"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador História mundial: culturas e civilizações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História mundial: culturas e civilizações. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Os anglo-saxões e os "outros" povos no fim do século XIX

Por toda a parte, o preconceito racial impede a união dos anglo-saxões com os homens de cor; raramente notamos a superação do preconceito e o tratamento na base de igualdade.

Na América do Norte havia homens de alta estatura, nariz aquilino, cabelos negros e lisos, pele amarela, denominados impropriamente peles-vermelhas ou índios pelos imigrantes. Pescadores de salmão e caçadores de caribu no nordeste, caçadores de bisão e agricultores no centro (a civilização do milho surge entre os Grandes Lagos e as Rochosas centrais), sedentários no sudeste: uma grande variedade de organizações políticas, desde a tribo isolada até as grandes confederações guerreiras. Talvez um milhão de "selvagens" no início.

A velha trilha do búfalo, 1900. Henry F. Farny

A alternativa é o transplante ou o morticínio. O colono não terá descanso enquanto não for resolvida esta dificuldade da fronteira. Em seguida, intervém a lei de 1897, objetivando a participação mediante concessões definitivas de terras, pela melhoria das condições higiênicas e pela instrução: a última revolta é de 1890; o último "território índio" desaparece em 1905. Os sobreviventes - menos de meio milhão - curvam-se à lei comum ou confinam-se nas "reservas".

Os emigrantes, 1902-1906. Frederic Remington

Polinésio de origem, feroz e artista, o Maori também só se submeteu à autoridade neozelandesa após lutas encarniçadas. Cultiva o milho e a batata em terras indivisas, adota de bom grado os trajes europeus, converte-se ao cristianismo e aprende a falar o inglês.

Povos aborígenes pescando e acampando em Merri Creek, 1864. Charles Troedel

De natureza suave mas miserabilíssimos, os primitivos australianos viram-se repelidos para os desertos, longe das zonas abundantes em caça. Verdadeiras caçadas com matilhas foram contra eles organizadas pelos brancos, com o auxílio de uma polícia negra. Não constituem, atualmente, mais do que uma minoria, insignificante pelo número, mas digna de interesse para o cientista.

Família aborígene viajando, 1925. W.A. Cawthorne

Os europeus haviam chegado à África Austral, enquanto as migrações das tribos bantos continuavam, fora da zona intertropical, do lado das montanhas e dos altos planaltos, livres da mosca tsé-tsé, próprios à criação de gado e ricos em caça. As longas e mortíferas guerras cafres testemunham a resistência à ocupação branca. Mas, à medida que se enfraquece esta resistência armada, mais numerosos são os negros que se submetem às condições impostas pelos brancos; a exploração das minas aumenta ainda o contingente dos proletários de cor. Os mais penosos ofícios atraem, aliás, os hindus e os malaios, tratados da mesma maneira e considerados intrusos pelos outros elementos. O receio das raças, por eles exploradas e consideradas inferiores, não contribui pouco para, finalmente, aproximar bôeres e britânicos.

Uma inquietude da mesma natureza brota entre os australianos frente aos asiáticos, chineses na maioria, pouco numerosos, sem dúvida, mas hábeis no comércio, nos pequenos ofícios e mesmo na agricultura. Já em 1855, esta inquietude suscita as primeiras restrições à entrada de amarelos; um homem público neozelandês qualifica sua concorrência como "suja, contrária à natureza, injusta".

Encontra-se idêntica preocupação entre os americanos do oeste, relativamente ao afluxo dos chineses. Estes surgiram por ocasião do rush aurífero: agências recrutavam-nos em Macau e Hong-Kong, empregavam-se nas oficinas das estradas de ferro. Mas eram afamados cozinheiros e domésticos, procurados para limpeza da roupa branca, aptos para a criação do bicho-da-seda e perspicazes comerciantes. Violando um acordo com a China, a Califórnia não hesita, em 1882, em proibir sua imigração, medida que foi aprovada pela Corte Suprema. Mais tarde a legislação ocupar-se-á dos japoneses.

Livre desde a Guerra de Secessão, o negro americano tornou-se em princípio, um cidadão como os outros. Mas a escravatura e a sangrenta discórdia deixam traços e lembranças tenazes. Durante a era da "reconstrução" vingadora, os homens da Secessão reorganizam-se, respondem com a violência e a intimidação a algumas violências cometidas pelos antigos escravos (trata-se da época do Ku-Klux-Klan), reconquistam suas legislaturas e limitam o mais possível os direitos concedidos aos homens de cor pelas emendas à Constituição. Assim vivem as duas raças lado a lado, uma sempre imbuída de sua superioridade e hostil à qualquer mistura, submetendo a outra a humilhante segregação. Embora o número de negros diminua relativamente à população total (12% em 1890, contra 14% em 1860 e perto de 20% em 1790), seu total eleva-se ainda, trinta anos após a guerra civil, a 6 milhões e meio, aos quais devemos acrescentar cerca de um milhão de mulatos. E esta minoria tende, inicialmente, a agrupar-se na região do Golfo do México: segregação geográfica que agrava a outra.

Vida de negro no sul, ca. 1870. Eastman Johnson

Os negros, em sua maioria, voltaram a trabalhar nas explorações, como locatários ou como jornaleiros. [...]

Niggers plant de cotton
Niggers pick it out
White man pocket money
Niggers go without.

Missus in de big manse
Mammy in de yard
Missus holding her white hands
Mammy workin' hard.

White man in starched shin
Setten in de shade
Laziest man God ever made.

As catadoras de algodão, 1876. Winslow Homer 

Delineia-se um movimento, é verdade, tendo por fim permitir aos negros uma melhor defesa de suas possibilidades na batalha social. Uma elite pode, graças à instrução, dedicar-se a profissões liberais. Em 1882, o homem de cor é admitido no corpo médico, em 1889 na advocacia. Por vezes baja-se o êxito nos negócios, torna-se comprador de imóveis e de bens de raiz, que aluga, por sua vez. O apostolado de educadores, dos quais o mais célebre, Bugre Washington, funda a universidade negra de Tuskegee, principia a dar frutos por volta de 1900. Mais numerosos, porém, são os que deixam a terra para tentar fortuna entre os brancos de outras regiões; e o racismo, longe de perder sua virulência, expande-se com eles. Seja como for, o mundo americano está todo penetrado desta presença ao mesmo tempo indesejável e inevitável; não poderá evitar, no jazz, a dívida ao folclore africano e a exibição de boxadores da raça desprezada.

SCHNERB, Robert. O Século XIX: as civilizações não-eruopeias. o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 30-32 e 35.

sábado, 14 de junho de 2014

A invasão dos povos do mar e a ruína dos grandes Estados

Mais ou menos no fim do 13 século a.C. nova invasão, efetuada pelos dórios (arianos vindos da Ilíria) submergiu a Grécia (com exceção da Ática), Creta, o Helesponto e a costa da Ásia Menor. Guerreiros feudais, destruíram tudo à sua passagem. A talassocracia egéia desmoronou, ao passo que as populações de marinheiros dos territórios invadidos lançaram-se ao mar: o seu êxodo apareceu em todo o Mediterrâneo oriental como verdadeira invasão dos povos do mar.


Relevo dos prisioneiros filisteus.
Templo mortuário de Ramsés III, Medinet Habu, Necrópole de Tebas, Egito. 
Foto: Rémih 

Sob essas forças conjugadas, o império dos hititas se decompôs.

O Egito só reagiu quando ele próprio se viu ameaçado. Rechaçou a invasão na fronteira da Líbia e reconquistou, por outra parte, a Palestina para reforçar desse lado as defesas externas do país.

Mas a suspensão do comércio internacional provocou no interior do país grave crise econômica. Privado dos recursos do imposto, o poder real precisou conceder novos privilégios ao clero. As populações semidominadas instaladas a leste do Delta, revoltaram-se e foram expulsas do país (foi nessa ocasião que se situou o êxodo dps israelitas).

A fim de defender-se contra as incursões, as cidades do Delta cercaram-se de fortificações. O poder real desagregou-se cada vez mais, em proveito das cidades do Baixo Egito e dos templos do Alto Egito.

Sob o reinado de Ramsés III (1198-1166) a frota egípcia, que permanecera intacta, infligiu pesada derrota às forças navais dos povos do mar, ao passo que o exército terrestre egípcio derrotava os assaltantes na fronteira síria.


Relevo dos prisioneiros asiáticos. 
Medinet Habu, Necrópole de Tebas, Egito. 
Foto: Rémih

Vencidos, os exércitos dos invasores se desmembraram. Mas o Egito, que soubera defender as suas fronteiras, perdeu os restos do seu império.

Os filisteus conseguiram manter-se no litoral da Palestina, ao mesmo tempo que os hebreus ocuparam as suas montanhas, depois de haverem errado durante quarenta anos no deserto, e ali se organizaram em doze tribos. A sociedade tribal deles, no espaço de um século, se transformaria numa sociedade baseada num regime familial, em cujo seio a personalidade individual começaria a destacar-se nos quadros de uma realeza unificada.

Na fronteira da Líbia, por outro lado, a invasão do Egito pelos povos do mar mudou de aspecto. Fez-se pacífica, tendo o faraó aceito a instalação dos recém-chegados no delta do Nilo, e recrutando mercenários entre eles, que passariam a defender o Egito contra as invasões do norte e constituiriam a própria guarda do rei.

Relevo dos prisioneiros. 
Ramsés III e Amon. Medinet Habu, Necrópole de Tebas. 
Foto: Rémih

Graças ao comércio marítimo com a Fenícia, que persistiu, os portos do Delta se reanimaram. Mas o Alto Egito fugiu cada vez mais à autoridade do rei para cair sob a autoridade dos templos, até o momento em que a monarquia se cindiu em dois Estados: o Alto Egito, dominial e concentrado numa economia senhorial fechada; e o Baixo Egito, dominado pelas cidades mercantis e orientado para o mar. Quanto à Núbia. O seu vice-rei a transformou, em proveito próprio, num principado independente.

O que restava da antiga monarquia arruinou-se rapidamente. Tebas, a antiga capital, passou por uma crise social profunda. Como as finanças reais já não permitissem o pagamento dos salários, grandes greves estouraram; despovoou-se a cidade, a burguesia comercial transportou-se para Tânis, capital do Baixo Egito. A miséria espalhava a venalidade, desmoralizava os juízes e impelia a classe obreira para o banditismo. Como o rei já não dispusesse de nenhum poder real, os chefes mercenários líbios e aqueus se arrogaram o governo das cidades do Baixo Egito e, logo depois, faziam figura de príncipes feudais.

Quando, em 1100, uma revolta estourou em Tânis, o rei Ramsés XI precisou refugiar-se em Tebas, sob a proteção do sumo-sacerdote de Amon Hérithor, que desempenhou, a partir de então, o papel de prefeito do palácio e, pouco tempo depois, assumiu o título de rei (1085).

O Egito mergulhou num novo feudalismo.

Na mesma época, porém, os hebreus se uniam numa confederação sob o mando de um chefe eleito, o sumo-sacerdote Samuel (1075-1045), para lutarem todos juntos contra os cananeus e os filisteus. Apoiada a princípio no culto, a realeza destacou-se dele com Saul (1044-1029); tomou um caráter militar e hereditário com David (1029-974). Jerusalém, conquistada aos cananeus, tornou-se residência real. Nascera um novo Estado monárquico.

Os etruscos e os sículos, que, como os filisteus, tinham buscado refúgio na costa mediterrânea da Ásia Menor, aí não conseguiram fixar-se. Os primeiros emigraram para a Itália, onde criaram cidades, e implantaram a civilização egéia, ao passo que os sículos se estabeleceram finalmente na Sicília.

Do reino hitita, completamente desagregado, restavam tão-somente uns pequenos Estados feudais no norte da Síria. Dois dentre eles, a Frigia e a Mísia, se acabariam unindo mais tarde para formar o reino da Lídia.

Por outro lado, a invasão do vale do Tigre e do Eufrates pelas tribos araméias, outrora instaladas entre a Síria e a Mesopotâmia e empurradas para essa região pelas invasões dos povos do mar, provocara uma crise profunda em toda a Mesopotâmia, desorganizando as estradas do comércio de caravanas. A monarquia babilônica, por sua vez, já lhe sofrera os contra-golpes. Ela caiu sucessivamente nas mãos dos pequenos reis de Susa, descidos dos planaltos do Elão (1170), em seguida nas mãos dos príncipes semi-bárbaros vindos de Sumer (1038), suplantados por seu turno pelos elamitas (996).

Respeitados pelos invasores, os templos dos arredores de Babilônia se transformaram, como aconteceu no Alto Egito, em principados senhoriais. Aqueles obtiveram, como estes, privilégios de imunidade. No delta do Tigre e do Eufrates, as cidades, arruinadas pelo assoreamento, já não eram mais do que cidades sacerdotais, nas quais os sumos-sacerdotes exerciam uma autoridade de verdadeiros príncipes. O país se dividiu em pequenos principados.

Somente Babilônia conservou a sua numerosa população burguesa e as suas instituições urbanas. Mas debalde, com Nabucodonosor I (1146-1123), tentou reconquistar a grande artéria comercial do alto Eufrates. Sem embargo disso, permaneceu, durante três séculos, uma ilhota de direito individualista no meio de um país entregue às desordens dos príncipes bárbaros, cuja autoridade aceitou para preservar a sua atividade econômica. Continuou sendo, apesar de tudo, o local das trocas entre os produtos trazidos da Ásia pelos caminhos das caravanas e os que lhe chegavam dos portos mediterrâneos, alimentados pela navegação fenícia.

Quanto à Assíria, depois de haver levado os seus exércitos até a costa síria sob Teglatefalasar I (1116-1090), não ousou enfrentar as poderosas cidades fenícias e voltou a encerrar-se no interior dos seus limites nacionais, nos quais se manteve na defensiva até o 9º século a.C.

Em toda a parte, os grandes Estados monárquicos haviam dado lugar a Estados feudais; em toda a parte, a vida econômica internacional se concentrara nas cidades; ilhotas de direito individualista no meio da economia fechada dos domínios senhoriais, que viviam na insegurança das guerras feudais constantes.


PIRENNE, Jacques-Henri. Panorama da História Universal. São Paulo: Difel, 1973. p. 31-34.


NOTA: O texto "A invasão dos povos do mar e a ruína dos grandes Estados" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mundos imaginados: utopias e distopias

Procurando na história mundial os mundos imaginados, encontraremos as previsões de sociedades ideais tão antigas quanto as primeiras expressões do pensamento humano em tradições escritas e orais e nas artes. Os desenhos mitológicos das origens dos mundos natural e humano eram explicações, provenientes da experiência do mundo e da imaginação. Incorporadas nesses mitos estavam ideias de família e vida comunitária: como as pessoas deveriam viver juntas, compartilhar recursos e escolher líderes entre si. A religião inspirou a imaginação de mundos além do reino da experiência humana, e esses mundos incorporaram a completa realização do que significava ser humano, bem como as mais terríveis provações que um ser humano podia sofrer. Seja no budismo, no cristianismo ou no islamismo, a percepção de um paraíso e de um inferno encorajou as pessoas a acreditar e praticar suas crenças como indivíduos e como membros de uma comunidade.


A idade de ouro, Lucas Cranach

Visões religiosas também inspiraram movimentos milenares que projetaram esperança em uma nova era – a chegada do milênio que conduziria a um novo mundo – e exortava os seguidores a agir para chamar a nova era. Os movimentos milenares são encontrados ao redor do mundo em muitos contextos religiosos diferentes, incluindo budistas e cristãos, assim como em numerosas tradições sincréticas. Eles surgem das diferentes condições históricas e frequentemente tornam-se violentos, como resposta à opressão social, política e econômica. Houve movimentos milenares cristãos na Europa medieval e alguns movimentos budistas na China medieval. A grande Rebelião de Taiping, na metade do século XIX, na China – resultou na morte de, talvez, 20 milhões de pessoas – aglutinou-se sob a liderança de Hong Xiuquan (1811-1854), que teve uma visão de que ele seria o irmão mais novo de Jesus Cristo, enviado por seu pai para trazer o povo chinês de volta à sua crença original em Deus e para criar um “Reino Divino da Grande Paz (Taiping)”. Índios Arawakan, do noroeste da Amazônia, seguiram um xamã indígena e líder milenar, Venancio Kamiko, durante os anos de 1850, para resistir contra o controle colonial sobre seu mundo. No Congo, um movimento milenar originou-se com as reivindicações de uma jovem garota congolesa de que ela seria Santo Antônio, na primeira década do século XVIII. Beatriz Kimpa Vita anunciou que ela veio para ensinar a verdadeira religião: os padres eram impostores, Deus e seus anjos eram negros, e o reino dos céus era próximo da pátria congolesa, onde Cristo realmente havia vivido e morrido. Sugerir uma alternativa tão radical em meio ao confronto de culturas era algo perigoso, e o fundador do movimento foi executado. Contudo, o movimento sobreviveu e tornou-se a primeira Igreja sionista africana; o nome “Sião” refere-se à cidade bíblica que era um símbolo de esperança.

Juntos, visionários religiosos, filósofos, artistas, historiadores e escritores de todo o mundo produziram visões seculares de sociedades perfeitas. Em sua obra República, o filósofo grego Platão (427-347 a.C.) descreveu o Estado ideal como uma nação governada por um rei-filósofo. O mundo material dos fenômenos, acreditava Platão, é um mundo de sombras vagamente refletidas a partir do mundo real das ideias. É esse mundo das ideias que os reis-filósofos compreendiam e no qual estavam qualificados para governar. Além do mundo das coisas e das experiências, compreendido pelos sentidos, há outro, um mundo fundamental das formas e tipos eternos. Para tudo que experimentamos por meio dos sentidos há uma essência dessa realidade imutável, independente dos “acidentes” materiais que as cercam. Os “acidentes” da vida cotidiana são transcendidos por essências e formas eternas, as quais são objetivos de conhecimento. O rei-filósofo é, por educação, senão por desejo, capaz de guiar o Estado para sair desse caos e das ilusões do mundo externo dos fenômenos sentidos para a ordem e os modelos eternos.

O filósofo chinês Confúcio, no sexto século a.C., ensinou que a sociedade ideal existiu no passado, sob o governo dos reis sábios da antiguidade. A noção do Mandato Divino, que se desenvolveu como a sansão para governar na China imperial, significava que a responsabilidade do governante era de manter a ordem do Paraíso na sociedade humana; se e quando um governante falhasse, então o Mandato era declinado para um novo imperador. O essencial para a harmonia da sociedade, para Confúcio e seus seguidores, era a realização adequada do ritual e das práticas cerimoniais elaboradas em uma compilação de textos do final do primeiro século a.C. e do século I d.C. Nesse texto, o Livro dos Ritos, a sociedade sob os reis sábios da antiguidade é retratada como uma era de “Grande Harmonia”, na qual todos tinham suas próprias tarefas e seu lugar, todos eram cuidados de acordo com suas necessidades. Esse ideal foi ressuscitado, no final do século XIX, pelo reformador chinês Kang Youwei (1858-1927), que promoveu a sociedade ideal da Grande Harmonia como algo central ao pensamento confucionista. Ele argumentou que Confúcio teria dado apoio às reformas modernas de Kang, defendendo que eles teriam vivido na mesma época.

O termo “utopia”, usado para descrever uma sociedade ideal, foi cunhado, a partir do grego, por Sir Thomas Morus, ao escrever sobre um mundo imaginário em uma ilha, Utopia (1516), onde a propriedade privada não existia e a tolerância religiosa reinava. Como muitas utopias, essa foi inspirada pelas observações do escritor sobre seu mundo contemporâneo, mas também por relatórios do “Novo Mundo”. Escrito quase um século depois da Utopia de Morus, a peça de William Shakespeare, A tempestade (1611), ocorreu em uma ilha, referida como o “bravo novo mundo”, onde “não havia necessidade de trabalho, de ricos ou de pobreza”. Para os europeus, esse Novo Mundo era um espaço virgem, um paraíso preenchido pela promessa da possibilidade humana; para os povos indígenas do Novo Mundo, a presença europeia trouxe a morte e a destruição.


Mapa: ilha de Utopia

Fazendo par com o conceito de utopia está o de distopia, o mundo imaginado oposto, de total privação e miséria. Durante muito tempo sob o domínio de escritores de ficção científica, uma das mais conhecidas distopias é a de George Orwell, em sua obra 1984 (1949), na qual o personagem principal é gradualmente privado de sua humanidade individual para ser absorvido pelo “grande irmão (Big Brother)” do Estado totalitário do século XX. O romance distópico de Aldous Huxley, Admirável mundo novo (1932), retirou seu nome da frase utilizada por Shakespeare em A tempestade, e retratou um mundo onde todas as necessidades humanas são satisfeitas e não há guerra ou pobreza, mas também não há religião, filosofia, família ou diferença cultural para enriquecer a vida humana. Drogados em soma, as pessoas da obra de Huxley escapam de qualquer coisa desagradável, incluindo emoções e memórias dolorosas. Conforme o romance de Huxley Admirável mundo novo vai sendo esclarecido por meio da retração de um mundo utópico que, na verdade, é distópico, visões de sociedades ideais – libertação do desejo, da fome e do medo – nem sempre produzem resultados desejáveis. Os avanços tecnológicos que tornaram possíveis os mundos descritos por Orwell e Huxley foram um produto da Revolução Industrial, que gerou suas próprias visões paralelas de utopia e distopia.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 340-342.

NOTA: O texto "Mundos imaginados: utopias e distopias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Século XX: retrospecto

O século XX foi dividido em duas partes, com diferenças extraordinárias entre elas. Começou com um otimismo incomum, diminuindo logo nas primeiras décadas. Aconteceram duas guerras mundiais e uma depressão econômica de magnitude sem igual. Nos países prósperos, o padrão de vida quase não aumentou ao longo de cinqüenta anos. Nos países pobres, poucos sinais de melhora se fizeram notar.


Banhistas de South Beach, John French Sloan

A corajosa ideia da Liga das Nações, que deveria prevenir guerras internacionais, falhou. A democracia, que, entre 1900 e meados da década de 1920, havia se espalhado amplamente entre os povos europeus, não obteve o sucesso esperado. Ao contrário, possibilitou que Mussolini, Hitler e outros ditadores dessem seus primeiros passos rumo ao poder: eles praticamente receberam carta branca dos parlamentos eleitos. As mais importantes democracias, cujos cidadãos pouco se importavam com assuntos externos, falharam ao permitir que a Alemanha hitlerista se rearmasse. Em 1940, a França se tornou a primeira grande democracia a cair diante de um inimigo – um colapso inesperado.

Ainda havia razões para otimismo na primeira metade do século. A experiência comunista, profundamente encobertas pela censura russa, era vista por centenas de milhões de estrangeiros como emocionante ou assustadora. A União Soviética mostrou grande resistência na Segunda Guerra Mundial, sofrendo as mais pesadas perdas entre todas as nações e desempenhando um papel vital ao expulsar o exército alemão de volta para Berlim. Outro surto de otimismo foi provocado por diversas invenções: o avião, o carro fabricado em larga escala, o rádio, o cinema, a televisão e a geladeira. Esses foram os alicerces da sociedade de consumo que viria a florescer na segunda metade do século.

Algumas instituições avançaram, enquanto outras – incluindo a monarquia – retrocederam. A democracia foi muito mais bem-sucedida na segunda do que na primeira metade do século, já que não enfrentou tantas provações como acontecera nas décadas de 1920 e 1930. Em 1901, a democracia ainda era rara; somente poucas nações davam a todos os homens o direito de votar e nenhuma permitia que as mulheres votassem ou concorressem ao parlamento. Mesmo em 2001, a verdadeira democracia continuava a ser um corajoso experimento, apesar da história da antiga Atenas. Tal modo de governo requer um grande acúmulo de experiência, tanto por parte de políticos quanto de eleitores.

O individualismo político e econômico, bem como o prestígio das democracias capitalistas recuaram muito durante a primeira metade do século, para mais tarde reaparecerem fortalecidos. O comunismo, por sua vez, encontrou o precipício. O movimento ecológico, pouco visível em 1950, tornou-se tremendamente influente meio século mais tarde. A noção de que o mundo diminuía e de que os povos de todos os continentes respiravam o mesmo ar se difundia. As comunicações cruzaram o globo como raios. Pela primeira vez na história, a maioria das pessoas, em vários países, vivia em cidades, e não na zona rural, trabalhando em outras atividades que não aquelas relacionadas ao campo ou às fábricas.

A Europa começou o século dominando e acabou em segundo lugar. Os vastos impérios ultramarinos cujos governos estavam na Europa Ocidental foram extintos ou continuaram apenas em poucas ilhas distantes, mantidas como curiosidades ou ornamentos. Do desaparecimento desses impérios emergiram várias nações independentes, sobretudo na África e na Ásia, mas muitas delas não sabiam o que fazer com sua independência. No início do século, os Estados Unidos saíram cautelosamente de seu prolongado isolamento; no fim, prevaleciam como a única superpotência. A Ásia exercia pouca influência nos primeiros anos, mas, a partir da metade do século, sua crescente importância se fez notar em diversos grandes eventos – desde o bombardeio nuclear no Japão até a independência da Índia e a vitória do comunismo na China. Foi na Ásia Meridional que, pela primeira vez, mulheres foram eleitas para o cargo de primeiro-ministro.

A China e a Índia, dois gigantes em matéria de população, eram vistas cada vez mais como líderes mundiais em potencial, mas os tortuosos acontecimentos do século anterior ainda não haviam esclarecido uma questão crucial: uma grande população e um vasto território bastariam para que um país conseguisse exercer domínio global? A Grã-Bretanha havia sido um enorme império; por outro lado, a Alemanha e o Japão, com apenas uma fração da população do planeta, haviam derrotado ou desafiado os exércitos de alianças entre nações durante vários anos; e Israel, mesmo cercado, manteve todo o Oriente Médio em clima de apreensão.

Na segunda metade do século, foi realizada a exploração do espaço sideral, a aventura mais destemida desde que Cristóvão Colombo e Vasco da Gama atravessaram os oceanos cerca de quinhentos anos atrás. Nunca houvera semelhantes avanços na medicina. As pessoas viviam por mais tempo, com menos sofrimento e mais acesso a bens materiais. Saber ler e escrever era uma exceção em 1901; em 2001, a regra. Embora o planeta enfrentasse muitas carências, elas eram bem menores em relação ao início do século. As questões da superpopulação e da poluição passaram a ser encaradas e a identificação desses problemas sinalizava o surgimento de uma consciência inexistente em 1901.

A disposição predominante era permeada pela guerra e pelo medo da guerra. Na primeira metade do século, diversas vezes as nações tomaram a importante decisão de ir à guerra. Na segunda metade, tomaram a decisão – igualmente importante – de não ir.

Após o fim da Guerra da Coréia, em 1953, não houve outro conflito geral que envolvesse a maior parte das grandes potências. Embora disputas entre nações fossem travadas em quase todos os lugares depois de 1950 – havia mais nações do que nunca -, nenhum desses conflitos se assemelhou a uma guerra mundial. A primeira metade do século testemunhou duas grandes e destrutivas guerras. A segunda metade evitou-as, milagrosamente.

Especula-se que a invenção das mortíferas armas de 1945 e o temor de uma terrível vingança, caso fossem usadas, tenham sido os principais motivos da longa paz entre as grandes potências nucleares, mas não se pode ter certeza. A grande questão do século XXI é justamente saber se a paz atômica irá persistir e, comparados a tal questão, todos os outros problemas perdem a importância.

Em 3 de agosto de 1914, na eclosão da Primeira Guerra Mundial, o ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, sir Edward Grey, observou solenemente: “As luzes se apagam por toda a Europa, não devemos tornar a vê-las acesas enquanto vivermos.” Mas, com o passar do tempo, as luzes voltaram a brilhar na Europa e em todo o mundo, mais poderosas do que nunca – ao mesmo tempo um prodígio e um perigo.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 304-307.

NOTA: O texto "Século XX: retrospecto" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As migrações bárbaras

O encontro entre Átila e o Papa Leão I, Rafael Sanzio

Desde a República, os contatos entre as populações germânicas e o Mundo Romano são mencionados pelos escritores romanos. Esses contatos por vezes eram violentos: em fins do século II a.C., címbrios e teutões invadiram e pilharam a Itália até serem vencidos pelas legiões de Mário em Aix-en-Provence (102 a.C.) e Vercelli (101 a.C.); no século I a.C., o Imperador Augusto enviou expedições para subjugar a Germânia, mas a destruição das legiões de Varo (9 d.C.) resultou no abandono da política de conquistas além do Rio Reno. Os contatos, entretanto, em sua maioria foram pacíficos: Augusto, fundador do Principado, foi quem iniciou a prática de recrutar germanos para integrar as legiões romanas. Desde os Antonino, o recrutamento não era mais de indivíduos, mas de tribos inteiras, que eram alojadas dentro das fronteiras romanas na condição de federados.

À medida que o relacionamento entre o Mundo Germânico e o Mundo Romano se intensificou, modificações processaram-se nas duas sociedades.

Nos séculos IV e V, entretanto, povos inteiros, envolvendo milhares de indivíduos, entraram em massa no Império Romano, levando o pânico e a destruição aonde chegavam. A instalação dessas populações germânicas em territórios romanos acabou precipitando a desintegração do Império Romano: no Ocidente, a antiga unidade imperial fragmentou-se em Reinos independentes, dominados por aristocracias romano-germânicas.

A invasão dos bárbaros, Ulpiano Checa

Essa movimentação de povos germânicos é comumente denominada invasões bárbaras. Essa expressão não é correta, pois "estes movimentos de povos antes são migrações que verdadeiras invasões. Se não foram pacíficas, não se inspiraram na hostilidade que pressupõe o termo invasão [...]. Constituem parte de um conjunto amplo de deslocamentos de populações, que prosseguiram até o século XV e que afetaram não só a parte ocidental do Império Romano mas toda a Europa, a Ásia até a China, e a África do Norte." (GENICOT, L.; HOUSSIAU, P. Le Moyen Âge. Tournai: Casterman, 1959. p. 17.)

Que razões determinariam essa imigração em massa nos séculos IV e V? Entre outras, a busca de novas terras para cultivo e sobretudo para criação do gado, uma vez que a tendência ao resfriamento das frias estepes (tundra) da Europa Setentrional vinha acarretando um progressivo deslocamento de povos para a Europa Meridional. Não se pode deixar de considerar também que as riquezas existentes no Império Romano funcionaram como fator preponderante para os germanos atravessarem fronteiras desguarnecidas ou precariamente defendidas: o saque ainda era uma prática bastante usual entre eles.

É inegável, porém, que foi a chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental o fator preponderante para a grande movimentação de povos germânicos: o avanço dos hunos para o Ocidente levou os germanos a recuar, buscando segurança contra esses temíveis invasores.

Os hunos eram povos tártaro-mongóis e procediam de regiões asiáticas fronteiriças à China. Não se conhecem com exatidão as razões que as teriam levado a migrar para as planícies europeias. Bastante primitivos, levaram uma existência nômade, criando seus cavalos, vivendo em carroças e tendas. Eram exímios cavaleiros e arqueiros, e seguiam um chefe que lhes garantisse vitórias capazes de possibilitar pilhagens compensadoras.

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos, a fim de destruir aí todo o germe de barba [...] Não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece, carne esta que esquentam, por algum tempo, sobre o dorso de seu cavalo entre suas próprias pernas. Não possuem abrigo. Entre eles não se usam casas, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana. Passam a vida percorrendo as montanhas e as florestas, enrijados desde o berço contra o frio, a fome, a sede [...] A cavalo dia e noite [...] dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura." (Descrição dos hunos feita pelo historiador romano Amiano Marcelino (320-390). Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 151-152.)

A chegada dos hunos às planícies da Europa Oriental provocou intensa movimentação de povos germânicos: ao se deslocarem, recuando diante dos hunos, empurravam-se uns aos outros, terminando por se espalharem pelo Império Romano.

Os primeiros a sofrer o impacto dos hunos foram os godos: incapazes de enfrentarem as velozes e ferozes hordas húnicas, os ostrogodos recuaram, obrigando os visigodos a atravessarem o Rio Danúbio (talvez em número de 200 mil) e a buscarem uma ilusória segurança no interior do Império Romano. Acolhidos como federados pelo Imperador Valente (376), a impossibilidade de alimentar tão numerosa massa humana logo transformou os visigodos em saqueadores, que, em seu avanço pelos Bálcãs, a tudo destruíam. A tentativa romana de submetê-los resultou em fragorosa derrota em Andrinopla, onde o próprio Imperador Valente foi morto (378). Era o sinal de novos tempos: a superioridade da cavalaria germânica sobre as tropas imperiais romanas.

Em fins do século IV, os visigodos, sob a chefia de Alarico, abandonaram a Trácia, onde novamente haviam se tornado federados, e recomeçaram suas andanças: pilharam os Bálcãs e se dirigiram para a Itália; tomaram e saquearam Roma (410), marcharam para o sul da Península, destruindo Cápua e Nola. A morte de Alarico paralisou-os momentaneamente.

O saque de Roma pelos vândalos, Heinrich Leutemann

Nesse meio tempo, os vândalos, suevos e alanos (406), aproveitando-se do desguarnecimento das fronteiras do Rio Reno - as legiões haviam sido deslocadas para a Itália a fim de lutarem contra os visigodos - entraram aos milhares pela Gália. Fugiam dos hunos, mas atrás de si deixavam o incêndio, a destruição. a morte... Prosseguiram até a Península Ibérica, onde foram reconhecidos como federados (411): os suevos e uma parte dos vândalos estabeleceram-se na Bética (a futura Andaluzia), enquanto os alanos ocuparam o Vale do Ebro, espalhando-se até a Lusitânia (o futuro Portugal).

"Os bárbaros arremetem pelas Espanhas. O flagelo da peste causa igualmente grande desordem. A tirania dos cobradores pilha as rendas e fortunas, escondidas nas cidades. A soldadesca as esgota. A fome campeia tão atroz que, sob o império dela, os homens devoram carne humana [...] Os animais, acostumados aos cadáveres dos que haviam perecido pela fome, pelo ferro, pela peste, matam mesmo os homens em plena força [...] Assim, os quatro flagelos do ferro, da fome, da peste, dos animais campeiam em toda a parte [...]" (Depoimento do cronista romano Idaco, que viveu no século V. Citado por COURCELLE, P. História Literária das Grandes Invasões Germânicas. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 83-84.)

Aproveitando a brecha aberta e o caos reinante na Gália, novos invasores atravessaram o Rio Reno: os alamanos apoderaram-se da Alsácia, e os burgúndios ocuparam regiões entre Spira e Worms.

No mesmo ano, anglos, saxões e jutos assaltaram a Bretanha.

Mas a paz ainda não voltara à Gália, pois nova invasão ocorreu: os visigodos, agora chefiados por Ataulfo (410-415), abandonaram a arruinada Península Italiana e se lançaram sobre a Gália Narbonesa, onde se tornaram federados (413), o que não os impediu de ocupar a Aquitânia. O assassinato de Ataulfo, que chegara a reivindicar o cargo de Imperador, provocou novas mudanças:

- os visigodos receberam a incumbência de reconquistar a Península Ibérica;
- os vândalos, expulsos da região que ocupavam, passaram ao Norte da África, onde o Reino dos Vândalos foi organizado na época de Genserico (428-477);
- os alanos, submetidos aos visigodos, fixaram-se a noroeste da Península Ibérica;
- os suevos formaram seu Reino em terras da Galícia e atual Portugal;
- os visigodos, por sua vez, criaram seu Reino que englobava a Península Ibérica e a Aquitânia (na atual França).

Parecia, enfim, que a paz retornara ao Ocidente. A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha dos Campos Mauríacos, às vezes erradamente chamada de Campos Catalúnicos. Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea, composta de legiões romanas e contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos.


Apesar de vencidos, os hunos, sempre sob a chefia de Átila, o chamado "Flagelo de Deus", lançaram-se, no ano seguinte, sobre a Itália. Cidades foram saqueadas, sendo a destruição e a ruína a marca da passagem da horda huna no caminho para nova pilhagem de Roma. Atingidos pela fome e pela peste, os hunos renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península, recedendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram, voltando ao nomadismo pastoril.

Genserico saqueando Roma, Karl Briullov

Ao longo do século V, novos Reinos foram-se organizando em meio à deposição do último Imperador do Ocidente (476) e à chegada de novos invasores, como os ostrogodos que se estabeleceram na Itália, onde o Reino dos Ostrogodos foi organizado no governo de Teodorico.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 418-422.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Relações de gênero na sociedade helenística

O sistema grego do patriarcado teve seu maior desafio quando um conjunto mais amplo de mudanças ocorreu sob o grande império estabelecido pelo conquistador macedônio, Alexandre, o Grande, a partir do século IV. Nessa época, as cidades-estado gregas estavam em declínio. Os macedônios conquistaram a Grécia e depois usaram soldados gregos, burocratas e intelectuais para construir um império abarcando Oriente Médio e Egito. Ainda que o império tenha se diluído rapidamente em reinos regionais, a mistura de elementos gregos com outros permaneceu por muitos séculos. Alexandre casou-se com uma princesa persa, para simbolizar seu desejo de forjar uma nova fusão cultural no Mediterrâneo oriental. O resultado, a sociedade helenística, foi sem dúvida diferente da Grécia clássica, embora intimamente relacionada com ela, em particular na questão cultural.

Pintura mural helenística. Século III a.e.c.

O confronto cultural mais dramático que Alexandre desencadeou foi entre os gregos e os indianos, no nordeste do subcontinente, num reino então chamado de Bactria. Por dois séculos, os gregos governaram esse reino indiano, criando muitas oportunidades de mútua imitação. Dos gregos, os indianos emprestaram estilos artísticos, pinturas do Buda com togas mediterrâneas e corte de cabelo, num padrão que resistiu na região por cem anos. Matemáticos indianos promoveram trocas com cientistas gregos para benefício mútuo - embora mostrando a grande distância entre as culturas e a fragilidade das trocas, uma vez que o sistema numeral indiano, apesar de muito superior ao dos gregos, não foi encampado. Certo número de líderes gregos em Bactria converteu-se ao budismo. Alguns missionários budistas aparentemente foram enviados para o Oriente Médio e, segundo alguns historiadores, teriam trazido novas ênfases em ética e espiritualidade que mais tarde haveriam de influenciar aspectos religiosos e filosóficos. As especificidades, no entanto, são difíceis de fixar. E nas relações entre homens e mulheres, não fica claro se o encontro entre gregos e indianos teve algum impacto sério. Possivelmente os detalhes eram diferentes demais para emergirem; possivelmente, como com Heródoto, os gregos estavam tão confiantes em seus próprios caminhos que o exemplo de outro conjunto de relações de gênero, mais sensual e espiritual, parecia irrelevante ou repelente. O contato, de qualquer forma, teve vida curta. Provavelmente há necessidade de ímpeto e troca maior para afetar valores tão pessoais como as relações entre homens e mulheres. Certamente a ausência de um resultado evidente contrasta com o tipo de troca desenvolvida poucos séculos mais tarde entre a Índia e a China.

No âmbito mais emblemático da penetração grega - Oriente Médio e Egito - a situação era diferente. As condições do helenismo para as mulheres eram, em muitos aspectos, importantes, melhores do que as que prevaleciam na Grécia, e o intercâmbio cultural tinha a ver com o contraste. As mulheres desempenhavam um papel político maior, manobrando com príncipes e algumas vezes assumindo o governo. As leis afrouxaram, permitindo que mais mulheres adquirissem propriedades e dirigissem negócios. As mulheres participaram mais ativamente na vida cultural, e surgiram muitas escritoras notáveis. Da mesma forma, textos sobre mulheres mostraram-se mais favoráveis a elas, embora não chegassem a sugerir igualdade. Por fim, representações artísticas mudaram dramaticamente, com um crescente interesse na representação do nu feminino, em contraste com o estilo pesado e coberto de roupas, característico da Grécia.

Muitos acontecimentos contribuíram para esses novos padrões. A mudança para monarquias autocráticas eliminou a pressão por famílias dirigidas pelo homem - isso não mais era visto como base para a expansão da participação política -, mas os intercâmbios culturais também fizeram sua parte. Da Macedônia veio a tradição de mulheres da realeza politicamente ativas, contrastando com o papel declaradamente passivo das mulheres da maior parte dos líderes políticos gregos. O Egito contribuiu com leis que permitiam às mulheres atuar por conta própria sem requerer guardiões. Talvez mais importante ainda tenha sido uma nova onda de religiões, chamadas religiões misteriosas, da África do Norte e do Oriente Médio, nas quais a devoção altamente emocional diferia do ritualismo das cerimônias mais características da religião grega. Nas religiões misteriosas, as deusas gregas, como a Isis egípcia, podiam desempenhar um papel central. A ênfase na criatividade realçava o princípio feminino; Isis se tornou a deidade mais importante em seu culto, com uma série de funções, incluindo presidir os ciclos do nascimento e renascimento da natureza.

Não se devem exagerar os resultados desses contatos culturais. As condições na Grécia mudaram menos do que em outros lugares. Por exemplo, uma mulher grega morando no Egito podia dispensar um protetor, mas sua contrapartida na terra natal mantinha o velho sistema. Além disso, a mudança afetava particularmente as classes altas; não há evidências de que as relações de gênero nas classes baixas tenham mudado muito. De fato, a incidência crescente de infanticídio feminino, como forma de controle populacional, sugere que essa autoestima recém-adquirida pelas mulheres pode ter sido bem superficial. Não havia, com certeza, uma reavaliação sistemática dos atributos e papéis das mulheres, do tipo implementado pelo budismo (embora com resultados comprovadamente limitados) na China mais tarde.

Padrões de diversidade cultural persistiram na era romana, a última fase da civilização clássica no mundo mediterrâneo. Inicialmente, no tempo em que Roma era cidade-estado, os impulsos voltados às mulheres parecem ter sido, a princípio, bem severos; [...] sob a lei romana, por exemplo, um marido podia matar a mulher por adultério. No entanto, o aprimoramento gradual da lei, combinado com a exposição a influências helenísticas moderadas, produziram um sistema mais brando por volta do século II a.e.c., à medida que a república amadureceu e se expandiu. Os intelectuais romanos copiaram os escritores gregos em discussões sobre a inferioridade das mulheres e seus apetites sexuais aviltantes, mas também copiaram o impulso helenístico para honrar as mulheres boas, incluindo aquelas que, como esposas e mães leais, contribuíam para o Estado. A religião romana, embora muito semelhante à grega, devotou mais atenção às deusas, aclamando Vênus, por exemplo, como o "poder orientador do universo". A influência helenística, vinda do comércio e das conquistas romanas no Mediterrâneo oriental, também ajudou a criar direitos legais para as mulheres possuírem propriedades e algumas proteções contra acusações improcedentes feitas pelos maridos. Também ajudou a gerar literatura com abertura para o sensual, como os poemas de amor de Ovídio.

As influências da Grécia e do Mediterrâneo oriental também forneceram às mulheres romanas da classe alta novos modelos de ornamentos e luxo. No início da República Romana, uma vida simples era altamente valorizada, tanto para homens quanto para mulheres. Após uma conquista bem-sucedida e os contatos resultantes, no entanto, joias, sedas importadas e outros adornos viraram moda. Isso emprestou uma nova dimensão à vida das mulheres, embora pudesse tê-las afastado de outras metas e assim ajudado a confirmar a desigualdade do patriarcado. Alguns homens romanos desaprovavam a frivolidade, enquanto outros apoiavam as mulheres com a justificativa de que elas tinham poucas coisas além disso na vida. Em determinado momento, a discussão sobre padrões de beleza importados se estendeu à política. A lei opiana foi aprovada após uma série de guerras sem trégua, limitando a quantidade de ouro e roupas coloridas que uma mulher podia usar. Em 195 a.e.c., o Senado romano discutiu a revogação da lei. As mulheres se juntaram nas ruas, pedindo a restauração do luxo, agora que a República florescia novamente. Os políticos reclamaram, alegando que as mulheres não deveriam ter voz política, e sim permanecer em casa, mantendo-se modestas. Outros, no entanto, defendiam as mulheres: "O fato é que nós temos ouvidos orgulhosos, pois, enquanto patrões não zombam dos apelos dos escravos, nós ficamos zangados quando mulheres honradas nos pedem alguma coisa." Segundo eles, os homens gostavam de roupas elegantes, portanto as mulheres deveriam poder compartilhar esse direito. "As mulheres não podem partilhar a magistratura, sacerdócio, triunfos, insígnias oficiais, presentes, ou despojos de guerra: elegância, fineza de lindas roupas são as insígnias das mulheres, e nisso elas encontram alegria e ficam orgulhosas, e é isso que nossos antepassados chamavam do mundo da mulher." A lei foi anulada, embora o texto a favor da revogação tenha exposto os limites da opinião dos homens sobre as mulheres.

Roma se manteve firmemente patriarcal e, no geral, sua abordagem das mulheres foi mais dura do que a dos estados helenísticos. Uma forte ênfase na família, retornando nos primeiros dias do Império, trouxe a reafirmação da autoridade masculina sobre, por exemplo, a questão do adultério. A literatura romana posterior começou a condenar as mulheres assertivas, imitando temática grega. O fato é que, como na Grécia, as considerações políticas dominaram o tratamento dado às mulheres, pelo menos nas classes altas, e isso era expresso na lei. Contatos com diversas culturas apenas limitaram, em geral de forma transitória, o impacto nessa situação. Além do mais, não havia um sistema claro alternativo que acenasse a homens e mulheres com um conjunto diferente de padrões. Mesmo nos séculos helenísticos, embora fossem permitidos contatos maiores entre gêneros do que na Grécia clássica, não foi desenvolvido um modelo suficientemente distinto e poderoso para reconfigurar o patriarcado romano.

O período clássico no Mediterrâneo e no Oriente Médio gerou incontáveis contatos culturais para os povos na Ásia Ocidental, sul da Europa e norte da África. Os resultados, no que se refere ao relacionamento entre homens e mulheres, não estão sempre bem documentados. Parece que alguns contatos tiveram de fato poucos resultados: as partes envolvidas em ambos os lados , ou porque se sentiam suficientemente confiantes de seus próprios valores, ou absolutamente convictas de que as alternativas eram estranhas e bizarras demais, acabaram deixando virtualmente intocadas leis e imagens. Outros contatos influenciaram padrões em certa medida, em particular nos séculos III e IV a.e.c., quando os reinos helenísticos prevaleceram. Roma participou nessa interação de alguma forma, mas por fim preferiu afastar-se em favor de uma renovada ênfase na submissão feminina. Os exemplos desse período na história do Mediterrâneo, são complexos, mas sugerem fortemente uma considerável imunidade a contaminações na questão de papéis de gênero, mesmo em meio a substancial diversidade cultural.

STEARNS, Peter N. História das relações de gênero. São Paulo: Contexto, 2012. p. 54-59.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

"Sob a lança aquéia": a civilização micênica

Quando chegaram à Grécia, por volta de 2000, os aqueus ignoravam tudo a respeito do mar e, para designá-lo, tiveram que utilizar uma palavra pré-helênica: thalassa. Mas não demoram a percorrer as mesmas rotas que os marinheiros cretenses, e são estabelecidas relações diretas entre Egito e Micenas, que recebe objetos com os nomes de Amenófis III (1447-1380). É por volta dessa época que se instala em Creta uma dinastia aquéia. Desde então, a ilha bem-aventurada corre perigo: pouco depois de 1400, Cnossos é completamente destruída, ao mesmo tempo que Gurnia, Zacro, Palaicastro... A Creta minóica morreu: casas e túmulos, raros e pobres, são aqueus; a arte declina lentamente; muitos cretenses provavelmente emigraram com suas tradições para Chipre e para a Ásia, outros para o Egito, e acredita-se perceber sua influência na renovação da arte que marcou o reinado de Amenófis IV. No entanto, os próprios vencedores foram os verdadeiros herdeiros da civilização minóica e, durante mais de dois séculos, prolongaram-lhe a glória.

Porta dos Leões (detalhe), Micenas


Nesse período, a Argólida, mais adiantada, exerce uma espécie de hegemonia sobre toda a Grécia. Os palácios fortificados dos Pelópidas em Micenas e dos filhos de Dânato em Tirinto e Argos rivalizam em brilho e poder. As muralhas de Micenas, aumentadas, encerram a antiga necrópole real num baluarte semicircular; a porta monumental é ornada com o célebre baixo-relevo em que duas leoas ladeiam uma coluna mais larga no alto que na base, motivo corrente da arte minóica, aqui tratada com vigor e simplicidade. Sobre o primeiro palácio eleva-se um segundo, adornado de afrescos, com revestimentos de estuque vermelho e lajes de gipsita, imitação provinciana do de Cnossos. Em Tirinto, três séries de muralhas e fortificações, entre 1500 e 1200, fazem dessa colina estreita a mais formidável fortaleza da Grécia. Os blocos ciclópicos formam ainda hoje baluartes, galerias abobadadas, poternas e escadas fortificadas de uma força impressionante.

Os túmulos com cúpulas, inspirados nos tholoi de Messara, em Creta, a princípio simples câmaras escavadas na rocha, tornam-se edifícios grandiosos, revestidos interiormente de alicerces de pedra e dominados por uma abóboda com galerias salientes. O tesouro de Atreu, que hoje se acredita datar do século XIV ou XIII, é o mais perfeito modelo desse tipo de túmulo, com sua cúpula de 13 metros de altura, a massa poderosa do lintel - bloco espesso de 3 metros de altura e 8,50 de comprimento - e a elegância das meias-colunas de brecha verde, cinzeladas e emolduradas, que ladeiam a porta.

Para além da Argólida, a civilização micênica estende-se por toda a Hélade. Feudos e principados desenvolvem-se, independentes, mas com um profundo sentimento de sua unidade étnica; esses múltiplos pequenos Estados, constituídos entre 1400 e 1200, são os que a história conhecerá mais tarde: trata-se já, irremediavelmente fragmentado, do mapa da Grécia clássica. Em Messênia, o palácio de Nestor em Pilo é o mais vasto da época. Na Lacônia, Esparta sucede Vafio e Amíclas. Na Ática, os túmulos recebem jóias e vasos de todo o período micênico. Em Tebas, sobre a Cadméia, eleva-se um palácio ornado de afrescos; a riqueza e o esplendor de Orcômeno, atestados pelo tesouro de Mínias, eram comparáveis aos de Tebas no Egito; a Etólia e a Acarmânia possuem túmulos com cúpulas e a própria Macedônia constrói casas de pedra e recebe produtos micênicos.

1. A civilização micênica. Enquanto a Grécia recebeu as lições dos cretenses, a arte do continente rivalizou com a da ilha; mas, após a queda de Cnossos, manifestam-se mudanças profundas, por vezes lamentáveis. Os guerreiros aqueus preferem os poderosos castelos-fortalezas, símbolos de sua dominação brutal, aos palácios ensolarados de Creta; adornam-nos com afrescos, mas as mulheres pesadamente enfeitadas que desfilam nas paredes de Tirinto são bem diferentes da "Parisiense". As cenas de caça e de guerra substituem as paisagens floridas, e os cachorros salpicados de rosa e azul perseguindo um javali, com suas formas rígidas e convencionais, estão muito longe do realismo cretense. Nos vasos, os motivos marinhos ou florais reduzem-se a monótonas combinações de curvas. Deve-se assinalar, entretanto, o aparecimento de quadrúpedes, pássaros e até figuras humanas, como os guerreiros barbudos de um célebre vaso de Micenas; mas o desenho, sempre sumário, não tarda a tornar-se rígido e estilizado, sobretudo no período submicênico (1200-1100). Lugar à parte merecem a glíptica e a ourivesaria: para os senhores opulentos de Micenas "rica em ouro", os artistas continuam a cinzelar luxuosas jóias de ouro e prata, de requintado lavor e a fabricação de armas permanece digna dos punhais damasquinados e das espadas de Creta.

No conjunto, porém, a arte micênica torna-se popular e industrial. As oficinas multiplicam-se nas cidades e em torno dos palácios, uma rede de estradas muito frequentadas cobre a Grécia, as relações marítimas desenvolvem-se e, a partir daquele momento, trabalha por atacado, com processos mais sumários, para uma clientela numerosa, mas de exigências artísticas restritas.

Outras mudanças, mais profundas, acentuam o caráter guerreiro e patriarcal da civilização aquéia: a mulher quase já não sai do harém; um deus masculino e quase sempre marinheiro, como Apolo com o delfim, ou Poseidon, destrona a Deusa-Mãe; as lendas heróicas agrupam-se em torno dos sítios aqueus. No entanto, as confrarias religiosas (thiases), originárias de Creta, perpetuarão, nos mistérios da Grécia clássica, muitos elementos do culto feminino dos cretenses. Por fim, a prática de sacrifícios humanos em honra dos mortos, o desaparecimento completo do emprego da escrita entre o povo, e talvez entre a aristocracia aquéia, acabam por revelar que a "doçura de viver" minóica desapareceu.

2. Os micênicos no Mediterrâneo. Após a conquista da Grécia e das ilhas vizinhas, os aqueus, comprimidos no solo pobre da Hélade, buscam a fortuna longe de seu território, e toda a orla do Mediterrâneo passa a conhecer os "homens de bronze". Estes já não  se contentam em comprar e vender, com os cretenses; tentam, sobretudo nas ilhas e na Ásia, estabelecer agrupamentos ao mesmo tempo comerciais e políticos, as achaies. Ocupam inicialmente Rodes, onde fundam várias cidades, e depois Chipre, já quase colonizada pelos minóicos, para onde seu dialeto aqueu, conservado no cipriota da época clássica. No Egito e na Síria, desenvolvem-se as trocas comerciais: os vasos micênicos penetram até a Núbia e circulam na terra de Canaã; toda a costa síria, já profundamente influenciada por Creta, cobre-se de feitorias, e Ugarit transforma-se numa verdadeira colônia micênica. Mas é de preferência nas costas da Anatólia, em Lesbos, na Lícia e na Panfília que se instalam as achaies, que renovam a tradição das piratarias do Egeu, estabelecendo relações frutíferas com os povos do interior, sobretudo os hititas (um cilindro hitita chega a Tirinto e uma esfinge a Haghia Tríada). As tabuinhas de Boghaz-Keui, recentemente decifradas, mostram-nos os reis hititas Mursil II e Tudalia III (séculos XIV e XIII) acertando as questões dos Akhkhyara com seus vizinhos da Cilícia e da Cária. Tais documentos parecem considerar esse Estado aqueu como sendo tão importante quanto o Egito e mostram o rei Atarássias, contemporâneo de Tudalia IV (1255-1220), à frente de uma poderosa coalizão e de uma frota de cem navios. Trata-se provavelmente do conjunto dos estabelecimentos aqueus nas costas da Anatólia. Já se tentou aproximar esse Atarássias de Atreu, pai de Agamenon, e nesse caso se trataria da Argólida, mas isso é mais difícil de admitir.

Se não se pode afirmar que os cretenses frequentaram os mercados do Mediterrâneo ocidental, numerosos indícios de uma influência egéia parecem provar que os micênicos não temiam essas expedições longínquas. A primeira escala para o Ocidente foi sem dúvida Corcira; dali se atingia o fundo do Adriático, onde se trocavam o âmbar do norte e o estanho da Boêmia por lingotes de cobre cipriota, encontrados na Dalmácia. Diante de Corcira, Tarento recebe, a partir de 1700, vasos com base; o dialeto messapiano apresenta analogias com o eteo-cretense, e encontram-se nessa região o machado duplo e os chifres de consagração. Já se assinalou que Malta e a Sicília muito deveram às influências egéias; houve, inclusive, uma Minoa perto de Agrigento. Os micênicos passam em seguida às ilhas Eólias, onde compram o riólito, depois à Sardenha, onde depositam lingotes de cobre marcados com sinetes egeus, e enfim às Baleares, onde introduzem sem dúvida o culto do touro, com o machado duplo e os chifres de consagração; mas as belas cabeças de bronze conhecidas sob o nome de vacas de Costig, frequentemente comparadas aos rythons minóicos, são talvez de época mais recente. Existem traços egeus na Provença (um punhal cipriota em Auriol) e, nas costas ibéricas, os motivos conservados por muito tempo pela cerâmica indígena, as jóias e os objetos de estilo egípcio que os micênicos imitavam para a exportação conduzem-nos provavelmente ao reino de Tartesso.

Aliás, é possível que grande parte dessas trocas, dessas importações e exportações, tenha sido feita por intermédio das marinhas indígenas, em particular no Adriático e para além da Sicília. Isso justifica perfeitamente a influência egéia nessas regiões e explica ao mesmo tempo por que os gregos do primeiro milênio esqueceram essas rotas e esses tráficos distantes, a ponto de povoar o Mediterrâneo ocidental de lendas terrificantes e de fazer de Tartesso um país fabuloso, até o dia em que o samnita Kolaios o redescobriu por acaso, por volta de 630.

GABRIEL-LEROUX, J. As primeiras civilizações do Mediterrâneo. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 53-58.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Macedônia e o Helenismo

Mosaico retratando Alexandre Magno, ca. 100 a.C., Pompeia. Artistas desconhecidos

O novo mundo no Mediterrâneo e no Oriente Próximo foi em grande parte definido pelos gregos. Paradoxalmente, isso aconteceu durante a decadência das cidades-Estado. Quando elas se tornaram mais frágeis e menos capazes de resistir a interferências externas do desastre da Guerra do Peloponeso, uma nova força começou a surgir no limite norte da Hélade: o Reino da Macedônia. Alguns indivíduos - na maioria macedônios - alegavam que este reino era um Estado grego e que fazia parte do mundo grego. Os macedônios falavam grego e frequentavam os festivais gregos; seus reis reivindicavam descender de famílias gregas - nada menos do que de Aquiles, o grande herói aqueu da Ilíada. Mas muitos gregos discordavam. Achavam que os macedônios eram um grupo bárbaro pouco civilizado e certamente não teriam a mesma condição dos povos cultos das cidades do Egeu e da Sicília.


Vênus de Milo

Sem dúvida a Macedônia era um lugar mais tosco e rude do que, digamos, Atenas ou Corinto, e os seus reis precisavam controlar uma aristocracia de chefes montanheses não muito impressionados por Sócrates. Contudo, a Macedônia mudou o curso da História grega graças à coincidência de alguns fatos favoráveis. Um deles foi o surgimento ali, em 359 a.C., de um príncipe capaz e ambicioso - ambicioso, entre outras coisas, de que a Macedônia fosse reconhecida como grega - Filipe II, regente do reino. As circunstâncias foram-lhe muito favoráveis: os Estados gregos estavam desgastados pelas suas longas lutas e a Pérsia sofrera uma série de revoltas que a enfraquecera. A Macedônia era rica em ouro, e portanto podia financiar um exército forte e efetivo, cuja eficácia se deveu muito aos esforços pessoais de Filipe. Na juventude, em Tebas, ele estudara os métodos militares gregos. Decidiu que a resposta à tática hoplita seria uma nova formação: a falange de dez fileiras de infantaria armadas com lanças, duas vezes mais longas do que as espadas comuns. Os homens que as carregavam ficavam bem mais distantes do que os hoplitas, de modo que as lanças da retaguarda se projetavam entre as das primeiras fileiras. O resultado era uma disposição de pontas em forma de ouriço, uma arma formidável. Para apoiar a retaguarda havia uma cavalaria com armaduras, cercada por uma fileira de armas pesadas, como catapultas.


Alexandre na tumba de Ciro, o Grande, Pierre-Henri de Valenciennes

* Alexandre, o Grande. O exército da Macedônia era tão eficiente que sob o reinado de Filipe e de seu filho, acabou de fato com a independência de muitas cidades da Grécia Continental e com um período da História humana, a era da pólis. O ano de 335 a.C., quando Tebas foi arrasada e os seus habitantes foram escravizados como punição pela rebeldia, serve de marco. Houve poucas revoltas posteriores, mas a grande era da Grécia clássica terminara. Isto pode não bastar para garantir aos reis da Macedônia um lugar na História, mas mudanças ainda mais espetaculares aconteceriam no reinado do filho de Filipe, Alexandre, um dos poucos homens na História que tradicionalmente é chamado de "o Grande". Ele parecia tão fascinante aos seus sucessores que as lendas em torno do seu nome fizeram com que ele fosse idolatrado por milhares de anos. Embora primordialmente e acima de tudo um soldado e um conquistador, ele foi muito mais. [...] é claro que ele foi uma força decisiva, não apenas na Grécia, como na História mundial a partir de 334 a.C., quando atravessou a Ásia para atacar os persas, chefiando um exército constituído de muitos Estados gregos, até 323 a.C., quando morreu na Babilônia (talvez de tifo), com apenas 33 anos.

"Alexandre - diz Toynbee - viveu o bastante para superar a estreita concepção de uma ascendência helênica sobre os não-helenos, em favor do ideal maior da fraternidade humana. Em seu contato com os persas, reconheceu e admitiu todas as virtudes que lhes permitiram governar uma grande parte do mundo por mais de  duzentos anos, e passou a sonhar com um mundo governado em conjunto por persas e helenos. Esse idealista precoce, porém, era capaz de matar amigos e companheiros, em ataques de fúria alcoólica, tal como o herói homérico que o lado adolescente de sua natureza aspirava a ser. E sua intemperança habitual foi, certamente, a causa de sua morte súbita e prematura, em Babilônia, em 323 a.C. Tivera tempo para destroçar um grande império, mas apenas começava a por em prática os planos de reconstrução que lhe amadureciam no espírito".

Alexandre era um grego apaixonado. Reverenciava a memória de Aquiles, seu suposto antepassado, e carregava nas suas campanhas um exemplar precioso de Homero. Seu tutor fora Aristóteles. Ele era um soldado valente - e às vezes afoito -, bem como um general astuto e um grande líder que uma vez feitas suas conquistas, comportava-se com simpatia para com os povos cujos governantes derrubara; também era violento: certa vez, bêbado, parece ter matado um amigo numa briga. Pode ter concordado com o assassinato do próprio pai.


“Alexandre considerava-se enviado pelos deuses para ser um governante geral e pacificador do mundo. Usando as forças das armas quando não conseguia unir os homens pela luz e pela razão, canalizou todos os recursos para um único e mesmo fim, misturando vidas, maneiras, casamentos e costumes dos homens, como se estivessem numa taça de amor”, afirma o historiador grego Plutarco.

Apesar dos seus defeitos, eles não impediram um assombroso registro do seu sucesso. Alexandre derrotou os persas na Ásia Menor na Batalha de Issus, e depois marchou através de toda a extensão deste Império, primeiro rumo ao sul, através da Síria até o Egito, e depois de volta ao norte e a leste, rumo à Mesopotâmia, perseguindo o rei Dario III, que morreu ainda em combate; foi o fim do Império Aquemênida. Alexandre continuou cruzando o Irã, o Afeganistão e o Rio Oxus, e seguiu adiante, até Samarcanda. Fundou uma cidade no Rio Jaxartes. Depois voltou para o sul novamente, para invadir a Índia. Duzentos quilômetros mais ou menos além do Indo, em pleno Punjab, os seus generais, exaustos, fizeram com que ele voltasse. Foi uma terrível marcha de volta pelo Indo, ao longo da costa norte do Golfo Pérsico, até alcançar a Babilônia, onde Alexandre morreu.

"Com suas grandes vitórias - escreve o mestre inglês Petrie -, Alexandre revela-se um consumado mestre de tática; e a organização que trazia possíveis tais vitórias prova seu domínio da estratégia. Com respeito aos seus dotes de estadista é menos fácil julgá-lo, pois na verdade faltou-lhe tempo para demonstrá-los. Era um grande conquistador, mas talvez não acertasse a consolidar suas conquistas. Todavia, sua obra no Egito nos dá um exemplo admirável do que poderia ter realizado em outras partes.

Seja como for, corresponde-lhe o mérito de ter aberto para o Ocidente as portas do Oriente e de ter franqueado o caminho ao incremento da civilização grega. E embora a unidade do seu império ruísse num instante, as cidades que fundou perduraram como sentinelas avançadas do helenismo, mantendo vivas as influências gregas e a língua grega até os confins do mundo".

Sua curta vida foi muito mais do que de simples conquistas. O seu "império" logo desmoronou e deixou de ter um único centro de governo, mas ele espalhou a influência helênica a lugares jamais alcançados. Alexandre fundou muitas cidades (muitas delas com o seu nome; ainda há várias Alexandrias e outros locais com nomes que são mais ou menos "disfarces" do seu) e mesclou gregos e asiáticos no seu exército para que aprendessem uns com os outros e se tornassem uma força mais cosmopolita. Recrutou jovens persas nobres e certa vez presidiu a um casamento coletivo de nove mil soldados seus com mulheres orientais. Manteve nos postos os antigos funcionários do rei persa, para que administrassem as terras que conquistara. Chegou a adotar roupas persas, o que não agradou muito aos seus companheiros gregos, que tampouco apreciaram quando ele fez com que visitantes se ajoelhassem diante dele, como faziam os reis persas.

"Sua concepção da 'homónoia' ou unidade fundamental da raça humana - diz o erudito humanista Alfonso Reyes -, a qual quis agrupar num Estado universal, é uma concepção de imensa transcendência. Supera a visão política do seu mestre Aristóteles. Seduz os filósofos estóicos. Prepara o Cristianismo".

Derrubar o mais poderoso império da época e encerrar a era das cidades gregas (tanto na Ásia quanto na Europa) foram feitos que modificaram o mundo, embora o seu impacto total não fosse óbvio de imediato. Muitos resultados positivos só apareceriam depois da morte de Alexandre. Então, tanto nas terras gregas quanto nas não gregas, seriam sentidos os efeitos das ideias e dos padrões gregos que ele espalhou tão amplamente. É por isso que as palavras "helenismo" e "helenístico" foram cunhadas e aplicadas tanto à era que se seguiu à morte de Alexandre quanto à área coberta formalmente pelo seu império (grosso modo, a região entre o Adriático e o Egito, a oeste, e as montanhas do Afeganistão, a leste). O império em si pouco durou; Alexandre não deixou herdeiros que pudessem assumi-lo e os seus generais começaram a disputar seu espólio.


“Historiadores modernos – comenta Dennis Wepman - não negam que Alexandre foi frequentemente cruel ou que conduziu mais por sonho de glória pessoal do que por elevados ideais de fraternidade ou de paz mundial. A morte e a destruição que acompanhavam suas marchas tornam qualquer outra conclusão ridícula. Mas é pelos resultados da vida de um homem que a História deve julgá-lo. E é como uma força propulsora do progresso e do pensamento humanos que Alexandre conserva o título de ‘o Grande’”.

Pintura helenística de um túmulo trácio de Kazanlak representando noivos. Próximo da antiga cidade de Seuthopolis, século IV A.C. Artistas desconhecidos

* Os sucessores de Alexandre: o mundo helenístico. Demorou quarenta anos mais ou menos para que as terras do antigo império se estabeleceram num novo padrão, como um grupo de reinos, cada qual governado por um dos homens de Alexandre ou por seus descendentes. Às vezes eles são citados como "sucessores" ou "diádocos". O mais rico destes reinos ficava no Egito, onde um general macedônio chamado Ptolomeu assumiu o controle. Conseguiu se apropriar do corpo de Alexandre e sepultou-o num esplêndido túmulo em Alexandria, o que lhe deu um prestígio especial e a primazia de ser o seu guardião. Ptolomeu fundou a última dinastia egípcia da Antiguidade, que governaria o Egito até 30 a.C. (quando morreu a última das ptolomaicas, a famosa Cleópatra), bem como a Palestina, Chipre e grande parte da Líbia. Contudo o Egito não foi o maior dos Estados Sucessores. Embora as conquistas indianas de Alexandre passassem para um rei indiano, a família de Seleuco (outro general macedônio) por certo tempo governou uma área que se estendia do Afeganistão ao Mediterrâneo; o reino selêucida não permaneceu tão grande assim. No início do século III a.C., um novo reino se estabeleceu em Pérgamo, na Ásia Menor, e na Báctria outro reino foi fundado por soldados gregos. Quanto à Macedônia, depois de ter sido invadida por bárbaros, passou para uma outra dinastia, e os antigos Estados gregos, organizados de tempos em tempos em ligas vagas, continuaram a se deteriorar [...]. O grego se tornou a língua oficial de todo o Oriente Próximo e a mais usada como língua cotidiana, principalmente em todas as novas cidades, fundadas em número considerável [...]. Mas eram muito diferentes das velhas cidades gregas do Egeu porque eram muito maiores. Alexandria, no Egito, Antioquia, na Síria, e a capital selêucida perto da Babilônia logo teriam aproximadamente duzentos mil habitantes. Também não eram autônomas, de forma alguma. As cidades selêucidas, por exemplo, eram governadas pelos administradores e mecanismos das províncias tomadas ao antigo Império Persa, um despotismo bárbaro aos olhos dos gregos do século V a.C. Começaram a surgir burocracias apoiadas nas antigas tradições do Egito e da Mesopotâmia e não nas da pólis. Os próprios governantes se atribuíam honras semidivinas, como os antigos reis persas. No Egito, os ptolomaicos reviveram o antigo culto aos faraós e Ptolomeu I adotou o título de Soter, que significa "Salvador".

Ainda assim as cidades pelo menos pareciam um pouco gregas. Suas construções obedeciam à tradição grega. Possuíam teatros, ginásios, centros para jogos e festivais muito semelhantes aos do passado. A tradição grega também aparecia no estilo artístico. Talvez a mais conhecida de todas as estátuas gregas, a de Afrodite, encontrada na Ilha de Milo, atualmente no Louvre, em Paris (a Vênus de Milo), é obra helenística. [...] Logo a literatura grega recebia contribuições de escritores das novas cidades, que encontravam público e patrocinadores num ambiente de duradoura e crescente prosperidade. As guerras de Alexandre haviam liberado um enorme butim em ouro e objetos preciosos, o que estimulou o desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo propiciando a cobrança de taxas para financiar os exércitos e as burocracias existentes. O mundo helenístico era um negócio em maior escala do que fora o antigo mundo grego, e um palco mais amplo para a cultura grega.

O mais claro indício de continuidade do passado surgiu num ramo da atividade intelectual: o estudo das ciências. A Alexandria egípcia foi especialmente famosa neste campo. Ali viveu Euclides, o homem que sistematizou a geometria e deu-lhe a forma que perdurou até o século XIX. Entre outros alexandrinos estava o primeiro homem a medir o tamanho da Terra, bem como o primeiro a usar o vapor para gerar energia. Arquimedes, famoso pela construção de máquinas de guerra na Sicília, assim como pelas suas descobertas teóricas na Física, provavelmente foi aluno de Euclides; e outro grego helenístico, Aristarco (este de Samos, e não de Alexandria), chegou até mesmo à ideia de que a Terra se movia em torno do Sol, e não o contrário (esta ideia não foi aceita pelos seus contemporâneos porque não se enquadrava na física aristotélica). Estes conhecimentos e hipóteses (e há muitas outras) representaram um grande avanço no conjunto de ferramentas humanas. Contudo, a ciência helenística foi refreada, porque não havia a tendência nem o aparato para testar experimentalmente algumas teorias, e porque havia uma tendência pelas ciências matemáticas mais do que pelas ciências aplicadas. [...] No entanto, o mundo helenístico teve sucesso ao produzir uma nova e importante filosofia ética: o Estoicismo, que, em termos gerais, ensinava que o homem deve ser virtuoso, quaisquer que sejam as consequências. Ser virtuoso, dizia esta filosofia, consistia, acima de tudo, em obedecer às leis naturais que governam o universo e todos os homens, e não apenas os gregos. Foi a primeira tentativa de estabelecer uma filosofia para toda a humanidade. Também produziu a primeira condenação da escravatura, um extraordinário avanço mental, jamais conseguido pelos filósofos da Grécia clássica, e que teria profunda influência durante séculos entre a elite de uma nova potência: Roma.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 207-214.