"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 3)

O julgamento final (detalhe), Fra Angelico

Todos levantaram-se.

E durante dois dias prepararam-se para a festa. Fariam um ataque-surpresa. Filipe queria que a abadia fosse totalmente destruída pelo mais cruel e violento saque de que a Europa tivera notícias.

Se o castelo de Albey permanecera exatamente igual, o mosteiro de Louvenne, ao contrário, estava muito diferente. Havia sido ampliado em quase dois terços da construção original. Já do lado de fora, podiam ser percebidos ornamentos luxuosos, e, pelos rumores que se escutava, era possível concluir que a festa que se realizava em seu interior devia ser memorável.

Seus homens armados de espadas, pedras e archotes se aproximaram. A ferocidade deles aumentava na medida em que o mosteiro se tornava mais palpável. Fanatizados pela ideia de que sua missão era divina, adquiriam uma nova e poderosa força. Essa era a maior arma que possuíam, embora não tivessem consciência disso.

Enquanto isso, no interior da abadia, com todos ignorantes do que se passava la´fora, a festa prosseguia.

À cabeceira da comprida mesa de carvalho, encontrava-se Samuel Garbois. A sua frente desfilavam faisões, porcos e carneiros, frutas e vinho com fartura. O abade rejubilava-se. Sua abadia ostentava um raro luxo para a época. Com seus 66 anos, era um homem bastante velho, mas vivera o suficiente para ver seu sonho realizado.

O excesso de alimentos e vinho ingeridos criava uma certa sensação de irrealidade. Era um homem obcecado por uma ideia que vira pouco a pouco, ao longo de trinta anos, ser transformada em realidade. Agora que estava tudo concluído, olhava sua obra com certa incredulidade. Era um sonho que se materializava; e agora, o que fazer? Contemplar a obra, apenas isso. Não restava mais nada. Tentava, mas não conseguia esconder uma certa sensação de vazio, apesar de todo júbilo. Eram sentimentos contraditórios que brigavam dentro dele e turvavam sua plena realização naquele dia.

Se pudéssemos penetrar em seus pensamentos, veríamos desfilar em sua cabeça todas as relíquias e tesouros acumulados nesses anos, veríamos pedra por pedra assentada que tornara a Abadia de Louvenne a maior de toda a região.

Veríamos, também, a incômoda certeza de que tudo estava concluído e que não restava mais nada a fazer além de esperar a morte.

Algo de anormal estava acontecendo. Mergulhado em seus pensamentos, não notara que havia uma certa agitação no ar, que trouxe Samuel Garbois de volta ao local onde se encontrava. Estava entorpecido pelo vinho, a visão turvava-se a sua frente, mas percebeu que algo ocorria. Havia uma tensão que fazia com que as pessoas falassem mais baixo, como se estivessem à espera de um grande acontecimento; o ar tornara-se quente e pesado. Começaram os ruídos, no princípio quase inaudíveis, depois fortes demais para se poder ter a ilusão de que era só impressão. O cheiro de fumaça começou a se espalhar e em pouco tempo podia-se ouvir as pessoas tossirem sufocadas, e a fumaça tornou-se tão espessa que a embriaguez do vinho já não era capaz de turvar nada, pois já não se via nada, ou quase nada. Começaram a cair as pedras. Eram tão grandes que cada uma que caía provocava um estrago considerável. As pessoas, apavoradas, começaram a correr sem saber para onde ir, e a maioria acabou seu caminho na ponta de uma espada. Samuel Garbois não se movia. Em algum lugar nesse processo, a razão o abandonara, e através de seus olhos dementes o que se poderia enxergar era a própria visão do apocalipse. Quando viu Filipe parado a sua frente, acreditou realmente que o Dia do Juízo chegara e que os mortos finalmente haviam se levantado.

Filipe olhou para o abade por uns instantes. Aquele homem que sempre causara asco, agora, encurralado naquela cadeira, com os olhos ensandecidos vendo apenas destruição a sua frente, só conseguia lhe despertar pena. Não teve coragem de matá-lo.

Ordenou bruscamente a seus homens que levassem tudo o que pudessem carregar, e o que não pudessem, destruir. Partiram para o Castelo de Albey, onde Filipe pretendia assumir o lugar que era seu de direito, de Senhor do Castelo.

Samuel Garbois olhou ao seu redor. O fogo ainda ardia em alguns pontos. Viu homens estendidos pelo chão. Um rio quente de sangue corria sob seus pés. De seu sonho só restavam escombros. Sentou-se em um banco semidestruído e teve ainda um momento de lucidez, o suficiente apenas para perceber que de medo havia se sujado todo.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo; Clube do Livro, 1988. p. 25-28.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 2)

O juízo final (detalhe), Michelangelo

No fim de uma acentuada curva na estrada, o Castelo de Albey surgiu à sua frente, imenso e sombrio. Estava tudo exatamente como ele se lembrava. Mais umas duas horas de caminhada e chegariam lá.

Para chegar ao castelo teriam que passar próximo à Abadia de Louvenne. Quanto mais se aproximavam, mais Filipe notava que havia ali uma movimentação anormal.

Seguiam seu caminho quando escutavam o barulho de cascos batendo no chão. Assim que avistaram o cavaleiro, Filipe percebeu pelas roupas e ornamentos quem era e de onde vinha.

Ao avistar aquele bando de homens andrajosos e enlameados, de aspecto ameaçador, o cavaleiro tentou recuar, mas já era tarde. Percebeu que havia sido cercado. O aspecto deles não deixava dúvidas: eram saqueadores.

- Não me matem! Eu entrego tudo o que trago comigo!

- Somos muitos e a fome é muito grande. O que traz consigo não é suficiente. Se quer viver dia o que se passa na abadia!

- É uma grande festa. A abadia foi reformada e hoje comemora-se a conclusão das obras, que duraram mais de trinta anos.

- Quem é o abade?

- Samuel Garbois é seu nome. É um homem muito velho e bondoso, que viveu para glorificar Deus com essa obra.

- Às custas de milagres ocorridos no Castelo de Albey há muitos anos, não estou certo?

O outro olhou espantado para aquele que assim lhe falava e que parecia ser o chefe do grupo.

- A história de meu querido irmão, morto há dez anos, tem-se espalhado por fronteiras que não imaginávamos. Sim, foi um verdadeiro milagre, e lamentamos muito a perda de Filie, esse era seu nome. Nasceu marcado para grandes obras, mas a vida o arrebatou muito cedo.

- A grande obra de Filie ainda nem começou, meu caro Francisco, e se lamenta tanto a morte do irmão, por que não procurou salvá-lo dos saqueadores que invadiram o castelo há dez anos, por que não pagou o resgate que exigiam para devolvê-lo, ao invés de abandoná-lo à sua própria sorte? - disse Filipe, afastando o cabelo da testa e que encobria seu sinal de nascença.

- Meu irmão! Então você ainda vive?

Francisco estava pálido de morte. Sentiu no olhar do irmão fúria e ódio gelados que lhe arrepiaram o corpo e lhe esfriaram o sangue.

Filipe não vacilou, e sua mão estava bem firme quando cravou sua espada bem na altura do coração do irmão, antes mesmo que este tivesse tempo de perceber o que acontecia.

Por um momento o silêncio foi total, só sendo cortado pelo barulho da chuva que transformava o vermelho vivo do sangue que corria em vermelho pálido, até se misturar na lama e ser engolido pela terra.

Filipe quebrou o silêncio.

- Se há uma festa na abadia, eu deveria ser o convidado de honra. Vamos, vou reclamar meus direitos.

Seus homens vacilaram. Saquear um castelo, mesmo que fosse a quase inexpugnável fortaleza de Albey, era uma coisa que fariam sem pensar duas vezes. Eram homens duros e desgraçados, que caminhavam dia a dia ao lado da morte, e por esta ser uma presença tão constante não os assustava. Mas saquear uma abadia? Isso eles não poderiam fazer. A abadia era um lugar sagrado, e isso significava ofender a Deus. E se a ira divina se voltasse contra eles? Fazia-os tremer a simples ideia de tormentos inimagináveis que cairiam sobre eles. Não, não iriam.

Estavam acampados próximo à abadia. Filipe pensava exaustivamente numa saída para esse impasse.

Levou instintivamente a mão à testa.

Levantou-se, caminhou com vagar para o centro do acampamento, onde seus homens estavam reunidos em volta de uma pequena fogueira que ameaçava acabar-se a todo instante, pois a chuva prosseguia.

A luz do fogo refletia-se nos olhos de Filipe, que naquele instante parecia terrível e implacável, mesmo a seus homens.

- Trago estampado na testa o sinal sagrado da cruz desde o dia em que nasci. Vocês temem saquear a abadia por ser um lugar sagrado, mas se esquecem de que um sinal divino orienta esta ação. O lugar é sagrado, os homens que o habitam não. Seus atos infames e impuros só têm feito ofender a Deus durante todos estes anos. Cabe a nós, homens escolhidos por Deus, e para provar isso existe o sinal, vingá-lo. Quem se recusa a me seguir se recusa a fazer o que o Senhor ordena. Para esses, os tormentos do inferno estão reservados. Quem quiser me seguir fique de pé, os outros permaneçam sentados.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 22-25.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 1)

[As profecias não se cumpriram. O ano mil chega e o mundo não se acaba, como todos esperavam. pelo menos para alguns, não. Mas a espada do fim dos tempos continua pairando sobre todas as cabeças, e as palavras da autora deste conto parecem querer lembrar isso a cada passagem da narrativa.

O motor principal da vida europeia nesses tempos resume-se à fé religiosa; crer ou não crer. Uma enorme legião de desesperados de um lado; do outro, reis, nobres e sacerdotes manipulando o poder e as riquezas em proveito próprio, num universo à parte, onde o futuro é limitado apenas a cada minuto vivido.]

 O último julgamento (detalhe do painel central do tríptico, com o Arcanjo Michael pesando as almas), Hans Memling

"Então abriu-se no céu o templo
de Deus, e apareceu a arca do
seu testamento no seu templo,
e sobrevieram relâmpagos, e vozes,
e um terremoto, e uma grande
chuva de pedra."
Apocalipse de São João, Capítulo 11, versículo 19.

Filipe olhou para seus homens e deixou escapar um profundo suspiro de desânimo. Caminhavam havia cinco dias em direção ao distrito de Albey. Estavam cobertos de lama de tal forma que mais pareciam bonecos de barro do que gente e nem a chuva incessante que os fustigava durante todo esse tempo conseguia limpá-los.

Famintos e esfarrapados, deixavam-se levar pela simples promessa de que no fim da jornada haveria comida para todos. A fome era um espectro ancestral que pairava sobre a Europa desde gerações incontáveis, mas que de dois anos para cá, com as chuvas ininterruptas, que não permitiam sequer abrir um único rego para semear o trigo, tornara-se mais vivo e presente do que nunca. As pessoas devoravam tudo o que podiam encontrar pela frente, e não era raro encontrar carne humana sendo vendida normalmente nos mercados. Havia até quem, em completo desespero, se atirasse ao chão para comer terra.

Filipe e seus homens não estavam em situação diferente, por isso a ideia de um saque no Castelo de Albey não chegara a assustá-los, pois sabiam que lá haveria fartura de alimentos. Era isso que os fazia mover-se, que os mantinha vivos, que os fazia caminhar, apesar da chuva, da fome, do frio e do medo.

Estávamos no ano de 1033. Há 33 anos, exatamente na entrada do ano mil, nascia em Albey um menino com um pequeno sinal de nascença na testa. Era o primeiro filho homem de Maximiliano e Catarina de Albey.

Filipe, é claro, não se lembrava dos acontecimentos daquele dia. Não se lembrava por exemplo das estrondosas gargalhadas de seu pai, já bastante bêbado, conseguia abafar os gritos de dor de sua esposa prestes a dar à luz. Também não se lembrava da opulenta festa que se realizava no castelo no preciso momento em que nascia. Apenas sabia, porque isso lhe fora contado mais tarde, que seu nascimento provocara grande alvoroço no castelo por causa do sinal de nascença. Era uma pequena cruz vermelha bem no meio da testa. A crença de uns e ambição de outros fez com que isso fosse interpretado como um sinal divino. Havia até quem afirmasse que o menino era Filho de Deus enviado à terra para o Dia do Juízo.

Samuel Garbois, Superior da Abadia de Louvenne, se encontrava no castelo de Maximiliano naquele dia. Era um homem de trinta e poucos anos, a quem a natureza dera, além do excesso de gordura, muita astúcia e um certo apreço mal disfarçado pelas coisas materiais.

Sua grande ambição era poder restaurar e ampliar sua abadia de tal forma que as abadias e mosteiros das regiões vizinhas parecessem insignificantes.

Ao se dar conta do que acontecera, percebeu que chegara sua oportunidade. A ideia era reforçar e explorar ao máximo a crença de que o menino fora escolhido por Deus e que o sinal era a prova de que Ele queria nos dizer algo.

Certa noite em que o abade e Maximiliano jantavam juntos, Samuel Garbois colocou seu plano em prática;

- A fama do pequeno Filipe tem se espalhado rapidamente.

- É verdade. Desde que nasceu não pararam de chegar peregrinos por aqui.

- Eu sei, Maximiliano. Tenho hospedado na abadia homens e mulheres de elevada posição, que vêm de toda parte só para ver o menino. É uma pena que a abadia seja tão pequena e humilde e que necessite de urgentes reformas.

- E por que não as fazem, senhor abade?

- Ah, senhor! A fé é grande, mas as doações pequenas. Não temos recursos suficientes.

Maximiliano ficou em silêncio por instantes. Não lhe parecia bem, em seus domínios, uma abadia tão humilde e necessitada. Ainda mais agora que acontecera um milagre dentro de sua própria casa. E se lhe tivesse sido enviado esse sinal justamente para que ele fosse o realizados de uma grande obra para a glória de Deus? Decidiu fazer grande doação para que a Abadia de Louvenne se tornasse a mais rica da região.

Samuel Garbois sorriu feliz. Iria finalmente realizar seu sonho.

Enquanto caminhava no meio da lama e da chuva, Filipe recordava sua infância.

O Castelo de Albey situava-se na encosta de uma montanha. Era uma imensa fortaleza de pedra cujas fortificações tinham, durante muito tempo, impedido saques e pilhagens.

Desde o nascimento de Filipe uma grande transformação havia ocorrido na vida das pessoas que habitavam o castelo e suas redondezas. Uma atmosfera mística os envolvia, sempre renovada pela constante vinda de peregrinos.

Filipe tinha verdadeiro horror aquelas visitas. As pessoas lhe faziam promessas, pedidos, quase exigiam que fizesse algum milagre para provar que era santo. E ele nunca se sentira santo, apesar da cruz estampada na testa. Suas horas de alegria eram aquelas dedicadas às artes da guerra, quando se iniciou no aprendizado da cavalaria. Seu sonho era tornar-se um grande senhor guerreiro.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 17, 19-22.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O fantasma do metrô

[O cenário é a Inglaterra das grandes transformações industriais. Em Londres, no século XIX, um jornalista procura escrever uma reportagem sobre as obras de construção da primeira linha de trens subterrâneos: o metrô. Depara-se, então, com os reflexos de terrores arcaicos que insistem em sobreviver na alma humana, por mais que a chamada sociedade moderna acredite que estejam definitivamente soterrados.

O historiador Francisco Teixeira faz esta incursão pela ficção narrativa e emerge dela após tocar numa ferida: o medo do desconhecido é sempre mais poderoso que outros medos. Mais poderoso, inclusive, que as forças liberadas pelo avanço extraordinário da humanidade no campo material.]

Construção da estrada de ferro metropolitana (primeira ferrovia subterrânea do mundo). A ilustração mostra a trincheira e corte parcialmente concluída e túnel de cobertura perto da estação de Kings Cross, Londres. A estrada de ferro abriu em 1863, Percy William Justyne

"Te avisei que a cidade era um vão
Não faz assim, não vai lá não."
(As vitrines, Chico Buarque)

"O senhor pode entrar. Por hoje, o movimento acabou. Está tudo parado, não tem ninguém lá dentro", disse-me o guarda na entrada, enquanto me ensinava a acender esta lanterna. "Não a deixe molhar e segure sempre nesta posição", recomendou. Mas, como era mesmo? Puxar aqui e depois apertar esta... Sei lá como se chama isto. Não quer acender. Vai ver, está molhada. O que é que não está molhado neste buraco, nesta maldita noite com esta maldita chuva? Ah... Finalmente acendeu. Estas lâmpadas, estas lanternas, todas estas coisas modernas, acho que nunca vou me dar bem com elas. Devo estar ficando velho. Ou, então, é o mundo que está ficando novo demais para mim.

"Vá lá uma noite dessas, George, investigar essa história de fantasmas no túnel do metrô. Andam uns boatos por aí... Quem sabe você descobre alguma coisa, hein? Pode ser a sua grande reportagem!" - falou o imbecil do meu chefe. Enquanto eu me atolo aqui, com certeza ele se diverte às minhas custas. Devo estar velho mesmo. Repórter decadente, em fim de carreira, só é enviado para lugares e coisas que ninguém leva a sério. Fantasmas no metrô, que diabo! "Vai lá, George... Investigar..." Até me lembrei de quando aquele maluco do Brunel inaugurou o seu túnel sob o Tâmisa, uns quarenta anos atrás. Foi a mesma coisa. Começaram os boatos sobre assombrações, fantasmas. Vai ver, eram as almas penadas dos operários afogados nos desmoronamentos e inundações. E não foram poucos que morreram, Acho que mais do que fantasmas, as pessoas tinham medo mesmo era do túnel.

Como é escuro aqui dentro! Espero que nas próximas linhas não economizem tanta iluminação. Dentro deste túnel sinto-me como Jonas na barriga da baleia. Será que ele ouvia alguma coisa? Aqui, quanto mais avanço, menos ouço. Silêncio tumular. Um estranho túmulo de ferro, moderna porta do Hades, caminho novo para os "lugares inferiores", caminho que nem Homero nem Dante poderiam imaginar. Quanto será que já andei? Meia milha? Não vejo mais a entrada. Está cada vez mais escuro, se não fosse esta lanterna... Por onde será que estou passando agora? Será que estou debaixo de um hotel, um teatro, uma taberna? Quem sabe não é uma igreja? O que é aquilo ali, outro túnel? Ah, deve ser um túnel auxiliar, de serviço. Na volta talvez dê uma olhadela. Vou andar um pouco mais. Logo ali na frente deve estar Saint Pancras. Será que Teseu teve medo ao entrar no Labirinto de Creta? os heróis não têm medo, dizem as lendas. Não sei... Ainda bem que Teseu tinha o fio da sua amada Ariadne. Eu, que não sou nenhum herói, tenho a minha lanterna a gás.

Interessante. Os homens saíram das cavernas para as cidades. Nas cidades fizera incríveis labirintos de ruas, becos, travessas, esquinas e vielas. E agora querem fazer, por baixo desses, outros labirintos subterrâneos. Labirintos de corredores negros, metálicos, fuliginosos, frios, sem vida. George Chambers, meu velho, podes voltar... Ainda não será desta vez que farás a tua "grande reportagem". Podes virar a lanterna para todos os lados, para cima e para baixo, que não verás nenhum fantasma. Aqui não há fantasmas, aqui não há nada. Não há vida nem há morte. Nestas paredes de aço, vigas de ferro, parafusos, rebites e soldas, neste chão chapado de concreto por onde correm os trilhos como monótonas paralelas sem fim, não há nada além de frieza e esterilidade. Nenhuma grandeza, nenhuma fecundidade. Tudo frio, tudo feio, tudo medíocre. A isto chamam de moderno? Se é assim, os fantasmas estão fora do mundo moderno. Ao menos, "deste" mundo moderno. Sempre me disseram que os fantasmas habitam o tênue espaço entre a vida e a morte. Só se revelam em lugares especiais, muito especiais. Como as velhas catedrais, os nobres palácios, os teatros de fama e até mesmo os velhos barcos aventureiros dos grandes corsários. Lugares de nobreza e solenidade. De grandes paixões e tragédias. Neles, as pedras, as paredes, os vitrais, as frontarias, as cortinas, os lustres, os balcões, os vãos, as portas e os porões guardam íntimos segredos e ocultos mistérios. Guardam as pulsações dos vivos e dos mortos. As antigas catedrais foram feitas com o que o espírito humano tinha de mais nobre para... honrar a Deus. E este metrô? Para honra de Mamon, o deus do dinheiro. Nenhuma grandeza, nenhum mistério.

Delírios, só delírios. Está na hora de voltar. Não há nada aqui, neste lugar chato até para fantasmas. Parece que só os ratos não se incomodam com o tédio. O melhor é ir embora. Pensando bem, essa história de fantasmas, bruxas, assombrações e... vampiros, lobisomens, almas penadas, tudo isso está saindo de moda. Coitadas, as forças demoníacas estão perdendo a graça. Não assustam mais ninguém. Parecem atores de velhas companhias que não têm mais público. Não houve, há pouco, se bem me lembro, o caso daquele diplomata americano que comprou, aqui perto de Londres, um castelo mal-assombrado com fantasma e tudo? Em breve, serão esses espertos empresários americanos que virão comprar todos os fantasmas da velha Albion para apresentá-los como "atração" nos teatros baratos de Denver e San Francisco. Será uma desmoralização. Será o fim de uma das mais caras tradições britânicas. Ainda bem que os escoceses inventaram o uísque, por um bom tempo teremos alguma coisa nossa para vender aos outros... Mas, o que é isso? Que vento é esse? Vento frio! De onde está vindo, será dali do túnel de serviço? Deixe-me levantar mais a lanterna. Assim... Mas não vejo nada lá para dentro. Que vento mais estranho... Oh! A lanterna piscou, meu Deus, será que ela vai apagar... Apagou! O que houve?

Francisco Teixeira. O fantasma do metrô. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 43, 45-48.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

História e ficção ou a realidade aos sonhos

O poeta Anacreon com suas Musas, Norbert Schrödl

[...] a história e a literatura tiveram uma origem comum nos primórdios remotos da própria linguagem, quando o xamã das comunidades fazia vibrar, com seu canto dançado, toda a memória mítica tribal, armazenada em unidades rítmicas, evocada e revivida em espetaculares coreografias coletivas. O modo pelo qual esse amálgama original vai aos poucos se diferenciando, se decompondo em formas autônomas, pode ser vislumbrado já na evolução das Musas da mitologia grega. De divindades inicialmente associadas à inspiração divina, passaram, depois, a ser sucessivamente identificadas com a memória, a música e a poesia. Só bem mais tarde vieram a ser, cada qual dessas nove divindades, assimiladas a formas artísticas particulares. Desde esse momento, a separação dos modos de elaboração das linguagens se tornou como que um vício crescente da nossa cultura, em consonância com a contínua diferenciação e segregação dentre os grupos de homens no interior da sociedade.

Calíope ensinando Orfeu, Alexandre-Auguste Hirsch
(Musa da Poesia Épica)

Já o próprio Aristóteles, na sua Poética, ressaltava a importância desse desmembramento das formas comunicativas, nele introduzindo entretanto uma notável originalidade, emanada do advento perturbador do discurso leigo na cultura. Afirma ali o filósofo: "Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser de história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e o outro as que poderiam suceder".

A Musa Clio, Pierre Mignard
(Musa da História)

[...] Anteriormente, na cultura presidida pelas Musas, o padrão de fundo, envolvendo todas as linguagens, era o mito. Ele tornava toda narrativa histórica numa reedição circular das condições postas nas origens e toda narrativa ficcional num enredo enleado com os temas eternos da mitologia. Sua lei, a da cultura subordinada às Musas, era a da eterna repetição, da imaginação engastada no ritmo, do enlevo pela sedução mística da música, viesse ela da lira de Apolo ou dos tambores e flautas de Dionísio. "Sua voz incansável flui de suas bocas (de Musas) em entonações prazerosas, e essa harmonia enfeitiçadora, na medida em que se difunde, leva sorrisos ao palácio de seu pai (Zeus)...", reza a tradição. O próprio tempo obedecia à cadência irresistível dessa música e a marcha dos eventos se compunha dos desdobramentos contínuos, repetitivos, dessa pulsação cósmica. É por isso que essas deusas cantantes "sabiam tudo o que é, o que foi e o que será..."

Erato e sua lira, John William Godward
(Musa da Poesia Erótica)

Com o advento da cultura leiga, torna-se impossível, justamente, "saber tudo o que é, o que foi e o que será". Em compensação, abre-se uma área virgem na imaginação, onde os homens podem especular sobre o que poderia ter sido. Esse é o privilégio exponencial da literatura em chave leiga, assim como a irredutibilidade das contingências é o preço pago para a instauração da narrativa histórica, como uma prática regida por esse mesmo diapasão leigo. Pode-se dizer que, ao se separarem, uma ficou presa no labirinto do aleatório e a outra se safou liberta, levando nas mãos todas as chaves de portas que não existem.

As Musas: Clio, Euterpe e Thalia, Eustache Le Sueu
(Clio, Musa da História, Euterpe, Musa da Poesia Lírica e Thalia, Musa da Comédia)

Postas assim as coisas, contudo - ao contrário da conclusão a que nos podem induzir as aparências -, a história e a ficção, mais do que definirem diferentes modalidades da linguagem, estabelecem antes diferentes moralidades do discurso. Isso devido ao ativismo ético que se tornou a quintessência das culturas gnósticas, como a nossa, essa compulsão para a ação como recurso compensatório para o desencantamento do mundo e a disciplinação do corpo para o trabalho. Kafka percebeu com cristalina clareza o desequilíbrio desse dilema moral da nossa cultura. "Ninguém se pode dar por satisfeito com o Conhecimento puro e simples, antes devendo esforçar-se por agir de acordo com ele; e como a força para tanto não lhe é de igual modo fornecida, vê-se a criatura na contingência de consumir-se, arriscando-se a mesmo assim não obter a força necessária, conquanto não lhe reste senão essa possibilidade..."

As Musas Melpomene, Erato e Polyhymnia, Eustache Le Sueur
(Melpomene, Musa da Tragédia, Erato, Musa da Poesia Erótica e Polyhymnia, Musa da Poesia Sacra e Geometria)

Há em particular uma parábola de Jorge Luis Borges, denominada "História dos Dois Que Sonharam", que procura ilustrar essas diferentes moralidades, fazendo-as reverberar em sentidos opostos, no âmago de um contexto gnóstico espesso. A ambiguidade se manifesta já nas raízes da narrativa, Borges a atribui como transcrição literal ao historiador árabe El Ixaqui, mas indica ao mesmo tempo que ela provém de uma fonte ficcional, o livro das Mil e uma Noites, no qual ela seria, o que é naturalmente falso, a história correspondente à 351ª noite.

Polyhymnia, Charles Meynier
(Musa da Eloquência)

Trata-se da estranha história de um homem pio e generoso, chamado El Magrebi, que vivia no Cairo. El Magrebi era muito rico, mas também benevolente, o que lhe consumiu toda a fortuna, exceto a casa que herdara do pai. Sonhou então uma noite com um homem gordo, que tirando uma moeda de ouro da boca lhe falou que sua fortuna estaria na cidade de Isfajan, na Pérsia. Acatando a determinação do sonho, El Magrebi enfrentou mil dificuldades e riscos, até chegar à distante Isfajan. Chegou tão exausto que caiu em sono profundo no pátio de uma mesquita. Naquela noite um bando de ladrões atravessou a mesquita para roubar uma casa ao lado. Afugentados pelos moradores e pela polícia noturna porém, eles fugiram passando de novo pela mesquita, onde a polícia encontrou o pobre El Magrebi.

Terpsichore, Giovanni Baglione
(Musa da Dança e do Canto)

Sendo a polícia incapaz de provar sua culpa ou ele incapaz de provar sua inocência, foi espancado quase até a morte, ficando desfalecido por dois dias. Quando acordou, o capitão de polícia lhe perguntou quem era e o que fazia na cidade. Ele contou a história do sonho. O capitão riu até se dobrar e depois lhe disse: "Homem desatinado e ingênuo, três vezes eu sonhei com uma casa na cidade do Cairo e cujo fundo existe um jardim e no jardim um relógio de sol e depois do relógio uma figueira e depois da figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu entretanto, filho de uma mula com um demônio, erraste de cidade em cidade guiado apenas pela fé em teu sonho. Que eu não volte a te ver em Isfajan. Toma essas moedas e vai-te".

Thalia, Giovanni Baglione
(Musa da Comédia)

El Magrebi voltou ao Cairo e sob a fonte no jardim da sua casa, que aparecera no sonho do capitão, encontrou o tesouro anunciado, Pode parecer impróprio que a história pessoal de um único homem, que não interferiu no destino dos povos, seja o assunto de um historiador. Mas toda narrativa é atravessada por uma intenção moral. No caso desta, tanto a moralidade da ficção quanto a da historiografia ficam expostas. El Magrebi, o sonhador obstinado, se parece com o fantasma inocente do literato, enquanto o capitão, que ri dos sonhos dos outros e dos seus próprias, insinua as feições do espectro cínico do historiador. Se reparamos, Borges os neutraliza porque é filho dos dois, suas histórias não têm heróis.

Apolo, Deus da Luz, da Eloquência, Poesia e Artes com Urania, Charles Meynier
(Urania, Musa da Astronomia e Astrologia)

Nicolau Sevcenko. História e ficção ou a realidade aos sonhos. In: YASBEK, Mustafa (Org.). Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 149-153.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Obsidiana

Sacrifício humano. Codex Magliabechiano

A obsidiana é um mineral que, raspado, fornece um pó medicinal para a cura de ferimentos. Lustrado, transforma-se num luminoso espelho. Afiado e cortado, passa a ser uma poderosa arma. Essa pedra era muito conhecida pelos habitantes das cidades e aldeias que faziam parte de algumas das civilizações indígenas do continente americano.

Relato envolvente e hipnótico, Obsidiana mostra um europeu deparando-se com a morte nas terras distantes do além-mar. O choque entre dois universos incapazes de se entenderem reciprocamente. O homem encarado como ser divino aos olhos de outros homens. Os europeus observados com fascinação pelos povos não menos fascinantes do continente recém-descoberto.

* * *

"Observem os curiosos leitores se não é mesmo necessário ponderar sobre isto que aqui escrevo: que homens já existiram no universo que tal atrevimento tivessem?"
 [Bernal Díaz del Castillo, Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España]

* * *

Ao pé desta pirâmide contemplo agora o fim de toda a história. Foi daqui mesmo que eles nos fizeram ver, pela primeira vez, a imensidão da cidade armada sobre os pântanos. Daqui pude ver como fervilhava o inferno de pedras brancas e alaranjadas que essa gente construiu entre os canais. Cidade de águas e de torres. Daqui do alto foi que eu e os meus estendemos as mãos na direção dos horizontes incrustados de plumas, de flores, de sangue escurecido, de montanhas fumegantes, à luz de um ar tão limpo como não recordo termos deixado atrás.

Como deuses eles nos receberam por toda parte. Aportamos e durante toda a escalada eles nunca ousaram encarar nossos líderes frente a frente, curvando-se como o costume diante de seu imperador de barbas ralas. Vi como uivavam de pavor diante de nossos cavalos, prolongamento de corpos de cristãos. Vi como gemiam enquanto observavam os olhos amarelos de nossos cães acorrentados. Esperavam por nós para entregar o império; escancararam todas as portas. Nenhum rei mouro teve franqueado o uso do ouro que eles depositaram em nossa confiança, entregando de bom grado o pescoço, quando o pedíamos, ao mesmo braço que abarrotava de tesouros os porões dos navios de nossa esquadra.

Boca e garganta secas. Um cão que ladra, não dos nossos. O sangue já pode ser observado pelos canais. Agora os cristãos estão diante deles por toda parte. Mas esses seres combatem como feras acuadas desde a matança na festa do Pátio Sagrado. Combatem a cruz de Nosso Senhor. Repudiam a servidão ao imperador que está além do vasto oceano e dos altos vulcões. Agora nos entregam à sede dos seus ídolos escondidos no seio destes templos com ar morno de matadouro.

Quero cuspir e não consigo. Um deles se dá ao trabalho de desferir uma pancada em minhas pernas e volta mais uma vez a me ameaçar com sua bengala dourada no ar. Não deseja que fiquemos erguidos. Meu joelho ferido empurra todo o corpo para baixo. Desmorono como um pão encharcado, aos olhos dos meus companheiros, todos em silêncio. Assim é que se humilha um capitão castelhano.

É certo que isto termina logo. Não posso mais ficar em pé. A fraqueza mina toda resistência. Três dias aprisionados ao ar livre e sem alimentos. Os sacerdotes que formam um grupo à nossa frente retornam entoando seus longos lamentos: lentas litanias. Sacerdotes de longos cabelos negros e longas túnicas negras. Golpeiam o próprio peito e balançam as cabeças asquerosas repetindo essas orações que nunca poderemos compreender. Nunca chegaremos à tradução pura das palavras dessa língua.

Guerreiros vestidos com peles e cabeças de jaguar vigiam mantendo distância. Há outros, jovens também, com as mesmas e repelentes máscaras de águia. Movimentos suaves em ritmo de pesadelo. Alguns desses rapazes já empunham nossas armas brancas, embora ainda quase todos tenham nas mãos suas próprias espadas de madeira com placas encaixadas de obsidiana afiada. A pedra de Óbsio. A pedra escura de vidro dos africanos e que estava à nossa espera nestas alturas do mundo. Um dos sacerdotes parece querer mostrar-me um espelho de obsidiana que ostenta ao peito. Procuro minha face, mas ela vem e vai num relance. Outro sacerdote, com uma espada de lâminas de obsidiana presa pelas duas mãos, está perto de mim. Cristo que lhes abrigue as almas.

No chão, é onde estou ainda. O joelho apodrecendo há três dias, desde minha intervenção fracassada para salvar a vida do capitão-geral, enquanto todo nosso exército se arrastava sob a chuva, acossado na retirada, protegendo o ouro que já pesava aos ombros e aos animais.

Os demônios nos tiraram tudo. Meu elmo jogado longe e minhas roupas num monte, junto com as dos meus companheiros. O alarido da guerra que não deixamos de lhes fazer vem até aqui, nos alcançando em ondas espaçadas. O estrondo das armas de fogo chega, o prolongamento dos braços cristãos. Eles gritam batendo nas bocas com as mãos abertas e o som sopra de todos os cantos da cidade. Amaldiçoada cidade aprisionada que agora os nossos e os aliados que obtivemos na própria terra se empenham em devastar, erguendo as colunas de poeira e de fumaça que podemos perceber sem esforço. A lua é a mesma de quando estivemos aqui pela primeira vez, trazidos pelas mãos servis de chefes maiores dessa gente. A lua é imensa no céu claro, e a luz do sol parece lhe dar mais brilho.

Sacerdotes regam as feridas dos meus companheiros com um remédio da terra: a obsidiana raspada; um pó fino que ajuda a cicatrizar as chagas que as lâminas de seus fiéis seguidores provocaram. Chega minha vez.

Todos nus como chegamos a esta vida, é como estamos. O calor forte penetra mais agora que não temos proteção alguma sobre a pele. Calor do fogo eterno que eles mantêm neste templo; calor do sol que banha este solo desde o alto, fogo que transformou todas nossas obsessões em névoa durante os últimos dias e noites que aqui vivemos.

Em nome do nosso rei e do nosso deus desembarcamos deste lado do mundo. Em nome de seus reis e de seus deuses eles nos deram combate. Não vi guerra assim jamais: entre franceses ou entre italianos ou entre turcos. Por seus reis e por seus deuses eles querem nos dar fim. Neste instante tentam erguer-me com certo cuidado. Meu rosto se reflete na placa de pedra escura que oscila no peito do sacerdote. Fecho os olhos feridos e os abro ao ouvir a voz de um homem que chora.

O bálsamo, o espelho, a morte. A esse que caminha em minha direção empunhando um punhal de obsidiana eu grito que não, que não é assim que se abate um fidalgo castelhano. Digo a esse sacerdote que não é assim que se abre o peito de um capitão castelhano, com um só talho rasgado em bruto golpe; que não é assim que se entrega seu coração pulsante ao sol e aos deuses assassinos à espreita desde o dia em que nos entregamos à conquista cristã, para o imperador espanhol, das terras que são parte destes domínios astecas das Índias Ocidentais.

Mustafa Yasbek. Obsidiana. In: YASBEK, Mustafa. (Org.). Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 139, 141-145.