarias. A maioria delas era muito simples, confundindo-se com os bordéis, em cujos quartos não havia mais do que uma cama, uma pequena mesa, uma cadeira, uma bacia com água e um penico, para que os hóspedes mais exigentes cuidassem da própria higiene.

Artistas itinerantes em um bordel, Brunswick Monogrammist

Os fidalgos e marujos que compartilhavam as prostitutas quase sempre eram brindados com as mais diversas doenças venéreas, o que fazia muitos evitarem o contato com profissionais, apesar da grande quantidade de bordéis disponíveis. A alternativa mais “à mão” era cortejarem as muitas senhoras cujos maridos estavam ausentes, servindo nas colônias e nos navios portugueses.

PESTANA, Fábio Ramos. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 45-46.

domingo, 7 de dezembro de 2014

As perseguidas: as mulheres nos romances filosóficos no século XVIII

A refeição da tarde, François Boucher. As mulheres são retratadas como mães e figuras sacralizadas no ambiente familiar. Matrimônio e maternidade exigiam postura mais equilibrada das mulheres

Romance epistolar, com narrativa desenvolvida a partir de cartas trocadas entre os personagens, A Nova Heloísa marcou outro momento dos "romances filosóficos", com novas opiniões sobre o feminino. Nele, as mulheres não foram descritas apenas pelo ângulo das "paixões". O "belo sexo" passava a ser relacionado também a uma ideia de virtude, que estava estreitamente ligada a três pilares: à virgindade na juventude - afinal, "o amor nas moças é indecente e escandaloso e apenas um esposo autorizaria um amante" -, ao matrimônio e à maternidade. Segundo Rousseau, quando adulta, a mulher deveria saber qual é o seu lugar. A "mulher virtuosa" seria a esposa casta e submissa e a mãe que prepara os filhos para serem educados pelos homens: "Mas há um longo caminho dos seis anos aos 20; meu filho não será sempre criança e, à medida que sua razão comece a nascer, a intenção de seu pai é de realmente a deixar exercer. Quanto a mim, minha missão não vai até lá. Alimento crianças e não tenho a presunção de querer formar homens. Espero, disse olhando seu marido, que mãos mais dignas venham a se encarregar desse trabalho. Sou mulher e mãe, sei manter-me em meu lugar. Ainda uma vez, a função de que estou encarregada não é a de educar meus filhos, mas de prepará-los para serem educados".

Essas opiniões novamente se refletiram na caracterização das próprias personagens. Se nos romances anteriores à obra de Rousseau as heroínas não foram pensadas para viver a maternidade e o matrimônio, e sim para deixarem transparecer "os efeitos das paixões", na Nova Heloísa a situação se inverte. Neste romance, as personagens estão envolvidas com suas futuras obrigações de mãe e esposa durante quase toda a narrativa.

De Montesquieu a Rousseau, os "romances filosóficos" estiveram longe de propagandear uma emancipação feminina. Suas personagens bem demonstraram isso. Apaixonadas ou virtuosas, as mulheres foram sempre vistas nas obras como seres inferiores aos homens, tanto em sua capacidade psicológica quanto nos seus direitos perante a sociedade. A situação era bem difícil: se ousassem expor seus sentimentos, seriam encaradas como escravas de suas paixões. Se optassem  por não abraçar a maternidade e o matrimônio, estariam se afastando da virtude. Mas, apesar de tanta resistência, as mulheres, mesmo vivendo em tal contexto, conquistaram importantes avanços. E continuam conquistando. Apaixonados e virtuosas.

Renato Sena Marques. As perseguidas. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7 / Nº 79 / Abril 2012. p. 48-51.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O cotidiano do rei Luís XIV e o absolutismo

Luis XIV e sua família. Artista desconhecido

Os  pesquisadores que estudam os governos absolutistas da França conseguiram identificar vários gestos simbólicos criados por Luís XIV para mostrar seu poder de monarca absoluto. Entre eles destacam-se as regras de etiqueta criadas para orientar o comportamento dos membros da Corte.


Casamento de Luís XIV e Maria Teresa da Áustria na Igreja de St.-Jean-de-Luz, 9 de junho de 1660. Jacques Laumosnier

Essas regras transformavam cada ato do cotidiano do rei em cerimônia que deveria ser acompanhada por toda a Corte. Por meio desses rituais buscava-se destacar a pessoa do monarca como centro do poder e, como tal, objeto de culto e adoração.


Casamento do Duque de Borgonha, Luís da França (1682-1712). Antoine Dieu

O sono do rei Luís XIV geralmente era velado por um criado, que permanecia ao lado do monarca durante toda a noite e o acordava pela manhã. Em seguida, o médico particular do rei o examinava e avaliava as suas condições de saúde. Depois desse exame, o criado lhe colocava a peruca e permitia a entrada dos cortesãos que já estavam à espera no corredor.


Luís XIV (1638-1743). Hyacinthe Rigaud

Seguindo uma rígida hierarquia, diariamente os nobres de títulos mais importantes eram admitidos em primeiro lugar nos aposentos reais. Depois vinham os oficiais de quarto e de guarda-roupa, encarregados de organizar as vestimentas reais. Enquanto o rei se levantava da cama, eram recebidos os ministros e secretários de Estado.


Entrevista de Luis XIV da França e Filipe IV da Espanha na Ilha dos Faisões em 1659. Jacques Laumosnier

Dois dos nobres mais importantes o ajudavam a colocar as roupas, prender os sapatos e a espada. Em seguida, entravam nobres de menor importância, que realizavam outros tipos de tarefas. Por último, eram admitidos nos aposentos os filhos legítimos e bastardos do rei e o ministro das Finanças. Completado o cerimonial de vestir-se, o rei dirigia-se à capela do palácio para fazer as orações matinais e finalmente ia ao encontro do restante da Corte.


Luís XIV e a Dama Longuet de La Giraudière. Charles Beaubrun

Nas refeições do rei e de sua família, assistidas por toda a Corte, os rituais se repetiam. Uma grande quantidade de criados e de nobres ficava à disposição para servir os pratos e as bebidas.


Reparação feita à Luís XIV pelo doge de Gênova Francesco Maria Lercari Imperial, 15 de maio de 1685. Claude Guy Hallé

Se o rei queria beber, um dos nobres anunciava em voz alta a disposição do rei para beber, fazia uma reverência e ia ele mesmo apanhar as bebidas. Voltava na companhia de dois criados que carregavam as bandejas com os copos e garrafas de vinho ou água. Os criados provavam as bebidas e o nobre, fazendo nova reverência, oferecia a garrafa ao rei. Depois de nova reverência, o nobre devolvia a bandeja ao criado, que a levava embora. Esse cerimonial era cumprido toda vez que o rei queria comer ou beber qualquer coisa, fazendo de uma simples refeição um ritual complicado e demorado.


Madame de Maintenou como uma jovem mulher. Amante de Luís XIV. Artista desconhecido

Outras regras de comportamento definiam os poucos que mereciam sentar-se na presença do rei e os que deveriam permanecer em pé. Entre os que se sentavam também havia uma hierarquia, marcada pelo tipo de assento indicado para cada um - do simples banquinho até cadeiras maiores e mais confortáveis. Somente para alguns poucos representantes e governos estrangeiros o rei concedia o privilégio supremo de cumprimentar tirando o chapéu.


Retrato de Luís XIV da França. Artista desconhecido

A transformação da vida cotidiana do rei em espetáculo servia para seduzir os nobres, que se sentiam poderosos pela participação nessas cerimônias assistidas por todos. Além disso, as regras rígidas de etiqueta utilizadas nessas cerimônias reforçavam a hierarquia do poder na França absolutista, no centro da qual estava o rei.

DREGUER, Ricardo. TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 18-19.

NOTA: O texto "O cotidiano do rei Luís XIV e o absolutismo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 6 de julho de 2014

Influência da América sobre a Europa

Da América chegaram à Europa diversas plantas novas, que deviam contribuir para transformar a civilização européia, o milho, a batata, o feijão, que, até meados do século XIX, foi o único legume que na Europa nunca sofreu os ataques de praga, pois sua larva não o acompanhara na travessia do Atlântico, o morando graúdo, o tomate, a quina, o amendoim, que se desenvolveu em seguida na África tropical, a coca e finalmente um narcótico leve, o tabaco. Já no século XVII, entre seus intoxicados, gozava o tabaco a fama de afastar as preocupações, de franquear os condutos e facilitar a circulação dos humores, de preservar dos resfriados, de desopilar o baço etc. Em muitos países era um monopólio do Estado e fonte de apreciável recurso fiscal.

Pipestone Quarries, Catlin

Sobretudo, a América alterou profundamente a vida européia com seus metais preciosos e sua repartição, por meio do grande comércio marítimo, entre as sociedades européias ainda apoiadas sobretudo na terra e na agricultura. [...] Lembremos simplesmente que, por sua influência sobre o movimento dos preços, os metais preciosos da América ritmavam toda a vida econômica, social, política e, por intermédio desta, toda a vida intelectual e religiosa da Europa nos séculos XVI e XVII. Toda a vida da Europa ficou em função da atividade das minas da América.

O conhecimento dos índios americanos apenas lentamente difundiu-se e influiu no pensamento. Tomemos o exemplo da França. Inicialmente, os homens do século XVI estavam mal informados a respeito das descobertas. Informações orais chegam com a volta das expedições. Apresentavam um caráter prático, acima de tudo, e não ultrapassavam o setor das cidades litorâneas. Para além recebiam-se apenas vagos rumores. Maior influência tiveram os índios que todos os capitães, nomeadamente, desde 1504, Jacques Cartier e Villegaignon, levaram consigo para provar a veracidade de seus relatos. Em 1550, na festa brasileira dada por ocasião da entrada de Henrique II em Ruão, figuravam 50 Tupinambás e 250 marinheiros capazes de representar o papel de selvagens. Em 1557, Henrique II distribuiu, aos grãos-senhores, indígenas enviados por Villegaignon. Em 1562, em Ruão, três Tupis-Guaranis foram presenteados a Carlos IX. Montaigne tentou conversar com eles por meio de um intérprete. Em 1564, quando da entrada do rei em Troyes, figuravam no desfile os representantes de diferentes nações selvagens. Muitos índios ficaram na França, integraram-se na civilização cristã pelo batismo, na sociedade mediante o casamento. O filho do Rei Arosca, o brasileiro Essonerico, fixou-se na Normandia, herdou o nome, títulos e parte dos bens de seu padrinho Binot Paulmier de Gonneville. Tais fatos provam a aptidão intelectual dos índios para assimilar a civilização européia e testemunham a favor da unidade da espécie humana e de seu futuro. Isto não significa que, se os índios viessem em grande número, a sociedade branca deixaria de ter reflexos de defesa contra estes concorrentes às herdeiras, às terras e títulos, e que esta mesma sociedade não segregasse as raças. De qualquer maneira, estes índios divulgavam certo conhecimento relativo à sua região de origem.

Narrativas de viagem aparecem a partir de 1515. Mas não permitem distinguir claramente que se tratava de um continente novo e as assertivas pareciam confirmar, para o leitor, as narrativas da Idade Média. Jacques Cartier, provavelmente, sem se dar conta disso, sugeriu a Donnacona as afirmativas deste sobre as pessoas que não comem, só têm uma perna e voam de árvore em árvore. Em 1575, o cosmógrafo Thevet declarava que, na América do Sul, havia homens que atingiam 12 a 15 pés de altura. Descrevia, baseado nos companheiros de Magalhães, um animal com cara de criança que apenas se alimentava de vento. E chegava a afirmar ter possuído um destes animais, durante um mês. Tais relatos não exerceram qualquer influência sobre os escritores. O público preferia as lendas medievais ou as descrições do Império Turco e das Índias Orientais. Publicou-se o dobro das obras e dez vezes mais brochuras sobre os turcos, que então ameaçavam a Europa e a cristandade, do que sobre a América.

Os franceses interessaram-se mais pela América quando os projetos de Coligny a fizeram entrar nas lutas religiosas. Mas procuravam nela menos conhecimentos do que material para polêmica e continuaram a interessar-se ainda mais pelo Império Turco e pela Ásia. Entre 1580 e 1609, editam-se 80 brochuras sobre os turcos, 100 sobre os demais asiáticos e 40 sobre a América. Não obstante, as cartas de Nicolas Barre, companheiro de Villegaignon (1556), as obras do franciscano André Thevet (1557-1584), a Viagem, publicada em 1578, do pastor Jean de Léry, que se demorou dez meses na Ilha dos Franceses em 1557-1558, vulgarizaram as informações dadas pelos intérpretes, 20 a 25 franceses que haviam adotado os costumes indígenas e os apresentavam de maneira favorável. Obnubilados pela lenda da idade do ouro, desejosos de dar uma lição a seus compatriotas considerados maus cristãos, os humanistas buscaram nestes escritos, nos de Las Casas e de sua progenitura espiritual, nas conversas, falseadas pelos intérpretes, que puderam manter com os índios levados à França, os elementos da lenda do “bom selvagem”.

Montaigne é o mais notável desses autores. No capítulo “Do Costume”, utiliza os selvagens para mostrar as contradições humanas, escarnecer da família, da propriedade e da religião, declarar os costumes e a moral como outros tantos preconceitos. Recusa-se a ver que não existem contradições, mas simplesmente reações naturais a situações diferentes.

No “Dos Canibais”, declara a sociedade selvagem como a mais pura, por haver permanecido mais próxima das leis naturais. Escreve que os índios não se servem de vinho, que não praticam o comércio, que são dados ao ócio, que dançam para se distrair, que suas guerras são desinteressadas e empreendidas com o objetivo de conquistar glória. Esquece, é claro, sua tendência à embriaguez, sua sodomia, é indulgente para com seus incestos e desculpa sua antropofagia institucional, sob o fundamento de que os europeus, levados pela paixão, chegaram a queimar vivos os seus inimigos. Para ele, os selvagens deveriam servir-nos de modelos: nós é que somos os bárbaros.

O “bom selvagem”, este personagem mítico, que vive em liberdade, seguindo sua natureza, guiado por seu prazer, ocioso, despreocupado inocente, sem malícia, sem propriedade, sem governo, alegre, feliz, estava destinado a uma espantosa fortuna. Caber-lhe-ia abrir caminho para os libertinos Pierre Charron, La Mothe Le Vayer, contribuir para o abalo dos espíritos e para a crise do século XVII, inspirar em seguida os “filósofos” e os anticolonialistas do século XVIII, para triunfar com Jean-Jacques Rousseau. A corrente de ideias provenientes da América contribuiria para orientar a civilização européia, movida pelo ouro e pela prata americanos.


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 141-144. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da América sobre a Europa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Influência da Europa sobre a América

No fim do século XVII, a transformação da América pela Europa já era sensível. Os europeus haviam introduzido no Novo Mundo animais e plantas até então desconhecidos: pombos, galinhas, patos, vacas, cavalos, asnos, mulos, cabras, ovelhas, trigo, centeio, arroz, laranjeira, limoeiro, oliveira, vinha. Tinham transmitido o conhecimento de suas técnicas, especialmente a roda e os derivados, todos os instrumentos e mecanismos baseados no movimento circular, uma das bases da civilização do Velho Mundo, e a abóbada, condição das principais construções européias. O aspecto geográfico de muitas regiões americanas já se transformara. Não obstante, as lavouras, os rebanhos, os edifícios e as estradas dos europeus estavam ainda mal disseminados em faixas costeiras, em zonas restritas ou linhas dispersas. O homem branco limitara-se a encetar este gigantesco continente.

O homem branco levara para a América as instituições de seu torrão europeu. Mas, num meio e em circunstâncias novas, tais instituições transformaram-se, dando origem a sociedades diferentes da mãe-pátria, a verdadeiras nações que possuíam todas, em diversas gradações, seus costumes, maneiras próprias de acionar instituições aparentemente análogas às de suas regiões de origem, seus interesses, suas preocupações, um desejo de levar vida própria e de regular por si mesmas seus negócios, um espírito de particularismo e autonomia. Mas tais nações, segundo suas origens e circunstâncias de evolução, diferiam profundamente umas das outras. Desde as colônias espanholas, levadas pela recessão das correntes comerciais a voltar para um regime dominial, senhorial e vassálico, mais próximo da Idade Média europeia do que da metrópole no século XVII, até as colônias inglesas, onde as diversidades religiosas, a livre iniciativa e o grande comércio criaram todas as formas de burguesia, cadinho de experiências políticas que rapidamente ultrapassam as da metrópole, representativos e parlamentares do futuro, passando pelas colônias francesas e portuguesas, em estágios intermediários, estende-se um magnífico campo de pesquisa e reflexões experimentais para o historiador empenhado em compreender as condições de existência dos diferentes regimes políticos.

Incomparável é também o campo de pesquisa aberto pelo contato destas sociedades brancas com os índios e os negros. De fato, nenhuma sociedade branca teve êxito na assimilação e talvez nenhuma tenha verdadeiramente tentado. Negros e índios encontravam-se em níveis de civilização que os europeus haviam sucessivamente atingido na Europa. O problema consistia em levá-los, em algumas décadas, através de todos os estágios percorridos pelos europeus em mais de trinta séculos: e não houve solução para isto. Um resultado do contato das sociedades brancas mais evoluídas com as sociedades índias que o eram muito menos foi a desorganização e a desagregação destas, a redução do número ou o desaparecimento de seus membros. Outro foi a transferência de considerável número de negros da África, a constituição de uma raça inferior, escrava ou desprezada. Os negros puros passaram por incapazes de assimilar a civilização européia, por mansos e sem iniciativa. Aos mestiços, numerosíssimos, concedeu-se uma verdadeira inteligência, mas uma espécie de instabilidade mental. Um resultado considerável foi a transformação das sociedades europeias da América espanhola, portuguesa, francesa, inglesa nas Antilhas e na parte tropical da América do Norte, quer pelos cruzamentos e pelo afluxo de sangue novo, quer pela sua situação de senhores no meio de escravos, ou de senhores chefiando servos. Os hábitos novos daí resultantes e a influência dos povos de cor sobre seus senhores brancos constituem assunto ainda pouco estudado.


A cativa, Eanger Irving Couse

Já esteve em moda opor as colonizações espanhola e francesa, humanas, preocupadas com o indígena, e o seu progresso, o seu porvir, à colonização inglesa, brutal, orgulhosa destruidora do índio. É certo que o governo inglês não demonstrou o mesmo cuidado de assimilação que os governos espanhol e francês. É certo que os colonos ingleses mostraram ser menos aptos a abandonar seus hábitos de espírito e seu gênero de vida, a compreender os indígenas e possuir menos vontade de tentar algo neste sentido, menos facilidade de se unir pelo casamento às mulheres indígenas, uma repugnância em viver a vida dos índios, mais altivez e maior cupidez no lucro. O espírito puritano só complicava as coisas. Thomas Morton, fundador de Mont-Joyeux, foi expulso do Massachusetts porque seus colonos e ele se entregavam, juntamente com os índios, a bebedeiras e a danças endiabradas, à moda índia. O puritanismo viu facilmente nos índios representantes dos Madianitas e Amalecitas dignos de extermínio e no feliz usurpador das terras índias um eleito de Deus. Os franceses, portugueses, espanhóis conviviam de melhor boa vontade com os indígenas. A maleabilidade dos franceses, sua capacidade de adotar os costumes dos índios e para se tornarem bem-vindos em seu meio ficaram proverbiais.

Contudo, mais talvez do que do caráter e da religião, a atitude dos diferentes colonizadores dependeu das circunstâncias e do modo de produção. Nas Antilhas, frente aos negros, os franceses mostraram-se tão racistas quanto os ingleses, embora os negros, via de regra, gozassem de melhor sorte nas colônias francesas. Nas estepes mexicanas, os espanhóis trataram os Chichimecas de maneira semelhante à que os pioneiros ingleses adotaram com os Abenakis ou os Creeks e, mais tarde, os Sioux. No Canadá, os franceses entendiam-se com os índios e, em certa medida, uniam-se às suas filhas, mas os brancos constituíam um punhado apenas e necessitavam dos indígenas. Como teriam procedido, se se vissem, como no Massachusetts, por volta de 1670, em número de 80.000 contra 12.000 índios, com grande necessidade de terras e com os territórios de percurso dos indígenas encravados no meio das lavouras dos brancos? Os ingleses, relativamente numerosos, pouco a pouco repeliram e destruíram os indígenas, tanto mediante o desbastamento do território de percurso onde fugiam os animais de caça, como pela guerra. Os defensores da civilização agrícola multiplicaram-se e privaram de meios de existência, de espaço vital, os praticantes da civilização seminômade dos caçadores, destinados a desaparecerem paulatinamente. Mas os espanhóis, e mesmo os franceses, em geral, subordinaram mestiços e índios a uma sociedade branca dominante e, por outro lado, justapuseram no espaço estas sociedades estratificadas de predominância branca, com tribos indígenas assujeitadas ou protegidas, que permaneceram mais ou menos à parte. Os mestiços subsistiram como indivíduos de segunda categoria, batedores de floresta ou guardas de haciendas ou estâncias. A verdadeira assimilação, a que consistira, para os índios de puro sangue, na adoção de costumes, línguas, trajes, práticas, religião e espírito europeu, reduziu-se a exceções individuais. O problema mantêm-se de pé, para o historiador: a assimilação, desejada a distância pelos homens de gabinete por razões de princípio, crença cristã na igualdade fundamental dos homens, interesse nacional e monárquico, não foi levada avante seriamente, de fato, pelos coloniais. Seria possível?


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 138-141. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da Europa sobre a América" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.