"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Império Mongol: uma grande ponte entre a Europa e a Ásia

Batalha entre mongóis e chineses, Rashid al-Din

O incrível Império Mongol formou-se à custa de terríveis destruições. E, no entanto, reinava aí o que se chamava de "paz mongol". Os comerciantes, as caravanas e os viajantes como Marco Polo, circulavam, sem serem atacados, através da rota da seda. Missionários cristãos atravessaram a Ásia sem problemas, porque os mongóis respeitavam a religião dos outros.

Temudjin tinha mandado redigir um código de leis, baseado nos costumes dos nómadas, introduziu nele regras de justiça e recomendava a honestidade, a fidelidade, a hospitalidade e o respeito pelos pais. No império assim unificado, as populações misturaram-se, os saberes trocaram-se do mar da China ao mar Mediterrâneo.

O Império Mongol é um exemplo único na história do homem, de um imenso Estado conquistado e governado por nómadas.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 101-2.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Sudão e as culturas mediterrâneas

Cabeça de um prisioneiro núbio. Templo mortuário de Ramsés III, ca. 1184-1153 a.C., Egito

Com limites não muito precisos, o antigo Sudão abrangia uma vasta área da África central, compreendida entre o Atlântico e o mar Vermelho e situada ao sul do Saara. Seu nome originou-se da expressão árabe Bilad al-Sudan, que significa "País dos Negros", com a qual se designava toda a parte da África habitada pelos negros, em oposição à África mediterrânea..

Tratava-se de uma região geograficamente bastante homogênea, constituída por uma grande planície e com um clima quente, que varia do úmido ao seco, mantendo-se constante tanto no interior quanto no litoral. Com uma vegetação típica das savanas, o território sudanês abrigava três importantes bacias hidrográficas: a do Níger, a do Tchad e a do Nilo.

As populações locais possuíam uma organização social e política que pouco variava de grupo para grupo. Os Estados sudaneses eram chefiados por soberanos, aos quais se atribuíam honras divinas e cujas vidas privadas se mantinham em absoluto sigilo. Acreditando que de sua boa forma física dependia a fertilidade do solo, seus súditos costumavam sacrificá-los por motivo de doença ou velhice. Nestes casos, promoviam sua execução ritual, que era seguida de solenes cerimônias fúnebres.

Os Estados sudaneses não eram de tipo feudal. Assim, sua vida política e econômica não se baseava nos privilégios das grandes famílias. Na realidade, apoiavam-se em uma estrutura burocrática formada por funcionários escolhidos pelo rei, que tinham por principal função a cobrança dos impostos necessários à manutenção do soberano e de sua corte.

Os primeiros Estados do Sudão surgiram como expressões de estruturas sobrepostas a comunidades eminentemente rurais. Em alguns casos, a origem de tais organismos relaciona-se a movimentos de conquista, já que muitos deles se desenvolveram a partir de uma progressiva anexação de comunidades tribais preexistentes na região. A época em que os Estados sudaneses se formaram ainda não foi definida com precisão. No entanto, pode-se assegurar a existência de alguns - como os de Ghana, Mali e Songhai - ou de seus núcleos originais já nos primeiros séculos depois de Cristo. O processo de desenvolvimento desses Estados ocorreu, a princípio, no interior do continente. As regiões litorâneas só foram alcançadas muito mais tarde, quando os europeus chegaram à África e foram inauguradas novas correntes de comércio na área.

A faixa setentrional da África, que se estende ao norte do Saara, esteve por mais de um milênio diretamente ligada à vida dos povos mediterrâneos, a seus impérios políticos e a seus movimentos culturais. A Fenícia, por exemplo, manteve em Cartago o seu reduto de maior poderio e prestígio. A expansão macedônica e o helenismo transformaram Alexandria, na foz do Nilo, em um dos principais centros culturais da antiguidade. O Império Romano, por sua vez, ao integrar a África setentrional na unidade política e econômica do Mediterrâneo, favoreceu a difusão do cristianismo no norte do continente, suscitando o desenvolvimento de escolas teológicas e vários movimentos espirituais. Modificando as estruturas políticas e administrativas da África romana e isolando-as da Europa, os vândalos facilitaram as migrações de grupos berberes, provocando grandes mudanças em sua vida política, econômica e social.

A influência mediterrânea na África setentrional tornou-se menos acentuada com a queda do Império Romano, não tendo atingido a África sudanesa, ao sul do Saara. Os domínios cartaginês e romano jamais ultrapassaram o deserto: enquanto Cartago se detinha nos interesses comerciais e marítimos, Roma utilizava o Saara para defender suas províncias dos nômades, ocupando efetivamente apenas o oásis de Germa, na região do Fezam meridional.

A partir do século V a.C., entretanto, começou a haver um intercâmbio entre a África mediterrânea e a África negra. O porto de Leptis Magna, na costa do Mediterrâneo, funcionava provavelmente como escoadouro dos produtos que chegavam pelas rotas comerciais provenientes do sul através do Fezam, enquanto o de Lixus, na costa atlântica do Marrocos, desempenhava o mesmo papel em relação às rotas comerciais que cruzavam o deserto da Mauritânia.

O contato entre berberes do deserto e negros do Sudão foi determinado basicamente pela diversidade do meio ambiente, pelos recursos econômicos e pelas formas de vida predominantes nos dois grupos. As mercadorias que os sudaneses podiam oferecer eram representadas principalmente por escravos, marfim, peles e plumas de avestruz, que trocavam pelo sal extraído das jazidas do Saara. A influência das populações do norte sobre o Sudão não foi, entretanto, apenas comercial. Antigas crônicas referem-se aos primeiros reis de Ghana como homens brancos provenientes do norte, enquanto outras fontes relacionam a origem dos haussa, que habitavam a Nigéria setentrional, a migrações de povos do norte. Talvez esse processo se tenha limitado à fixação de pastores berberes do deserto em regiões cuja população negra já possuía uma organização política própria.

Esses elementos comprovam a existência de relações e de um intercâmbio econômico, político e cultural entre o Sudão e as áreas povoadas pelos berberes, assim como a ação estimulante que estes últimos exerceram sobre o desenvolvimento dos Estados sudaneses. Contudo, procura-se ainda determinar em que medida as populações do Sudão, por meio da mediação dos nômades berberes, sofreram influências das civilizações mediterrâneas, ou em que medida, inversamente, possam ter influído sobre estas, em épocas anteriores à colonização europeia.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 40, 42 e 44. Volume 3.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O legado do Egito faraônico

Lago sagrado de Karnak, Carl Wuttke

As valiosas contribuições que o Egito faraônico legou à humanidade podem ser verificadas em diversos campos, como a história, a economia, a ciência, a arte e a filosofia. [...]

De fato, essa herança - ou pelo menos os seus testemunhos, tão importantes para a história da humanidade - transmitiu-se, em grande parte, através da Antiguidade Clássica [...] antes de chegar aos árabes.

Um dos mais antigos e notáveis avanços da civilização egípcia verificou-se no campo da economia. Ao final do Neolítico [...] os antigos egípcios transformaram gradualmente o Vale do Nilo, permitindo que seus habitantes passassem de uma economia de coleta a uma economia de produção de alimentos; [...] O desenvolvimento da agricultura possibilitou aos antigos egípcios adotarem uma forma de vida aldeã, estável e integrada, o que, por sua vez, afetou seu desenvolvimento social e moral, não apenas no período pré-histórico, mas também durante o período dinástico.

Decorre daí um outro desenvolvimento fundamental: a introdução de um novo sistema social no interior da comunidade, ou seja, a especialização do trabalho. Trabalhadores especializados surgem na agricultura, na irrigação, nas indústrias agrícolas, na cerâmica e em diversas outras atividades afins. [...]

A civilização faraônica distinguiu-se pela continuidade do seu desenvolvimento. Toda aquisição é transmitida - e aperfeiçoada - do começo ao fim da história do antigo Egito. Assim, as técnicas do Neolítico foram enriquecidas no período pré-dinástico (-3500 a -3000), mantendo-se ainda em pleno período histórico. É o que testemunha, por si só, a arte de trabalhar a pedra.

Já por volta de -3500, os egípcios, herdeiros do Neolítico do vale, utilizaram-se dos depósitos de sílex ali localizados para esculpir instrumentos de qualidade incomparável, dos quais a faca de Djebel el-Arak é um exemplo entre centenas de outros. A mesma perícia está presente na confecção de vasos de pedra. As técnicas de talhar a pedra foram transmitidas posteriormente ao mundo mediterrânico. Tudo leva a crer que as técnicas de confecção dos vasos de pedra cretenses tenham sido aprendidas se não no próprio Egito, pelo menos num meio inteiramente impregnado da cultura egípcia, como o corredor sírio-palestino. [...]

A habilidade dos canteiros que trabalhavam com pedra dura transmitiu-se aos escultores, o que se pode constatar pelas grandes esculturas egípcias nesse material. A técnica passou, então, para os escultores do período ptolomaico e posteriormente encontrou expressão na estatuária do Império romano.

[...] O legado material compreende o artesanato e as ciências (geometria, astronomia, química), a matemática aplicada, a medicina, a cirurgia e as produções artísticas; o cultural abrange a religião, a literatura e as teorias filosóficas.

A contribuição do antigo Egito à produção artesanal aparece nos trabalhos em pedra, mas também no artesanato em metal, madeira, vidro, marfim, osso e muitos outros materiais.

Já nos primórdios do período dinástico (cerca de -3000), os egípcios conheciam e empregavam todas as técnicas básicas da metalurgia. Além dos utensílios, foram encontradas grandes estátuas egípcias de cobre, datadas de -2300, e cenas de mastabas de um período ainda mais remoto mostram as oficinas onde o ouro e o electro são transformados em joias. [...]

A cultura precoce do linho fez com que muito cedo os egípcios adquirissem grande habilidade na fiação manual e na tecelagem. [...] Para os faraós, os tecidos constituíam um produto de troca particularmente apreciado no exterior. O mais fino, o bisso, era tecido nos templos e gozava de fama especial. A administração central dos Ptolomeus organizava as vendas ao estrangeiro que trouxeram ao rei grandes lucros. Temos aqui um exemplo de uma das maneiras pelas quais se transmitiu o legado egípcio.

As indústrias da madeira, do couro e do metal aperfeiçoaram-se, e os seus produtos conservaram-se em boas condições até nossos dias. Os antigos egípcios tinham um talento especial para tecer junco selvagem, confeccionando esteiras, e a fibra da palmeira possibilitou a produção de redes e cordas resistentes.

A manufatura da cerâmica teve início na Pré-História, com formas bastante rudimentares, evoluindo em seguida para uma cerâmica mais fina, vermelha e de bordas negras, mais tarde polida e gravada. A crença em determinados valores e, em particular, na vida eterna, por exigir a manufatura de uma grande quantidade de objetos para os mortos, levou a uma grande produção, de alto grau de perfeição.

Deve-se ao Egito, se não a invenção, pelo menos a difusão das técnicas de fabricação do vidro a toda a civilização mundial. [...] A partir de -700 aproximadamente, os vasos egípcios de vidro conhecidos como "alabastro" difundiram-se por toda a região do Mediterrâneo. Os fenícios os copiaram, e sua manufatura transformou-se em indústria.

Uma das indústrias mais importantes do antigo Egito foi a do papiro, de invenção autóctone. Nenhuma outra planta teve, no Egito, papel tão significativo. As fibras do papiro eram usadas na fabricação ou calafetagem de embarcações e na confecção de pavios de candeeiros a óleo, esteiras, cestos, cordas e cabos. Vinte folhas de papiro, unidas enquanto ainda úmidas, formavam um rolo de 3 a 6 m de comprimento. Vários rolos podiam ser unidos de modo a formar uma unidade de 30 ou 40 m de comprimento; tais rolos constituíam os "livros" egípcios. Eram segurados com a mão esquerda e desenrolados à medida que se fazia a leitura. O herdeiro direto desse rolo é o "volume" da Antiguidade Clássica.

De todos os materiais empregados como suporte para a escrita na Antiguidade, o papiro certamente foi o mais prático, por ser flexível e leve. A fragilidade, porém, era o seu único inconveniente. Utilizado no Egito desde a I dinastia (cerca de -3000) até o fim do período faraônico, o papiro foi, mais tarde, adotado pelos gregos, romanos, coptas, bizantinos, arameus e árabes. Os rolos desse material constituíam um dos principais produtos de exportação do Egito. O papiro foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores legados do Egito faraônico à civilização.

[...]

A tradição e a perícia na construção em pedra não foram uma contribuição técnica menor dos egípcios ao mundo. Não era nada fácil transformar os imensos blocos brutos de granito, calcário, basalto e diorito em blocos bem talhados e polidos, destinados a diferentes projetos arquitetônicos. Além disso, a busca de pedras para a construção dos monumentos, assim como a prospecção de minérios metálicos e a procura de fibras, de pedras semipreciosas e de pigmentos coloridos contribuiu para a difusão das técnicas egípcias na África e na Ásia.

A perícia dos egípcios no trabalho da madeira manifesta-se brilhantemente na construção naval. [...]

O Egito faraônico nos deixou valiosa herança nos campos da física, química, zoologia, geologia, medicina, farmacologia, geometria e matemática aplicada. De fato, legou à humanidade uma grande reserva de experiências em cada um desses domínios, alguns dos quais foram combinados de modo a possibilitar a realização de objetivos específicos.

Um dos melhores exemplos da engenhosidade dos antigos egípcios é a mumificação, que ilustra o conhecimento profundo que tinham de inúmeras ciências [...]. Foram sem dúvida os conhecimentos adquiridos com a prática da mumificação que permitiram aos egípcios o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas desde os primeiros tempos de sua história. A cirurgia egípcia é bastante conhecida graças ao Papiro Smith, cópia de um original escrito durante o Antigo Império, entre -2600 e -2400, um verdadeiro tratado sobre cirurgia dos ossos e patologia externa. Ainda hoje são aplicados vários tratamentos indicados nele.

Por sua abordagem metódica, o Papiro Smith serve como testemunho da habilidade dos cirurgiões do antigo Egito, habilidade que, supõe-se, foi transmitida pouco a pouco à África, à Ásia e à Antiguidade Clássica pelos médicos que acompanhavam as expedições egípcias aos países estrangeiros. Além disso, sabe-se que [...] Hipócrates tinha acesso à biblioteca do templo de Imhotep em Mênfis. Posteriormente, outros médicos gregos seguiram-lhe o exemplo.

Pode-se considerar o conhecimento da medicina como uma das mais importantes contribuições científicas do antigo Egito à história da humanidade. Documentos mostram detalhadamente os títulos dos médicos egípcios e seus diferentes campos de especialização. [...] A influência egípcia sobre o mundo grego, tanto na medicina como na farmacologia, é facilmente reconhecível nos remédios e nas prescrições.

A farmacopeia egípcia abrangia grande variedade de ervas medicinais, cujos nomes, lamentavelmente, são intraduzidas. As técnicas medicinais e os medicamentos egípcios gozavam de grande prestígio na Antiguidade, conforme revela Heródoto. Para a execução de seu trabalho, os médicos dispunham de uma grande variedade de instrumentos.

Outro importante domínio da ciência a que os antigos egípcios se dedicaram foi a matemática. As medições acuradas dos seus enormes monumentos arquitetônicos e escultóricos constituem uma excelente prova e sua preocupação com a precisão. [...]

Do Médio Império (-2000 a -1750) chegaram-nos dois importantes papiros matemáticos: o de Moscou e o Rhind. O método egípcio de numeração, baseado no sistema decimal, consistia em repetir os símbolos dos números (unidades, dezenas, centenas, milhares) tantas vezes quanto fosse necessário para obter o número desejado. Não existia o zero. Na matemática egípcia podem-se distinguir três partes: a aritmética, a álgebra e a geometria.

O conhecimento da geometria encontrou considerável aplicação prática na agrimensura, que desempenhou um papel significativo no Egito.

[...]

O calendário civil egípcio constava de um ano de 365 dias, o mais exato conhecido na Antiguidade. Ao lado desse calendário civil, os egípcios também utilizavam um calendário religioso, lunar, estando aptos a prever com razoável precisão as fases da Lua.

[...]

Para determinar as horas do dia, que também variavam conforme as estações, os egípcios utilizavam um gnomon, isto é, uma simples vara plantada verticalmente numa prancha graduada, munida de um fio de prumo. O instrumento servia para a medição do tempo gasto na irrigação dos campos, uma vez que a água tinha de ser distribuída imparcialmente. Assim como o gnomon, os egípcios tinham relógios de água colocados no interior dos templos. Esses relógios foram tomados de empréstimo e aperfeiçoados pelos gregos: são as clepsidras da Antiguidade. Eram feitos no Egito já em -1580.

Os antigos egípcios aplicaram seus conhecimentos de matemática à extração, transporte e assentamento dos enormes blocos de pedra utilizados em seus projetos arquitetônicos. O Egito desenvolveu uma grande variedade de formas arquitetônicas, das quais a pirâmide, sem dúvida, é a mais característica. [...]

Até a conquista romana, a arquitetura civil continuou a empregar o tijolo cru, mesmo nas construções de palácios reais. Outra contribuição no campo da arquitetura é a criação da coluna, que, a princípio, era embutida na parede e mais tarde tornou-se isolada.

A paisagística e o urbanismo são outros aspectos da arquitetura egípcia. Esse gosto egípcio por jardins-parque transmitiu-se aos romanos.

[...]

Um fato, ao menos, parece confirmado: as tradições arquitetônicas dos faraós penetraram na África através de Méroe e, depois, de Napata, que transmitiram formas - pirâmides e pilonos, entre outras - e técnicas - construção com pedras talhadas pequenas e bem modeladas.

A contribuição cultural, esse aspecto abstrato do legado egípcio faraônico, abrange as contribuições nos domínios da escrita, da literatura, da arte e da religião.

Os egípcios desenvolveram um sistema de escrita hieroglífica em que muitos dos símbolos derivaram do seu meio ambiente africano. Pode-se afirmar, portanto, que não se trata de um empréstimo, mas de uma criação original.

Os contatos culturais com a escrita semítica ocorridos no Sinai devem ter contribuído para a invenção de um verdadeiro alfabeto. Este foi tomado de empréstimo pelos gregos, e sua influência estendeu-se à Europa. Os antigos egípcios inventaram igualmente os instrumentos de escrita. A descoberta do papiro, transmitido à Antiguidade Clássica, certamente contribuiu para a difusão de ideias e conhecimentos. A extensa literatura da época faraônica cobre todos os aspectos da vida dos egípcios, desde as teorias religiosas até os textos literários, como narrativas, peças de teatro, poesia, diálogos e crítica. [...]

Bom exemplo dos sentimentos expressos na literatura egípcia é o texto inscrito em quatro urnas funerárias de madeira encontradas em el-Bersheh, no médio Egito. Pode-se admitir, finalmente, que determinados elementos da literatura egípcia tenham sobrevivido até nossos dias graças às maravilhosas narrativas da literatura árabe. Esta, com efeito, parece ter suas fontes na tradição oral egípcia.

[...] Os antigos egípcios aliavam às suas atividades terrenas a esperança de uma vida após a morte; assim, a arte egípcia é particularmente expressiva por representar crenças profundamente arraigadas.

[...]

Pode-se considerar a religião como uma das contribuições filosóficas do Egito. Os antigos egípcios desenvolveram inúmeras teorias sobre a criação da vida, o papel das forças naturais e a reação da comunidade humana frente a elas, assim como sobre o mundo dos deuses e sua influência no pensamento humano, os aspectos divinos da realeza, o papel dos sacerdotes no interior da comunidade e a crença na eternidade e na vida além-túmulo.

Essa profunda experiência do pensamento abstrato influenciou a comunidade egípcia de tal modo que terminou por produzir um efeito duradouro sobre o mundo exterior. Para o historiador, é visível a influência religiosa egípcia sobre certos aspectos da religião greco-romana, como se pode constatar pela popularidade da deusa Ísis e do seu culto na Antiguidade Clássica.

A Fenícia desempenhou um papel especialmente importante na transmissão do legado faraônico ao resto do mundo. A influência do Egito sobre a Fenícia pode ser atribuída aos contatos econômicos e culturais entre as duas regiões. [...] Os contatos com a Fenícia eram indispensáveis para a importação de matérias-primas vitais, como a madeira. Os comerciantes egípcios estabeleceram um santuário em Biblos, cidade com que mantinham estreitos contatos comerciais. A cultura e as ideias egípcias difundiram-se por toda a Bacia do Mediterrâneo por intermédio dos fenícios.

A influência da cultura egípcia sobre a sabedoria bíblica, entre outras, é notável. As relações comerciais e culturais com o Levante estabeleceram-se ao longo do II e do I milênio antes da Era Cristã, período que compreende o Médio e o Novo Império, bem como as últimas dinastias. Os contatos desenvolveram-se naturalmente, acompanhando a expansão política e militar egípcia; traços da arte egípcia aparecem em vários sítios sírios e palestinos.

[...]

Vestígios da escrita hieroglífica egípcia foram encontrados nos textos semíticos do Levante. [...]

Esse vasto legado faraônico, disseminado pelas civilizações antigas do Oriente Próximo, foi por sua vez transmitido à Europa moderna por intermédio do mundo clássico. Os contatos econômicos e políticos entre o Egito e o mundo mediterrânico oriental, no período histórico, resultaram na disseminação de objetos da civilização faraônica por regiões como a Anatólia e o mundo egeu pré-helênico.


Os fragmentos retratam cenas da famosa expedição promovida pela rainha Hatshepsut para o reino de Punt. Relevo em pedra calcária, XVIIIª dinastia (c. 1473-1458 a.C.). A cena mostra o governante de Punt e sua esposa. O príncipe, com cabelos curtos e barba longa, usa um saiote com uma adaga na cintura e um bastão na mão esquerda. A esposa  é retratada como uma figura obesa. Os nativos de Punt carregam produtos para a delegação egípcia.

Ao lado das relações entre o Egito faraônico e o mundo mediterrânico, é importante sublinhar a presença de laços culturais a unir o Egito ao interior africano. Tais vínculos existiram tanto na pré-história quanto na época histórica. A civilização egípcia impregnou as culturas africanas vizinhas. Estudos comparativos comprovaram a existência de elementos culturais comuns à África negra e ao Egito, como, por exemplo, a relação entre a realeza e as forças naturais. [...]

SILVÉRIO, Valter Roberto (coord.). Síntese da coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013. p. 172-5, 177-181.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Iconografia: Praça das três culturas

Praça das Três Culturas, Cidade do México

A foto retrata uma paisagem da Cidade do México. Nela podemos observar uma combinação ilustrativa das trocas culturais que ocorreram entre os colonizadores espanhóis e a civilização asteca. Em primeiro plano vemos as ruínas de um templo asteca, mantidos como objetivos culturais e turísticos. Mais ao fundo, a igreja barroca de Santiago Tlatelolco, a qual atesta a religiosidade católica do passado e do presente. Essa religiosidade é marcada por fortes influências das crenças tradicionais dos povos indígenas, resultando no sincretismo religioso que caracteriza o catolicismo latino-americano. Ao fundo e à esquerda vemos prédios modernos, de muitos andares, símbolos da modernidade capitalista, que abala não só os estilos de vida tradicionais, mas também a religiosidade de raízes coloniais.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 63.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A difusão cultural

O Senado de Tlaxcala, Rodrigo Gutiérrez

O eminente etnólogo norte-americano Paul Radin defende, entusiasticamente, a seguinte tese: as civilizações Maia, Pré-Incaica e Incaica seriam as grandes criadoras e irradiadoras culturais do continente. Os Maias teriam exercido influencia nos atuais territórios do México e dos Estados Unidos e mediante sucessivas migrações rumo ao sul, teriam também influenciado a América Central e América do Sul. O início destas migrações - a data não é precisa - remonta a uns cem anos antes de Cristo. Essas migrações massivas - cujos motivos desconhecemos - levavam consigo os admiráveis elementos da civilização Maia que, no contato com outros povos de níveis de desenvolvimento inferiores aos deles, perderam parte de sua entidade original exercendo porém uma intensa e benéfica influência. Ainda de acordo com a tese de Radin, os vestígios da cultura Maia são encontrados em uma área gigantesca, habitada por inúmeros povos de diferentes níveis culturais, possuidores de diferentes manifestações daquela cultura.

Atualmente, não há dúvida alguma de que os povos pré-incaicos possuíam uma civilização de altíssimo nível, e que a tribo Inca que os dominou e construiu o império [...] não acrescentou grande coisa àquelas civilizações. Também estaria fora de discussão o caráter de pólo irradiador de civilização que haviam tido e cujas projeções chegam até os Araucanos no sul do Chile, os Kauka no Equador, os Chibcha na Colômbia, os Calchaques na Argentina e numerosíssimas comunidades indígenas do Brasil. Povos que viviam nas margens do Rio Amazonas e seus tributários assim como os Tupi-Guarani, teriam sido alcançados de formas diversas pela civilização que, a partir do terceiro século de nossa era, irradiou-se das regiões que hoje formam o Peru e a Bolívia. Também nesse caso cada povo assimilou a influência à sua maneira e aproveitou dela aqueles elementos que pudessem facilitar sua sobrevivência e talvez aquilo que seu nível cultural permitisse assimilar.

Excelentes estudos confirmam a existência de comunicações marítimas entre México e Peru. Entre outras, são muitas as provas arqueológicas e filológicas. O momento do apogeu destes contatos situa-se antes da criação da Confederação Asteca e do Império Inca e, de acordo com Paul Rivet e Arsendaux, entre os séculos X e XI de nossa era. [...]

POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 36-7.

sábado, 22 de agosto de 2015

Os não romanos entre os romanos

Vercingetórix joga suas armas aos pés de Julio César, Lionel Royer

Quem não conhece Asterix, Obelix e sua turma de gauleses que combatem os romanos nas famosas histórias em quadrinhos francesas traduzidas em inúmeros países? Quem não conhece Jesus e os apóstolos, também da época dos antigos romanos? Eram romanos ou não eram? [...]

Os romanos conquistaram primeiro a Itália e, depois, toda a bacia do Mediterrâneo e, pouco a pouco, povos e mais povos foram sendo incorporados ao mundo romano. Ainda que esses outros povos fossem sendo considerados parte de Roma e que, até mesmo, a cidadania fosse concedida a indivíduos ou grupos inteiros, sempre muitos foram os não romanos. Dentre estes, os mais numerosos eram os escravos, muitas vezes provenientes dos lugares mais distantes de Roma. Ao se tornarem escravos deviam aprender a língua, os usos e costumes dos romanos, mas não deixavam de continuar com muitas de suas crenças e valores originais. Talvez o mais famoso exemplo seja o de Espártaco, homem nascido na Trácia, na Europa Oriental. Serviu ao exército romano, desertou e tornou-se líder de uma quadrilha. Tendo sido preso, foi vendido como escravo para um treinador de gladiadores. E, em 73 a.C., em Cápua, convenceu outros gladiadores a fugirem. A revolta espalhou-se e noventa mil escravos juntaram-se a eles, sob comando de Espártaco, derrotando os dois cônsules, em 72 a.C. Mas no ano seguinte, foram, finalmente, vencidos. Houve muitas outras revoltas e fugas, mas nenhuma tão grande quanto esta. [...]

Quando os romanos conquistaram os gregos, no século II a.C., encontraram uma civilização que acharam grandiosa. Passaram a estudar a língua e a Literatura gregas, a conhecer a Filosofia, a importar obras de arte e professores gregos. Os romanos de posses passaram a conhecer o grego até melhor do que o latim [...]. Os gregos, mesmo conquistados pelos romanos, não se preocupavam em aprender o latim de seus dominadores e, ao contrário, os romanos passaram a usar o grego em tudo o que se publicava no mundo de fala grega. A oriente, da Macedônia, passando pelo Peloponeso, Ásia Menor, Síria, Palestina e Egito, os romanos conviviam com o grego como língua oficial romana. Os gregos passaram, com o tempo, a se considerar romanos, mas nunca deixaram de ser também gregos, com língua e costumes próprios.

A maioria dos povos conquistados, contudo, não era assim tão respeitada pelos romanos. Os povos podiam continuar a usar suas línguas e praticar seus costumes, mas apenas o latim era aceito como veículo de comunicação oficial. Durante muitos séculos, várias línguas como o etrusco e o osco, na Itália; o celta, na Gália; o púnico, na África; o egípcio, no Egito; ou o aramaico, na Palestina, foram utilizadas pelo povo dessas regiões. Jesus e seus discípulos, por exemplo, falavam aramaico e a religião que praticavam nada tinha a ver com a dos romanos. Os evangelhos que tratam da vida de Jesus foram escritos em grego, mas Jesus não pregava nem em grego, nem em latim. A única frase que conhecemos de Jesus em sua língua original é aquela que disse na cruz antes de morrer: eloi, eloi, lamma sabacthani? "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" (Marcos, 15, 34). Um outro exemplo: Paulo, um rabino judeu de Tarso e que falava o grego, era cidadão romano, como se lê numa passagem do Novo Testamento, da Bíblia: Quando um tribuno foi prendê-lo, ele disse: "É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?" E, ouvindo isto, o centurião foi e anunciou ao tribuno, dizendo: "vê o que vais fazer, porque este homem é romano." E vindo o tribuno, disse-lhe: "dize-me, és tu romano?" E ele disse: "Sim". E respondeu o tribuno: "Eu, com grande soma de dinheiro, alcancei este direito de cidadania". Paulo disse: "Mas eu sou-o de nascimento". Esta passagem permite notar, ainda, pela fala do tribuno, que o destaque econômico permitia que se alcançasse a cidadania romana, pela política [...] de inclusão das elites locais ao mundo romano oficial.

Os gauleses conquistados tampouco falavam o latim. Com o passar do tempo, o mundo foi sendo transformado e os diferentes povos foram se misturando, os costumes se mesclando, em alguns lugares mais do que em outros. Eram muitos costumes, em constante interação.

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2011. p. 124-6.

domingo, 3 de maio de 2015

Averróis: Ponte entre culturas

Debate imaginário entre Averróis e Porfirio. Ilustração. Manfredo de Monte Imperiati, Liber de Herbis, séc. XIV.

Seu nome é citado com frequência quando se defende a ideia, absolutamente moderna, de um "Islã das Luzes". A exemplo de Avicena (980-1037), ele encarna a imagem do sábio árabe, tolerante e aberto às trocas culturais, em contraste com aquela de uma expansão muçulmana guerreira e fanatizada. Se a sua notoriedade ultrapassa a de seu equivalente persa na Europa é porque ele contribuiu para a afirmação intelectual do Ocidente cristão.

Filósofo, teólogo, jurista, matemático e médico, Averróis (nome latinizado de Abu al-Wald Ibn Ruchd) nasceu em 1126, em Córdoba. Ele descendia de uma família de juristas que ocupavam a função de cadi, quer dizer, de juiz de paz e de notário. Seu avô tornou-se célebre por importantes trabalhos sobre a jurisprudência islâmica. A juventude de Averróis foi marcada pelo estudo rigoroso do Corão, ao qual se acrescentaram diferentes ciências, entre as quais a medicina, que ele exerceria paralelamente a seu cargo de cadi. Ele interessou-se igualmente pelo saber dos antigos. Abu Yaquib Yusuf, o segundo califa da dinastia dos almóadas (do Marrocos), encomendou-lhe um estudo das obras de Aristóteles. Como não dominava o grego, Averróis trabalhou com traduções que comparou exaustivamente, com o intuito de obter a fonte mais autêntica. Seus comentários de Aristóteles forjaram seu renome, que ultrapassou as fronteiras da Espanha muçulmana (Djazirat al-Andaluz) depois da sua morte. Eles atingiram a Universidade de Paris, onde foram debatidos com ardor. Falou-se até mesmo em uma "querela de Aristóteles", tão áspero foi o debate entre os partidários de Averróis e seus adversários. Tratava-se de determinar se a faculdade de pensar no homem era algo individual ou, como sugeria o andaluz, o reflexo de uma lógica universal. Refutando metodicamente os argumentos de Averróis, Tomás de Aquino lançou-se na batalha metafísica e, aos olhos da Santa Sé, levou a melhor. A partir desse momento, foi o pensamento tomista que animou a doutrina da Igreja.

Em cada um dos três monoteísmos em plena efervescência intelectual no século XIII, distingue-se uma grande figura: santo Tomás de Aquino (1228-1274) para o cristianismo, Moisés Maimônides (1135-1204) para o judaísmo e Averróis para o Islã. Entre todos os teólogos muçulmanos desse período, foi ele o que mais se dedicou a integrar a razão à religião, numa busca de equilíbrio entre o poder espiritual e o poder temporal. Ele distingue a verdade revelada e aquela que se pode atingir por meio da razão. Mas não para opor uma à outra e, sim, uni-las numa busca pela verdade. Em seu Discurso decisivo, ele chega a atribuir um papel indispensável nesse processo ao filósofo, mas reconhece seu caráter elitista.

Evoca-se Averróis para reavivar as cores do brasão do Islã em uma hora na qual as questões de identidade nacional, de laicidade e de integração se tornam outra vez temas ardentes. Sua obra ergue-se como um baluarte contra os fanáticos e abre uma porta ao diálogo entre religiões. Uma árvore que esconde a floresta? Os últimos anos do sábio mostram o quanto seria absurdo idealizar a idade de ouro de al-Andaluz. Se manteve boas relações com Abu Yaquib Yusuf, soberano apaixonado pela cultura, Averróis teve sérias diferenças com seu filho e sucessor, que adotou o integrismo - tendência que põe os princípios religiosos como modelo de vida política e fonte das leis do Estado - e chegou a proibir a filosofia. Ele foi condenado ao exílio em 1197, e seus livros queimados em praça pública. Colocada sob suspeita de heresia, sua obra encontrou melhor ressonância no mundo cristão. Os humanistas do Renascimento, tais como Giovanni Pico della Mirandola, lhe asseguraram um lugar no panteão dos pesquisadores da verdade, ainda que o pensador andaluz fosse condenado pelo papa em 1513.

Averróis continua a alimentar ardentes debates. Em 2008, sua influência esteve no cerne da polêmica suscitada pelo livro de Sylvain Gouguenheim, Aristote au mont Saint-Michel, que discute a forma como a cultura grega se transmitiu ao Ocidente, combatendo a tese da centralidade do papel do Islã nesse processo. A questão posta então era a seguinte: celebrar o papel de Averróis e Avicena significa admitir uma influência do Islã na matriz heleno-cristã que foi transmitida à Europa? É uma questão bastante atual diante dos conflitos políticos e culturais com que nos defrontamos.

Vincent Mottez. Ilustre desconhecido. Averróis. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 127. p. 62-63.

domingo, 12 de abril de 2015

A sociedade fenícia

Cavaleiro. Terracota do século VIII a.C.

"A antiga Fenícia correspondia mais ou menos ao território do Líbano atual. A comunicação por via terrestre era difícil devido ao terreno montanhoso, mas as cidades fenícias tinham fácil comunicação marítima. O litoral tinha bons portos naturais e nas montanhas podia-se encontrar madeira apropriada para a construção de navios. Além do mais, as cidades fenícias estavam localizadas entre a Mesopotâmia e o Egito [...]." (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20)

* O comércio era seu principal meio de vida. Como agricultores, os fenícios plantavam nos vales existentes no litoral, cereais, a videira e a oliveira, com os quais produziam farinhas, vinho e azeite.

Essa produção agrícola era lucrativa, porém frequentemente se perdia, porque a região onde se localizavam as cidades fenícias sofria constantes invasões de povos vindos dos desertos ou de exércitos de Estados fortes (como o Egito). O que deveriam fazer os dirigentes fenícios, diante da periódica destruição da sua produção agrícola? É evidente que teriam de buscar outra atividade econômica mais estável. Escolheram o comércio, que também poderia oferecer lucrativos rendimentos.

Aproveitando-se das madeiras existentes nas regiões montanhosas do interior, construíram numerosas embarcações e se expandiram pelo Mediterrâneo, fundando inúmeras colônias [...].

Em seus navios, movidos a remo e a vela, os comerciantes fenícios transportavam mercadorias produzidas em suas cidades ou compradas nos países com os quais mantinham relações comerciais.

Conhecidos como navegadores audazes e por venderem variados produtos de luxo, os comerciantes fenícios também eram vistos como negociantes desonestos. Essa opinião era comum entre os autores do Mundo Antigo, como se verifica em certa passagem da Odisseia, de Homero, poeta grego do século X a.C. [...]:

"Um dia, os fenícios, povo famoso na marinha, mas sutil e trapaceiro, abordaram as praias da nossa ilha com um barco carregado de tecidos e de bijuterias raras e brilhantes. Havia no palácio de meu pai uma escrava, notável pela beleza e pelos trabalhos que saíam de suas mãos. Aqueles estrangeiros astuciosos trataram de seduzi-la [...] e enviaram [...] um homem manhoso, que apareceu no palácio a pretexto de oferecer à venda um colar de ouro, [...] Enquanto minha mãe e as suas criadas tinham os olhos postos no colar [...] o velhaco levou a escrava para o seu barco [...]"

Segundo informações chegadas até nós, as pequenas embarcações fenícias navegavam inclusive fora do Mediterrâneo, atingindo a Inglaterra ou contornando o continente africano, como nos relata Heródoto:

"Saindo, pois, os fenícios do Mar Eritreo [Mar Vermelho], navegaram  pelo Mar do Noto [Oceano Índico], durante sua viagem. cada vez que chegava o outono, colocavam seus barcos na praia de qualquer litoral da Líbia [África], semeavam a região e esperavam a colheita. Recolhida a colheita, continuavam a viagem. Agindo assim durante dois anos, dobraram as Colunas de Hércules [Estreito de Gibraltar] e, no terceiro ano, chegaram ao Egito."

* O alfabeto foi sua principal realização cultural. A realização desses empreendimentos comerciais e marítimos obrigava os comerciantes e empresários fenícios a registrar suas transações, o que apresentava dificuldades, porque os sistemas de escritas conhecidos eram complicados. As escritas egípcias e mesopotâmicas, amplamente utilizadas pelas sociedades do Oriente Próximo, com seus numerosos e complexos sinais, revelavam-se inadequadas à feitura de recibos de compra e venda, listas de preços de mercadorias, relações de gastos com o transporte e o armazenamento dos produtos.

Foi, então, por motivos utilitaristas, que se criou um sistema de escrita simplificado, capaz de ser empregado por qualquer indivíduo. O novo sistema compreendia 22 letras, todas consoantes, e a denominação de alfabeto origina-se dos nomes das duas primeiras letras fenícias, chamadas aleph (touro) e beth (casa).

Inventado por volta de 2000 a.C., o alfabeto fenício veio depois a ser modificado pelos gregos e romanos, dando origem aos alfabetos atualmente utilizados no Mundo Ocidental.

Pouco sabemos das contribuições da sociedade fenícia nas Artes, na Literatura e nas Ciências porque a maior parte de suas realizações foi destruída pela ação do tempo. Escavações arqueológicas revelaram, contudo, que a produção artística e literária fenícia refletia profunda influência de modelos egípcios e mesopotâmicos.

A religião fenícia era politeísta e cada cidade-Estado possuía suas próprias divindades. Estas divindades sempre formavam um casal identificado com a chuva e com a terra, o que reflete o primitivo caráter agrícola da sociedade fenícia. O casal divino também era venerado como protetor da navegação e respeitosamente tratado de Baal (Senhor) e Baalat (Senhora). Assim, Adônis era o Baal e Astarté, a Baalat de Tiro. O culto incluía, no seu ritual, sacrifícios humanos de crianças, talvez uma prática religiosa para limitar o crescimento das populações urbanas.


Fenício representado em mural do Antigo Egito. 
Ca. 1500-1450 a.C.

* O governo era dos ricos comerciantes. A sociedade fenícia, ao contrário do que ocorreu em outras sociedades do Oriente Próximo, foi incapaz de organizar-se em Estado único, politicamente centralizado, como o Egito dos Faraós. Na realidade, não houve uma História Fenícia, mas, sim, das cidades-Estados fenícias que se desenvolveram independentes entre si. As mais importantes foram Sídon, Ugarit e Biblos. Cada uma delas possuía seus próprios dirigentes.

"A primeira cidade a exercer sua hegemonia foi Biblos (ca. 2500 a.C.), que comerciou intensamente com Chipre, Creta e Egito. No Egito trocava a madeira pelo papiro, material utilizado na escrita. Daí a denominação de biblos dada pelos gregos ao rolo de papiro e, por extensão, ao próprio livro.

Em seguida predominou Sídon (ca. 1500-1300 a.C.), que estendeu o comércio por todo o Mar Egeu e pelo Mar Negro, fundando colônias e comerciando com os gregos ainda semi-bárbaros.

Depois a supremacia passou a Tiro (séculos IX-VI a.C.); os fenícios estenderam-se até o norte da África - onde fundaram colônias, entre as quais Cartago (século IX a.C.) - o sul da Itália, as ilhas do Mar Tirreno, a Espanha, chegando até as atuais França e Grã-Bretanha. A partir do século VI a.C. Tiro entrou em declínio, passando a sofrer a concorrência dos etruscos, dos gregos e de sua própria colônia Cartago, a qual acabou dominando as colônias fenícias da África, da Sicília e da Espanha." (HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43.)

A forma habitual de governo foi a Monarquia, geralmente com poderes limitados pelo Conselho dos Anciãos, cujos integrantes pertenciam às famílias ricas. A hereditariedade da Monarquia, contudo, não satisfazia aos interesses da poderosa classe de comerciantes, de proprietários de navios e de oficinas artesanais. O resultado foi a substituição das Monarquias hereditárias pelos Sufetas, em número de dois e escolhidos pelo Conselho dos Anciãos para exercer o poder temporariamente. 

Essas modificações políticas também foram apoiadas pela classe sacerdotal, proprietária de templos, de terras e de outras riquezas. Os sacerdotes fenícios integravam a aristocracia dirigente e eram recrutados entre algumas das famílias mais ricas da sociedade.

Nas cidades fenícias, a escravidão praticamente não existia, pois os escravos eram mais utilizados como mercadoria de comércio do que como mão-de-obra produtora.

A maioria da sociedade compreendia artesãos. portuários. trabalhadores domésticos e marinheiros, além de pequeno número de camponeses que, em servidão coletiva, cultivavam as terras vizinhas às cidades-Estados.

Por vezes, as cidades fenícias foram atacadas e pilhadas por exércitos de outras sociedades do Oriente Próximo. Algumas vezes, chegavam a ser conquistadas, mas acabavam recuperando a independência. Finalmente, foram integradas ao Império Persa e, posteriormente, a outros Impérios, como o de Alexandre, o Grande, e o Romano.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 42-5.
HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43
PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O legado da China

A dama Guoguo passeando a cavalo, Li Boshi

Tendo como berço a vasta planície sulcada pelas águas do Rio Amarelo, a civilização chinesa desenvolveu-se e expandiu-se numa imensa área da Ásia Oriental e Central não só recebendo contribuições culturais de outros povos, mas também transmitindo a muitas regiões o legado de uma brilhante civilização.

A obra conquistadora e colonizadora dos Han lembra a realização das legiões romanas. Da Coréia ao Vietnam, os legionários dos Han difundiram as ideias do confucionismo sobre a organização estatal: centralização do poder e regularização da administração. E com as concepções políticas seguiram todas as conquistas intelectuais e materiais: as obras de Confúcio e o arado de metal elevavam harmoniosamente o nível cultural dos povos submetidos. “Pela espada e pelo pincel, a China dos Han criou no Extremo Oriente e em todos os países de sua periferia, destinados a transformar-se em estados satélites, o direito administrativo, o direito público, o direito privado”.

O grande veículo da civilização chinesa foi a língua escrita, “língua de cultura e de administração do Anam, até a conquista francesa, da Coréia até a anexação japonesa, do próprio Japão nos primeiros séculos da introdução da civilização chinesa”. O chinês escrito influiu fortemente o vocabulário do idioma de todos esses países “que lhe pediram e frequentemente ainda pedem emprestados termos de cultura, forjando novas expressões com a ajuda de palavras chinesas da língua escrita, como nós o fazemos com o auxílio das palavras do grego antigo”.

Como sucedeu por ocasião da queda do Império Romano do Ocidente, a quebra dos laços políticos entre o Império Chinês e as regiões distantes outrora conquistadas não impediu o desenvolvimento das sementes de civilização lançadas: cresceram, tornaram-se árvores frondosas que ainda hoje frutificam.

Anotemos agora algumas realizações do gênio inventivo chinês que teriam enriquecido o patrimônio cultural do Ocidente.

A porcelana, a seda, a bússola, a imprensa, a pólvora e o papel, eis alguns progressos de nossa civilização que nos fazem pensar na China. O uso da agulha magnética entre os chineses parece remontar a muitos séculos antes de nossa era; mas somente foi introduzido no Ocidente por volta do século XII pelos árabes que o ensinaram aos normandos da Sicília, os quais, por sua vez, o transmitiram a genoveses e venezianos.

Os eruditos chineses discutem a época em que nasceu na China a arte de imprimir. Já nos primeiros séculos da nossa era, moldes de pedra eram utilizados para a impressão das firmas do imperador e dos príncipes. O ministro Feng-Tao, no século X da Era Cristã, conseguiu que fossem gravados em matrizes de madeira os clássicos chineses. No século seguinte, o ferreiro Pisching ou Pi-Sheng teria inventado os tipos móveis.

É difícil, entretanto, estabelecer uma relação entre a invenção chinesa e o aparecimento da imprensa no Ocidente ao findar a Idade Média.

Quanto ao papel, não há dúvida sobre a contribuição chinesa. O segredo da fabricação foi relevado em Samarcanda no século VIII por prisioneiros chineses, espalhando-se daí para o Ocidente por intermédio dos árabes.

A pólvora também nos foi transmitida pelos árabes, que vieram a conhecer o salitre “no curso de seu tráfico com a China e deram-lhe o nome de “neve chinesa”; trouxeram para o Ocidente o segredo da pólvora, que os sarracenos puseram em uso militar; Roger Bacon, o primeiro europeu que a mencionou, deve ter adquirido esse conhecimento no seu estudo dos árabes ou por meio dum viajante da Ásia Central, De Rubruquis”.

Mencionemos ainda, a título e curiosidade, outra contribuição da velha China: o método de resolução de equação do primeiro grau com uma incógnita, supondo o problema resolvido com uma solução por excesso e outra por falta, consta numa obra de matemática da época dos Han e passou à Europa com o nome árabe de “Al Khataayn”, isto é, “a chinesa”.

A história da China, desde milênios, não conhece solução de continuidade. Eis um fato importante a ser considerado quando se procura definir o legado da China antiga à civilização. As velhas tradições, as grandes sínteses doutrinárias filosófico-religiosas que no passado deitaram raízes na alma chinesa, continuaram durante toda a história a influir na mentalidade das gerações que se sucederam no velho país do Extremo Oriente. Tal asserção pode ser ilustrada com o exemplo do confucionismo que, durante milênios, tem sido o “código ortodoxo de toda a vida moral e espiritual e, apesar dos sistemas concorrentes, continua a ser o princípio diretivo da vida social. Desde a dinastia dos Han, a instrução pública baseia-se inteiramente sobre os ensinamentos de Confúcio, cujo alcance espiritual, malgrado os desvios que a fraqueza humana lhe imprimiu, continua integral. [...]


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 435-437.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O legado da Índia

Carregadoras de água no Ganges, Edwin Lord Weeks

A Índia foi, na Antiguidade e em épocas posteriores, uma fecunda encruzilhada de civilizações, um centro de intensa irradiação de ideias filosóficas e religiosas. [...] A Índia, pois, não só recebeu como também transmitiu influências culturais. [...]

O intercâmbio cultural entre o Vale do Indo e as velhas civilizações da Mesopotâmia já foi mencionado. Intercâmbio semelhante existiu com o império dos aquemênidas; essas relações com o Ocidente se intensificaram na época helenística. Escavações recentes efetuadas nas proximidades de Pondichéry atestam, de modo eloqüente, as ligações entre a Índia e o Império Romano. Ptolomeu fala-nos desses portos que se escalonavam do Mediterrâneo à China e os historiadores chineses informam-nos das visitas de embaixadores romanos à corte imperial, na época do Antonino Pio e de Marco Aurélio. Moedas romanas do tempo dos Antoninos, encomendadas no Oriente, confirmam esse intercâmbio que não terá sido exclusivamente comercial.

Os contatos da Índia com o Oriente foram igualmente intensos: a Ásia Central, a China, a Indochina, a Indonésia e o longínquo Japão sofreram a influência da cultura indiana. A expansão do budismo ilustra essa influência sobre a Ásia Oriental: a religião de Buda difundiu-se na China, na Coréia e no Japão. Ruínas grandiosas de santuários bramânicos e budistas falam eloquentemente do prestígio cultural da Índia em Java.

No terreno artístico, a Índia também irradiou sua influência no Oriente. Assim, por exemplo, “a arte greco-budista se propaga, de uma parte através da Ásia Central para a China e o Japão, de outra parte, na Índia e além, através da rota marítima, pela Insulíndia e a Indochina”.

No que tange a influência científica, registremos que da literatura científica da Índia dependem em sua maior parte as obras congêneres da Alta Ásia Antiga, do Tibet, da Mongólia, da Birmânia, Tailândia, Laos, Cambodge e Indonésia. “Estudada em si mesma e traduzida ou continuada em outras línguas, a literatura científica sânscrita desempenhou na Ásia Oriental o mesmo papel que na Europa e na Ásia Ocidental a literatura científica grega traduzida, imitada ou prolongada em siríaco ou em árabe”. Se, agora, voltarmo-nos para o Ocidente, surge uma interrogação: até que ponto teria a Índia influído na cultura da nossa Antiguidade Clássica? No terreno científico, parece inegável essa influência: “A comunicação de ideias indianas a certos meios médicos gregos da época da Coleção hipocrática e de Platão é atestada pela menção, no tratado “Das doenças das mulheres”, de um medicamento indiano, a pimenta, e de receitas médicas indianas”. Admitia-se desde a época de Aristóteles que, mesmo antes da expedição de Alexandre, intelectuais indianos teriam vindo à Grécia. Aristóxenes de Tarento, discípulo de Aristóteles, cita uma anedota em que aparece um sábio indiano visitando Sócrates.

Quanto às elucubrações filosóficas, é possível delinear-se um paralelo entre certos pontos do pensamento indiano e do pensamento grego. Mas, entre as especulações helênicas e as meditações indianas, existem abismos intransponíveis, o que torna temerárias quaisquer afirmações sobre uma influência direta destas sobre aquelas.

E quanto ao nosso patrimônio cultural, existirá alguma contribuição direta de civilização indiana? “Não podemos atribuir à civilização indiana dádivas diretas como as que recebemos do Egito e do Oriente Próximo; porque estas civilizações foram as imediatamente ancestrais da nossa, ao passo que as histórias da Índia, China e Japão correm em outro rumo e só agora estão começando a tocar e influenciar a corrente da vida ocidental. É verdade que, mesmo através da barreira do Himalaia, a Índia nos mandou grandes presentes, como a gramática e a lógica, a filosofia e as fábulas, o hipnotismo e o xadrez, e acima de tudo o nosso sistema decimal. [...] Entre as coisas mais vitais da nossa herança oriental estão os algarismos “arábicos” e o sistema decimal, ambos vindos da Índia através da Arábia. Os algarismos erradamente chamados arábicos aparecem nos “Editos de Pedra de Ashoka (256 a.C.), precedendo de um milênio à sua aparição na literatura árabe. Disse o grande e magnânimo Laplace: Foi a Índia que nos deu o engenhoso método de representar todos os números por meio de dez símbolos, cada um deles recebendo um certo valor de posição, assim como um certo valor absoluto; profunda e importante ideia essa, e de tão simples que nos parece hoje, ignoramos-lhe o verdadeiro mérito. A sua simplicidade, a grande facilidade que imprimiu a todos os cálculos, pôs a nossa aritmética no primeiro plano das invenções úteis; e apreciaremos duplamente a grandeza de tal descoberta se refletirmos que ela escapou ao gênio de Arquimedes e Apolônio, dois dos maiores homens produzidos pela Antiguidade”.

O que há de importante no legado da Índia antiga é que, no Oriente, ele é tão vivo hoje como no passado. Porque a civilização da Índia, ao contrário do que sucedeu às velhas civilizações do Oriente Próximo, não conheceu a morte. Resistiu durante milênios e apresenta-se hoje bem viva, com todos os seus defeitos e virtudes. Assim, por exemplo, a velha literatura transmitida durante séculos pela tradição oral revela-se hoje com o mesmo vigor e pujança com que influiu outrora as massas sedentas de solução para os magnos problemas da vida. A história da Índia não terminou na Antiguidade. Não existe, na península, solução de continuidade entre os tempos de Gandhi e de Nehru e a época de Buda, Jina ou de Açoka.


GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 397-399.

domingo, 31 de agosto de 2014

Atividades produtivas no mundo antigo oriental

A base da economia era, então, a agricultura e a criação de animais. No entanto, em algumas épocas, houve conflitos entre as duas atividades, representados pelo choque entre grupos pastores - povos ainda nômades - e os agricultores - povos sedentários. Muitas vezes, as inúmeras invasões sofridas pelos reinos organizados eram resultado desse processo.

Nas cidades, geralmente sob o controle de templos e palácios, desenvolvia-se o artesanato, destacando-se a cerâmica, a tecelagem e o trabalho com metais e pedras preciosas como os setores mais importantes, que cresciam desde longa data.

O artesanato de luxo, produzindo jóias, tecidos finos e ricos, era praticado principalmente na região Sírio-Palestina e particularmente entre os fenícios, que eram também os principais fornecedores para os grandes reinos e impérios.

No decorrer do I milênio a.C., generalizou-se a metalurgia, principalmente a do ferro, que conferiu aos povos que a dominavam uma extraordinária superioridade bélica, em virtude da produção de armas muito mais resistentes do que as feitas de bronze ou pedras. A utilização do ferro para o fim militar parece ter sido iniciada pelos hititas e, mais tarde, largamente utilizada pelos assírios.

Além das atividades produtivas, agropastoril e manufatureira, havia o comércio, outra atividade tipicamente urbana e controlada pelo Estado.

A vinculação entre o comércio e o governo teve seu ponto alto nos reinos semitas da região Síria-Palestina. Os reis eram, antes de tudo, grandes mercadores. O rei Salomão, dos hebreus, é o exemplo clássico.

Os maiores comerciantes da Antiguidade foram, porém, os fenícios, que eram os grandes navegadores do mundo antigo. Eles faziam um comércio verdadeiramente mundial (no contexto da Antiguidade), na medida em que integravam, pela navegação, toda a orla mediterrânea e traziam para os seus portos os produtos e as matérias-primas existentes nos mais diferentes lugares, inclusive grande quantidade de escravos. As cidades fenícias podiam, assim, suprir todo o restante da Ásia e até mesmo o Egito.


Transporte de cedro do Líbano. Baixo-relevo do Palácio de Sargão II, ca. 713-716 a.C., Dur Sharrukin , Assíria

Enquanto os fenícios se destacavam no mar, os arameus eram os grandes distribuidores terrestres. O comércio terrestre de longa distância foi beneficiado pela montagem dos grandes impérios, que construíram extensas vias de comunicação (estradas). Além disso, criaram formas de organização e controle (inclusive defesa contra salteadores) das grandes rotas e caravanas, capazes de transportar as mercadorias para os lugares mais distantes, até mesmo para a Índia ou a China, conforme comprovam escavações mais recentes. No Império Persa, por exemplo, foram construídas estradas, como a que ligava Sardes, na Lídia, a Susa, no Elam, com cerca de 2400 km de extensão.


Ataque assírio a uma cidade com arqueiros e um aríete com rodas. Baixo-relevo do Palácio de Nimrud, ca. 865-860 a.C.

Nos grandes impérios, a própria guerra era, muitas vezes, mais uma empresa comercial do que política ou militar. Algumas campanhas eram levadas a efeito tendo em vista os espólios (saques) de guerra. A conquista militar era também uma conquista econômica, representada pelo confisco dos bens e das propriedades das populações dominadas. Prisioneiros eram transformados em escravos e havia sempre a imposição de tributos, que os povos conquistados, ou seus soberanos, deveriam pagar periodicamente sob a forma de presentes aos conquistadores.


Representação de Hoshea, rei de Israel, pagando tributo ao rei Shalmaneser III da Assíria (2 Reis 17:3). Obelisco negro de Shalmaneser III de Nimrud, ca. 827 a.C. 
Foto: Steven G. Johnson

De certo modo, a guerra substituía o comércio e era a forma, por excelência, de expropriação de riquezas. A formação de um Império Assírio, rico e poderoso, por exemplo, foi o resultado e não a motivação inicial das guerras.

A guerra também tinha um sentido econômico na medida em que beneficiava a classe dos militares: os soldados, além de receberem parte do saque, passaram a ser recompensados com a propriedade da terra e de escravos. Além disso, muitos militares passaram a integrar os privilegiados quadros de altos funcionários do governo.

Mas mesmo o comércio, propriamente dito, era vinculado ao Estado.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 77-78.


NOTA: O texto "Atividades produtivas no mundo antigo oriental" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 6 de julho de 2014

Influência da América sobre a Europa

Da América chegaram à Europa diversas plantas novas, que deviam contribuir para transformar a civilização européia, o milho, a batata, o feijão, que, até meados do século XIX, foi o único legume que na Europa nunca sofreu os ataques de praga, pois sua larva não o acompanhara na travessia do Atlântico, o morando graúdo, o tomate, a quina, o amendoim, que se desenvolveu em seguida na África tropical, a coca e finalmente um narcótico leve, o tabaco. Já no século XVII, entre seus intoxicados, gozava o tabaco a fama de afastar as preocupações, de franquear os condutos e facilitar a circulação dos humores, de preservar dos resfriados, de desopilar o baço etc. Em muitos países era um monopólio do Estado e fonte de apreciável recurso fiscal.

Pipestone Quarries, Catlin

Sobretudo, a América alterou profundamente a vida européia com seus metais preciosos e sua repartição, por meio do grande comércio marítimo, entre as sociedades européias ainda apoiadas sobretudo na terra e na agricultura. [...] Lembremos simplesmente que, por sua influência sobre o movimento dos preços, os metais preciosos da América ritmavam toda a vida econômica, social, política e, por intermédio desta, toda a vida intelectual e religiosa da Europa nos séculos XVI e XVII. Toda a vida da Europa ficou em função da atividade das minas da América.

O conhecimento dos índios americanos apenas lentamente difundiu-se e influiu no pensamento. Tomemos o exemplo da França. Inicialmente, os homens do século XVI estavam mal informados a respeito das descobertas. Informações orais chegam com a volta das expedições. Apresentavam um caráter prático, acima de tudo, e não ultrapassavam o setor das cidades litorâneas. Para além recebiam-se apenas vagos rumores. Maior influência tiveram os índios que todos os capitães, nomeadamente, desde 1504, Jacques Cartier e Villegaignon, levaram consigo para provar a veracidade de seus relatos. Em 1550, na festa brasileira dada por ocasião da entrada de Henrique II em Ruão, figuravam 50 Tupinambás e 250 marinheiros capazes de representar o papel de selvagens. Em 1557, Henrique II distribuiu, aos grãos-senhores, indígenas enviados por Villegaignon. Em 1562, em Ruão, três Tupis-Guaranis foram presenteados a Carlos IX. Montaigne tentou conversar com eles por meio de um intérprete. Em 1564, quando da entrada do rei em Troyes, figuravam no desfile os representantes de diferentes nações selvagens. Muitos índios ficaram na França, integraram-se na civilização cristã pelo batismo, na sociedade mediante o casamento. O filho do Rei Arosca, o brasileiro Essonerico, fixou-se na Normandia, herdou o nome, títulos e parte dos bens de seu padrinho Binot Paulmier de Gonneville. Tais fatos provam a aptidão intelectual dos índios para assimilar a civilização européia e testemunham a favor da unidade da espécie humana e de seu futuro. Isto não significa que, se os índios viessem em grande número, a sociedade branca deixaria de ter reflexos de defesa contra estes concorrentes às herdeiras, às terras e títulos, e que esta mesma sociedade não segregasse as raças. De qualquer maneira, estes índios divulgavam certo conhecimento relativo à sua região de origem.

Narrativas de viagem aparecem a partir de 1515. Mas não permitem distinguir claramente que se tratava de um continente novo e as assertivas pareciam confirmar, para o leitor, as narrativas da Idade Média. Jacques Cartier, provavelmente, sem se dar conta disso, sugeriu a Donnacona as afirmativas deste sobre as pessoas que não comem, só têm uma perna e voam de árvore em árvore. Em 1575, o cosmógrafo Thevet declarava que, na América do Sul, havia homens que atingiam 12 a 15 pés de altura. Descrevia, baseado nos companheiros de Magalhães, um animal com cara de criança que apenas se alimentava de vento. E chegava a afirmar ter possuído um destes animais, durante um mês. Tais relatos não exerceram qualquer influência sobre os escritores. O público preferia as lendas medievais ou as descrições do Império Turco e das Índias Orientais. Publicou-se o dobro das obras e dez vezes mais brochuras sobre os turcos, que então ameaçavam a Europa e a cristandade, do que sobre a América.

Os franceses interessaram-se mais pela América quando os projetos de Coligny a fizeram entrar nas lutas religiosas. Mas procuravam nela menos conhecimentos do que material para polêmica e continuaram a interessar-se ainda mais pelo Império Turco e pela Ásia. Entre 1580 e 1609, editam-se 80 brochuras sobre os turcos, 100 sobre os demais asiáticos e 40 sobre a América. Não obstante, as cartas de Nicolas Barre, companheiro de Villegaignon (1556), as obras do franciscano André Thevet (1557-1584), a Viagem, publicada em 1578, do pastor Jean de Léry, que se demorou dez meses na Ilha dos Franceses em 1557-1558, vulgarizaram as informações dadas pelos intérpretes, 20 a 25 franceses que haviam adotado os costumes indígenas e os apresentavam de maneira favorável. Obnubilados pela lenda da idade do ouro, desejosos de dar uma lição a seus compatriotas considerados maus cristãos, os humanistas buscaram nestes escritos, nos de Las Casas e de sua progenitura espiritual, nas conversas, falseadas pelos intérpretes, que puderam manter com os índios levados à França, os elementos da lenda do “bom selvagem”.

Montaigne é o mais notável desses autores. No capítulo “Do Costume”, utiliza os selvagens para mostrar as contradições humanas, escarnecer da família, da propriedade e da religião, declarar os costumes e a moral como outros tantos preconceitos. Recusa-se a ver que não existem contradições, mas simplesmente reações naturais a situações diferentes.

No “Dos Canibais”, declara a sociedade selvagem como a mais pura, por haver permanecido mais próxima das leis naturais. Escreve que os índios não se servem de vinho, que não praticam o comércio, que são dados ao ócio, que dançam para se distrair, que suas guerras são desinteressadas e empreendidas com o objetivo de conquistar glória. Esquece, é claro, sua tendência à embriaguez, sua sodomia, é indulgente para com seus incestos e desculpa sua antropofagia institucional, sob o fundamento de que os europeus, levados pela paixão, chegaram a queimar vivos os seus inimigos. Para ele, os selvagens deveriam servir-nos de modelos: nós é que somos os bárbaros.

O “bom selvagem”, este personagem mítico, que vive em liberdade, seguindo sua natureza, guiado por seu prazer, ocioso, despreocupado inocente, sem malícia, sem propriedade, sem governo, alegre, feliz, estava destinado a uma espantosa fortuna. Caber-lhe-ia abrir caminho para os libertinos Pierre Charron, La Mothe Le Vayer, contribuir para o abalo dos espíritos e para a crise do século XVII, inspirar em seguida os “filósofos” e os anticolonialistas do século XVIII, para triunfar com Jean-Jacques Rousseau. A corrente de ideias provenientes da América contribuiria para orientar a civilização européia, movida pelo ouro e pela prata americanos.


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 141-144. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da América sobre a Europa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.